O sentido estrito de campanha expande-se no moto-contínuo da busca pela atenção do eleitor sempre que possível
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 A tentativa de captar a atenção dispersa do público – para apresentar ideias, desmontar discursos adversários e angariar apoio – desafia o político a se movimentar continuamente para dar o maior alcance possível ao seu movimento.

Thiago Dias

O jornalista José Roberto de Toledo, editor do site da revista Piauí, descreve o comportamento do presidente Bolsonaro (sem partido) como o de moto-contínuo em campanha. O filósofo Marcos Nobre tem a mesma opinião, para citar dois exemplos do consenso em torno do assunto.

Nobre disse, em abril de 2019, que o método de Bolsonaro e do seu movimento de campanha eterna é a disseminação do caos. Para mobilizar suas bases de forma contínua e manter o controle da pauta do debate público, Bolsonaro recorre ao seu método: semeia caos. Uma pandemia depois, a constatação do filósofo é irrefutável. Neste sentido, nada é mais emblemático do que a inviabilização do Censo. O caos não precisa de números confiáveis e atuais para os seus planos.

Deu-se pouca atenção a um trecho do depoimento do ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello à CPI da Covid. Quando tentava convencer o auditório de que aquele seu “um manda e outro obedece”, proferido ao lado do presidente, não tinha nada a ver com veto de Bolsonaro contra a CoronaVac, o general da ativa argumentou que a frase era para movimentar as redes da internet, o campo que o bolsonarismo domina e onde sua atuação eficiente foi decisiva para a vitória de 2018.

Sim, enquanto queríamos saber por que diabos o governo demorou tanto para comprar vacinas, o general da ativa admite que gravou um vídeo com o presidente e adotaram um discurso feito para causar no WhatsApp. O duro é saber que, ao menos em parte – do ponto de vista político-eleitoral – eles estão certos.

Na corrida pelo domínio das redes, Bolsonaro está à frente de Lula, que lidera as pesquisas eleitorais. Ciro corre por fora. Com o marqueteiro João Santana, tido por muitos como gênio da comunicação, o pedetista precisa correr muito para ter o alcance que seus adversários mais fortes hoje ostentam. Ficando no exemplo do Twitter, Bolsonaro tem 6,7 milhões de seguidores, Lula, 2,5 milhões e Ciro, 1,2 milhão.

De toda forma, os três e tantos outros agem conforme a premissa de que, no tempo da internet, com a comunicação cada vez mais dinâmica entre candidatos e eleitores, a campanha nunca para. A tentativa de captar a atenção dispersa do público – para apresentar ideias, desmontar discursos adversários e angariar apoio – desafia o político a se movimentar continuamente e, no mesmo embalo, dar o maior alcance possível ao seu movimento.

Thiago Dias é repórter e comentarista do PIMENTA.

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Você se sente preparado ou preparada para identificar falácias nos discursos? E para se defender delas? Compartilhe seu pensamento crítico para que possamos fomentar debates e evoluir enquanto sociedade.

Mariana Ferreira

É curioso como estamos vivendo um período que mais parece um looping eterno de falta de nexo e falsos dilemas, alimentado por uma sequência de narrativas generalistas e irracionais que, de tempos em tempos, somem e “de repente” voltam em forma de discursos teimosos e aleatórios, numa clara tentativa de mudar de assunto. Cloroquina, desobrigação de máscara, fraude eleitoral, voto impresso, pandemia acabou… Você se lembra de mais alguma?

A mim, esse looping sempre cansa, e vejo muita gente se contorcer também, mesmo de dentro do grupo daqueles que inicialmente apoiavam tais teorias. Mas as estórias se repetem tanto, sem lógica e comprovações, que eles mesmos já as abandonaram. E aí eu te pergunto: essa espiral não te faz se sentir um tanto manipulado ou manipulada? Não te dá a sensação de estar sendo enganado ou enganada a todo tempo, subestimado ou subestimada em sua capacidade de discernimento e construção da sua própria opinião?

Se há fraude eleitoral em função da urna eletrônica, por exemplo, por que o maior expoente dessa acusação venceu cinco eleições de sete para deputado e conseguiu chegar ao Palácio do Planalto por meio desse mesmo sistema? E por que ele ainda não provou sua tese? Você já deve ter percebido que ele inverte o ônus da prova, ou seja, ele joga para quem discorda dele a obrigação de provar que ele está errado, quando, na realidade, a verdade já estava posta desde o princípio e quem precisa provar algo é ele. Mas você sabe por que essa inversão acontece? Porque, nesse caso, quem acusa é a parte mais fraca da argumentação.

Pelo bem da nossa própria existência nesse mundo cada vez mais beligerante, devemos exercitar mais a nossa capacidade crítica sobre o que nos é apresentado, e não aceitar qualquer teoria que chegue aos nossos ouvidos, mesmo que aparentemente não mirabolante, sem buscar saber se aquilo tem consistência e provas, afinal, é assim que nos protegemos de fake news e manipulações.

Em homenagem ao tema de hoje, indico o livro Persuasão, onde a comunicóloga e professora Maytê Carvalho habilmente compilou uma série de conceitos sobre o assunto, desde Aristóteles, e montou uma espécie de guia. Agora, para encerrar, te faço somente mais duas perguntas: você se sente preparado ou preparada para identificar falácias nos discursos? E para se defender delas? Compartilhe seu pensamento crítico para que possamos fomentar debates e evoluir enquanto sociedade.

Mariana Ferreira é comunicóloga.

Pedetista e democrata têm o desafio de aglutinar votos do antipetismo que também rejeita Bolsonaro
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Se a parceria render novos frutos, Ciro e Neto terão superado o desafio de expandir o alcance das suas candidaturas no campo democrático, aquele dominado pelo PT de Lula e Rui Costa nos cenários nacional e estadual.

Thiago Dias

Paira no imaginário político a possibilidade de uma aliança nacional entre o PDT de Ciro Gomes e o DEM de ACM Neto.

Foi o próprio Ciro quem defendeu novas dobradinhas DEM-PDT, em entrevista concedida em maio ao Valor Econômico, lembrando que a vice-prefeita de Salvador, Ana Paula Matos, é sua correligionária.

Para Ciro, o sucesso da candidatura liderada pelo hoje prefeito Bruno Reis pode se repedir no ano que vem, com o PDT indicando o(a) vice de ACM Neto na disputa pelo Governo da Bahia. Em contrapartida, o ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta poderia ser o nome de alcance nacional do DEM na chapa do pedetista.

O implacável João Santana, que comandou a propaganda eleitoral do PT em três das quatros campanhas presidenciais vitoriosas do partido, já começou a emoldurar os vídeos do PDT com o azul antipetista.

Se a parceria render novos frutos, Ciro e Neto terão superado o desafio de expandir o alcance das suas candidaturas no campo democrático, aquele dominado pelo PT de Lula e Rui Costa nos cenários nacional e estadual.

Com Mandetta, do inesquecível “Tchau, querida!” para a então presidente Dilma Rousseff (PT) na véspera do impeachment, Ciro pode alcançar a grande fatia do antipetismo que também não tolera Jair Bolsonaro – o presidente sem partido.

Para Neto, estar ao lado de um pedetista o distanciaria da impopularidade da extrema-direita na Boa Terra. Essa tarefa será dificultada, é claro, se o prefeito Bruno Reis e os deputados federais do DEM baiano continuarem a aparecer em fotos com o presidente. Afinal, ACM Neto não precisa de Bolsonaro para aglutinar os votos antipetistas.

Thiago Dias é repórter e comentarista do PIMENTA.

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Lamentavelmente, a profissão de advogado vem se tornando a cada dia inviável, frustrante e humilhante e sem qualquer perspectiva de melhora, acabando com sonhos acalentados desde a infância e dos familiares.

 

Andirlei Nascimento || andirleiadvogado@hotmail.com

Com o nítido e inquestionável enfraquecimento da representatividade, a Advocacia vem sendo ferida de morte e vivenciando uma das mais graves crises da sua história, agravada nesse período de pandemia do novo coronavírus. O que observamos é que inexistem ações com o objetivo de estruturar o Poder Judiciário para que possa atender as demandas judiciais em tempo razoável para que os profissionais do Direito possam sobreviver da profissão.

Hoje no Brasil, grande parte dos advogados, em razão do empobrecimento da classe, vem enfrentando dificuldades econômico-financeiras e sobrevivendo de forma humilhante.

A dignidade está alanceada porque as atividades forenses se encontram com mais dificuldades na prestação jurisdicional.  E mais: as prerrogativas da Advocacia a todo o momento vêm sofrendo profundos golpes sem a resposta necessária e adequada.

Na Bahia, nestes mais de um ano da pandemia, alguns advogados receberam, por duas vezes, de forma indigna uma mini cesta básica, ao contrário de outras seccionais que têm procurado contribuir para a superação desse momento difícil, estabelecendo valores descentes e respeitosos. Sem dúvida, uma situação que causou a cada um desses profissionais, constrangimento.

Enquanto os profissionais do Direito cobram o retorno normal das atividades forenses, os atuais dirigentes da Seção baiana da Ordem dos Advogados do Brasil buscam a dilação dos prazos processuais, um verdadeiro dilema e contradição de interesses.

Lamentavelmente, a profissão de advogado vem se tornando a cada dia inviável, frustrante e humilhante e sem qualquer perspectiva de melhora, acabando com sonhos acalentados desde a infância e dos familiares. Muitos bons profissionais, iniciantes ou não, em decorrência das intransponíveis dificuldades, têm desistido de segui-la. Um verdadeiro descalabro.

O advogado, como nenhuma outra profissão, ao receber a autorização da OAB para advogar, prometeu exercer a Advocacia “com dignidade e independência, observar a ética, os deveres e prerrogativas profissionais e defender a Constituição, a ordem jurídica do Estado Democrático, os direitos humanos, a justiça social, a boa aplicação das leis, a rápida administração da Justiça e o aperfeiçoamento da cultura e das instituições jurídicas”.  E o fez em juramento.

No entanto, diante do grave quadro que nós, advogados, estamos vivendo, difícil está cumprir esse juramento.

A Advocacia está sem voz, sem rumo e sem vez. Assim sendo, dessa forma realmente está cada vez mais difícil advogar na Bahia.

Andirlei Nascimento é advogado, especialista em Direito do Trabalho, pós-graduado em Direito Material e Processo do Trabalho e ex-presidente da Subseção da OAB Itabuna.

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Esses cérebros estão fugindo para lugares que de fato demonstram precisar e valorizar seus conhecimentos específicos.

Mariana Ferreira || marianaferreirajornalista@gmail.com

Tenho especial interesse por assuntos relacionados à saúde mental, pois acredito que é o que nos faz superar os obstáculos em direção à realização dos nossos sonhos sem perdermos o brilho no olhar, nos impulsionando a sempre evoluir. Como está relacionado a outro tema do qual sou curiosa, economia, essa notícia do Estadão me fez querer conversar um pouco sobre: “Brasileiros de 15 a 29 anos estão mais tristes, mais preocupados e mais pobres, aponta pesquisa”.

Na era das transformações tecnológicas e do despertar para uma economia voltada a soluções para o mundo por parte de gerações cada vez mais conscientes em diversas áreas de demanda social, é de tamanha preocupação constatar o que apontou essa pesquisa do Centro de Políticas Públicas da FGV Social. Trata-se do mais baixo nível da série brasileira de satisfação com a vida. A autoavaliação da juventude sobre felicidade teve a terceira maior queda entre 132 países – caiu dos 7,2 pontos registrados em 2013-2014 (numa escala de 0 a 10), para 6,4 no ano passado, após quedas sequenciais.

Esses jovens estão preocupados com a miséria, com a falta de oportunidades de trabalho, com a sua formação educacional… Enfim: em sobreviver. Sabemos que a falta de expectativa em cabeças tão jovens é algo extremamente danoso para eles, e precisamos ir mais a fundo e ter a consciência de que é igualmente prejudicial para o próprio país. Afinal, se uma nação não investe em seu capital humano, ela não terá como se desenvolver social, econômica, científica, tecnológica e humanamente. E, se ela não se desenvolve, o destino é a miséria do seu povo.

Não à toa o Brasil caiu mais uma vez no ranking da competitividade global de talentos da Insead, uma das principais escolas de administração do mundo, ficando em 80º lugar entre as 132 nações este ano. Demonstração clara de que já ficamos para trás. Para aqueles que já chegaram aos mais altos graus de especialização, tem sido custoso justamente viver nesse tipo de país, onde não há perspectiva de prosperidade. Nesse aspecto, outra violenta perda: esses cérebros estão fugindo para lugares que de fato demonstram precisar e valorizar seus conhecimentos específicos. E essa perda tem impacto profundo nesse Brasil cada vez mais com “b” minúsculo.

O governo brasileiro precisa encarar a realidade, parar de se perder em embates carentes de debate e entender que tirar o brilho no olhar do seu povo custará um rastro de danos que por muito tempo será sentido por todos. Nossa autonomia enquanto nação, nossa soberania perante o mundo e nosso verdadeiro patriotismo passam pela valorização da juventude, da ciência, da tecnologia, da filosofia, da comunicação, da educação e de tantas outras nobres e imprescindíveis áreas do conhecimento.

A conta fechará quando o governo entender que, fazendo a parte dele, deixa que nós fazemos a nossa. O que não dá mais para continuar é o brasileiro acordar todos os dias em um novo pesadelo, preocupado se vai ter casa, comida, dinheiro para pagar as contas ou se vai terminar o dia vivo, se terá leito caso pegue a Covid e quando conseguirá ser vacinado. São tantas as urgências do nosso povo, que dar atenção à saúde mental ainda não é uma prioridade. Assim, encerro minha reflexão parafraseando Euclides da Cunha: o povo brasileiro é, antes de tudo, um forte.

Mariana Ferreira é comunicóloga.

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Não há futuro seguro para o meio ambiente enquanto não mudarmos radicalmente o governo, substituindo-o por outro que internalize essa agenda e se comprometa com a sustentabilidade.

Wenceslau Junior

O mundo experimenta um dos piores momentos da sua história. Não bastasse a crise do sistema capitalista e do estado burguês em sua forma de representação da sociedade, vivemos uma pandemia de grande envergadura.

A situação brasileira se mostra, indubitavelmente, mais agravada em razão da postura do principal líder da nação, que nega a ciência, tripudia da morte de quase meio milhão de brasileiros, criando falsos dilemas entre salvar vidas e garantir empregos; entre direito de ir e vir e direito à saúde e integridade física.

Vivemos uma crise de caráter político (a democracia ameaça pela postura fascista), econômico (desaquecimento da economia global, agravada pelo neoconservadorismo em curso), social (ante à insensibilidade do governo central de socorrer as pessoas impossibilitadas de prover o sustento da sua família em razão das necessárias restrições) e ambiental (em razão do completo descompromisso do Ministro do Meio Ambiente com essa agenda e seu posicionamento em defesa daqueles que atuam ilegalmente no garimpo e na exploração de madeira, inclusive em terras indígenas).

Em 25 de janeiro de 2019, menos de um mês da posse do atual presidente, ocorreu um dos maiores desastres ambientais do país. As vítimas do rompimento da Barragem de Brumadinho até hoje agonizam com a perda de parentes, destruição da cidade e poluição ambiental. Mas até o presente momento não vislumbramos uma ação enérgica por parte do Governo Federal para evitar novas tragédias semelhantes.

Em agosto de 2019 o Brasil assistiu de forma estarrecida a um dos maiores acidentes ambientais com derramamento de petróleo bruto na costa do Nordeste. O vazamento de cinco mil toneladas de óleo foi um dos maiores desastres ambientais do litoral brasileiro. Atingiu mais de 1.000 localidades em 130 municípios de 11 estados, sendo nove do Nordeste e dois no Sudeste. O desastre também atingiu aproximadamente 300 mil trabalhadores do mar. Até a presente data não se tem um desfecho sobre as investigações e a situação estaria pior se não fosse o trabalho voluntário de limpeza das praias pelas comunidades atingidas.

Nos dois primeiros anos da gestão do atual presidente, o Brasil ardeu em chamas. Houve aumento de 30% de incêndios na Amazônia em comparação com o ano anterior. A maior floresta tropical do mundo teve 89.178 focos de fogo em 2019. Fato que rendeu fortes críticas no mundo inteiro.

Em 2020 foi a vez do Pantanal. A área queimada na região somente em 2020 supera em 10 vezes a área de vegetação natural perdida em 18 anos. Entre 2000 e 2018, o IBGE estimou em 2,1 mil km² a área devastada no Pantanal, que era o bioma mais preservado do país. Já em 2020, pesquisadores estimam a perda de pelo menos 23 mil km² consumidos pelo fogo.

O bioma do Cerrado também sofreu duro golpe no ano passado. Em 2020, somente entre janeiro e agosto, foram registrados 21.460 focos de queimadas no Cerrado, de acordo com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE). Apenas no DF, segundo o Corpo de Bombeiros, foram incendiados mais de 6,9 mil hectares de Cerrado e registradas 3.912 ocorrências de incêndios florestais.

A ameaça de retirar o Brasil do Acordo de Paris, associado ao desmantelamento das estruturas governamentais de fiscalização ambiental, sinaliza o descompromisso do Governo Federal com a agenda ambiental.

O ano de 2020 bateu recorde em desmatamento. Ao invés de adotar medidas de contingenciamento e repressão à extração ilegal de madeira e ao desmatamento, o presidente sacou Ricardo Galvão da diretoria do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, Inpe, justamente pelo mesmo ter cumprido seu dever e alertado às autoridades sobre os índices.

Enquanto isso o ministro da Destruição Ambiental, Ricardo Salles, sugere ao presidente que se aproveite da situação na qual todos os holofotes estão voltados para a pandemia, para “passar a boiada”.  Quer dizer: acelerar a extração ilegal de madeira; legalizar a grilagem e o garimpo em terras indígenas; expandir a fronteira agropecuária à custa da devastação das florestas. O comportamento do ministro lhe rendeu operações da Polícia Federal e abertura de investigação autorizada pelo STF.

Infelizmente não há nada a comemorar nesta data. Mas ela deve simbolizar a necessidade dos segmentos e instituições comprometidos com a agenda ambiental a se integrarem ao esforço pela construção de uma ampla frente política, heterogenia, interinstitucional, suprapartidária, comprometida com a defesa da democracia e pelo fim desse governo. Assim como não existe futuro seguro e promissor para a classe trabalhadora, as mulheres, a juventude, as minorias em geral. Não há futuro seguro para o meio ambiente enquanto não mudarmos radicalmente o governo, substituindo-o por outro que internalize essa agenda e se comprometa com a sustentabilidade.

Wenceslau Junior é advogado, professor da Uesc e mestrando em Direito, Governança e Políticas Públicas pela Unifacs, além de membro da Comissão Política Estadual do PCdoB, ex-vereador e ex-vice-prefeito e ex-secretário de Planejamento e Tecnologia de Itabuna.

Com seu estilo que desencobre belezas e dramas da cotidianidade, o escritor Rodrigo Melo nos transporta para um fim de tarde qualquer em 1976, em pleno 2021
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Um dia, de frente pro espelho, do nada dei de procurar o sujeito que eu achava que era. Meia hora ali, em uma extenuante busca, e ele não estava lá. Em seu lugar, um quase estranho, feio e esquisito, desses que a gente sempre vê de relance e que nunca chega a saber verdadeiramente quem é.

Rodrigo Melo

Uruçuca é um remanso. Não há turistas com camisas floridas e protetores solar andando por suas ruas, muito menos hipsters com tatuagens e barbas cultivadas, nem surfistas, skatistas ou alpinistas, e acho que também nunca vi um policial em patrulha. Na verdade, lembro desse único que frequentava o dominó dos velhotes na praça, mas ele não usava arma nem colete e passava os dias por ali, fechando uma partida após a outra. Outro fato curioso é que uma boa parte da população, feito em várias outras cidades, não usa máscaras: os pontos cheios, o carrinho do pastel rodeado de gente, e todo mundo naquele esquema de conversar e soltar perdigotos sem parar. É como se a cidade tivesse parado em algum dia em 1976 e ainda continuasse lá, preservada em um tipo de inocência que não serve pra muita coisa, a não ser que o sujeito seja um enviado de Deus, tenha desistido ou esteja prestes a desistir. E era justamente desse jeito que eu andava, não como um enviado de Deus, mas parecido com um quase desistente, e até continuaria assim, não fosse essa ventura que veio através do que lá fora chamam de wake up cool ever – acho que é isso -, que significa, basicamente, uma chamada de consciência absoluta. Um dia, de frente pro espelho, do nada dei de procurar o sujeito que eu achava que era. Meia hora ali, em uma extenuante busca, e ele não estava lá. Em seu lugar, um quase estranho, feio e esquisito, desses que a gente sempre vê de relance e que nunca chega a saber verdadeiramente quem é.

Mas então eu estava com algumas sacolas de mercado nas mãos, caminhando até a banca de cigarros, quando, ao passar pela porta de um estabelecimento, alguém me chamou.

– ei – a mulher disse. – vem beber um copo comigo.

Devia ter uns trinta e poucos anos, cabelos castanhos escorridos, unhas pintadas, o vestido florido com uma das alças caindo. Tinha o rosto bonito. Estava sentada em uma das mesas, com um copo de cerveja à sua frente. Na fachada do bar, em cimento, o nome do supermercado Iguatemi.

– agora não posso – respondi. – Preciso resolver umas coisas.
– resolve depois.
– são urgentes.
– vou esperar você voltar – ela falou, dando um gole.

Não encontrei Hollywood na banquinha. Comprei um Broadway, que me deixa com um pigarro do caralho, e esperei o homem trocar o dinheiro. Depois fui até o carro, guardei as sacolas cheias de verduras, peguei a sanduicheira que quebrou com uma semana de uso e segui até a loja em que a havia comprado. O atendente disse que a garantia deles tinha expirado, mas que a empresa talvez trocasse por uma nova. Deixei a sanduicheira com ele e voltei para o carro. Bastava ligar o motor e voltar pra casa. Era simples, meia hora de estrada. Eu colocaria uma música boa e a viagem seria ainda mais rápida. Antes de ligar, no entanto, pensei na mulher. Era bonita. Estava mal cuidada, como muita gente, inclusive eu, mas manteve o sorriso largo e um brilho diferente nos olhos, feito esperança, embora também houvesse um tanto de desespero e de solidão. É isso o que os dias fazem com a gente, imaginei ela dizendo para alguém, ajeitando o cabelo castanho que caía sobre os olhos. Veio alguma coisa naquele momento, mas eu não sabia o que era. Nem tesão, nem simpatia. Acho que curiosidade. Saltei do carro, tranquei a porta e voltei.

Ela estava na mesma mesa, agora acompanhada de uma amiga, uma morena grande e larga que falava sem parar. As duas colocaram as máscaras, que estavam no queixo, quando entrei.
– sabia que ia voltar – ela disse.

Fui até a mesa ao lado da delas e me sentei.

– fiquei pensando na cerveja.
– Daiane, pega uma cerveja – ela disse pra amiga. – o homem aqui está com sede.
– isso aqui era um supermercado antes? – perguntei.
– parece que sim.
– e, agora, é um bar.
– um puteiro também.
– não tinha imaginado.
– tá na cara. quer ir lá atrás? Tenho um quarto.
– hoje não. vou ficar só com a cerveja.
– tá com medo de morrer…
– se estivesse, não me sentaria aqui.
– eu já me vacinei. Tenho pressão alta.
– não é isso. só quero beber a cerveja e ir pra casa.

Daiane voltou e colocou a cerveja nos copos, primeiro no delas e depois no meu. E nós começamos a conversar: sobre o calor da tarde, sobre uma amiga delas que estava intubada, sobre uma das músicas que tocavam na caixa de som. Eu às vezes fechava os olhos e me imaginava cantando a música, o efeito da segunda e terceira cervejas já batendo na porta, um náufrago se deixando levar pela corrente em busca de algo pra se segurar. Uma hora Daiane me encarou e disse:

– parece que você tá com a cabeça longe.
– Passei por um Wake up cool ever – disse -, e estava pensando no que tenho que fazer.
– que merda é isso?
– é quando a gente leva um susto, Daiane. E, depois desse susto, volta a se achar.
– levou susto, foi?
– alguns. Mas com todo mundo é assim.
– com todo mundo é assim – ela respondeu.

Daiane fez um brinde, vindo até a minha mesa e levantando o copo no ar. A outra, que se chamava Rosália, fez o mesmo e eu automaticamente fiquei de pé e levantei o meu. Todos com a porra da máscara no queixo. E, naquele momento, um pouco porque eu já estava meio bêbado, aqueles copos passaram a ser a extensão dos nossos corpos e eles se encontraram e permaneceram por alguns segundos juntos, o barulho do vidro a tilintar naquela comunhão, em plena pandemia, em um puteiro com o nome de supermercado iguatemi. Olhei para a rua e, de onde estava, pude ver o sol começar a se pôr, o sol de Uruçuca, uma panela de ouro a reluzir sobre o teto das casas, e permaneci por um instante em silêncio, observando o céu mudar de cor, ficando abóbora e cor de rosa, depois roxo e azul, até que enfim o sol se transformou em uma pequena curva branca no horizonte e o céu ficou escuro e a noite chegou. Eu nunca as tinha visto, mas não importava. Era como se estivesse entre amigos, gente que se entendia porque se conhecia há muito tempo, mesmo sem lembrar, e eu só precisasse ficar mais um pouco ali. Ou, foi o que pensei na hora, era também como se nós três, eu, Rosália e Daiane, tivéssemos de alguma forma burlado o tempo e de repente voltado a qualquer fim de tarde em 1976.

Rodrigo Melo é escritor; publicou Jogando dardos sem mirar no alvo (Mondrongo, 2016), O sangue que corre nas veias (Mondrongo, 2013), Enquanto o mundo dorme (Penalux, 2016) e Riviera (Mondrongo, 2020). 

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Há 14 meses, deixamos de lado nossas famílias, enfrentamos o vírus com todas as nossas forças, abrimos mão de nossa vida, e quantos colegas já vimos nos deixar enquanto lutavam pela vida do próximo… Mas, temos vacina. E, se temos, vamos vacinar!!!

Domilene Borges

Começo meu apelo hoje com essa frase, recebida por um amigo também Coordenador de Núcleo, em um dos nossos vários momentos de desabafo e consolo frente a todas as dores das perdas e dificuldades enfrentadas nessa batalha.

Vivemos um cenário cada dia mais preocupante. Dias difíceis, duros, tristes.

Hoje, temos na Bahia 1.025.987 casos confirmados de COVID 19, 4.620 nas últimas 24 horas.

Assistimos uma mudança no cenário da dinâmica do vírus.

Analisando os dados apresentados pela DIVEP/SESAB na última reunião da Comissão Intergestores Bipartite (CIB) no último dia 02/06/2021, podemos observar claramente que entre os meses de janeiro a maio, o número de casos confirmados tem aumentado nas faixas etárias compreendidas entre 20 a 59 anos. Da mesma forma, comparando-se o número de óbitos no mesmo período, constatamos que os mesmos aumentaram principalmente entre as pessoas com idade entre 30 a 59 anos.

Isso reflete de certa forma o impacto da vacinação na população idosa, mas também nos mostra a necessidade de continuar a nos cuidar. O vírus está acometendo as pessoas mais jovens, a classe economicamente ativa e que precisa, na maioria das vezes, se deslocar para garantir o sustento da família.

Diante dessa nova dinâmica, ainda que com pequenas quantidades de doses disponíveis, os Secretários Municipais de Saúde, juntamente com os representantes do Governo do Estado que participaram da reunião extraordinária da última CIB, decidiram estender a vacinação para a população de 18 a 59 anos sem comorbidades, paralelamente à vacinação dos grupos prioritários. Decisão essa que demonstra a preocupação de todos aqueles que estão na linha de frente há 14 meses e que luta incansavelmente pela vida.

Falando um pouco da nossa região, Sul, cursamos hoje com 74% de ocupação nos leitos clínicos COVID adulto e 81% nos leitos de UTI COVID adulto. Em relação aos leitos COVID pediátricos, hoje, tanto os clínicos quanto os de UTI cursam com uma ocupação de 100%.

Temos 144.806 casos confirmados e 3 municípios da nossa região que cursam entre os 10 do Estado com maior número de óbitos por residência – Itabuna (595), Ilhéus (483) e Jequié (320).

Em relação à vacina, contamos hoje com 91,8% das doses recebidas e destinadas à primeira dose já aplicadas, e 85,5% das segundas doses também já administradas. Acompanhamos o empenho dos municípios em imunizar a população, mas precisamos intensificar ainda mais as ações. Não podemos perder oportunidades, não podemos abrir mão de fazer chegar doses à população tão sofrida, ainda que, para isso, tenhamos que abrir mão de datas como feriados ou finais de semana. Estamos numa guerra, somos soldados e protagonistas nela e não podemos baixar guarda. Sei que não é fácil, não está sendo para ninguém. Há 14 meses, deixamos de lado nossas famílias, enfrentamos o vírus com todas as nossas forças, abrimos mão de nossa vida, e quantos colegas já vimos nos deixar enquanto lutavam pela vida do próximo… Mas, temos vacina. E, se temos, vamos vacinar!!!

Todas as perdas importam, e doem! Hoje já são 21.512 baianos que não estão mais entre nós.
É momento de reflexão, de amor ao próximo, compartilhamento de responsabilidades e proação. Precisamos proteger quem amamos.

Os cuidados continuam sendo fundamentais. Usem máscara, evitem festas e aglomerações. Estamos fazendo a nossa parte, mas precisamos de VOCÊ!

Que nunca nos falta fé. Vamos resistir e nunca desistir! Vamos vencer!

Domilene Borges é coordenadora do Núcleo Regional de Saúde Sul da Sesab.

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Em Resposta, Nando escreveu “ainda lembro o que eu estava lendo / só pra saber o que você achou/  dos versos que eu fiz / e ainda espero resposta”. Ele queria um perdão. Ela nunca respondeu. E sei lá, hoje eu resolvi que iria falar de AMOR…

Manuela Berbert 

Estava refletindo sobre a velocidade das redes sociais e da notícia, a quantidade de fake news gerada incessantemente e tentando, no meio dessa atribulação mental toda, esquematizar a linha de trabalho da equipe de comunicação que está me acompanhando em uma nova fase à qual estou embarcando. É que é tudo tão rasteiro que se a gente não se percebe, embarca em um efeito dominó de sentimentos dúbios e chega lá no final do dia exaurido, se perguntando. “Eu tive um dia ruim por qual razão, mesmo?”, sem se dar conta que foi lá naquele Bom Dia lotado de desaforos morais e políticos na palma das mãos.

Sei lá se estou certa ou errada, mas quero falar do que é bom! Mostrar o que vale à pena da vida e da Bahia! Perpetuar no espaço o que vale o nosso tempo de verdade! “Talvez seja a hora de tirar de cena os textos mais pessoais, que me afastam da Manu jornalista e me conectam diretamente com uma mulher mais sensível que nem sempre gosto de mostrar ao mundo”, pensei, naquela caminhadinha matinal marota no país Itabuna, ao redor do Rio Cachoeira. Mas sei lá, numa pandemia, onde nada faz muito sentido, tudo anda fazendo mais sentido ainda.

Cheguei em casa, abri as redes sociais e me deparei com uma pessoa contando que Nando Reis teria escrito a música Resposta após o termino de seu relacionamento com Marisa Monte, meio inconformado com o fim do romance e das suas ligações profissionais. Eles eram, além de namorados, parceiros musicais, e Nando enviava suas letras para que ela desse sempre uma olhadinha. Várias partes da canção fazem menção à artista e ao que viveram, como a citação de Ainda Lembro, que é um dos grandes sucessos de Marisa. Em Resposta, Nando escreveu “ainda lembro o que eu estava lendo / só pra saber o que você achou/  dos versos que eu fiz / e ainda espero resposta”. Ele queria um perdão. Ela nunca respondeu. E sei lá, hoje eu resolvi que iria falar de AMOR…

Manuela Berbert é publicitária e edita o manuelaberbert.com.br

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Como a jornalistas não é permitido exercitar a criatividade hermenêutica dos bacharéis concursados do Parquet, resta-nos a criatividade semântica a serviço da retórica e o “jus sperniandi”. Esperneemos, pois.

 

Ernesto Marques

Sempre me incomoda ler/ver/ouvir de colegas de imprensa equívocos como: o Ministério Público “determinou”, “decidiu”, “proibiu”…

Se a imprensa é mesmo o quarto poder, não atentou para os riscos de tais equívocos colaborarem para criar um quinto – nem sempre independente, mas sempre autônomo. As redações banalizaram o erro no qual reincidem focas, editores, comentaristas e medalhões do jornalismo brasileiro. Não se trata de mera questão semântica e este episódio do “embargo” ao cumprimento da decisão da Comissão Intergestora Bipartite (CIB), incluindo comunicadores entre os grupos prioritários para a vacinação, é só mais um sintoma do vírus do abuso do poder institucional que nós, jornalistas, ajudamos a instilar.

As aspas no termo “embargo” são propositais mesmo. O Ministério Público nada embarga. Não determina coisa alguma, a quem quer que seja. Nada decide, muito menos proíbe. O MP, no entanto, tem o poder de provocar quem, de fato e de direito, tem o poder de embargar, determinar ou mesmo proibir algo: a Justiça.

Do império até os estertores da ditadura militar, o MP não passava de mero apêndice mal resolvido, pendulando entre o Executivo e o Judiciário. Ganhou outro status com a Lei da Ação Civil Pública, de 1985. O então presidente Sarney vetou o artigo que dava ao MP o poder de atuar em defesa dos direitos difusos – conceito novo para o Brasil daquela época. Na conversa com Sepúlveda Pertence, seu procurador-geral e articulador da nova lei, Sarney profetizou o perigo com a imagem do promotor hipotético de um lugarejo desconhecido: “imagina que amanhã ele entenda que o casamento do João com a Maria fere algum interesse difuso. Então essa não vou sancionar.” E vetou o artigo.

Integrante da comissão de notáveis que ajudou a escrever a Constituição de 1988, Sepúlveda Pertence foi muito mais longe. Tinha lá suas razões: em 1969 os militares usaram o AI-5 para afastá-lo compulsoriamente da Procuradoria. Garantiu ao MP brasileiro prerrogativas que bem merecem o rótulo de jaboticaba. Em nenhum outro país o Parquet pode tanto. O MP ganhou autonomia funcional e administrativa, vitaliciedade, inamovibilidade e irredutibilidade de vencimentos. Ganhou. Ganhou mesmo. A sociedade brasileira, farta das deformações do regime militar, deu. Esperava, em contrapartida, uma instituição a protegê-la de abusos seculares.

Mas a popular lei de Gerson também vigora entre promotores e procuradores. Embalados por doses desmedidas de criatividade hermenêutica, sepultaram o sonho de Sepúlveda agregando poderes para muito além do desenho já bastante arrojado, definido pelos constituintes. “Eu não sou Golbery (general criador do SNI, da ditadura), mas também criei um monstro”. Tarde demais…

Em bom manejo do “clamor público”, engravatados arautos da moralidade e justiceiras de scarpin arvoram-se ao poder de interferir em quase tudo. Da ameaça aos direitos difusos, representada pelo casamento de João com Maria, à vida econômica, ao funcionamento da política e do serviço público.

As tais recomendações são, talvez, a melhor síntese da criatividade hermenêutica dos ficais da lei, livres de quem os fiscalize, efetivamente.

A recomendação a alcançar comunicadores que choram a cada dia de pandemia, a morte de um colega vitimado pela covid-19 será útil se cumprir papel pedagógico para ensinar, afinal, que Ministério Público não é Judiciário. Em sintonia, MPF e MPE recomendam que a CIB, instância prevista na Lei Orgânica do SUS com competência legal para decidir sobre políticas de saúde pública, se abstenha de incluir novos segmentos aos chamados grupos prioritários. Recomendaram também aos secretários de Saúde e prefeitos o descumprimento da resolução da CIB. E qual gestor público não teme as investidas potencialmente devastadoras do quinto poder?

A recomendação do promotor Pedro Nogueira Coelho, de Ilhéus, é exemplo lapidar do abuso. Depois de quatro páginas de “considerandos”, recomenda que o secretário municipal de Saúde se abstenha de cumprir a resolução. Pede que Geraldo Magela apresente argumentos técnico-científicos balizadores da decisão que ele não tomou e apenas deveria cumprir.

Como se fosse pouco, o procurador ainda pressupõe que o secretário descumprirá a sua “recomendação” e impõe prazo de 15 dias para “manifestação a respeito do acatamento da presente recomendação, bem como informações acerca das providências adotadas para o seu cumprimento, acompanhadas dos documentos necessários à sua comprovação.”

Parafraseando o saudoso Millôr Fernandes, livre recomendar, é só recomendar. Assim, atrevo-me a recomendar ao Dr. Coelho e pares: abstenham-se de continuar se abstendo no “x” da questão sobre a falta de vacinas para o povo brasileiro. Talvez estivéssemos oferecendo prêmios a quem se vacinasse, como nos Estados Unidos e no Chile, se o MP tivesse “recomendado” às autoridades de plantão, a compra de vacinas, em vez de remédios ineficazes. E com base em critérios técnico-científicos!

De Luis Gama a Barbosa Lima Sobrinho, não faltam interseções entre jornalistas e advogados. Mas as “recomendações” dos MPs revelam-nos mais um traço comum: a criatividade. Como a jornalistas não é permitido exercitar a criatividade hermenêutica dos bacharéis concursados do Parquet, resta-nos a criatividade semântica a serviço da retórica e o “jus sperniandi”. Esperneemos, pois.

Ernesto Marques é é jornalista e radialista, atual presidente da Associação Bahiana de Imprensa.

Chaveamento das Oitavas de Final da Copa Libertadores 2021
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Deixando de lado os números e históricos, e avaliando inclusive o que vimos nas duas últimas edições de Libertadores, creio ser bem viável o Flamengo estar na final; já o adversário, eu arrisco dizer que ficaria entre São Paulo e River Plate. É um palpite.

Sergio du Bocage

Antes de ter início o sorteio dos cruzamentos das oitavas-de-final da Copa Libertadores havia receio de enfrentar, de imediato, um grande concorrente pela frente. E não era para menos. Flamengo, Internacional, Fluminense, Atlético-MG e Palmeiras, que ficaram em primeiro lugar em seus grupos, viam no outro pote as bolinhas de Boca Juniors e River Plate, da Argentina, e do São Paulo, entre os mais fortes. E ao final do evento, a maioria respirou aliviada: só o time mineiro pegou a conhecida “pedreira”.

A partir de agora, o caminho até a final está traçado. Uma das chaves ficou com Flamengo, Internacional e Fluminense; a outra, com Atlético-MG, São Paulo e Palmeiras. Pra começar a análise, vamos pelo número de conquistas de cada lado. Na primeira, temos três campeões, com um total de sete títulos: três do Olímpia (PAR), dois do Internacional e outros dois do Flamengo. Na segunda, sete campeões e 18 títulos: seis do Boca Juniors, quatro do River Plate, três do São Paulo, dois do Palmeiras e um do Racing, do Argentino Juniors e do Atlético-MG.

Só essa situação – dos títulos – já nos antecipa outra: numa das chaves, a posição das equipes no ranking da Conmebol é bem inferior à dos times do outro lado da tabela. O Flamengo, 6º, por exemplo, vai pegar o Defensa y Justicia (ARG), 37º. Dos três, é o que pega o adversário, teoricamente, mais fraco. Mas não custa lembrar que o DYJ é o atual campeão da Copa Sul-Americana e venceu o Palmeiras, nos pênaltis, na Recopa. Se passar, já poderemos ter um clássico que decidiu o título brasileiro de 1987 – Flamengo x Internacional, 18º no ranking, que pega o Olímpia (PAR), 12º, nas oitavas. E desse duelo nacional sairá um brasileiro para, possivelmente, encarar o Fluminense (39º) numa semifinal. O Tricolor carioca pega o Cerro (PAR), 11º do ranking, e depois, se tudo der certo, o vencedor de Vélez (ARG, 33º) x Barcelona (EQU, 31º). Dá pra sonhar, não acham? Não chega a ser uma tarefa hercúlea.

Já do outro lado, a dificuldade é bem maior. O Atlético-MG, 19º no ranking, terá de superar o Boca (2º) e, depois, muito provavelmente o River (1º), que terá uma tarefa bem mais fácil nas oitavas – talvez até a mais tranquila -, contra o Argentinos Juniors, 81º, rival argentino conhecido e o de pior ranking sul-americano entre os classificados desta fase da Libertadores. Ou seja, para ser semifinalista, o Galo terá de passar pelos dois primeiros colocados do ranking e dos maiores campeões da competição – o maior é o Independiente (ARG), com 7, e que disputa a Copa Sul-Americana; aliás, será o adversário do Santos, apontado em sorteio também realizado nesta terça-feira (01).

E quem seria o rival do Galo, se ele chegasse na semifinal? Palmeiras, 4º do ranking, ou São Paulo (13º), que poderão se encontrar nas quartas-de-final, repetindo a final do último Paulistão. O Palmeiras, antes, vai encarar o Universidad Catolica (CHI, 30º), enquanto o Tricolor paulista pega o Racing (ARG, 22º). É possível, sim, termos um brasileiro saindo dessa chave para a final, mas o caminho será árduo. O que, por outro lado, poderá deixar esse classificado embalado e fortalecido pelos desafios que terá superado.

Deixando de lado os números e históricos, e avaliando inclusive o que vimos nas duas últimas edições de Libertadores, creio ser bem viável o Flamengo estar na final; já o adversário, eu arrisco dizer que ficaria entre São Paulo e River Plate. É um palpite. Com a ressalva, importante, de que a bola vai voltar a rolar para a Libertadores apenas em julho, depois da Copa América. E, até lá, todos os times vão passar por mudanças, para melhor e/ou para pior. Mas como sonhar não custa nada, que tal imaginar um tricampeonato brasileiro no mais importante torneio de futebol entre clubes na América do Sul?

Sergio du Bocage é apresentador do programa No Mundo da Bola (TV Brasil).

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Marão não contava conversa e, com a mesma disposição que organizava e participava das caminhadas de Serra e Souto, não dispensava os “arrastões” de Dilma e Wagner que tinha a participação de Ângela Sousa.

 

Walmir Rosário

Campanha política de 2010 para eleger presidente, senadores, deputados federais e estaduais e governador. Em Ilhéus, a base aliada de Dilma Rousseff e Jaques Wagner transbordava de adesões, mas como política é uma arte que requer muita astúcia, algumas lideranças, para garantir prestígio, seja qual for o resultado das urnas, dão uma no cravo e outra na ferradura.

Bastante precavida, a deputada estadual ngela Sousa formou dobradinha com alguns deputados federais – alternando as cidades –, sendo que em Ilhéus o acordo foi fechado com o deputado federal Geraldo Simões e, apesar do seu partido pertencer à coligação que tinha como candidato a governador Geddel Vieira Lima, fez campanha para Dilma e Jaques Wagner.

Já o vice-prefeito de Ilhéus, Mário Alexandre, filiado ao PSDB, “armou seu barraco” na campanha de José Serra e Paulo Souto, pulando a cerca – por motivo justo – quando se tratava dos votos que teria que dar à mãe, Ângela Sousa, e a Geraldo Simões, além dos candidatos a senadores Lídice da Mata e Walter Pinheiro. Tudo era permitido legalmente, embora não recomendado pela ética.

Mesmo com os candidatos diferenciados, o vice-prefeito Marão não contava conversa e, com a mesma disposição que organizava e participava das caminhadas de Serra e Souto, não dispensava os “arrastões” de Dilma e Wagner que tinha a participação de Ângela Sousa. Para ele, o principal era mostrar serviço e ficar bem com todas as coligações, num sinal de esperteza eleitoral.

Médico dos mais conhecidos e conceituados, Mário Alexandre, pela disposição que sempre apresentava, entusiasmava tanto os participantes das caminhadas quanto os moradores ou transeuntes, tratando todos pelos nomes. Pródigo nos abraços, perguntava pela família e pedia o voto para a coligação de sua mãe, a deputada Ângela Sousa, e depois para os candidatos da coligação tucana.

E com essa profusão de coligações, em que adversários políticos e coligados se misturam, o barco navegou bem durante toda a campanha eleitoral, fazendo com que todos se juntassem na hora de trabalhar a população de determinado bairro. Uma turma descobria a tendência eleitoral dos moradores de determinadas casas, que eram visitadas primeiro pelos cabos eleitorais ligados aos candidatos daquela família.

E foi uma tática que deu certo. Na reta final da campanha, numa dessas caminhadas realizada no bairro do Pontal, tudo corria tranquilamente e a adesão dos moradores era praticamente total, para delírio das lideranças. Foi aí, então, que aconteceu um fato inesperado, digno da esperteza política e que mereceria uma rigorosa apuração dos fatos praticados por uma das coligações.

Numa das turmas, o vereador petista licenciado e secretário da Indústria, Comércio e Planejamento Municipal, Alisson Mendonça, após ter se refrescado do sol quente com alguns goles de cerveja, sente vontade de ir ao banheiro e, passando em frente à casa de um amigo, pede licença para satisfazer suas necessidades fisiológicas. Ao sair, se depara com uma paisagem totalmente diferente da que deixou. Todas as propagandas da coligação petista, coladas anteriormente estavam cobertas pelos cartazes dos candidatos da coligação PSDB-DEM.

Atônito, Alisson, que tinha ficado pra trás, ligou ao celular para um “companheiro” que ia à frente comandando a colagem das propagandas da coligação petista para se inteirar da rápida mudança ocorrida:

– Nosso pessoal não está fazendo a “colagem”? – perguntou.

– Você está gozando de minha cara, claro que sim, qual é o problema – retrucou.

Foi aí que a turma que ia à frente parou de caminhar e Alisson, que ia atrás, se encontraram e presenciaram a turma da campanha de José Serra e Paulo Souto, coordenados por Mário Alexandre, colando os cartazes de sua coligação, justamente em cima dos cartazes da coligação petista. Se entreolharam encabulados como sinal de que estariam se entendendo bem e nada mais foi dito, apenas os sorrisos amarelos.

A partir do dia seguinte, não mais foi visto o vice-prefeito Marão na caminhada da coligação petista. Os cuidados foram redobrados, com uma turma à frente colando os cartazes e uma turma tomando conta da retaguarda.

Walmir Rosário é radialista, jornalista e advogado.

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Nós, todos, vivemos um ciclo desequilibrado que nos expõe como animais, uns contra os outros, numa espécie de jaula invisível muito poderosa, e que nos destrói.

Manuela Berbert || manuelaberbert@yahoo.com.br

Somos as nossas conexões e experiências, já escrevi isso outras vezes. São elas que proporcionam a nossa visão de mundo e assim as nossas perspectivas. “Manu, o que você vê à sua frente? ”, me questionou um profissional de saúde recentemente. “Você”, respondi. “E eu vejo você, com uma bolsa colorida nas mãos, um sorrisão bonito e olhos curiosos. Você sabe que seus olhos passam essa curiosidade, né? ”, sorriu. “Você não está errada na sua resposta, nem eu na minha. Nós só estamos em um mesmo ambiente, mas vendo coisas completamente diferentes”. Passei alguns dias pensando sobre isso e como transformar essa pauta neste texto que você lê agora.

Dia desses, voltando de Salvador, um amigo teve a ideia de entrarmos em Cachoeira para conhecermos de perto Edson Gomes, cantor e compositor baiano de destaque nos anos 80 e 90 através do reggae. Numa escala de preferências, mesmo sendo uma apaixonada por música e manifestações culturais, confesso que o reggae não configura o topo da minha lista, mas ainda assim topei a empreitada, que foi um desastre. Conseguimos achar a casa dele, que apareceu na sacada e disse que não iria descer para tirar uma foto porque estava ocupado. Passei o restante da viagem rindo da decepção do fã, e essa história me trouxe algumas lições na sequência.

Provavelmente incomodado com o meu descaso com a situação, em todas as oportunidades seguintes ele me mostrava letras do artista que retratavam a desigualdade social, violência e mazelas. E o trecho “quando a polícia cai em cima de mim, até parece que sou fera”, da música Camelô, me trouxe o incômodo necessário para que eu refletisse para além das próprias experiências. E é a primeira frase que me vem à mente quando vejo matérias sobre ações da polícia nas favelas do Rio de Janeiro, por exemplo. Como também me incomoda ter conhecimento das precárias condições de trabalho das delegacias, da falta de estrutura a qual os agentes públicos são expostos diariamente e por aí vai.

Vejo alguns chamando as ações de chacina. Leio outros chamando de faxina. Todas as versões me entristecem. A mãe de um bandido não é menos mãe porque o filho é bandido. A mãe do policial não é mais mãe porque o filho é policial. Nós, todos, vivemos um ciclo desequilibrado que nos expõe como animais, uns contra os outros, numa espécie de jaula invisível muito poderosa, e que nos destrói. De um lado, o tráfico crescendo como opção de renda nas periferias. Do outro, o número de policiais adoecendo do corpo e da mente numa curva gigante e assustadora, por diversos motivos. Políticas públicas eleitoreiras e sem alcance real de transformação de ambos os lados, e a grande questão é: por qual visão de mundo estamos olhando?

Manuela Berbert é publicitária e apresentadora do programa Debate Por ElaSS!

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Cabe torcer para que os alertas aqui mostrados, não sejam agouros, mas advertências e colaborações na perspectiva do êxito que o passado avaliza a ambas as organizações.

 

Manoel Moacir Costa Macêdo
Manoel Malheiros Tourinho

As organizações são estruturas criadas para alcançarem objetivos específicos como partes de processos institucionais existentes no mundo contemporâneo. Elas estão presentes em qualquer sociedade e espécies de governança, sistemas, formas e regimes de governo: capitalista, socialista, monarquia, oligarquia, aristocracia, democracia, ditadura, parlamentarismo e presidencialismo. As nações têm fábricas, lojas, hospitais, quartéis, escolas, centros de pesquisa, entre outras organizações que fazem a vida existir. As organizações modernas se movem segundo os ambientes, recursos, estruturas, objetivos e processos de gestão. Não são apenas estruturas físicas, a exemplo de prédios e equipamentos, ao contrário, abrigam ativos relevantes: pessoas, visões, missões, tecnologias, história, além da integridade moral e ética.

Teorias acreditadas pela ciência permitem analisar as organizações complexas sob várias perspectivas. A mais completa procura entendê-las à luz da teoria de sistemas, compreender as organizações como um arranjo sóciotécnico: universidades e centros de pesquisa são parte dos sistemas sociotécnicos de ciência e educação, como a CEPLAC – Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira e a EMBRAPA – Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária. Elas não operam em circuitos fechados e imunes às influências do ambiente externo. Ao contrário, estão abertas à capilaridade entre os de fora e os de dentro. Em alguns casos essa é a essência das estruturas, das tecnologias e dos seus papéis, a exemplo das organizações de saúde em tempo de pandemia. As organizações não operam no vácuo social, mas em condições de “conflitos” de variada natureza. O reducionismo das suas funções, é um artifício, tal qual o axioma da química, as “CNTP – Condições Normais de Temperatura e Pressão” e o “Ceteris paribus” da economia, onde “tudo mais permanece constante”, exceto as herméticas variáveis em análise. Ambos são recursos metodológicos, vez que no mundo real “tudo está em movimento e tudo interfere em tudo”.

Nessa perspectiva, por exemplo, um evento no setor agropecuário brasileiro, expressivo da economia nacional, mereceu atenção. Trata-se de analisar à luz de conjunturas passadas e presentes o que impulsiona o arranjo organizacional para recuperar a cacauicultura brasileira com a criação da Unidade Mista de Pesquisa e Inovação do Cacau, corruptela atualizada do “velho convênio técnico-científico” entre CEPLAC e EMBRAPA, organizações reconhecidas mundialmente devido a eficiência e sucesso no determinado lapso temporal. A CEPLAC foi modelo de uma ação integrada de pesquisa, ensino e extensão aplicada a um produto – o cacau. A CEPLAC, foi efetiva, eficiente e primorosa, em participar na ocupação da Amazônia no período do governo militar. O maior sucesso dessa missão está no fato do estado do Pará atualmente pontuar como o maior produtor de amêndoas de cacau nacional.

A EMBRAPA por sua vez, nasceu no pragmatismo da ditadura militar, como um modelo concentrado de pesquisa lastreado majoritariamente em centros de pesquisa por produtos, lógica avessa ao modelo difuso dos institutos de investigação; entretanto sem assumir os papéis derivados do ensino e extensão, ficando a sua “raiz pivotante” em produtos relevantes das cadeias agroindustriais e uns poucos nos biomas e na alimentação nacional.

A receita da Revolução Verde, orientou os propósitos da EMBRAPA no “aumento linear da produção e produtividade das lavouras e criações”, pela entrega de específicos “pacotes tecnológicos”, apartados das identidades históricas, sociais, econômicas e ambientais dos produtores rurais e seus modos de produzir e viver. A referência era a monta das inovações incorporadas em determinados produtos agropecuários na lógica reconstruída pela “inovação induzida” dos fatores de produção intensivos em capital, independentes de externalidades negativas.

O processo de colaboração entre as duas organizações estatais sob o véu do Ministério da Agricultura Pecuária e Abastecimento – MAPA, qualificam a se “amigarem”, no qual a estatal EMBRAPA ajudará a outra, a CEPLAC a fazer com eficiência o dever de casa como fez outrora, trinta anos passados. Será possível, ou será o benedito? Os objetivos são ambiciosos e transbordam a realidade das organizações isoladas em seus próprios mandatos, que passam a contrair uma cegueira às ameaças do seu entorno, ontem favorável e aplaudindo, hoje judiando e crucificando. Contingências que permeiam a EMBRAPA e a CEPLAC, a primeira ainda respirando pela sua rica história, a segunda agoniando. A Unidade Mista de Pesquisa nasce numa atmosfera de carência de recursos, restrições à aquisição de equipamentos, suspensão de treinamentos no exterior, restrições às ações de apoio aos experimentos no campo e laboratórios e até de suprimento de mão de obra especializada em decorrência de aposentadorias, mortes e defecções voluntárias. A CEPLAC tem mais de um quarto de século que não repõe seus efetivos, em menor tempo, também na EMBRAPA.

Apesar da CEPLAC e EMBRAPA terem acumulado experiências exitosas no marco temporal definido, tempo que não volta jamais, a realidade não mantém a sua histórica relevância. Apresenta-se então a pergunta: tem a ideologia neoliberal, da economia de mercado, da proposta do Estado Mínimo interesse em mantê-las vivas e pujantes? Uma resposta clara, como simples exemplo a essa premissa: na Amazônia depois do cacau ter retornado às suas origens florestais pela CEPLAC nos anos setenta, quem comanda agora a economia cacaueira, inclusive na formação de novos talentos e operários para as lides da lavoura, senão o setor privado na via do SEBRAE – Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas e SENAR – Serviço Nacional de Aprendizagem, apostolados pelas Federações de Agricultura dos estados amazônicos produtores de cacau.

Os agentes públicos presentes na Unidade Mista de Pesquisa, apresentaram propósitos ambiciosos e desprovidos de referenciais pragmáticos à sua operabilidade sobre as pessoas, materiais, estratégias efetivas e recursos financeiros para prospectar os revelados propósitos. Para o MAPA, o objetivo é “fortalecer a cacauicultura brasileira. Incrementar a pesquisa e desenvolver novos clones, mais produtivos e resistentes às pragas. O início da retomada do Brasil como grande produtor mundial”. À EMBRAPA “identificar as principais lacunas e potenciais oportunidades para alavancar a cacauicultura nacional”. Para a CEPLAC “que o Brasil deixe de ser importador de cacau e amplie sua exportação de cacau fino, derivados e chocolate em prol da cadeia do cacau e da sociedade brasileira de forma geral”.

Nos anais da história brasileira, constam registros de organizações estatais extintas, com fartos exemplos no setor agropecuário, sem reações e contestações robustas da sociedade, até por que foram decisões legais oriundas do poder legislativo. O diagnóstico das crises, anomalias e morte das organizações, são indispensáveis para a sua sustentabilidade e governança, sobretudo as públicas. Um profundo estudo dos ciclos dos monocultivos e suas organizações fomentadoras (cacau, café, algodão e cana-de-açúcar) vindas da economia colonial, marcado pelos rastros dos baronatos, capitães, coronéis e donos da terra, do desmatamento do bioma da Mata Atlântica, ambiente inicial das ações da CEPLAC se faz necessário pensar uma nova história organizacional.

Qual o papel que ainda pode ser reservado ao Estado nessas contingências? O suposto, é de que nem mesmo a soma aritmética dos anos da CEPLAC + EMBRAPA = 112 anos serão capazes de alcançar os objetivos propostos nessa cooperação. O fundamental é compreender a real movimentação do agronegócio no país e no mundo, livres dos apanágios corporativos que terminam buscando soluções mágicas, retiradas das cartolas das grandes corporações estrangeiras, algumas mais poderosas que alguns países, na geração de emprego e renda, acumulação e modernização do mundo rural, entre outros.

As duas organizações estatais, estão em questionamentos sobre as suas inserções nas demandas do agronegócio brasileiro. A CEPLAC, no período pósConstituição Federal de 1988, mostrou os primeiros sinais de declínio, quando comparado com o seu virtuoso passado. Diríamos que está “estiolada” e “desidratada” apesar das fortes chuvas do Sul da Bahia e do Pará. Pesquisadores bem treinados, reclassificados funcionalmente como “fiscais agropecuários” podem ser vistos nas plataformas de embarque de cacau no porto de Ilhéus. A imobilidade intencional alcança trinta anos.

À EMBRAPA, os sinais de enfraquecimento não faltam e não são recentes. Nos últimos vinte anos, vem ocorrendo o contingenciamento dos seus dispêndios orçamentários e o deslocamento das demandas por resultados de pesquisa pela complexa produção agropecuária brasileira. Não é recente a desarticulação do seu programa de treinamento, a carência de aquisição de equipamentos estratégicos, os descuidos com os campos experimentais e os baixos indicadores da ciência, tecnologia e inovação, em publicações e patentes, particularmente, com as referências internacionais. “Por favor, Embrapa: acorde!”.

A sustentabilidade das organizações numa sociedade desigual estará comprometida quando algum desses fatores estiverem presentes na sua operacionalidade: gestão desconectada com a realidade, carência de cumprimento de metas robustas, baixa produtividade, afastamento progressivo da evolução do conhecimento, distanciamento das demandas locais, envelhecimento dos meios de trabalho e rendimentos incompatíveis com a unidade das “possibilidades versus as necessidades”.

Cabe torcer para que os alertas aqui mostrados, não sejam agouros, mas advertências e colaborações na perspectiva do êxito que o passado avaliza a ambas as organizações. Sem um efetivo diagnóstico organizacional para identificar as ameaças e falhas, a “boia salva-vidas” atirada ao mar para resgatar dois moribundos, não vai salvá-los. Um agonizando e o outro está deveras enfermo. Se a boia estiver furada, só resta o abraço dos afogados.

Manoel Moacir Costa Macêdo e Manoel Malheiros Tourinho são engenheiros agrônomos e, respectivamente, pesquisadores aposentados da Embrapa e da Ceplac.

Juliette Freire venceu BBB21 com 90,15% dos votos
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Com o mundo real passando na palma das mãos de todos, através da tela do celular, quem é de verdade reconhece com muita sensatez quem é de mentira. E aí, nada produzido para agradar, vender ou convencer, ecoa mais!

Manuela Berbert || manuelaberbert@yahoo.com.br

Em tempos de rótulos e definições para tudo e todos, se tem uma frase que muita gente concorda é: não se explica fenômenos! Nem os produzidos pela natureza, nem os produzidos pela mente humana, como a paixão por celebridades etc. A gente até tenta decifrar, achar “a culpa” ou culpados, mas não passamos do campo das ideias e dos achismos. Sempre foi assim!

E é sustentando essa máxima que escrevo este texto, já que ninguém consegue explicar o que leva uma nação em peso a se apaixonar por uma determinada pessoa. No caso de Juliette em si, vencedora do BBB e recorde em engajamento nas redes sociais, vendas de produtos e rankings estrondosos em buscas por seu nome, nem ela mesma. “Por quê?”, questionava. “Porque o Brasil te ama”, respondiam os apresentadores. E só isso!

Mas embora não se explique fenômenos, ouso escrever que o não fazer parte das cópias, nem vender a própria alma para fazer parte de um determinado grupo que sustenta o caráter. E ele chega antes da pessoa! Coisa para gente corajosa! Destemida! Forte! Ainda que custe lágrimas e uma boa dose de insanidade mental pelo caminho.

São tempos claros, onde ninguém mais se esconde nas esquinas. Uma hora ou outra, verdades vêm à tona. “Máscara pesa”, escutei um dia e nunca esqueci. E tem pesado na cara tanto de pessoas comuns quanto de artistas, políticos etc. Com o mundo real passando na palma das mãos de todos, através da tela do celular, quem é de verdade reconhece com muita sensatez quem é de mentira. E aí, nada produzido para agradar, vender ou convencer, ecoa mais!

Manuela Berbert é publicitária.