Estátua de Jorge Amado em Ilhéus em frente à Casa de Cultura, no Centro Histórico || Foto Divulgação
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Diante da veracidade do documento, assentado em 11 de março de 1931, rogo aos ilheenses de boa índole, que se abstenham da apropriação de Jorge Amado, que por direito pertence a Itabuna. Por outro lado, de papel passado, os verdadeiros conterrâneos passarão a admiti-lo como um deles, uma homenagem pra lá de interessante e muito justa.

 

Walmir Rosário

Há dias passados me encontrava em Itabuna visitando amigos nos bares mais frequentados da cidade, oportunidade que tive de rever o amigo e vereador Ronaldo Geraldo dos Santos, o Ronaldão. Após os cumprimentos de praxe, me prometeu um presente: a garantia de que Jorge Amado nasceu em Itabuna, mimo esse de papel passado, assinado em cartório.

Por si só, a notícia não teria nada de interessante, pois o próprio Jorge Amado garantiu e jurou de pés juntos que era itabunense, declarando em todas as entrevistas ser um Papa-jaca autêntico. Mas isso aconteceu muitos anos após Ilhéus ter se apropriado, não só do escritor, como também da figura humana e seus personagens, sem qualquer documento comprobatório.

Para os ilheenses, o que importava era o tempo em que Jorge Amado morou em Ilhéus, escreveu sobre a cidade, suas figuras humanas, muitas das quais estereotipadas, a exemplo dos cacauicultores, tudo registrado em livros. Foi uma expropriação violenta, sem respeitar os documentos oficiais, a exemplo da certidão de nascimento guardada em livro apropriado em cartório.

Eu até tenho a impressão que o próprio Jorge Amado tenha “surfado nessa onda”, motivadora da celeuma entre ilheenses e itabunenses, agravada com a publicação do livro Terras do Sem-fim, em que sugeria adjetivos não condizentes com os itabunenses. Sem querer meter minha colher em prato alheio, diria até sinônimos desairosos.

Embora sempre respeitado pelos itabunenses, os fatos levam a crer que Jorge Amado não era um amigo bem chegado, daqueles que convidamos pra ir à nossa casa fazer uma farra, devidamente forrada com uma farta feijoada, um churrasco. Alguns mais afoitos não mediam as palavras em considerá-lo um vira-casaca, por se tornar um Papa-caranguejo empedernido, como dito àquela época.

Uma rusga atoa, sem pé nem cabeça, de uma população com um ilustre conterrâneo. Tanto era assim que nunca foi desmerecido e sempre reconhecido pelas suas obras. Mas o nó górdio da questão estava na naturalidade ensovacada pelos ilheenses, sem qualquer razão, pois no ato do nascimento de Jorge Amado, Itabuna já se encontrava emancipada há longos dois anos e livre de qualquer amarra.

Dias depois, meu amigo e testemunha da promessa do vereador Ronaldão, o advogado José Augusto Ferreira Filho, me liga informando que enviara para o meu WhatsApp a certidão passada em cartório e assinada pelo Tabelião Ottoni José da Silva. E isso em 02 de março de 1944, afirmando que Jorge Amado nasceu na Fazenda Auricídia, em Ferradas (Itabuna), em 10-08-1912.

As diferenças entre os itabunenses e seu laureado conterrâneo já chegaram à delegacia quando um busto de Jorge Amado foi depredado em Ferradas, no século passado. Em outra feita mais recente, uma estátua do escritor foi alvo de tiros, além de pedradas, na calada da noite, por pessoas embriagadas, apenas pelo fito de danificar um equipamento público. Coisas do passado!

Lembro-me que no século passado, por volta do início da década de 1990, cheguei a elaborar reportagens para o Correio da Bahia, sobre a possível renomeação da principal avenida de Itabuna, a Cinquentenário, que passaria a ser nomeada Jorge Amado. A campanha encetada pelo jornalista e escritor Hélio Pólvora, não ganhou ampla adesão por ser ano de eleições municipais.

Acredito que essa homenagem teria selado, definitivamente, a paz, a amizade entre os itabunense e seu filho ilustre, mas não chegou a sair do papel. Em 1994, Jorge Amado lança A Descoberta da América Pelos Turcos, uma verdadeira homenagem a Itabuna. O livro foi considerado bem-vindo pelos itabunenses, entretanto faltaram eventos dignos no lançamento da obra na cidade.

A Certidão de Nascimento para eliminar a dúvida

Se antes essas diferenças eram levadas a “ferro e fogo” hoje provocam apenas bons debates. E não é pra menos, pois no livro 1-B destinado aos registros de nascimento, à folha 231, consta o termo nº 516, do nascimento de Jorge Amado, com toda a filiação, acompanhados dos nomes dos avós paternos, maternos além de testemunhas.

Diante da veracidade do documento, assentado em 11 de março de 1931, rogo aos ilheenses de boa índole, que se abstenham da apropriação de Jorge Amado, que por direito pertence a Itabuna. Por outro lado, de papel passado, os verdadeiros conterrâneos passarão a admiti-lo como um deles, uma homenagem pra lá de interessante e muito justa.

De minha parte, prometo adquirir um kit Papa-Caranguejo completo (camisa, caneca e protetor de lata de cerveja), junto às organizações “Lá ele!”. E para tanto deixo registrado o meu pedido a Afonso Dantas, convocando, ainda, o vereador Ronaldão, Augusto Ferreira, José Carlos (Beca) e outros parceiros de mesa de bar para selarmos o armistício definitivo entre Papa-Jacas e Papa-Caranguejos.

Walmir Rosário é radialista, jornalista e advogado, além de autor de livros como Os grandes craques que vi jogar: Nos estádios e campos de Itabuna e Canavieiras, disponível na Amazon.

Jornalista e escritor Ederivaldo Benedito numa de suas participações na Flimd 2024
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Nas últimas oito décadas a obra literária do escritor itabunense Jorge Amado é reconhecida e reverenciada em todo o mundo, mas é ignorada em sua terra natal, no sul da Bahia, pelos seus conterrâneos, afirmou o jornalista Ederivaldo Benedito em sua participação na II Feira Literária do Colégio Estadual Manoel Devoto, em Salvador.

Bené, que também é itabunense, participou da II Flimd, apresentando o trabalho Tendas dos Milagres: Identidade, religiosidade e interação social na obra de Jorge Amado”, sobre uma das obras mais famosas do escritor grapiúna. “Apesar de ser reconhecido e reverenciado nacionalmente, estranhamente Jorge não é lembrado em sua terra natal”, afirmou.

Para Ederivaldo Benedito, Itabuna ainda não valorizou o legado legado literário de Jorge Amado, como merece. “A comunidade itabunense precisa rever seu relacionamento com a obra amadiana”, declarou Bené.

CONTRADITÓRIO E IRÔNICO

Durante a Flimd, Bené ressaltou um aspecto contraditório e irônico: mesmo sem ter lido os 49 livros do escritor itabunense, um grande número de seus conterrâneos o criticam duramente. “Itabuna tem uma dívida histórica para com o seu filho mais ilustre. Estranha e historicamente, Itabuna nunca amou Jorge. O filho mais ilustre das terras do cacau nunca foi amado pelos seus conterrâneos”, garantiu.

Flimd teve grande participação da comunidade escolar

“Jorge Amado, que abordou em suas obras as realidades sociais e políticas do sul da Bahia, foi um crítico ferrenho das desigualdades e das mazelas sociais, tendo sua escrita muitas vezes ligada à sua militância política. O fato de ter sido comunista e ter denunciado as injustiças sociais em seus romances não foi bem aceito por um segmento da sociedade local”, lembrou Bené, referindo-se à forte presença de coronéis do cacau e de jagunços no sul da Bahia, no início do século passado.

“É momento de Itabuna olhar para o passado e reconhecer seus valores. A Literatura de Jorge Amado precisa ser revalorizada. Ela é, essencialmente, um reflexo da nossa própria história”, concluiu.

O incidente com o Boeing da Vasp em Ilhéus || Reprodução Instagram/José Nazal/Acervo Carlos Spagat
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Era princípio de noite daquele 15 de abril de 1988, quando um Boeing da extinta Vasp pousava no Aeroporto Jorge Amado, em Ilhéus, sul da Bahia. Deveria ser um procedimento tranquilo, porém a aeronave pousou adiante do ponto, relembra o memorialista e fotógrafo José Nazal.

Resultado: o Boeing aquaplanou e resvalou na mureta da margem do Rio Santana, na Baía da Sapetinga.

O próprio José Nazal publicou sequência de fotos de Carlos Spagat em seu perfil no Instagram (veja aqui).

E relembra: – Hoje, 15 de abril de 2024, faz 36 anos que um Boeing da VASP pousou adiante do ponto e aquaplanou, cavando uma vala no stop way da cabeceira 11, batendo na mureta na margem do Rio Santana.

A aeronave somente pôde ser retirada dois dias depois, ao meio-dia do domingo (17).

Foi o único acidente com impacto nas operações do aeroporto desde aquele 15 de abril.

Em tempo: Aqui, um registro importante. Por sua contribuição à história e ao desenvolvimento urbanismo do sul da Bahia, Nazal receberá, no próximo dia 25 de abril, o título de Doutor Honoris Causa, concedido pela Universidade Estadual de Santa Cruz (Uesc).

Ruy Póvoas (à esquerda) presta homenagem ao amigo André Rosa, falecido neste domingo (7)
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André trouxe Rosa, por sobrenome, a rainha das flores. No percurso de sua existência, muitas vezes não navegou num mar de rosas, tendo em vista os inúmeros desafios que teve de enfrentar. Cremos, porém, que a partir de agora, um mar de bem-aventuranças lhe trará o descanso merecido.

 

Ruy Póvoas

Quatro caminhos no meu percurso, nesta existência, se cumprem no dia de hoje. O entrelace se desfaz com a morte de André Rosa. Meu amigo, meu colega, meu confrade, meu irmão de fé. A quais caminhos me refiro? Éramos parceiros na Universidade/UESC (André era professor e pesquisador); na Literatura (André era escritor e poeta); na Academia de Letras de Ilhéus (André era membro efetivo da ALI) e no exercício da prática de uma religião de matriz africana (André era Tata Cambone de Matamba, do Terreiro Tombenci Neto).

Tais viveres e fazeres nos enlaçaram por muitos anos a fio. Agora, quando Mercúrio retroage no nosso céu, Matamba mandou buscar André e Nanã Borokô o leva de volta ao seio da Mãe Terra. E como fico eu aqui? Aliás, como ficamos nós?

Cumpre volvermos as vistas para seus escritos e seus relatos de estudos e pesquisas. Cumpre mergulharmos com a atenção devida para seus versos extravasantes de intuição artística. Cumpre continuarmos zelando pela ALI, nos devidos cuidados de sustentação e lides de nossa Academia. Cumpre, especialmente a mim, continuar na luta pela conquista de lugar no mundo por partes do povo de santo.

Da última vez que nos vimos, 14 de março deste ano, a nossa ALI vivia momentos de alegria por estarmos iniciando mais um ano de atividades acadêmicas. Vários participantes fotografaram o evento a valer. Em muitas fotos, André e eu saímos juntos. E quando a onda de sentimento amainar, voltarei àquelas fotos que ficaram, representações que são do último momento de uma caminhada que só nos deu contentamento e certeza de que estávamos no caminho certo.

Para nós, gente que pratica a fé de matriz africana, ainda veremos você na intimidade de nossos rituais, quando em breves dias, celebraremos o axexê. Você se vai enquanto criatura encarnada, mas ficará conosco, para o resto de nossas vidas. E isso é possível, sim, porque ficam conosco, seus escritos, seus poemas, seus livros, os resultados de suas atividades na ALI. Ficam, sobretudo, partes de seu axé anexado à comunidade do Terreiro Tombenci Neto.

André trouxe Rosa, por sobrenome, a rainha das flores. No percurso de sua existência, muitas vezes não navegou num mar de rosas, tendo em vista os inúmeros desafios que teve de enfrentar. Cremos, porém, que a partir de agora, um mar de bem-aventuranças lhe trará o descanso merecido.

E de onde você estiver, rogue por nós, seus amigos, camaradas, colegas e irmãos até que chegue nosso tempo também.

Itabuna, 7 de abril de 2024.

Ajalá Deré (Ruy Póvoas) é babalorixá do Ilê Axé Ijexá.

Clóvis Aquino (à direita, embaixo) e família
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Após muitos anos, torcedores e adversários se mostram saudosos com o futebol praticado pela Associação, um elenco digno de respeito e que se perpetuou na história do esporte itabunense.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Walmir Rosário 

A cada dia o futebol contagiava os itabunenses e crescia em bons jogadores e torcida. No final da década de 1930, surge a equipe Associação Athletica Itabunense (AAI), considerado o “bicho-papão” do futebol. A proposta era apresentar um futebol amador de forma organizada, com técnica suficiente para ganhar partidas e campeonatos seguidos, com um elenco de fazer inveja aos adversários.

E a Associação, como carinhosamente era chamada, aterrorizava os adversários, principalmente pelo nível dos jogadores, em que titulares e reservas possuíam o mesmo potencial. Saía um entrava o outro e o time não caia de produção. Para isso, escolhiam uma zaga vigorosa, um meio de campo técnico e um ataque arisco, composto por jogadores que se movimentavam muito, sempre em direção do gol adversário.

A contratação de um jogador se baseava não apenas no talento com a bola. Eles tinham que primar pelo coletivo, fazer se respeitar dentro e fora de campo e cumprir as determinações técnicas para manter a tática imposta pelo técnico, entre eles, Costa e Silva. No período compreendido entre 1939 e 1946 a Associação Athletica se impôs no futebol de Itabuna e região se tornando pentacampeã.

Certa feita, numa entrevista concedida aos jornalistas José Adervan, Ramiro Aquino, Antônio Lopes e Walmir Rosário, no Jornal Agora, um dos remanescentes da Associação, o engenheiro agrônomo e produtor rural Clóvis Nunes de Aquino, lembrou sua passagem pela equipe. E ele apresentou algumas cadernetas, nas quais registrava, fielmente, todos os dados das partidas da Associação.

E Clóvis Aquino era um jogador fenomenal, um centroavante com talento e vigor suficiente para marcar os gols nas vitórias da Associação. Os seus predicados futebolísticos foram descobertos quando ainda estudante de agronomia na conceituada Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq), em Piracicaba (SP). Mesmo assim, amargava jogar no segundo quadro da Associação e ser reserva do também craque Juca Alfaiate.

Embora não gostasse da reserva, mostrava seu futebol ao entrar em campo, no primeiro ou segundo quadro, encantando os torcedores. E Clóvis Aquino recordava com alegria sua participação como titular da equipe principal em 1946, ano em que disputou o campeonato como dono da posição, o que lhe valeu o título de pentacampeão itabunense. Tudo registrado em suas cadernetas.

E as notícias do escrete “matador” chegam à capital baiana e a diretoria dos times de Salvador se interessam em excursionar no Sul da Bahia, notadamente para jogar contra a famosa Associação Athletica Itabunense. No campo da Desportiva jogavam de igual para igual, e na maioria das vezes, a Associação mostrava o seu magistral futebol, ganhando as partidas, sem se importar com os adversários.

Mais experta foi a Associação Desportiva Guarany, que veio ver de perto os propalados craques de Itabuna e resolveu levar o time inteiro para Salvador. Dos titulares, apenas Juca Alfaiate não aceitou a proposta e continuou na Associação. Mesmo assim, o Guarany contratou o segundo reserva de Juca, Elísio Peito de Pomba. Pela primeira vez, a equipe do Guarany se sagrou campeã baiana em 1946, único de sua história.

Alguns torcedores da Associação creditam o declínio da Associação à perda dos jogadores contratados pelo Guarany, a exemplo de Tombinha, Nivaldino, Amaral, Bolívar, Bacamarte, Quiba, Elísio Peito de Pomba, Elvécio, Tuta, Mangabeira, Juca e Zezé, sendo que estes três últimos se transferiram para o Flamengo local. Elísio Peito de Pomba foi o artilheiro do Guarany com 12 gols marcados no campeonato.

A Associação Athletica Itabunense possui uma história gloriosa, o que é inegável até pelos adversários. Se chegava a notícia de um grande jogador, a diretoria não media esforços para contratá-lo e assim formou a equipe mais temida do interior da Bahia. De início, um time de elite, no qual só jogavam atletas brancos; com o passar do tempo, passaram a aceitar pessoas de cor negra, sendo o primeiro deles, o zagueiro Ruído, de Jequié.

Nas cadernetas de Clóvis Aquino estão anotados jogadores famosos da Associação Athlética Itabunense (AAI) como Balancê, Niraldo, Mota e Victório na posição de goleiros, Bolivar, Álvaro, Bacamarte, Dircinho, na posição de zagueiros, na chamada linha intermediária Amaral, Mangabeira, Zecão, Helvécio e ainda os atacantes Tombinha, Puruca, Juca, Clóvis, Nivaldino, Tuta, Zezé e Nandinho.

E após muitos anos, torcedores e adversários se mostram saudosos com o futebol praticado pela Associação, um elenco digno de respeito e que se perpetuou na história do esporte itabunense. Alguns remanescentes daquela época não pensam duas vezes em escalar as equipes da Associação, com titulares e reservas, além dos gols e momentos importante de cada partidas que jogavam.

E a Associação permanece na saudade dos itabunenses.

Walmir Rosário é radialista, jornalista, advogado e autor d´Os grandes craques que vi jogar: Nos estádios e campos de Itabuna e Canavieiras, disponível na Amazon.

Capela de Nossa Senhora Santana está ameaça pela erosão de rio || Foto Iphan
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O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional  atestou, em visita a Ilhéus, a necessidade de intervenções de emergência para conservar a Capela de Nossa Senhora de Santana, localizada no Rio do Engenho, na zona rural do município. Ao PIMENTA, o Iphan disponibilizou relatório fotográfico elaborado pela arquiteta Laura Lima de Sousa. Especialista em Restauro de Arquitetura e Gestão de Restauro, a assessora técnica do Instituto visitou o sítio histórico no mês passado. A autarquia federal também emitiu esclarecimentos sobre a história da Igreja, tombada como patrimônio nacional desde 1984.

A ameaça da erosão do Rio Santana ao patrimônio histórico foi reportada em matéria recente do PIMENTA, com informações do secretário de Cultura de Ilhéus, Geraldo Magela, sobre a vistoria do último dia 21. No relatório, a arquiteta constata que a base da estrutura da Capela precisa de consolidação e reforço estrutural. A constatação acompanha a nona imagem do documento (veja abaixo).

Base da estrutura da Igreja precisa de consolidação e reforço, segundo Iphan

O relatório também corrobora a movimentação do terreno em direção ao Rio Santana, o que causou danos à base do cruzeiro de alvenaria construído em frente à Capela (imagem 10).

Relatório assinala movimento da terra sob o cruzeiro da Capela || Iphan

A movimentação do terreno foi observada nas quatro últimas visitas técnicas do Instituto. “Assim, é necessária a realização de obras emergenciais de contenção da área, cuja proposta de intervenção deve ser previamente aprovada pelo Iphan”, informou a Autarquia ao PIMENTA.

Qualquer intervenção deve ser precedida de diagnóstico e projeto estrutura feito por engenheiro estruturalista, acrescenta o Iphan. Serviços que demandarem escavações no terreno deverão ser acompanhado por arqueólogo e da respectiva Ficha de Caracterização de Atividade, conforme a Instrução Normativa Iphan nº 1/2015.

O relatório também aponta carência de serviços dentro da Capela, mas atesta que o piso e o telhado, por exemplo, apresentam estado regular de conservação.

RESPONSABILIDADE

Relatório também recomenda intervenções dentro da Capela || Iphan

O Instituto esclarece que a responsabilidade pela conservação das edificações tombadas é de seus proprietários e/ou responsáveis, devendo estes proceder às obras e serviços necessários, após a aprovação já mencionada. Atualmente, o imóvel pertence à família Maranhão. Maria Aparecida Maranhão Dias afirmou, em entrevista recente à TV Santa Cruz, que a família não dispõe de recursos para custear a reparação da Igreja.

No esclarecimento ao PIMENTA, o Iphan relembra que, em 2012 e 2013, executou obras emergenciais e serviços de restauração na Capela, no valor total de R$ 297.032,40. Segundo o Instituto, à época, a Igreja “apresentava péssimo estado de conservação e risco de arruinamento”.

Os serviços executados compreenderam: a substituição da cobertura; a revisão dos pisos e do barroteamento; a recuperação das alvenarias e esquadrias; a imunização dos elementos de madeira; a pintura geral do edifício; a revisão das instalações elétricas e hidrossanitárias; e a restauração das imagens sacras.

Nesse momento, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional não tem previsão orçamentária para reformar a Capela de Nossa Senhora de Santana. Ao PIMENTA, o secretário de Cultura de Ilhéus, Geraldo Magela, disse que a Prefeitura busca parceria para a elaboração do projeto estrutural. Os dois parceiros potenciais são a Universidade Estadual de Santa Cruz (Uesc) e a Bahia Mineração S/A (Bamin), segundo ele.

CONTROVÉRSIA

Capela-mor do templo Católico || Iphan

O site do Iphan e o processo de tombamento da Igreja informam que ela foi construída no século 17. Pesquisadores locais divergem, a exemplo do próprio secretário Geraldo Magela, que é historiador e organizador informativo Engenho de Santana. Segundo o texto, o templo foi erguido ainda na primeira metade do século 16, em 1537. Considerando essa data, a Capela é a quinta mais antiga do Brasil.

Para o memorialista, fotógrafo e ex-vice-prefeito José Nazal (Rede), também ouvido pelo PIMENTA, é mais provável que a Igreja tenha sido construída depois, mas ainda no século 16. Ele informa que o inventário do governador-geral Mem de Sá, de 1572, já apontava a existência da Capela.

Sobre a controvérsia, o Iphan sustenta que não teve acesso a qualquer pesquisa demonstrando que a capela tenha sido construída no século 16. “Porém, é possível que estudos recentes tenham encontrado indícios ou documentos que confirmem tal tese”.

Imagem lateral da praça que será reinaugurada no final da tarde de hoje || Foto PMI
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A Praça Santo Antônio guarda um pouco da história e da geografia do mais populoso município do sul da Bahia. Encravada na região central de Itabuna e em frente ao Santuário Santo Antônio, a praça traz o busto do fundador da velha Tabocas, Firmino Alves, e a planta da cidade, além de ser considerada o seu marco zero. Agora, após obras de reforma e requalificação, ganhou assentos e piso novos. Será reinaugurada às 17h desta quinta-feira (10) pelo prefeito Augusto Castro (PSD).

Segundo a secretária de Infraestrutura e Urbanismo, Sônia Fontes, a reforma incluiu colocação de piso tátil, troca do meio-fio, lavagem do granito bruto, limpeza do busto do comendador Firmino Alves e substituição de algumas letras em bronze que faltaram na identificação do fundador da cidade de Itabuna pelo artista plástico Renart. A grama foi substituída por plantas ornamentais em um paisagismo moderno.

Por ser um espaço histórico, diz a secretária Sônia Fontes, a Praça Santo Antônio não sofreu mudanças em sua estrutura durante o serviço. “Quando se valoriza um espaço como aquele, se resgata [recupera] um pouco da cultura, da tradição e da própria história do município”, disse.

HISTÓRIA

A Praça Santo Antônio foi uma das primeiras construídas em Itabuna, antes mesmo da abertura da Avenida do Cinquentenário. De acordo com o Centro de Documentação e Memória Regional da Uesc (Cedoc), a praça foi construída por volta de 1910, antes da Cinquentenário e praticamente na fundação de Itabuna e quando se erguia o santuário

Edição especial comemora os 200 anos da Independência do Brasil na Bahia || Reprodução
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Uma edição especial do Diário Oficial do Estado foi publicada, neste domingo, 2 de Julho, para comemorar os 200 anos da Independência do Brasil na Bahia. A edição traz sete artigos inéditos abordando a importância história do bicentenário da data maior do estado.

Segundo o governo baiano, a publicação extraordinária integra o Plano de Ações do Governo do Estado da Bahia em celebração ao Bicentenário da Independência do Brasil na Bahia. Os textos são assinados pelo presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, pelo do governador Jerônimo Rodrigues, e pelos secretários estaduais Bruno Monteiro (Cultura), Adélia Pinheiro (Educação) e Felipe Freitas (Justiça e Direitos Humanos). Há ainda artigos assinados pelo presidente da Associação Bahiana de Imprensa, Ernesto Marques, e pela mestre em História pela UFRB, Tamires Costa.

Com o título A importância do Dois de Julho de 1823 para a Independência do Brasil, o presidente Lula reafirma a necessidade deste dia histórico ser recuperado como data nacional. “É uma data que devia ser mais conhecida e celebrada em todo o país, pelo inegável significado histórico na construção do Brasil como nação soberana. E lembrado sempre também porque é resultado da mobilização popular, de uma luta que é contínua”, ressalta. O presidente participa na manhã deste domingo (2) das celebrações pelo Bicentenário, percorrendo o tradicional cortejo do 2 de Julho, até o Pelourinho.

O governador Jerônimo Rodrigues, em seu texto, reforça a expressiva participação popular nas lutas por igualdade, justiça e liberdade, e a importância de se preservar a história e a memória da Independência do Brasil na Bahia na reafirmação da democracia no país. “Com a otimista expectativa de que este Diário possa contribuir para afirmar, ou mesmo fazer germinar, as bases cognitivas e afetivas de um sentimento de nação que tenha o povo em seu centro”, destaca o governador.

A perspectiva cultura da luta heroica é o ponto de partida do texto do secretário de cultura Bruno Monteiro, que ressalta a série de ações e marcos culturais que o Governo do Estado programou para ressignificar o sentido de emancipação política do país, sendo uma delas a publicação extraordinária do Diário Oficial. A Secretaria de Cultura da Bahia(Secult-BA) é a coordenadora do Plano de Ações do Bicentenário da Independência do Brasil na Bahia pelo Governo do Estado. A edição especial do Diário Oficial do Estado da Bahia já está disponível para consulta no site do DOOL.

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Hoje, o melhor presente que a sociedade pode oferecer a nós, mulheres, é reconhecer nossos corpos e vidas como territórios políticos, fazer ecoar nossas vozes e se unir às nossas lutas.

Aline Setenta

Ao contrário do que foi difundido durante muito tempo, o Dia Internacional da Mulher comemorado hoje (8) não tem vinculação apenas com um incêndio numa fábrica norte-americana. A data teve alguns eventos relacionados à sua origem até ser oficialmente reconhecida pela comunidade internacional. Sua origem mais remota está relacionada a uma manifestação de trabalhadoras ocorrida em 1910 na cidade de São Petersburgo, na Rússia, por melhores condições de vida.

De acordo com a socióloga Eva Alterman Blay, a proposta para marcar um dia de mobilização nasceu no âmbito do Partido Comunista da Alemanha, com as operárias comunistas sufragistas, como consolidação das lutas que se iniciaram na virada do século 19 para o século 20, na Europa e nos Estados Unidos. A ideia de um dia de mobilização foi proposta inicialmente por Clara Zetkin, no II Congresso Internacional de Mulheres Socialistas, em 1910, em Copenhague, capital da Dinamarca. Nesse momento ainda não havia a definição de uma data específica.

Em 25 de março de 1911, um incêndio na fábrica da Companhia de Blusas Triângulo, em Nova York, vitimou 125 mulheres e 21 homens que estavam submetidos a condições degradantes de trabalho. Apesar desse evento específico ter sido identificado como a origem do Dia da Mulher, não foi o único, segundo a pesquisadora.

Outro evento histórico, considerado por Blay como mais importante, foi a greve organizada por trabalhadoras russas do setor de tecelagem, no dia 8 de março de 1917, quando cerca de 90 mil operárias protestavam contra as más condições de trabalho, a fome e a participação do país na Primeira Guerra Mundial.

Mulheres reivindicam pão e paz na São Petersburgo revolucionária de 1917 || Foto Domínio Público

Oficialmente, o 8M somente surgiu em 1975, quando a ONU estabeleceu o Ano Internacional da Mulher para lembrar suas conquistas políticas e sociais. Apenas em 2010 foi criada a ONU Mulheres e sua agenda se destacou no âmbito institucional, do Direito Internacional e dos Direitos Humanos.

Nos seus 48 anos de existência, o “Dia da Mulher” vem sentindo os efeitos do avanço dos movimentos feministas ao redor do mundo. Assim como algumas pautas feministas, o 8M ganhou espaço no mainstream e foi apropriado pela mídia hegemônica, provocando um esvaziamento de seu sentido original. Certamente, a popularização da data não tem apenas efeitos negativos, entretanto, a recuperação de seu sentido é fundamental para o avanço da garantia dos direitos das mulheres – e há muito por onde avançar.

O 8M não tem em sua gênese a celebração, não é uma data comemorativa, é um dia de mobilização e reinvindicação política das mulheres por igualdade de direitos. Certamente, as pautas das feministas europeias da primeira onda ganharam espaço na agenda internacional ao longo do tempo, houve avanços na positivação dos direitos, entretanto, há muitas lutas a serem reconhecidas. Será que dá pra comemorar “ser mulher” num mundo e num país tão injusto para elas? Será que é coerente parabenizar as mulheres brasileiras num dos países mais violentos do mundo para as mulheres e meninas?

Por certo, as mulheres que nos antecederam nas lutas que deram origem ao 8M não representam mais a diversidade das mulheres do mundo nem o cruzamento das opressões e dos esquemas de exclusão que interferem nas estratégias de luta e na garantia de direitos, especificamente no caso do Brasil.

Se há algo a ser celebrado, é a ampliação e os desdobramentos dessas lutas e o protagonismo das mulheres historicamente excluídas dos espaços políticos, como é o caso das mulheres negras e indígenas brasileiras. Audre Lorde, feminista negra, nos alerta: “não serei livre enquanto outra mulher for prisioneira, ainda que as correntes dela sejam diferentes das minhas”.

Ser uma mulher no Brasil, olhando para os últimos dados da violência doméstica, para a realidade socioeconômica das mulheres negras e periféricas, para a divisão sexual do trabalho, para a LGBTQIA+ fobia, para o abuso sexual infantil, a cultura do estupro, a misoginia em avanço nas redes sociais, nos convoca ao retorno ao sentido político desse dia.

8M é dia de reconhecer a importância política dos movimentos feministas, ouvir as vozes das mulheres historicamente silenciadas, consolidar, legitimar e garantir o lugar das mulheres na política e combater todas as formas de preconceito e discriminação em razão de gênero, classe, raça e diversidade sexual.

À todas as mulheres e meninas na linha de frente, nas trincheiras das lutas políticas, em todos os cantos desse país, assim como àquelas que deram origem a esse dia, que resistem duplamente às opressões e aos desafios da construção e permanência nos espaços políticos, que têm seus corpos violentados e violados por serem mulheres, minha homenagem, meu reconhecimento e minha solidariedade.

Hoje, o melhor presente que a sociedade pode oferecer a nós, mulheres, é reconhecer nossos corpos e vidas como territórios políticos, fazer ecoar nossas vozes e se unir às nossas lutas.

Aline Setenta é professora de Direito da Universidade Estadual de Santa Cruz (Uesc).

Henrique C. Oliveira: "Lula exporta capacidade de gerar consensos"
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O sul da Bahia não saiu ileso desse processo. O projeto de uma ferrovia sobre a antiga estrada de chão que ligava o nosso litoral a Minas Gerais, passando por Vitória da Conquista, foi substituído pelo predomínio das rodovias.

Henrique Campos de Oliveira || henrique.oliveira@ecossistemaanima.com.br

O movimento pela inserção internacional do sul da Bahia como santuário da Mata Atlântica perpassa, invariavelmente, por sua conexão física com o mundo. Não adianta elucubrar sobre projetos e ações envolvendo a internacionalização de seus produtos e serviços, se não tivermos meios de transporte, principalmente, para prover competitividade e previsibilidade à nossa presença nos mercados nacionais e internacionais.

Como a história nos ajuda a (re)pensar as formas como viemos e aspiramos nos integrar?

Inicialmente, no final do século XIX, as sacas de cacau eram concentradas no leito do Rio Cachoeira, na altura do Banco da Vitória, e embarcadas em canoas até um trapiche no Malhado, de onde seguiam de navio para Salvador.

Com a expansão da exportação do cacau, veio a construção do primeiro porto de Ilhéus, no Pontal, com tentativas de construção datadas de 1909, com atuação protagonista de Antônio Berílio de Oliveira. Sob muita contestação de interesses ligados à capital baiana, sua conclusão só se deu em 1926.

Desde 1911, sob exploração da South Western Rail Way Company Limited, já existia a ferrovia que ligava Ilhéus a Uruçuca. Originalmente, o elo foi pensado para conectar o litoral ilheense a Vitória da Conquista.

Quando a indústria automobilística avança e as ferrovias trocam a maria-fumaça por locomotivas movidas a combustão, há uma inflexão na forma do transporte terrestre de carga, principalmente. Nesse contexto, ocorre uma mudança no planejamento e na implementação de políticas de transporte no país, com fortes impactos na nossa região. De 1930 a 1980, a malha ferroviária brasileira é substituída por rodovias.

Há uma convergência de fatores que nos ajudam a compreender esse fato. A transição da malha ferroviária para o novo paradigma tecnológico de combustão implicava em muito gasto, porque, além das locomotivas, essa substituição exigia que fossem alterados os traçados das estradas de ferro. Era preciso suprimir curvas fechadas e aclives acentuados para garantir segurança ao movimento da composição extensa dos comboios de vagões puxados por trens movidos a diesel.

Também avia pressão significativa da indústria automobilística para a construção de estradas que viabilizassem a comercialização de carros e caminhões. A construção de estradas era – e ainda é – mais barata do que a de ferrovias. Além do mais, o modal rodoviário atendia à necessidade estratégica de garantir a integração física nacional, ao dar mais flexibilidade ao transporte terrestre, permitindo operações porta a porta.

De Getúlio Vargas aos militares, a nossa matriz de transporte saiu de uma predominância ferroviária para rodoviária, na contramão do que ocorria nos países desenvolvidos de dimensão continental.

O sul da Bahia não saiu ileso desse processo. O projeto de uma ferrovia sobre a antiga estrada de chão que ligava o nosso litoral a Minas Gerais, passando por Vitória da Conquista, foi substituído pelo predomínio das rodovias.

Com isso, o porto do Pontal perdeu a sua integração ferroviária. Além do mais, Já no início dos anos 1940, o porte dos navios não condizia com a profundidade do canal entre a Praia do Cristo e o Morro de Pernambuco, hoje à sombra da ponte Jorge Amado.

Daí surgiu a ideia do Porto do Malhado, que entra em disputa com outra alternativa, a construção do Porto de Campinhos, na Baía de Camamu, próximo do refúgio turístico de Barra Grande. Esse porto seria usado como base para o envio de material para a construção de Brasília, via BR-030, sem pavimentação até hoje.

Para a sorte da conservação da fauna e flora da Baía de Camamu, nessa competição, sob forte influência de cacauicultores e políticos locais, os recursos do Banco Mundial foram destinados à construção Porto do Malhado.

O projeto original era construir, junto com o distrito industrial de Ilhéus e com as empresas transnacionais moageiras, o polo logístico e produtivo do cacau. Todavia, o porto inaugurado em 1972 já se mostrava defasado e ocioso em 1978, constituindo-se como mais um item da coleção de elefantes brancos do governo militar.

Ao longo do letárgico e conturbado processo de construção do novo porto, o cacau era transportado pelo serviço de alvengarias, chatas, entre o porto do Pontal e os navios atracados no mar aberto, diante da Avenida Soares Lopes. Acidentes eram comuns, com perdas significativas de carga. As exportações eram registradas por Salvador. As casas exportadoras da capital e aqueles que exploravam o serviço de alvengaria ganhavam, a região perdia.

O Porto do Malhado foi construído sem integração ferroviária e com um aparelhamento defasado, sem contar o impacto ambiental, que intensificou a erosão na orla norte de Ilhéus e o assoreamento da Praia da Avenida.

O mundo começava a usar contêineres para movimentar cargas. Assim fizeram as empresas de beneficiamento do cacau do também recente Distrito Industrial de Ilhéus. Os derivados simples das amêndoas de causa – manteiga, pasta, licor etc. – eram compartimentalizados em tuneis e transportados por contêineres, circulando por rodovias, até o escoamento portuário via Salvador e Santos.

Para completar esse cenário, em paralelo à infraestrutura de transporte terrestre e marítima, o aeroporto de Ilhéus foi construído para receber aviões da década de 1940 e não recebeu melhorias capazes de adaptá-lo à evolução das aeronaves.

As decisões políticas e econômicas que orientaram a trajetória resumida acima impõem os seguintes questionamentos. Aprendemos com as lições do passado? A construção do Porto Sul e da Ferrovia de Integração Oeste-Leste (Fiol) confere ao sul da Bahia a superação do perfil defasado e limitado da sua integração física com o mundo?

Pretendo discutir essas questões na próxima coluna, ao comparar esses projetos com o que já vivenciamos, tendo como horizonte a centralidade da conservação da Mata Atlântica e a ruptura com a repetição de padrões do planejamento espacial da nossa região. Desde já, agradeço pelas eventuais comentários ou provocações dos leitores e leitoras.

Henrique Campos de Oliveira é ibicariense, doutor em Ciências Sociais pela UFBA e professor do Mestrado em Direito, Governança e Políticas Públicas da Unifacs.

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A nossa bandeira permanecerá sob o vento democrático e estará nas mãos dos que lutam por um país plural, por uma nação.

 

Rosivaldo Pinheiro

As eleições são sempre momentos para testar e melhorar o sistema eleitoral e validar o processo democrático. O Brasil se destaca no mundo pela segurança e rapidez no processamento dos resultados eleitorais, mesmo com a nossa extensão territorial e os diferentes contextos regionais. Desde o início do uso das urnas eletrônicas, o país experimenta contínuo destaque. A cada eleição, aprimora a rotina de apuração e consegue declarar o vitorioso na corrida presidencial poucas horas após o encerramento da votação. Essa realidade não é diferente para os resultados dos estados e também nas eleições municipais.

O sistema das urnas eletrônicas veio para ficar e, a partir do seu uso, algumas intervenções que afetavam os resultados deixaram de existir, uma vez que as manobras na hora da contagem das cédulas, no sistema antigo, aconteciam sob o beneplácito de uma estrutura viciada e à disposição dos poderosos no conhecido voto de cabresto. Hoje, diferentemente daquela época, essas vulnerabilidades foram superadas, ao que pese o poder econômico manifestado através do poder político ainda exigir ajustes por parte da justiça eleitoral.

No tocante ao processo eleitoral das contagens de cédulas, podemos lembrar sem muito esforço de pelo menos um episódio de grande repercussão: a virada de resultado de Valdeck Ornelas sobre Waldir Pires na Bahia, para o Senado em 1994. À época, três candidatos concorriam a duas vagas: Antônio Carlos Magalhães, Valdeck Ornelas e Waldir Pires. A primeira vaga já se sabia que seria de ACM. Já a segunda, de acordo com as pesquisas, seria de Waldir Pires. Iniciada a contagem eleitoral, Waldir abriu 50 mil votos de frente sobre Valdeck.

No fim da contagem das 8.389 urnas, em 1.400 delas Valdeck Ornelas obteve mais votos que ACM, sendo eleito como segundo senador com 3.014 votos a mais que Waldir. Esse fato ficou conhecido como “O Milagre Baiano”, representando uma clara certeza de que houve manipulação do resultado e, face à força de ACM, foi validada, mesmo com os recursos interpostos por Waldir. Chamou a atenção, mas valeu o resultado porque quem comandava as regras do jogo era o velho ACM, conhecido pela imposição da força e o controle sobre os poderes baianos.

Por essas e outras, é descabido o desejo do atual presidente da República de pedir a volta do voto impresso, sendo ele e os seus filhos eleitos várias vezes sob o sistema das urnas eletrônicas. Por força da condução da Justiça Eleitoral e por defesa do Supremo Tribunal Federal (STF), a urna eletrônica será mantida, e o nosso avançado sistema tecnológico seguirá o seu curso. O povo brasileiro, na sua ampla maioria, disse em alto, claro e bom som confiar na Justiça Eleitoral e nas urnas eletrônicas, conforme a última pesquisa, na qual 79% dos brasileiros disseram acreditar nas urnas, e 75% afirmaram apoiar o sistema democrático, indo na mesma direção da classe empresarial e dos trabalhadores, que, juntos, assinaram a carta em defesa da democracia.

Com essas manifestações, o presidente da República, que pregava fazer um ato no próximo dia 7 de Setembro (Dia da Independência) para impor a sua vontade sobre as instituições e exigir mudanças no processo de apuração dos votos, percebeu que não haverá espaço para golpismo, e que o Brasil atual não aceitará emudecido o atropelo da ordem democrática e nem permanecerá sob o domínio do obscurantismo. A nossa bandeira permanecerá sob o vento democrático e estará nas mãos dos que lutam por um país plural, por uma nação.

Rosivaldo Pinheiro é economista, especialista em Planejamento e Gestão de Cidades (Uesc) e comunicador.

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Daquela época aos dias de hoje, o bairro passou por várias etapas de crescimento e desenvolvimento, com boas escolas públicas e privadas; na área de lazer e esportes (…). Mais que isso, sua gente se destaca na sociedade nas mais diversas áreas – literária, artística, esportiva e profissional.

 

Walmir Rosário

De forma bastante singela, acredito que o ato de viver pode ser comparado a assumir a direção de um veículo. Ter foco no presente do caminho que lhe rodeia, olhando, sempre, pelo retrovisor o passado, e analisando as possibilidades do futuro, do que possa vir pela frente. São através das histórias do passado que poderemos entender mais sobre nós mesmos, para que possamos encarar o futuro sem qualquer receio.

Dito isso, passo a narrar, com alegria, um “achado” importante da minha infância, vivida no bairro da Conceição em Itabuna. Essa descoberta é um memorial de autoria das professoras Edith Oliveira de Santana e Jiunice Oliveira de Santana e do engenheiro agrônomo e pesquisador aposentado da Ceplac Sandoval Oliveira de Santana, que conta grande parte da história do bairro, em textos e fotos.

O trabalho, que leva o nome Bairro da Conceição e os Primórdios, foi elaborado para homenagear o cinquentenário da implantação da Paróquia Nossa Senhora da Conceição (8-12-1958 a 8-12-2008), com informações antecedentes ao ano de 1958. Todo o trabalho foi realizado por meio de consultas aos moradores descendentes dos desbravadores, com registros dos personagens.

E os três autores tinham motivos pra lá de especiais para elaborar o memorial, haja vista que eram filhos de Marinheiro e dona Janu (Antônio Joaquim de Santana e Joana Oliveira de Santana), casal que ostenta o título de quarto morador do bairro e o primeiro da rua Bela Vista. Os 13 filhos (uma adotiva) do casal se criaram no hoje bairro da Conceição, local que ainda residem filhos, netos e bisnetos.

Marinheiro, sergipano do distrito de Outeiro, município de Maruim, era um homem conhecedor do mundo, sempre a bordo dos navios da Marinha de Guerra Brasil e participou ativamente da “Revolta da Chibata”. Pretendendo mudar de vida, aporta em Ilhéus e vai trabalhar nas roças de cacau, tornando-se, posteriormente, administrador de fazendas e especialista no plantio e manutenção de cacaueiros.

Em 1932, Marinheiro muda-se para Itabuna em busca de escola para seus seis filhos, construindo uma casa na recém-criada Abissínia (bairro da Conceição), que se tornara promissora com a construção da ponte Góes Calmon, sobre o rio Cachoeira e a estrada para Macuco (hoje Buerarema). Conhecedor do mundo, Marinheiro participava da política local com ideias inovadoras para as campanhas políticas e a administração municipal.

Formalmente, o Conceição é o segundo bairro criado, embora em sua área, a Marimbeta, ostente a primazia de abrigar a primeira casa construída de Itabuna, na roça de Félix Severino do Amor Divino, um dos fundadores de Itabuna. E o memorial descreve que morar ali na década de 1930 era uma demonstração de coragem e trabalho, por ser um local de vegetação densa e contar com muitos animais silvestres.

Àquela época as casas eram feitas de taipas, adobes (crus ou queimados), telhados de palmeiras e poucos de telhas, que já serviam para se defender as intempéries, das onças e outros animais selvagens, muitos destes transformados em misturas na alimentação. Naqueles tempos bicudos, para matar a sede os moradores recorriam aos leitos dos ribeirões e à noite utilizavam fifós e placas, alimentados com querosene.

Para cozinhar bastava cortar a madeira na mata, tocar fogo e colocar as panelas de barro. Os mais abastados possuíam fogões a lenha, geralmente fora de casa. Nas panelas, feijão, carnes de caça, peixes do rio Cachoeira em abundância e muitas frutas na sobremesa. As vestimentas para os marmanjos eram calça curta, depois comprida, camisas com botões e cuecas samba canção; a depender da condição financeira, ternos de linho ou gabardine. As mulheres: vestido, saia, blusa, capote, combinação, anágua e calçola.

Aos poucos, o arruamento foi tomando forma urbana devido a crescente construção de casas, apareceram as primeiras vendas (mercearias) e padarias, melhorando as condições de vida da população. Mesmo assim, o “bairro” começou a ser chamado pejorativamente de Aldeia, e mais pra frente de Abissínia, devido a algumas mortes decorrentes de briga, injustamente comparada com a guerra no país africano.

No final da década de 1940, mesmo um aglomerado urbano de condições inóspitas, o bairro da Conceição possuía uma economia próspera, ganhando destaque nos anos 1950, quando começou a se consolidar. Nesse período, com as secas em Sergipe, os moradores de Itabuna convidavam os parentes para morar no “eldorado do cacau”, época em que o bairro da Conceição recebeu uma grande leva de migrantes.

Se em 1° de março de 1928 o bairro ganha a ponte Góes Calmon como primeiro vetor de crescimento, em 1955 veio o segundo com a construção da Igreja de Nossa Senhora da Conceição, inaugurada em 08 de dezembro de 1958, quando a velha capela de madeira deu lugar a uma grande matriz. Neste mesmo período a fé dos moradores era atendida pelas igrejas Assembleia de Deus, Batista Teosópolis e Cristã do Brasil.

Construída pela batuta dos frades capuchinhos Isaías e Justo (italianos) e Apolônio (brasileiro/pernambucano), a Igreja de Nossa Senhora da Conceição marcou, decisivamente, o desenvolvimento do bairro. Enquanto a obra ia sendo tocada, a prefeitura passou a urbanizar o bairro, com a abertura e rebaixamento de ruas, a praça em frente a igreja e a canalização de água em algumas ruas.

Daquela época aos dias de hoje, o bairro passou por várias etapas de crescimento e desenvolvimento, com boas escolas públicas e privadas; na área de lazer e esportes – clube social, times de futebol, a sede do Itabuna Esporte Clube, bares e restaurantes, supermercados, dentre outros equipamentos urbanos. Mais que isso, sua gente se destaca na sociedade nas mais diversas áreas literária, artística, esportiva e profissional.

Walmir Rosário é radialista, jornalista e advogado.

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Com Toponímia de Itabuna: ruas e avenidas revelam histórias, o novo Centro Cultural Teosópolis abre série de exposições temporárias. O trabalho mostra personagens que ajudaram a construir Itabuna e também revela nomes do cenário nacional que dão nome a ruas do município sul-baiano. A exposição pode ser conferida, de segunda a sexta-feira, das 14h às 17H30min, na Praça dos Eucaliptos, no Conceição, próximo ao Itabuna Esporte Clube (IEC).

Desenvolvida pela Universidade Estadual de Santa Cruz (Uesc), Toponímia de Itabuna… é um verdadeiro sobrevoo sobre o município. Conta a história de figuras como o pastor Hélio Lourenço da Silva, Fernando Cordier, Manoel Leão, João Soares, Maria Pinheiro, Daniel Gomes, Sarinha Alcântara, Simão Fitterman, José Alcântara e Paulino Vieira, pessoas que dão nome a ruas e bairros de Itabuna.

“A exposição traz para nossos jovens a compreensão de como foi construída a nossa Itabuna”, explica o reitor da Uesc, Alessandro Fernandes. A universidade é parceira do projeto. No passeio por Itabuna, por meio de painéis, é relatada a história de vida de Aziz Maron, Mário Padre, Inácio Tosta Filho, Comendador Firmino Alves, Felix Mendonça, José Soares Pinheiro, Corbiniano Freire e Amélia Amado.

A exposição vai até setembro deste ano e também traz vida e obra de Olinto Leone, primeiro intendente de Itabuna, engenheiro responsável pela primeira planta da primeira igreja Matriz de São José de Itabuna e o primeiro Fórum de Justiça, além de medições para a planta urbana da própria vila. “É uma oportunidade para que a nossa população possa conhecer a nossa história”, diz a educadora Janete Ruiz Macedo, da Uesc.

O Centro Cultural é mantido pela Associação de Beneficência e Cultura Teosópolis, em parceria com a Universidade Estadual de Santa Cruz (Uesc) e a Prefeitura de Itabuna, por meio da secretaria de Educação e da Fundação Itabunense de Cultura e Cidadania (FICC). “O Centro pertence a Itabuna e seu povo. É um bem cultural para nossa gente conhecer sua história”, afirma Geraldo Meireles, pastor presidente da Igreja Batista Teosópolis (IBT).

Visitas à exposição podem ser agendadas pelo telefone (73) 9 8870-9586.

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A Associação de Beneficência e Cultura Teosópolis e a Universidade Estadual de Santa Cruz (Uesc) e a Associação de Beneficência e Cultura Teosópolis assinaram termo de cooperação técnica durante a inauguração do Centro Cultural Teosópolis, em Itabuna, na última sexta-feira (6). O ato contou com a presença do reitor da Uesc, Alessandro Fernandes de Santana, e do presidente da Associação, professor Aurélio Macedo, e o pastor presidente da Igreja Batista Teosópolis, Geraldo Meireles, além da professora Janete Macedo.

A implantação do Centro Cultural Teosópolis tem como finalidade constituir “um espaço de diálogo entre a educação formal, a formação cultural, a academia e os diferentes grupos sociais”. Por sua vez, o convênio entre as duas instituições possui, entre seus objetivos, “ofertar às escolas municipais de Itabuna, bem como, ao circuito cultural da região, exposições temporárias de caráter didático pedagógico e cultural visando o desenvolvimento de hábitos culturais”.

Como parceira em assessoria técnica, caberá à Uesc desenvolver estudos de viabilidade para implantação, implementação e aperfeiçoamento do Centro Cultural Teosópolis segundo as normas do Sistema Estadual de Arquivos e do Sistema Nacional de Museus. Nesse sentido, a participação da Universidade será operacionalizada através do Cedoc (Centro de Documentação e Memória Regional) e do Projeto de Extensão Permanente Implantação e Implementação de Arquivos e Museus.

A articulação interinstitucional para implantação do Centro Cultural Teosópolis também envolve ações vinculadas à Prefeitura de Itabuna. Para o reitor Alessandro Fernandes de Santana, a participação da Uesc enriquece as atividades na área de extensão da Universidade, com o intuito de contribuir para o desenvolvimento cultural e valorização da memória regional.

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Com esse time da Associação era tiro e queda, não perderiam uma partida para seus rivais de Salvador. Quem sabe, ganhariam o campeonato baiano sem muito trabalho.

 

Walmir Rosário

Esta história que me proponha a narrar será novidade para um mundão de gente, mesmo os que são apaixonados pelo futebol baiano. O motivo é muito simples: muitos dos que terão acesso a esse escrito não tiveram a oportunidade de ver esses times nos gramados, sejam da capital soteropolitana ou de Itabuna, pois quando o caso aconteceu logo depois de encerrada a segunda guerra mundial. Nem eu ainda era vivo.

Imagine vocês um time médio da capital baiana pedir socorro a um coirmão de Itabuna para se sagrar campeão baiano. Sim, essa façanha realmente aconteceu e está registrada nas atas da vetusta Federação Bahiana de Futebol. Essa equipe era a Associação Desportiva Guarany, fundado em 12 de janeiro de 1920, mas que somente realizou essa proeza em 1946, após levar 10 jogadores da Associação Atlética de Itabuna.

Lembro bem de um depoimento concedido aos jornalistas José Adervan, Ramiro Aquino e este locutor que vos fala, Walmir Rosário, pelo ex-diretor do banco Econômico, Carlos Botelho, grande conhecedor de futebol baiano. Na entrevista, Botelho cita a década de 1940 como um dos períodos mais férteis do futebol itabunense, apesar da guerra, que convocou reservistas do Grêmio, Janízaros e Associação Atlética de Itabuna (AAI).

Botelho não deixou por menos e garantiu que a equipe da Associação Atlética foi o melhor time do interior baiano, naquela época dirigido por José Nunes de Aquino, Clóvis Nunes, Horácio Almeida, Domingos Almeida, lembrado com saudades pelos que o conheceram. Ele conta que era um time de decisão e acumulava campeonatos, apesar das equipes adversárias, como Grêmio Janízaros, Vasco da Gama, entre outros.

Time de elite, não se contentava, em todos os sentidos, de excelentes jogadores, era exigente a ponto de praticar alguma forma de racismo, vigente na época (à maneira do Fluminense do Rio), pois jogadores com tez mais escura não entravam no time. Basta ver um dos seus melhores elencos, formado por Balancê, Ventuíres e Aranha; Aloísio Smith, Valter Caetano e Anizinho; Tido, Galeão, Clóvis, Rosevaldo e Firmino, quase todos brancos.

Foi um custo contratar o primeiro homem de cor escura, o zagueiro Ruído, vindo de Jequié, o que provocou bastante celeuma. Com o passar dos anos, a Associação chegou a armar um time com jogadores negros, entre eles Balancê, Dircinho e Álvaro Barbeiro. Nesse período, destaca-se o atacante Pipio, um grande craque, que depois foi jogar no Bahia e, posteriormente no Pará, onde morreu.

Dessa mistura, na qual era permitida a presença de negros, a AAI se tornou talvez o maior time do interior baiano de todos os tempos, formado por Niraldo ou Mota, Bolívar e Bacamarte; Zecão, Amaral e Elvécio; Tombinho, Puruca, Juca Alfaiate, Tuta e Zezé. Era uma equipe invencível, que não se preocupava com os adversários, dada a qualidade de seus atletas. Entrava em campo para ganhar, só não se sabia qual o placar.

Embora a Associação Atlética de Itabuna, reinasse absoluta em campo, tinha, pelo menos, um adversário à altura. O Grêmio, que por volta de 1943 e 44, em plena Segunda Guerra, era outro grande time amador de Itabuna, classificando-se em segundo lugar, logo depois da Associação. A melhor formação do Grêmio, segundo Botelho, era: Babão; Sapateiro e Lameu; Zeferino, Noca e Colatina; Manchinha, Lubião, Juca, Macaquinho e Elísio. Observe-se que um futuro grande valor da AAI, Juca Alfaiate, nesse período, envergava a camisa do Grêmio.

A Associação Atlética Itabunense teve uma história gloriosa, o que é inegável até pelos adversários. Onde se tinha notícia de um grande jogador, a diretoria não media esforços para contratá-lo e assim formou a equipe mais temida do interior da Bahia. Faturou a maioria dos campeonatos de Itabuna, conquistando o título inédito de pentacampeão nos anos de 42 e 46, mesmo sem os 10 jogadores que foram para o Guarany.

E essa notícia chegou à capital baiana pelos dirigentes e jogadores das equipes soteropolitanas que vinham jogar partidas amistosas com os times das cidades do Sul da Bahia. Quando aqui chegavam davam de testa com a vencedora equipe da Associação, que não costumava a passar vergonha em campo, perdendo para um time qualquer que fosse, mesmo de Salvador.

E num jogo desses amistosos, a pequena, porém aguerrida equipe do Guarany se encantou com os atletas da Associação e vislumbrou a oportunidade de aparecer entre os grandes da capital. Com esse time da Associação era tiro e queda, não perderiam uma partida para seus rivais de Salvador. Quem sabe, ganhariam o campeonato baiano sem muito trabalho.

Esse feito foi o bastante para que os dirigentes do Guarani, de Salvador, contratassem 10 jogadores titulares da Associação. Entre os craques que deixaram a Associação estavam Bolívar, Bacamarte, Quiba, Elísio Peito de Pomba (o reserva de Juca Alfaiate), Elvécio, Tuta, além de outros quatro cujos nomes me falham a memória. Com esse timaço, o Guarani venceu o Campeonato Baiano de 1946, sua única conquista.

Foi o primeiro e único campeonato faturado, disputando a fase final numa melhor de três com o Ypiranga. Empatou a primeira por 2X2, vencendo a segunda por 1X0 e despachando o seu vice por 2X0 na terceira partida. Anos depois o Guarany abandona o futebol e nem mesmo sei se ainda existe. Mas que foi campeão baiano com os jogadores de Itabuna, ninguém há de duvidar.

Walmir Rosário é radialista, jornalista e advogado.