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VELHINHOS SERELEPES QUE FAZEM “DE TUDO”

ATAQUES FRONTAIS E REPÓRTERES IMPUNES
A expressão de feitio enviesado está disseminada pela mídia, mas com predominância na televisão, veículo que prima pelos ataques frontais à língua portuguesa. “Fez de tudo para salvar os móveis, mas não conseguiu” – diz impunemente a repórter, numa matéria sobre enchentes. Trata-se de pecado contra a simplicidade (uma das qualidades fundamentais do estilo) e indispensável à boa linguagem jornalística. É preferível “Fez tudo para salvar…”, indo direto ao ponto, sem penduricalhos que, longe de melhorar o entendimento da frase, a tornam pedante, grosseira, cansada, ao carregar a preposição “de” como peso morto.PLEONASMO, MAS SEM PERDER A ELEGÂNCIA
À partícula que acrescenta graça, força ou realce a uma frase ou expressão os gramáticos chamam “expletiva”. Seria assim uma coisa pleonástica, mas elegante – se é que entendi a lição. Exemplos encontráveis nos livros são “Foi-se embora sem avisar” e “Murchem-se as flores”, esta segunda de perceptível bom gosto. Observe que, retirada a tal partícula expletiva, o entendimento se mantém: tanto faz “foi-se embora” como “foi embora”. Esta seria a tese da defesa “lingüística” para “Fazer de tudo”, mas a acusação a contesta veementemente, pois o “de”, neste caso, nenhuma beleza acrescenta à expressão “Fazer tudo”.EXPRESSÃO ENRAIZADA E COM DEFENSORES
Na edição de 28 de setembro, o Pimenta denunciou, em caixa alta e fonte graúda: “Câmara de Itabuna teve de tudo nesta terça-feira”. Além de provar que santo de casa não faz milagre, prova-se como a expressão está enraizada nos meios de comunicação e terá, consequentemente, ferrenhos defensores. Volto a insistir que esta coluna fala de preferências e curiosidades, mas nunca se atreveu a dividir a linguagem em certa e errada. Neste caso, sigo a regência verbal: assim, “A livraria dispõe de tudo que a escola exige” (o verbo dispor “pede” preposição “de”) e “A livraria tem tudo que a escola exige” (o verbo ter é, neste cenário, inimigo da preposição).LÍNGUA RICA, RICA, RICA /DE MARRÉ DECI

EM PERNAMBUCO, O “FOR ALL” VIROU FORRÓ
Com o tempo, as pessoas fizeram uma “adaptação”, valendo-se do som em francês: da pronúncia (aproximada) jê mê vé veio “de marré” e dici transformou-se em “daqui”. Para mim faz sentido, pois o processo não é desconhecido entre nós: há uma tese (Luiz Gonzaga era um de seus defensores) de que a palavra forró (gênero musical nordestino popular em todo o Brasil) descende, por semelhante processo de “adaptação”, do inglês for all. Algo a ver com os ingleses da estrada de ferro Great Western, em Pernambuco, que organizaram uma festa aberta, for all (“para todos”). Ressalte-se que o folclorista Câmara Cascudo não aceita esta versão: para ele, forró vem do africano “forrobodó”, que é festa bagunçada, frege.HERANÇA DAS RELAÇÕES FEUDAIS EUROPEIAS
Consta que Heitor Villa-Lobos e Cecília Meireles (foto) também pesquisaram esta cantiga infantil, mas não chegaram a conclusões definitivas. A brincadeira procede da Europa sendo um jogo de “pobres” e “ricos”, falando em casamento, com o roteiro ritualístico de cortejo, sedução e noivado. A versão brasileira tem uma parte que diz: “Quero uma de vossas filhas/ de marré, marré/ marré/ Quero uma de vossas filhas/ de marre deci” – certamente a fala do “rico”; a esta proposta indecorosa o lado “pobre” responde, humilhado: “Escolhei a qual quiser/ de marré, marré, marré/ Escolhei a qual quiser/ de marré deci”. Percebe-se que a canção prega um servilismo escancarado e odioso, que nos remete ao feudalismo europeu.EMOÇÕES QUE NOS PRESSIONAM NO DIA-A-DIA
Volto a reler o velho Quatro gigantes da alma, do pioneiro em psicologia e direitos humanos Mira y Lopez (Santiago de Cuba, 1896-Rio de Janeiro, 1964). É um livro fundamental, que fala de emoções a que estamos submetidos no dia-a-dia e que são fontes de neurose, afeto, agressividade: o Medo, a Ira e o Amor. Mas como somos bichos domesticados (homo socialis), o psicólogo acrescentou um quarto “gigante”: o Dever, espécie de força reguladora, que nos impede de descambar nos precipícios da barbárie e da luxúria. Se quiser, pode chamá-lo de Razão, elemento que nos faz obedecer às regras (“qual submisso escravo”, segundo o mestre argentino).A IRA QUE NASCE DO NEGRO VENTRE DO MEDO

NÃO QUEREMOS SER UM PAÍS DE VIRA-LATAS

TAMBÉM TEMOS DOSTOIÉVSKIS E BETHOVENS
Autoridades do Nordeste deveriam tomar uma atitude de considerável impacto: algo assim como um decreto que levasse a turma da calcinha escura, o pessoal que combina rapadura com caviar e camarão com garapa de cana, além de uma chusma de outros equivocados do forró a ouvir os clássicos. Não me refiro aos bambambãs da música europeia, mas aos clássicos da grande canção de sotaque regional: Luiz Gonzaga, Sivuca, João do Vale, Zé Dantas, Humberto Teixeira, Dominguinhos, Hermeto Paschoal, Cego Aderaldo, Jackson do Pandeiro, Patativa do Assaré, Genival Lacerda. Eles são, a bem dizer, nossos bethovens, brahms, tostoes, dostoiévskis, mozarts, haydns.. .GLORINHA GADELHA, SIVUCA E CLARA NUNES
A feira de mangaio é o local onde os brejeiros vendem… mangaio, é lógico! Com o resultado desse negócio, compram/compravam o que não nasce do barro do chão, como o gás que acende a candeia e (“ninguém é de ferro”) a cachaça que aquece a alma. A leitores do asfalto, explico: brejeiro é quem vive na região do Brejo; legume é qualquer cereal; mangaio é todo artigo feito em casa ou tirado da pequena agricultura; gás e candeia, leia-se querosene e candeeiro (e se você não sabe o que é candeeiro, aceite meus pêsames). Os dicionários grafam, se muito, mangalho – mas o que sabem do povo os dicionários? No vídeo, Clara Nunes e Sivuca: Feira de mangaio, dele e Glorinha Gadelha. Clique aqui e veja/ouça.(O.C.)














Respostas de 8
Ousarme:
Ousarei colocar um adendo às suas colocações sôbre a cantiga de roda por você citada:
“O Marais era uma região insalubre de pântanos (em francês, marais) na Rive Droite, em Paris, próximo às duas ilhas do Sena. A partir do século XII, seus terrenos foram drenados e passaram a ser cultivados. A região era também habitada pela parcela mais pobre da população parisiense, que foi se mudando para a periferia no século XVI quando, com o crescimento da cidade, a aristocracia francesa começou a se interessar pelo bairro.”
Diz a cantiga: Eu sou pobre, pobre, pobre, de MARAIS je suis.
Ou seja a menina cantando diz ser pobre do bairro de Marais, em Paris.
PIMENTA TAMBÉM É CULTURA.
Observador
…eu já vi fazer DE tudo com meus próprios olho, nesse blog.
Belo OC.
“FIZ DE TUDO…”
Fiz de tudo pra ler… Ufa!
Mas, “campanha”, o que mais me chamou a atenção foi:
“…(o verbo ter é, neste cenário, inimigo da preposição).”
Concordo…
Entretanto, apesar dessa “inimizade”, não raramente, nossos ouvidos são sonoramente bombardeados com muitos “ter de” e “tem de”, em lugar de “ter que” e “tem que”.
“Fiz de tudo”, “fez de tudo”, pegaram…
Se se falar diferente corre-se o risco de não se ser entendido. (putzzgrila!)
Também está muito na moda o “dei o melhor de mim”, “vou dar o melhor de mim”, nas entrevistas de jogadores de futebol. De vez em quando, pode-se ouvir assim: “O professor (treinador) pediu que a gente desse o melhor da gente.”
FOR ALL
A respeito das origens do Forró, existe outra versão. O povo Potiguar também defende a tese de que originou-se de “FOR ALL”. Mas, segundo eles, isto se deu em meados dos anos 40, quando a cidade de Natal se viu “coalhada” de norteamericanos, para lá deslocados com o objetivo de guarnecerem a Base Militar Americana em Parnamirim.
De acordo com os natalenses, os americanos tinham suas festas particulares e estas eram vedadas aos nativos. Quando se referiam e iam às festas populares, cuja entrada era livre, denominavam-nas de “para todos”. Em inglês, “for all”. De tanto ouvir os americanos, a população nativa começou a designar os rítimos locais (baião, xaxado, xote, coco, etc.) de “forró”.
Tomei conhecimento dessa “estória” em 1999, quando morei em Natal. Resta saber se a palavra já não existia antes da chegadas dos norteamericanos.
Se a versão do potiguar Câmara Cascudo for a verdadeira, seus conterrâneos devem esquecer a tese de que o forró tenha nascido em terras norteriograndenses. Isto porque, se existe uma cidade nordestina que praticamente não sofreu influência de africanos, está é Natal. Em um ano morando por lá, não encontrei um único negro pelas bem traçadas ruas de Natal. O natalense é uma mistura de holandeses (Nassau), povos indígenas (Felipe Camarão) e norteamericancos (2ª Guerra).
Vou ficando com o “forrobodó” de Câmara Cascudo. Aliás, um nome dos mais respeitados entre os potiguares.
Ah!
Incluo os portugueses, claro, na miscigenação dos norteriograndenses.
Afirmam eles (norteriograndenses) que os primeiros povos estrangeiros a aportarem no RN foram os Fenícios, 11 séculos A. C. Contudo, os Fenícios não ficaram por muito tempo. Teriam, entretanto, deixado “marcas” de suas presenças na região onde fica hoje a cidade de Touros. Essas “marcas” são ruínas, inscrições e um marco de pedra – o Marco de Touros.
Seu Ousarme,
Era comum utilizarmos a expresão “fez de tudo um pouco”, “teve de tudo um pouco”. Acho que, para economizar, agora estão suprimindo o “um pouco” e a preposição “de” fica sobrando.
Observador:
Você vem provar que são muitas as versões para essas coisas antigas, que o povo vai transformando ao longo dos séculos. A versão de que “marré” viria de Marais eu conheço, e tem, como as outras, seu alto grau de incerteza; veja que uma dessas versões afirma que a expressão viria de Mairie d’Issy, também em Paris (conheço o Marais, mas não sei pra que lado fica o Mairie d´Issy, suponho que longe do centro).
Esses textos para crianças nos reservam surpresas interessantes: li que “Hoje é domingo, pé de cachimbo” originalmente era “Hoje é domingo, pede um cachimbo”, e que “Batatinha quando nasce se esparrama pelo chão já foi “Batatinha quando nasce, espalha ramas pelo chão”.
E nessa linha das verdades perdidas nas curvas do tempo – e que jamais serão recuperadas – está o nosso forró, retomado oportunamente por Souza Neto.
Agradeço a todos pela leitura crítica que têm feito da coluna – e que muito a valorizam.
Ousarme:
Veja este link: http://www.rafael.galvao.org/2004/01/a-historia-de-marre/
Observador
Oi,Observador!
Vi, mas mantive a certeza de que não vamos esclarecer as dúvidas perdidas nas brumas do tempo (e nunca foi este, imagine!, o objetivo da coluna).
Gostei quando o autor diz que tais canções são popularizadas “de cima para baixo”, numa gradação de nobres, ricos e, por fim, os pobres (ainda bem que na é época ninguém falava em negros e nordestinos, do contrário seríamos os últimos da escala).
A canção dita infantil, quem diria, é forte instrumento de colonização.
Muito obrigado.