Município está na 2ª semana sem coleta regular de lixo
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No meio dessa sujeira toda, a Prefeitura de Ilhéus bem que poderia aproveitar a oportunidade de investir num programa robusto de coleta de material reciclável, acompanhado por campanha educativa de incentivo à separação dos resíduos domésticos.

Thiago Dias

Um velho chavão diz que uma crise também pode ser transformada em oportunidade. O clichê vale para o colapso da coleta de lixo de Ilhéus, provocado pela dificuldade da Prefeitura de gerir o serviço público com eficiência.

Os montes de lixo se formam e crescem nas ruas, enquanto o governo municipal patina na substituição da empresa terceirizada. Esse cenário medonho e fedorento é registrado em fotografias e vídeos para a posteridade e as eleições vindouras.

No meio dessa sujeira toda, a Prefeitura de Ilhéus bem que poderia aproveitar a oportunidade de investir num programa robusto de coleta de material reciclável, acompanhado por campanha educativa de incentivo à separação dos resíduos domésticos.

Negócio limpo, rentável e sustentável, um programa de coleta amplo e eficiente ainda daria visibilidade positiva a Ilhéus.

A empreitada, naturalmente, deve incluir a Coolimpa (Cooperativa de Catadores de Materiais Recicláveis de Ilhéus).

Tudo isso no bojo da elaboração do Plano Municipal de Gestão Integrada de Resíduos Sólidos, superando o modelo atual de descarte de resíduos, que só alimenta contratos públicos caros e condena o território de Itariri ao desastre ambiental do lixão.

Thiago Dias é repórter e comentarista do PIMENTA.

ACM, João Xavier e Geraldo na crônica de Walmir Rosário
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No planejamento dos visitantes, a audiência também seria uma espécie de aval para a liberação de recursos federais para Itabuna, haja vista a influência de ACM junto aos sucessivos governos federais.

 

Walmir Rosário

O ano é 1993. Os personagens, João Xavier, Geraldo Simões e o todo-poderoso governador da Bahia, Antônio Carlos Magalhães (ACM). O palco era o prédio da Governadoria, no Centro Administrativo da Bahia, onde os prefeitos e vereadores eram recebidos e apresentavam as reivindicações para suas cidades. Conforme o interesse, eram encaminhados com os famosos memorandos, ou recebiam o clássico “não”.

Eleito no embalo do impeachment do presidente Fernando Collor de Mello e na briga travada pelos candidatos a prefeito de Itabuna José Oduque Teixeira e Ubaldo Dantas, a “zebra” Geraldo Simões resolveu ir ao governador da Bahia para reivindicar obras para Itabuna. E junto levou seu vice-prefeito João Xavier, então no Partido Socialista Brasileiro (PSB), tido como um político conciliador.

Essa atitude, pensada e repensada pelos marqueteiros da Prefeitura, daria ao então prefeito Geraldo Simões o status de estadista, ao procurar o governador – seu mais terrível adversário político – de forma institucional. Audiência marcada, chegam à governadoria o prefeito Geraldo Simões e o vice João Xavier, ainda desconfiados do que poderia acontecer, a depender do humor de ACM.

Conforme o protocolo, o encontro iniciou um pouco tenso, mas, com a devida troca de amabilidades, eis que chegam ao assunto que interessava e pelo qual solicitaram a audiência: a apresentação da lista de reivindicações para Itabuna. Não era pequena, pois Geraldo Simões pretendia mostrar serviço aos eleitores, com grandes projetos a serem realizados em toda a cidade.

O encontro com ACM, na visão de Geraldo Simões e João Xavier, valeria pelos recursos que poderiam ser investidos em obras e serviços pelo Governo do Estado, sobretudo na área de infraestrutura e serviços. Para quebrar o gelo inicial, ressaltam os laços de amizade que une ACM a Itabuna, terra em que nasceu sua esposa (dona Arlete), descendente de importante família.

No planejamento dos visitantes, a audiência também seria uma espécie de aval para a liberação de recursos federais para Itabuna, haja vista a influência de ACM junto aos sucessivos governos federais. Espertos, dariam, ao mesmo tempo, uma batida no cravo e outra na ferradura. O terreno já estava preparado com os grandes contratos celebrados entre o governo petista e o jornal Correio da Bahia, sem o conhecimento de ACM.

Conforme iam anunciando cada uma das reivindicações, faziam um detalhamento do projeto e explicavam a importância para o crescimento de Itabuna, que estaria pronta para retomar o seu desenvolvimento. Analisando as demandas, o governador tecia considerações, descartava algumas por falta de recursos, outras dizia ser competência da União e, as que aprovava, escrevia um memorando destinado aos secretários cabíveis.

Com as conversas em bom tom, Geraldo e Xavier pedem a ACM a união de forças democráticas em benefício de Itabuna, que pela primeira vez teria um governo participativo, em que as obras e serviços seriam escolhidos após ouvir a sociedade. Nesse momento pedem o apoio do governador para carrear os recursos do governo federal, no tocante às obras já mencionadas e outras futuras.

Após analisar os pedidos, ACM perguntou quais as prioridades e foi dizendo o que poderia fazer de pronto e quais encontraria dificuldades, por falta de recursos estaduais ou federais para tanto. Foi aí que o vice-prefeito João Xavier começou a nomear como urgente e urgentíssima a conclusão da construção do estádio Luiz Viana Filho, até hoje incompleto e que continuaria prejudicando o esporte itabunense.

Para completar, João Xavier falou das dificuldades por que passava o Itabuna Esporte Clube, que já alcançou o vice-campeonato baiano de profissionais e o campeonato baiano de juvenis, e que agora estaria com muitas dificuldades. Para tanto, precisaria de mais apoio ao time e o complemento do estádio Luiz Viana Filho (Luizão), também conhecido como o Gigante do Itabunão.

Foi aí que ACM não se conteve e disse, em tom de gozação:

– Ô Xavier, se nem time você tem, pra que essa urgência na construção do estádio. Vamos deixar isso de lado e construir outras coisas… – ponderou o governador.

Após o susto, ACM brincou com os dois e não se falou mais no “Luizão”.

Walmir Rosário é jornalista, radialista e advogado.

O presidente do DEM, ACM Neto, e o governador Rui Costa
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Rui Costa faz uma versão bem piorada dos Governos Lula/Dilma, mas, de qualquer forma, é menos pior do que a direita carlista-bolsonarista.

Carlos Pereira Neto Siuffo

1 – Os governos petistas foram melhores do que os anteriores, de FHC até Sarney, mas, mesmo sendo muito mais inclusivos socialmente, também foram neoliberais. Não fizeram uma reforma estrutural sequer.

2 – Aproveitaram um contexto de alta das commodities e distribuíram rendas orçamentárias. A política macroeconômica, com algumas nuances, foi a mesma de FHC, o tal tripé econômico: câmbio flutuante, meta inflacionária e superávit primário (este chegou a ser de 4,2% do PIB). Seguiram à risca a LRF (Lei de Responsabilidade Fiscal), não reestatizaram a Vale. Ao invés disso, privatizaram estatais com o eufemismo das concessões. Nos governos petistas seguiu a desindustrialização, malgrado os esforços nos setores de petróleo-gás e naval.

3 – Não há dúvida de que, mesmo com vacilações e o grande erro do Haiti, realizaram uma política externa muito mais ativa e altiva.

4 – Falavam muito em republicanismo, mas foram um desastre nas indicações ao STF e STJ, fortaleceram o corporativismo do MP e da PF.

5 – Fizeram alguns arranjos, mas não tiveram uma política correta para as Forças Armadas. Perderam a oportunidade quando ocorreu o caso Viegas. Repiso o grande erro do Haiti.

6 – O PT e os movimentos sociais ligados a ele se acomodaram e viraram linha auxiliar do governo. Não aproveitaram as políticas públicas para aprofundar a auto-organização e manter a autonomia política e social.

7 – O PT entrou no jogo político fisiológico do toma lá, dá cá. Palocci não foi o único, e Zé Dirceu não poderia ser dirigente partidário e lobista. Havia corrupção nos governos petistas, mas é uma absurda falsidade tentar passar a ideia de que o partido é mais corrupto do que PSDB, DEM, PP, MDB, PSB e muitas outras legendas. O nível de corrupção petista é infinitamente inferior ao dos demais partidos.

8 – A Lava Jato foi a maior corrupção existente no Judiciário brasileiro e, até agora, ninguém foi punido. Foi uma armação com a participação do Departamento de Estado dos EUA e visava pegar o PT. Evidentemente, a maior autonomia dos governos petistas não interessa aos EUA nem à nossa burguesia ligada ao rentismo. Acrescento que as absurdas, punitivistas e de moralismo raso leis da Ficha Limpa, da Delação Premiada e do Antiterrorismo-GLO foram aprovadas por Dilma.

9  – Os erros de condução do poder facilitaram o golpe que foi dado no Governo Dilma e a posterior e absurda prisão de Lula, mas o golpe foi dado em razão dos acertos. Mesmo o reformismo fraco não é aceito pela burguesia financeira.

10 – Rui Costa faz uma versão bem piorada dos Governos Lula/Dilma, mas, de qualquer forma, é menos pior do que a direita carlista-bolsonarista.

11 – Lula, no imaginário popular, é melhor do que o de carne e osso e, infelizmente, parece tentar reeditar a política anterior, a de 2002. No entanto, ainda é a maior liderança popular que se tem. Cabe ao movimento vivo dos partidos mais à esquerda e ao movimento social pressioná-lo para ter uma política radical e não conciliadora com o neoliberalismo. Lula precisa deixar de ser candidato e ser o líder que o povo brasileiro necessita.

12 – Por isso, é muito importante todo movimento de ruas e a manutenção da movimentação independente e programática de Glauber Braga (PSOL).

Carlos Pereira Neto Siuffo é professor de Direito da Uesc.

Levada do Mastro de São Sebastião é das tradições de Canavieiras, no sul da Bahia || Foto Walmir Rosário
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E assim, a fogosa política canavieirense interferiu – de vez – nos costumes religiosos e profanos da comunidade por muitos anos. Com isso, também fez aumentar a devoção a São Sebastião em todo o município.

 

Walmir Rosário 

São Sebastião é um dos Santos mais festejados de Canavieiras. O santo militar fez um monte de milagres, caiu no gosto do povo e é comemorado no centro da cidade, na ilha da Atalaia (com um mastro para os adultos e outro para as crianças), e no povoado do Estreito. E olha que a devoção se arrasta por mais de 150 anos e, ao que tudo indica, permanecerá para sempre, se Deus quiser! E tudo indica que quer.

Antes a comemoração era apenas restrita à cidade, tanto é assim que foi erigida uma capela com o seu nome, nos Três Xis, atualmente bairro São Sebastião. Mas a festa é realizada na praça da Capelinha (Igreja consagrada à Sagrada Família), local em que é levantado e fixado o mastro, após ser transportado desde o Porto Grande nos ombros de homens fortes (carregadores) pelas ruas da cidade. Mas já houve mudança temporária.

Nesse trajeto, o religioso e o profano se misturam: Diz a crendice que colocar algumas folhas do tronco escolhido na carteira é fartura financeira o ano todo. Também basta pegar no tronco e fazer um pedido que será atendido pelo santo. Mas o que a galera quer mesmo durante o trajeto é festejar. A começar pelos “carregadores”, que param para um breve descanso, enquanto retomam as energias com bons goles de cachaça e cerveja.

Chegando à praça da Capelinha, após algumas rodadas, o mastro é finalmente erguido e os músicos em cima de um trio elétrico alegram os devotos e até ao raiar do dia. Bares e barracas ao redor da praça se encarregam de fornecer bebida e comida, do jeito que o povo gosta. No povoado do Estreito, a festa – realizada em data distinta – é bem mais modesta, se bem que pra lá de animada.

E toda essa devoção teria iniciado com as dificuldades em uma família que não conseguia emprego nas roças e uma filha do casal foi acometida de uma doença tida como incurável.  Ao pedir o milagre a São Sebastião a família foi atendida e a mocinha se restabeleceu da enfermidade. Daí, chegou a hora de pagar a promessa ao Santo, feita com a ajuda da população, cuja devoção aumentou de forma surpreendente.

Até então, a devoção não havia chegado à ilha da Atalaia, cujo padroeiro é Santo Antônio. Mas eis que num determinado ano, os políticos resolveram fazer valer a lei do mais forte. De um lado, o prefeito Osmário Batista, da União Democrática Nacional (UDN), e do outro o vereador e titular do Cartório de Feitos Cíveis, Altamirando de Carvalho Filho, do Partido Social Democrático (PSD) e coordenador dos festejos.

Como rezava a tradição, o cortejo com o Pau de Bastião saia do porto grande, atravessava a rua 13 e era hasteado na praça da Capelinha, como de costume por anos a fio. Esse ano, entretanto, o prefeito Osmário Batista estava construindo a Igreja de São Sebastião, no bairro 3 Xis, e queria homenagear o Santo, levando o Pau de Bastião para ser hasteado em frente a igreja, que seria a morada do Santo.

Só que o coordenador dos festejos, Altamirando de Carvalho, ferrenho adversário político do prefeito, não queria sair um milímetro da tradição da festa, e programou tudo exatamente como os fundadores do evento. Mas Altamirando não contava que o desejo do prefeito teria que ser satisfeito – custe o que custar –, e para isso teria determinado ao tenente chefe do destacamento policial que tomasse as providências necessárias e cabíveis, e na marra.

Assim que o cortejo toma a rua 13 o pessoal a serviço do prefeito Osmário Batista ordena a mudança, não aceita pelo vereador e coordenador e seus seguidores, e tudo mudou conforme o combinado. Com maior poder de fogo, o tenente ordena o fim do cortejo e a tomada do mastro, enquanto um outro Pau de Bastião surge com o pessoal da UDN e segue para a Igreja de São Sebastião, ainda em construção nos 3 Xis.

No registro fotográfico, dois mastros de São Sebastião na Atalaia

O outro Pau de Bastião – já tomado pela segurança do prefeito – toma caminho inverso: isto é, em direção do rio Pardo, onde é jogado na correnteza, para o desespero de Altamirando e seu pessoal. Não satisfeito, Altamirando redige um documento reclamando da atitude beligerante do prefeito Osmário Batista e remete cópia no primeiro voo à capital, para ser publicado na íntegra pelo jornal A Tarde, que estampou-o na 1ª página.

Pela manhã, os moradores da ilha Atalaia tomam por surpresa o Mastro de São Sebastião – ainda enfeitado – no portinho junto com as canoas e barcos. É que àquela época ainda não existia a ponte e nem exista comunicação via telefone ou rádio entre as ilhas de Canavieiras e da Atalaia. Bastante católicos, acreditaram ter sido um castigo divino por eles não participarem dos festejos ao Santo.

Com temor ao castigo divino, no ano seguinte os moradores da Atalaia passaram a festejar São Sebastião – sem perder a devoção que tinham a Santo Antônio –, com todos os louvores devidos. E fizeram ainda mais: em vez de hastearem um só mastro, passaram a cortar dois mastros – um carregado pelos adultos e outro pelas crianças, tradição que mantêm até os dias de hoje.

E assim, a fogosa política canavieirense interferiu – de vez – nos costumes religiosos e profanos da comunidade por muitos anos. Com isso, também fez aumentar a devoção a São Sebastião em todo o município. Após a saída de Osmário Batista da Prefeitura, o grupo político de Edmundo Lopes de Castro e Altamirando Carvalho Filho fez retornar o cortejo do Pau de Bastião para a praça da Capelinha, mantido até os dias de hoje.

Walmir Rosário é radialista, jornalista e advogado.

Rita Lee em lançamento de sua autobiografia || Foto Manuela Scarpa
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O livro foi lançado em 2016 quando estava com 69 anos de idade. Num trecho ela aborda uma questão que muita gente se recusa, a morte. A própria morte. Irônica, escreve: “quando eu morrer imagino as palavras de carinho de quem me detesta”. E alfineta emissoras: “rádios tocarão minhas músicas sem cobrar jabá”.

 

Marival Guedes | marivalguedes@yahoo.com.br

Não costumo ler autobiografia. Prefiro as biografias – de preferência, não autorizadas. Entendo que é difícil a pessoa expor fatos constrangedores ou, no mínimo, condenáveis sobre si mesma. É do humano.

Decidi ler Rita Lee e me surpreendi com a honestidade, a coragem da artista. Além disso, o texto é bom e bem-humorado. Ela se desnuda, faz autocríticas das composições, fala sobre relações familiares, amorosas, shows e os caminhos tortuosos: drogas, internações etc.

Conta a história da prisão quando policiais civis invadiram a casa dela. Afirma que não havia drogas, pois estava grávida. Mas a droga “apareceu” e ela foi levada. Vingança da corporação por causa de uma atitude da cantora.

Sobre a coragem de se expor, Rita escreve que “numa auto que se preze, contar o côté podrêra de próprio punho é coisa de quem, como eu, não se importa de perder o que resta de sua pouca reputação. E acrescenta que “se quisesse babação de ovo, bastava contratar um ghost-writer para escrever uma autorizada”.

Quanto à relação arte e drogas, avalia que suas “melhores obras foram compostas em estado alterado. As piores também”.

O livro foi lançado em 2016 quando estava com 69 anos de idade. Num trecho ela aborda uma questão que muita gente se recusa, a morte. A própria morte. Irônica, escreve que “quando eu morrer imagino as palavras de carinho de quem me detesta” e alfineta emissoras dizendo que “rádios tocarão minhas músicas sem cobrar jabá”.

Sobre fãs, “esses sinceros, empunharão capas dos meus discos e entoarão Ovelha Negra. As tevês já devem ter na manga um resumo da minha trajetória”. Volta a ironizar afirmando que nas redes sociais dirão: “Ué, pensei que a véia já tivesse morrido.”

Rita Lee é uma das principais artistas do cenário musical. Em 2008 a revista Rolling Stone promoveu a lista de cem maiores artistas da MPB, ela ficou em 15º lugar.

Também se destacou na vendagem de discos. Segundo a Associação Brasileira de Produtores de Discos, Rita Lee vendeu durante sua trajetória 55 milhões de cópias, ocupando um honroso terceiro lugar nacionalmente.

Marival Guedes é jornalista.

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A Uesc é a prova maior de união e vitória dessa região. Foi um sonho de toda a sociedade que virou realidade. Foi fruto da articulação e envolvimento de todos. Não houve divisão. Houve integração, e essa energia e exemplo precisam ser colocados em prática como fio na luta pelo nosso patrimônio Rio Cachoeira.

Rosivaldo Pinheiro | rpmvida@yahoo.com.br

Os tempos atuais exigem cada vez mais responsabilidade do conjunto da sociedade em relação ao desenvolvimento sustentável. O tema, embora importante, sempre fica no imaginário de parte da população das cidades e parece algo intangível. Sempre aparece nas discussões eleitorais dos municípios a cada quatro anos.

A cidade de Itabuna e a região sempre têm ligação umbilical com a bacia do Cachoeira e com o próprio rio, sempre foi uma fonte de inspiração, cantado em verso e prosa, uma fonte inesgotável de história e estórias, mas que sofre com a falta de empatia e responsabilidade de todos nós ao longo do tempo. Itabuna, por exemplo, nasceu a partir do Cachoeira.

Essa desatenção abrange do setor público ao privado e, nesse caso, não cabe citar exceções, pois se existem, são incipientes para mexer nas estruturas de estado. Destacá-las seria mais um subterfúgio para esses mecanismos. Em Itabuna e em outras cidades as pessoas literalmente deram as costas para o rio, construindo em suas margens e fazendo os seus lançamentos de esgoto diretamente no curso d’água do Cachoeira.

Pensar o Rio Cachoeira é tarefa urgente, importante e necessária e obriga toda a sociedade a sair da posição de letargia, dos muros da reclamação e falação para o papel de agente de transformação. Precisamos agradecer a todos que fazem do Rio uma fonte de pesquisa e contribuem com seus estudos. Toda essa contribuição faz nascer a hora da virada. A hora de sermos pragmáticos e dizermos com ações concretas: o Rio Cachoeira é a nossa voz!

Aconteceram dois encontros nessa semana na Uesc, o primeiro no dia 31 de agosto e o segundo no dia 1° de setembro. Foram encontros liderados por Itabuna, tendo a Amurc e o CDS Litoral Sul como parceiros. Estiveram na formatação dessa discussão UFSB, UESC, Embasa, Emasa, Portal Santo Agostinho, Ramboll e comitê das bacias hidrográficas do leste, com a participação de diversos outros técnicos e estudiosos da temática.

Foi Um rico encontro, sem donos da verdade, sem arroubos, sem personalismo, nem mesmo mesa oficial foi formada, justamente para rompermos com o formalismo, colocando todos em pé de igualdade. Algumas cidades demostraram maior envolvimento: Itabuna, Ilhéus e Floresta Azul, sendo as demais representadas pela Amurc e CDS-LS. Aliás, cabe aqui destacar a participação de Luciano Veiga, gerente executivo das duas entidades e vice-presidente do Comitê das Bacias do Leste, mas sentimos a ausência de representantes direto dos demais municípios envolvidos.

O registro aqui é didático, não visa polemizar nem criar cisões; ao contrário, serve de alerta pela importância estratégica deles na construção e fortalecimento do braço político dessa ação em nível de região, afinal, a pauta nos une: recuperação ambiental, social e econômica da região passa pela recuperação do Rio Cachoeira, especialmente com a chegada de novas oportunidades advindas do Porto Sul.

Para não perdermos de vista a luta que estamos iniciando, tem simetria com a que fizemos com a Universidade Estadual de Santa Cruz. Não à toa, escolhemos a Uesc para sediar os dois eventos iniciais na luta pelo nosso Cachoeira. A Uesc é a prova maior de união e vitória dessa região. Foi um sonho de toda a sociedade que virou realidade. Foi fruto da articulação e envolvimento de todos. Não houve divisão. Houve integração, e essa energia e exemplo precisam ser colocados em prática como fio na luta pelo nosso patrimônio Rio Cachoeira.

Rosivaldo Pinheiro é economista, especialista em Planejamento de Cidades (Uesc) e subsecretário de Planejamento de Itabuna.

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A situação mais preocupante para o município de Ilhéus é o fato de que, se for repetido o índice aplicado na estimativa do ano de 2022, o número de habitantes ficará abaixo de 156.216, o que levará à mudança de faixa na Tabela do FPM, de 4.0 para 3.9, e que representa um considerável valor em recursos.

José Nazal Pacheco Soub || nazalsoub@gmail.com

Sempre me interessei por conhecer os dados demográficos de Ilhéus, acompanhando e analisando os resultados dos Censos, tendo participado das antigas Comissões de Acompanhamento desde 2010, confiando e acreditando no trabalho do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, posição que ainda mantenho.

Corria o ano de 1999 quando participei de um grupo de trabalho que visava criar uma lei dos bairros ajustada à base censitária do IBGE, para que a divulgação do resultado do Censo de 2000 pudesse contemplar a zona urbana da mesma forma que ocorria com os distritos, que tinham lei com delimitações definidas e seguindo a base. Não houve tempo hábil para atender os prazos.

Em 2009, já pensando no Censo do ano seguinte, juntamente com a então servidora Marilene Lapa, com orientação dos técnicos no IBGE, o resultado foi a Lei 3476, de 30 de dezembro de 2009. A divulgação dos bairros não foi realizada por parte do IBGE em razão de uma inconstitucionalidade, pois parte do bairro Nossa Senhora da Vitória estava no distrito de Coutos e, legalmente, os bairros obrigatoriamente devem estar no distrito sede.

Durante o Censo de 2010, recebi a incumbência do prefeito Newton Lima para coordenar por parte do município o apoio e acompanhamento do processo censitário e, já chegando ao final da coleta de dados, recebi a visita do coordenador do Censo, trazendo a informação de que a previsão estimada da contagem projetava uma população em torno de 185 mil habitantes. Um susto!

Os dados dos últimos censos demográficos confirmam um crescimento populacional acima da média entre as décadas de 70 e 90 e um crescimento negativo acentuado entre 2000 e 2010, fato que oportunizou um estudo dos dados por setor censitário, das três últimas coletas, considerando a situação do setor conforme critério do próprio Instituto, disponibilizado no sítio oficial.

Na sequência, solicitamos uma auditoria e cruzamos os dados da projeção com os mapas dos agentes de endemias, ficando constatado que estava correto. O erro não ocorreu em 2010. Recordo que recebi de um auditor um questionamento sobre a sede do distrito de Rio do Braço, que tinha apenas 24 habitantes, e que na vila quase deserta não existia oferta de serviços públicos regulares além das exigências necessárias para ser sede de um distrito.

Em 1991, a malha censitária de Ilhéus era formada por 196 setores; em 2000, por 237 setores; e em 2010, por 287 setores. Esse crescimento é justificado pela redivisão dos setores, especialmente considerando o crescimento do número de domicílios. Os setores são definidos por situação, conforme regra do IBGE.

Conferindo os dados dos setores de cada Censo, foram encontradas distorções que justificam essa diferença brusca entre os Censos de 2000 e 2010. Na verdade, Ilhéus nunca teve a população anotada em 1991 e 2000. Houve erro na contagem, que pode ser verificado e constatado em três exemplos aqui expostos, e repetido em vários setores. Nos anos onde se registraram os erros, não existia um controle completo das informações colhidas, sendo a coleta anotada nos questionários, além do fato de que a remuneração dos recenseadores ser por produção.

Levei esses casos à direção estadual do IBGE em 2018, sem buscar culpados, entendendo que o fato estava prescrito, além do fato de que teríamos um novo censo em 2020, postergado pela pandemia e depois suspenso pelo governo federal. Clique em “Leia Mais”, abaixo, para ler a íntegra do artigo

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O ministro Luiz Fux, presidente do STF, e o presidente da República: raro momento de respeito de Bolsonaro à obrigatoriedade do uso de máscara, durante ato no Plenário do Supremo || Foto Marcos Corrêa/PR
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Bolsonaro testará continuamente a capacidade do Poder Judiciário de limitar suas investidas contra a ordem constitucional. Essa disposição para o ataque tende a se manter diante das pesquisas eleitorais, que desenham um cenário improvável para a reeleição do presidente.

Thiago Dias

No dia 22 de maio de 2020, durante reunião com os generais Walter Braga Neto e Luiz Eduardo Ramos, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) gritou aos interlocutores que interviria no Supremo Tribunal Federal (STF). Estava furioso pois, no dia anterior, o então decano da Corte e hoje ex-ministro Celso de Mello perguntou à Procuradoria-Geral da República (PGR) se havia a necessidade de apreender os celulares de Bolsonaro e do seu segundo filho, o vereador carioca Carlos Bolsonaro (Republicanos). O episódio foi reconstruído por reportagem de Monica Gugliano para a revista piauí.

Na semana passada, o ex-ministro da Defesa Raul Jungmann disse à revista Veja que Bolsonaro determinou que caças Gripen, da Força Aérea Brasileira (FAB), sobrevoassem o prédio do STF em velocidade supersônica para destruir as vidraças da Corte. O pedido teria sido a gota d’água para a troca de comando das Forças Armadas, em março último, quando os comandantes Antônio Carlos Moretti Bermudez (FAB), Edson Pujol (Exército) e Ilques Barbosa (Marinha) deixaram os cargos.

Se o que o ex-ministro diz é verdade, a saída dos comandantes foi um limite imposto ao poder do presidente, ato de insubordinação justificado pela ilegalidade da ordem desacatada. Para usar a analogia preferida de Bolsonaro, os comandantes teriam saído do jogo porque não aceitaram jogar fora das quatro linhas da Constituição. Resta perguntar se os substitutos aceitam.

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Andrea Castro, secretária de Promoção Social e Combate à Pobreza de Itabuna
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Manu Berbert

 

>> Recebi, com surpresa, uma mensagem do então Presidente da OAB de Itabuna, Edmilton Carneiro, pedindo um apoio para o protagonismo feminino em uma das maiores instituições democráticas do país. Na mensagem, ele me dizia que a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), na Bahia, em 90 anos, jamais teria elegido uma mulher. No mesmo cenário, a OAB de Itabuna, que tem 60 anos, também não. Estou na torcida!

 

> A primeira-dama de Itabuna, que hoje assina o sobrenome do esposo, Andrea Castro, está em ritmo acelerado de pré-campanha para a Assembleia Legislativa do Estado da Bahia. Segundo especulações, teria visitado Vitória da Conquista no final de semana. Viria aí uma parceria com a retadíssima prefeita Sheila Lemos?

 

>> A Secretária de Saúde do Município de Itabuna, Dra. Lívia Mendes, em entrevista que vai ao ar nesta quinta-feira, ao programa Debate Por Elass, apresentado por esta que vos escreve e Ellen Prince, falou sobre a ocupação de lugares e cargos pelas mulheres com muita tranquilidade, afirmando que já é algo que tem acontecido naturalmente. “Sabemos que várias lutas são válidas, mas muito já mudou”, citando que a mesma foi a primeira médica residente do Hospital de Base, há alguns anos, e a primeira diretora-médica do Hospital Calixto Midlej Filho (Santa Casa de Itabuna). A entrevista vale muito à pena!

 

>> Circula nos grupos de whatsapp uma entrevista de Fernando Gomes ao programa Frequência Política, apresentado por Binho Shalom e João Matheus Feitosa (que sempre falta estrategicamente, e nesse sábado faltou!). No áudio, o ex-prefeito brinca e dá risadas sobre a forma como teria conhecido Maria Alice, sua fiel escudeira por anos, mas que hoje mantém uma relação fria e distante. O poder sempre une, enquanto a derrota cria muros!

Manu Berbert é publicitária.

CPI da Pandemia hesita em convocar ministro da Defesa, Braga Netto, que foi ministro da Casa Civil nos piores momentos da crise sanitária
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Durante o ano mais longo da história do Brasil, o general Braga Netto foi protagonista na construção das respostas desastrosas da Presidência à crise sanitária. Nesta condição, portanto, nada mais natural que depor à CPI.

Thiago Dias

A CPI da Pandemia tem um bom teste de coragem política: o requerimento da convocação do ministro Braga Netto para depor. A matéria deveria ter sido votada no último dia 3, mas a comissão decidiu adiá-la por tempo indeterminado.

O senador Alessandro Vieira (Cidadania-SE), autor do requerimento, fez questão de reapresentá-lo, enfatizando que a ida de Braga Netto à comissão é relevante, pois ele foi ministro da Casa Civil, onde ficou de fevereiro de 2020 a março de 2021.

O argumento é incontestável. A Casa Civil é a antessala institucional da Presidência da República. Tem atribuições centrais no assessoramento direto do presidente e na integração das ações do governo. Durante o ano mais longo da história do Brasil, o general Braga Netto foi protagonista na construção das respostas desastrosas da Presidência à crise sanitária. Nesta condição, portanto, nada mais natural que depor à CPI. O fato de ser um militar no comando do Ministério da Defesa é alheio aos critérios da investigação.

Se desistir de convocá-lo, a CPI passará recibo de medo das ameaças golpistas de Bolsonaro, o que pode dar força às intenções já declaradas do presidente.

A desculpa de que a convocação tencionaria a crise institucional entre os três Poderes não cola (quem faz isso o tempo todo é o presidente), a não ser que prevaleça a loucura dos que atribuem às Forças Armadas o papel de poder moderador da República.

Thiago Dias é repórter e comentarista do PIMENTA.

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De tudo, e ele fez muita coisa, guardarei para sempre a mensagem pessoal que deixou, nas entrelinhas da sua trajetória: não há troféu, dinheiro ou reconhecimento que compense a satisfação de atuar profissionalmente por e com PAIXÃO!

Manu Berbert

Ontem fui surpreendida com a morte do publicitário Duda Mendonça. Apaixonada por gente e grandes histórias desde sempre, lembrei dos tempos da faculdade, quando tinha acesso à internet apenas na biblioteca da Universidade Tiradentes, em Aracaju, e escrevia seu nome no Google quase todos os dias para me atualizar da sua vida profissional. Li seu livro, Casos & Coisas, presente do meu irmão Mucio, mais de dez vezes. Não dou, não empresto, e ainda o folheio sempre!

Duda Mendonça é um dos maiores nomes da comunicação do nosso país. Um cara que enxergava os sentimentos das pessoas e entendeu que a emoção era a alma da publicidade e da propaganda, inclusive política. Para muitos, um manipulador nato. Para outros, um cara inteligente e ponto. Para esta que vos escreve, uma mente rara, capaz de pensar por ele, por seus clientes e por toda uma nação. E a história do nosso país prova isso, porque ele, nos bastidores, fez parte de uma virada de chave nacional: a eleição de Lula, sindicalista e metalúrgico, pobre e tido por muitos como louco, após três tentativas frustradas, Presidente do Brasil!

Ele surpreendeu amigos, família e o mercado publicitário quando assumiu a campanha de Luiz Inácio Lula da Silva. “Meu coração é povão”, assumiu em um tempo extremamente engessado, aristocrata, quando a internet ainda não tinha proporcionado a democratização das ideias. “Ele bateu na trave três vezes e voltou porque sua figura não conversava com o empresariado”, explicou em uma palestra. Palpitou e mudou a forma dele se vestir, estudou os trejeitos que o descaracterizavam como autoridade, e ajudou a escrever os maiores e melhores discursos do início da sua carreira. Bingo: Lula presidente e reconhecido internacionalmente como grande liderança!

Duda foi o primeiro publicitário a fazer uma campanha política usando um coração, salvo engano com Mário Kertész candidato a prefeito de Salvador, e isso representa mais do que a simples figura estampada nos outdoors. Ele implementou sentimento aos vídeos e jingles, narrando sentimentos. De tudo, e ele fez muita coisa, guardarei para sempre a mensagem pessoal que deixou, nas entrelinhas da sua trajetória: não há troféu, dinheiro ou reconhecimento que compense a satisfação de atuar profissionalmente por e com PAIXÃO!

Manu Berbert é publicitária.

O médico Rui Carvalho e o professor e escritor Jorge Araujo
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A chapa foi formada sem maiores constrangimentos, mas não conseguiu encantar o eleitor ilheense, que preferiu votar em Valderico Reis e Newton Lima. E olha que Valderico Reis nunca foi um modelo de beleza a desfilar nas passarelas.

 

Walmir Rosário

O ano de 2004 foi histórico para a política de Ilhéus. Jabes Ribeiro termina o seu governo de forma melancólica, com inúmeras dívidas sem pagar e sua rejeição beirando os 90%. Com isso, o seu inimigo político número um, Valderico Reis, cresce nas pesquisas de opinião de voto em níveis assustadores. Inicialmente, a sensação era de que tudo mudaria na política ilheense.

Não raro se dizia e até hoje há quem afirme que Valderico Reis foi o candidato escolhido por Jabes Ribeiro para ser o seu sucessor, tamanha a confiança que tinha em dar a volta por cima, apostando na péssima administração que faria na Prefeitura de Ilhéus. O comentário era de que, para Jabes, seria a glória retornar ao Palácio Paranaguá nos braços do povo, literalmente.

Do outro lado, o Partido dos Trabalhadores (PT) pretendia “melar” os planos de Jabes Ribeiro, tirando o candidato Valderico Reis da campanha eleitoral, pela via judicial ou pela votação, elegendo o médico Rui Carvalho prefeito de Ilhéus. Alianças com os partidos de esquerda, principalmente com o Partido Comunista do Brasil (PCdoB), que teimou em indicar o candidato a vice-prefeito e disso não abria mão.

E o camarada Gustavo César (Gustavão) foi o escolhido para fazer a parceria com Dr. Rui na chapa como candidato a vice-prefeito. A indicação foi considerada uma tormenta, e o candidato petista não queria de forma alguma aceitar o parceiro de chapa. Chega a turma do deixa disso e argumenta a capacidade de aglutinação de Gustavão entre os outros partidos e simpatizantes de esquerda, lembrando que tinha sido questão fechada.

Mas nenhum dos argumentos convenciam Dr. Rui Carvalho, que não aceitava o companheiro de chapa, embora não chegasse a declinar o motivo de tanta rejeição ao camarada Gustavão. Foi aí, então, que os coordenadores da campanha exigiram que Rui Carvalho desse “nome aos bois”, ou melhor, contasse os motivos da recusa, pois até aquele momento ninguém sabia o porquê.

– Já que vocês fazem questão de saber o motivo, pois voltem lá e peça aos comunistas outro candidato a vice na nossa chapa, para ganharmos a eleição sem qualquer tipo de dificuldade. Vejam bem, uma chapa dessas vai ser execrada pela sociedade, inclusive no marketing político. Imagine, nossa chapa vai ser chamada de “o belo e o fera” – disse, numa referência ao conto dos Irmãos Grimm.

Claro que o “belo” era o próprio Rui e o “fera” seu amigo, o comunista Gustavão.

Diante das perspectivas de uma grande vitória nas eleições, os coordenadores voltam ao comando dos “cururus” e, meios sem jeito, explicam a situação, contando a terminante recusa do Dr. Rui em aceitar o candidato a vice. De início, o motivo pareceu muito banal para uma tirar Gustavão da chapa, mas não restavam dúvidas que era preciso fazer mais um sacrifício para sairem vitoriosos na eleição.

Como o importante seria ganhar a eleição, os comunistas resolveram discutir o assunto, ouvindo a opinião dos camaradas. Pensa daqui, pensa dali e não conseguem encontrar um candidato com os atributos de estética (beleza) exigidos por Dr. Rui, até que se lembraram do “velho militante” comunista com domicílio eleitoral em Ilhéus e que poderia ter um forte apelo na sociedade. Mas guardaram o nome até a discussão.

Após mais de uma dezena de telefonemas e reuniões, finalmente os comunistas descobriram uma solução interna. É que eles lembraram do professor, escritor, jornalista e poeta Jorge Araujo (sem acento no u), como a saída para o impasse (era o nome escondido). Afinal, que defeitos o exigente candidato petista colocaria num intelectual acima de qualquer suspeita, e ainda por cima com obras literárias consagradas?

Mas como os traços físicos exteriores de Jorge Araujo não preenchiam os padrões imaginados pelos coordenadores de campanha como sendo os exigidos pelo Dr. Rui, fecharam questão e astuciaram toda a argumentação necessária. Lá chegando, ao dar o nome do candidato a candidato a vice, Dr. Rui franziu o cenho, e antes que sentenciasse a negativa, disseram:

– Olhe, Dr. Rui, nós sabemos que Jorge Araujo não é nenhum modelo de encanto físico, mas que possui uma beleza interior isso ninguém pode negar – emendaram.

A chapa foi formada sem maiores constrangimentos, mas não conseguiu encantar o eleitor ilheense, que preferiu votar em Valderico Reis e Newton Lima. E olha que Valderico Reis nunca foi um modelo de beleza a desfilar nas passarelas.

Walmir Rosário é radialista, jornalista e advogado.

Isaquias faz o Kamehameha no pódio de Tóquio || Foto Franck Robichon/EFE
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Thiago Dias

Quem visita a Casa de Cultura Jorge Amado, em Ilhéus, vê artigos que pertenceram ao escritor. Lá estão uma máquina de escrever Olivetti, livros, móveis e camisas com estampas florais. Uma das camisas é da marca Kamehameha e foi fabricada no Havaí, segundo a etiqueta da peça. Quando a vi, lembrei do canoísta ubaitabense Isaquias Queiroz. Para receber sua medalha de ouro nos Jogos de Tóquio, ele subiu ao pódio reproduzindo um gesto marcial do anime Dragon Ball, o Kamehameha.

Kamehameha, segundo a Wikipédia, também é o nome do rei que unificou os domínios das ilhas havaianas. Daí a referência na marca da camisa de Jorge. Já em Dragon Ball, Mestre Kame vive numa ilha do Oceano Pacífico, na companhia de uma tartaruga (kame, em japonês). É ele quem ensina o Kamehameha ao protagonista da história, o carismático Goku.

Camisa da marca Kamehameha exposta na Casa de Cultura Jorge Amado, em Ilhéus

Dragon Ball condensa elementos de diversas narrativas míticas, como a do gênio da lâmpada mágica (representado pelo dragão Shenlong) e a transformação dos saiayjins (povo do planeta Vegeta, onde Goku nasceu) no gigante Oozaru, que remete ao mito do lobisomem, especialmente por causa da relação com a lua cheia. Essa mistura deve ter favorecido o sucesso planetário e longevo da história, cuja primeira publicação data de 1984. Outro elemento central, naturalmente, é o carisma do protagonista.

Isaquias tem a mesma simplicidade carismática de Goku, sem falar na força, mas as semelhanças param aqui. Não há magia nas mãos do canoísta, e os treinos dolorosos de Goku são fictícios.

Na final olímpica da canoagem rápida, a explosão muscular que garantiu a média acima de 64 remadas por minuto, impulsionando a canoa brasileira para a vitória, foi o resultado de uma longa preparação, com dois ciclos olímpicos no caminho. Em mais de uma ocasião, entrevistado em Tóquio, Isaquias falou do quanto é doído manter o ritmo veloz e forte da remada. Com o perdão da cacofonia, herói mesmo é o Goku de Ubaitaba, que recebe a visita do filho ilustre neste sábado (14).

Thiago Dias é repórter e comentarista do PIMENTA.

Mulheres brasileiras e suas conquistas nos jogos olímpicos de Tóquio |
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No Brasil, somente 13% dos cargos eletivos (políticos) são de mulheres. Para alguns, a presença feminina ainda é vislumbrada como possível companhia, apenas. Aliada muda, ou cota politicamente correta. De fachada.

 

Manu Berbert

Começo esta coluna com um pedido simples: Abram alas para elas passarem! Rebeca Andrade, Rayssa Leal, Simone Biles, Rosamaria, Ana Marcela Cunha, Bia Ferreira e demais timaços! Elas, as mulheres que dominaram os nossos olhares nas Olimpíadas de Tóquio! E eu jamais faria uma lista apenas de brasileiras quando a norte-americana Simone Biles, apontada por especialistas como uma das atletas mais promissoras para a competição, teve uma atitude histórica: deixou de lado três finais para priorizar sua saúde mental.

Sua atitude me fez lembrar da professora e pesquisadora da Universidade de Houston, autora de quatro best-sellers do The New York Times, Brené Brown. Estudiosa do comportamento humano há mais de vinte anos, ela escreve sobre a coragem, a vulnerabilidade, a vergonha e a empatia. “Fique na sua integridade, independentemente da situação”, disse em conferência histórica no Dia Internacional da Mulher. E nós, mulheres, sabemos quão árduo tem sido caminhar até aqui.

Durante as Olimpíadas tivemos ainda outra grande lição feminina de resistência, e eu nem estou falando de modalidade esportiva. A comentarista Karen Jonz, integrante da equipe do SporTV e tetracampeã mundial de skate, quando entrevistada por Ivan Moré, ao escutar que era conhecida por ser casada com Lucas, vocalista da banda Fresno, se posicionou ao vivo: “Não sou conhecida por ser casada com o Lucas. Sou conhecida porque sou tetracampeã mundial e primeira mulher a vencer o X Games”.

Vencer sendo mulher ainda é luta diária! Manter-se feminina e usar a própria voz para ocupar lugares ainda é desgastante! No Brasil, somente 13% dos cargos eletivos (políticos) são de mulheres. Para alguns, a presença feminina ainda é vislumbrada como possível companhia, apenas. Aliada muda, ou cota politicamente correta. De fachada. É preciso que se fale sobre tudo isso abertamente. Estamos aqui para aprendermos, juntos!

Manu Berbert é publicitária.

Se vivo estivesse, Jorge Amado completaria hoje 109 anos || Foto Editora Todavia
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Jorge Amado merece muito mais. Merece uma casa melhor em Ilhéus para guardar sua memória e ser um centro de referência permanente. Merece ações em Itabuna. Merece uma Ilhéus zelosa com a memória de seu escritor maior.

Efson Lima

Jorge Amado,  nosso autor sul-baiano mais destacado da literatura nacional, completa 109 anos neste 10 de agosto de 2021. Imortalizado na Academia de Letras de Ilhéus, Academia de Letras da Bahia e Academia Brasileira de Letras, ele permanece vivo na literatura mundial. Certamente, ele continuará povoando nossas cabeças, nosso imaginário e seduzindo milhares de pessoas para a literatura, assim como eu fui atraído pela obras Capitães da Areia Gabriela, Cravo e Canela, entre outros clássicos.

Em Ilhéus, Jorge Amado se somou a Abel Pereira,  Nelson Schaun, Wilde Oliveira Lima e Plínio de Almeida, os quatro últimos foram membros da Comissão de Iniciativa, para fundar a Academia de Letras de Ilhéus, em 1959.  Na Academia de Letras de Ilhéus, o escritor pertenceu à cadeira de n° 13, cujo patrono, Castro Alves, o influenciou na produção literária.  A cadeira de n°13  também acolheu a sua companheira, Zélia Gattai e, agora, tem como titular o escritor Pawlo Cidade.

Para a Academia Brasileira de Letras, Jorge Amado foi eleito, em 6 de abril de 1961, para a cadeira n° 23, que tem por patrono José de Alencar e  primeiro ocupante Machado de Assis. Jorge Amado foi um crítico das academias, mas na fase adulta fez revisão de seus posicionamentos, como assinalou em seu discurso de posse na ABL:  “Chego à vossa ilustre companhia com a tranquila satisfação de ter sido intransigente adversário dessa instituição, naquela fase da vida, um que devemos ser, necessária e obrigatoriamente, contra o assentado e o definitivo, quando a nossa ânsia de construir encontra sua melhor aplicação na tentativa de liquidar, sem dó nem piedade, o que as gerações anteriores conceberam e construíram.”

O tempo é senhor de nossas razões. E como é.

No início deste texto, eu disse “nosso autor”, força de expressão para ressaltar a origem. O escritor pertence mesmo é ao mundo. É símbolo de nossa terra, nascido em Ferradas, em Itabuna, não só se imortalizou, mas imortalizou-nos na literatura universal. As suas obras de cunho regionalista conseguiram ter sentido no Chile, na França, em Portugal, na Itália, na antiga URSS. Conseguiu orgulhar a nação grapiúna e colocar a literatura brasileira em um patamar privilegiado. Acabou não sendo agraciado com o Prêmio Nobel, mas seu nome sempre foi forte candidato. Por sua petulância, acabou sendo preterido.

Geralmente, as pratas de suas casas não são vistas. São normalizadas. Agora, entre as duas cidades, sem dúvida, Ilhéus é quem melhor poderia ganhar com a imagem desse célebre escritor.

A passagem do tempo não apaga as memórias amadianas. As suas obras continuam atuais. Foram crônicas daquele momento e proféticas para o presente. Certamente, continuarão evidenciando o futuro.  Jorge Amado será sempre lembrado pela atual geração e pelas gerações futuras. Talvez, Ilhéus e Itabuna ainda não tenham percebido a importância desse escritor. Geralmente, as pratas de suas casas não são vistas. São normalizadas. Agora, entre as duas cidades, sem dúvida, Ilhéus é quem melhor poderia ganhar com a imagem desse célebre escritor. Infelizmente, a cidade pouco aproveita a difusão turística feita pelas obras amadianas. Gente boa na cidade não falta para colaborar e implantar projetos. Mas são pratas da casa, não servem. Até quando vamos manter esse raciocínio?

O escritor Jorge Amado, que recebeu diversas críticas, marginalizado pela crítica do Sul, continua vivo em nossas memórias e provocando críticas de diversos movimentos. Também continuará sendo lembrado em sua data de nascimento e em eventos acadêmicos, mas só essas ações não bastam. Jorge Amado merece muito mais. Merece uma casa melhor em Ilhéus para guardar sua memória e ser um centro de referência permanente. Merece ações em Itabuna. Merece uma Ilhéus zelosa com a memória de seu escritor maior. Merece um tratamento melhor pelas instituições universitárias e pelas escolas. É possível uma cultura amadiana. AMADO sejamos cada um de nós!

Efson Lima é advogado, professor universitário e mestre e doutor em Direito pela Ufba.