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A vacinação é um bem coletivo que pertence a humanidade. Ela pode ser até vendida em prateleiras, mas os governos do mundo não podem negá-la às gerações atuais e as futuras gratuitamente.

Efson Lima || efsonlima@gmail.com

O Brasil tem um histórico polêmico quando o assunto é vacinação. Talvez, o mais marcante seja a Revolta da Vacina, em 1904, no Rio de Janeiro, quando a vacinação foi proposta de forma obrigatória pelo médico-sanitarista Osvaldo Cruz em favor da modernização do Rio de Janeiro, que era a capital do país. Somente agora diante dos embates para a vacinação massiva em face do coronavírus que o tema é relembrado. E quem diria, uma parte considerável da população mesmo diante do risco de morte e das sequelas da COVID-19 teme em tomar a vacina.

A experiência humana com a vacina é datada do século XVIII, foi o médico inglês Edward Jenner que adotou a técnica da vacina para prevenir a contaminação por varíola. A varíola é considerada a primeira doença infecciosa que teve sua erradicação alcançada por meio da vacinação em massa.

Quiçá, seja justificável, na virada do século XIX para o XX, o receio sobre a vacinação, afinal, o debate sobre cientificismo e a própria afirmação da ciência eram perenes e as dúvidas sobre a produção de vacinas e fármacos eram elevadas. Mas em pleno século XXI, depois de uma longa trajetória das vacinas e os protocolos clínicos, a “explicação” para tamanha resistência esteja pautada na polarização em torno de uma ideologia fundada na pequenez humana. As explicações podem ser várias para a recusa em tomar a vacina, mas nenhuma delas encontra no plano da moralidade justificativa plausível para torcer contra o sucesso das vacinas e muito menos que as autoridades não assegurem com eficiência o acesso ao serviço de humanização e que a vacina não esteja gratuita ao povo. É dever do gestor público e das pessoas públicas sinalizarem a favor da vacinação.

O acesso à vacina deve ser pleno, que seja rápido para que possa respeitar os grupos prioritários e os indivíduos que queiram tomar a vacinar possa fazer em um prazo razoável. O governo federal não pode com base na estrutura e na operacionalização do maior programa nacional de humanização público do mundo desdenhar e apostar nos mais de 25 mil postos de vacinação e na experiência do SUS, corremos risco de grave agitação social.

Estamos diante do maior desafio de nosso tempo. A sociedade conseguiu deter duas guerras mundiais, acalmou as potências com suas ogivas nucleares e convive com os dissabores da crise imobiliária-financeira de 2008, mas não temos certeza se as sequelas física, psíquica e financeira de uma geração que enfrenta a pandemia de COVID-19 será amenizada. A vacinação é um bem coletivo que pertence a humanidade. Ela pode ser até vendida em prateleiras, mas os governos do mundo não podem negá-la às gerações atuais e as futuras gratuitamente.

Efson Lima é doutor em Direito (UFBA), especialista Gestão em Saúde (Fiocruz), professor universitário e advogado.