O dendezeiro, que é a segunda planta mais eficiente no sequestro de carbono (logo abaixo do eucalipto), também poderá perder sua importância comercial caso não seja protegida por políticas públicas.
Walmir Rosário
Instituição que representou um modelo de inovação na agricultura brasileira, desempenhando um papel na Extensão, Pesquisa e Educação, atualmente passa por inimagináveis percalços. Um deles é o envelhecimento do quadro de pessoal das áreas científica, administrativa e operacional, que a torna incapaz de gerenciar sua estrutura, haja vista o pequeno número de pessoal na ativa.
Com isso, a instituição antes motivo de orgulho estatal na cacauicultura nacional, hoje sofre invasões em suas estações experimentais, locais praticamente sem pessoal. A primeira a sofrer esse tipo de ação foi a Joaquim Baiana, em Itajuípe; a segunda foi a do extremo-sul, localizada em Itabela; e a mais recente, a Lemos Maia, em Una.
Embora a direção da Ceplac tenha agido junto à Polícia Federal e ao Judiciário para retomar a posse, alguns prejuízos são causados pelos invasores, notadamente na execução das ações de pesquisa nelas desenvolvidas. Em todas elas – ainda ativas – pesquisadores desenvolvem projetos sobre cacauicultura, pecuária e café, em Itabela; e solos, cacau e dendê, na Lemos Maia, invadida na semana atrasada.
Mesmo contando com uma equipe reduzida, os técnicos ceplaqueanos vêm obtendo resultados positivos nas pesquisas em desenvolvimento, cujos riscos da permanência das invasões poderão causar prejuízos incalculáveis. A Estação Experimental Lemos Maia (Esmai) sedia pesquisas com o dendê, local onde está implantado o único banco de germoplasma do nordeste.
O receio é que as melhores mães Caiaué (Elaeis oleifera), que, quando cruzadas com as plantas africanas, dá uma palmeira híbrida que produz o azeite batizado de Unauê. Esse azeite possui menor quantidade de ácidos graxos livres do que o óleo do dendezeiro, por isso é um azeite com menor acidez e melhor qualidade. É também mais insaturado e com maior teor de vitamina “E” e carotenos que o óleo do dendezeiro.
Essas ações promovidas por grupos ligados ao Movimento Sem-Terra e indígenas vêm se intensificando nos últimos anos no Brasil, e nas áreas da Ceplac podem ficar mais facilitadas pela burocracia estatal. Embora a invasão de terras públicas seja um crime previsto no ordenamento jurídico, esses grupos parecem não temer as consequências jurídicas.
Em diversas regiões do Brasil (não parece ser o caso em Una), geralmente as invasões são seguidas de destruição de material genético, o que causa prejuízos consideráveis em recursos financeiros de investimento e custeio, e o que é mais grave: a perda de dados e do material, inviabilizando anos de pesquisa. Perdem-se o capital público ou privado investido, além do conhecimento científico.
O dendezeiro, que é a segunda planta mais eficiente no sequestro de carbono (logo abaixo do eucalipto), também poderá perder sua importância comercial caso não seja protegida por políticas públicas. Todo o trabalho realizado com o dendê pela Ceplac na Esmai perderá significado por falta de ações governamentais da União e Estado da Bahia, pela simples falta de incentivo na substituição das plantas antigas pela Unauê.
Com a morte por inanição programada para a Ceplac, melhor seria repassar essas áreas para entidades governamentais afins, como a Universidade Estadual de Santa Cruz (Uesc); Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB); Embrapa, a grande responsável pela hibridação desse dendê; dentre outras instituições. Essa transferência seria mais do que viável, haja vista que parte das propriedades da União (Ceplac) passa por transferência de doação a prefeituras e demais órgãos governamentais.
Ainda é tempo que as lideranças regionais possam despertar para contribuir com ações focadas no desenvolvimento do sul e extremo-sul da Bahia, antes que seja conhecida como a terra do já teve. Quem sabe, dar tratamento igual aos particulares ou agricultores que são fiscalizados constantemente e multados por qualquer agressão ao meio ambiente também funcionaria.
Walmir Rosário é radialista, jornalista, advogado e autor de autor de livros como O Berimbau – Valhacouto de boêmios, disponível na Amazon.
Camacãense, José Cássio Varjão é cientista político com MBA em Cooperação Internacional e Políticas Públicas
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Aquele final de tarde serviu como um marco, um divisor de águas, inserindo uma mudança significativa entre o antes e o depois da cidade de Camacã. Naquele dia, vi herdeiros de grandes fazendas da região cabisbaixos, um deles chorando, se maldizendo, por ser o responsável por enfrentar o declínio da lavoura cacaueira.
José Cássio Varjão
“Quais as cidades do interior da Bahia que mais perderam população nos últimos 45 anos”? Se você, caro leitor, pesquisar no Google ou em outro site de busca exatamente como esta frase foi escrita acima, encontrará a resposta. Nesse período, Camacã perdeu 44,39% da sua população. Dos 41 municípios da região cacaueira do sul da Bahia, foi a cidade que mais perdeu habitantes desde 1980. Uma migração silenciosa, repleta de decepções e simbolismos. A cidade mais rica, entre as produtoras de cacau, nunca olhou para o futuro como deveria, viveu enebriada pela lavoura que a construiu e a destruiu.
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Entre o aluguel e o quilo de carne mais caros da Bahia, o que aconteceu com a cidade outrora próspera? Como ela chega à melhor idade? Quais lembranças estruturais dessa época “dourada” encontramos ao caminhar por suas ruas e praças? Quais riquezas desse período áureo do cacau ficaram enraizadas para as futuras gerações de camacaenses?
Administrada pelos coronéis do cacau por décadas, numa prática política baseada no poder local dos grandes proprietários de terra, Camacã foi uma cidade de imigrantes, aqueles que chegavam de todas as partes, principalmente os comerciantes, e sempre prosperaram. Será a própria lavoura cacaueira, o ouro negro em amêndoas, a culpada por criar gerações de pessoas improdutivas e despreocupadas financeiramente? Como consequência dessa omissão, diferentemente dos outros municípios da região cacaueira do sul da Bahia, Camacã perdeu quase 50% da sua população. A cidade, que já foi o 13º ICM (antes da CF/88 era só ICM) do estado da Bahia, hoje está chegando ao 170º lugar. Onde está o cerne do problema? Por que somente Camacã ruiu?
Ainda antes de completar 10 anos de emancipação, um duro golpe foi desferido nas pretensões do município se tornar um grande centro comercial e de serviços, o que faria o município não depender somente da monocultura cacaueira. A mal contada história da BR-101 passando pelo centro da cidade, com mais verdades do que mitos, nos condenou, junto com administrações capitaneadas por latifundiários, que só enxergavam o limite das suas terras, a ser a cidade que mais perdeu habitantes no estado da Bahia nas últimas décadas. Era a época dos coronéis, os mesmos retratados por Vitor Nunes Leal, ex-ministro do Supremo Tribunal Federal, em seu livro, Coronelismo, Enxada e Voto, demonstrando como o dono das terras, o trabalhador e o voto estavam ligados umbilicalmente.
O enredo conclusivo, criado em torno do trajeto da BR-101 em Camacã, foi discutido numa reunião entre cacauicultores e os formadores de opinião dentro da comunidade, realizada em determinada fazenda do município, em que a versão de que os custos pelo trajeto original ficariam mais caros foi difundido. Waldeck Ribeiro, ex-presidente da Câmara de Vereadores, me mostrou uma fotografia, em 1993, com mais de uma dezena de cacauicultores de Camacã e de Mascote, perfilados na Esplanada dos Ministérios, em Brasília, junto a Mário Andreazza, Ministro do Interior do Governo Federal, que contava outra história. Após ver “os representantes do povo”, todos vestidos com calças boca de sino e terno com tecido quadriculado, no estilo Agostinho Carrara, cheguei em casa e perguntei ao meu pai, José Loiola Varjão, sobre o tal assunto. Ele me confirmou a reunião na fazenda, para logo em seguida me interromper e sentenciar: “vamos dar um tiro nessa conversa”, papo encerrado. Esse assunto proibido não saiu do meu imaginário nos últimos 32 anos.
Essa passagem é fato consumado. Se tiraram ou não a BR-101 do centro da cidade é um acontecimento que hoje não nos conduzirá a lugar algum. Faz parte do passado, assim como as águas do rio Panelão, que, supostamente, já transportaram até cédulas eleitorais, não voltarão jamais. Nesse período, conversei com várias pessoas de Camacã e região, sempre angariando informações. Também conversei com um ex-funcionário da Bahia Construtora (empresa responsável pela pavimentação entre o Rio Branco e o Rio Pardo da BR 101), que, à época, junto com outros trabalhadores, se perguntavam por que o trajeto foi mudado, se até em Camacã as máquinas já tinham feito cortes nos barrancos onde hoje se situa a Rua Antônio Pereira dos Santos, para passar a estrada?
Imagem aérea de Camacã, no sul da Bahia || Foto PMC/Divulgação
Aqui faço outro questionamento, mudando o contexto: por que os políticos locais, tão bem recebidos em Brasília, não foram pleitear a principal rodovia do Brasil passando pelo centro da cidade, trazendo o progresso sobre rodas para a região?
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Em meados da década de 1970, alguns membros do legislativo municipal, como Arquimedes Carvalho Filho, Waldeck Ribeiro e outros, foram a Brasília pleitear, junto ao Banco do Brasil, a construção de uma agência em Camacã. Após algumas semanas, diretores do banco estavam na cidade, escolheram e compraram o terreno onde funcionava o Clube Vasco da Gama, de propriedade de Álvaro Guerreiro, para construir a agência 0837, do Banco do Brasil. Todo o processo entre a visita dos políticos a Brasília e o início da construção foi célere. Aqui faço outro questionamento, mudando o contexto: por que os políticos locais, tão bem recebidos em Brasília, não foram pleitear a principal rodovia do Brasil passando pelo centro da cidade, trazendo o progresso sobre rodas para a região?
Manda quem pode, obedece quem tem juízo. Quem iria confrontá-los? Quem iria argumentar que implodir pedreiras por mais de uma dezena de quilômetros até a ponte do Rio Pardo, que ainda seria construída pela Construtora Norberto Odebrecht, seria mais barato do que aproveitar a estrada existente? Quem iria alertá-los de que as pontes do rio Panelinha, já no ramal da fazenda Sapucaia (antiga estrada que fazia o trajeto para Itabuna), do Rio Panelão, em Camacã, do rio Água Preta, nos Quinze, e do Nanci, onde já existia um posto do DNER, foram construídas em concreto bruto para receber a nova estrada? Por que não utilizar essa mesma estrada, que antes nos levava a Porto Seguro, Rio de Janeiro ou São Paulo? O Sr. Zezito Freitas, cacauicultor com propriedade rural nos arredores da estação da Polícia Rodoviária Federal, em Camacã, foi a única voz dissonante nessa história, não queria a estrada nas suas terras.
Para ter certeza em afirmar que o progresso foi afastado de Camacã, li inúmeros artigos e publicações científicas comprovando que ser margeada por uma rodovia federal traz enormes benefícios econômicos às localidades. Em monografia submetida ao Departamento de Ciências Econômicas da Universidade Federal de Santa Catarina, em agosto de 2002, Silvinei Vasques, ex-diretor da Polícia Rodoviária Federal, discorre sobre Construção da BR-101 e Seus Reflexos na Economia de Joinville. Outros autores, inclusive da região, pesquisaram sobre o advento da BR-101 no sul e extremo-sul da Bahia, que abriu a região para o Sudeste do Brasil.
Continuando com minhas pesquisas, seguem abaixo, detalhadamente, as informações extraídas do IBGE Cidades com relação à população das maiores cidades da Bahia, margeadas pela BR-101, nas últimas seis décadas:
As cidades de Gandu e Itamaraju ficaram encaixotadas por estarem entre dois grandes polos comerciais e de serviços, como Santo Antônio de Jesus e Itabuna, Eunápolis e Teixeira de Freitas, respectivamente. Nas outras cidades, percebe-se o quão importante foi a construção da BR-101, com a população crescendo, em alguns casos, até mais de duas vezes em relação à década de 1970. Eunápolis se beneficiou também por ser o entroncamento para Porto Seguro. Teixeira de Freitas, por sua vez, obteve o maior crescimento dentre todas as cidades citadas, pela proximidade com o estado do Espírito Santo e algumas cidades de Minas Gerais. Próximo a Camacã, o melhor exemplo é São João do Paraíso, município de Mascote, que antes da rodovia era somente um vilarejo com um punhado de casas.
Para continuar discorrendo sobre os 64 anos de Camacã, farei uma divisão entre os primeiros 32 anos de emancipação e os 32 anos seguintes. Entre 1961 e 1993, apesar de já ter entrado no processo de declínio em 1990, com o surgimento da vassoura de bruxa, a alta arrecadação de ICMS (aqui já era ICMS) quando dinheiro não era o problema, serviu para execução de algumas obras estruturantes na cidade, principalmente entre 1977 e 1982. Naquela época a maioria das obras eram realizadas com verba do município. Importante salientar que a cidade tinha, em 1980, de acordo com o IBGE, uma população de quase 41 mil habitantes.
Em 1990, na fatídica reunião no Clube de Campo de Camacã, em que eu estava presente, o engenheiro agrônomo da Ceplac Mário Tavares informou à população ter encontrado a Crinipellis perniciosa, o fungo que dizimou a lavoura cacaueira e acelerou o declínio de uma cidade sem planejamento e que não sobreviveria sem o cacau. Aquele final de tarde serviu como um marco, um divisor de águas, inserindo uma mudança significativa entre o antes e o depois da cidade de Camacã. Naquele dia, vi herdeiros de grandes fazendas da região cabisbaixos, um deles chorando, se maldizendo, por ser o responsável por enfrentar o declínio da lavoura cacaueira.
Vista panorâmica de Camacã || Foto PMC/Divulgação
Nesses primeiros 32 anos de Camacã, foram 20 anos de governo entre dois coronéis, de 1977 a 1996, intercalando-se os mandatos. Dois latifundiários que traziam pessoas de fora para administrar a cidade.
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Nesses primeiros 32 anos de Camacã, foram 20 anos de governo entre dois coronéis, de 1977 a 1996, intercalando-se os mandatos. Dois latifundiários que traziam pessoas de fora para administrar a cidade. Aqui, entra João Ubaldo Ribeiro, no livro Política: Quem manda, por que manda, como manda, com a 1ª edição publicada em 1981, quando escreveu sobre “um fenômeno contemporâneo, que vem pondo em risco até mesmo a representatividade popular nas democracias. Trata-se da diferença, cada vez mais ampla, entre quem detém a autoridade para as decisões e quem tem o conhecimento indispensável para tomá-las, sendo obrigado, cada vez mais, a confiar em assessores, consultores e técnicos, os tais burocratas. Isso resulta no controle das decisões públicas cada vez mais longe dos eleitos, perdendo-se a representatividade entre o povo e quem é escolhido por ele”. Eu particularmente chamo isso de “terceirização da vontade popular”. Um é eleito para outros governarem.
Numa ação contraproducente, tendo como base a construção do Terminal Rodoviário de Camacã, ficou latente a falta de parâmetros daqueles que detinham o poder, ou tomada de decisão por parte dos burocratas, citados no parágrafo anterior, que resultou no esfacelamento das empresas que funcionavam em torno da praça Dr. João Vargens. Com a saída das empresas de ônibus e pela proibição de estacionamento e circulação de kombis e picapes, os comércios entre aquela região e o Instituto de Cacau da Bahia foram cerrando suas atividades, um a um. Nos comentários da época, os executores de tal mudança tinham como objetivo fazer a cidade crescer no percurso entre os Correios e a Rodoviária. A realidade é que isso não passou de especulação imobiliária dos donos das terras naquele perímetro e, por ironia da história, a cidade chegou até onde almejavam, mas pelo lado contrário, descendo morro abaixo. “Cobriram um santo e descobriram outro”.
Os tais coronéis, que, na sua maioria não enxergavam um palmo na frente do nariz, nunca, absolutamente nunca pensaram no futuro de Camacã. Nenhum deles investiu em boas moradias na cidade. Quase todos pernoitavam em suas casas na fazenda. Algumas eram belas mansões, que foram se depreciando junto com o cacau que deixaria de existir.
Quase todos os que viviam exclusivamente da lavoura, sem preocupações ou organização financeira pessoal, terminaram completamente endividados, falidos. Incongruente nessa história foram os comerciantes da cidade, proprietários de lojas, farmácias e armazéns, que também eram pequenos agricultores, os quais viviam do seu empreendimento e não ficaram endividados como os grandes latifundiários. Contrários à emancipação, os coronéis de Canavieiras teriam feito “algum trabalho”, que objetivava o declínio de Camacã? Ou foi o carma dos pequenos agricultores obrigados a vender suas terras para os coronéis a preço de banana? Conjecturas à parte, Camacã subiu como um foguete e ruiu como um castelo construído na areia.
Inaptos na arte de governar, porém habilidosos na perseguição política, os controladores do poder local só o perderam em uma oportunidade, quando o padre Auxêncio da Costa Alves foi eleito em 1972, surpreendendo a todos. O padre governou durante 4 anos, com uma faca nas suas costas. Fora esse interregno, mandaram na cidade desde sua emancipação, intentando contra quem os desafiasse. Um deles, que nunca disputou cargo público, andava na cidade com os nomes de pessoas numa lista para serem expurgadas dos seus trabalhos, alijadas daquela sociedade, como a turma do PT, objetivando dar o lugar aos seus apadrinhados. São vários os que saíram de Camacã e, decepcionados, nunca mais olharam para trás.
Em época de fartura ninguém aprende. É perfeitamente compreensível que algumas pessoas de Camacã, por laços de convivência mais íntimos, contestem o argumento de que os coronéis não deixaram marcas registradas a serviço da coletividade. A realidade é infinitamente superior às narrativas criadas, os mitos produzidos em torno de pessoas que governaram com imposições, perseguições, beneficiando uns poucos. Caso interessante a ser citado foi a época da geração de energia através da barragem de Camacã, quando havia energia elétrica em suas propriedades rurais, mas parte significativa da população da cidade estava às escuras, sem a energia. Aliás, o poderio econômico da lavoura cacaueira transitava somente no centro financeiro da cidade, com suas 7 agências bancárias. Nas áreas periféricas, a miséria era extrema, sem luz, água, saneamento básico e sem farinha no prato.
Como um paciente sobrevivendo com práticas paliativas, Camacã foi sendo esbulhada ao longo das últimas décadas, tendo as suas riquezas investidas em outros lugares. Até os filhos dos cacauicultores saíam para estudar e nunca voltavam, salvo raríssimas exceções. O chamado investimento sem retorno.
Precisamos conhecer nosso passado para termos condições de fazer reparos históricos. Desmistificar esse coronelismo é uma abordagem fundamental para que Camacã se liberte da cultura política baseada na dependência e no medo e isso passa pela educação política, pela valorização do coletivo populacional enquanto capital social de uma comunidade. É romper com o imaginário de que só quem tinha terra e sobrenome poderia governar. É reconstruir o ambiente político a partir do povo, sendo o processo de desmistificação do passado o caminho para construção de um futuro baseado no desenvolvimento econômico, na ética administrativa, na inovação e no compromisso com o bem público. No próximo artigo, vamos discorrer sobre os 32 anos seguintes.
José Cássio Varjão é camacaense, graduado em Ciência Política e possui MBA em Cooperação Internacional e Políticas Públicas e pós-graduação em Administração Pública Municipal e Desenvolvimento Local; Administração Pública e Gestão de Cidades Inteligentes; e Gestão de Negócios Inovadores.
O ex-prefeito de Salvador ACM Neto || Foto Divulgação
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Diante da pesquisa que mostra o elevado potencial de votos de Neto em Ilhéus, quem menospreza o resultado do levantamento ignora fatos políticos relevantes e recentes da Terra da Gabriela.
Thiago Dias
Após a divulgação da pesquisa PMX/Rede Portal sobre os potenciais de voto em Ilhéus do vice-presidente nacional do União Brasil, ACM Neto, e do governador Jerônimo Rodrigues (PT), numa eventual reedição da disputa pelo Governo da Bahia, vozes do campo progressista se apressaram em desacreditar o levantamento (confira os números aqui).
Precipitada, a reação pareceu mais um ataque ao mensageiro – no caso, o instituto responsável pela pesquisa – do que análise dos dados disponíveis para avaliação da conjuntura.
Antes de prosseguir com o argumento, duas ressalvas. Primeiro, a um ano e três meses das Eleições 2026, as pesquisas impõem aos entrevistados questionamentos que não estão no horizonte de quem não vive debruçado sobre as movimentações políticas.
Quanto mais distante do pleito, maior a artificialidade da tentativa de antecipar os humores do eleitorado. A maioria das pessoas não está pensando em eleições agora. Isso não significa que as pesquisas extemporâneas não tenham valor. Elas servem, por exemplo, para monitorar tendências e orientar os movimentos dos agentes políticos.
A segunda ressalva é a de que os baianos, com razão, estão ressabiados com pesquisas que, em duas décadas, erraram no excesso de generosidade em relação às forças da direita no estado.
Feitas as devidas ponderações, vamos aos fatos.
No primeiro turno das Eleições 2022 em Ilhéus, Jerônimo obteve 39.706 votos (41,68%) contra 38.666 votos (40,59%) do principal adversário. No segundo, apesar da derrota no pleito, Neto abriu vantagem de 8.195 votos em relação ao petista nas urnas ilheenses. A virada local foi um efeito do alinhamento das forças de direita e extremíssima-direita em torno do ex-prefeito de Salvador.
Vieram as eleições municipais do ano passado, e ACM Neto montou acampamento em Ilhéus. Conhecido o resultado, é difícil imaginar o prefeito Valderico Junior (UB) vencendo a disputa apertadíssima contra Adélia Pinheiro (PT) sem o apoio empolgado do ex-prefeito de Salvador.
Agora, diante da pesquisa que mostra o elevado potencial de votos de Neto em Ilhéus, quem menospreza o resultado do levantamento da PMX/Rede Portal ignora fatos políticos relevantes e recentes da Terra da Gabriela.
Thiago Dias é jornalista do PIMENTA, da Morena FM 98.7 e do Pod Gusma.
Neste tempo em que nossa sociedade clama por justiça, igualdade e reconciliação, quero partilhar convosco uma certeza que nasce do coração da fé cristã: Deus é democrático. Sim, o Deus revelado nas Escrituras, o Deus de Jesus Cristo, é um Deus que respeita a liberdade humana, que deseja a participação de todas as pessoas na construção do bem comum, que convoca cada um de nós a ser fermento do Reino de amor, justiça e paz.
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A fé anglicana — enraizada na tradição católica, reformada e aberta à razão e à experiência humana — valoriza profundamente a liberdade de consciência, a dignidade da pessoa e a justiça social.
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A Bíblia nos mostra que Deus criou o ser humano à Sua imagem e semelhança (Gn 1,27). E entre os dons que nos concedeu, destaca-se o livre arbítrio: a liberdade de escolher, de decidir, de participar da história. Não fomos criados como marionetes, mas como seres responsáveis, chamados à comunhão com Ele e com nossos irmãos e irmãs.
“Onde está o Espírito do Senhor, aí há liberdade” (2Cor 3,17).
Essa liberdade, no entanto, não é libertinagem. É uma liberdade que se realiza plenamente quando se orienta para o amor. Pois, como nos ensinou o apóstolo João: “Deus é amor” (1Jo 4,8), e o amor verdadeiro não escraviza, mas liberta. O amor de Deus é fonte de liberdade, justiça e participação. Por isso, a democracia, quando autêntica, é expressão política do amor em sociedade. É nela que se dá espaço à diversidade, ao diálogo, à dignidade de cada pessoa.
A fé anglicana — enraizada na tradição católica, reformada e aberta à razão e à experiência humana — valoriza profundamente a liberdade de consciência, a dignidade da pessoa e a justiça social. Como bem expressa a nossa herança anglicana, a autoridade da fé deve ser sempre equilibrada com a razão e com a experiência vivida pelo povo de Deus. E a experiência nos ensina que não há paz duradoura onde há opressão, onde há exclusão, onde não há democracia.
Na perspectiva da Teologia da Libertação, aprendemos que Deus toma partido: o partido da vida, da justiça, dos pobres, dos oprimidos. Não para excluir os outros, mas para que todos tenham vida, e a tenham em abundância (Jo 10,10). O Reino de Deus é um projeto de libertação integral, que começa aqui e agora, na história, na luta por uma sociedade mais justa, democrática e fraterna.
Frei Leonardo Boff, um dos profetas do nosso tempo, nos lembra: “A democracia é a forma política que melhor realiza a liberdade e a igualdade, valores fundamentais do Reino de Deus.”
E não podemos esquecer as palavras sábias do nosso querido Arcebispo Desmond Tutu, farol de esperança e reconciliação na África do Sul e no mundo: “Se você é neutro em situações de injustiça, você escolheu o lado do opressor. Se um elefante tem o pé sobre a cauda de um rato, e você diz que é neutro, o rato não vai apreciar sua neutralidade.”
Desmond Tutu nos recorda que a neutralidade diante do racismo, da homofobia, da misoginia, da pobreza e da exclusão é cumplicidade com o pecado. A verdadeira fé cristã nos move a agir com justiça, a praticar o bem, a amar como Jesus amou — sem fazer acepção de pessoas.
Como afirmou Martin Luther King Jr., pastor batista e mártir da liberdade: “A injustiça em qualquer lugar é uma ameaça à justiça em todo lugar.”
E Dom Helder Câmara, nosso profeta nordestino, nos provoca: “Quando dou comida aos pobres, me chamam de santo. Quando pergunto por que eles são pobres, me chamam de comunista.”
A democracia, amados, não é perfeita. Mas é o terreno onde podemos, com diálogo, respeito e participação, buscar o bem comum, que é sempre superior ao interesse individual. Só haverá paz verdadeira e duradoura quando todos os grupos sociais forem respeitados, quando os direitos de todos forem garantidos, sem qualquer forma de preconceito, discriminação ou exclusão.
Jesus não fundou uma religião elitista, mas uma comunidade de irmãos e irmãs. Ele andava com os pobres, com as mulheres, com os estrangeiros, com os excluídos. Ele nos ensinou: “Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça” (Mt 5,6).
E também: “Tudo o que fizerdes ao menor dos meus irmãos, foi a mim que o fizestes” (Mt 25,40).
Portanto, sejamos também nós, irmãos e irmãs do Cristo Libertador, cidadãos comprometidos com uma fé encarnada, ativa e libertadora. Lutemos por uma sociedade onde todos possam viver com dignidade. Que nossa espiritualidade não seja alienada, mas profética, crítica, sensível às dores do mundo.
Concluo com mais uma palavra de Desmond Tutu: “Meu cristianismo não me permite ficar em silêncio quando vejo o sofrimento. Minha fé me obriga a agir.”
Que o Espírito Santo nos ilumine, nos fortaleça e nos una neste compromisso com o Reino de Deus, que é justiça, paz e alegria no Espírito (Rm 14,17). Que a democracia não seja para nós apenas um sistema político, mas um caminho de amor social, onde todos tenham vez, voz e vida plena.
Assim seja. Amém.
Reverendo Luciano Campelo é padre da Igreja Católica Apostólica Anglicana e frade da Ordem Franciscana Anglicana.
Lançamento do livro "O Berimbau - Valhacouto de boêmios" no Mac Vita
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De uma vez só conseguimos reunir a mais fina flor da boemia canavieirense e das redondezas, com a presença maciça dos membros das gloriosas instituições Confraria d’O Berimbau e do Clube dos Rolas Cansadas, como em tempos pretéritos.
Walmir Rosário
Em plena manhã desta sexta-feira, 8 de agosto, me senti abatido, diria até exausto, em meio a um estudo comparado de rituais com vistas à elaboração de uma peça. A cabeça, os miolos, ou sei lá como explicar, ferviam com o vai-e-vem da leitura, justamente num dia considerado o início do fim de semana nos bares e botequins da vida.
Resolvi dar um tempo e me entreter assistindo ao filme Meu Vizinho Adolfo, iniciado na noite passada. De repente, ouço alguém bater à porta se passando por um entregador de uma dessas empresas internacionais de vendas pela internet. Desconfiado, pois não esperava a chegada de encomenda, mesmo assim abro o portão e encontro o amigo e irmão Arenilson.
Após risadas e o costumeiro abraço, me entrega um presente trazido em seu passeio pelas bandas de Bom Jesus da Lapa e Correntina: um litro da preciosa aguardente, ou melhor, cachaça, com o nome de Brejeira. Eu esperava um tijolão de rapadura, conforme promessa feita, mas resolvi não reclamar, haja vista a superioridade do regalo.
Enquanto examino o “precioso líquido”, adjetivo proibido nas boas redações, recebo, via whatsapp, o estímulo do amigo Toncar, direto de Campo Formoso, dando conta que o relógio badalava 11 horas, horário de abrir os trabalhos com o toque de um pequeno sino. Transmiti uma foto da Brejeira pra ele, que fez questão de me garantir que era uma das cachaças de sua predileção.
Confesso que minha estranha sexta-feira com o trabalho de pesquisa e nenhuma perspectiva de encontrar os amigos ao meio-dia em pino nos botecos bateu imediatamente em retirada. Guardei os rituais e escritos e me dirigi à cozinha para providenciar alguns tira-gostos à altura do presente recebido, alterando a rotina com um adeus em alto e bom som ao trabalho.
Muito reservadamente posso contar para você que me concedi férias há pouco mais de dois meses, após o trabalho estafante de editar o livro O Berimbau – Valhacouto de Boêmios, já impresso. Após alguns adiamentos, finalmente, no dia 26 de julho passado, realizamos o lançamento em grande estilo, no Mac Vita, um dos nossos mais acolhedores abrigos em Canavieiras.
De uma vez só conseguimos reunir a mais fina flor da boemia canavieirense e das redondezas, com a presença maciça dos membros das gloriosas instituições Confraria d’O Berimbau e do Clube dos Rolas Cansadas, como em tempos pretéritos. Uma festa pra ninguém botar defeito, regada a uma boa cachaça com Cambuí em infusão e cerveja bem gelada, e ao som luxuoso do saxofone de Cadu Perrucho.
Como era do procedimento regulamentar em alguns sábados na Confraria d’O Berimbau, os confrades prepararam com esmero o famoso “Tiquinho”, nome pomposo para os pratos elaborados e colocados à disposição dos estômagos famintos. Como sempre, para subverter a ordem, Trajano Júnior chegou com duas enormes panelas de com pernil suíno e fatada.
Não quero aqui falar mal ou reclamar do evento, mas fui bastante prejudicado por ter que me ater a receber os confrades e familiares, bem como autografar cerca de uma centena de livros, além de posar para as fotos. Enquanto isso, os convidados se esbaldavam nas bebidas e comidas e nas rodinhas de bate-papo, lembrando com saudade os velhos tempos.
E eu, que sonhava com um longo período de férias, provando da inatividade e dos benefícios do ócio, fui obrigado a interromper a vagabundagem planejada com bastante esmero. Bem que minha mulher me avisou que essa ideia de aposentado tirar férias se tratava de redundância, no bom português, uma utopia desnecessária de ser sonhada. Realmente, por duas vezes fui obrigado a interrompê-la, mas faz parte da vida.
Com a chegada dos confrades do retiro espiritual em Bom Jesus da Lapa, também interrompido pelos passeios nas cachoeiras e alambiques em Correntina, só aguardar o irmãozinho Batista. É que ele se recupera dos dissabores da gota de estimação e breve promoveremos uma inspeção nos botecos de Canavieiras. Desta vez, sem interrupção.
José Alberto de Lima Filho é vereador de Itabuna e advogado || Foto Divulgação
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Essa é a agenda de desenvolvimento que proponho para a nossa cidade e que precisa continuar a ser colocada em prática nos próximos anos.
José Alberto de Lima Filho
Roberto Carlos começa a sua canção A Guerra dos Meninos afirmando: “hoje eu tive um sonho, que foi o mais bonito que sonhei em toda a minha vida”. Eu também tenho um sonho chamado Itabuna, sobretudo no limiar dos seus 115 anos de emancipação política; uma Itabuna mais próspera, justa, criativa e sustentável. E, ao acordar, me dei conta de que esse sonho já começa a se tornar realidade.
Próspera é a cidade com a capacidade e as condições de se desenvolver economicamente, gerando emprego e renda para a sua população, e os investimentos que vêm sendo realizados nos últimos quatro anos e meio pela gestão do prefeito Augusto Castro colocaram Itabuna no caminho do crescimento.
Temos avançado na melhoria do ambiente de negócios em nossa cidade, através dos investimentos em infraestrutura, mobilidade, equipamentos públicos e na criação de marcos legais necessários para a segurança jurídica. Isso sem falar no complexo FIOL—Porto Sul, um importante e necessário vetor de crescimento para Itabuna e região.
Justa é a cidade que, através da riqueza gerada pelo seu desenvolvimento econômico, consegue melhorar a qualidade de vida e bem-estar da sua população com avanços nas áreas da saúde, educação e assistência social, sobretudo, para os mais vulneráveis economicamente.
E, aqui, não se quer dizer apenas investimentos em obras e equipamentos, mas, principalmente, na valorização dos profissionais, verdadeiros abnegados, que prestam esses serviços que são essenciais à população.
Criativa é a cidade que consegue se inserir em uma cultura de inovação tecnológica, ainda mais na era da tecnologia da informação e suas sucessivas ondas, primeiro com os computadores, depois com a internet e agora, mais recentemente, com a inteligência artificial (IA). Precisamos criar todo um ecossistema para que Itabuna se beneficie dos avanços da tecnologia digital, tanto no setor público, quanto privado, inserindo-nos, assim, na vanguarda do século XXI.
Sustentável é a cidade que se desenvolve nos três aspectos acima sem se esquecer da importância da preservação e recuperação do meio ambiente. Estamos localizados em um dos ecossistemas mais ricos em biodiversidade do mundo inteiro.
Precisamos valorizar a nossa cultura de preservação da mata atlântica e de todo o seu bioma, preservação essa que devemos em grande parte ao cacau cabruca. Precisamos ainda recuperar o Rio Cachoeira para que volte a ser um espaço de lazer e de geração de riqueza para nossa sociedade e, para isso, precisamos executar projetos de saneamento básico que o livrem dos esgotos sanitários e demais contaminantes.
Enfim, essa é a Itabuna dos sonhos que começa a se tornar realidade. Essa é a agenda de desenvolvimento que proponho para a nossa cidade e que precisa continuar a ser colocada em prática nos próximos anos.
Álvaro de Campos (Fernando Pessoa) em um de seus poemas mais célebres, Tabacaria, recitou: “Não sou nada. Nunca serei nada. Não posso querer ser nada. À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo”.
As grandes realizações e os avanços da humanidade começaram justamente de sonhos. Assim, convido a todos os grapiúnas que amam esta terra a nos unirmos em prol da ITABUNA que almejamos e merecemos.
José Alberto de Lima Filho é advogado especialista em Direito Público e vereador do Município de Itabuna.
Preta Gil faleceu no último domingo (20), nos Estados Unidos || Reprodução Instagram
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E Drão foi a música escolhida para a despedida musical de pai e filha no palco, emocionando a todos nós. É duro ver o velho mestre nessa dura caminhada, sabendo que vai levar essa dor pela vida afora. Mas a vida segue.
Afonso Dantas
Confesso que não acompanhava muito a carreira de Preta Gil, mas era impossível não ver as coisas que ela fazia, pela exposição de mídia que tinha. E, coisa difícil para quem é filha de uma super estrela, como Gilberto Gil, conseguiu brilhar muito também. E ocupou seu espaço.
E nesse espaço teve bloco no carnaval do Rio, fez música, shows, atuou como atriz e empoderou muitas mulheres pelo país, quebrando tabus, como a exposição do corpo fora dos padrões estabelecidos e também pelos discursos em defesa das minorias e da liberdade sexual. Com isso, ganhou seguidores, mas incomodou muita gente, pois quem brilha, incomoda, pois não é todo mundo que se acostuma com a luz.
Mas, ao contrário da carreira de Preta, sempre acompanhei com muito interesse a carreira de um dos maiores gênios da música de todos os tempos, Gilberto Gil. Conheço quase todas as suas músicas e admiro suas incursões por tantos gêneros musicais, como a MPB, o reggae, o funk (o verdadeiro), o rock e o reggae, sempre com muita qualidade e com sucessos que fazem parte de nossa vida.
Quem é da Bahia, de uma certa faixa etária e principalmente quem viveu em Salvador, considera Gil – e Caetano também – como uma espécie de parente que sempre esteve ali por perto e que nos representa. E mexer com qualquer um deles é como mexer com a gente. E quem acompanha Gil, acaba acompanhando sua grande e talentosa família. Seus filhos e netos que herdaram o talento do pai e avô. E mexer com eles, incomoda nosso Gil. E por isso também não gostamos que mexam com eles. Não venha não.
Mas por que falar de Gil, se quem se foi, foi Preta, sua filha? Natural. Por também ser pai de uma filha, que amo mais que tudo, estou sentindo a dor da perda do pai. A dor inimaginável e temida por todos os pais. A dor que já foi sentida por Gil em outra etapa da vida com a perda de Pedro, aos vinte anos, de forma trágica, porém rápida, em contraste com essa perda cheia de sofrimento, com a despedida devagar e extremamente dolorosa de sua filha Preta, aos cinquenta anos.
Gil é extremamente espiritualizado e acompanhamos aflitos como ele tentou preparar sua filha e sua família para a triste, mas inevitável despedida, dizendo para ela ir com calma, tranquilidade e sobretudo com fé, tentando conter uma dor que com certeza, explodia em seu coração de poeta, sempre mais sensível que os dos outros.
E a música Drão é bastante representativa sobre essa vida, essa relação de então amor dos pais de Preta, e essas dores, principalmente quando Gil fala que “os meninos são todos sãos” para Sandra, cujo apelido Drão batiza essa que é uma das músicas mais bonitas que já ouvi, mas que em outro momento da vida, alguns desses meninos já não se encontram mais entre eles, o que é uma dor terrível para os pais, pois contraria o caminho natural da vida.
E Drão foi a música escolhida para a despedida musical de pai e filha no palco, emocionando a todos nós. É duro ver o velho mestre nessa dura caminhada, sabendo que vai levar essa dor pela vida afora. Mas a vida segue. E o show tem que continuar. Força para Gil. E luz para Preta.
Afonso Dantas é publicitário, sócio e diretor de criação da Camará Comunicação Total, CEO da Lá ele! Camisas e Coisas, especialista em Gestão Cultural, membro da AGRAL, torcedor do Bahia e pai de Maria.
Vou perguntar novamente: quem é você agora, depois de tudo que você já viveu? Talvez ainda não saiba nomear, mas há dentro de você uma chama interna que está pedindo um novo começo. E é importante que saiba: não está acontecendo só com você. O convite é coletivo e não poderia ser diferente. Afinal, o caminho é individual, mas a caminhada é coletiva. As energias da terra estão mudando, acredite você ou não. Está acontecendo um chamado para que as pessoas expandam a consciência, que despertem a sua parte mais autêntica. O campo vibracional de todos nós está sendo afetado por novas frequências de realidades. E esta nova jornada será muito mais difícil para quem resistir continuamente à essas mudanças. Porque o único caminho possível é encontrar “ferramentas” que nos ajudem a lidar com essa nova realidade. Não existe a possibilidade de melhorar o mundo externo sem olhar para o mundo interno.
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Nada precisa fazer sentido agora, mas tudo precisa ser sentido.
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A vida (mais do que nunca) precisa que a gente assuma a nossa essência. E assumir, requer sobretudo, reconhecê-la. Isso inclui decodificar os nossos conflitos internos (luz e sombra). Para nós, profissionais da terapia sistêmica e das constelações familiares, os conflitos e as dores que muitas vezes sentimos, ao contrário do que muitas pessoas pensam, não começaram na nossa infância – elas apenas continuam pela infância, após atravessarem gerações.
Qual será o padrão que repetimos quando agimos como crianças assustadas e não como adultos conscientes? O que passamos adiante quando agimos pela dor e não pela coragem? A quem ficamos parecidas(os) quando agimos pela culpa e não pela responsabilidade? Qual destino repetimos quando agimos pela urgência e não pela presença?
Sim, nós carregamos marcas de feridas ancestrais. A pedagogia sistêmica nos ensina: “histórias não contadas viram fantasmas nos porões das casas”. Ciclos que se não vierem a tona, se não forem falados, se não forem transmutados, nunca vão se romper. Mas não queira interpretar pelo pensamento lógico. Nada precisa fazer sentido agora, mas tudo precisa ser sentido.
Identificamos e aprendemos a lidar com isso quando olhamos e dizemos: “eu te reconheço, você faz parte, mas você não me define”. E então damos um passo adiante, olhando para frente. Mas evitamos olhar para a dor com medo de sofrer de novo. E aqui há um grande paradoxo: quando olhamos para o que dói e ressentimos (sentimos novamente), estamos dando presença, escuta e espaço para o que precisa ser visto. E a necessidade da necessidade é ser vista.
Todo conflito tem uma utilidade, e quando essa utilidade cumpre a função, o próprio conflito se desfaz. Mas isso nunca acontece pela exclusão ou rejeição, mas sim pela aceitação. Aceitação da vida tal como é. Porque quando resistimos à aceitar a vida do jeito que ela se fez até aqui, estamos mais uma vez reproduzindo memórias que nos aprisionam. Precisamos aprender a criar memórias que nos libertam.
Rava Midlej Duque é comunicadora e terapeuta sistêmica.
Ilhéus caminha para 500 anos de história || Foto Patrícia Lanini/Socicam
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Efson Lima || efsonlima@gmail.com
O Município de Ilhéus, dia 28/06, completa 491 anos de Capitania e 144 de elevação de cidade. Os dados sociais da Princesa do Sul são assustadores. Segundo o Índice de Progresso Social (2025), a cidade ocupa a 186ª e a 4.124ª posições, respectivamente, na Bahia e no Brasil, afastando-a de um lugar de razoável índice de qualidade de vida. Mas, há luz pela frente. Caso confirme a implantação do Porto Sul, a Ferrovia Oeste – Leste e a cidade tenha um novo aeroporto, diga-se de passagem, que atenderá o Litoral Sul e parte do Baixo-Sul e Médio Sudoeste, além da ponte Salvador – Itaparica, não só Ilhéus, mas toda a região sofrerá um significativo contexto socioeconômico de mudanças.
A Zona de Processamento de Exportação (ZPE) foi criada em abril de 1989, mas até o presente momento não reuniu as condições para a efetiva operacionalização. É óbvio que sem as condições logísticas as chances são mínimas desse complexo sair do papel. Afinal, precisa de transporte para atender a principal característica que é exportar sobre o fundamento do controle alfandegado. A ZPE vai gerar postos de trabalho e ressignificar o território, certamente, imporá desafios à sociedade, mas permitirá também uma ampliação da gama de serviços e, quiçá, provoque uma melhoria de renda da população.
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Estamos muito mais interligado com o sudoeste baiano que com essas duas áreas geográficas. A BA-001 precisará ser redimensionada para dar conta do fluxo de carros e transporte de mercadorias.
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O famigerado aeroporto precisa deixar de ser sonho. O atual na cidade, mesmo reformado e com condições bem melhores que anteriormente (quase um novo aeroporto) não consegue operacionalizar com chuva em razão de não ter os instrumentos necessários. Mesmo assim, o volume de cargas que se espera desse complexo logístico exigirá um aeroporto maior e com condições de receber e enviar mercadorias para outros lugares, sem falar no quantitativo de pessoas que vão usar o serviço de transporte aéreo. Logo, o aeroporto internacional da região do cacau se mostra como uma demanda urgente.
A Ferrovia de Integração Oeste-Leste (FIOL) sobrevive, mesmo diante dos cenários negativos que o projeto atravessa diante da escassez de recursos financeiros. A ferrovia integrada ao Porto Sul consolidará a região como um dos mais importantes complexos de exportação do País, especialmente, agronegócio e mineração. As ferrovias de transporte de mercadorias precisam de portos para terem um performance elevada. Essas intervenções dinamizarão outros municípios: Itabuna, Uruçuca, Itacaré e Ubaitaba, dentre outros.
A Ponte Salvador–Itaparica provocará um maior fluxo no litoral baiano, pois, poder-se—á sair de Salvador e alcançar todo o sul da Bahia em menor tempo. Certamente, impulsionará o turismo e provocará mudanças na região. O baixo-sul, que constantemente esteve menos integrado, agora, será uma rota de encontro e passagem, aproximando as regiões que, conectadas pelo mar e pela cultura do cacau, pouco estiveram interligadas, assim como o Recôncavo. Estamos muito mais interligado com o sudoeste baiano que com essas duas áreas geográficas. A BA-001 precisará ser redimensionada para dar conta do fluxo de carros e transporte de mercadorias.
Oxalá, quem sabe, no futuro, não se vislumbra a concretização de uma ponte que possa ligar Canavieiras a Belmonte, permitindo alcançar a Costa do Descobrimento e o extremo-sul mais rapidamente. E, sobre rodovias, é curiosa a nova BA – 649, que ligará Itabuna a Ilhéus, cujos traçados vão ajudar os moradores do outro lado do Rio Cachoeira e permitirão um novo ciclo de desenvolvimento. Entretanto, essas conquistas não podem estar dissociadas do planejamento urbanístico e de um sério acompanhamento dos órgãos instituídos e da sociedade civil.
Espera-se que quando dos 500 anos da Capitania de Ilhéus, toda a região esteja bem melhor e que a sociedade alcance efetivamente um desenvolvimento social elevado. O Estado da Bahia precisa estar atento para a necessidade de uma Região Metropolitana, cuja tarefa é ajudar na coordenação desses desafios e sonhos. Esses complexos atravessam muitas questões ambientais e não há desenvolvimento efetivo sem um olhar atento para a sustentabilidade. Muito menos a população de baixo poder aquisitivo deve ficar à margem da inclusão socioeconômica e dos debates.
Efson Lima é advogado e professor, doutor em Direito (UFBA) e membro da Academia de Letras de Ilhéus (ALI) e da Academia Grapiúna de Artes e Letras (Agral).
O azeite de dendê Unauê recebeu esse nome em
homenagem ao município de Una, onde é produzido || Foto Walmir Rosário
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Walmir Rosário
Sempre acreditei piamente que Deus deixou as coisas boas do mundo para todos os seus filhos, indistintamente, embora alguns se deem ao luxo de esnobar algumas comidas e bebidas por algum motivo. Mas não cabe eu analisar o que eles pensam, o que gostam ou desgostam, nem os motivos que os levaram a abominar certos tipos de comes e bebes. Mas que acho estranho, isto é fato.
Na Bahia protegida por todos os santos, então, é uma infâmia desprezar as iguarias africanas, a exemplo do abará e do acarajé, que fazem sucesso e enchem a boca de água só em pensar. Bote sua cabeça para funcionar e se imagine comendo um acarajé com todo aquele recheio escorrendo pelos “cantos da boca”, com realce para o azeite de dendê! Comida dos orixás, dos deuses!
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Fizemos uma moqueca de vermelho do olho amarelo usando todos os temperos habituais, inclusive gengibre e a banana da terra. A novidade foi o dendê Unauê, que proporcionou sabores incríveis.
Se vosmicê se contenta com uma moqueca sem dendê, do jeito que é cozida em alguns estados, não sabe o que está perdendo. Mas ainda dá tempo de recuperar o atraso e conhecer o novo tipo de dendê que é produzido pela Ceplac, em Una, no Sul da Bahia. Portanto, ao chegar a um bom restaurante ou tabuleiro de baiana do acarajé, pergunte primeiro: Esse prato é feito com o azeite de dendê Unauê?
Caso a resposta seja positiva, sossegue, relaxe e se sinta um privilegiado. Vosmicê estará prestes a embarcar numa experiência gastronômica sem precedentes. Sinta-se no Olimpo e deixe que suas papilas gustativas viajem pelos sabores despertados pelos temperos, gostos e, sobretudo o umami, presente no dendê Unauê.
O engenheiro florestal José Inácio, da Ceplac
Como disse no início dessa crônica, tenho que compartilhar com vocês essa novo dendê, que acredito ser uma iguaria dos deuses. Numa de minhas incursões por Una, encontrei com o colega ceplaqueanos José Inácio Lacerda Moura, engenheiro florestal da Ceplac, e responsável pela introdução do cultivar híbrido desse dendê na Bahia.
Era o ano de 2009 e o projeto previa a associação da alta produtividade do dendezeiro africano com a resistência ou tolerância a pragas e doenças, porte baixo e qualidade do óleo do caiaué. Esse trabalho contou com o apoio da Embrapa Amazônia Ocidental, e a intenção principal era evitar o debacle desse cultivo no Sul da Bahia.
José Inácio é Doutor em Entomologia Agrícola pela Unesp/Jaboticabal-SP; Especialista em Pragas das Palmeiras e Endoterapia Vegetal, também chefe da Estação Experimental Lemos Maia/Ceplac, em Una-BA, e que goza de conceito internacional. Ele explica que o declínio da dendeicultura baiana estava e ainda está calcado em vários fatores, tais como os cultivares existentes, o custo com a colheita em razão da altura, baixa produtividade, óleo com alta acidez em virtude do mau manejo, falta de assistência técnica e problemas fitossanitários.
O problema é agravado no pequeno agronegócio dendê na Bahia, constituído pelos chamados “roldões” que representam a grande maioria das unidades processadoras do óleo, localizadas na região conhecida como Baixo Sul, vem sofrendo sério revés econômico pela diminuição da matéria-prima, ou seja, cachos de dendezeiro. Esses “roldões” são responsáveis pela geração de cerca de 3 mil empregos diretos e de parcela considerável da renda regional.
O cientista ressalta que no campo a cultivar HIE OxG vem obtendo bons resultados, e no comércio o azeite Unauê inova pois tem menor quantidade de ácidos graxos livres do que o óleo do dendezeiro, por isso é um azeite com menor acidez e melhor qualidade. É também mais insaturado e com maior teor de vitamina “E” e carotenos que o óleo do dendezeiro.
Estudos também demonstraram que o azeite Unauê tem potencial para o preparo de alimentos funcionais, rico em polifenóis, com propriedades antioxidantes e impacto favorável sobre os lipídios plasmáticos humanos relacionados com os fatores de risco cardiovascular. Devido a essas características, o uso do azeite Unauê, principalmente no caso de produtos da culinária tradicional que utilizam o óleo de dendezeiro não refinado, proporcionará produtos de melhor qualidade, sabor, propriedades nutracêuticas e/ou funcionais.
Em tom de brincadeira, José Inácio diz que as baianas de acarajé “odeiam” o HIE (ou Unauê) por ter pouca estearina (mais oleina). Devido a isso, só permite uma fritada – o que é bom para o consumidor. Já o dendezeiro – por ter muita estearina –, permite até 5 fritadas – o que é péssimo para o consumidor. Por fim, a cor amarela da estearina (ou borra) dá o dourado. Já quando feito com o Unauê, fica escuro, pois tem muita oleina. Contudo, o acarajé quando feito com Unauê é maravilhoso.
Walmir finaliza moqueca de vermelho com Unauê
Neste mês realizamos uma experiência gastronômica em casa com o Unauê e fomos bem sucedidos. Fizemos uma moqueca de vermelho do olho amarelo usando todos os temperos habituais, inclusive gengibre e a banana da terra. A novidade foi o dendê Unauê, que proporcionou sabores incríveis. Garanto que vamos repetir a prato, acrescentando outros temperos como experiência e inovação.
“Se você está indo para São Francisco/ Lembre-se de usar algumas flores em seus cabelos/ Se você está indo para São Francisco /Você encontrará muitas pessoas gentis lá”.
Os versos da canção “San Francisco (Be Sure To Wear Flowers In Your Hair)”, de Scott McKenzie, embalaram os jovens e amantes da boa música nos anos finais da década de 1960. Época da vergonhosa guerra do Vietnam.
Atualmente, se você quiser ir às cidades de Los Angeles (L.A.) ou São Francisco, na Califórnia (EUA), tenha muito cuidado.
O estado do oeste americano está com a Guarda Civil e fuzileiros navais nas ruas disparando spray de pimenta, gás lacrimogêneo e até balas de borracha contra pessoas, incluindo jornalistas que fazem o seu trabalho.
Tudo pela insanidade, arrogância e prepotência de um governo eleito para pôr fim ao sonho americano de democracia for export.
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A onda de indignação, iniciada com protestos em Los Angeles, na sexta-feira (6), se espalha na outra grande cidade da Califórnia, aquela das flores nos cabelos e de pessoas sempre gentis. O número total de detidos nas duas cidades gira em torno de 200 pessoas.
A sigla Taco, que significa que o Sr. Trump frequentemente “pipoca” ou “desiste” de medidas duras que anuncia, é expressão corrente nos mercados americanos, como dizem os “especialistas”. Menos para impor sua política antiimigração desumana.
Diz a mídia comercial americana e do resto do mundo que o Departamento de Polícia de São Francisco (C.A.) anunciou que 60 pessoas foram detidas na noite de domingo (8) em uma manifestação contra a política de imigração do atual governo.
A onda de indignação, iniciada com protestos em Los Angeles, na sexta-feira (6), se espalha na outra grande cidade da Califórnia, aquela das flores nos cabelos e de pessoas sempre gentis. O número total de detidos nas duas cidades gira em torno de 200 pessoas.
Que saudades dos tempos de Philip Wallach Blondheim, cantor e compositor estadunidense – Scott McKenzie – cuja carreira se iniciou em meados da década de 1950 e tornou-se mundialmente conhecido com a canção San Francisco. Foi escrita para ele por John Phillips, o líder do grupo The Mamas & the Papas.
“Para aqueles que vêm a São Francisco/ O verão será repleto de amor/ Nas ruas de São Francisco/ Pessoas gentis com flores em seus cabelos. Por toda a nação, como uma estranha vibração/ Pessoas em movimento/ Há toda uma geração com uma nova explicação/ As pessoas em movimento, as pessoas em movimento”, diz a canção.
Certamente, depois da repressão, a canção será uma doce saudade do passado.
Luiz Conceição é bacharel em Direito (1994), leitor de temas econômicos e jornalista, desde 1975 (época em que era muito, mas muito feliz!).
Julio Gomes escreve sobre genocídio cometido por Israel contra o povo palestino || Imagem IA/Freepik
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Julio Cezar de Oliveira Gomes
Muito possivelmente você é uma pessoa como eu. Alguém que não é famoso nem rico, que não tem milhares de seguidores nas redes sociais e que mora em uma cidade do interior ou na periferia dos grandes centros urbanos, onde o que fazemos não aparece na grande mídia. Mas a necessidade nos empurra para algum tipo de ação.
É desumano, absurdo e quase inacreditável o que está ocorrendo em Gaza. Ali vemos o exército de Israel avançar e massacrar a população civil desarmada, demolir universidades, escolas, prédios públicos e quarteirões inteiros, e matar, segundo números oficiais, mais de 50 mil pessoas, a maioria mulheres e crianças.
Vemos o que pensamos que jamais veríamos no século XXI: hospitais sendo bombardeados e médicos mortos, ajuda humanitária sendo impedida de entrar no território e cerca de 250 repórteres assassinados, unicamente, porque exerciam sua sagrada missão de mostrar ao mundo a monstruosidade em curso.
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E, reafirmando Jesus, se um dia vier a ser perseguido pela posição pública que assumo, direi para mim mesmo as palavras do Mestre no Sermão da Montanha: Bem-aventurados os que forem perseguidos por amor à minha Justiça, porque deles será o reino dos céus.
O genocídio se abate sobre a população de Gaza com todas as suas características: bombardeio contra civis, assassinato de crianças, uso da fome como arma de guerra, cerceamento máximo à imprensa, confinamento da população em campos de fome e morte, impedimento de ajuda externa e total insensibilidade quanto a todos os apelos em favor da vida, não importa se vindo de outros estados nacionais ou do Papa. A empresa genocida segue surda e insensível a tudo.
E o que nós podemos fazer? Muito pouco, é verdade. Mas talvez o pouco de cada um somado ao pouco de todos resulte em algo eficaz para barrar o avanço do extermínio.
Podemos usar as redes sociais. Podemos usar nossa voz nos grupos sociais que frequentamos, senão em nome do grupo ao menos em nome próprio. Podemos deixar claro para todos que nos conhecem que somos contra o massacre e deixar clara nossa posição política, social e humana sobre isso. Certamente não é muito, mas é nosso máximo no dia de hoje.
Vamos nos posicionar sobre o que acontece em Gaza e aproveitar para dizer o mesmo também sobre o que acontece na Ucrânia e em países da África onde as tragédias que ceifam milhões de vidas são ignoradas pela grande mídia.
E antes que você diga que escrevo estas linhas por conta de meu posicionamento político, que realmente tenho, saiba que não é tanto isso, mas é por pensar que aquelas crianças mortas poderiam ser nossos filhos ou netos; e que aquela família faminta – expulsa de sua casa, refugiada, enlutada e sem a menor perspectiva de presente nem de futuro – poderia ser a minha família.
Não é tanto por consciência crítica ou política, mas porque sou cristão que escrevo este texto, porque Jesus não se calou ante as injustiças de seu tempo, ante o apedrejamento da mulher adúltera, ante os vendilhões do tempo e diante dos religiosos hipócritas que manipulavam as pessoas, e por isso Ele foi preso, torturado e assassinado na cruz.
Não serei da legião dos calados nem dos omissos. E, reafirmando Jesus, se um dia vier a ser perseguido pela posição pública que assumo, direi para mim mesmo as palavras do Mestre no Sermão da Montanha: Bem-aventurados os que forem perseguidos por amor à minha Justiça, porque deles será o reino dos céus.
Julio Cezar de Oliveira Gomes é graduado em História e em Direito pela Uesc.
Wenceslau Júnior escreve sobre papel do Estado no incentivo a agentes ambientais
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Wenceslau Júnior
Neste 05 de junho, comemora-se o Dia Mundial do Meio Ambiente, data instituída pela Organização das Nações Unidas (ONU).
As questões ambientais são palco de debate há longas décadas, desde antes da Primavera Silenciosa (Rachel Carson, 1962). No entanto, o tema tem ganhado ainda mais força e relevância nos últimos anos, em razão dos desastres ambientais, das emergências climáticas, e, sobretudo, da urgência de compreendermos a relação de interdependência do ser humano com o meio ambiente.
Diante da visão de parte da sociedade de que a natureza é apenas provedora de recursos e receptora de resíduos, o imortal Ailton Krenak (2020) anuncia: O amanhã não está à venda! É necessário repensarmos o consumo, fortalecermos os princípios de recusar, reduzir, reutilizar e reciclar. Pela manutenção da vida na Terra, a reformulação dos nossos padrões de consumo e a transição energética e ecológica são mais que necessárias, são urgentes.
Nesse contexto, o Governo Federal, por meio do Ministério da Fazenda e outros Ministérios, lançou o Programa de Transformação Ecológica, propondo um novo modelo de desenvolvimento econômico, que busca reduzir os impactos ambientais e a desigualdade.
Nessa mesma linha, o Consórcio do Nordeste apresenta um plano de transformação ecológica para a região que abriga vários biomas, entre eles a Mata Atlântica e a Caatinga, o último, próprio do Nordeste brasileiro.
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O apoio às Cooperativas e Associações nos grandes eventos, especialmente no Carnaval e São João, se constituiu em uma tecnologia social que se aperfeiçoa ano após ano, ampliando cada vez mais os investimentos, o número de catadores beneficiados e de resíduos coletados.
Com os planos apresentados podemos visualizar que estamos, finalmente, vivendo uma era de concepção de desenvolvimento em que as questões ambientais são debatidas em parceria para que seus impactos sejam mitigados e oportunidades de desenvolvimento sustentável e inclusão sejam construídas.
Ainda imbuídos nessa pauta, não podemos deixar de reconhecer e valorizar o papel dos Catadores e Catadoras de Materiais Recicláveis para a construção do elo entre economia e manutenção da vida na Terra. Esses agentes ambientais, especialmente os que se organizam sob os princípios da Economia Popular Solidária e do Cooperativismo, são os grandes protagonistas dessa temática. São diversas associações, cooperativas e grupos coletivos que desenvolvem trabalhos de educação e sensibilização ambiental, geram renda e reduzem o impacto ambiental ao contribuírem com a retirada de produtos que poderiam sofrer um descarte inadequado.
Por essas razões, o Governo do Estado da Bahia tem investido fortemente nesse segmento. O apoio às Cooperativas e Associações nos grandes eventos, especialmente no Carnaval e São João, se constituiu em uma tecnologia social que se aperfeiçoa ano após ano, ampliando cada vez mais os investimentos, o número de catadores beneficiados e de resíduos coletados.
Além dos grandes eventos, o apoio à regularização, assistência técnica e formação desses grupos também é uma outra vertente que vem se fortalecendo. A doação de equipamentos como prensas, balanças e carrinhos é feita de igual forma.
Ainda nessa temática, o Governador do Estado, Jerônimo Rodrigues, criou um Comitê Executivo sobre a Cadeia Produtiva de Recicláveis, este coordenado pela Casa Civil e com a participação de várias secretarias de estado.
A Secretaria do Trabalho, Emprego, Renda e Esporte ocupa o comitê atuando nas ações de Assistência Técnica e Formação, Aquisição e doação de equipamentos e apoio a grandes eventos; a Secretaria de Desenvolvimento Urbano tem a responsabilidade de melhorar a infraestrutura dos galpões; a Secretaria de Meio Ambiente recebeu a responsabilidade de lapidar a legislação e criar o sistema de pagamento pela prestação de serviços ambientais; a Secretaria de Desenvolvimento Econômico busca de atrair mais indústrias que processem o material, entre outras.
Além das secretarias de estado envolvidas, as Voluntárias Sociais da Bahia atuam nessa agenda como grande articuladora das instituições e em busca de financiamento.
Compreendemos, por fim, que o principal desafio desse acúmulo de tarefas entre as secretarias e instituições parceiras é, sobretudo, o de conscientizar os municípios do estado de que as Cooperativas e Associações prestam um serviço ambiental relevante, e por isso precisam ser remuneradas por de forma justa e regularizada.
O Governo do Estado está fazendo a sua parte, os catadores e alguns municípios também, o que já apresenta avanços que nos trazem esperança, mas ainda há muito trabalho pela frente! Neste dia Mundial do Meio Ambiente, convidamos a todos/as a se debruçarem sobre essa pauta que mais do que importante, é essencial para o planeta.
Wenceslau Júnior é professor de Direito da Uesc e superintende de Economia Solidária da Bahia.
Desde a segunda metade da década de 1950 que os torcedores de Itabuna e do Fluminense de nossa paróquia passaram a ter um xodó especial com um jogador, considerado a revelação e que atuou até no Itabuna Esporte Clube, nos fins da década de 1970. Bom driblador, embora sua marca maior fosse o poderoso petardo em direção ao gol. O terror dos goleiros.
Durante anos construiu sua história nos campos de Itabuna, Ilhéus, Itajuípe, Alagoinhas, Santo Amaro, São Félix, Belmonte, e onde mais a Seleção de Itabuna (amadora) jogasse. Não pense que ele não encantou a capital baiana, a Salvador dos grandes times profissionais. Em 1957 ele bagunçou as partidas nos campos da Graça e na Fonte Nova como se estivesse no quintal de casa.
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Santinho era mais que um jogador de futebol, um craque que sabia impor, ao mesmo tempo, o respeito e a admiração dos adversários. Fora de campo, um homem com amigos tantos que surpreendia até mesmo os que o conheciam. Deixou o futebol e foi cuidar dos seus afazeres profissionais em várias áreas, incluindo a Ceplac e a Tevê Santa Cruz.
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Pois é, assim era Santinho, que na vida civil levava o nome de Gilberto Silva Moura, que não se intimidava em jogar na casa do adversário, seja lá qual fosse. No dia 4 de abril de 1957 jogou a partida final do Torneio Antônio Balbino contra a Seleção de Feira de Santana, por ocasião da inauguração dos refletores do Estádio da Fonte Nova.
Jogo empatado em 1X1 e a disputa semifinal definida nos pênaltis, que seriam batidos por apenas um jogador de cada selecionado. Imediatamente o técnico da Seleção de Itabuna escolheu Santinho para bater as cobranças. Cinco penalidades batidas pela Seleção de Feira de Santana: cinco gols. O mesmo placar foi marcado por Santinho. Na segunda série, o mesmo resultado. O árbitro apita para a terceira série e Santinho marca os cinco gols, e para alegria dos itabunenses, o goleiro Carlito defende uma penalidade. Agora era a final.
Dois dias depois a Seleção de Itabuna vence a Seleção de Alagoinhas por 2X0 e o Torneio Antônio Balbino. Na tribuna de honra, autoridades das mais diversas, entre elas o governador da Bahia, Antônio Balbino, o ministro da Guerra, Marechal Lott e o presidente da República, Juscelino Kubistchek, que entregou a taça aos jogadores. Festa em Itabuna e os jogadores chegam como grandes heróis.
Alguns meses depois, fins de 1957, a Seleção de Itabuna volta a Salvador para disputar a final do Campeonato Baiano Intermunicipal contra a Seleção de Salvador. Ganha a primeira partida por 2X0, no campo da Graça, e aplica 3X1 no jogo de volta em Itabuna. Neste campeonato, num jogo bastante tumultuado em Ubaitaba, após a expulsão do goleiro Asclepíades, Santinho, com apenas 20 anos foi escolhido para concluir a partida no gol. Itabuna vence por 4X0.
Santinho na Seleção de Itabuna (em pé, o segundo da esquerda para a direita) || Arquivo Walmir Rosário
E aí Santinho não parou mais até ganhar o Hexacampeonato e estrear no Itabuna Esporte Clube profissional, em 1967. Durante todo esse período, ele se tornou um dos grandes líderes da Seleção de Itabuna. E fez por merecer todo o carinho da torcida, que vibrava com suas jogadas, seu chute certeiro que fazia tremer zagueiros e os goleiros. E não era pra menos, pois mais de uma vez seus petardos furavam as redes adversárias, literalmente.
Santinho sabia impor respeito aos adversários dentro das quatro linhas. Fora de campo, mais ainda. Ele se considerava o protetor dos colegas, principalmente dos garotos recém-chegados no time ou na seleção. Entre eles os “meninos” Bel e Lua, convocados para a Seleção de Itabuna aos 16 anos. No Fluminense, seu Astor, pai de Lua, delegou a Santinho os cuidados com o filho Lua.
Em campo não tinha medo de cara feia nem de zagueiros violentos. Resolvia tudo com sua autoridade de craque de futebol, intimidando os adversários com jogadas mirabolantes e petardos em direção ao gol, com um aproveitamento altamente positivo. Com o tempo soube utilizar sua sabedoria para jogar recuado – em todas as posições –, mesmo na defesa, aproveitando o seu conhecimento de futebol para potencializar as jogadas sem a energia física de antes.
Santinho era mais que um jogador de futebol, um craque que sabia impor, ao mesmo tempo, o respeito e a admiração dos adversários. Fora de campo, um homem com amigos tantos que surpreendia até mesmo os que o conheciam. Deixou o futebol e foi cuidar dos seus afazeres profissionais em várias áreas, incluindo a Ceplac e a Tevê Santa Cruz.
Indiscutivelmente, foi o jogador símbolo da Itabuna das décadas de 1950, 60 e 70, época em que os craques abundavam, ou melhor, como se dizia naquela época, “davam no meio da canela”. E Santinho se sobrepunha às situações ao jogar nas posições em que era escalado, com toda humildade de sua sabedoria, com a intenção de dar tudo de si pela equipe em que jogava.
Santinho nos deixou em 7 de julho de 2009, mas ainda ecoam em nossos ouvidos a voz dos narradores em suas jogadas e os gritos de gol!
Valdemar Broxinha, com seu violão, no bar Katixa, em Una || Foto Walmir Rosário
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Walmir Rosário
Os sonhos fazem parte da vida de qualquer ser humano, isto é fato, embora possam ser diferentes, como os dedos de nossas mãos, mas existem e são guias para a formação de cada um. Apesar de não ter qualquer estudo ou formação em psicologia ou atividade afim, já presenciei muita gente abandonar os sonhos da infância e juventude e partir para caminhos diferentes.
Volta e meia somos surpreendidos com mudanças substanciais na vida de uma pessoa que enveredou por um caminho profissional e lá pra frente embica por outro, sem qualquer aviso prévio. Na carreira acadêmica não é diferente e não sei o que passa na cabeça dessas pessoas, que próximos a receberem os canudos mandam tudo pros ares, recomeçam em outro curso e se sentem felizes.
Eu não escondo a admiração que tenho pelas pessoas que desde cedo se envolvem pela carreira musical – mesmo a amadora –, pela dedicação, como se não houvesse “outro amanhã” nesse mundão de Deus. Envolvem-se com a arte de cantar ou os instrumentos musicais nas manhãs, tardes e noites com a vocação de um monge a repetir mantras sagrados com a maior tranquilidade.
Num desses sábados passados, como de costume, cheguei à casa de meu amigo e parceiro de ronda nos bares de Canavieiras, Valdemar (Araújo) Broxinha, para sairmos sem lenço ou documento. Jogaríamos conversa fora, veríamos os amigos, apreciaríamos algumas cervejas, tira-gostos de sustança, sempre ao som do violão e voz desse sonoro amigo.
O show em Camacan foi a gota d’água para Valdemar encerrar sua carreira, sob o pretexto de prejuízo nos seus afazeres profissionais na empresa em que era dirigente.
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Para minha surpresa, ele já me esperava na varanda fazendo vibrar as cordas do violão em sonoras melodias. Espantei-me, não pelo fato de tocar e cantar, mas das músicas que ora executava com total maestria, pois eram obras de Sir Charles Spencer “Charlie” Chaplin, Jr, compostas para seus filmes, e que fizeram e fazem um estrondoso sucesso em todo o mundo.
Ele dedilhava Smille, do filme Tempos Modernos; Feelings, de Morris Albert; passando por Maria Helena, cantada por Altemar Dutra; dentre outras obras de sucesso. E Valdemar somente encostou o violão para me servir uma bela cachaça, Amansa Búfalo, se não me engano. Retomou a apresentação apenas com a minha presença na plateia. Senti-me deverasmente privilegiado.
Como sou conhecedor do sentimento de Valdemar Broxinha, me conservei calado, ouvindo com atenção aos acordes sonoros do violão e sua voz suave, apaixonada pelo repertório escolhido. Nosso músico não tem nada a ver com o outro conterrâneo baiano, João Gilberto, mas também se irrita com os presentes que não respeitam a apresentação artística, mesmo em um boteco.
Nos áureos tempos da Bossa Nova e Jovem Guarda, Valdemar Broxinha, crooner da Banda Christians, de Canavieiras, era sucesso garantido em suas apresentações nas matinês, vesperais e soirées. Entre os pontos altos da banda, além do repertório e sonoridade, a impecável vestimenta de cortes bem assentados nos smokings, passeio completo e, no máximo esporte fino.
E o repertório dos Christians não ficava nada a dever aos grandes artistas nacionais e internacionais, tanto assim que ensaiavam os novos lançamentos para entregar – de pronto –, aos seus fãs. Naquela época fazia sucesso a música Meu nome é Gal e os músicos se esmeraram nos ensaios a semana inteira visando estar tinindo na apresentação de domingo em Camacan.
Mas eis que nosso artista resolveu esnobar e, sem comunicar aos integrantes da banda, se apresentaria com uma veste hippie, incluindo uma peruca com os cabelos desgrenhados como a própria Gal Costa. E a plateia não cansava de pedir o sucesso Meu nome é Gal. A banda faz uma pausa e ao retornar, entra o crooner Valdemar Araújo, com seu personagem, cantando como se fosse a própria Gal Costa.
Assim que entram no palco e começam a cantar, a plateia, atônita, inicia a apupar o personagem encenado por Valdemar, que contrastava com o restante dos músicos, estes em seus comportados ternos. Nova música, Valdemar retorna com sua vestimenta padrão e o baile segue normalmente, embora nosso crooner tenha permanecido magoado com as troças.
O show em Camacan foi a gota d’água para Valdemar encerrar sua carreira, sob o pretexto de prejuízo nos seus afazeres profissionais na empresa em que era dirigente. Agora somente tocava com os amigos. E foi justamente o amigo Batista quem resolveu reabilitá-lo na sua carreira intermunicipal, marcando com seu compadre Almir uma apresentação no conceituado boteco Katixa, na vizinha cidade de Una.
E na sexta-feira partimos para Una com a disposição de presenciar uma apresentação de Valdemar Broxinha, em alto estilo, dando a volta por cima em um show intermunicipal, após quase meio século do episódio de Camacan, a ser definitivamente esquecido. Batista, este que vos fala, o Almirante Nélson e Alberto Fiscal. Apoio moral em peso.
Reunido o público frequentador, todas as atenções eram voltadas para Valdemar Broxinha e seu violão. E ele iniciou o show com muito cuidado, se preparou com as honras da casa após umas cervejas e um mocofato de fazer gosto. Sou testemunha e dou fé que Valdemar foi sucesso absoluto, tanto assim que duas novas apresentações foram agendadas: uma em Canavieiras e a volta triunfal a Una.