Ilheense, Magno Lavigne é ex-secretário Nacional de Qualificação e Fomento à Geração de Emprego e Renda do Ministério do Trabalho e Emprego
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O incidente envolvendo a aeronave de ACM Neto despertou preocupação em toda a Bahia. Independentemente de posicionamentos políticos, ninguém que compreende o valor da existência pode permanecer indiferente diante de uma situação que coloca vidas em risco.

 

Magno Lavigne

A pré-campanha segue seu curso. As estradas da Bahia continuam sendo percorridas, as agendas se multiplicam, lideranças são ouvidas, comunidades apresentam suas demandas e propostas vão sendo construídas para o futuro do nosso estado. É assim que a democracia se fortalece: no diálogo, na escuta e na busca por caminhos que possam melhorar a vida das pessoas.

Mas, em meio à intensidade da política e às disputas naturais de ideias, existem momentos que nos convidam a uma reflexão maior. Momentos que nos lembram que, antes de qualquer cargo, partido, ideologia ou projeto de poder, somos seres humanos. Somos irmãos na caminhada da vida.

O incidente envolvendo a aeronave de ACM Neto despertou preocupação em toda a Bahia. Independentemente de posicionamentos políticos, ninguém que compreende o valor da existência pode permanecer indiferente diante de uma situação que coloca vidas em risco. Nessas horas, não existem adversários. Existem pessoas. Existem famílias. Existem sonhos que merecem continuar sendo vividos.

Por isso, ganha relevância o gesto de solidariedade.

A política pode e deve ser um espaço de divergências. O debate é saudável. A diferença de opiniões faz parte da construção democrática. Porém, jamais podemos permitir que as discordâncias nos afastem daquilo que nos torna verdadeiramente humanos: a capacidade de amar, respeitar e cuidar uns dos outros.

A vida é um dom de Deus. É o bem mais precioso que possuímos. Nenhuma disputa é maior do que ela. Nenhuma vitória política tem mais valor do que um abraço, uma palavra sincera, um gesto de empatia ou uma oração feita com fé pelo próximo.

Vivemos tempos em que a solidariedade precisa voltar a ocupar espaço em nossos corações. Precisamos olhar para o outro com mais compreensão, mais respeito e mais amor. Afinal, o ensinamento deixado por Cristo continua sendo um dos maiores desafios da humanidade: amar ao próximo como a si mesmo.

Esse mandamento não faz distinção de posição social, crença, partido ou condição. Ele nos convida a reconhecer a dignidade de cada ser humano e a compreender que todos estamos sujeitos às mesmas fragilidades, às mesmas lutas e aos mesmos desafios que a vida apresenta.

Que possamos seguir firmes em nossos objetivos, sem perder a sensibilidade. Que possamos defender nossas convicções sem abrir mão da compaixão. Que possamos disputar ideias sem esquecer que a vida vale mais do que qualquer divergência.

E que Deus, em Sua infinita misericórdia, continue abençoando a Bahia, protegendo todos aqueles que percorrem as estradas e os voos da vida, iluminando nossos caminhos e nos livrando de todo mal.

Porque, no final de tudo, o que permanece não são as disputas. O que permanece são os gestos de amor, de cuidado, de sinceridade e de respeito à vida.

Que Deus nos abençoe e nos guarde. Hoje e sempre.

Magno Lavigne é ex-secretário Nacional de Qualificação e Fomento à Geração de Emprego e Renda do Ministério do Trabalho e Emprego e pré-candidato a deputado estadual.

Alcides Kruschewsky foi vereador e secretário municipal em Ilhéus || Foto Mary Melgaço
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Nesta terça-feira (2) nos despediremos do amigo Alcides no Cemitério da Vitória, no Alto Teresópolis, de onde descortinará as beleza de Ilhéus e sempre estará atento aos acontecimentos da cidade.

 

Walmir Rosário

Na manhã desta segunda-feira (1º) nos chega a triste informação de que Alcides Kruschewsky teria nos deixado. Ele se encontrava em Salvador onde realizava tratamento de saúde (um câncer no duto biliar). Aos 66 anos tocava sua vida como empreendedor e presidente da Associação Ilheense de Turismo (Atil), lutando pelo desenvolvimento de Ilhéus.

Foi embora antes do combinado, deixando sonhos ainda por se concretizar. Ex-funcionário do Banco do Brasil, deixou a instituição para tocar uma empresa na área de finanças e fincar os pés em Ilhéus, tocar projetos na área de turismo, na Atil, e mais próximo da política, com a proposta de instrumentalizar projetos para desenvolver sua querida Ilhéus.

Foi vereador por dois mandatos, secretário na área de Turismo, de Governo e Comunicação Social, e administrou a Estância Hidromineral de Olivença, seu verdadeiro xodó. Alcides era vereador quando me convidou para fazer assessoria do seu mandato. Sua cabeça era uma verdadeira “fábrica” de ideias e projetos, muitos dos quais conseguiu que fossem implantados.

Dia e noite pensava política, em fazer Ilhéus se desenvolver com a indústria turística e afins, se cercando de pessoas competentes e com o mesmo pensamento e disposição para pensar e fazer Ilhéus acontecer. Contatos importantes nas esferas federal, estadual e municipal, do seu partido e outras agremiações políticas fortaleciam seus pleitos.

Secretário de Governo na administração de Newton Lima volta e me convida para cuidar da comunicação municipal, substituindo um dos grandes jornalistas de Ilhéus e meu amigo, Maurício Maron, de mudança para Angola. Deixei a Prefeitura de Itabuna e me incorporei ao seu time e participamos de muitas conquistas, apesar do momento político inquieto que vivia a cidade.

Uma pessoa bem educada, melhor dizendo, um gentleman. Na equipe, como Chefe do Gabinete do Prefeito, José Nazal, tocando projetos Gerson Marques e dezenas de pessoas altamente qualificadas, como Edmilson Moura. Quando havia algum ruído no andamento dos projetos, Alcides Kruschewsky, com toda sua paciência, ouvia os envolvidos, saneava as divergências e dificuldades.

Pessoa de fino trato como citei acima, sabia relevar a resolver pendências de qualquer magnitude, também era um perfeito anfitrião. Em sua casa de Olivença recebia amigos tantos e me lembro da última vez que participei de um almoço, ao lado de amigos como o jornalista José Adervan de Oliveira e o empresário Fred Gedeon.

Com minha mudança para Canavieiras, nos víamos – ao vivo – muito raramente, embora trocássemos mensagens em redes sociais. Na sua posse na Atil nos vimos pela última vez e volta e meia trocávamos ideias sobre o desenvolvimento de Ilhéus, uma verdadeira obsessão para Alcides, que transformava seus encontros numa tempestade de ideias pró Ilhéus.

Nesta terça-feira (2) nos despediremos do amigo Alcides no Cemitério da Vitória, no Alto Teresópolis, de onde descortinará as beleza de Ilhéus e sempre estará atento aos acontecimentos da cidade. Com certeza ficará pertinho do nosso Deus Criador, e pronto para reivindicar uma Ilhéus mais justa para o seu povo, exatamente como ele pregava.

Até breve, Alcides!

Walmir Rosário é radialista, jornalista e advogado, autor de vários livros, a exemplo de O Berimbau – Valhacouto de boêmios, disponível na Amazon.

Fernando Maron entrevista o casal de filósofos franceses Simone de Beauvoir e Jean-Paul Sartre || Foto Diário de Itabuna
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A impressão de Fernando Maron é que ele não gostava de ser perguntado sobre o Existencialismo, principalmente quando era citado como o criador, pai da doutrina, embora admita ter sido um propulsor, quiçá um inovador.

 

Walmir Rosário

 

 

 

 

Certamente o dia 20 de agosto de 1960, um sábado, entrou para a história da radiofonia de Itabuna, especialmente para a Rádio Clube de Itabuna, ao entrevistar os filósofos franceses Jean-Paul Sartre e Simone Beauvoir. Eles vieram a Itabuna ciceroneado pelo escritor itabunense Jorge Amado e sua esposa, Zélia Gattai.

O interesse maior da ilustre comitiva era a lavoura cacaueira, como era produzido o cacau e em que condições viviam seus trabalhadores. Afinal, essa era a tônica dos romances de autoria do escritor Jorge Amado – incentivado pelo Partido Comunista – e que ganhou o mundo. Na região cacaueira visitaram duas fazendas, a Progresso em Itabuna, outra menor, de Wilson Rosa, em Barro Preto. Em Ilhéus conheceram o porto antigo e o do Malhado, em construção.

Hospedados no Lord Hotel, em Itabuna, que regurgitava de intelectuais, concederam autógrafos e entrevistas para o Diário de Itabuna e Rádio Clube, ambos de Ottoni Silva e Zildo Guimarães. Raras vezes Ilhéus e Itabuna tiveram a oportunidade de registrar acontecimento de significativa importância, com duas personalidades da filosofia – Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir – e Jorge Amado, da literatura.

Para entrevistar as personalidades francesas a Rádio Clube se valeu do amigo e advogado Fernando Maron, que dominava o idioma dos filósofos. De pronto compareceu Simone de Beauvoir, que teceu impressões sobre o que tinha observado nos oito dias de Brasil. Ela achava o país interessante por causa do esforço de desenvolvimento, além de ser belo e fascinante.

Simone, a autora do “Segundo Sexo”, confessou conhecer a região por meio dos livros de Jorge Amado, daí ter uma ideia da região cacaueira e estavam interessados em poder apreciar de perto as plantações de cacau. Na sua visão era uma terra em desenvolvimento, numa projeção de velhas tradições, de uma velha cultura, mas visando métodos muito mais modernos, o que considerou interessante.

Assim que apareceu para a entrevista, Jean-Paul Sartre impressionou Fernando Maron, o entrevistador. Para ele, o filósofo era de baixa estatura, olhar do tipo Jânio Quadros, porém mais interessante, mais firme, mais profundo e repousante, como a espelhar um misto de bondade, saber e autodeterminação. Sartre, em sua quase humildade, dá-nos a impressão de um tímido. Mas essa falsa impressão, logo se anula. “Não diminui, não prejudica ou sequer lhe afeta a marcante personalidade”, descreveu.

E continua Fernando Maron a descrever o famoso representante do pensamento existencialista como de uma simplicidade cativante. “Como todo o verdadeiro sábio, parece-nos não ter a preocupação estudada e artificial de impressionar. Jean-Paul Sartre parece dizer-nos eu sou como sou”. E como não poderia deixar de ser, Maron questiona o motivo da vinda à região.

Sartre disse que sempre foi impressionado pelo Brasil, por ser o mais importante da América do Sul e o mais variado, com problemas mais complexos. Para ele o país é um verdadeiro mundo em comparação com os vizinhos, e são essas contradições que fazem do Brasil um país tão cativante, e a região cacaueira é um exemplo, e aqui confirmou as conversas que sempre tinha com Jorge Amado.

Ao analisar o homem propriamente brasileiro, disse que lhe parecia haver uma espécie de acordo imediato entre brasileiros e franceses, afinidades, ou identidade de pontos de vista. “Não quero dizer que sejamos sempre da mesma opinião, e sim que estamos em pé de igualdade”. Em relação a Cuba disse ter a impressão que os problemas são diferentes do Brasil, embora sejam urgentes, e que a revolução cubana resolveu perfeitamente.

A impressão de Fernando Maron é que ele não gostava de ser perguntado sobre o Existencialismo, principalmente quando era citado como o criador, pai da doutrina, embora admita ter sido um propulsor, quiçá um inovador. E a pergunta foi emendada pela professora Litza Câmera, sobre o pensamento e quanto ao futuro do Existencialismo.

Primeiramente, disse Sartre, é preciso que se diga de uma vez por todas: sou um entre os filósofos da Existência. A filosofia da Existência data de 150 anos (hoje 216 anos) e foi Kirkegaard quem primeiro tratou do problema da Existência, e desde então houve alemão como Jaspers; franceses a exemplo de Gabriel Marcel; houve Heidegger, um mundo de gente.

Sartre diz que quando vê o desenvolvimento do Existencialismo não pode considerar tal fato como sendo alguma coisa que tenha vindo dos livros que escreveu, mas simplesmente como um grande fenômeno social. Posso dizer que Jaspers é um existencialista cristão e tem algo de religioso; eu sou um existencialista identificado pela doutrina marxista, com visões diferentes.

Walmir Rosário é radialista, jornalista e advogado, autor de vários livros, a exemplo de O Berimbau – Valhacouto de boêmios, disponível na Amazon.

O providencial descansa barriga de janela || Foto Reprodução
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Como não sou afeito aos grandes contrastes, vou mudando meu padrão de beleza estética por uma protuberância menor, sem deixar de apreciar o amargor do lúpulo, se é que ainda entra na composição da maioria das cervejas.

 

Walmir Rosário

Confesso que desde menino já apreciava uma barriga volumosa, daquelas que todos os bons bebedores de cerveja costumam exibir. Relevante, convexa, das que fazem o abdômen chegar primeiro que o restante do distinto dono do corpo. Não é uma barriga para qualquer um, pois essa curvatura lombar só é adquirida com o passar do tempo e dos costumes do dito cidadão.

E para que os músculos abdominais cheguem a esse estágio o personagem tem que passar por exercícios profundos, a exemplo do relevante levantamento de copo, desde que sentado por longos períodos, de preferência em mesa de bar. E é justamente nestes locais que a curvatura lombar vai surgindo, proveniente do resultado da ingestão da cerveja, tira-gostos dos mais diversos, preferencialmente os mais gordurosos.

Mas isso só não basta, é mais que essencial a vontade de delineá-la ao gosto do “freguês’, melhor dizendo proprietário, empurrando o abdômen para a frente, deixando uma protuberância que combine com a altura e circunferência de cada um, geralmente entre as regiões do abdômen e pélvica. Entretanto, me nego a pesquisar o motivo que algumas pessoas condenam a aparência dessas pessoas, como se doentes fossem e precisassem de tratamento.

Não é de hoje que esse hábito está em voga – em todo o mundo – haja vista as fotografias que podem ser consultadas facilmente no Google. Eu mesmo consegui a foto acima sem qualquer esforço, embora não tenha conhecimento do profissional que a fotografou. Assim que vislumbrei a fotografia em meu pensamento passaram duas visões: ser a publicidade de uma obra de arte francesa, denominada de barriga de janela, ou simplesmente um modelo fotográfico.

Confesso que desconhecia totalmente a utilidade dessa nobre peça da serralharia francesa, providencial para o descanso da protuberância abdominal, também conhecida como barriga de cerveja, ou de chope. Como diz o ditado: “Caiu como uma luva”. Simplesmente permite que o feliz proprietário de uma curvatura lombar convexa permaneça de pé – ou em pé – como queiram, ao apreciar a paisagem externa.

Como disse anteriormente, eu sempre apreciei esse modelo de barriga – desde menino –, chegando ao ponto de prometer a mim mesmo que cultivaria uma e seria alimentada a cerveja. E olhe que naquela época, aqui pelo interior baiano, a exemplo de Itabuna, a pequena variedade da cerveja não nos permitia grandes escolhas.

Quase sempre duas marcas: Brahma e Antarctica. Eu mesmo juro que já vi os cultivadores de barrigas se sentarem à mesa e perguntarem ao dono ou garçom do bar, com voz empostada:

– Eu quero uma Antarctica casco preto e bem gelada –.

E sofria ao ouvir como resposta:

– Só tem Brahma, casco verde, e não está bem gelada –.

E o cliente, resignado, era obrigado a se manifestar:

– Não faz mal, desce assim mesmo, pois hoje acordei espirrando, acho que estou meio gripado –.

E não contava conversa, bebia uma pedia outra com a mesma satisfação como se estivessem estupidamente geladas. Quando alcancei a idade de poder sentar à mesa de um bar guardava na memória todo o vocabulário aprendido por anos a fio. Me fazendo de homem feito, pedi uma cerveja bem gelada e o garçom olhou de soslaio para minha cara e trouxe uma garrafa com a cerveja quente, avisando que estava tudo naquele padrão, ou seja, meio barro meio tijolo.

Num misto de entusiasmo e apreensão, enchi o copo levei-o ao nariz para sentir o perfume e dei a primeira golada. Pense num sujeito acabrunhado, desalentado e desiludido com o gosto amargo da cerveja ainda quente: era eu. Mesmo assim tentei fazer de conta que estava tudo bem para não levantar a suspeita do garçom que me entreolhava do outro lado do balcão.

Aos poucos fui refazendo as energias, acredito que pela euforia do álcool contido na cerveja, pedi a conta e deixei o bar meio descontente, é verdade, mas tentando não dar pistas sobre meu desânimo causado pelo amargor da cerveja. Na semana seguinte, no final do expediente na Rádio Clube de Itabuna, fui tentar a sorte no Ita Bar, junto com os colegas.

Desta vez o amargor já não era tão presente, acredito que neutralizado pela baixa temperatura da cerveja, resfriada no ponto certo dos bons bebedores da “gelada”. Enfim, me reencontrei com os prazeres que sentia em tempos idos, quando bebia apenas com os olhos e me encantava com a protuberância do abdômen convexo dos hoje colegas de mesa de bar.

Mas como a vida nem sempre permanece estável, hoje, após décadas cultivando a barriga de chope, sou recomendado pelo educador físico João Rosário a dar um rumo diferente ao abdômen, tornando-o côncavo. Como não sou afeito aos grandes contrastes, vou mudando meu padrão de beleza estética por uma protuberância menor, sem deixar de apreciar o amargor do lúpulo, se é que ainda entra na composição da maioria das cervejas.

Walmir Rosário é radialista, jornalista e advogado, autor de vários livros, a exemplo de O Berimbau – Valhacouto de boêmios, disponível na Amazon.

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A carência de instrução e educação básica, desinteligência coletiva ou estupidez, mesmo, deveria servir de exemplo. Mas, ao contrário, estimula mais pessoas a interagir ou compartilhar essas tolices revestidas de lendas virtuais.

 

Luiz Conceição

 

 

 

 

 

A cada dia um novo registro. Para quem tem neurônios e sinapses adequados restam a estupefação. O mais novo capítulo dessas tolices virtuais fala em bronzear partes íntimas a pretexto de aumento de testosterona e melhora nos níveis de vitamina D, mas nenhum respaldo científico consistente.

Na semana anterior, um bando de malucos desatou a beber detergente contaminado, de acordo com a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), sob a justificativa de enfrentamento à fiscalização que apontou desajuste industrial, contaminação bacteriana de produtos de limpeza e riscos aos usuários.

A carência de instrução e educação básica, desinteligência coletiva ou estupidez, mesmo, deveria servir de exemplo. Mas, ao contrário, estimula mais pessoas a interagir ou compartilhar essas tolices revestidas de lendas virtuais. Quando essa gente acordar verá o quão enganadas foram e será tarde, muito tarde.

Não há dúvida alguma de que a tecnologia quando bem aplicada e utilizada facilita a vida diária, o aprendizado, o conhecimento e a informação. Bem sei, depois de 50 anos de atividades jornalísticas ininterruptas.

O que antes demandava horas, dias, semanas e meses de pesquisa passa a se resolver num clique no celular, tablet, PC ou notebook, não necessariamente nessa ordem. Mas, como diziam os mais antigos, caldo de galinha e cautela são instrumentos essenciais à vida.

É preciso estar sempre vigilante. Afinal, o mundo nada tem de paraíso, e o capeta sempre estará à espreita, assim como pequenos erros num texto. Sobre isso, vale dizer que o chifrudo sempre porá seus chifres para dificultar o trabalho de qualquer revisor textual.

Mas, onde entra a genialidade do Umberto Eco? Simples. Há 11 anos, durante a cerimônia da Universidade de Torino que lhe outorgou o prêmio de Doutor Honoris Causa, o teórico da literatura e da linguagem, romancista e filósofo fez uma de suas declarações mais polêmicas sobre a internet, certamente, preocupado com as ditas redes sociais.

O autor de O Nome da Rosa (editora Record) afirmou: “a internet deu voz a uma legião de imbecis”.

E completou: “As mídias sociais deram o direito à fala à legião de imbecis que, anteriormente, falavam só no bar, depois de uma taça de vinho, sem causar dano à coletividade. Diziam imediatamente a eles para calar a boca, enquanto agora eles têm o mesmo direito à fala que um ganhador do Prêmio Nobel”.

Certamente, não foi um comentário ranzinza, como disse Eduardo Wolf, no site Fronteiras do Pensamento, que reúne pensadores influentes em ciclos de conferências para debater grandes temas da atualidade.

Para ele, o ácido comentário “por não ser de autoria de algum sorumbático niilista dos tempos digitais, mas sim de um notável comunicador, erudito que alcançou a celebridade pop, especialista de mídias e de comunicação em amplo sentido, não apenas causou significativo furor – na internet em especial, é claro – como também foi levado a sério por muita gente boa, como deveria, mesmo, e resultou em algumas reflexões interessantes sobre as ilusões de nosso entusiasmo digital”.

Luiz Conceição é bacharel em Direito, leitor de temas econômicos, literários e do cotidiano e jornalista desde 1975 (época em que era muito, mas muito feliz!).

Procurador municipal José Augusto Ferreira Filho
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E toda construção começa com escolhas. A escolha de não favorecer o próximo em detrimento do justo. A escolha de não usar o cargo como escada pessoal. A escolha de lembrar que o poder é transitório, mas suas consequências, não.

 

02 de maio amanhece chuvoso no sul da Bahia – um sábado de feriado prolongado, como outros tantos que esse ano de 2026 nos reserva. Ruas mais vazias, repartições públicas fechadas, o silêncio ocupando o lugar da pressa habitual. O Brasil, por um instante, parece suspenso: sem filas, sem carimbos, sem balcões entre o cidadão e o Estado. E, ainda assim, é justamente hoje o Dia da Ética.

À primeira vista, poderia parecer uma ironia. Celebrar a ética num dia em que o serviço público descansa, logo este que é sempre o mais cobrado dentre todas atividades, como se ela dependesse apenas do expediente aberto. Mas talvez haja, nisso, uma oportunidade rara: pensar a ética fora da rotina, sem o ruído das urgências, sem o automatismo dos protocolos. Porque a ética não mora no prédio da repartição — ela habita quem, na segunda-feira, voltará a ocupá-lo.

Os servidores públicos, ausentes hoje de seus postos, não deixam de ser o que são. Carregam consigo — para casa, para o convívio familiar, para o descanso merecido — os mesmos valores que sustentam seu ofício. É no cotidiano invisível, longe dos olhos do público, que se forma o caráter que, depois, se manifesta no atendimento, na decisão, na responsabilidade com o bem comum.

Os servidores públicos, em sua imensa maioria, sustentam o cotidiano do Estado com dignidade silenciosa. São eles que garantem que a escola abra, que o hospital funcione, que o documento seja emitido. São a face concreta do compromisso com o bem comum. Mas também vivem sob a sombra de um sistema que, por vezes, cobra mais do que oferece — e que, não raramente, falha em reconhecer o valor da integridade cotidiana.

E, acima deles, ou melhor, à frente das decisões que orientam o país, estão os agentes políticos. Também em pausa, ao menos formalmente. Mas a ética que lhes cabe não conhece feriado. Não se interrompe com o fechar das portas nem com o apagar das luzes dos gabinetes. Ela os acompanha — ou deveria acompanhar — em cada escolha, em cada articulação, em cada pensamento sobre o uso do poder que lhes foi confiado.

O Brasil contemporâneo, mesmo num sábado silencioso, não se desliga de suas contradições. Elas persistem, latentes, esperando a retomada da semana para voltarem à superfície. Entre leis que apontam caminhos e práticas que insistem em atalhos, a ética continua sendo mais exigida do que exercida — mais lembrada em datas do que vivida na constância.

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Porque, mesmo no silêncio de um sábado prolongado, o Brasil continua sendo construído — ou negligenciado — pelas escolhas de cada um. 

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Mas talvez seja justamente neste intervalo, neste respiro coletivo, que se possa enxergar com mais clareza o que realmente importa. Sem a distração da rotina, resta a consciência. E nela, uma pergunta simples e incômoda: que tipo de serviço público queremos quando as portas se abrirem novamente? Que postura esperamos de quem nos representa?

Porque, mesmo no silêncio de um sábado prolongado, o Brasil continua sendo construído — ou negligenciado — pelas escolhas de cada um. E a ética, ainda que hoje não esteja de plantão, segue sendo chamada para o serviço que nunca deveria parar.

O Brasil contemporâneo conhece bem essa tensão. Entre leis bem escritas e práticas tortuosas, entre discursos moralizantes e condutas contraditórias, a ética muitas vezes parece um ornamento — algo que se veste em ocasiões solenes e se abandona na rotina do poder. E, no entanto, é na rotina que ela mais importa. Não nas grandes declarações, mas nas pequenas decisões repetidas todos os dias.

Há quem diga que o problema é cultural, como se fosse destino. Mas cultura não é sentença; é construção. E toda construção começa com escolhas. A escolha de não favorecer o próximo em detrimento do justo. A escolha de não usar o cargo como escada pessoal. A escolha de lembrar que o poder é transitório, mas suas consequências, não.

Porque, no fim das contas, a ética não transforma o Brasil de uma vez. Mas, sem ela, o Brasil não se transforma nunca.

José Augusto Ferreira Filho é Procurador Municipal – Servidor Público.

Vista panorâmica da área central de Itabuna, no sul da Bahia || Foto José Nazal
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Itabuna é seguramente a cidade que melhor se estrutura para o ciclo econômico anunciado com a chegada do Complexo FIOL-Porto Sul.

 

 

Rosivaldo Pinheiro

A cidade de Itabuna passa por mudanças estruturais na sua espacialidade. Um novo ordenamento de tráfego está em construção. O fluxo vem sendo impactado. Esse é um processo que está no nascedouro, e o novo desenho urbano fará nascer novos fixos – construções que atraem destinos. Com eles, o fluxo sofrerá novos ajustes.

Esse dinamismo cria embaraços ao cotidiano e produz impactos negativos, no primeiro momento, ao ir e vir de um coletivo considerável, mas é parte do processo para atingir novo perfil organizacional e econômico. É uma fase pela qual passam todos os municípios que alcançam gestões com capacidade de propor intervenções capazes de dar impulso ao desenvolvimento local. Nesse aspecto, Itabuna é seguramente a cidade que melhor se estrutura para o ciclo econômico anunciado com a chegada do Complexo FIOL-Porto Sul.

Nessa perspectiva, as mudanças no tecido urbano de Itabuna buscam preservar a liderança nos setores de comércio e serviço e apresentar atrativos para a chegada de novas atividades, inclusive a indústria de inovação e logística, consolidando o município como a locomotiva regional.

Esse novo ambiente proporcionado pela FIOL-Porto Sul exigirá do Estado da Bahia uma presença ainda mais direta na organização e direção do processo econômico do território, deslocando investimentos para propiciar implantação de atividades que geram emprego e renda para a cidades menores, na perspectiva de evitar a migração dessas populações para os maiores centros, evitando uma crise nos municípios vizinhos.

Também exigirá atualização de instrumentos regulatórios e de fiscalização em todas as cidades impactadas pelo novo ciclo econômico. Um maior nível de exigência nas cidades que lideram o processo econômico da Região Cacaueira será sentido.

A busca pelo crescimento sustentável é lição básica para toda cidade. E aqui, no Litoral Sul, Itabuna vem sabiamente agindo através de um planejamento ousado para atingir esse estágio. Entendeu que o tempo futuro já bate de pressa à porta e, para não desapontá-lo, a gestão municipal atua atentamente na indução do processo de estruturação urbana para captar oportunidades geradas pelo ambiente econômico anunciado pelo modal FIOL-Porto Sul.

Rosivaldo Pinheiro é especialista em Planejamento de Cidades (Uesc), economista e secretário de Relações Institucionais de Itabuna.

Santinho (na seleção), ao lado do goleiro Luiz Carlos || Foto Arquivo Walmir Rosário
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Não se falava outro assunto na cidade, tanto que na edição de 18 de abril de 1958, o Diário de Itabuna escancarou a manchete: “Santinho causa reboliço no futebol local”. E os articulistas solicitavam medidas urgentes sobre o anúncio do rompimento do contrato de Santinho com o Flamengo e sua volta ao Fluminense.

 

Walmir Rosário

Bons tempos aqueles em que o futebol amador de Itabuna encantava os torcedores. Para o bem da verdade, nossos jogadores, depois de investidos no “Hall da Fama”, passavam a outra condição, a de craques remunerados, presenteados, soa melhor. Sempre que assinavam um contrato levavam um regalo que poderia ser uma bicicleta ou até mesmo um carro.

E um desses bem acolhidos pela sorte era Santinho, batizado e registrado Gilberto Silva Moura, liderança consagrada em todos os times em que jogou, inclusive na famosa Seleção de Itabuna, a Hexacampeã Baiana. Nas quatro linhas, um craque daqueles que intimidava o adversário pelo futebol que apresentava. Era ele e mais 10.

Na concentração, recebiam todas as instruções dos técnicos até o adversário engrossar o jogo, quando ele e mais uns dois ou três decidiam como o time iria jogar daí pra frente. Fora de campo – na concentração ou fora dela –, tomava conta dos jogadores mais novos e sempre era o chefão na hora de uma boa farra, evocando os resultados para si.

Santinho sentou praça e ficou famoso no Fluminense de Itabuna, ao qual indicava jogadores daqui e região. No início do ano de 1958 o craque aceitou uma rica proposta do Flamengo de Itabuna e resolveu deixar o Tricolor. No time Rubro-negro não se deu bem como acreditaria, apesar do rico contrato, com luvas e salários de fazer inveja aos colegas amadores.

Ao revelar para os dirigentes do Flamengo que não se sentia à vontade no clube, foi um reboliço sem tamanho no novo time, que fez grande festa na sua contratação e esperava a retumbante estreia no Campeonato de 1958. A notícia provocou o estrondo de uma bomba na cidade! Os dirigentes do Flamengo que tinham sido contra sua contração soltavam fogo pelo nariz.

Não se falava outro assunto na cidade, tanto que na edição de 18 de abril de 1958, o Diário de Itabuna escancarou a manchete: “Santinho causa reboliço no futebol local”. E os articulistas solicitavam medidas urgentes sobre o anúncio do rompimento do contrato de Santinho com o Flamengo e sua volta ao Fluminense.

No meio futebolístico rubro-negro, um corretivo bem dado seria a única providência para reprimir a rebeldia e irresponsabilidade do jogador, pois teria ludibriado e ridicularizado os dirigentes de clubes. E, irrequietos, buscavam uma fórmula para punir o Santinho, que estaria inebriado com sua qualidade em campo, se prevalecia para bagunçar o futebol.

Anteriormente, Santinho fez o mesmo no Janízaros e solicitou seu retorno ao Fluminense e foi liberado, tanto assim que disputou a última partida do Campeonato de 1957. E o motivo dos dois retornos era simples, não teria se adaptado aos outros times, devido a sua forte ligação com os dirigentes e jogadores do tricolor itabunense. Simples assim!

Santinho (de cócoras), entre Bel e Tombinho, na Seleção de 1967 || Arquivo Walmir Rosário

Embora grande parte da direção do Flamengo se mostrasse contrária a sua vinda para o rubro-negro, Santinho encantou a todos ao jogar a primeira partida, um amistoso contra o Colo-Colo, de Ilhéus. Suas jogadas endiabradas faziam os torcedores e dirigentes do Flamengo vibrarem com o futebol de alto luxo jogado por Santinho, como só ele sabia.

Mas tudo virou de cabeça pra baixo após uma carta de Santinho ao presidente da Liga Itabunense de Desportos Atléticos (Lida), anunciando que não mais desejava efetivar a transferência, uma vez que sempre esteve preso ao tricolor por laços de amizade. Ao Flamengo coube emitir uma nota oficial desinteressando-se do jogador.

E a nota do Flamengo, refinada e educada, não demonstrava o temperamento colérico dos dirigentes, que por baixo dos panos teciam impropérios contra a atitude de Santinho. E a imprensa flamenguista incitava a torcida, contra o craque, alertando aos outros clubes que colocassem suas “barbas de molho”, pois eles poderiam também ser vítimas do jogador.

E a crônica futebolística não perdoou Santinho por ter conseguido voltar ao clube de origem, e por um bom tempo cobravam, diariamente, a punição para o jogador, por sua pseuda irresponsabilidade. A torcida, entretanto, queria vê-lo jogar, driblar, fazer gols com seus chutes potentes no campo da Desportiva, muitas das vezes furando as redes.

Mas Santinho tinha uma carta na manga: como ele estava à disposição da Lida, convocado pela Seleção de Itabuna para o jogo contra o Flamengo, na Festa dos Campeões, sua transferência não tinha sido efetivada pela Lida. E foi Santinho liberado sem cumprir o interstício regulamentar, de volta ao Fluminense, equipe pela qual continuou jogando por um bom tempo.

Walmir Rosário é radialista, jornalista e advogado e autor de livros como O Berimbau – Valhacouto de boêmios, disponível na Amazon.

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Mais do que nunca, é necessário vigilância crítica. O uso de espaços sagrados para fins políticos, aliado à propagação de discursos excludentes, deve ser questionado com firmeza.

 

Wenceslau Júnior

No dia 19 de março, estive na casa da minha família, em Itabuna, como faço tradicionalmente há décadas durante a Procissão de São José, padroeiro da cidade. Da janela da cozinha, acompanho todos os anos a concentração dos fiéis antes do cortejo, um momento de fé, respeito e comunhão.

Naquela tarde, por volta das 14h30min, enquanto descansava após o almoço para, em seguida, participar da procissão, fui surpreendido por um jingle político. A princípio, pensei se tratar de um engano auditivo. No entanto, ao me aproximar da janela, confirmei o que parecia improvável: além de ouvir claramente a música, avistei o ex-prefeito de Salvador ACM Neto cercado por apoiadores, utilizando aquele espaço e aquele momento para promoção política.

O conteúdo do jingle — “Tá faltando homem, doutor, para governar…” — não apenas destoava do ambiente religioso, como também carregava uma mensagem abertamente machista e misógina, ao sugerir que a capacidade de governar estaria vinculada ao gênero masculino. Trata-se de uma narrativa ultrapassada e perigosa, que desqualifica mulheres e reforça desigualdades históricas.

O episódio se torna ainda mais simbólico por ocorrer justamente na celebração de São José, figura reconhecida como exemplo de dignidade, trabalho e parceria, especialmente em sua relação com Maria, mãe de Jesus. A utilização de um ato religioso para veicular mensagens políticas dessa natureza revela não apenas falta de sensibilidade, mas também uma estratégia preocupante de instrumentalização da fé.

Paralelamente, observa-se em Salvador a adoção de medidas que dialogam com essa mesma lógica excludente. A recente promulgação de uma lei municipal que restringe o uso do termo “gênero” nas escolas públicas aponta para um alinhamento com discursos conservadores que têm ganhado força no país. Sob o rótulo distorcido de “ideologia de gênero”, proliferam movimentos que, na prática, alimentam desinformação, intolerância e violência.

É impossível ignorar as consequências concretas desse tipo de narrativa. O Brasil convive com índices alarmantes de violência de gênero, incluindo casos brutais que chocam pela crueldade e pela frequência. Nesse contexto, reforçar estereótipos e negar debates fundamentais nas escolas não contribui para a solução, ao contrário, agrava o problema.

As recentes sinalizações políticas de ACM Neto e do prefeito de Salvador, Bruno Reis, indicam uma aproximação com setores mais radicais da direita brasileira. Esse movimento não é neutro, ele comunica valores, prioridades e compromissos. E, ao que parece, tem rendido frutos no cenário político nacional, inclusive o convite de Flávio Bolsonaro para Bruno Reis compor a sua chapa na disputa pela Presidência da República.

Diante disso, é preciso reafirmar o óbvio: a Bahia e o Brasil são formados por homens e mulheres plenamente capazes de ocupar qualquer espaço de liderança, seja na administração pública ou na iniciativa privada. O que está em jogo não é capacidade, mas o tipo de sociedade que se pretende construir.

Mais do que nunca, é necessário vigilância crítica. O uso de espaços sagrados para fins políticos, aliado à propagação de discursos excludentes, deve ser questionado com firmeza. Democracia se fortalece com pluralidade, respeito e responsabilidade, não com retrocessos disfarçados de tradição.

Wenceslau Júnior é advogado, professor do curso de Direito da Uesc, ex-vereador e ex-vice-prefeito de Itabuna.

Jorge Amado, Zélia Gattai, Simone Beauvoir, Jean Paul Sartre e convidados na Fazenda Progresso || Foto Diário de Itabuna
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Como não poderia deixar de ser, no sábado, Jorge e Zélia Amado, Otoni Silva e Moisés Alves da Silva ciceronearam os filósofos Jean Paul Sartre e Simone de Beauvoir ao distrito de Ferradas.

 

Walmir Rosário

 

 

 

 

Era uma sexta-feira daquelas qualquer, que não prometia nada de especial ao Itabunense. Entretanto, o dia 19 de agosto de 1959 entrou na história do povo grapiúna. Logo pela manhã chega o voo de Salvador e descem quatro personagens internacionais. Naquele dia, nada de recepções, banda de música, charanga ou uma bela comissão de boas-vindas. Tudo normal, ou quase isso.

Assim que o avião estaciona no aeroporto Tertuliano Guedes de Pinho, apenas uma pessoa demonstrava nervosismo ao vislumbrar quatro passageiros assomarem a porta do aparelho e descerem a escada. Era Moisés Alves da Silva, um generoso mecenas, tido como grande amante das artes, incluída aí a literatura e a filosofia.

Assim que os dois ilustres casais pisam em solo grapiúna, trocam longos e afetuosos cumprimentos e efusivos abraços com Moisés. Pelo que se sabe, ele, Moisés, era o segundo itabunense a ter contato com o casal de filósofos franceses representantes do existencialismo, Jean Paul Sartre e Simone de Beauvoir. Eles mesmos, em carne e osso em solo grapiúna. Um sonho realizado.

Jean Paul Sartre e Jorge Amado na Fazenda Progresso || Foto Diário de Itabuna

O outro casal era bastante conhecido, sendo ele um itabunense da gema, nascido em Ferradas e considerado o mais lido romancista do mundo, portanto um conterrâneo de renome internacional. Ao seu lado, como esperado, sua esposa, Zélia Gattai, chamada pelos jornalistas do Diário de Itabuna de Zélia Amado, em respeito ao nome de família do esposo, nosso ídolo das letras.

Pelo que se comentou, a visita teria sido programada pelo deputado federal e líder do governo federal na Câmara, Aziz Maron. O silêncio em relação às visitas seria apenas uma estratégia para não transtornar a permanência dos visitantes com centenas ou milhares de pessoas de toda a região, tornando improdutiva a pesquisa que pretendiam fazer sobre a vida do homem do campo, mais exatamente na cacauicultura.

O casal Simone de Beauvoir e Sartre na Fazenda Progresso || Foto Diário de Itabuna

Do aeroporto direto para o Lord Hotel, onde foram acomodados por Nelson Muniz Barreto. Após uma rápida toilette e um lanche, partiram para a Fazenda Progresso, do Coronel Nicodemos Barreto, parte do grupo de fazendas que iria até Buerarema. Apesar de não contar com a presença do coronel e dos filhos, foram recebidos nababescamente na propriedade.

De início, beberam mel de cacau, chuparam a polpa das amêndoas, doces e ácidas, subiram nas barcaças onde secavam as amêndoas, não se amedrontaram e entraram nas plantações, apesar de serem alertados sobre os riscos de animais peçonhentos, cobras, inclusive. Conversaram com os trabalhadores rurais para conhecer de perto o “operário agrícola”, sua vida, família, moradia e salário.

Após agradecer a gentil e tradicional hospitalidade da família Barreto, almoçaram no Lord Hotel e rumaram para Ilhéus. Desta vez, a curiosidade de Sartre era conhecer a vida e o trabalho numa pequena fazenda de cacau, uma burara, como explicou Jorge Amado. Em Ilhéus visitaram amigos de Jorge, o porto e locais turísticos da cidade.

À noite novos compromissos, e já reservada para os visitantes receberem os intelectuais itabunenses e da região, uma considerável legião de admiradores, que colheram autógrafos dos filósofos franceses e do escritor conterrâneo em seus livros. De acordo com os jornalistas do Diário de Itabuna e da Rádio Clube de Itabuna, foi uma festa da inteligência, da elegância e do culto à ilustração.

Na manhã seguinte, um sábado, 20 de agosto, Jorge Amado, Sartre e Simone concederam a prometida entrevista à Rádio Clube de Itabuna, capitaneado pelo diretor Otoni Silva, coadjuvado pelo advogado Wilde Oliveira Lima e o jornalista Cristóvão Colombo Crispim de Carvalho. A esperada entrevista foi anunciada para ir ao ar nos próximos dias, em data e horário exaustivamente anunciados.

Como não poderia deixar de ser, no sábado, Jorge e Zélia Amado, Otoni Silva e Moisés Alves da Silva ciceronearam os filósofos Jean Paul Sartre e Simone de Beauvoir ao distrito de Ferradas, berço de Jorge Amado. Posaram para fotos em frente à casa do escritor, num preito de gratidão e reconhecimento à terra natal de Jorge Amado.

Em seguida, seguiram para o aeroporto Tertuliano Guedes de Pinho, em Itabuna, e tomaram o primeiro voo com destino a Salvador, onde os aguardavam vários círculos da mais fina intelectualidade baiana. E assim Itabuna viveu dois dias como sendo a capital do existencialismo da liberdade individual, embora eu não conheci o prometido estudo do trabalhador do cacau.

Walmir Rosário é radialista, jornalista e advogado e autor de livros como O Berimbau – Valhacouto de boêmios, disponível na Amazon.

Rosivaldo Pinheiro, comunicador, economista e secretário de Relações Institucionais de Itabuna
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Precisamos exercer a tolerância, estabelecer um diálogo em que as visões dicotômicas possam construir novos pontos de vista. Não é preciso se sentir vencedor, mas ter o espírito construtivista para fazer avançar a sociedade.

 

Rosivaldo Pinheiro

A história nos traz que na Roma Antiga eram comuns os duelos entre gladiadores nas arenas, onde corpos se digladiavam até a morte. Normalmente um presidiário era colocado à prova contra um sanguinário ligado ao poder supremo naquela sociedade (um serviço de justiça).

Naquele modelo, criminosos, prisioneiros de guerra, escravos se submetiam, por força do Estado, àquele aparente espetáculo, que, de fato, era uma punição pública para o exercício da autoridade governamental e a imposição da hierarquia social.

O tempo passou e o comportamento humano continua predisposto a assistir aos espetáculos onde exista possibilidade do combate. Aqui não me refiro aos duelos esportivos, embora caibam em alguns casos a analogia aos coliseus do passado.

Trago à luz nesse texto um chamado para uma reflexão: a força das palavras e da necessidade de observação do nosso comportamento diário quando nos posicionamos nas redes sociais e no WhatsApp. A vigilância se faz necessária para evitar o descuido e o exercício do raciocínio voltado para o mal, quase sempre demonstrados nas postagens.

Nos tempos atuais, os lobos em pele de cordeiro ou vampiros de boas energias se vangloriam no mundo virtual. Assistimos ataques à honra, calúnia, emissão de inverdades de todos os tipos, deixando o espírito de humanidade guardado no porão da existência. Os tudólogos e voluntários da maldade aproveitam-se das brechas que o mundo virtual possibilita.

Portanto, antes de postar, pense e repense sobre o que escreverá: qual a possibilidade do impacto para uma mãe ou um pai ao fazer a leitura? Um filho, filha ou pessoas que diretamente amam a pessoa citada/atacada? É preciso um juízo de valor mais apurado, pensando, inclusive, no impacto sobre o emocional do outro ao deparar-se com o texto dirigido para si. Qual é o momento psicológico que aquela pessoa atravessa?

Não é difícil agir com essa disposição antes de disparar a primeira palavra. Precisamos exercer a tolerância, estabelecer um diálogo em que as visões dicotômicas possam construir novos pontos de vista. Não é preciso se sentir vencedor, mas ter o espírito construtivista para fazer avançar a sociedade.

Pense nisso!

Rosivaldo Pinheiro é comunicador, economista e especialista em Planejamento de Cidades, além de secretário de Relações Institucionais de Itabuna.

Maestro Arnaldo Dias atua na formação de novos músicos || Foto Walmir Rosário
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Outro desafio lançado pelo presidente José Vanderley ao maestro Arnaldo Dias foi reorganizar a Filarmônica Euterpe Itabunense, trabalho que vem sendo feito com treinamento dos músicos.

 

 

 

Walmir Rosário

Atualmente pouquíssimas instituições beneficentes conseguem sobreviver prestando serviços aos seus associados e à comunidade em geral. Em Itabuna, uma delas, a Sociedade Montepio dos Artistas de Itabuna, caminha em sentido contrário e pretende comemorar seus 107 anos de fundação em 1º de novembro de 2026 em perfeita sintonia com as propostas do seu Estatuto.

As dificuldades são enormes, ressalta o presidente da Assembleia Geral da Entidade, José Vanderley Borges de Sousa (Vando), mas, apesar dos percalços, estamos conseguindo promover uma reestruturação. Para o presidente, com as mudanças nas áreas da assistência e da previdência, muitas das atribuições beneficentes do Montepio perderam espaço, e com isso recursos para atuação.

Como uma das atribuições do Montepio é manter a Filarmônica Euterpe Itabunense, a direção da Sociedade envida esforços para formar novos músicos entre os jovens e mantê-la viva e atuante. Criada em 1925, fez sua primeira tocata por ocasião da comemoração da Independência do Brasil, no dia 7 de Setembro daquele ano, tendo como maestro o professor Rosemiro Pereira.

O presidente da Montepio, José Vanderley || Foto Walmir Rosário

O ensino da música aos artistas e operários se tornou uma tradição do Montepio, por meio da Filarmônica Euterpe Itabunense, que se rivalizava com outras coirmãs pela distinção dos fardamentos e qualidade dos músicos e repertório. No calendário das apresentações, o dia 19 de março (Padroeiro de Itabuna, São José), 1º de Maio (Dia do Trabalhador), 28 de Julho (Dia da Cidade), 7 de Setembro, dentre outras ocasiões festivas.

Pela Filarmônica Euterpe Itabunense passaram regentes e músicos conceituados. Dentre os mais recentes, o maestro Zózimo, o sargento PM e maestro Carlos, o maestro Heleno e Wellington Quintas, este falecido recentemente. Outro destaque é o professor Adilson Alves dos Santos (Dilsinho), representante da Ordem dos Músicos do Brasil em Itabuna e região.

E a formação dos novos músicos continua sendo das atividades prioritárias da diretoria do Montepio. Atualmente quem comanda a educação musical dos futuros músicos é o maestro Arnaldo Dias, profissional com mais de 52 anos de experiência profissional em instrumentos e arranjos musicais de filarmônicas, bandas e orquestras.

O maestro Arnaldo Dias, com passagem na extinta Filarmônica Carlos Gomes (Itabuna), na Banda Los Tropicanos; na Banda Solo, na Banda Lordão por 30 anos, nesta responsável por tocar instrumentos de sopro e escrever os arranjos. Longe de pensar em aposentadoria, aceitou o convite do presidente José Vanderley para dinamizar a Filarmônica Euterpe Itabunense.

Filarmônica Euterpe Itabunense em 1936 || Foto Walmir Rosário

Atualmente o professor Arnaldo Dias é responsável pela capacitação da turma de jovens, aos sábados, que não se limitar a formar profissionais da música, mas cidadãos bem postos na sociedade, como faz questão de completar. “Eles chegam aqui com muita vontade de aprender, muitos deles com o sonho de tocar determinados instrumentos, o que mostra que são vocacionados”, conta o maestro Arnaldo.

Dentre os instrumentos preferidos entre os jovens estão o saxofone, trompete, flauta e clarinete. Assim que chegam, verificamos a intimidade com o instrumento e oferecemos algumas opções, a depender do que cada um pretende seguir no futuro. Como exemplo, o clarinete e o bombardino são dispositivos que requerem leitura mais apurada, notadamente nas filarmônicas.

Outro desafio lançado pelo presidente José Vanderley ao maestro Arnaldo Dias foi reorganizar a Filarmônica Euterpe Itabunense, trabalho que vem sendo feito com treinamento dos músicos. Na opinião do maestro, os músicos disponíveis na instituição são excelentes para uma orquestra de câmara, mas ainda não possuem treinamento em filarmônica.

A grande diferença é que na orquestra de câmara os músicos tocam seus instrumentos sentados ou em pé, mas parados, enquanto na filarmônica eles precisam se movimentar, tocar andando. Outras diferenças são a quantidade de músicos, menores na orquestra de câmara e maiores na filarmônica; bem como o repertório, peças para grupos menores na câmara, enquanto grandes sinfonias na filarmônica.

E o maestro Arnaldo Dias fala com entusiasmo do trabalho de reestruturação que vem sendo realizado na Filarmônica Euterpe Itabunense, cujo público se encanta durante as apresentações, desde as crianças até os mais idosos. Mais importante, ainda, segundo ele, será a transformação dos jovens em músicos com capacidade em tocar não apenas de ouvido, como se diz, mas de ler e interpretar partituras de autores diversos e renomados por séculos.

O presidente José Vanderley ressalta o esforço hercúleo que a Sociedade Montepio dos Artistas de Itabuna vem empreendendo para transformar, com parcos recursos, a realidade da juventude itabunense. “Ele chegam aqui entusiasmados com o que pode acontecer em suas vidas, e com certeza ganharão uma profissão e realizarão seus sonhos como artista”, resume o presidente da Assembleia Geral do Montepio.

Walmir Rosário é radialista, jornalista e advogado e autor de livros como O Berimbau – Valhacouto de boêmios, disponível na Amazon.

Entrega da Comenda 2 de Julho ao médico e ex-deputado Renato Costa, hoje (13), na Alba || Imagem TV Alba
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Pela sua postura democrática, Renato Costa defendeu com maestria um conjunto de ideias, debatendo com grupos adversários, de forma veemente, porém reverente e altiva.

 

 

 

 

Walmir Rosário

O respeito ao contraditório é uma das virtudes que marcou a trajetória do Renato Costa dentro e fora da política. Como médico é visto como humanista nos 58 anos de carreira profissional. Essa compostura fez de Renato Costa um amigo leal dos que tiveram a oportunidade de conhecerem e conviverem com ele em todos os setores da sociedade.

Essas características foram determinantes para conferir a Renato Borges da Costa, ex-parlamentar, a Comenda 2 de Julho, mais alta honraria conferida pela Assembleia Legislativa da Bahia (Alba) às pessoa dedicadas às grandes causas. A indicação foi do deputado estadual itabunense Pancadinha (SD), por meio da Resolução 2.263/2025, e a solenidade de entrega foi realizada nesta sexta-feira (13), em sessão especial no Plenário Orlando Spínola.

Para Renato Costa, o homem é sua circunstância e a dele é retornar à esta Casa Legislativa onde esteve por 8 anos, tempo de boa convivência. Para ele, a Comenda é motivo de honra e responsabilidade, por ser símbolo carregado de história, pois representa a confirmação de independência gestada de forma coletiva, o que orgulha o povo baiano.

E de início o deputado Pancadinha traçou um breve perfil do homenageado, classificando-o como “um homem ínclito, parlamentar competente e atento, em resumo um cidadão digno dos maiores elogios pela sua vida pública e privada”. Em seus mandatos como deputado estadual (1995 a 2003), Renato Costa concentrou sua atuação nas áreas da saúde, educação e segurança pública, e às necessidades do Sul da Bahia, com ênfase em Itabuna e Ilhéus.

Na medicina, seu sacerdócio, o doutor Renato Costa sempre foi fiel ao preceito de que o médico deve agir de tal modo que a sua ação possa se tornar uma lei universal, com a integridade moral sendo a base prática da medicina – como reza o juramento de Hipócrates – exercendo a medicina com dignidade e consciência, colocando a saúde e o bem-estar das pessoas acima de qualquer outro interesse.

Outro grande destaque do deputado estadual Renato Costa foi a incessante defesa do interesse da sociedade baiana, especialmente do Sul da Bahia, notadamente Itabuna, Ilhéus e região. Participou e presidiu importantes comissões parlamentares, como a de Proteção ao Meio Ambiente; a CPI para Apurar Adoções de Crianças por Estrangeiros na Bahia; Saúde e Saneamento; a Especial do Cacau; a CPI para Apuração de Ilicitudes na Manipulação dos Recursos SUS (2000-2002), Agricultura e Política Rural, dentre outras.

A militância política de Renato Costa é oriunda do período estudantil, na qual travou lutas pela liberdade de opinião presente em qualquer democracia e contra a opressão na ditadura militar. E esse contato próximo com a sociedade o preparou para o exercício da medicina, sem distinção, trazendo essas convicções para a política.

E a partir de 1989, Renato Costa passou a atuar diretamente no campo político ao ser eleito vice-prefeito de Itabuna (1989-1992); deputado estadual pelo Partido da Social Democracia Brasileira – PSDB (1995-1999); reeleito pelo Partido Socialista Brasileiro – PSB, 1999-2003. Na Assembleia legislativa exerceu diversos cargos, a exemplo de Líder da Minoria, vice-líder do PMDB; vice-líder da Minoria; Vice-líder do PSB; líder do Bloco PSDB/PSB; líder do PSB; e vice-líder do Bloco Parlamentar, dentre outros.

Pela sua postura democrática, Renato Costa defendeu com maestria um conjunto de ideias, debatendo com grupos adversários, de forma veemente, porém reverente e altiva. E esse respeito à diversidade política conferiu ao parlamentar a deferência dos colegas de atuação em campos opostos, pela tolerância, o diálogo permanente e a pronta solução de conflitos.

Como fez questão de ressaltar o deputado Pancadinha, em 2001, Renato Costa recebeu o Prêmio Destaque Parlamentar, concedido pelo Comitê de Imprensa da Assembleia Legislativa da Bahia. Dentre os atributos, sua atuação, pois além de excelente orador – constante na tribuna – também trabalhou com afinco nas comissões técnicas.

Na Santa Casa de Itabuna, Renato Costa sempre se destacou como líder e participou ativamente da criação do primeiro serviço de Nefrologia e Hemodiálise do interior da Bahia, depois transformado no Centro de Estudos Professor Edgard Santos, em 1974, hoje uma Fundação. Foi, ainda, fundador da Unimed e do Sicred de Itabuna e realizou a primeira sessão de hemodiálise do interior da Bahia.

O Governo da Bahia, inclusive, reconheceu a sua dedicação e trabalho pioneiro em prol da nefrologia e dos pacientes renais crônicos conferindo o nome de Dr. Renato Costa ao novo Centro de Hemodiálise de Itabuna, com 54 leitos para pacientes renais crônicos. Hoje, prestes a completar 85 anos, acompanha, religiosamente os pacientes.

Walmir Rosário é radialista, jornalista e advogado.

Praia dos Milionários, point dos itabunenses || Foto José Nazal
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Essa é a verdadeira história da Praia dos Milionários, desbravada por itabunenses e que se transformou na grande e festejada praia das grandes cabanas da zona sul de Ilhéus. Hoje os responsáveis por essa criação são respeitáveis senhores que, aos sábados, ainda sentam praça no Beco do Fuxico, especialmente na Fuxicaria.

 

Walmir Rosário

No final da década de 1960 e início de 1970 o point ilheense era o distrito de Olivença. Distante 18 quilômetros da sede, era frequentada por poucos ilheenses e ainda menos itabunenses. Estrada de chão, muita poeira, areia e as chamadas costelas de vaca tornavam a viagem uma aventura. O local de área veraneio, férias ou outros desafios. Destino de alguns abastados.

Alguns itabunenses também possuíam casas, sítios ou fazendas na antiga estrada Pontal-Olivença, entre eles a família Messias. Num desses domingos, Berger Brasil, da Loja Consul, que atendia a Classe A de Itabuna, se dirigiu para encontrar o amigo José Badaró e encontra outro chegado, Antônio Brito, que o convida para passar o dia com eles.

Após as desculpas de praxe, Brasil explica que tem compromisso firmado em Olivença, onde iria jogar um baba, e, para tanto, carregava uma bola e um isopor cheio de cervejas em lata. Diante da extensão do convite para o próximo domingo, prometeu que apareceria com os colegas para o prometido baba. E chegou com uma boa turma, boa de bola e de cerveja.

De maneira informal, começaria ali a primeira partida do futuro Baba dos Milionários, que fez história e batizaria uma das mais importantes praias da zona sul de Ilhéus. No domingo seguinte – o terceiro –, apareceram também alguns ilheenses, a exemplo de Ninho (Marcos Vieira). A ideia era manter os jogos entre os itabunenses e os ilheenses.

E tudo combinava favoravelmente entre eles, pois na semana posterior apareceu um senhor de nome Sidrak, com uma galinhota (carrinho de mão) carregada de cerveja gelada. A turma jogou o baba, bebeu a cerveja que levaram e ainda acabou todo o estoque do Sidrak. Naquele dia ficou mais que provado que o baba teria vida longa e os jogos seriam entre as seleções de Itabuna e Ilhéus.

Iram Marques, Cacifão

Na segunda-feira, Renato Cunha e Ninho resolvem comprar os uniformes das duas seleções. Nisso Berger Brasil encarrega Iram Marques (Cacifão) de comprar as camisas para a Seleção de Itabuna. E por ironia do destino, ele encontra as camisas nas cores amarela e preta, no padrão da bandeira itabunense. Agora seria apenas imprimir o nome.

De repente, Renato Cunha e Ninho resolvem mudar o nome dos times, para evitar o acirramento da rivalidade existente entre as duas cidades no futebol amador. A ideia era nomear a tal Seleção de Itabuna com um nome tupi-guarani. Ao dar a contra ordem a Cacifão, Brasil ouve o que não queria:

– Agora é tarde, Brasil, as camisas já estão impressas. E o nome é Os Milionários –, informou Cacifão.

E para justificar, Iram Marques, do alto de sua sabedoria e criatividade, convenceu os amigos com a narrativa de que o nome criado por ele era perfeito, pois só participava do baba quem tinha dinheiro, possuía carro, argumentando que nem todos poderiam ir, já que sequer existiria linha de ônibus. E assim Os Milionários foi o nome aprovado.

E o baba se tornou sucesso em Itabuna e Ilhéus, tanto que Os Milionários também passou a dar nome à conhecida a praia onde as partidas eram jogadas. A cada domingo chegavam novos pretendentes, muitos desconhecidos, o que levou Cacifão a adotar nova estratégia para manter o grupo pioneiro unido.

O controverso Iram Marques (Cacifão), que à época não possuía carro, saía de Itabuna para Ilhéus no ônibus das 5 da manhã e conseguia chegar de táxi primeiro que todos. Munido de uma prancheta e papel pautado, escalava os times a seu bel prazer, além de ditar todas as regras no sentido de afastar os menos favorecidos, financeiramente.

E Cacifão passou a instituir taxas para a lavagem do material esportivo (30,00, em moeda da época), além da quantidade de cervejas e tira-gostos que cada um deveria levar. Mesmo que o pretendente fosse bom de bola, era vetado, não importando os pedidos. Com isso, os incidentes entre a rivalidade entre as duas cidades também permaneceram zerados.

E o baba dos Milionários, como passou a ser chamado, ganhou a atenção dos boleiros e da mídia. Um dos primeiros jogadores profissionais a jogar no baba foi Jorge Campos, atacante do Bahia, levado pelo seu irmão César Campos. Em outra feita apareceram o jogador do Flamengo e Seleção Brasileira, Júnior (Capacete) e o técnico Cláudio Coutinho.

Dentre os frequentadores pioneiros do baba dos Milionários: Berger Brasil, Renato Cunha, Antônio Brito, Eduardo Brito, Iram Marques (Cacifão), José Verdinho, João Carlos Fontes, César Campos, Antônio Wense com os filhos Ronie e Marcos, Edulindo, Erick Etinger, Tonho Bicudo, Tonhão, Ninho, Geraldo Sessa, George Cordeiro, Alcides Paulino, Chico Orelinha, Dr. Alair, os 4 irmãos Andrade e Haroldo Messias, dentre outros.

Essa é a verdadeira história da Praia dos Milionários, desbravada por itabunenses e que se transformou na grande e festejada praia das grandes cabanas da zona sul de Ilhéus. Hoje os responsáveis por essa criação são respeitáveis senhores que, aos sábados, ainda sentam praça no Beco do Fuxico, especialmente na Fuxicaria. Outros já não habitam mais entre nós, a exemplo de Cacifão, o homem das ingrisilhas, que deixou suas histórias a serem contadas.

Walmir Rosário é radialista, jornalista e advogado e autor de  autor de livros como O Berimbau – Valhacouto de boêmios, disponível na Amazon.

Juliana Soledade é advogada, escritora, empresária e teóloga || Foto Divulgação
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Celebrar as mulheres é garantir que nenhuma seja reduzida a um único papel para ter seu valor reconhecido. É sustentar, com firmeza e lucidez, que a grandeza feminina não cabe em rótulos, e muito menos em ataques gratuitos.

 

Juliana Soledade

Março é o Mês da Mulher, tempo de reconhecer conquistas, honrar resistências e afirmar que somos inteiras em qualquer configuração de vida. Com filhos ou sem eles. Mães ou não. Plenas não por imposição, mas por existência.

No entanto, em plena edição do Big Brother Brasil 26, uma fala da atriz Solange Couto reacendeu uma ferida antiga. Ao declarar: “Quando Deus não deu filhos a ela, é porque sabe que ela não teria capacidade de amar alguém”, direcionando o comentário a Ana Paula, a atriz não atingiu apenas uma participante. Atingiu uma multidão silenciosa de mulheres que já ouviram, explícita ou sutilmente, que lhes falta algo.

A frase carrega um peso histórico. Ecoa o machismo internalizado que insiste em medir o valor feminino pela maternidade. Como se o amor tivesse endereço fixo no útero. Como se a capacidade de cuidar estivesse condicionada à biologia. Como se ser mulher fosse sinônimo de gerar.

Isso machuca porque simplifica dores complexas. Há mulheres que não quiseram filhos. Há as que quiseram e não puderam. Há as que tentaram e enfrentaram perdas. Há as que escolheram outros caminhos. Nenhuma dessas trajetórias autoriza julgamento. Amor não é patente de maternidade. Amor é prática, é escolha, é construção cotidiana.

Há mães extraordinárias. Há mães que falham. Há mulheres sem filhos que sustentam redes inteiras de afeto, que são referência, abrigo, orientação. Madrastas que aprendem o amor como decisão consciente. Amigas que se tornam família. Ativistas que dedicam a vida à proteção de crianças que não geraram, mas defendem com coragem.

Nesse mesmo confinamento, outras declarações ampliaram a indignação. A frase “Eu nasci do prazer, não nasci de estupro”, seguida de insinuações sobre “trepada mal dada”, banaliza uma violência que marca a história de inúmeras mulheres. A comparação com “travesti velho” reforça estigmas que a sociedade há décadas tenta desconstruir. Palavras não são neutras. Elas moldam ambientes, legitimam exclusões, perpetuam dores.

É impossível não notar o contraste: fora da casa, sua própria filha atua como ativista na defesa de direitos humanos, pautas raciais e na proteção de crianças e adolescentes. Uma trajetória que aponta para o conhecimento como ferramenta de libertação. Esse contraste revela que informação transforma, enquanto a repetição de preconceitos aprisiona.

O silêncio dos demais participantes também chama atenção. Nenhuma contestação imediata. Nenhum freio ético. O confinamento intensifica emoções, é verdade. O reality show expõe virtudes e fragilidades. O Big Brother Brasil 26, como qualquer vitrine social, amplia o que já existe. Alguns crescem sob pressão. Outros deixam escapar discursos que talvez sempre estiveram ali, apenas contidos.

Mas é preciso dizer com clareza: amor e maternidade não são sinônimos. Ser mãe não é troféu de humanidade. É uma possibilidade, não um critério moral. O amor existe em todas nós, independentemente da experiência da gestação.

No Mês da Mulher, repudiar esse tipo de discurso não é promover cancelamento. É afirmar dignidade. É proteger mulheres de narrativas que as diminuem. É lembrar que somos múltiplas, complexas, capazes de amar em incontáveis formas.

Celebrar as mulheres é garantir que nenhuma seja reduzida a um único papel para ter seu valor reconhecido. É sustentar, com firmeza e lucidez, que a grandeza feminina não cabe em rótulos, e muito menos em ataques gratuitos.

Juliana Soledade é advogada, escritora, empresária e teóloga, pós-graduada em Direito Processual Civil e Direito do Trabalho, além de autora dos livros Despedidas de MimDiário das Mil Faces e 40 surtos na quarentena: para quem nunca viveu uma pandemia, terapeuta e curandeira ayahuasqueira.