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Só com a chegada do PT essas duas cidades e nossa região passaram a ser tratadas com prioridade. Lula e Dilma trouxeram a ferrovia, Porto Sul, Gasoduto, Universidade Federal, Escolas Técnicas.

 

Geraldo Simões

O grupo do candidato ACM Neto governou a Bahia por 40 anos, período em que sempre estiveram alinhados ao governo federal. Itabuna, Ilhéus e a região foram tratadas com profundo desprezo.

Só com a chegada do PT essas duas cidades e nossa região passaram a ser tratadas com prioridade. Lula e Dilma trouxeram a ferrovia, Porto Sul, Gasoduto, Universidade Federal, Escolas Técnicas.

Wagner e Rui trouxeram investimentos que geram desenvolvimento na região. Itabuna recebeu a barragem do Rio Colônia, Teatro Candinha Doria, Policlínica, Escola de tempo integral, estádio amador, duplicação da Ilhéus – Itabuna.

A cidade irmã foi beneficiada com o Hospital Costa do Cacau, duas UPAs, Policlínica, urbanização e duplicação da orla Sul, Hospital Materno Infantil, Ponte Estaiada, saneamento em toda zona sul.

Então, para essas duas cidades e a região continuarem sendo tratadas como prioridades, vamos eleger Lula 13, Jeronimo 13 e Otto 555.

Geraldo Simões é servidor público federal, ex-prefeito de Itabuna e ex-deputado federal e estadual.

Caboco Alencar suspendeu as aulas e retorna no pós-eleições || Foto Walmir Rosário
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Um dos alunos repetentes do ABC da Noite, Daniel Thame, se deu por satisfeito e disse que, felizmente, do males o menor, pois dessa vez é por pouco tempo.

 

Walmir Rosário

Do presidente da Academia de Letras, Artes, Música, Birita, Inutilidades, Quimeras, Utopias, Etc., (Alambique), o jornalista Daniel Thame, recebo a fatídica informação. Foi difícil acreditar, mas constatei que era verdade. Após a reabertura do ABC da Noite, recebida com festa em grandioso estilo, a diretoria resolveu dar mais um tempo e cerrar suas duas portas até passar as eleições de 2 de outubro.

A notícia pegou todos de surpresa, já que o professor Caboclo Alencar e sua inseparável companheira, dona Neusa, deliberaram, em sessão extraordinária, a suspensão da prestação dos serviços etílicos na sua sede, no Beco do Fuxico. Mas como não existe nada ruim que não possa piorar, como garante em sua tese o tal de Murphy, num conceito que se transformou em lei sem que fosse aprovada por parlamento algum.

Esse já é o segundo choque sentido pelos boêmios itabunenses, que ficaram órfãos das deliciosas batidas do Caboclo Alencar durante esses anos em que a pandemia resolveu assolar o Brasil e o mundo. A primeira decepção sentida foi a drástica redução nos dias de funcionamento, que caiu do tradicional segunda a sábado, em dois expedientes, e que passaria apenas aos sábados.

Pois bem, se não bastassem os torturantes 30 meses em que esteve fechado, o primeiro decreto editado pelo Caboclo Alencar e dona Neusa, restringiu a abertura, em desconformidade à placa de bronze afixada na parede proclama os horários de abertura e fechamento do régio expediente: De segunda a sexta-feira: das 11 às 12h30min e das 17 às 19 horas; aos sábados, das 11 às 12h30min; sem expediente aos domingos.

Agora, conforme acertado, o horário de sábado foi ampliado em duas horas, mas nada que compense os dois expedientes diários no decorrer das segundas às sextas-feiras, quando centenas de repetentes e aderentes se reuniram no ponto mais tradicional do Beco do Fuxico, em Itabuna. Nos dias removidos da tabela de funcionamento, que os alunos busquem novas escolas próximas para continuar os estudos etílicos.

Um dos alunos repetentes do ABC da Noite, Daniel Thame, se deu por satisfeito e disse que, felizmente, do males o menor, pois dessa vez é por pouco tempo. Além do mais, fez questão de ressaltar que o ABC da Noite volta a funcionar após as eleições, sempre aos sábados. A finalidade seria preservar o espaço mais democrático de Itabuna, onde o que deve prevalecer são os sabores das magistrais batidas que só Alencar sabe fazer.

Na qualidade de aluno repetente de anos e anos, que nem dá para contar nos dedos, eu já disse por aqui que senti bastante não ter participado da cerimônia de reabertura do ABC da Noite, oportunidade para rever o Caboclo Alencar, dona Neusa e o sem-número de colegas e amigos. E esse reencontro seria regado às maravilhosas batidas recém-saídas da linha de produção, com preferência para o sabor gengibre.

Ausente estava, como acabei de citar, portanto não presenciei a festa de reabertura, o que sei por ouvir dizer dos colegas presentes, embora como repórter deveria ter ido mais a fundo nas informações, checando o contraditório, o que não fiz. Só me resta penitenciar e faço questão de pedir a devida vênia e o costumeiro perdão, por não ter ido a fundo das questões temporãs e que devem prevalecer os princípios da democracia.

Com a sapiência do casal e a experiência do Caboclo Alencar nos 60 anos de funcionamento do ABC da Noite e os 91 anos de salutar existência, mesmo contrariado pelo fechamento, comemoro a decisão, por demais acertada. Sei, por convivência, e não por ouvir dizer, que o bar é uma extensão do lar (não ligue para a chula trova), ambiente onde todos discutem e mesmo que não cheguem a qualquer conclusão se abraçam na despedida.

Chocado fiquei pelo decreto do novo fechamento – temporário, como quer o confrade Daniel Thame –, por ter me deslocado de Canavieiras a Itabuna, para conhecer o ABC da Noite pós pandemia. Dei com a cara na porta, fechada, como reclamou anos passados o também saudoso aluno repetente Tyrone Perrucho, a aparecer num dia em que o Caboclo resolveu não dar expediente por 30 dias.

Irei me redimir da falta da Confraria d’O Berimbau, sábado passado no MC Vita, e prometerei comparecer noutra efeméride de reabertura assim que passar as eleições. Como sempre, prometo me comportar como um frequentador de botequim bom de debate, discutindo com os parceiros da mesma mesa e me intrometendo nas outras, como manda o manual de boas maneiras de um aluno repetente do ABC da Noite.

E sob as bênçãos do Caboclo e dona Neusa.

Walmir Rosário é radialista, jornalista, advogado e aluno “repetente” do ABC da Noite.

Carlos Pereira, ex-militante do PCB, defende voto em Lula neste domingo (2) || Foto Ricardo Stuckert
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“Haveria grande simbolismo numa retirada da candidatura do PCB em apoio a Lula, sem perder a sua independência de classe, ideológica e política, com a preservação de seu programa e de suas bandeiras”.

Carlos Pereira Neto Siuffo

Passei um terço de minha vida no antigo Partido Comunista Brasileiro (PCB) – e isso dá muito tempo. Sofri muito com o fim da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), da qual era crítico e, por isso, fui chamado de eurocomunista. Não fui para o PPS em 1992 nem fiquei com os que reorganizaram o partido, mas costumo dizer que nunca saí e que carrego o Partidão dentro de mim.

Tenho imensa simpatia pelo atual PCB. Não digo que sou “companheiro de viagem”. Sou mais do que isso. Dou sempre o meu apoio, mesmo quando não concordo com algumas posições, mas não sou organizado nele.

Sofia Manzano é excelente quadro e, de igual modo, candidata à presidência. Levanta questões cruciais para a classe trabalhadora e o povo, apesar da imensa censura dos meios mediáticos burgueses. Repercute pouco, porém é importante. É uma semente para o futuro e a luta contínua.

A eleição que temos hoje, com toda a sua atipicidade, sobretudo a quase inexistente mobilização no campo popular, a parecer aquelas calmarias sombrias que antecedem os tsunamis, é a mais importante depois da chamada redemocratização. A maioria do povo está silente, sorumbático e contra o que está aí.

Não é uma eleição qualquer. Com muitas irregularidades e chantagens,  a disputa é marcada por uma extrema-direita organizada, mobilizada, violenta e armada. Hoje, o Brasil tem um governo militar, neoliberal, antidemocrático, antinacional – totalmente entreguista- e contra direitos sociais. Bolsonaro é o útil cavalo de Tróia.

Uma vitória de Lula em primeiro turno pode vir a ser um fato importante para o despertar das massas, chamadas às ruas para defender o seu presidente eleito. A história está cheia de episódios que despertaram e mobilizaram as classes populares.

No entanto, as candidaturas de PCB, UP e PSTU não podem ser responsabilizadas caso Lula não vença no primeiro turno. Inicialmente, porque não terão muitos votos. Creio que não chegarão a 500 mil, juntas.

Depois, porque a própria linha de campanha lulista, pouco mobilizadora, focada no centro em face das alianças, sem assumir claramente bandeiras que apelem aos interesses populares, é que terá o seu peso da responsabilidade, ainda que as últimas propagandas da campanha tenham radicalizado no confronto com o governo do inominável.

A vitória no primeiro turno é uma possibilidade e tudo deve ser feito para isso – seria um tento para as forças populares. Desse modo, dentro da realidade concreta da luta de classes, na real polarização existente contra o fascismo, haveria grande simbolismo numa retirada da candidatura do PCB em apoio a Lula, sem perder a sua independência de classe, ideológica e política, com a preservação de seu programa e de suas bandeiras.

Luta que segue!

Carlos Pereira Neto Siuffo é professor de Direito da Universidade Estadual de Santa Cruz (Uesc).

Canteiro de obras do Porto Sul, em Ilhéus || Foto Divulgação
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“Esses empreendimentos e obras podem ser a redenção para a região reconfigurar a sua inserção internacional, prover mais competitividade aos agentes econômicos daqui e atenuar a miséria e desigualdade crônicas que assolam a região”.

Henrique Campos de Oliveira || henrique.oliveira@ecossistemaanima.com.br

Como discutido na última coluna, a infraestrutura disponível para integração física internacional do sul da Bahia é defasada e desintegrada. O Porto do Malhado foi inaugurado já em descompasso com as tecnologias vigentes da época, não precisou de uma década sequer, desde o início de suas operações, para se tornar ocioso. Tal como o Porto de Salvador atualmente, não tem conexão com ferrovia, isso desde a sua concepção pelo Governo da Ditadura Militar.

Assim, recuperamos a pergunta feita há 15 dias: como os atuais projetos e empreendimentos voltados à atividade da logística internacional superam esse atual padrão de conexão com o mundo na região?

A partir de 2007, iniciou-se discussão sobre a construção de um novo porto: o Porto Sul. A principal motivação para esse empreendimento, diferente dos demais portos construídos aqui, consiste em uma atividade exógena à região. Com o aumento da cotação do minério de ferro, que saiu de 20,00 para 120,00 dólares naquele ano, a exploração da mina em Caetité se tornou viável. Mas a produção não tinha como ser escoada.

A única malha ferroviária disponível, a Ferrovia Centro Atlântica (FCA), que passa próximo à região mineradora, é defasada, ainda com traçado sob o paradigma tecnológico de trens a vapor e tem a Vale, concorrente da empresa exploradora da mina de Caetité, como exploradora da ferrovia.

O Porto Sul surge como a solução para esse gargalo logístico. Todavia, diferentemente do contexto da construção do Porto do Malhado, a proposta, que tinha a ligação da mina com o nosso litoral, inicialmente, por dutos, sofreu forte contestação.

Na primeira audiência pública do Processo de Licenciamento, os grupos locais de contestação, munidos de estudos técnicos, rechaçaram a Ponta da Tulha como o local designado pelo primeiro estudo locacional apresentado na referida audiência, em 2009.

A partir daí, com um novo estudo, numa nova audiência pública em 2011, decorrente de um processo de maior barganha e negociação com lideranças locais, decidiu-se pela atual área, em Aritaguá, mais próxima da cidade e mais antropizada. Também alterou-se substancialmente as medidas de mitigação e compensação definidas pelo EIA/RIMA, após um processo de maior aproximação e oitiva das demandas das comunidades afetadas diretamente pela obra.

Além disso, os governos estadual e federal, na época, apresentaram obras adicionais, com relações mais próximas das atividades locais, tais como: Fiol; aeroporto internacional; duplicação da BR 415; e a nova ponte do Pontal. Noutra frente, foram assegurados recursos e apoio para a lavoura do cacau, produção do chocolate e o turismo ecológico.

A ponte foi inaugurada, a Fiol já tem o trecho que liga o local do porto em construção a Brumado, cidade vizinha a Caetité, e muito se avançou na agregação de valor das cadeias do cacau e do turismo. Houve até o recente alargamento da BR-415. No entanto, o aeroporto internacional ainda não saiu do papel, e a Fiol tem sua integridade comprometida, podendo se tornar uma estrada de ferro exclusiva para escoar minério.

Iremos tocar em cada um desses desafios nas próximas colunas. Repensar essas obras é vital para não repetirmos o erro da construção de obras com dispêndio volumoso de recursos públicos e forte impacto ambiental, tal como o Porto do Malhado, para que não se limitem ao simples escoamento de commodities.

Esses empreendimentos e obras podem ser a redenção para a região reconfigurar a sua inserção internacional, prover mais competitividade aos agentes econômicos daqui e atenuar a miséria e desigualdade crônicas que assolam a região.

Diferente do que experimentamos com a ditadura miliar, que deixou como legado essa precária infraestrutura disponível, o contexto democrático nos permite cobrar, seja por voto ou vias institucionais, que os erros do passado não se repitam no presente.

Henrique Campos de Oliveira é ibicariense, doutor em Ciências Sociais pela UFBA e professor do Mestrado em Direito, Governança e Políticas Públicas da Unifacs.

Erí em ação em evento na Ceplac || Foto Águido Ferreira
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O brilhantismo do desempenho profissional de Erí junto às pessoas o credenciou a chefiar a área de relações públicas, planejando e organizando eventos sobre a cadeia produtiva do cacau.

Walmir Rosário

Costumo dizer – constantemente – que as instituições somente sobreviverão se forem maiores do que os homens que a servem – ou dela se servem –, do contrário estão fadadas ao descrédito e ao fechamento. Por outro lado, tenho plena consciência da importância dos homens no desempenho das instituições, desde atuem como motores ao impulsionar as ações. Ou seja, as instituições são as próprias pessoas.

Parece muito confuso e por demais burocrático esse pensamento, mas se torna simples desde que partamos do princípio de que a instituição deve transcender aos indivíduos pela função social que exerce na sociedade. Como dizia Platão, a virtude de um objeto está no seu bom desempenho, portanto, os homens que fazem parte da instituição devem trabalhar pela razão direta da instituição, sua missão e objetivos.

Uma das instituições a que tenho dedicado muita tinta e espaço é a Ceplac, que, como tudo na vida, tem o seu tempo de utilidade, principalmente as governamentais, sujeitas à ideologia e à boa vontade dos governantes da época. Apesar das dificuldades inerentes à administração, dirigentes e funcionários de carreira podem – e até devem – fazer a diferença, como se criassem um ilha às avessas.

Na Ceplac chega a ser difícil nominar esses funcionários abnegados, que se destacam pela dedicação no ambiente de trabalho, mesmo com todas as dificuldades inerentes ao desempenho das atividades. E esse comportamento é próprio da índole de cada um. Existem os que se fingem de “mortos”, ignorando tudo que se passa ao redor; já outros conseguem superar todas as dificuldades para oferecer um trabalho de qualidade.

Como é impossível destacar essa legião de pessoas interessantes, tomo como representante o funcionário Erivaldo Souza (Erí), prestes a completar 44 anos de trabalho, com fôlego e disposição para outro tanto. Erí é um dos funcionários da linha de frente da Ceplac e exerce suas atividades na área de relações públicas na organização de feiras, eventos nacionais e internacionais, além do atendimento aos visitantes à sede na Bahia.

E não pode falhar no desempenho das suas atividades, já que representa a Ceplac, durante anos a maior instituição de pesquisa, extensão e ensino profissionalizante sobre cacau no mundo. E Erivaldo soube aproveitar todas as oportunidades, desde a primeira, quando, em 1978, foi classificado em primeiro lugar num concurso para office boy, exercendo o cargo com maestria.

Mas o cargo era muito pequeno para quem pretendia alçar voos mais altos e ganhar o mundo. Cinco anos se passaram e Erí, um exemplar servidor público, acreditou que era hora de se tornar um comissário de bordo da Varig, atendendo pessoas de todas as nacionalidades. Para tanto, estudou inglês com afinco e se sentia seguro do futuro projeto. Entretanto, seu pedido de demissão foi desconsiderado e uma nova oportunidade apresentada.

Do escritório de extensão de Ilhéus, foi transferido para a sede regional, que abrigava a direção da Bahia e Espírito Santo, e os profissionais que produziam – e ainda produzem – conhecimento científico. Seu conhecimento de inglês tomou novo impulso ao participar de um curso da língua de William Shakespeare, destinado às secretárias e aos pesquisadores. Por merecimento, tornou-se o melhor aluno do curso.

Se brilhava nas atividades profissionais e correlatas, a alma continuava pedindo novos rumos, de preferência num avião da Varig cruzando os continentes. Mais uma vez foi convencido pelos superiores de que seu lugar era na Ceplac. O diretor do Departamento de Extensão lhe fez nova proposta, para que escolhesse o local de sua preferência pelo tempo necessário. E Erí aceitou.

Só que agora não pleiteou uma capital, foi prestar serviço em Lajedão, uma pequena cidadezinha no extremo-sul da Bahia, na divisa com Minas Gerais, também na área de comunicação. Era o responsável pela operação de rádio, onde eram transmitidos os memorandos e outros documentos entre a direção da Ceplac e o pequeno escritório. Oito meses depois, sente a necessidade do aperfeiçoamento profissional e retorna à sede.

Imediatamente ingressa no curso de Letras (com ênfase em inglês) da antiga Fespi, hoje Uesc. Se a academia lhe dava os conhecimentos teóricos, sua nova atividade na Ceplac lhe deu, definitivamente, régua e compasso, com a oportunidade de trabalhar com pesquisadores da Indonésia, Tailândia, Sri Lanka, Índia, Japão, China, Camarões e Nigéria, que estudavam a doença “mal das folhas” da seringueira.

Irrequieto, como sempre, chega a hora de Erí conhecer parte do mundo e Erivaldo requer uma licença e vai conhecer a Suíça, Inglaterra, Itália, França e Israel, adquirindo experiência com a população do velho continente e do oriente médio. Em seguida, retorna ao Brasil, com bem mais conhecimento do idioma inglês, francês e até o hebraico, e passa a receber os visitantes nacionais e internacionais.

O brilhantismo do desempenho profissional de Erí junto às pessoas o credenciou a chefiar a área de relações públicas, planejando e organizando eventos sobre a cadeia produtiva do cacau, no âmbito nacional e internacional. Essa é parte da trajetória de um homem, um profissional, que não pensa em aposentadoria e soube pavimentar o seu caminho com dedicação, inteligência e elegância no trato com as pessoas.

Um gentleman!

Walmir Rosário é jornalista, radialista e advogado.

Lula e Ciro em encontro no final de 2020: petista pode seduzir eleitor do adversário com propostas
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Mesmo sem apoio do pedetista, que, naturalmente, não vai declarar voto no adversário, o exemplo do acordo com Marina mostra que Lula pode piscar para o eleitorado de Ciro com recursos mais sedutores do que o mero apelo ao voto útil.

Thiago Dias

Ciro Gomes é dos melhores quadros políticos do Brasil, como provou nas oportunidades em que esteve à frente de cargos importantes. Seu poder analítico e sua capacidade propositiva são raros. Conhece os problemas históricos do Brasil e tem propostas factíveis para superá-los, ainda que sujeitas a críticas à esquerda, das quais nenhuma chapa com Alckmin na vice poderia escapar.

Ressalto dentre essas críticas a ilusão de que a burguesia do Brasil, que presta continência à bandeira norte-americana, tenha qualquer interesse num Plano de Desenvolvimento Nacional, título da obra que reúne as propostas de Ciro – a caricatura viva da burguesia pátria é o Véio da Havan vestido de Louro José diante de uma réplica da Estátua da Liberdade!

Feita a ressalva, passo a quatro temas recorrentes no discurso do pedetista: justiça tributária, fim do teto de despesas com serviços básicos do Estado, regulação do sistema financeiro e mudança da política de preços da Petrobras.

Alguém contesta a necessidade de o país superar o caráter regressivo do seu sistema tributário? Eis a essência da reforma tributária proposta por Ciro.

Quem duvida da insustentabilidade de um teto de gastos que estrangula os já precários serviços públicos, enquanto as despesas com os serviços da dívida são as únicas sem limites?

Como discordar da constatação de que o sistema financeiro do país é oligopolizado, que impõe juros escorchantes num mercado de concorrência simulada e que, portanto, precisa ser regulado juridicamente e pressionado por fortes bancos estatais?

Até quando estados e municípios pagarão a conta para que a Petrobras mantenha patamares elevadíssimos de lucros para os acionistas, sem que isso implique em obrigar o brasileiro a pagar mais de 7 reais pelo litro da gasolina? Esse é um tema que saiu do radar momentâneo, mas voltará à baila na virada do ano.

O consenso sobre a necessidade de tais medidas, em qualquer debate honesto, deveria ser o ponto de partida da política nacional a partir de 2023, ao invés do rebaixamento da agenda a uma defesa da democracia em termos abstratos, que tem seu valor tático, mas é extremamente limitada para a luta da classe trabalhadora em meio ao tensionamento do conflito redistributivo.

Também é de Ciro a defesa de que o debate político supere o culto personalista e passe à discussão de projetos. O lado cruel dessa atitude republicana é que ela força o seu defensor a admitir que suas boas ideias podem ser aproveitadas pelo seu adversário político, neste caso, Lula, se o petista for eleito presidente pela terceira vez.

Dito isso, retomo a obviedade do título desse comentário. Se boa parte dos eleitores de Ciro está mais interessada na realização das reformas que ele propõe do que na vitória eleitoral do pedetista, racionais, esclarecidos e republicanos que são, é de se esperar que uma fatia considerável deles recebesse com bons olhos um compromisso de Lula com a agenda cirista.

Guardada a diferença crucial entre os contextos, algo parecido ocorreu com Marina, já que os eleitores da ex-ministra são instados a votar em Lula sob o apelo de um acordo programático em defesa de políticas ambientais.[

Mesmo sem apoio do pedetista, que, naturalmente, não vai declarar voto no adversário, o exemplo do acordo com Marina mostra que Lula pode piscar para o eleitorado de Ciro com recursos mais sedutores do que o mero apelo ao voto útil.

Thiago Dias é repórter e comentarista do PIMENTA.

Henrique Oliveira fala sobre história e desafios da integração física do sul da Bahia com o mundo
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O sul da Bahia não saiu ileso desse processo. O projeto de uma ferrovia sobre a antiga estrada de chão que ligava o nosso litoral a Minas Gerais, passando por Vitória da Conquista, foi substituído pelo predomínio das rodovias.

Henrique Campos de Oliveira || henrique.oliveira@ecossistemaanima.com.br

O movimento pela inserção internacional do sul da Bahia como santuário da Mata Atlântica perpassa, invariavelmente, por sua conexão física com o mundo. Não adianta elucubrar sobre projetos e ações envolvendo a internacionalização de seus produtos e serviços, se não tivermos meios de transporte, principalmente, para prover competitividade e previsibilidade à nossa presença nos mercados nacionais e internacionais.

Como a história nos ajuda a (re)pensar as formas como viemos e aspiramos nos integrar?

Inicialmente, no final do século XIX, as sacas de cacau eram concentradas no leito do Rio Cachoeira, na altura do Banco da Vitória, e embarcadas em canoas até um trapiche no Malhado, de onde seguiam de navio para Salvador.

Com a expansão da exportação do cacau, veio a construção do primeiro porto de Ilhéus, no Pontal, com tentativas de construção datadas de 1909, com atuação protagonista de Antônio Berílio de Oliveira. Sob muita contestação de interesses ligados à capital baiana, sua conclusão só se deu em 1926.

Desde 1911, sob exploração da South Western Rail Way Company Limited, já existia a ferrovia que ligava Ilhéus a Uruçuca. Originalmente, o elo foi pensado para conectar o litoral ilheense a Vitória da Conquista.

Quando a indústria automobilística avança e as ferrovias trocam a maria-fumaça por locomotivas movidas a combustão, há uma inflexão na forma do transporte terrestre de carga, principalmente. Nesse contexto, ocorre uma mudança no planejamento e na implementação de políticas de transporte no país, com fortes impactos na nossa região. De 1930 a 1980, a malha ferroviária brasileira é substituída por rodovias.

Há uma convergência de fatores que nos ajudam a compreender esse fato. A transição da malha ferroviária para o novo paradigma tecnológico de combustão implicava em muito gasto, porque, além das locomotivas, essa substituição exigia que fossem alterados os traçados das estradas de ferro. Era preciso suprimir curvas fechadas e aclives acentuados para garantir segurança ao movimento da composição extensa dos comboios de vagões puxados por trens movidos a diesel.

Também avia pressão significativa da indústria automobilística para a construção de estradas que viabilizassem a comercialização de carros e caminhões. A construção de estradas era – e ainda é – mais barata do que a de ferrovias. Além do mais, o modal rodoviário atendia à necessidade estratégica de garantir a integração física nacional, ao dar mais flexibilidade ao transporte terrestre, permitindo operações porta a porta.

De Getúlio Vargas aos militares, a nossa matriz de transporte saiu de uma predominância ferroviária para rodoviária, na contramão do que ocorria nos países desenvolvidos de dimensão continental.

O sul da Bahia não saiu ileso desse processo. O projeto de uma ferrovia sobre a antiga estrada de chão que ligava o nosso litoral a Minas Gerais, passando por Vitória da Conquista, foi substituído pelo predomínio das rodovias.

Com isso, o porto do Pontal perdeu a sua integração ferroviária. Além do mais, Já no início dos anos 1940, o porte dos navios não condizia com a profundidade do canal entre a Praia do Cristo e o Morro de Pernambuco, hoje à sombra da ponte Jorge Amado.

Daí surgiu a ideia do Porto do Malhado, que entra em disputa com outra alternativa, a construção do Porto de Campinhos, na Baía de Camamu, próximo do refúgio turístico de Barra Grande. Esse porto seria usado como base para o envio de material para a construção de Brasília, via BR-030, sem pavimentação até hoje.

Para a sorte da conservação da fauna e flora da Baía de Camamu, nessa competição, sob forte influência de cacauicultores e políticos locais, os recursos do Banco Mundial foram destinados à construção Porto do Malhado.

O projeto original era construir, junto com o distrito industrial de Ilhéus e com as empresas transnacionais moageiras, o polo logístico e produtivo do cacau. Todavia, o porto inaugurado em 1972 já se mostrava defasado e ocioso em 1978, constituindo-se como mais um item da coleção de elefantes brancos do governo militar.

Ao longo do letárgico e conturbado processo de construção do novo porto, o cacau era transportado pelo serviço de alvengarias, chatas, entre o porto do Pontal e os navios atracados no mar aberto, diante da Avenida Soares Lopes. Acidentes eram comuns, com perdas significativas de carga. As exportações eram registradas por Salvador. As casas exportadoras da capital e aqueles que exploravam o serviço de alvengaria ganhavam, a região perdia.

O Porto do Malhado foi construído sem integração ferroviária e com um aparelhamento defasado, sem contar o impacto ambiental, que intensificou a erosão na orla norte de Ilhéus e o assoreamento da Praia da Avenida.

O mundo começava a usar contêineres para movimentar cargas. Assim fizeram as empresas de beneficiamento do cacau do também recente Distrito Industrial de Ilhéus. Os derivados simples das amêndoas de causa – manteiga, pasta, licor etc. – eram compartimentalizados em tuneis e transportados por contêineres, circulando por rodovias, até o escoamento portuário via Salvador e Santos.

Para completar esse cenário, em paralelo à infraestrutura de transporte terrestre e marítima, o aeroporto de Ilhéus foi construído para receber aviões da década de 1940 e não recebeu melhorias capazes de adaptá-lo à evolução das aeronaves.

As decisões políticas e econômicas que orientaram a trajetória resumida acima impõem os seguintes questionamentos. Aprendemos com as lições do passado? A construção do Porto Sul e da Ferrovia de Integração Oeste-Leste (Fiol) confere ao sul da Bahia a superação do perfil defasado e limitado da sua integração física com o mundo?

Pretendo discutir essas questões na próxima coluna, ao comparar esses projetos com o que já vivenciamos, tendo como horizonte a centralidade da conservação da Mata Atlântica e a ruptura com a repetição de padrões do planejamento espacial da nossa região. Desde já, agradeço pelas eventuais comentários ou provocações dos leitores e leitoras.

Henrique Campos de Oliveira é ibicariense, doutor em Ciências Sociais pela UFBA e professor do Mestrado em Direito, Governança e Políticas Públicas da Unifacs.

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A cidade de Ilhéus, cenário da Feira, parecia sair dos livros de Jorge Amado e alcançar o mundo do leitor.

Efson Lima | efsonlima@gmail.com

Há grande quantidade de feiras e festivais literários na Bahia. Muitas dessas ações literárias partem de iniciativas voluntárias. As pessoas se juntam e buscam o apoio privado e/ou recurso público para subsidiar a realização dessas exposições literárias. A pandemia de Covid-19 estabeleceu um período sabático presencial para alguns deles, mas, felizmente, não conseguiu impor sua extinção.

Agora, em 2022, os festivais e feiras reaparecem com o brilho de uma vasta produção literária e com grande número de leitores interessados neles. Esses encontros aglutinam o público e reúnem diferentes linguagens: música, teatro, dança e artes plásticas. Indubitavelmente, organizadores e público estavam esperando o retorno desses eventos para comemorar e se reencontrar com a literatura fora do ambiente caseiro. Por sinal, a Bienal do Livro em São Paulo, ocorrida em julho último, teve volume considerável de vendas e número significativo de visitantes, registrando recordes.

Trago à lume a Feira Literária de Ilhéus (FLI) ocorrida no mês de julho. Nela, pude participar ativamente e apreciar a presença de alguns escritores de impacto nacional, como Viviane Mosé e Jeferson Tenório. A FLI foi organizada pela Academia de Letras de Ilhéus e pela Editora da Universidade Estadual de Santa Cruz (Editus). O evento teve lançamento de livros, concurso de obra literária (Prêmio Sosígenes Costa) e o envolvimento de escritores na maratona literária.

A FLI foi uma junção de linguagens e de propósitos, cujo emaranhado foi conferindo sentido ao evento à medida que as mesas, oficinas, shows, a gritaria da criançada e as perguntas do público se entrelaçavam. A cidade de Ilhéus, cenário da Feira, parecia sair dos livros de Jorge Amado e alcançar o mundo do leitor.

A realização dos festivais literários não se estancou na Bahia e, neste mês de agosto, já ocorreram o Festival de Praia do Forte e o Festival de Canudos (Flican). As articulações para a concretização da tradicional Feira Literária de Cachoeira (Flica), que vai ocorrer em setembro, estão a todo vapor; assim como para a Festa Literária de Uauá, no sertão da Bahia; e o Festival Literário Sul – Bahia (Flisba), em novembro, na cidade de Itajuípe, e, pela primeira vez, será de forma presencial, mas ainda com transmissão via internet.

Ainda teremos a Festa Literária Internacional do Pelourinho (Flipelô), também programada para novembro. E já se divulga a primeira edição da Festa Literária de Serra Grande, que promete se tornar um grande festival literário na biosfera da Mata Atlântica.

Efson Lima é mestre e doutor em Direito pela UFBA e membro da Academia de Letras de Ilhéus (ALI) e da Academia Grapiúna de Letras (Agral).

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Esse é um caminho sem volta, um carro sem freio, a chama de um fósforo se espalhando em um canavial. Se a atual gestão não fizer os ajustes necessários, a próxima fará.

Aderson Marcelo Borges || adersonmarcelo@hotmail.com

A Secretaria Municipal de Educação (Seduc) e o prefeito de Ilhéus subestimam a inteligência dos professores contratados. Essa é a realidade de uma gestão que ainda se pauta em uma forma atrasada de gerir, pois Ilhéus nunca conseguiu se libertar do coronelismo político. Para comprovar o que digo, vamos aos fatos.

Quando o atual prefeito foi reeleito, em 2020, era práxis das diretorias dos colégios municipais arrebanhar os professores contratados em grupos de WhatsApp. Os mesmos eram cotejados e impelidos a vestir camisas amarelas para subir os morros da cidade e a visitar os distritos, para engrossar as comitivas do prefeito. Alguns eram convidados até a plotar seus automóveis com propaganda eleitoral. Em resumo, o prefeito fazia uso de um poder que lhe foi conferido democraticamente pela população da cidade para se utilizar dos funcionários no sentido de pressioná-los a aderir à sua campanha.

Uma nuance que caracteriza a política coronelista é o voto de cabresto, o que ocorreu nas eleições de 2020 em Ilhéus. No entanto, agora vivemos um tempo em que um novo movimento se faz presente na mentalidade dos professores contratados. Embora muitos não se manifestem, por temor de colocar em risco seus empregos, o que é justo, porque todos têm suas contas para pagar e suas famílias para sustentar, a imensa maioria desses professores abriu os olhos. Eles estão se valorizando e a insatisfação cresce com o tratamento que a Prefeitura de Ilhéus tem lhes dado.

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Vinculado ao nosso ecossistema, o valor intrínseco da região não deve se resumir ao chocolate – agora não mais só cacau – nem ao turismo. Há que se ampliar esse portfólio.

Henrique Campos de Oliveira – henrique.oliveira@ecossistemaanima.com.br

A nossa região foi forjada na medida em que se internacionalizava via exportação cacaueira, do fim do século 19 à primeira metade do século 20. Tudo mudou desde então, mas aqui predomina a visão limitada de que o cacau é o principal recurso do Litoral Sul para acessar mercados internacionais. Num mundo acelerado e devastado, a nossa vantagem competitiva e estratégica não reside no valor de um produto, mas no valor do nosso ecossistema: a Mata Atlântica.

O cacau sul-baiano encontrou condições formidáveis para o seu cultivo, aproveitando a umidade ideal da Mata Atlântica para chegar à produtividade máxima de 60 arrobas por hectare na década de 1980. Como numa relação simbiótica atravessada pela economia, a produção cacaueira não devastou a mata, que lhe retribuía por isso com  uma estufa natural com ótimos índices de produtividade.

Essa relação se altera com a chegada da vassoura de bruxa, que afeta justamente a produtividade da planta. Mas a Mata Atlântica daqui, das mais diversas do mundo, manteve-se preservada a ponto de propiciar paisagens cinematográficas tal como encontramos nas enseadas das praias de Itacaré, com a mata verde-vivo cobrindo rochas banhadas pelo mar azul do Oceano Atlântico, a curvatura da Terra no horizonte infinito, num belo dia ensolarado.

A degradação de ecossistemas e a desumanização da vida urbana transformaram a estadia em lugares como o descrito acima numa experiência sem preço – ou com um bem alto. O anseio por tal vivência se massificou nos anos 1990, quando, também, contou com o avanço da vassoura de bruxa, que trouxe consigo a pressão sobre a mata. Boa parte da lavoura cacaueira desapareceu para que a terra fosse desmatada para extração de madeira ou ocupada pela pecuária, além da contraditória pressão imobiliária do próprio turismo.

Portanto, a cacauicultura foi um dos principais motivos para a preservação do nosso maior bem e não o contrário. Mas a preservação é ameaçada quando o cacau não mais se sustenta e sua produção é substituída por atividades que, normalmente, geram mais desmatamento e degradação.

Todavia, a consciência socioambiental na região cresce mesmo em um contexto de crise, que afeta um território marcado por desigualdade e miséria. Instituições como UESC, Ceplac, UFSB e movimentos como o da Agência de Desenvolvimento Regional Sul da Bahia, reportado pelo PIMENTA, evidenciam a consciência de que a mata é o nosso maior bem.

Além disso, a nossa região tem capacidade de competir com produtos e serviços ligados à sustentabilidade da Mata Atlântica devido aos avanços em políticas de valorização do salário real, de distribuição de renda e demais garantias e direitos constitucionais que constrangem o trabalho análogo ao escravo e infantil.

Costa do Marfim, Gana, Equador, Venezuela e demais países produtores de cacau enfrentam obstáculos maiores para obter certificações e selos de sustentabilidade socioambiental, justamente porque não produzem no sistema cabruca. Ao mesmo tempo, as populações desses países não dispõem de garantias constitucionais e políticas públicas tais como encontramos aqui em prol do trabalho descente.

Ainda temos o turismo vinculado à sustentabilidade e o avanço na qualificação de produtos agrícolas com a verticalização da cadeia produtiva do cacau. Deixamos de ser meros fornecedores de amêndoa ou bens intermediários e insumo da cadeia alimentícia, como a banha e a manteiga de cacau fornecidas pelas moageiras instaladas em Ilhéus desde a década de 1970, para nos destacarmos como fornecedores de chocolate com certificação de origem e com premiações internacionais de qualidade.

Vinculado ao nosso ecossistema, o valor intrínseco da região não deve se resumir ao chocolate – agora não mais só cacau – nem ao turismo. Há que se ampliar esse portfólio.

CERTIFICAÇÕES E INTERNACIONALIZAÇÃO

Como já dito, estruturalmente, a região preenche requisitos para conseguir selos de certificação e acessar nichos de mercado fechados. Há selos de todo tipo, como o Hallal para produtos adequados às exigências islâmicas ou o Koscher para judeus. Recentemente, tivemos um boom de selos de sustentabilidade, orgânicos e produtos com erradicação de trabalho análogo ao escravo ou infantil. Há um selo específico para a preservação da Mata Atlântica, o Follow the Frog.

Atender a essas especificações é um caminho paralelo a ser percorrido também para responder às exigências técnicas de mercados com rigorosos procedimentos para importação, como o norte-americano, o europeu e o japonês. Tudo isso requer capacidade técnica nos processos produtivo e logístico, além de recursos públicos e do terceiro setor para o avanço em questões socioambientais.

COOPERAÇÃO TÉCNICA E FINANCEIRA PARA MUNICÍPIOS E ATIVIDADES PRODUTIVAS

Com o intuito de conseguir apoio técnico e financeiro para internacionalização de negócios sustentáveis, uma série de organizações internacionais, agências e fundos de fomentos empregam recursos para capacitar potenciais exportadores. É o caso da Ajuda Oficial para o Desenvolvimento, que disponibiliza recursos tanto para projetos vinculados à internacionalização de uma cooperativa, como acesso a recursos por parte de municípios para despoluírem rios.

Além da obtenção de certificados, esse apoio permite o acesso a mercados específicos, sempre dispostos a pagar mais para ter uma consciência mais tranquila na hora de degustar uma fruta tropical.

INFRAESTRUTURA LOGÍSTICA

A região, a Bahia e o país sofrem com uma infraestrutura precária, defasada e desintegrada. Além de custos maiores, essa fragilidade gera imprevisibilidade, o terror para o planejamento logístico, principalmente, para produtos perecíveis, como os da fruticultura tropical. Assim, a região, mais do que um porto para minério, carece do já prometido aeroporto internacional, que abrigue, na sua poligonal alfandegária, armazéns comuns e refrigerados para acomodar os produtos da região.

Além do mais, tal aeroporto permitiria a conexão de voos diretos da região, favorecendo o turismo. Do mesmo modo, seria necessário garantir linhas aéreas para os principais centros dos mercados-alvos, como Los Angeles, Nova York, Frankfurt e Tóquio. Como se sabe, um mel de cacau ou um mangostão pode estar disponível na mesa de um nova-iorquino mais rápido do que na mesa de um paulista sem a mesma disposição monetária comprar esses produtos.

Nesta coluna, quero discutir a internacionalização do Litoral Sul da Bahia com foco na Mata Atlântica. Pretendo detalhar, nas próximas edições, pontos tratados aqui de forma panorâmica. A intenção é provocar um debate e propor soluções que nos desloquem de uma posição passiva na cadeia global de alimentos para uma posição altiva na cadeia global sustentável.

Henrique Campos de Oliveira é ibicaraiense, doutor em Ciências Sociais pela UFBA e professor do Mestrado em Direito, Governança e Políticas Públicas da Universidade Salvador (Unifacs).

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A nossa bandeira permanecerá sob o vento democrático e estará nas mãos dos que lutam por um país plural, por uma nação.

 

Rosivaldo Pinheiro

As eleições são sempre momentos para testar e melhorar o sistema eleitoral e validar o processo democrático. O Brasil se destaca no mundo pela segurança e rapidez no processamento dos resultados eleitorais, mesmo com a nossa extensão territorial e os diferentes contextos regionais. Desde o início do uso das urnas eletrônicas, o país experimenta contínuo destaque. A cada eleição, aprimora a rotina de apuração e consegue declarar o vitorioso na corrida presidencial poucas horas após o encerramento da votação. Essa realidade não é diferente para os resultados dos estados e também nas eleições municipais.

O sistema das urnas eletrônicas veio para ficar e, a partir do seu uso, algumas intervenções que afetavam os resultados deixaram de existir, uma vez que as manobras na hora da contagem das cédulas, no sistema antigo, aconteciam sob o beneplácito de uma estrutura viciada e à disposição dos poderosos no conhecido voto de cabresto. Hoje, diferentemente daquela época, essas vulnerabilidades foram superadas, ao que pese o poder econômico manifestado através do poder político ainda exigir ajustes por parte da justiça eleitoral.

No tocante ao processo eleitoral das contagens de cédulas, podemos lembrar sem muito esforço de pelo menos um episódio de grande repercussão: a virada de resultado de Valdeck Ornelas sobre Waldir Pires na Bahia, para o Senado em 1994. À época, três candidatos concorriam a duas vagas: Antônio Carlos Magalhães, Valdeck Ornelas e Waldir Pires. A primeira vaga já se sabia que seria de ACM. Já a segunda, de acordo com as pesquisas, seria de Waldir Pires. Iniciada a contagem eleitoral, Waldir abriu 50 mil votos de frente sobre Valdeck.

No fim da contagem das 8.389 urnas, em 1.400 delas Valdeck Ornelas obteve mais votos que ACM, sendo eleito como segundo senador com 3.014 votos a mais que Waldir. Esse fato ficou conhecido como “O Milagre Baiano”, representando uma clara certeza de que houve manipulação do resultado e, face à força de ACM, foi validada, mesmo com os recursos interpostos por Waldir. Chamou a atenção, mas valeu o resultado porque quem comandava as regras do jogo era o velho ACM, conhecido pela imposição da força e o controle sobre os poderes baianos.

Por essas e outras, é descabido o desejo do atual presidente da República de pedir a volta do voto impresso, sendo ele e os seus filhos eleitos várias vezes sob o sistema das urnas eletrônicas. Por força da condução da Justiça Eleitoral e por defesa do Supremo Tribunal Federal (STF), a urna eletrônica será mantida, e o nosso avançado sistema tecnológico seguirá o seu curso. O povo brasileiro, na sua ampla maioria, disse em alto, claro e bom som confiar na Justiça Eleitoral e nas urnas eletrônicas, conforme a última pesquisa, na qual 79% dos brasileiros disseram acreditar nas urnas, e 75% afirmaram apoiar o sistema democrático, indo na mesma direção da classe empresarial e dos trabalhadores, que, juntos, assinaram a carta em defesa da democracia.

Com essas manifestações, o presidente da República, que pregava fazer um ato no próximo dia 7 de Setembro (Dia da Independência) para impor a sua vontade sobre as instituições e exigir mudanças no processo de apuração dos votos, percebeu que não haverá espaço para golpismo, e que o Brasil atual não aceitará emudecido o atropelo da ordem democrática e nem permanecerá sob o domínio do obscurantismo. A nossa bandeira permanecerá sob o vento democrático e estará nas mãos dos que lutam por um país plural, por uma nação.

Rosivaldo Pinheiro é economista, especialista em Planejamento e Gestão de Cidades (Uesc) e comunicador.

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Foi uma pena quando chegamos em Curitiba, nosso destino da viagem. Estou rezando para que nosso retorno coincida com os dos nossos novos amigos de viagem, para que possamos aprender bem mais sobre os modos de vida.

 

Walmir Rosário

Estou em viagem. Nem mesmo posso saber que dia voltarei para casa, em Canavieiras. Paraná e Santa Catarina no roteiro planejado para rever filhos e netos, como fazemos – eu e minha mulher – frequentemente. Esta viagem tem, pelo menos, duas particularidades diferentes. A primeira é que, com a pandemia, ficamos mais de dois anos em casa, aguardando tempos melhores para viajar com segurança.

A segunda é que resolvemos inovar – ou retroceder, a depender do ponto de vista – escolhendo o ônibus como meio de transporte. E não foi por livre escolha, mas pela dificuldade de conexões e muita bagagem. Teríamos que parar para dormir – nem que fosse no aeroporto – e seguir viagem no dia seguinte, o que consideramos um trambolho. De ônibus, ao chegar em Curitiba, descíamos e subiríamos em outro para Ponta Grossa.

Ao informar aos amigos sobre o meio de transporte escolhido, eu era visto como um ser atrasado, ao ter que suportar horas e horas sentado numa poltrona e ver a paisagem pela janela, sem contar nos atrasos nas paradas. Ah! Até nisso inovamos! O nosso ônibus – de carreira – chegou na rodoviária com três horas de atraso, tempo em que aguardamos pacientemente para não nos aborrecer.

Mas até que não foi, de todo, ruim. Conhecemos uma colega advogada e matamos o tempo num alegre bate-papo. Às 21 horas saímos de Itabuna, todos quietos como manda o protocolo, até que conhecêssemos uns aos outros. Ao raiar do dia, só ouvíamos, estudando cada um dos companheiros que teríamos por longas 36 horas desta longa, interminável viagem.

Como disse no título, faço questão de ressaltar que não se tratava apenas de um apelo chamativo, mas sim a expressão da verdade, constatada ao vivo e em cores. De repente, parecia que estávamos num boteco, ambiente em que você passa a ter amigos de infância, construídos em pouquíssimo tempo. Parece até promessa de político em ano eleitoral, do tipo 40 anos em quatro.

Chamou-nos atenção um casal de aposentados – como nós – de conversa fácil e variada. De pronto nos sentimos convidados a passar uns dias em seu sítio em Curitiba, experimentando as frutas, comendo os legumes e verduras, tirados da horta na hora de comê-los. Pelo jeito que descreveu o seu fogão a lenha, me senti assando uns pinhões na chapa, lavando a goela com uma boa cachaça e cervejas artesanais curitibanas.

Mas foi aí que minha mulher – persentindo o meu sonho – me segredou ao ouvido: “Você esquece que o casal professa a religião Batista, portanto não aprecia e nem consentirá esses devaneios em sua casa?”. Bastou essa pergunta para refrear meus instintos festeiros. O jeito era deixar uma programação como essa para outras paragens, a exemplo das casas dos filhos e netos.

Foi aí que descobri que nossos novos amigos iam além do que pareciam ser: gostavam da boa comida e declamaram receitas que iam da rabada ao mocofato, de uma boa salada aos peixes e camarões, me deixando com água na boca, ou melhor, babando. Mas concordei com eles quando descreveram as propriedades do arroz integral, aconselhando a não comê-lo por mais de três dias, pois faria mal ao estômago (…) será?.

Após ter tirado um leve cochilo, percebi que nossos novos amigos – com um casal que embarcou em Vitória, no Espirito Santo – também tinham amplo conhecimento na área da medicina, dada a intimidade com os medicamentos. Aprendi muito com os remédios para equilibrar a pressão, quais os mais caros e os mais baratos; aconselhando-nos a substituí-los pelos chás. Anotei duas páginas deles em meu caderno, apesar de não tomá-los.

E aí foi que os dois casais se entusiasmaram e passaram a descrever as maravilhas dos medicamentos para hipertensão, diabetes, artrites, artrose e colesterol. Neste ponto o debate ficou animado, parecendo que apresentavam as brilhantes teses de doutorando e pós-doutorado, com as devidas recomendações para que os incautos pacientes não se viciassem nos medicamentos, muitos deles perigosos. Ouvi tudo com bastante atenção.

A cada parada, nos aconselhavam o que comer, dadas as especialidades do restaurante, nem sempre de boa valia, pois acreditei que eram especializados em nos oferecer algo mais sem gosto a cada viagem. Na minha próxima viagem levarei o meu farnel, sem dispensar uma farofa de frango assado na televisão de cachorro, uns sanduíches de mortadela e queijo, e, quem sabe, ovos cozidos com sal e pimenta-do-reino.

Mas nem sempre tudo corre às mil maravilhas. Senti-me profundamente emocionado quando um deles contava vantagens sobre seu modo de vida, confessando sua grande decepção: não saber dirigir. E seu desespero aumentava quando lembrava dos incentivos de sua mãe para que aprendesse a as artes do volante. Quase chorou quando sua mulher jogou na sua cara: “Não dirige nem carrinho de mão”.

Foi uma pena quando chegamos em Curitiba, nosso destino da viagem. Estou rezando para que nosso retorno coincida com os dos nossos novos amigos de viagem, para que possamos aprender bem mais sobre os modos de vida. Com mais duas viagens dessas posso pedir à empresa de ônibus que nos conceda os honrosos títulos de PhD, mesmo que sejam honoris causa. E seremos felizes para sempre.

Walmir Rosário é radialista, jornalista e advogado.

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O Itabuna fez 11 e o adversário apenas 1, o de honra. Se é que um gol honra um time que leva 11 ou uma seleção que toma sete.

 

Marival Guedes | marivalguedes@yahoo.com.br

Em 1969 uma jovem conheceu, numa festa/exposição, integrantes dos Novos Baianos. Gostou e tomou uma decisão tão louca quanto o grupo: abandonou o curso de Comunicação na USP, família que morava num confortável casarão, amigos e estágio. Partiu junto.

Marília Aguiar não tocava nem cantava. Mas, nesta aventura, muito ajudou na administração 1979, quando o grupo se separou. Ela relata a experiência no livro Caí na Estrada com os Novos Baianos (ed. Agir), prefácio de Zélia Duncan e posfácio de Paulinho Boca de Cantor.

Um dos capítulos é sobre um jogo contra o Itabuna. No retorno de Salvador ao Rio, no final do carnaval de 1973, o dinheiro já estava acabando quando passavam na cidade. Então lembraram de um amigo fazendeiro.

Marília não entra em detalhes, mas o fazendeiro era Reinaldo Sepúlveda e quem fez o contato foi o repórter fotográfico Mário Queiroz, produtor do grupo na Bahia e amigo de Reinaldinho.

Na fazenda Amaralina, ela diz “que surgiu uma proposta bizarra”, marcar uma partida contra o Itabuna. Lembra que, “além da música, os Novos Baianos eram apaixonados por futebol. Tinha até time, o NBFC-Novos Baianos Futebol Clube e acreditavam que eram craques”. Doce ilusão.

Mário conversou com o então presidente do Itabuna, o advogado Gervásio José dos Santos, e ficou combinada a realização da partida com a renda dividida, 50% para cada equipe. A divulgação foi ampla e o estádio, a Desportiva Itabunense, lotou.

Livro de Marília Aguiar narra experiência com o grupo Novos Baianos

Segundo Marília, “o NBFC jogava muito mal”. Os torcedores reagiam com vaias, palavrões e chamavam os cabeludos de veados. “Baby não gostou, subiu no banco de reservas e revidou com os mesmos adjetivos. ”

O Itabuna fez 11 e o adversário apenas 1, o de honra. Se é que um gol honra um time que leva 11 ou uma seleção que toma sete.

A autora diz que a torcida ficou revoltadíssima quando percebeu que havia sido enganada e pagou para o seu time jogar contra amadores. Começou a ameaçar. A polícia foi chamada e escoltou o grupo até a fazenda. Receberam a parte combinada e foram despachados cedinho, pra evitar novas confusões.

Na véspera do jogo foi realizado um show no cine Marabá. Assisti ao belo espetáculo, Inesquecível. “Pernas de pau” no futebol, craques na música, os Novos Baianos entram na história da MPB. Há documentários sobre eles, o mais famoso é Filhos de João, referência a João Gilberto, que teve decisiva influência sobre os caminhos musicais do grupo.

Marival Guedes é jornalista.