Revisão do Plano Diretor de Ilhéus está atrasada há 5 anos || Foto Blog Agravo
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Além de ser uma desculpa inverossímil para a desídia, a ideia de que as discussões suscitadas por entidades civis atrapalha a tomada de decisão, no exercício do poder, é de uma violência antidemocrática típica do bolsonarismo mais radical, pois o espaço cívico também é uma floresta que o presidente quer desmatar.

Thiago Dias

Quando desistiu de erguer o novo presídio regional na Estrada do Chocolate, em outubro de 2019, a classe dirigente anunciou que a obra seria levada para as margens da Ilhéus-Itabuna. O assunto morreu ali. Agora, quase dois anos depois, nós, os governados, descobrimos que o recurso reservado para a obra, orçada em R$ 40 milhões, vai bancar a construção do presídio de Senhor do Bonfim.

A explicação dos governantes sobre a mudança de destino do dinheiro é genial. Segundo eles, Ilhéus perdeu o investimento por não ter definido logo o terreno do novo presídio. E, veja você, a demora é culpa dos questionamentos levantados, pela sociedade civil, contra as alternativas locacionais que os gestores foram capazes de oferecer.

Isso é dito na terra onde o poder público quer construir estações elevatórias de esgoto no meio de praças, além de um fórum no único espaço amplo de convivência e lazer da região central da cidade.

Isso é dito como se a classe dirigente sempre desse ouvidos aos setores organizados da sociedade, como se não batesse seu martelo, peremptoriamente, na hora de nos impor o que um decreto chama de “interesse público” – esse conceito abertíssimo.

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O vice-governador João Leão (PP), o ex-governador Jaques Wagner (PT), o senador Otto Alencar (PSD) e o espaço deixado pela saída de Fábio Vilas-Boas
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No fim das contas, a pouco mais de 4 meses de 2022, a saída de Vilas-Boas abre uma janela de oportunidade para a repactuação das forças governistas.

Thiago Dias

Depois de quase 7 anos à frente da Secretaria da Saúde do Estado, o médico Fábio Vilas-Boas deixa o cargo de forma melancólica. Ofendida pelo então secretário, a chefe de cozinha Angeluci Figueiredo deu-lhe uma resposta didática sobre os valores civilizatórios em disputa no nosso tempo. Ao publicar a lição, Angeluci tornou insustentável a permanência do cardiologista no governo Rui Costa. Contra a palavra bárbara, o decoro.

Fábio, pelo menos, pediu desculpas, que pareceram sinceras. Estava visivelmente abatido no vídeo em que se pronunciou sobre o caso. Apesar da melancolia da saída, serve-lhe de consolo um legado de expansão dos serviços de saúde na Bahia, com grande volume de investimento público em infraestrutura, foco na gestão terceirizada e incentivo de consórcios intermunicipais.

A resposta do governo estadual à pandemia de Covid-19 também merece reconhecimento. A Bahia tem a segunda menor taxa de mortos por 100 mil habitantes entre todos os estados brasileiros. Só o Maranhão registra taxa menor. Impossível não atribuir ao ex-secretário um papel importante nesse trabalho.

No mais, se a exoneração parece uma pena branda aos olhos de muitos, cabe lembrar que se trata de um cargo poderoso e central em tempos de pandemia.

Esse poder, é claro, interessa aos partidos que integram a base do governo estadual. No fim das contas, a pouco mais de 4 meses de 2022, a saída de Vilas-Boas abre uma janela de oportunidade para a repactuação das forças governistas.

Engajado na missão de voltar ao Palácio de Ondina, o ex-governador Jaques Wagner (PT) ganhou novas perspectivas para dialogar com os partidos aliados. Era a cadeira que faltava às acomodações da coalizão.

Thiago Dias é repórter e comentarista do PIMENTA.

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A comunicação que me escolheu e me acolheu segue abraçando vidas, dando voz a causas e pessoas por empatia e compaixão, e experimentando o correr da vida.

Manuela Berbert

A comunicação me escolheu lá atrás, quando eu liderava a equipe de um jornalzinho no colégio que, mesmo sem a força da internet, já conseguia circular por todas as principais instituições da minha cidade. E hoje eu olho para trás, penso nas articulações dessa distribuição em massa de umas folhas de papel que ditavam regras e modismos,  e entendo perfeitamente que não nasci para fazer outra coisa. Mesmo!

Mas é bem louco perceber que ela nem sempre me acolheu também. Que o mais do mesmo, o comum, ditou as regras engessadas do mundo por um tempo, e que as opiniões alheias me encolheram em vários momentos da vida. Resisti, não desisti, mas sofri. E muito. Dia desses, em conversa com uma cliente de consultoria para conexões e redes sociais, lembrei de uma passagem que me marcou bastante: no retorno da minha primeira viagem a São Paulo, escrevi na coluna que assinava no Jornal Diário Bahia o quanto teria sido acometida pela decepção. Teria achado a cidade suja, fedida e a quantidade de pessoas dormindo nas ruas teria cegado completamente o meu olhar. Recebi um retorno tãããão pesado de alguém próximo, que passei alguns dias tonta e absorvendo aquilo tudo!

No seu feedback, ela me disse que era até um tanto tabaréu da minha parte escrever aquilo em um veículo de comunicação. A potência São Paulo seria inegável, e o meu olhar era, digamos, amatutado. “Alguém que não consegue enxergar a dimensão da cidade porque tem a mente pequena”, ela definiu, em outras palavras. Uma paulada no meu juízo, que doeu forte. Não me retratei, como ela sugeriu, mas segui escrevendo cheia de dedos, justificando que talvez eu não tivesse conhecido a parte boa da cidade e que a culpa era minha por isso.

Hoje, a Manu que vos escreve jamais agiria assim. A comunicação que eu acredito me escolheu e também me acolheu. Me permitiu ser dona das minhas opiniões, ainda que eu as mude alguns dias depois, por experiência própria. A comunicação que me escolheu e me acolheu segue abraçando vidas, dando voz a causas e pessoas por empatia e compaixão, e experimentando o correr da vida. É como cantarolava o amigo Toni Garrido na canção A Estradaa vida ensina e o tempo traz o tom…”.

Manuela Berbert é publicitária.

A estátua do bandeirante Borba Gato ardendo no fogo da justiça histórica
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Queimamos por justiça, cumprindo a missão civilizatória de extirpar da face da Terra, com o fogo sagrado, os ídolos do mal.

Thiago Dias

No arranjo discursivo da nossa moralidade política, a piromania não precisa de autoindulgência para se legitimar. Queimamos por justiça, cumprindo a missão civilizatória de extirpar da face da Terra, com o fogo sagrado, os ídolos do mal.

No calor da tarefa, não cogitamos pleitear, por meios democráticos, a remoção da estátua do bandeirante Borba Gato para um museu, instituição que também nos acostumamos a queimar.

Afinal, a expressão da nossa iconoclastia não cabe nos instrumentos da superestrutura burguesa – ela requer atitude!

O fogo no galpão da Cinemateca é diferente do nosso. Tem um quê de projeto político de destruição da cultura inimiga. Nem de longe lembra o fulgor revolucionário das nossas chamas.

A história nos autoriza a queimar, somos piromaníacos das causas justas.

Thiago Dias é repórter e comentarista do PIMENTA.

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Pensar fora da caixa do tradicionalismo e do poder imediato, firmar parcerias, apresentar projetos para captação de recursos serão exercícios permanentes, ter sensibilidade para corrigir rotas e melhor permitir o alcance dos resultados buscados pela gestão e pela comunidade.

Rosivaldo Pinheiro

A gestão pública vem passando por um processo de contínua transformação e se faz cada vez mais necessária a estruturação de arranjos que permitam maior transparência na tomada de decisões, cumprimento do ordenamento legal e atenção para as sinalizações fornecidas pela comunidade. Diante desse cenário, cabe aos gestores formar equipes com pessoas de capacidade técnica, liderança e visão política, possibilitando definir estratégias para atacar as prioridades apontadas pela sociedade.

Os gestores que compreenderem a montagem dessa equação acabarão por colher resultados melhores no desempenho das ações e, consequentemente, no apoio popular. Os gestores atuais precisam ter plena clareza das necessidades mais imediatas dos seus munícipes e também da velocidade necessária para fazer a máquina pública girar, estruturar parcerias estratégicas com instituições de apoio, evitando a centralização administrativa, ineficiência de ação e as prováveis insatisfações oriundas desse engessamento.

Pensar a administração como célula plural, dinâmica e participativa é de suma importância para o pleno êxito das políticas públicas. Portanto, cercar-se de um conselho político ou célula equivalente para avaliação e socialização das decisões se faz algo de extrema importância no processo de organização, eficiência e fortalecimento das administrações.

A cidade de Itabuna completa 111 anos de emancipação política. Suas carências são perceptíveis e estão permanentemente expostas aos olhos de todos. Ajustar as variáveis disposição de recursos financeiros e as demandas da população exigirá a adoção de novas soluções e conceitos, criação permanente de ferramentas de inovação e gestão, diminuindo o tempo-resposta para as necessidades represadas e melhor uso do dinheiro público, buscando maior eficiência do gasto. Ter essas diretrizes e permanente monitoramento do planejamento nas diversas áreas possibilitará mudanças significativas no nível de organização e avanço da cidade.

Para o alcance desses resultados, é necessário que todos os componentes da equipe de gestão entendam o desafio e se mostrem abertos para os reclames da comunidade, nas rede sociais, veículos de comunicação, associações, ONGs, entidades do setor produtivo, sindicatos e todo e qualquer contribuição sugerida pelos moradores. Uma permanente vigília.

Pensar fora da caixa do tradicionalismo e do poder imediato, firmar parcerias, apresentar projetos para captação de recursos serão exercícios permanentes, ter sensibilidade para corrigir rotas e melhor permitir o alcance dos resultados buscados pela gestão e pela comunidade. Esse é o exercício permanente a ser feito pelos gestores e que, em Itabuna, em particular, estamos observando na postura e liderança do prefeito Augusto Castro.

Rosivaldo Pinheiro é economista, especialista em Planejamento de Cidades (Uesc).

Itabuna vacinou mais de 117 mil pessoas com a primeira dose || Foto Pedro Augusto
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É a mais cosmopolita das cidades baianas. E não poderia ser diferente por ser uma cidade para onde convergiram pessoas de todas as nações, etnias e religiões, na mais perfeita harmonia.

Walmir Rosário

Nesta quarta-feira – 28 de julho – Itabuna completa 111 anos de emancipação político-administrativa e, mesmo maltratada que foi durante esse período de pandemia, comemora. Mas quem irá contrariá-la? Para uma cidade cosmopolita como Itabuna pouco importa a dificuldade sofrida, as intervenções desastrosas que tentaram frear o seu costumeiro desenvolvimento. Sabe superá-las.

Itabuna nasceu para brilhar! Se atualmente não nos mostra mais o espetáculo feérico com suas luzes de neon e acrílico nas fachadas das lojas da avenida do Cinquentenário, é porque se tornou mais discreta com o passar dos anos. Saudosistas – como eu – por certo gostariam de ver suas vitrines decoradas com a moda mais recente, exibindo com orgulho as cores de sua bandeira na ornamentação.

Isso deve ser coisa do passado! Ou não. Quem sabe ainda se recupera dos meses de fechamento, medidas tomadas para conter o temível vírus que ceifou muitas vidas nessa sua passagem desenfreada. Não é a primeira vez que Itabuna sofre um revés dessa magnitude e se recupera seguindo fielmente aquela letra do samba de Paulo Vanzolini: “Levanta sacode a poeira e dá a volta por cima”.

Se voltarmos um pouco na história, Itabuna – ainda distrito de Ilhéus – já possuía sua Associação Comercial, instituição atuante e que lutou bravamente para a transformação da vila em cidade, luta finalmente vitoriosa em 1910. Fundada em 1908, a Associação Comercial nasceu pioneira no Sul da Bahia e sua coirmã de Ilhéus foi criada apenas quatro anos depois – em novembro de 1912.

No comércio, o pioneirismo tomou o mesmo caminho pioneiro com o Clube de Diretores Lojistas – posteriormente Câmara de Dirigentes Lojistas – entidade fundada em 1963, seguindo o exemplo do Rio de Janeiro, São Paulo e Salvador. A entidade não se restringiu às promoções em datas importantes como Natal, Dia da Cidade, Dia das Mães, Dia dos Pais e inovou com os concursos de vitrines em todas as datas comemorativas.

As grandes lojas nacionais abriam suas filiais em Itabuna e se notabilizavam pelo volume de vendas e cada espaço da avenida do Cinquentenário era disputado pelas tradicionais redes varejistas, que “brigavam” em pé de igualdade com as lojas locais. Os lançamentos das badaladas grifes eram realizadas simultaneamente com as grandes capitais brasileiras. Os long plays nacionais e internacionais tocavam em nossas três emissoras de rádio no mesmo dia em que estreavam em Rio e São Paulo.

Não sei se o itabunense era e ainda o é exibido, mas dançava nos clubes e boates ao som de bandas de sucesso e cantores contratados a peso de ouro, mesmo tendo à disposição músicos de primeira qualidade na banda Lord (show, ritmos e hoje Lordão). Chegavam aos clubes em carrões do tipo Aero Willys, Simca Chambord, Esplanadas, Galaxy e LTD Laudau, Opalas, vendidos pelas concessionárias que ganhavam prêmios como campeões de venda em todo o Brasil.

Era a época de ouro do cacau, das enormes fazendas de gado, de nossas casas bancárias e bancos comerciais locais, que movimentavam a economia regional junto com as grandes exportadoras de cacau, todas sediadas em Itabuna. É verdade que sofremos bastante com a chegada da vassoura de bruxa, mas lembramos da expertise anterior de ultrapassar as barreiras com outras doenças que atacavam o cacau, inclusive a pior delas, a oscilação de preço comandada pelo mercado internacional.

O Itabunense gosta de trabalhar, da boa música e do bom futebol. Não esconde que passou alguns anos longe do sucesso nos gramados, e, aos poucos, ensaia o retorno. E não poderia ser diferente, até para homenagear os craques de nossa seleção amadora hexacampeã, bem como os atletas do Rio Banco, de Itabuna, que em 1920, ao marcar o primeiro gol contra o Ypiranga, de Ilhéus, em jogo não terminou. Os ilheenses declararam guerra e sequestraram até o “trem de ferro” que logo retornaria a Itabuna.

O Itabunense não se abate e muitas vezes reclama com altivez dos que maltratam a sua cidade, levando-os ao ostracismo político com a mesma intensidade que os distinguiu e os elegeu. E segue a vida. É justamente esse comportamento que faz com que a cidade consiga superar grande parte das dificuldades, transformando-as em pautas de interesse econômico e social, por meio da geração de emprego e renda.

E como lembrar é preciso, na última década do século passado (nem tão distante) a economia de Itabuna despencou, fruto da colaboração do poder público municipal, chegando a fechar quase todas concessionárias de veículos. Cinco anos depois, todas elas estavam de volta e realizando bons negócios, numa demonstração de sua vocação natural para o comércio, indústria e os serviços.

Itabuna é a cidade do primeiro shopping center, do grande polo da educação, do centro de excelência da saúde, do comércio e serviços automotivos, das indústrias, dos serviços econômicos, administrativos e contábeis e do direito. Como num passe de mágica, as dificuldades da pandemia fez surgir a indústria e comércio informal de alimentação, com todas as vantagens e conforto do delivery, sem que alguém tivesse qualquer formação ou treinamento formal.

É Itabuna o maior palco para os artistas da música, que se apresentam com frequência nas centenas de barzinhos noturnos espalhados no centro e nos diversos bairros. É Itabuna o point dos botecos especializados, onde o cliente tem cadeira cativa; das cervejas artesanais de qualidade, produzidas pelos amigos ou conhecidos do dia a dia, gente nossa que faz acontecer sem firulas.

É a mais cosmopolita das cidades baianas. E não poderia ser diferente por ser uma cidade para onde convergiram pessoas de todas as nações, etnias e religiões, na mais perfeita harmonia. O judeu é o maior amigo do árabe; o negro, o branco e o amarelo são simples cores de uma paleta ou aquarela para que os artistas expressem seus sentimentos. Existem os dissonantes, paciência, estes também fazem parte da natureza humana.

Walmir Rosário é radialista, jornalista e advogado.

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Quem é escritor? Quem é autor? Escritor e autor são sinônimos? O que é uma “boa literatura”? Existe isso mesmo?  Existe uma literatura do cacau? Regional? Há roteiro para se tornar um escritor? Há cânone na literatura? O que é isso mesmo?  Eis algumas das perguntas que não consigo responder, mas fico atento às discussões.

Efson Lima | efsonlima@gmail.com

Nada melhor para refletir sobre a escrita do que se deparar com o Dia Nacional do Escritor (25 de julho). Uma das grandes marcas da humanidade é a escrita. Não só por ter colocado a condição humana em um patamar elevado entre os seres vivos, mas  a prática da escrita permite o registro da trajetória humana, a evolução do planeta. A escrita é meio para que um emaranhado de palavras, ideias,  símbolos sejam estruturados. A escrita oferece sentido à própria existência da vida. A escrita é uma das faces do “projeto de desenvolvimento humano”.

Em “tempos modernos”, cada vez mais visual, por vezes, esquecemos que durante muito tempo os nossos principais meios comunicacionais foram a fala, a escrita, os gestos, os objetos… Agora, os satélites nos unem, nos globalizam e possibilitam  uma dimensão maior do fenômeno. Em três segundos, estamos conectados na aldeia global. O século XX foi pródigo de descobertas e invenções. O nacional também pode se tornar global.

O escritor Jorge Amado, talvez  um dos primeiros escritores a ganhar a vida com o dinheiro de obra literária no Brasil, indiretamente, colocou o termo escritor no catálogo de profissões. A minha geração conheceu escolas de escritores, oficinas e faculdade para formar profissionais da área.  O escritor nascido em Ferradas, na cidade de Itabuna, foi internacionalizado.

Paulo Coelho, o maior dos escritores nacionais em volume de vendas, foi uma das caras do Brasil ao lado de sua mulher na candidatura do Rio de Janeiro para sediar as Olímpiadas em 2016. Lembro-me que muito se discutiu se suas obras eram literatura ou não. A Academia Brasileira de Letras virava a cara. As massas de leitores sinalizaram que outros caminhos são possíveis.

No mundo da escrita algumas discussões surgem. Quem é escritor? Quem é autor? Escritor e autor são sinônimos? O que é uma “boa literatura”? Existe isso mesmo?  Existe uma literatura do cacau? Regional? Há roteiro para se tornar um escritor? Há cânone na literatura? O que é isso mesmo?  Eis algumas das perguntas que não consigo responder, mas fico atento às discussões.

Deixo essas provocações para Silmara Oliveira, professora especializada em literatura; Pawlo Cidade com quase 20 livros publicados, ontem relançou  o seu livro O Tesouro Perdido das Terras do Sem-fim, leitura que estou a fazer; Luh Oliveira, mestra na área de letras e poeta;  pediria meu mago Ramayana Varges, um intelectual no sentido pleno do termo.  Poderia também convidar Igor Luiz, das terras de Coaraci/ Ibirapitanga; Sheila Shew, a artista – produtora, de Buerarema/Itabuna; Tácio Dê, com suas Tertúlias, às 18:51 horas. Isso mesmo, no Instagram, repito: 18:51 horas; Walmir do Carmo, que além da força de sua escrita, confere ainda maior força  aos seus poemas quando declama. Tive o prazer de ouvi-lo ontem, fisicamente, dia 24/07, no ato em defesa da democracia e da luta antifascista. Ainda,  posso convidar Aurora Souza para dar continuidade a lista. Fica faltando outra gama de gente boa, mas invocando o sagrado, temos o professor Ruy Póvoas que nos amanhece com sua voz radiante às sextas-feiras, mestre do material e do espiritual, uma instituição para além das terras sul-baianas. Mestre de gerações.

Li pela primeira vez, no Diário de Ilhéus, academicamente exigiria um apud, conforme artigo da professora Maria Luiza Heine, que Adonias Filho, certa vez, profetizou que, além de cacau, o sul da Bahia faz brotar escritores. Particularmente,  tenho constatado esse fenômeno no Flisba, Bardos Baianos Litoral Sul, Costa do Descobrimento e Extremo Sul. As notícias chegam.

É verdade, gente! Hoje é o dia Nacional do Escritor, dia 25 de julho. Mas não falarei nada disso. Não falarei também do fenômeno da escrita nas redes sociais. Desculpa!

Efson Lima é professor universitário, advogado e doutor em Direito pela UFBA.

O presidente Jair Messias Bolsonaro e sua frase mais sincera: "Eu sou do Centrão"
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Na metáfora batida do campo político como tabuleiro de xadrez, Bolsonaro é aquele peão dobrado no canto, que, ignorado pela estratégia adversária, avança até a casa de promoção: a Presidência da República.

Thiago Dias

O samba Reunião de Bacana, composto por Ari Alves de Souza e Bebeto Di São João, ganhou uma famosa paródia do general Augusto Heleno, em 2018, quando o deputado Jair Bolsonaro vendia, com sucesso, a imagem de que era um político antissistema.

Naqueles tempos, com boa parte da classe política manchada pelas revelações da Operação Lava Jato, interessava ao candidato dizer que não fazia parte do jogo, mesmo estando nele há três décadas. Com o senso de humor e a afinação musical dos generais, Heleno cantou: “Se gritar ‘Pega Centrão!’, não fica um, meu irmão”.

Na boca de um general, a paródia trazia a mensagem de que Bolsonaro não governaria com o toma lá da cá do presidencialismo de coalizão. Afinal, tinha ao seu lado os melhores quadros políticos do país, os militares, a exemplo do general Eduardo Pazuello, especialista em logística em tempos de crise. Sem falar no ilustrado Posto Ipiranga, Paulo Guedes, fiador de Jair nos negócios com o mercado. 

Com esse time de notáveis, quem precisa do Centrão? Candidatos pretensamente outsiders não precisam, mas presidentes fracos, certamente.

Bolsonaro sabe disso e se pôs a listar as legendas pelas quais passou na sua longa estadia na Câmara dos Deputados. “Centrão é um nome pejorativo. Eu sou do Centrão, eu fui do PP metade do meu tempo, fui do PTB, fui do então PFL. No passado, integrei siglas que foram extintas, como PRB, PPB. O PP, lá atrás, foi extinto. Depois, nasceu novamente da fusão do PDS com o PPB, se não me engano”, discorreu o presidente, nesta quinta-feira (22), em entrevista à Rádio Banda B de Curitiba.

Esse foi um dos raros momentos de explanação sincera de Bolsonaro em público. Quando disse “Eu sou do Centrão”, afirmou duas verdades. Primeiro, a de que o antigo deputado falastrão sempre fez parte do clube ironizado por um Heleno que não existe mais. Mesmo distante do centro das decisões sobre o destino do país, tinha lá seus cargos de assessoria para rachar com amigos, apartamento funcional para comer gente, diárias, passagens de avião e um belo salário.

Na metáfora batida do campo político como tabuleiro de xadrez, Bolsonaro é aquele peão dobrado no canto, que, ignorado pela estratégia adversária, avança até a casa de promoção: a Presidência da República.

A segunda verdade é que Bolsonaro é do Centrão não só por sempre ter estado lá, como membro insignificante do clube, mas também porque passou aos antigos correligionários o comando do seu governo. Na Casa Civil, caberá ao futuro ministro Ciro Nogueira (PP-PI) administrar o orçamento de R$ 12 bilhões para emendas parlamentares de autoria secreta. Enquanto isso, na Câmara, Arthur Lira (PP-AL) continua sentado numa pilha de petições de impeachment.

Thiago Dias é repórter e comentarista do PIMENTA. Este comentário não representa, necessariamente, a opinião do site.

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Precisamos trabalhar para evitar que os mais vulneráveis, deixados à própria sorte, acabem presos em permanente dificuldade, sem perspectivas que os permitam acessar bens e serviços disponíveis no sistema.

Rosivaldo Pinheiro

A meritocracia, tão comentada e defendida por setores da sociedade, acaba sendo uma espécie de selo de controle para favorecer indivíduos ligados historicamente à classe dominante. Esse mecanismo, disfarçado de preocupação pela busca por excelência, esconde uma espécie de filtro social em favor das classes sociais mais abastadas, reduzindo as chances dos que compõem as classes menos estruturadas economicamente. O discurso meritocrático acaba por tratar indivíduos em posições socioeconômicas desiguais de forma igual.

As políticas sociais visam, justamente, reduzir as distâncias existentes entre as categorias sociais que compõem um país, estado e cidade, possibilitando, por meio delas, oportunidades para os mais vulneráveis, para que possam ter acesso pleno ao saber e consigam melhorar sua condição socioeconômica.

Se deixados à própria sorte, indivíduos com menor condição econômica e social estarão presos ao “ciclo da miséria” e pouquíssimas chances terão para competir com aqueles que nasceram em famílias pertencentes aos grupos com melhores níveis de renda e acesso às estruturas do conhecimento, alimentação, educação, esporte, lazer… Só através das políticas públicas os mais vulneráveis conseguirão alcançar mudanças na sua condição econômica e social.

Se não tivermos essa visão, acabaremos por construir sociedades segmentadas com os setores dominantes historicamente sempre ocupando os postos de comando, restando para os demais os chamados “chãos de fábrica”.

A defesa da meritocracia não resolverá os nossos desafios enquanto nação, exigirá a estruturação de um conjunto de investimentos que possibilite oportunidades para todos. Para isso, implantar políticas públicas que busquem a produção de indivíduos capazes de ter visão crítica, empreender e romper com o “ciclo da miséria” é algo urgente. Precisamos trabalhar para evitar que os mais vulneráveis, deixados à própria sorte, acabem presos em permanente dificuldade, sem perspectivas que os permitam acessar bens e serviços disponíveis no sistema.

Rosivaldo Pinheiro é economista e especialista em Planejamento de Cidades (Uesc).

Outdoor da Prefeitura de Ilhéus anuncia nova maternidade: mudança brusca na gestão do hospital, que passará ao Estado, expõe falta de planejamento do governo municipal
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Enquanto o Estado construiu e equipou o hospital, a Prefeitura demorou dois anos para descobrir que não tem condições de administrá-lo.

Thiago Dias

Há um descompasso no ritmo de trabalho dos governos estadual e municipal, que se expôs de modo indisfarçável nesta terça-feira (6), quando a Secretaria de Saúde do Estado da Bahia (Sesab) confirmou que assumiu a gestão direta da nova maternidade de Ilhéus no lugar da Prefeitura. Como quem reclama pressa, a Sesab explicou que a decisão garante a abertura do hospital “com maior celeridade”, conforme trecho de nota publicada hoje.

No texto, a Sesab relembra que o acordo para que o município assumisse a gestão do Hospital Materno-infantil foi firmado em 2019. No entanto, segundo a nota, a análise do impacto dos custos de operação da maternidade sobre o orçamento municipal mostrou que a Prefeitura teria muita dificuldade para assumir a administração. Por isso, estado e município decidiram desfazer o acordo.

Porém, até a semana passada, quando foi frustrada a expectativa da população de receber o novo equipamento no aniversário da cidade, a reviravolta anunciada hoje ainda não estava no discurso dos gestores locais.

A Prefeitura chegou a destacar a maternidade num outdoor que omitiu o autor da obra, o governo estadual. No último dia 29, o secretário de Saúde Geraldo Magela disse a este PIMENTA que o município pretendia concluir neste mês o processo licitatório para terceirizar a administração da unidade. Tudo mudou numa semana.

Confirmada a mudança brusca de planos e diante do argumento financeiro suscitado pela Sesab, impõe-se a pergunta: a Prefeitura só descobriu agora (quase dois anos após o acordo) que os custos de operação da maternidade não cabem no seu orçamento? Se essa é mesmo uma descoberta tardia, faltou o mínimo de planejamento à gestão municipal.

A justificativa orçamentária, contudo, parece mais uma saída diplomática para atenuar o impacto político do anúncio da Sesab, que abala a credibilidade do governo municipal por contraste: enquanto o Estado construiu e equipou o hospital, a Prefeitura demorou dois anos para descobrir que não tem condições de administrá-lo. Descompasso desse tamanho não cabe num outdoor, e o governador Rui Costa(PT) tem a alcunha de correria a zelar.

Thiago Dias é repórter e comentarista do PIMENTA. Este comentário não representa, necessariamente, a opinião do blog.

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Sigamos sem culpa, com a certeza de que precisaremos plantar o maior jardim possível de girassóis. Sejamos cada um de nós um girassol!

Efson Lima

Quis o destino que as diversas circunstâncias impusessem desafios ao nosso tempo. Não bastava a Pandemia de Covid-19, temos as mazelas humanas da gestão no plano federal. O processo eleitoral de 2018 se mostrou turvo. Parecia que remava contra a ordem, tudo indicava para a escolha do gestor que está a (não) gerir a República Federativa do Brasil. Muito já se discutiu, inclusive a necessidade de se examiná-lo mentalmente. Deixemos de lado e sigamos, sem deixar de apurar as suas responsabilidades.

Salvo melhor juízo, não podemos tratar uma pessoa que desdenha do uso da máscara, que incentiva o uso de medicamentos sem eficácia comprovada para a Covid-19 como se fosse uma pessoa que sofra de algum transtorno mental. Estaríamos sendo coniventes. Não obstante, o não-gestor faz questão de colaborar com algumas aglomerações. Peço licença para abusar da paciência de meu leitor, pois preciso informá-lo que estou a dizer de uma pessoa comum, visto que o nosso presidente faz tudo conforme recomenda a ciência…

Com o anunciar da pandemia e o nosso recolhimento em casa, comentou-se que as artes entrariam em um processo de profundo avivamento. Melhores livros seriam produzidos, os pesquisadores responderiam nossos anseios, as músicas seriam melhores. As telas seriam pintadas como nunca. A filosofia se encarregaria de nos oferecer um alento.  Novos talentos surgiriam.

Depois de algum tempo, temos um contingente jamais visto de desempregados; nunca fizemos tantas vaquinhas. A solidariedade foi testada e colocada à prova. Estamos resistindo, ajudando… Mas por outro lado, não conseguimos contabilizar todos os nossos mortos de forma fidedigna. Não temos tempo de enfrentar o luto. Não conseguimos ver o rosto daquele que partiu. Os protocolos são rígidos.

Mesmo assim, em que pese estarmos desgovernados, à deriva, sem liderança para enfrentar o inimigo invisível, não podemos deixar de semear esperança. Colocar a máscara no rosto, usar o álcool a 70% e contar com a vacina em cada ombro. Torcendo sempre para que nenhuma dose tenha a capacidade de nos transformar em jacaré.

O tempo pode estar sombrio, mas luzes não nos colocaram nas trevas. A sociedade brasileira depois de uma caminhada tem percebido que precisa ir em outra direção. A sociedade tem percebido que falas racistas, lgbtfóbicas, o não comprometimento com o meio ambiente, o estímulo à violência por meio da defesa pessoal e do porte de arma não colaboram com a democracia, pelo contrário, sinaliza o comportamento de pessoas descompromissadas com o humano.

Falta empatia em alguns, mas temos percebido que sobra empatia na maior parte dos brasileiros. Sigamos! Amanhã haverá de ser outro dia e esperamos que pessoas comuns, como eu, sejam responsáveis. Sigamos sem culpa, com a certeza de que precisaremos plantar o maior jardim possível de girassóis. Sejamos cada um de nós um girassol!

Efson Lima é professor universitário, advogado, professor e mestre e doutor em Direito/UFBA.

Neste recorte de foto do memorialista José Nazal, o Obelisco de Dois de Julho disputa atenção com a nova ponte de Ilhéus
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Alheio à história, o mato cresce aos pés do obelisco, e o monumento fálico, com sua indiferença de pedra, ignora tudo ao redor.

Thiago Dias

Foi no seu primeiro governo (1924-1927) que o intendente Mário Pessoa construiu o Obelisco Dois de Julho. Erguido diante do mar, quando o porto de Ilhéus ainda era na foz do rio Cachoeira, o monumento homenageia a luta pela independência do Brasil no território baiano, cujo marco histórico é o dia 2 de julho de 1823. Dois sítios históricos próximos, os morros de Pernambuco e do Outeiro, de onde canhões miravam a boca da barra, reforçam no obelisco o sentido de homenagem a uma conquista bélica.

Quase cem anos nos separam da época da sua construção. A paisagem em volta mudou muito. Encravado num mirante, cujas fundações ainda eram açoitadas por ondas fortes no início do século 20, o obelisco, por não ter olhos, não viu a areia se acumulando à sua frente, de forma incessante, após a construção do Porto do Malhado, concluída em 1971.

Também não viu o surgimento da nova ponte. Faz um ano que os carros cruzam as pistas ali perto, mas o monumento não sabe – talvez por causa do limo dos anos encobrindo os olhos que ele não tem.

O limo, no entanto, foi notado em artigo da professora Janille da Costa Pinto, publicado em 2020 na Revista Estudos, do Instituto Anísio Teixeira (IAT), sob o título A Princesinha do Sul da Bahia: Ilhéus e sua relação com o 02 de Julho.

Uma das conclusões da autora, mestre em Educação, é a de que a participação de Ilhéus na luta pela independência do país deve ser divulgada ao mundo, inclusive nas escolas da cidade, fazendo valer a Lei Orgânica do Município, que determina a inclusão da história local no nosso currículo escolar. A conclusão parte da premissa de que conhecer os episódios históricos e símbolos da cidade é um meio de aprofundamento dos vínculos das pessoas com seu território, algo evidenciado em cada ato político do povo tupinambá, por exemplo, que faz da luta pela demarcação da terra seu Dois de Julho diário.

Por fim, destaco uma das questões apresentadas no artigo de Janille, objeto de informações controversas, que trata do envio de homens recrutados nas roças ilheenses para a luta da independência em Cachoeira, fato sobre o qual não se tem registro no Arquivo Público do Estado, conforme atesta João da Silva Campos no livro Crônica da Capitania de São Jorge dos Ilhéus. Eis um bom tema a ser investigado para um novo capítulo sobre a contribuição ilheense para a libertação do país.

Enquanto isso, alheio à história, o mato cresce aos pés do obelisco, e o monumento fálico, com sua indiferença de pedra, ignora tudo ao redor.

Thiago Dias é repórter e comentarista do PIMENTA.

Ciro Gomes | Fonte Flow Podcast
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O pedetista denuncia a perversidade do nosso sistema tributário. No Brasil, mais de 50% do dinheiro que o Estado recolhe vem dos impostos que incidem sobre o consumo, a chamada tributação indireta e regressiva.

Thiago Dias

O presidenciável Ciro Gomes (PDT) sabe que precisa ser visto e ouvido pelo maior número possível de eleitores para ter chances de chegar ao segundo turno nas eleições do próximo ano. Por isso, intensificou o ritmo das aparições na internet. Neste mês, participou do programa do humorista Rafinha Bastos e do Flow Podcast. As duas entrevistas somam mais de 6 horas  e 2,5 milhões de visualizações.

Na tentativa de disputar votos do antipetismo com o presidente Jair Bolsonaro (sem partido), ele investe boa parte das suas falas em críticas aos governos dos ex-presidentes Lula e Dilma. Ciro bate forte na tecla da corrupção de próceres petistas, mas sua maior contribuição ao debate político vai além da necessária defesa da moralidade republicana. Gosta de suscitar a discussão de temas praticamente ignorados pelas principais lideranças do PT na gestão federal, a exemplo da reforma tributária.

O pedetista denuncia a perversidade do nosso sistema tributário. No Brasil, mais de 50% do dinheiro que o Estado recolhe vem dos impostos que incidem sobre o consumo, a chamada tributação indireta e regressiva.

Indireta é a tributação que não discrimina o contribuinte, ou seja, o valor do tributo não leva em consideração o poder aquisitivo de quem o consome. Já o imposto direto incide sobre o patrimônio e a renda, alcançando os contribuintes de forma específica e na medida da sua capacidade contributiva.

Por arrecadar 50% dos impostos com a tributação de bens consumíveis e serviços, o fisco brasileiro impõe gasto proporcional maior a quem tem menos dinheiro. Daí seu caráter regressivo.

Dito de outro modo, proporcionalmente, o custo do imposto na composição do preço da comida, por exemplo, é maior para as famílias pobres do que para as classes sociais abastadas. Essa lógica vale para tudo o que se consome nos diferentes estratos da sociedade, do feijão à gasolina, passando pela cerveja e a energia elétrica.

O Brasil pleiteia assento na Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico. Pois bem, os países da OCDE têm 2/3 da sua receita advinda da tributação direta, sobre o patrimônio e a renda.

Nesta sexta-feira (25), o ministro da Economia Paulo Guedes formalizou o anúncio de que o governo vai aumentar de R$ 1.900,00 para R$ 2.500,00 o piso de isenção do imposto de renda para pessoas físicas. Foi Ciro Gomes quem lembrou que, em 2018, Guedes prometeu elevar a isenção para rendas mensais de até R$ 5.000,00. Se continuar no cargo de Posto Ipiranga da República até outubro de 2022, o economista que leu John Maynard Keynes “três vezes no original” vai ter a oportunidade de repetir a promessa.

Enquanto isso, cabe a Ciro aumentar o alcance das propostas que reuniu no seu livro mais recente, Projeto Nacional: o dever da esperança, que não poderia ter subtítulo mais preciso nesta “página infeliz da nossa história”.

Thiago Dias é repórter e comentarista do PIMENTA.

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Ninguém sabe melhor do seu negócio, produto ou trabalho do que você mesmo, e é por isso que precisa estar muito ciente do que produz e do trabalho empregado para elaborá-lo antes de sentar à mesa de negociação.

Mariana Ferreira | marianaferreirajornalista@gmail.com

Você já se sentou com um investidor ou cliente que tentou reduzir a credibilidade do seu produto para controlar a mesa de negociação? Provavelmente, sim. Embora muitas vezes não percebida, essa é uma tática muito comum, de se construir a sensação de “desagrado” com o objetivo de baixar o preço que você está cobrando ou melhorar a margem de ganho de quem está investindo. Vale ressaltar que essa estratégia pode acontecer em todo espaço de negociação em que se disputa algum tipo de poder e influência.

O fato é que ninguém sabe melhor do seu negócio, produto ou trabalho do que você mesmo, e é por isso que precisa estar muito ciente do que produz e do trabalho empregado para elaborá-lo antes de sentar à mesa de negociação. Suas potencialidades, qualidades e tudo mais embutido, as competências e capacidades, suas conquistas e ajustes de rotas. Enfim, todo o know how alcançado nesse processo. Tudo isso está agregado no valor do seu produto, mesmo que no nosso país acabe sendo uma regra desvalorizar esse capital agregado para maximização do lucro, o que afeta diretamente a autoestima do brasileiro.

Você pode estar negociando com o presidente da República – não necessariamente Bolsonaro, pois sabemos que ele não tem lá essas vontades ou capacidade de dialogar (eu sei, não perco a oportunidade, mas é que é impossível você ser razoável e se sentir confortável com as atitudes ignóbeis dele). Continuando… Você pode estar dialogando com a autoridade máxima do país ou com alguém que você admira, mas se você estiver indo encontrá-lo para uma negociação, você não pode aceitar as afirmações construídas como tática de barganha e, por causa disso, dizer amém a tudo por medo de desagradá-lo (temos disso também, é aquela história da autoestima). Se a sua mente não estiver preparada, é isso o que acontecerá e você verá seu valor ser depreciado. Você não será visto em pé de igualdade, mas como inferior. Será subestimado juntamente com o seu produto, já que você tem potencial, tem um produto diferenciado, mas não soube defendê-lo.

É sua obrigação saber seus pontos fortes e também possíveis debilidades, demonstrando objetivamente o quanto você conhece sobre seu produto/projeto, o quanto do seu esforço e suor estão empregados e impregnados nele, bem como a sua utilidade e diferenciação dos demais concorrentes. Não deixe esses pontos sem respostas. Lembre-se que temos um país com ambiente hostil para empreender, que estamos vivendo um recorde de desempregados – 14,4 milhões – e temos um salário mínimo que não acompanha a alta dos preços nos supermercados, nas contas, na moradia e no combustível. Esse conjunto faz do Brasil o segundo país no ranking do índice de mal-estar entre 38 países (levantamento divulgado no sábado, 19, pelo pesquisador Daniel Duque, do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas).

Então, informe, argumente, proponha, estude, aprenda, ouça, esclareça, mas não se cale diante do que não está completamente calçado na verdade, diante do pensamento e do argumento simplistas, desprovidos do conhecimento prático. Tenha humildade, mas não seja omisso. Não vale a pena. Defenda o que é unicamente seu, fale o que é preciso ser dito e da melhor forma possível, afinal, boa parte do que compreendemos de uma mensagem se baseia no tom de voz e na linguagem corporal, para além das palavras que são ditas. Tenha identidade e terá autoridade. Tenha autoridade e terá muito mais poder de negociação, sem ser presa fácil nessa prática predatória.

Mariana Ferreira é comunicóloga.

"Longe do Cerrado onde Lázaro se esconde da polícia, a imagem do "maníaco baiano" é a do espetáculo que furou o tédio asfaltado das mortes silenciosas da pandemia"
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Talvez o ódio seja o único sentimento capaz de dar dimensão coletiva à tragédia brasileira, ao menos, enquanto durar a caçada.

Thiago Dias

Acordei com a imagem de Lázaro na cabeça. Ela estava na tevê também, em memes nas redes e numa mensagem viral defendendo o porte de arma para todo mundo.

Aqui, no litoral do Brasil, longe do Cerrado onde Lázaro se esconde da polícia, a imagem do “maníaco baiano” – expressão usada num telejornal matutino – é a do espetáculo que furou o tédio asfaltado das mortes silenciosas da pandemia, que só comovem o círculo mais próximo de quem partiu. E são tantas as partidas que nos falta tempo para chorar todas.

Somos um país de maricas com lágrimas secas, mas um homem perigoso e armado, que mata pessoas a sangue frio e talvez seja louco, finalmente nos comove. Peguem-no! Deem ao Lázaro da Pátria o fim que até a poesia fatalista dos anjos desconhece.

Afinal, parafraseando Rogerinho do Ingá, talvez o ódio seja o único sentimento capaz de dar dimensão coletiva à tragédia brasileira, ao menos, enquanto durar a caçada.

Thiago Dias é repórter e comentarista do PIMENTA.