Rosivaldo Pinheiro é comunicador, economista e especialista em Planejamento de Cidades (Uesc)
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Não busquemos saber em que pé o calo aperta mais, se o esquerdo ou o direito. Façamos o que propôs as havaianas e “entremos no próximo ano com os dois pés”: firmes, fortes e em equilíbrio, dispostos a derrubar muros divisores e portas fechadas no caminho.

 

Rosivaldo Pinheiro

Estamos vivendo os últimos dias de mais um ano e, igualmente aos anteriores, acompanhamos as divisões postas e expostas na sociedade brasileira no campo político desde a divisão ideológica que vimos nascer a partir da ascensão do golpe contra Dilma Rousseff, numa tese fabricada que atribuiu a ela um crime de responsabilidade, através do qual ela sofreu impeachment.

Em seu lugar assumiu o vice Michel Temer. E, de lá para cá, tivemos uma série de desdobramentos, um grande enredo com características e complexidades que só uma democracia em vertigem pode explicar: um ex-presidente sai da prisão – levado a ela por caminhos escusos, disputa e ganha as eleições, assumindo o comando do país pela terceiro vez – único na história. E um presidente que disputa e perde as eleições, único no pós-reabertura democrática que disputa uma reeleição e não vence, tenta se manter no Poder e, três anos após, acaba preso.

Por essas trajetórias já se pode avaliar o nível de embates e narrativas existentes.

O chamado que fica é a necessidade de construção de um país para todos, na certeza de que o caminho será através do voto popular. Assim exige o funcionamento do processo democrático a que vivemos no Brasil. Nele, os vencidos dão passagem aos vencedores e buscam uma nova chance na próxima eleição. Os vencedores buscam apresentar resultados através da governança para ser reeleito ou apresentar quem será o seu sucessor, submetendo-o ao escrutínio popular.

Enfim, nossas ceias natalinas ou os almoços de domingo não são os mesmos nos últimos anos. Sempre temos ausências em função dos embates ideológicos. Que tal darmos uma trégua?

Aproveitemos o espírito natalino e as vibrações positivas da virada de ano para estabelecermos essa reflexão necessária. Não busquemos saber em que pé o calo aperta mais, se o esquerdo ou o direito. Façamos o que propôs as havaianas e “entremos no próximo ano com os dois pés”: firmes, fortes e em equilíbrio, dispostos a derrubar muros divisores e portas fechadas no caminho. Vamos superar os atrasos que nos paralisam como nação.

Que 2026 represente uma nova oportunidade de crescimento pessoal para todos nós, que a democracia siga o seu curso e que a paz esteja em nossos corações e lares. Um Ano Próspero a todos!

Rosivaldo Pinheiro é comunicador, economista e especialista em Planejamento de Cidades (Uesc), além de secretário da Educação de Itabuna.

Os sábados do Beco do Fuxico sempre são agitados || Arquivo
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Daí pra frente como um animal gregário que sou, sentarei às mesas com dezenas de amigos e confrades que fazem dos sábados no Beco do Fuxico a mais importante trincheira da boemia itabunense.

 

Walmir Rosário 

Posso assegurar que continuo vivo e gozando da mais perfeita saúde, avalizado por um conceituado médico após ler e reler o papelório enviado pelo laboratório de análises clínicas. Sequer um Melhoral, Cibalena ou outro qualquer medicamento me foi receitado, embora o ilustre esculápio tenha me alertado sobre os anos que pesam na minha cacunda, como se dizia antigamente.

Confesso que comemorei o feito por pelos menos três semanas, em encontros com amigos para uns dois dedos e prosa, sempre mediados por uns goles de cerveja, bons aperitivos de cana e apetitosos tira-gostos. Como Canavieiras ficou pequena para as comemorações, fui com Batista levar a boa nova a Una, desta vez sem a presença de Valdemar Broxinha e seu violão.

Após esse período de vida social agitada resolvi – solenemente – mergulhar no recôndito do lar para mais que um merecido descanso, pois afinal ninguém é de ferro. Estripulias à parte, nada melhor do que um período sabático – por menor que seja – para as devidas meditações e análises de ações pretéritas e o planejamento do breve porvir.

Nesta sexta-feira (também conhecida pelo início do fim de semana) acordei cedo, e embora não tivesse a menor necessidade de pegar o sol com a mão, a pequena claridade me anunciou um novo dia. Não posso negar que ao abrir os olhos me senti mareado, como se tivesse navegado por mares bravios, apesar da maciez do colchão que me ajudou a dormir o sono dos justos.

Deixei a cama bem devagar, abri uma fresta na cortina para me situar bem da localização e descobri que estava em local sabido e seguro. Não me contive e escancarei a cortina, permitindo o clarão solar penetrar em todo o quarto. Foi aí que me dei conta estar em frente ao famoso, histórico e não menos agradável Beco do Fuxico, em Itabuna, na Bahia.

Aos poucos fui recuperando a consciência do meu novo endereço, com nome de rua e CEP. É que deixei Canavieiras para os passeios de finais de semana, onde encontrarei os amigos bem chegados para novas comemorações. Aos poucos contive meus ímpetos, afinal tinha a obrigação familiar de ajudar na arrumação da bagagem, colocar a casa em ordem.

De pronto, digo e repito que esse não é o tipo de obrigação doméstica que tenho desvelo, embora não seja de correr do chamamento ao dever, desde que não prejudique a torta coluna e demais músculos atrofiados. Por volta do meio-dia, com o coração palpitando, desci o Beco do Fuxico em busca de alguns produtos para casa, cumprimentando alguns amigos e prometendo revê-los em muito breve.

Para não ser traído pela memória resolvi pegar um bloco de notas de uma caneta e traçar o caminho deste sábado, quando os estabelecimentos etílicos do Beco do Fuxico estarão no auge de suas atividades. Logo cedo passarei para cumprimentar o Brigadeiro Eduardo Gomes no bar Artigos Para Beber, e duas quadras após chegarei à Fuxicaria e farei o reconhecimento dos confrades.

Caboclo Alencar e o aluno repetente

Ao lado, no ABC da Noite, pedirei ao Caboclo Alencar a renovação de minha matrícula, sem muita burocracia, diante de minha condição de aluno repetente desde o século passado. Pra começo de conversa, serei servido com uma das mais famosas batidas de minha predileção por dona Neusa, quando então me sentirei no meu segundo lar.

Daí pra frente como um animal gregário que sou, sentarei às mesas com dezenas de amigos e confrades que fazem dos sábados no Beco do Fuxico a mais importante trincheira da boemia itabunense. Entre um gole de batida e um copo de cerveja não deixarei de cumprimentar outras “tribos”, inclusive as que raramente aparecem para um gole, além dos abstêmios. Sim, eles existem!

E alguns ainda não acreditam em amigos (os verdadeiros). Por ironia do destino, ao comentar o amigo e irmão José Augusto Ferreira que estaria retornando – de mala e cuia – a Itabuna, minutos depois e comenta com outro confrade, o Paulinho Neto. Por incrível que pareça, Paulinho responde: “No meu prédio tem um apartamento vagando e já é dele”.

Agora, para entrar no Beco do Fuxico nem dobro esquina, basta traçar uma perpendicular e descer a ladeira.

Walmir Rosário é radialista, jornalista e advogado e autor de  autor de livros como O Berimbau – Valhacouto de boêmios, disponível na Amazon.

Celina Santos denuncia números alarmantes da violência contra as mulheres || Foto Joédson Alves/ABr.
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Homens de hoje, muitas vezes, querem ao lado uma mulher com comportamento semelhante à bisavó deles.

 

 

 

Celina Santos

Chegamos à reta final do primeiro quarto do século 21 com um cenário de conflito entre os gêneros.

Ainda vemos discussões que evocam termos dos antigos contos de fadas. Bem fofo, hein?

Chovem trocas de acusações de que candidatos, pretendentes e afins vestem a capa do “príncipe”.

Nesta era da velocidade, porém, não se tem paciência pra sustentar tal face. Então, a pele de “sapo” logo ganha forma.

A queda-de-braço vem em tentativas de dominação, ciúme/posse e só cresce o número de conflitos que terminam em feminicídios.

Até este início de dezembro de 2025, já foram registradas 1.075 mulheres assassinadas. O número de tentativas ultrapassa dois mil.

A maioria desses crimes retrata uma trágica realidade: o ex, simplesmente, não aceita ser ex-cluído.

É como se o homem da atualidade não aceitasse a mulher no cenário pós-moderno.

Como assim? Ela quer olhar o espelho e escolher com qual roupa quer sair de casa???

Quer bancar a independente e pagar as próprias contas? Escolher a balada do final de semana?

“Na-nani-na-não!”, esbravejam os parceiros. Aliás, os candidatos a maridos que matam para não reconhecer na mulher o direito de ir, vir e só permanecer enquanto estiver feliz.

Homens de hoje, muitas vezes, querem ao lado uma mulher com comportamento semelhante à bisavó deles.

É como se o macho-alfa não se sentisse tão alfa assim se a sua parceira (esposa, namorada, ficante, peguete ou qualquer outra denominação que o valha) tivesse a audácia de exigir uma tal liberdade. Que medo…

Celina Santos é redatora-chefe do jornal Diário Bahia; formada em Comunicação Social/Rádio e TV (Uesc); em Jornalismo (FTC) e pós-graduada em Jornalismo e Mídia (FacSul/Anhanguera).

Bolsonaro teve nova prisão decretada ao danificar tornozeleira eletrônica || Foto Marcelo Camargo/ABr
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Finalmente, o garoto/idoso das motociatas ruma para o presídio. Mas já provocou arranhões profundos na identidade do país.

 

 

Celina Santos

Neste dia 22 (sem trocadilhos?), não há como negar a divisão de sentimentos que toma conta do nosso Brasil.

De um lado, o grupo que abraçou a ideia de ter entregue o poder da Pátria a um mito.

Na verdade, um homem que havia exercido vários mandatos na Câmara Federal. Aquela que pagamos pra fiscalizar o Executivo e propor leis.

Aí, volta e meia, indagamos: ele propôs o quê? Defendeu quais bandeiras? Fiscalizou algo?

Por que arregimentou número tão expressivo de admiradores (ou seguidores, dizendo uma palavra da moda)?

Veio a magia do tempo correndo. Sempre ela. O deputado de declarações polêmicas seguiu ganhando nosso dindin – ops, dindão …

Ele disse, entre tantas famosas pérolas do tal “sincericídio”, que:

– “a única filha era uma fraquejada” (mulher após quatro machos);
– “a colega deputada federal não merecia ser estuprada, porque era feia”;
– dedicou o voto pelo Impeachment à memória do General Carlos Alberto Brilhante Ustra!
– Quem? Coisa pouca, minha gente. Tinha como ídolo o torturador-mor no Regime Militar…

Entre tantos pontos que fomentam e merecem reflexões, estão os motivos para tamanha identificação.

Valores como cidadania, respeito, empatia, amor ao próximo parecem em xeque nessa dicotomia.

Após quatro anos de Presidência da República, o que se concebera como menino mau sacode discussões e colhe inimizades até entre famílias.

Finalmente, o garoto/idoso das motociatas ruma para o presídio. Mas já provocou arranhões profundos na identidade do país.

Celina Santos é graduada em Comunicação Social (Rádio e TV) pela UESC, em Jornalismo pela FTC; pós-graduada em Jornalismo e Mídia pela então FacSul e redatora do jornal Diário Bahia.

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Mesmo não valorizado e devidamente protegido, o patrimônio histórico e cultural da cidade é vasto.

 

Efson Lima | efsonlima@gmail.com

O município de Ilhéus será reconhecido, em breve, como a Capital Nacional da Rota do Cacau e do Chocolate. No Congresso Nacional tramita o Projeto de Lei nº 4.402/2023, de autoria da deputada federal Lídice da Mata (PSB-BA). Na Câmara Federal, o projeto recebeu parecer favorável do deputado Bacelar e, no Senado Federal, o senador Ângelo Coronel, relator da matéria, destacou a experiência da economia solidária, arranjo de agricultores familiares em torno da fábrica–escola Chocosol, implantada pela Secretaria do Trabalho, Emprego, Renda e Esporte da Bahia na Uesc.

Na Comissão de Agricultura e Reforma Agrária, no Senado Federal, houve aprovação à unanimidade do projeto, e o prazo para recurso encerrou em 19/11/25, não havendo objeção de senadores. Agora, segue para a sanção presidencial. Portanto, a cidade de Ilhéus será contemplada com o título.

Não se pode negar que a existência de uma Rota do Cacau e do Chocolate permitiu a concessão do título a Ilhéus, mas o próprio nome evidencia que é uma estratégia coletiva da região que muito poderá favorecer a consolidação do turismo, especialmente, ao longo da BA 262 – “Estrada do Chocolate”, que liga Ilhéus a Uruçuca, uma rodovia que possui diversas fazendas de cacau e ainda parte de mata atlântica exuberante. Essas fazendas têm aberto suas porteiras para receberem turistas e visitantes.

Elas evidenciam o passado, mas também sinalizam para a produção de chocolate crescente na região, inclusive, reunindo mais de cem pequenas unidades produtivas e alcançando diversos municípios. Sendo assim, o Título de Capital da Rota do Cacau e do Chocolate põe em relevo a trajetória exitosa de uma rede de pessoas, empresas e instituições que enxergaram no cacau e nos seus derivados, como o chocolate de origem, um caminho criativo, sustentável e transformador para toda a Região, que durante anos produz e cada vez com mais profissionalismo e expertise, conforme aponta Alderacy Pereira da Silva Júnior, jornalista e filho do proprietário da Fazenda Esperança.

A concessão desse título impõe à necessidade de colocar em pleno funcionamento o Museu do Cacau, no centro de Ilhéus. Nele se fazem imprescindíveis investimentos dos governos estadual e federal para que o equipamento possa servir de atração turística e ser um espaço de estudo e valorização da identidade regional.

Ainda na “Estrada do Chocolate” se encontra- a Biofábrica de Cacau, que é símbolo de revitalização da lavoura do cacau, servindo de produção de mudas resistentes ao fungo da vassoura de bruxa. Por sinal, foi a primeira experiência no mundo voltada para a produção contínua e em larga escala de clones de cacaueiros. O Festival de Chocolate promovido anualmente na Princesa do Sul, no mês de julho, também se tornou um atrativo importante. Espera-se também um museu do chocolate que muito colaborará para o ecossistema turístico da região.

A Praça do Cacau, no bairro Cidade Nova, em Ilhéus, inclusive, tem uma plantação de cacau, precisa urgentemente ser recuperada. Quiçá, reproduzir nela, em miniatura, uma fazenda de cacau, como anteriormente havia e para onde diversos turistas eram levados pelas agências de viagens. Não se pode também deixar de citar as fazendas às margens da BR–415, inclusive, com a Uesc e a Ceplac. Essa última, como luta para sobreviver, poderia ser um espaço de constante visitação. Afinal, já foi um dos espaços de referência para a lavoura do cacau.

Ilhéus, internacionalmente, é conhecida como a cidade do cacau, cuja fama foi alargada e projetada pela vasta produção literária de Jorge Amado, que colaborou para internacionalizar o modo de produção da lavoura do cacau, o cultivo, as lutas pelas ocupações das terras e o progresso do sul da Bahia, especialmente, da Princesinha do Sul. Mesmo não valorizado e devidamente protegido, o patrimônio histórico e cultural da cidade é vasto, é possível visitar estruturas coloniais, como a Igreja Matriz de São Jorge, a Capela de Santana no Rio do Engenho e a Igreja de Nossa Senhora da Escada em Olivença. A cidade foi abençoada pela natureza: rios, praias e matas.

É importante destacar a luta do povo Tupinambá pela demarcação, que fez aparecer nos livros de história essa comunidade remanescente de povos originários, cujos apagamentos foram por diversas vezes tentados contra eles. Somam-se ainda comunidades quilombolas e terreiros de candomblé, respectivamente, Morro do Miriqui e o Matamba Tombeci Neto, de 1885; ou o abandonado Terreiro de Odé, no alto do Basílio, que possui quase dois hectares de mata no meio urbano. Então, Ilhéus tem uma vasto conjunto de elementos que podem ser explorados turisticamente, sem perder de vista a sustentabilidade e o respeito aos moradores.

Tudo isso permite reconhecer a cidade de Ilhéus, que, ao longo do século XX, foi a maior produtora de cacau do Brasil. Talvez, somente agora, esteja atenta para o que defendeu Milton Santos, no seu livro “Zona do Cacau”, em 1957: “A Bahia ainda não soube compreender a riqueza que tem e como poderia multiplicá-la, se convenientemente explorada.”

A Zona do Cacau respondia por mais da metade das receitas do Estado da Bahia e foi uma região agroexportadora, entretanto, a partir de 1995, precisou importar amêndoas de cacau para subsidiar a produção industrial local, e o Porto do Malhado se tornou um canal de importação. Infelizmente, a lavoura foi atacada pelo fungo da vassoura de bruxa, impactando negativamente no cultivo de cacau.

Efson Lima é doutor em Direito pela UFBA e membro da Academia de Letras de Ilhéus e da Academia Grapiúna de Artes e Letras.

Amílton (sinalizado e em pé) no Fluminense e no destaque || Montagem Walmir Rosário
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O retrato diz pouco a quem não o viu; a crônica tenta devolver o que a fotografia não entrega: o barulho dos passos na lateral, a respiração antes do cruzamento, a alegria contida de quem volta para casa sabendo que cumpriu o ofício.

 

 

 

Silvio Porto

Havia domingos em que a linha de cal parecia uma estrada para o infinito. No gramado de Itabuna, quando os ponteiros da arquibancada se agitavam, surgia um lateral que não precisava de bravatas para ser gigante. Amilton Guimarães do Nascimento jogava como quem escreve cartas: com precisão, simplicidade e endereço certo.

Num tempo em que laterais “marcavam os pontas” e raramente atravessavam o meio-campo, ele ousava abrir a avenida. Marcava firme, apoiava o ataque sem alarde e cruzava de canhota como quem mede a trajetória do vento — bola tensa, limpa, feita para agradecer de cabeça. De camisa enxuta e braços cruzados nas fotos, parecia discreto; em campo, era decisivo.

O dia a dia de Amilton tinha dois ofícios. Na semana o balcão do banco; nos domingos as chuteiras. E entre um carimbo e outro, o salão e o “society”, onde também virou destaque, acostumado a acertar o gol com a perna esquerda que lhe deu nome. Era o futebol de quem trabalha e, ainda assim, encontra fôlego para honrar a cidade na defesa da seleção e brindar a torcida com boa técnica nos babas das quadras e nos campos abertos principalmente no majestoso Grapiúna Tênis Clube.

A sua rota passa pelos Janízaros de 1963, segue ao Grêmio de 1964 e 1965 e chega ao Fluminense campeão de 1966. No meio do caminho, a Seleção amadora de Itabuna — de 1963 a 1966 —, palco dos domingos que fez  a história de uma seleção que alegrava a cidade. Com ela, Amilton esteve nos títulos que levaram a seleção ao tetra, ao penta e ao hexa do Intermunicipal na sequência de 1963, 1964 e 1965. No clube tricolor, coroou o ciclo com o campeonato de 1966. Nada mal para quem preferia a manchete da bola bem batida ao barulho dos holofotes.

Não faltou concorrência. Albérico, Leto, Zé David, Régis — uma geração de grandes laterais esquerdos. E, ainda assim, na maioria das vezes, lá estava ele entre os onze, pela confiança que os técnicos entregam a quem erra pouco e acerta nos momentos que contam. Tinha a virtude dos jogadores úteis: estava sempre onde o jogo precisava, nem um passo a mais, nem um toque a menos.

Talvez por isso Amilton seja lembrado como “um lateral diferente”. Diferente porque somava sem pedir licença. Porque compreendeu cedo que o futebol é uma língua de gestos simples — antecipar, apoiar, cruzar — e que o extraordinário mora no exato. Diferente porque abriu caminho quando quase todos fechavam; porque a sua canhota servia os atacantes com um respeito de artesão.

Hoje, quando a memória da cidade folheia as próprias páginas, duas imagens nos encaram: o campeão de braços cruzados, o hexa da seleção no mesmo gesto sereno. O retrato diz pouco a quem não o viu; a crônica tenta devolver o que a fotografia não entrega: o barulho dos passos na lateral, a respiração antes do cruzamento, a alegria contida de quem volta para casa sabendo que cumpriu o ofício.

Amilton Guimarães do Nascimento é dessas presenças que sustentam a história pelo avesso — não pelo grito, mas pelo fundamento. Na curva mansa da sua canhota, Itabuna aprendeu que o jogo também é feito de travessias: da defesa ao ataque, do banco ao campo, da rotina ao feito. E que a grandeza pode, sim, ocupar a lateral. Basta ser precisa, simples e generosa como um bom cruzamento ao segundo pau.

Amilton fez história no futebol, no dominó, na mesa de bar, no salão de dança, na amizade leal e companheira, na conversa boa e descontraída de quem soube viver a vida bem vivida. Foi craque de chuteiras e de coração: cruzou bolas com a mesma precisão com que distribuía atenção e gentilezas, deixando no campo os títulos e, na cidade, a saudade doce de um homem íntegro, elegante e generoso.

Sílvio Porto de Oliveira é médico neurologista.

Sob a seta, Waldir de Roxinho, que fincou raízes no Rio de Janeiro
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Com o dinheiro curto, os pupilos de Robert Baden-Power embarcaram num avião da Cruzeiro do Sul na pequena viagem entre Canavieiras e Belmonte. Daí pra frente seria o que Deus quiser, sempre focados nos ensinamentos do Escotismo.

 

Walmir Rosário

Em 1958 Canavieiras pouco tinha a oferecer aos seus moradores, do ponto de vista exterior. Embora o cinema mostrasse o desenvolvimento ao redor do mundo, suas novidades, por aqui a vida girava em torno da economia cacaueira, das chegadas e partidas dos aviões de carreira, do movimento de navios nos portos, o futebol, a vida nas boates e bares.

De Canavieiras era possível, sim, “enxergar” o mundo através das emissoras de rádio do Rio de Janeiro, São Paulo e Salvador, jornais, revistas, e pelo testemunho dos canavieirenses mais abastados que estudavam fora. Em 1958 a grande atração era a participação da Seleção Brasileira na Copa do Mundo, a ser disputada na Suécia, e a remota chance de ser campeã.

Mas o sonho de conhecer outras terras, a exemplo do Rio de Janeiro, não saía da cabeça dos mais jovens, a maioria sem condições financeiras para realizar um passeio dessa magnitude. Flanar por Copacabana, assistir aos jogos dos seus times no Maracanã, frequentar a capital federal do Brasil representava a glória para qualquer ser vivente.

Em abril de 1958 um grupo de 10 escoteiros resolveu transformar esse sonho em realidade. Nenhum deles possuía experiência em uma viagem dessa magnitude, mas não faltavam a coragem e a convicção do aprendizado de anos no Escotismo. E assim os garotos de 16 a 18 anos iniciaram o planejamento da viagem, com a aquiescência dos pais. Entretanto, um deles não voltaria.

Com o dinheiro curto, os pupilos de Robert Baden-Power embarcaram num avião da Cruzeiro do Sul na pequena viagem entre Canavieiras e Belmonte. Daí pra frente seria o que Deus quiser, sempre focados nos ensinamentos do Escotismo. E enfrentar a segunda parte da viagem não seria moleza para eles, pois o percurso de Belmonte a Vitória, no Espírito Santo, custou 21 dias de viagem, cumpridos em jornadas a pé.

E o grupo formado por Walter e Trajano Barbosa, Coló Melo, Raimundo Oliveira (depois tenente Raimundo), Orleans da Hora, Dinael Santos, Edson Dedo, Waldyr de Roxinho, Everaldino Piloto e José Araújo empreenderam o trajeto, sob o comando de Henrique Ciência. Nesse segundo trecho eles conheceram, de verdade, o valor do slogan do escotismo: “Sempre alerta”.

No percurso, privilegiaram a caminhada nos trechos de praias, superando as dificuldades que surgiam com frequência, atravessando a pé ou a nado os ribeirões e bocas de barras. Também tiveram que usar de artifícios para caminhar no meio de florestas, evitando as armadilhas naturais e os animais, principalmente as cobras.

Quando encontravam um sítio conversavam com os moradores sobre o melhor caminho que deveriam tomar e eram avisados sobre em que trechos poderiam parar para descansar e dormir. Num desses locais em que passaram a noite, como sempre, armaram e tocaram fogo numa grande fogueira para espantar as onças, cujas pegadas e os esturros foram vistas e escutados bem próximas.

Em um costado do mar foram obrigados a acelerar o passo para conseguir vencer o percurso enquanto a maré estava em baixa, do contrário poderiam ser tragados pelas grandes ondas. Cansados, já sem quase nenhum recurso financeiro e víveres, finalmente chegaram a Vitória, no Espírito Santo, e tiveram a ideia de se apresentarem ao prefeito.

A aventura dos escoteiros canavieirenses emocionou o prefeito, que os ajudou com alimentação e passagens de trem para o Rio de Janeiro. Na Guanabara se apresentaram na sede dos Escoteiros do Mar, foram recepcionados pelo General canavieirense Asclepíades Santos, participaram de uma feijoada, e no Maracanã assistiram ao jogo Brasil e Portugal, com a presença de Pelé e Garrincha, dois novatos na Seleção Brasileira.

Missão cumprida, 21 dias após embarcam no navio Comandante Capela com destino a Ilhéus, numa viagem de seis dias. Em seguida, viajaram na carroceria de um caminhão até Camacan, e a partir daí uma picape os levou a Canavieiras. Entretanto, dos 10 que empreenderam a viagem de ao Rio de Janeiro, um deles não voltou, continuou na Guanabara. Na bagagem, nem uma foto, selfie, ou vídeo, só as lembranças contadas.

É que Waldir Souza, o Waldir de Roxinho, resolveu se engajar na Marinha do Brasil, com a permissão de seu pai. Músico, saxofonista, foi incorporado à Banda dos Fuzileiros Navais, agora como clarinetista, conforme as recomendações do maestro regente. E Waldir faz carreira como militar e músico, viajando, conhecendo o mundo, até sua baixa como oficial.

No Rio de Janeiro constitui família, criou os filhos, depois formados e com carreiras pós-tituladas, prontos para enfrentarem a vida. Reformado na vida militar, eis que Waldir retorna a Canavieiras, onde retoma a vida civil, suas obrigações familiares. Nas horas de folga, se encontra com os amigos no Bar Laranjeiras, no qual possui cadeira cativa, e em sábados pretéritos, quando ainda existia a Confraria d’O Berimbau, como confrade batia o ponto.

Esse é o feito de quem determinou e direcionou sua vida no propósito de seguir carreira, transitar na sociedade com distinção, fazer amigos por onde passou e cuidar bem de suas obrigações. E na última quarta-feira – 15 de outubro de 2025 – Waldir de Roxinho alcança os 89 anos de vida, sempre rodeado pelos amigos: os que aqui deixou em 1958, e os que construiu ao longos desses anos.

Parabéns, Waldir!

Walmir Rosário é radialista, jornalista e advogado e autor de  autor de livros como O Berimbau – Valhacouto de boêmios, disponível na Amazon.

Wilson Midlej lança "A Saga dos Sírios e Libaneses no Sudeste da Bahia" || Montagem Walmir Rosário
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Wilson Midlej nos serve de cicerone nas viagens empreendidas pelos parentes e “brimos” para encontrar as terras do cacau, numa viagem nos navios até Ilhéus, onde muitos moravam.

 

 

Walmir Rosário

Os árabes – sírios e libaneses –, incluindo aí os povos egípcios e turcos, quando se encontram à mesa é uma festa gostosa sem data para acabar. Em meio às delícias de comer e beber, muitas histórias. E não falam somente das saudades sentidas da terrinha do outro lado do Oceano Atlântico, mas da felicidade que sentem em viverem no Brasil, sobretudo, de serem brasileiros.

Imaginem o sentimento do jornalista, escritor e advogado Wilson Midlej em contar as muitas histórias de sua família, que por motivos diversos, fincaram moradia permanente no Brasil, mais especificamente no Sudeste da Bahia. Mas como eles não vivem sozinhos, os “brimos” ganharam generosos espaços no livro A Saga dos Sírios e Libaneses no Sudeste da Bahia.

Se mais o irrequieto Wilson Midlej não contou foi motivado pela falta de informações verídicas, confirmadas por meio de documentos, ou viva voz dos que aqui aportaram e adotados num país distante, diferente em costumes e clima. Enfrentaram um mundo novo sem, sequer, falar uma palavra do nosso português, embora conhecessem o francês, inglês, árabe e outros idiomas.

E o nosso Autor não fez por menos e convidou o ilustre e festejado intelectual Sérgio Mattos, jornalista, escritor, poeta, mestre e doutor em comunicação, com assento em academias tantas. Do ofício conhece sobejamente, já que autor de 54 livros entre técnicos e ficção. E o livro sobre nossos amigos do Oriente Médio ganhou um luxuoso prefácio.

Sobre Wilson Midlej, Sérgio Mattos discorreu: “O jornalista, contista, romancista, historiador e empreendedor é um cidadão que não desiste de seus projetos e quando começa um novo desafio só quando termina a obra é que se dá por satisfeito. Dono de uma grande simpatia pessoal, com a qual soube construir um grupo de amigos diletos, além de determinação na realização de sonhos, neste livro, o quarto de sua autoria, ele assumiu o compromisso pessoal de resgatar a memória de algumas famílias de origem sírio-libaneses que se radicaram na Bahia, mais precisamente na região cacaueira”.

E no livro, tecnicamente elaborado e editado, o leitor viajará por terras inóspitas, mas vividas com intensidade dos que vieram para construir uma vida diferente, diria até que jamais imaginada. E souberam encarar com muita sabedoria, perseverança e fé em Deus, já que de maioria cristã Maronita.

E eram duas jornadas: a primeira com início no Oriente Médio, passando pela Europa e cruzando o Atlântico. A segunda, bem real, começava ao desembarcar do navio, em Santos, Rio de Janeiro ou Salvador. Passavam por exames de saúde, eram inquiridos sobre o que fariam, muitos trocavam seus nomes e eram orientados sobre como encontrarem seus familiares. Outros, nem tanto.

E Wilson Midlej nos serve de cicerone nas viagens empreendidas pelos parentes e “brimos” para encontrar as terras do cacau, numa viagem nos navios até Ilhéus, onde muitos moravam. Muitos deles mascateando embreados na Mata Atlântica que protegia as plantações de cacau; outros vivendo do comércio e serviços na cidade grande.

Os recém-chegados encontravam todo o apoio dos parentes ambientados e trabalhavam com afinco para fazer fortuna. Ilhéus e seus distritos prósperos, como Pirangy (hoje Itajuípe), Tabocas (atual Itabuna), Rapatição e Alfredo Martins (ainda Camamu), posterior distrito de Rio Novo (quando passou para Jequié), e em 1933 passou a ser chamado de Ipiaú, já elevado a município.

De mascates passaram a empregados e donos de lojas, e a cada dinheiro economizado passavam a investir em fazendas de cacau e pecuária. Influenciaram na cultura dessas cidades, na culinária, e mesmo quando faltavam ingredientes a sabedoria das senhoras era pródiga em substituí-los por produtos da agricultura brasileira.

Dentre os Midlej merecem destaque Elias Abraham e Vitória Koury, ele nascido em Kaituly, no Líbano, e ela egípcia. Conheceram-se em Alexandria (Egito). Já casados e com uma filha, Reymonde, e mais uma gravidez, resolveram se mudar para o Brasil, onde já moravam três irmãs, um irmão e uns primos de Elias. Em Salvador, desembarcaram na Ponta de Humaitá, em Montserrat.

E os então futuros avós do Autor, Wilson Midlej, rumaram para Ilhéus, se estabelecendo no distrito do Rio do Braço, empreendendo numa casa comercial, levada pela enchente de 1914. Com o dinheiro que restava se mudam para Ilhéus, e em seguida para Rio Novo. À época, a família contava com cinco filhos: Raymonde, Angel, Frederico, Jancy e Beatriz. Em seguida vieram Ibrahim, Vivaldo, Floripes e Fauze.

Além dos Midlej, o Autor também esmiúça as famílias Maron, Thiara, Hagge, Salomão, sendo que algumas delas se entrelaçam pelos municípios do Sul e Sudeste da Bahia, com destaque para Ilhéus, Itabuna, Ipiaú, Jequié, Itajuípe, Ibirataia, dentre outros. O livro é um romance histórico que nos prende na leitura, com surpresas e emoções.

E para quem pensa que os nossos desbravadores sírios e libaneses só se preocupavam em trabalhar, amealhar dinheiro e enriquecerem, estão enganados. Aqui eles estabeleceram um modo de vida típico brasileiro, sem esquecer a cultura de origem, seus costumes, sua rica culinária, com pratos deliciosos e receitas disponíveis neste livro.

E Wilson Midlej não deixou por menos e usou toda sua verve de exímio contador de histórias, a exemplo de livros anteriores: Crônicas da Bahia Sob o Sol de Jequié (2014), Gatilhos de Lembranças: a Eternidade do Tempo (2015), e Anésia Cauaçu – Lendas e Histórias do Sertão de Jequié (2017).

Walmir Rosário é radialista, jornalista e advogado e autor de  autor de livros como O Berimbau – Valhacouto de boêmios, disponível na Amazon.

Tempo de leitura: 3 minutos

Efson Lima | efsonlima@gmail.com

A Constituição Federal brasileira, no artigo 145, sistema tributário nacional, estabelece diversos princípios, entre eles: os da justiça tributária, cooperação, defesa do meio ambiente, transparência, simplicidade e mitigação dos efeitos regressivos – inseridos após a reforma tributária de 2023.

Além das mudanças estruturais do sistema tributário nacional em curso, outra mudança esperada pela população é a isenção tributária para as pessoas que ganham até R$ 5.000 e redução gradual de contribuição para quem recebe até R$ 7.350. Por outro lado, propõe a cobrança de quem possui rendimentos a partir de R$ 600 mil ao ano, com vistas a compensar o valor total daqueles que ficarão isentos.

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Espera-se que, com esse ganho arrecadatório, o governo federal invista em políticas públicas que favoreçam ainda mais a coletividade, especialmente, serviços básicos e essenciais ao funcionamento do Estado.

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A aprovação do Projeto de Lei n.º 1087/2025, à unanimidade, pelos deputados federais, ontem, (1º), confirma que a proposta do Executivo recebeu a concertação plena no âmbito político. O resultado da aprovação, após sete meses de debates e aparente desinteresse da Câmara, decorre também do recado enviado pelas ruas à Casa Legislativa contra a desrespeitosa PEC da Blindagem.

A proposta de isenção do Imposto de Renda (IR) visa corrigir assimetrias que persistem no Brasil. A classe média brasileira paga alíquota superior a quem financeiramente ganha mais e possui renda superior e está no pequeno estrato de pessoas de alta renda. Por sinal, essas pessoas pagam em média 2,5% de IR, enquanto os trabalhadores, em geral, pagam alíquota entre 9% a 11%.

Essas mudanças deixarão, aproximadamente, 15,5 milhões de pessoas sem sofrer a mordida do leão. Esses valores vão provocar a renúncia de R$ 25,84 bilhões por parte da União em 2026. O governo federal tinha previsão de arrecadar R$ 227 bilhões com o tributo. Como sabido, esse valor é também distribuído para estados e munícipios. Portanto, fez-se necessário ajustar o projeto para evitar perdas para subunidades da federação.

As projeções de arrecadação e renúncia são as seguintes: 2027 (renúncia de R$ 27,72 bilhões contra arrecadação de R$ 39,18 bilhões) e 2028 (renúncia de R$ 29,68 bilhões contra arrecadação de R$ 39,64 bilhões). No geral, o governo não está perdendo nada e, sim, ganhando politicamente e aumentando o valor da arrecadação com o imposto de renda.

Apesar desse ganho do governo federal, a reforma tributária em curso, seja por meio dos dispositivos constitucionais ou infralegais, evidencia a necessidade de se alcançar um regime mais justo e palatável aos brasileiros, inclusive, aproximando-nos de uma justiça tributária nas relações de consumo, visto a alta carga de tributos incidente nos produtos e serviços.

A ideia de justiça tributária é dialógica com o previsto nos objetivos da República Federativa ao preconizar a imperatividade de uma sociedade justa e solidária. Espera-se que, com esse ganho arrecadatório, o governo federal invista em políticas públicas que favoreçam ainda mais a coletividade, especialmente, serviços básicos e essenciais ao funcionamento do Estado. Segurança é um deles.

Não há que se falar em confisco do recurso financeiro da parte mais rica da população, pois a alíquota prevista não ultrapassará de 10% e contribuirá, proporcionalmente, como a classe média brasileira ao longo do tempo.

Logo, espera-se que, com a implementação gradativa da reforma tributária, o Brasil possa superar a pluralidade de legislações, de regimes especiais e diversos que aumentam os custos do planejamento tributário, a insegurança jurídica e torna-nos um país complexo tributariamente e com disputas judiciais intermináveis.

Não obstante, reforça a necessidade de uma justiça tributária a todas as pessoas e, consequentemente, políticas públicas financiadas de forma sustentável. Estamos à espera da aprovação do PL da Isenção no Senado e da sanção presidencial, para que deixe de ser um projeto e se torne lei.

Efson Lima é advogado, doutor em Direito pela UFBA e membro das academias Grapiúna de Artes e Letras e de Letras de Ilhéus.

Na Confraria d'O Berimbau Tyrone Perrucho observava a satisfação de todos e me abastecia de cerveja na cozinha. Na foto, com Walmir Rosário
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Construí, mantive e mantenho um monte amigos de verdade, por todo o tempo. Alguns somem no caminho, por falta de alguma liga que cimentaria a verdadeira amizade. Coisa do passado. Mas não esqueçam que amigo é um bem muito caro.

 

Walmir Rosário

De há muito tempo a palavra amigo vem sendo descaracterizada e usada para nomear pessoas que nos batemos no dia a dia, embora não possuímos qualquer requisito de simpatia, confiança, ou quem sequer conhecemos. Às vezes nos referimos a alguém como amigo apenas para fazer uma pergunta e queremos mostrar educação ou alguma intimidade.

Na Canção da América, composta por Fernando Brant e Milton Nascimento, a coisa é mais séria e solenemente expõe: “Amigo é coisa pra se guardar/Debaixo de sete chaves/Dentro do coração…”. No Brasil o vocábulo amigo tem o mesmo poder de um canivete suíço nas mãos de quem se encontra no meio do mato sem cachorro e a usa como em mil e uma utilidades, como se fosse Bombril.

Em nenhum outro país deste mundão de Deus a palavra “amigo” é tão mal utilizada quanto no Brasil, quem sabe para mostrar aos cinco continentes que somos o povo mais bonachão na face da terra. Fora daqui, o brasileiro quebra a cara ao tentar dar um abraço em quem acabou de conhecer e apenas pediu uma simples informação.

Pelos manuais de convivência dos gringos deve ser observado um espaço regulamentar entre as pessoas desconhecidas, embora eu não possa precisar em centímetros. Em Amigo, Alexandre O’Neill destaca: “Mal nos conhecemos/ Inauguramos a palavra amigo!/ Amigo é um sorriso/De boca em boca,/Um olhar bem limpo”.

Existem os que afirmam que alguns amigos são mais que irmãos, pois não nasceram e nem conviveram no mesmo lar, filhos dos mesmos pais, mas que devem não apenas sorrir com a boca quando nos veem, e sim demonstrar com os olhos, quem sabe abrir os braços. Para um conhecido meu, a responsabilidade é tanta, que o amigo tem a mesma obrigação de um padrinho com o afilhado.

Outros, nos quais me incluo, são de opinião que amigos de verdade podem ser adquiridos num bar, desde que tenha a mesma qualidade de sua segunda casa, ou melhor, segundo lar. Os mais exaltados chegam a afirmar, categoricamente, que não se fazem amigos bebendo leite, líquido que não possui nenhuma substância capaz de atrair dois viventes entre a troca de palavras enquanto degustam uma cerveja.

No livro Crônicas de Boteco – um guia sem ordem, de nossa humilde autoria está estampado: “Um bom botequim tem que possuir requisitos essenciais para a volta do boêmio, seja no dia seguinte, no próximo fim de semana, ou quem sabe, muito em breve”.

Como diz a canção de Adelino Moreira tão bem interpretada por Nelson Gonçalves: “Boemia, aqui me tens de regresso/ e suplicando lhe peço a minha nova inscrição/ Voltei, pra rever os amigos que um dia/ Deixei a chorar de alegria/ Me acompanha o meu violão”.

E para reforçar, na mesma canção, até mesmo a mulher amada dispensa com o coração transbordando de amor as aventuras de encontrar os velhos amigos: “Acontece que a mulher que floriu meu caminho/ De ternura, meiguice e carinho/ Sendo a vida do meu coração/ Compreendeu e abraçou-me dizendo a sorrir/ Meu amor você pode partir/ Não esqueça do teu violão/ Vá rever os teus rios, teus montes, cascatas/ Vá cantar em novas serenatas/ E abraçar teus amigos leais”.

Como na música, mesmo sabendo que o boêmio andou distante, os colegas de botequim o acolhem com todo o carinho para matar a saudade do tempo de sumiço. Nada de gente falante a ironizar o afastamento, pois o que interessa mesmo é o retorno do companheiro de mesa, de pé de balcão, para, juntos, beberem novas e infinitas saideiras. Amigos de verdade, amigos do peito, como cantava a Turma do Balão Mágico.

Os amigos não esquecem um do outro. Mesmo que distantes não sossegam enquanto não se encontram. Não falo aqui do amigo de grupos de whatsapp, de conversa decorada, curta. Mas daqueles que Paulo Leminski cita no seu poema Amizade: “Meus amigos/ quando me dão a mão/ sempre deixam/ outra coisa/ presença/ olhar/ lembrança, calor/ meus amigos/ quando me dão deixam/ na minha/ a sua mão”.

De antemão aviso que olhares, sorrisos e gestos são os bens mais preciosos do que presentes materiais, estes esquecidos facilmente. Construí, mantive e mantenho um monte amigos de verdade, por todo o tempo. Alguns somem no caminho, por falta de alguma liga que cimentaria a verdadeira amizade. Coisa do passado. Mas não esqueçam que amigo é um bem muito caro.

Não poderia encerrar sem os gestos simples, consolidadores da amizade e que muitos nem chegam a notar. Um deles, que nos deixou com antecedência, Tyrone Perrucho, chegava ao extremo de observar as feições de todos os amigos da Confraria d’O Berimbau, para, com um simples olhar, descobrir quem por ventura não se sentia bem, satisfeito no momento.

E disso sou testemunha de quando me encontrava na prática do fogão ou churrasqueira, o amigo Tyrone Perrucho chegava sorrateiramente com um copo cheio de cerveja bem gelada e recomendava:

– Aproveite e beba, pois você está se prejudicado, sem beber nesse calorão. Aproveite a farra, pois Deus deixou as boas coisas para todos seus filhos –.

Gesto igual só partindo de um verdadeiro amigo!

Walmir Rosário é radialista, jornalista e advogado e autor de  autor de livros como O Berimbau – Valhacouto de boêmios, disponível na Amazon.

O movimentado escritório em Canavieiras já não funciona || Foto Walmir Rosário
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De quando em vez recebo telefonemas e mensagens de ceplaqueanos e pessoas de várias cidades reclamando do abandono do patrimônio da Ceplac.

 

Walmir Rosário

A tradição brasileira não recomenda a longevidade das instituições nacionais, mesmo que tenham uma gama de serviços prestados, devidamente comprovados, a exemplo da vetusta Ceplac. Convenhamos que comemorar 68 anos de existência é um feito um tanto, se ainda dispusesse do vigor de tempos pretéritos, quando exibia suas qualidades na área científica – pesquisa, extensão e ensino –, notadamente da cultura cacaueira.

O peso de anos é visto a olhos nus. Sua sede regional no sul da Bahia ainda ostenta as enormes construções de concreto aparente, um pouco carcomidas, é claro, mas com muitas histórias para contar. Ali está sediado o outrora maior centro de pesquisas de cacau do mundo, repleto de cientistas, pesquisadores de especialidades variadas, extensionistas, educadores, administradores, biólogos, engenheiros florestais, economistas, sociólogos, a elite regional.

A cada ano, em 20 de fevereiro, o aniversário era comemorado com festejos mil para exaltar o cumprimento das metas e o planejamento das próximas. A velha e decadente lavoura se tornou sadia, produtiva e batia seguidamente recordes de produção e produtividade. Neste período, a cacauicultura ganhou novas tecnologias e a região cacaueira da Bahia viveu a transição para o desenvolvimento.

Em cada cidade um escritório local, com engenheiros agrônomos e técnicos agrícolas estimulando e transferindo tecnologia, uma revenda de insumos agrícolas, enfim, toda uma estrutura administrativa. Em determinados pontos estratégicos foram implantadas as Emarcs (Escola Média de Agricultura da Região Cacaueira), além de estações experimentais, que cuidavam do acompanhamento das pesquisas.

Em seguida, o pujante órgão do cacau (como era chamado), assumiu parte do desenvolvimento regional, construindo o porto de Ilhéus, melhorando estradas vicinais, ampliando e implantação energia elétrica, telefonia, construindo escolas. Tornou-se um Estado dentro do Estado, este, o ente federativo, proporcionando uma visível melhoria na qualidade de vida da população como um todo e não apenas dos proprietários e trabalhadores da atividade cacaueira.

Até então a Ceplac – por incrível que pareça – era um órgão do Ministério da Fazenda. Com o passar dos anos e dos governos, a instituição cacaueira foi atrelada ao Ministério da Agricultura e teve que se adequar à nova realidade. Já deixara a condição de um órgão criado para a recomposição de dívidas dos cacauicultores e recuperação da lavoura para gerir apenas a pesquisa, extensão rural e ensino técnico.

Semanas atrás, numa crônica, publiquei a ação de grupos sem-terra que invadiram a Estação Experimental Lemos Maia, em Una, e outras duas (Joaquim Baiana, em Itajuípe, e a do Extremo Sul, em Itabela) já tinham sofrido esse dano. De quando em vez recebo telefonemas e mensagens de ceplaqueanos e pessoas de várias cidades reclamando do abandono do patrimônio da Ceplac.

As mais recentes foram do Escritório Local de Santa Luzia (Bahia) e de Jaru (Rondônia). Num vídeo à disposição na internet, o vereador de Jaru, Chiquinho do Cacau, mostra o prédio abandonado, cheio de lixo e mato, totalmente abandonado. E ele conclama a sociedade para que defenda a instituição, que foi e ainda pode ser muito importante para a economia de Rondônia.

Na publicação o vereador Chiquinho do Cacau, pergunta: “O que queremos para a Ceplac?”. E Ele mesmo cita a grande riqueza gerada pela Ceplac na área de pesquisa e extensão, ressaltando o seu patrimônio humano. “A Ceplac precisa de ajuda para continuar trabalhando, apresentando resultados, mas o que vemos é uma falta de respeito ao produtor rural”, reclama.

Um dos exemplos do abandono dos escritórios locais – fechados por falta de pessoal – podia ser visto em Itabuna. O prédio que abrigava a divisão regional e a extensão local, uma verdadeira obra de arte da arquitetura, ficou abandonado por muitos anos. Agora passa por obras, e pelo que soube, será cedido à Prefeitura de Itabuna. Antes estava sendo ocupado por viciados.

O de Canavieiras, há mais de 10 anos teria o mesmo destino, repassado à Prefeitura. Não sei o motivo dos empecilhos, o certo é que a cessão deu errado. Atendendo ao pedido do prefeito Almir Melo, elaborei um memorial sobre a péssima situação do prédio, relatando a situação com testemunho fotográfico, mas a Superintendência de Patrimônio da União não chegou a concretizar a transferência.

Agora, em setembro deste ano da graça de 2025, o prédio tem outro pretendente. Desta vez o candidato é o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), mas que até agora não recebeu as chaves, apesar de ser, também, uma instituição do governo federal. Quais os empecilhos apresentados não se tem o menor conhecimento. E a situação do prédio se agrava ainda mais.

A realidade é que não existem mais no antigo prédio da Divisão Regional e Escritório Local da Ceplac, em Canavieiras, sequer um engenheiro agrônomo, um técnico em agropecuária, um escriturário para atender aos agricultores. O prédio só não se encontra com as portas fechadas, pois um único remanescente da área operacional aguarda apenas o dia da tão sonhada aposentadoria para entregar as chaves.

Esses prédios se apresentam como fortes candidatos à destruição física pelo envelhecimento e à invasão, devido à atávica imobilidade dos órgãos do governo federal. Como diz o velho e corriqueiro ditado: “Faça por ti que eu te ajudarei”. Antes de pedir Deus na causa é preciso uma forcinha por parte dos órgãos e administradores da União.

Walmir Rosário é radialista, jornalista e advogado e autor de  autor de livros como O Berimbau – Valhacouto de boêmios, disponível na Amazon.

Ivan Maia é o presidente da Emasa || Foto Divulgação
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O futuro do saneamento em Itabuna depende de nossa capacidade de unir planejamento técnico, compromisso político e engajamento social.

 

Ivan Maia

O saneamento básico é um pilar essencial para a saúde pública, o desenvolvimento sustentável e a qualidade de vida, especialmente em contextos de desigualdades regionais. Em Itabuna, a gestão local dos serviços de saneamento básico enfrenta desafios históricos, mas também oportunidades únicas, reforçadas pela autonomia conferida pela Lei nº 14.026/2020, o Novo Marco Legal do Saneamento Básico.

Nesse contexto, defende-se veementemente o papel central do município de Itabuna na escolha e implementação de sua política de saneamento básico. Essa autonomia não apenas fortalece a governança local, mas também permite a Itabuna desenvolver soluções mais eficazes e adaptadas à sua realidade, promovendo equidade e sustentabilidade. O Novo Marco Legal do Saneamento Básico é um instrumento chave que consolida essa titularidade municipal, promovendo uma gestão mais democrática e eficiente.

A Lei nº 14.026/2020 reafirma a titularidade dos municípios sobre os serviços de saneamento de interesse local, como abastecimento de água, esgotamento sanitário, manejo de resíduos sólidos e drenagem urbana (art. 8º, inciso I). Em Itabuna, essa autonomia é crucial, dado o contexto de desafios como a contribuição no processo de despoluição da orla urbana do Rio Cachoeira e o baixo índice de tratamento de esgoto atualmente verificado no município.

A lei permite ao município elaborar planos municipais de saneamento, definir metas de universalização e escolher modelos de gestão, como a manutenção da Empresa Municipal de Águas e Saneamento S/A (Emasa), concessões plenas ou parcerias público-privadas (art. 8º, § 1º, inciso I). Essa flexibilidade é essencial para enfrentar as especificidades locais que demandam soluções técnicas adaptadas.

Itabuna exemplifica a importância da gestão municipal próxima ao cidadão. Com um IDH-M de 0,71, considerado alto, o município ainda enfrenta problemas como 6,5% da população sem água tratada e 16,5% sem acesso à rede de esgoto. A Emasa desempenhou papel central na expansão do abastecimento de água, porém a universalização do esgotamento sanitário continua sendo um desafio que só poderá ser superado com planejamento técnico e gestão responsável, sem contaminações ideológicas. A poluição do Rio Cachoeira é um problema que clama por soluções estruturantes.

A autonomia municipal permite a Itabuna optar por estratégias que considerem sua realidade socioeconômica e ambiental. A lei estabelece metas de 99% de cobertura de água potável e 90% de coleta e tratamento de esgoto até 2033 (art. 11-B), e o município está revisando seu Plano Municipal de Saneamento Básico para atingir esses objetivos, com foco na despoluição do Rio Cachoeira.

Além disso, a autonomia municipal fomenta inovação. Experiências de outros municípios mostram que soluções locais, como o uso de tecnologias sustentáveis adaptadas ao clima e ao ambiente, são mais eficazes do que modelos padronizados impostos por esferas estaduais ou federais.

O fortalecimento da titularidade municipal não é apenas uma questão legal; é uma estratégia para tornar Itabuna mais justa, saudável e sustentável. A escolha entre manter a Emasa como protagonista ou buscar novas parcerias deve ser feita com base em nossa realidade, respeitando peculiaridades e preservando a capacidade de decisão local.

A gestão do prefeito Augusto Castro tem fortalecido a titularidade municipal com iniciativas como o Projeto Mais Água para a Cidade, que amplia o abastecimento de água, e grandes obras de mobilidade — novo aeroporto, duplicação da BR-415 e da BR-101, além da BA-649 ligando Itabuna à Ilhéus — sob coordenação da secretária de Infraestrutura e Urbanismo, Sônia Fontes. Esses empreendimentos impulsionam turismo, comércio e investimentos, mas também exigem um saneamento básico robusto, no qual a Emasa atua como parceira estratégica.

Críticas à centralização, como as vistas em modelos estatais passados, destacam ineficiências. A escolha por manter a Emasa ou buscar parcerias reflete a capacidade de decisão local, evitando soluções genéricas impostas por esferas estaduais ou federais. Além disso, a adesão voluntária a consórcios intermunicipais (art. 8º-A) permite colaborar com cidades vizinhas para compartilhar custos e expertise, mantendo a soberania municipal.

Em conclusão, a Lei nº 14.026/2020 reafirma e fortalece a titularidade de Itabuna na gestão do saneamento básico, assegurando que as decisões levem em conta suas especificidades, como a urgência de despoluir o Rio Cachoeira e ampliar a cobertura de esgotamento sanitário. Essa defesa não se trata de mero regionalismo, mas de uma estratégia consciente para construir um município mais digno, com saúde e equilibrado. A autonomia conferida pela lei é um passo decisivo rumo à universalização dos serviços, promovendo saúde pública, desenvolvimento estável e justiça social para toda a população.

Cabe unicamente à administração municipal e a participação cidadã, por meio dos representantes eleitos, com apoio da Emasa e da sociedade civil, transformar esses desafios em oportunidades, consolidando Itabuna como referência em gestão local de saneamento. O futuro do saneamento em Itabuna depende de nossa capacidade de unir planejamento técnico, compromisso político e engajamento social.

É assim que construiremos uma cidade mais sustentável, saneada, e com melhor qualidade de vida para todos.

Ivan Maia é presidente da Empresa Municipal de Águas e Saneamento de Itabuna (Emasa); bacharel em Administração e Direito; e pós-Graduado em Direito Público e Direito Administrativo.

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Reverendo Luciano Campelo

O Brasil é uma nação fundada sobre princípios democráticos e sobre a soberania popular. A Constituição Federal de 1988 estabeleceu como pilares inegociáveis a dignidade da pessoa humana, a liberdade de crença e a laicidade do Estado. O Estado Democrático de Direito, portanto, deve ser defendido de quaisquer ameaças, sejam elas políticas, econômicas ou mesmo religiosas, quando estas se travestem de poder político-partidário.

Nesse contexto, é preciso reconhecer que o pastor Silas Malafaia, recentemente alvo de investigações, não representa todos os cristãos brasileiros — que, segundo o IBGE, compõem cerca de 90% da população — nem mesmo a totalidade dos evangélicos, que correspondem a aproximadamente 30% do povo brasileiro. Entre os cristãos do Brasil, a maioria é católica (romanos, ortodoxos, anglicanos e católicos das igrejas nacionais), e dentro do campo evangélico há grande diversidade denominacional: batistas, presbiterianos, wesleyanos, adventistas, assembleianos e tantas outras tradições. O próprio Silas Malafaia é presidente de um ramo da Assembleia de Deus, denominação que se subdivide em diferentes ministérios, não possuindo a exclusividade da representação evangélica no país.

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As lideranças religiosas merecem respeito, mas não estão acima da lei. Como qualquer cidadão, pastores, padres, rabinos, monges ou quaisquer ministros de fé devem responder por seus atos quando praticarem condutas ilícitas.

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É fundamental salientar que Malafaia faz uso político-partidário da posição religiosa que ocupa, instrumentalizando o nome de Deus para fins eleitorais e para atacar as instituições democráticas, especialmente após a derrota eleitoral de seu candidato à Presidência em 2022. Tal postura, ao invés de refletir o espírito do Evangelho, revela-se como manipulação da fé alheia. O apóstolo Paulo advertiu: “Porque, se alguém prega outro Jesus que não temos pregado, ou se recebeis outro espírito que não recebestes, ou outro evangelho que não abraçastes, de boa mente o tolerais” (2Co 11,4). Infelizmente, muitos têm sido induzidos por uma narrativa falaciosa, segundo a qual o Brasil viveria uma suposta “ditadura da toga”, uma “ditadura judicial”.

Ora, tal discurso constitui uma mentira perigosa, uma fake news, destinada a desacreditar o Poder Judiciário e a corroer as bases da República. Como dizia Hannah Arendt, “a mentira organizada tende a destruir aquilo que ela visa proteger: a confiança pública”. Nesse sentido, quando líderes religiosos usam sua influência para difundir inverdades, não apenas ferem a ética cristã, mas atentam contra a paz social.

A história ensina que a religião, quando instrumentalizada pelo poder político, pode ser usada como mecanismo de opressão e manipulação. É por isso que a laicidade do Estado brasileiro deve ser preservada com rigor. Laicidade não significa perseguição à fé, mas justamente a garantia da liberdade religiosa de todos. Nesse espírito, recorda-se a palavra de Jesus: “Dai, pois, a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus” (Mt 22,21). A distinção entre os campos político e religioso é, portanto, um princípio evangélico.

É preciso afirmar com veemência: Silas Malafaia age com extrema desonestidade ao difundir fake news, ao apoiar políticos hipócritas que se dizem cristãos apenas por conveniência eleitoral, mas que, na prática, defendem valores opostos ao Evangelho — como a tortura e a ditadura militar, ideias historicamente defendidas por setores bolsonaristas. Tais posicionamentos estão em frontal oposição ao mandamento maior de Cristo: “Amai-vos uns aos outros como eu vos amei” (Jo 13,34).

As lideranças religiosas merecem respeito, mas não estão acima da lei. Como qualquer cidadão, pastores, padres, rabinos, monges ou quaisquer ministros de fé devem responder por seus atos quando praticarem condutas ilícitas. Santo Agostinho já advertia: “Sem justiça, o que são os reinos senão grandes bandos de ladrões?”.

A soberania do Estado brasileiro exige que os três poderes da República — Executivo, Legislativo e Judiciário — atuem em harmonia, mas também com independência e firmeza. Ter um Judiciário forte, autônomo, independente e célere é indispensável para garantir que a democracia não seja subvertida por interesses particulares ou por manipulações religiosas de caráter político-eleitoral.

Como ensinava Rui Barbosa: “A pior ditadura é a do Poder Judiciário. Contra ela, não há a quem recorrer”. Mas esta frase, frequentemente distorcida, não significa que devamos enfraquecer o Judiciário; ao contrário, significa que sua atuação deve ser firme, equilibrada, transparente e respeitada, pois sem um Judiciário forte, não há Estado de Direito.

O povo brasileiro, em sua maioria cristão, é muito maior do que qualquer liderança isolada. A fé em Cristo não se confunde com projetos de poder. A democracia brasileira é um patrimônio comum que deve ser protegido por todos, independentemente de crença ou religião.

Que Deus, na sua infinita misericórdia, abençoe o povo brasileiro e ilumine as nossas autoridades, para que atuem com sabedoria, justiça e firmeza, preservando a liberdade, a paz e a democracia em nosso país.

Reverendo Luciano Campelo é padre da Igreja Católica Apostólica Anglicana e frade da Ordem Franciscana Anglicana.

Marcos Bandeira é membro da Academia de Letras de Itabuna (Alita), advogado, professor de Direito e juiz aposentado
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Antônio Presépio se esmerava nas espécies de torturas cometidas contra Luan, que chorava copiosamente, apoiando-se nas muletas. No local, apenas o barulho provocado pelas rãs e a escuridão sem fim.

 

Marcos Bandeira

O sol ainda brilhava no crepúsculo, quando Luan resolveu ligar para sua mãe Margarida, funcionária pública, que estava saindo do trabalho na prefeitura municipal de Albedaran. O motivo do telefonema era para que sua mãe comprasse o leite de Malu que havia acabado. Luan estava em casa sozinho tomando conta de Malu, sua filha com apenas dois anos de idade, e também se recuperava de uma fratura na tíbia, provocada por uma disputa de bola num jogo de futebol que ainda o obrigava a andar com o auxílio de uma muleta.

O dia escurecia rapidamente e um vento frio penetrava no quarto de Luan, situado no 1º andar de um prédio antigo, com uma garagem na parte térrea, e ao lado uma escada que levava ao 1º pavimento, onde Luan morava com a mãe, a avó e uma filha, fruto de um romance passageiro.

Luan era um jovem branco, com estatura mediana, vinte e dois anos de idade, estudava Direito e trabalhava como publicitário na agência “Midia em Ação” situada no centro da cidade. Sua mãe, Margarida, era divorciada, trabalhava na prefeitura havia mais de vinte e cinco anos e possuía cinquenta anos de idade. Ela mantinha uma relação muito afetiva com Luan, seu único filho. A avó de Luan, com os cabelos totalmente grisalhos, já tinha setenta anos de idade e adorava o neto, com quem sempre conversava e contava histórias. Agora, com a chegada de Malu, todas as atenções se voltaram para a pequena.

O telefone continuava chamando. A campainha tocava, chamava, chamava, mas sua mãe não atendia. Certamente estava no silencioso. Depois de sucessivas chamadas Luan acabou desistindo..

Esse momento foi crucial, pois se a mãe de Luan tivesse atendido ao telefone, certamente os fatos se desenrolariam de forma diferente. Luan pensava: “poxa, por que mãe não atendeu? Daqui a pouco vai fechar o mercado e Malu não pode ficar sem leite”. Luan estava angustiado, pois estava sozinho em casa com sua filha e sua avó também havia saído. A noite já se precipitava e sua mãe não chegava.

Decorridas mais de duas horas, Margarida, visivelmente cansada, chegou em casa e pegou sua neta Malu no colo. Nesse momento, Luan se dirigiu a ela e perguntou: o que foi que houve que a senhora não atendeu ao meu chamado de telefone? Liguei várias vezes. Era para comprar o leite de Malu!

Margarida respondeu: Oh, meu filho me perdoe! Deixei o celular no silencioso no carro e fui fazer umas compras. Estou vendo agora que tem várias chamadas, me perdoe meu filho. Vixe, meu filho, então eu vou comprar!

Luan retrucou: de jeito nenhum! A senhora está exausta, e eu já estou bem; posso perfeitamente dirigir e ir até no Mercado Popular, aqui pertinho, comprar o leite de Malu.

Margarida não insistiu. Estava muito cansada. Havia trabalhado duramente o dia todo. De qualquer forma, o mercado fica aqui perto. Luan pegou as chaves do carro e com o auxílio das muletas passou a descer as escadas em direção ao veículo.

Acomodou-se na poltrona do motorista e ligou a ignição, deixando as muletas na poltrona do carona. Seguiu em direção ao Supermercado Popular, que ficava situado no mesmo bairro onde morava, Palestina.

Eram 19h45 e o Supermercado Popular já estava com as portas semicerradas. Luan taxiava nas imediações para estacionar o veículo. Nesse mesmo momento, uma viatura, com dois policiais militares trafegava pelo bairro Palestina, quando recebeu uma informação de que naquelas imediações havia dois elementos suspeitos num veículo HB20 branco, coincidentemente, a mesma marca e cor do veículo guiado por Luan.

Na vida acontece coisas, que muitas vezes encontram alguma explicação num detalhe, ou numa terrível coincidência, quando o vento do destino muda completamente a vida das pessoas. A vida de Luan estava marcada pelo destino. Ali, naquele momento, tudo poderia mudar… e mudou!

A viatura se aproxima do Mercado Popular e os dois policiais observam um veículo Hb20 parado em frente ao estabelecimento, que já estava fechando. Já eram 20h a noite estava fria. A rua, iluminada apenas por um poste distante cerca de dez metros, trazia pouca iluminação para o local, que estava quase deserto, à exceção de alguns transeuntes que passavam indo para suas casas.

Luan saiu do Mercado, caminhando com o auxílio das muletas e segurando o leite de Malu, dirigiu-se ao seu veículo, quando foi abordado pelo policial Antônio Presépio, alto, negro, com quarenta e dois anos de idade, conhecido matador, frio e calculista, que já contava à época mais de trinta mortes nas costas, entretanto, nunca fora punido. Diz-se que tem um coronel padrinho que o protege. As famílias das vítimas também, com medo de morrer, acabavam silenciando.

Antônio Presépio abordou Luan e com a arma na mão perguntou: cadê o seu comparsa? Vamos, rapaz, diga logo, senão você vai morrer!

Luan, apoiando-se nas muletas, responde: eu não tenho nenhum comparsa. Eu vim aqui para comprar o leite de minha filha. E mostrava a lata de leite.

Antônio Presépio, bastante irado, ordenou: deixe de conversa mole, rapaz. Entre aí no veículo e me dê as chaves. Luan entregou as chaves e ficou do lado do carona. Antônio Presépio dirigiu o veículo, enquanto o outro colega, Luiz, dirigia a viatura. Os veículos foram em direção à Ponte da Ilha, distrito rural, distante mais de 6 km da sede, com apenas uma ruela no meio do matagal na escuridão daquela noite fria.

Luan não estava entendendo nada, e pensava consigo mesmo: “esses caras vão me matar”!

Voltou a falar para Presépio: eu não fiz nada. Por que vocês estão me trazendo para aqui? Não deveria ser para a Delegacia?

Antônio Presépio, então falou: “Vamos ter uma conversinha primeiro!”

Os veículos pararam, numa parte da estrada, distante um pouco do povoado, e Antônio Presépio arrancou violentamente Luan do veículo e o empurrou com muleta e tudo no chão, dizendo em alto som: “agora, você vai me dizer quem estava com você no seu carro. Vamos, rapaz, diga logo, senão você vai morrer aqui!

Luan voltou a dizer que o veículo era de sua mãe e que estava sozinho no carro, mas Antônio Presépio não acreditava no que ele falava e passou a esmurrar Luan, que pulava com um pé só, segurando a muleta, caindo no chão novamente.

Antônio Presépio tentava puxar as unhas de Luan com um alicate. Luan começou a chorar de dor, quando recebeu um golpe no pescoço e caiu novamente no chão.

Antônio Presépio continuava a torturar Luan, Luiz Santos, seu colega, manuseava o celular, quando, de repente, recebeu uma mensagem de Whats App informando sobre a abordagem que acontecera em frente ao supermercado Popular.

Enquanto isso acontecia na Ponte da Ilha, um transeunte que passava pela rua do Supermercado Popular, no momento em que Luan era abordado pelos policiais, passou na casa de Luan e avisou à mãe dele: “A polícia prendeu Luan em frente ao Supermercado Popular. Acho que o levou para a Delegacia”.

Margarida, bastante nervosa, entrou em contato com sua amiga Cecília, que é investigadora policial e trabalha na Polícia Civil, informando sobre a prisão de Luan. Inicialmente achou que fosse porque Luan estava sem a carteira de habilitação, já que ele pegou o veículo apenas para comprar o leite de Malu. Imediatamente, pegou um uber e foi para a Delegacia de Albedaran, enquanto Cecília colocava uma mensagem pelo WhatsApp no grupo de policiais militares comunicando a prisão de Luan. Foi essa a mensagem que Luiz Santos, parceiro de Antônio Presépio, recebeu em seu celular.

Antônio Presépio se esmerava nas espécies de torturas cometidas contra Luan, que chorava copiosamente, apoiando-se nas muletas. No local, apenas o barulho provocado pelas rãs e a escuridão sem fim. Antônio Presépio pegou uma pistola 40 e mandou Luan segurá-la. Luan, com muito medo e chorando, segurou a pistola. Neste momento, Luan pensou: “Eles vão me matar. Agora, tenho certeza. Depois vão justificar que eu estava portando uma arma e resisti à prisão”.

Nesse momento, Luiz Santos chamou Antônio Presépio e disse, mostrando o celular: “olhe aqui. Já sabem que estamos com o garoto. Temos que levá-lo para a Delegacia. Agora, temos que encontrar uma justificativa. Antônio Presépio se dirigiu até a viatura e, na parte de trás do veículo, dentro de uma sacola, pegou um pacote de cocaína, com uma embalagem vermelha com alguns detalhes, que havia sido apreendida dois dias antes, no centro de Albedaran. Havia várias sacos de cocaína, mas pegou apenas um deles. Saiu da viatura e foi direto para o veículo de Luan onde plantou a droga.

Antônio Presépio tinha o modus operandi já conhecido, de plantar drogas em veículos e imóveis de pessoas perseguidas pela Polícia. Na semana passada, ele adentrou num edifício no centro da cidade, onde foi surpreendido e filmado plantando drogas na casa do suspeito, que fora preso, mas logo liberado pelo juiz, após ter acesso a essas imagens. Apesar disso, ele continuava se escudando na farda da Polícia e protegido por pessoas poderosas da própria Polícia, onde tinha licença para matar. Estava certo da impunidade e assim, continuava sua caminhada criminosa, maculando a boa imagem da briosa corporação.

Antônio Presépio pegou Luan pela gola da camisa e violentamente o jogou no banco de trás da viatura, e voltou-se para o veículo de Luan, guiando-o em direção à Delegacia.

Margarida estava muito nervosa e a toda hora olhava o relógio. Já estava na Delegacia há mais de uma hora e nada de notícia de seu filho. À medida que o tempo passava, mais aumentava a sua apreensão. Finalmente, estava chegando uma viatura. Margarida viu Luan no banco de trás, algemado. Logo atrás da viatura chegava também o seu veículo, guiado por outro policial.

Na Delegacia, Antônio Presépio apresentou Luan e a droga – um saco de cocaína – ao Delegado, dizendo: É um flagrante de tráfico de drogas. Pegamos essa droga no veículo dele, Dra.

Luan chorava, e disse: Não é verdade! Essa droga não é minha. Eu não mexo com isso! Antônio Presépio retrucou: cale a boca, vagabundo. Você está preso!

Margarida tentou entrar na sala da Delegacia para ver seu filho! O Delegado permitiu e ela procurou saber o que havia acontecido. Luan apenas chorava e dizia que não fez nada.

Não houve jeito. Luan foi preso e flagrado por tráfico de droga. Após ser ouvido, foi encaminhado para o Presídio de Itabuna. A mídia, principalmente, a sensacionalista, proclamava aos quatros ventos: Polícia prende o estudante de Direito, Luan, traficante de drogas. O traficante estava portando um kg de cocaína e foi conduzido para o Presidio de Itabuna.

E assim, o destino se encarregou de mudar a vida de Luan. Um jovem estudante de Direito, que trabalhava com publicidade, e que nunca havia se envolvido com drogas ou qualquer crime. Seu único hobby era jogar futebol. Foi jogando futebol que fraturou a tíbia, de cuja lesão estava se recuperando. Agora, o estudante, trabalhador e pai de uma menina de dois anos, era traficante e estava preso! A segunda notícia não importa, ninguém lembra. A pecha de um jovem envolvido com a droga é que fica.

Luan já estava preso havia três meses e não conseguia recuperar sua liberdade. A mãe de Luan então contratou um advogado experiente, Dr. Filgueiras, criminalista, cuja primeira atitude foi visitar o cliente no Presídio. Lá chegando, depois de passar pela fiscalização dos agentes, dirigiu-se ao parlatório, quando conheceu e conversou com Luan. Este disse, com lágrimas nos olhos: “Doutor, acredite em mim. Sou inocente, estou limpo. Eles plantaram essa droga no carro de minha mãe. Tudo não passou de 10 minutos, quando saí de casa e fui abordado por esses policiais.

Dr. Filgueiras respondeu: Eu acredito em você. É por isso que estou aqui. Agora, eu quero que você me fale tudo o que aconteceu.

Luan passou a contar com detalhes toda a história, até que o Dr. Filgueiras se desse por satisfeito. Já ia se retirar, quando Luan disse: “Espere um pouco, Dr. Por favor, me tire daqui. Não é só por mim não. É por minha mãe e minha avó, que sofrem muito por me verem aqui, além de passar por muitas humilhações. Por favor, Dr. me ajude! Sensibilizado com a ponderação do garoto, disse o seguinte: Vou lutar por você, vamos ver o que podemos fazer. Um abraço.

Dr. Filgueiras ingressou com um pedido de revogação de preventiva e juntou provas muito fortes, inclusive provou que a droga plantada possuía o mesmo invólucro das drogas que foram apreendidas na casa de um traficante pelo mesmo Antônio Presépio, inclusive com as imagens de outra abordagem feita pelo referido policial, quando foi filmado plantando a droga no apartamento de um perseguido pela Polícia.

Próximo do Natal, ainda na rua, Dr.Filgueiras recebeu a notícia de que o juiz havia revogado a prisão de Luan. No escritório de Dr. Filgueiras, todos: advogado, estagiário e funcionários, estavam vibrando com a soltura do rapaz, pois se tratava de celebrar a vitória de um inocente.

Dias felizes. Margarida apareceu com Luan para conversar com Dr. Filgueiras. Luan narrou toda a história. Disse que voltaria à sua vida normal, retornando à Faculdade de Direito. O Dr. Filgueiras recomendou cuidados, no sentido de evitar o máximo de sair de casa. E assim aconteceu, Luan voltou para o aconchego de seu lar, abraçando a sua filhinha Malu, que já estava sentindo falta do pai. Vida que agora, seguia normal. E uma injustiça reparada!

O tempo passou e Luan estava muito empolgado com o curso de Direito, onde tirava boas notas e era sempre elogiado pelos professores. Transcorrido quase quatro meses depois que saiu do cárcere, numa noite de abril, Luan pegou sua moto e foi para a Faculdade estudar. Nesse dia ele iria fazer uma avaliação. E assim o fez. O professor despediu-se dele que foi para o pátio da faculdade e ligou sua moto para retornar à sua casa.

Os ventos fortes do destino ainda não haviam se acalmado. Luan, no instante em que ligou a moto de volta para casa não sabia o que lhe esperava. Só não via a hora de chegar em casa, pegar Malu no colo e depois dormir a seu lado. A moto saiu da faculdade. A noite já estava mais fria, pois caía uma chuva fina. Uma moto, a escuridão, o Terminal Rodoviário e um tiro no escuro. A moto se desgovernou e caiu. Havia um corpo estendido no chão. Luan no chão enquanto o sangue escorria. As pessoas se aglomeravam em torno do corpo que agonizava. Alguns tiravam fotos. Vida interrompida!

Adeus Malu, adeus sonhos dourados, adeus o projeto de ser advogado um dia, adeus minha mãe, adeus minha avó! Adeus vida cruel e estúpida! Fui engolido pelo destino. Antônio Presépio realizou o seu desejo de me expulsar deste mundo e aumentou ainda mais o número de suas vítimas!

O celular encontrado com Luan constavam mensagens dando conta de que Presépio estava atrás dele. Ele havia passado uma mensagem para o pai, que era separado da mãe e morava no Rio de Janeiro, informando isso e pediu para que o pai não informasse à mãe para não preocupá-la. Ele sabia que Presépio estava lhe perseguindo, mas não acreditava que ele fosse capaz de lhe matar.

Infelizmente, nada poderia ser feito. A mãe procurou o Ministério Público para denunciar, mas a investigação não evoluiu. Presépio continua praticando seus crimes contra pessoas inocentes, escudado e protegido pela sua farda! Vida que segue… e vidas que continuam sendo interrompidas!

Marcos Bandeira é advogado, professor, juiz de Direito aposentado e membro da Academia de Letras de Itabuna (Alita).

Mesa da Diretoria aos sábados na Fuxicaria do Beco
Tempo de leitura: 4 minutos

 

Somente dois bastiões seguraram as pontas: o Caboclo Alencar, do ABC da Noite, fundado em 28 de julho de 1962, e Eduardo Gomes (nome de Brigadeiro) do Artigos para Beber. E seguraram as pontas mesmo, Caboclo Alencar à esquerda no primeiro quarteirão, no baixo beco; Eduardo Gomes à direita no terceiro quarteirão, no alto beco.

 

Walmir Rosário

É caso pra se pensar, mas não creio que tenha nada a ver com a mitologia grega. Acredito que seja apenas uma simples coincidência comparar a situação atual do Beco do Fuxico, em Itabuna, com o ressurgimento da Fênix, tal e qual as aparências. Não duvido que seja algum projeto saído da prancheta de algum conceituado marqueteiro, daqueles que têm o hábito de frequentar botecos.

O certo é que as mudanças foram profundas, bem fundadas e o “novo” Beco do Fuxico já pode ser considerado um perfeito case de sucesso. Há pouco tempo passava por uma crise interminável, daquelas que obrigaram o fechamento das portas dos bares, o fim do negócio, provocando um divórcio entre os donos dos botecos e os fidelíssimos clientes.

É que o peso da idade foi chegando como quem não queria nada, afastando alguns, de forma definitiva, aposentando outros, causando um prejuízo incalculável nos clientes, que mais do que de repente, ficaram solitários, perdendo seu personal boteco, e o segundo lar. E o mais grave: desagregando uma legião de amigos, irmãos, melhor dizendo.

Há anos que o Beco do Fuxico participa ativamente como personagem vivo e atuante da história de Itabuna. Deixou-nos Pedrão, Itiel, Dortas, Mota, Mário, Batutinha fechou as portas e guardou o saxofone, deixamos de sentar nos sacos de feijão, arroz e farinha de Alcides Rodrigues Roma, lamentávamos o fim do Quitandinha, e até a Confraria do Alto Beco do Fuxico foi fechada com a mudança de José D’Almeida Senna para Salvador.

Somente dois bastiões seguraram as pontas: o Caboclo Alencar, do ABC da Noite, fundado em 28 de julho de 1962, e Eduardo Gomes (nome de Brigadeiro) do Artigos para Beber. E seguraram as pontas mesmo, Caboclo Alencar à esquerda no primeiro quarteirão, no baixo beco; Eduardo Gomes à direita no terceiro quarteirão, no alto beco.

E o Caboclo Alencar, do alto dos seus 94 anos completados com festa em 2 de fevereiro, dia dedicado a Iemanjá, decidiu dar um freio de arrumação no ABC da Noite, criando uma consternação em seus alunos repetentes. Por ordens médicas, o “caboco” estava com as pernas cansadas, e mesmo assim, em respeito aos clientes, passou a abrir apenas aos sábados, das 10 às 13 horas.

E logo o ABC da Noite, famoso por seu rigoroso horário de atendimento aos clientes, conforme a placa de bronze afixada na parede. De segunda a sexta-feira: das 11 às 12h30min, e das 17 às 19 horas; aos sábados das 11 às 12h30min; sem expediente aos domingos. Não deu outra, as reclamações vieram de pronto, pois os alunos não sabiam onde frequentar nos dias de semana.

Clientes fidelizados se comunicam em grupos de whatsapp

E aí é onde entra o tal do projeto de marketing de Erick Senna, logo após a decisão de seu tio José Senna se mudar para a capital. Bem coladinho com o ABC da Noite, na esquina com o Calçadão da Ruy Barbosa, inaugurou a Fuxicaria do Beco, um bar sem espaço para os clientes de pé do balcão, porém com muitas mesas ao ar livre, no Calçadão, em meio do povo.

E não é que os confrades do Alto Beco do Fuxico atenderam aos reclames de Erick Senna e desceram a ladeira, especialmente aos sábados, os quais abancados nas extensas mesas discutem desde parto de elefante às ações de Donald Trump, sem a menor cerimônia. O debate político voltou a ganhar seu espaço ao som de renomados músicos, da forma mais democrática possível, como nos velhos tempos.

Músicos renomados se apresentam no coreto Caboclo Alencar

Música ao vivo, sim, e para tanto está presente o coreto batizado Caboclo Alencar, homenagem mais que justa, diria justíssima, ao alquimista das tradicionais batidas, que abriu mão de ser coroado Rei do Beco do Fuxico, como queria Roberto Carlos Goodygroves Bezerra, o Dr. Malaca, quando da instituição da Lavagem do Beco do Fuxico.

E assim, grande parte da Confraria do Alto Beco do Fuxico se mudou para a Fuxicaria do Beco, dando uma no cravo e outra na ferradura, melhor dizendo: se abastece das encantadoras batidas do Caboclo Alencar, enquanto degustam cervejas e outras bebericagens. E o Beco do Fuxico voltou aos seus gloriosos tempos em que comercializavam a amizade e a alegria engarrafadas.

A fidelidade dos clientes é de tamanha monta que eles utilizam a tecnologia das redes sociais para se comunicarem com o grande público, e entre si por meio do Whatsapp. As diversas tribos atendem no zap pelos nomes de Confraria do Alto Beco do Fuxico, Amigos do Beco do Fuxico, Grupo da Fuxicaria do Beco e até o inusitado Bodes do Caboclo, este exclusivo dos maçons frequentadores.

Sempre que posso ir a Itabuna num sábado não deixo de rever os amigos e confrades, jogando conversa fora, às vezes solucionando os problemas do mundo de uma só canetada. E foram justamente a Fuxicaria do Beco e o ABC da Noite que escolhi como palco para lançar os meus livros Crônicas de Boteco – um guia sem ordem e Como Sobreviver à Pandemia, em grande estilo, em meu segundo lar.

De minha parte, desejo sucesso ad aeternum.

Walmir Rosário é radialista, jornalista e advogado e autor de  autor de livros como O Berimbau – Valhacouto de boêmios, disponível na Amazon.