Mariana Ferreira é jornalista e consultora em Comunicação || Foto Arquivo Pessoal
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Deslegitimar é o objetivo dessa agenda estrutural, que busca intimidar, hostilizar, ridicularizar, até mesmo com falsos elogios públicos que escondem atitudes misóginas nos bastidores, as poucas mulheres que decidiram e decidem enfrentar mais essa luta todos os dias, numa permanência que vive ameaçada.

 

Mariana Ferreira

É exaustivo ver a permissividade e o nível de tolerância com que é tratada a violência de gênero nos espaços de poder. Poderia aqui elencar inúmeras falas, inclusive institucionais, de evidente violência contra as mulheres que hoje ocupam esses espaços, afastando dos plenários brasileiros mulheres extremamente inteligentes e realizadoras.

A última, de Plínio Valério (PSDB), senador da República, com sua declaração em púlpito (!): “Imagina o que é ficar com a Marina [Silva] seis horas e dez minutos sem ter vontade de enforcá-la”, é um dos fortes exemplos da desqualificação do debate por meio de uma agressão concreta a uma mulher, que também é ministra de Estado, professora, deputada federal eleita, ex-senadora e ativista.

A lei que tornou crime a violência política de gênero completou três anos em agosto do ano passado. Ela estabelece regras jurídicas para prevenir, reprimir e combater a violência política contra a mulher nos espaços e nas atividades relacionadas ao exercício de seus direitos políticos, dentre outras providências (Lei n° 14.192/2021). No entanto, isso não parece intimidá-los, e a reflexão sobre isso precisa ser feita coletivamente.

Deslegitimar é o objetivo dessa agenda estrutural, que busca intimidar, hostilizar, ridicularizar, até mesmo com falsos elogios públicos que escondem atitudes misóginas nos bastidores, as poucas mulheres que decidiram e decidem enfrentar mais essa luta todos os dias, numa permanência que vive ameaçada. A exemplo de 60,4% das prefeitas e vices brasileiras que afirmam já ter sofrido algum tipo de violência política de gênero durante campanhas ou mandatos, de acordo com pesquisa da Confederação Nacional de Municípios (CNM), em parceria com o Movimento Mulheres Municipalistas, que ouviu 224 prefeitas e 210 vices no segundo semestre do ano passado.

Por causa desse ambiente hostil, muitas estão pela metade em suas ambições, representações e realizações. E também pela metade está o número das que têm a intenção de permanecer na política concorrendo à reeleição, conforme esse mesmo estudo.

Não distante, um episódio de misoginia aconteceu, institucionalmente, em Itabuna, no sul da Bahia, quando o vereador Danilo Freitas (União Brasil) usou da sua palavra no plenário da Câmara de Vereadores para desqualificar a primeira-dama do município, Andrea Castro, que poucos meses antes avaliava se juntar às poucas mulheres na política para representar a região na Assembleia Legislativa da Bahia. Ele se retratou por meio de nota, mas a punição exemplar não poderia deixar de existir: ficou impedido pela Comissão de Ética da Câmara de Vereadores de se pronunciar nas sessões legislativas de setembro a dezembro de 2023 e no ano seguinte foi condenado pela Justiça a pagar indenização por danos morais.

A violência política de gênero não fica, no entanto, restrita aos púlpitos das Casas Legislativas, às chacotas de presidentes como Bolsonaro ou aos bastidores das corridas eleitorais. Está também alastrada nas redes sociais e tem sido crescente, ainda mais agora, com a recente decisão de Mark Zuckerberg de dar fim à checagem de fatos nas redes sociais da Meta. Uma vergonha, e tão perto das eleições de 2026. Que da indignação coletiva e do instinto de sobrevivência enquanto seres sociais emerjam mais mulheres para ocupar os espaços de poder brasileiros. E que estejam por inteiro.

Mariana Ferreira é jornalista e consultora em Comunicação.

Dr. Érito Machado (o primeiro à esquerda acima)
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Diante do clima de velório visível na figura do prefeito, os convivas se dirigiram às suas residências sem tocar no assunto. Nem precisavam, pois a sentença lavrada pelo juiz de Direito ganhara os quatro cantos de Irecê.

 

 

Walmir Rosário

Recentemente abordei numa crônica um nosso professor de Direito Civil, Érito Francisco Machado (juiz, desembargador e presidente do TRT-BA 5ª Região), e recebi de colegas pedidos de novas histórias sobre ele. Mesmo sem ser preciso, não deixo de falar sobre seus atributos intelectuais, sua formação humanista e a independência em suas decisões.

Antes de Itabuna, aonde veio assumir a Justiça do Trabalho, foi juiz de Direito na Comarca de Irecê (BA), no final da década de 1950. E o Dr. Érito comentava que a prestação da justiça nos processos ia além dos autos, pois dependia da realidade e situação das partes. “Não posso condenar uma pequena empresa a pagar sentença absurda, fechar as portas e deixar outros 10 pais de família desempregados”, dizia.

E o juiz Érito Machado adotava uma linha de conduta rígida, a começar pelo modo de vestir, sempre social, se permitindo a tirar o paletó e arregaçar as mangas da camisa apenas quando ia à praia. Não frequentava qualquer ambiente, tampouco recebia presentes e outros mimos, obedecendo, rigorosamente, a liturgia do cargo e a educação familiar.

E ele nos contava que antes de ingressar na Justiça do Trabalho era juiz de Direito na comarca de Irecê. Reunia-se diariamente – após o expediente forense – na residência do prefeito, para um bate-papo intelectual seleto, com o padre, o diretor do ginásio, um pastor protestante, além do próprio alcaide e esporádicos convidados.

Certa feita julgou uma ação judicial que envolvia a propriedade de uma grande extensão de terras, cuja sentença foi contra os interesses do então prefeito, anfitrião diário dos encontros vespertinos. Agiu como o magistrado que era, e ao sair do fórum cumpriu seu ritual diário, para a tertúlia cotidiana com os amigos, justamente na casa da parte derrotada na ação.

Para o magistrado, nada fora da normalidade, agiu como deveria, dando o direito a quem deveria, sem o envolvimento inerente de quem detém o poder ou por causa da amizade. Chegou, abriu o portão, chegou à varanda cumprimentou os presentes e se sentou, como todos os dias, na sua cadeira favorita, conforme o ritual diário.

Todos os saudaram efusivamente, como de hábito, seguindo as costumeiras perguntas sobre o dia a dia, a exceção do anfitrião, que respondeu ao seu cumprimento com um muxoxo e sequer abriu os lábios para responder com a cordialidade de sempre. E nosso personagem cumpriu a rotina de sempre: falou sobre os assuntos mais importantes do dia e não foi respondido com a afabilidade de sempre.

De pronto, o Dr. Érito Machado desconfiou da distração do ora dissimulado anfitrião e continuou agindo como nada daquilo lhe dizia respeito. Se dirigiu à mesa, colocou gelo no copo, abriu o litro de whisky e se serviu generosamente, como costumeiramente fazia. Voltou a ocupar sua cadeira e retomou aos assuntos corriqueiros com os outros convidados.

Embora o bate-papo continuasse rolando, o clima não foi dos melhores, por parte do anfitrião, que assistia a tudo e não participava das conversas, como era do seu feitio. Não teceu críticas à falta de repasses de recursos pelos governos estadual e federal, não contou seus planos para o desenvolvimento da cidade, sua querida Irecê, como tratava.

Por volta das 19h30min, seguiram o rito mantido há anos, se despediram e prometeram retomar a discussão dos assuntos na tarde seguinte. Diante do clima de velório visível na figura do prefeito, os convivas se dirigiram às suas residências sem tocar no assunto. Nem precisavam, pois a sentença lavrada pelo juiz de Direito ganhara os quatro cantos de Irecê.

Para o prefeito a retumbante vitória na ação que se arrastava há anos, agora resolvida, seriam favas contadas. E foi o próprio alcaide quem sugeriu ao juiz que desse uma atenção especial ao processo que dormitava nos arquivos do cartório. Com toda a dedicação, o juiz Érito Machado examinou o processo e fez a justiça conforme demonstravam os fatos nos autos do processo.

Ao terminar de contar a história, o nosso professor Érito Machado dava uma verdadeira lição aos seus alunos e amigos. “O direito é pra ser concedido a quem o possui, não pode ser dado por amizade ou vendido a troco de dinheiro ou benesses. No dia seguinte, voltei à casa do prefeito, que já parecia refeito do trauma, conversamos como sempre e bebemos o nosso whisky à vontade”, finalizou a história.

Walmir Rosário é  radialista, jornalista e advogado, além de autor de livros como Os grandes craques que vi jogar: Nos estádios e campos de Itabuna e Canavieiras, disponível na Amazon.

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O aumento do consumo e, por conseguinte, dos preços, elegeu o cacau como a commodity queridinha da vez, derrubando mitos, e a cacauicultura passou a ser implantada em todo o Brasil, inclusive a pleno sol, pelos grandes representantes do agronegócio do oeste baiano.

 

Walmir Rosário

Não existe qualquer ser vivente que registre hoje um só político visitando a Ceplac e as fazendas de cacau do Sul da Bahia. Faz muito tempo que a cacauicultura baiana começou a ser desprezada por alguns setores da sociedade. E quem inaugurou essa virada foi o segmento bancário, fechando as torneiras para os financiamentos de custeio e investimento.

E esse caso de desamor data do final da década de 1980, com a infestação dos pés de cacau com a vassoura de bruxa, doença que dizimou os cacaueiros e quase mata sem dó nem piedade a principal matriz econômica do Sul da Bahia. Sem recursos para honrar seus compromissos com os trabalhadores, o manejo das roças e, sequer, comprar alimentos para a sua sobrevivência, o cacauicultor foi banido do mundo produtivo, comercial.

Nesta data era comum o desembarque de um monte de políticos no Sul da Bahia, para cumprir um extenso roteiro, a começar pelas instalações da Ceplac, fazendas (principalmente as mais infestadas) e redações de jornais, rádios e TVs. Com o cenho franzido, analisavam a situação de penúria do setor cacaueiro e prometiam reverter a terrível situação junto ao governo federal.

Os políticos de situação semeavam esperança ao garantir as ações salvadoras e os oposicionistas culpavam o governo pela imobilidade que resultou no maior crime de lesa pátria contra a região cacaueira. Como sempre, se autointitulavam representantes da lavoura e cobravam uma votação expressiva para eles (claro), pois assim teriam força para eliminar a crise.

E os deputados cobravam a presença dos presidentes da República, que teriam que examinar – in loco – a debacle da antes rica região cacaueira da Bahia. À custa de muita lábia, finalmente apareceu um deles, que por desconhecimento total do assunto parecia perdido nas areias do deserto do Saara. Mesmo assim, experimentou o cacau in natura, na forma de chocolate e o famoso mel afrodisíaco. E fez mais promessas.

Na realidade, mais promessas não cumpridas, ou solucionadas em parte, sempre com notícias alvissareiras. Fora da mídia, os ministérios ou instituições que deveriam alocar os recursos sussurravam que não seria legítimo colocar dinheiro bom no cacau, um negócio ruim. Apesar da situação de miséria, os cientistas da Ceplac começaram dar a volta por cima e apresentaram novos materiais genéticos de qualidade.

Com os novos clones disponíveis – alguns deles prospectados nas fazendas da região –, o entrave continuava pela atávica falta de recursos disponíveis para a implantação dos novos materiais. Os cacauicultores que possuíam negócios diversificados conseguiam renovar as plantações com os clones tolerantes à vassoura de bruxa e de alta produtividade.

Aos poucos as fazendas de cacau foram mudando de donos; os pequenos produtores também passaram a renovar suas plantações. Na mesma proporção em que a cacauicultura ressurgia, a Ceplac era desmontada e o silêncio dos políticos ensurdecia. Enfrentando as adversidades, o cacauicultor conseguiu dar a volta por cima e hoje não ouve mais o lero-lero enganador.

Se no Brasil a cacauicultura conseguiu ser renovada, o mesmo não aconteceu na Ásia e África, acometida por uma série de doenças e adversidades climáticas, o que elevou o preço do cacau no mercado internacional. E esses compradores passaram a enxergar o produto brasileiro com bons olhos, devido à qualidade superior entregue pelos novos cacauicultores brasileiros.

O aumento do consumo e, por conseguinte, dos preços, elegeu o cacau como a commodity queridinha da vez, derrubando mitos, e a cacauicultura passou a ser implantada em todo o Brasil, inclusive a pleno sol, pelos grandes representantes do agronegócio do oeste baiano. E como um negócio democrático os cacaueiros têm se adaptado à caatinga com plantações, inclusive, em diversas regiões de Sergipe.

O silêncio dos políticos na cacauicultura deve ter sido benéfico para o produtor rural, que se ateve mais às questões científicas, em detrimento das promessas não cumpridas de Brasília. A análise não se prende apenas a essas questões e são por demais complexas. Mais uma coisa é certa, os políticos já resolveram problemas da cacauicultura, isso na segunda metade da década de 1950.

Nessa época, o governo federal criou a Ceplac, de início a do financiamento da cacauicultura. Com o visionário José Haroldo, vieram novas fases da Ceplac: a da extensão rural, da pesquisa, ensino e do desenvolvimento. Com isso, atualmente, o sergipano não precisará deixar sua terra natal para trabalhar com o cacau nas inóspitas terras grapiúna de antigamente, pois agora o cacau chegou a ele.

Walmir Rosário é  radialista, jornalista e advogado, além de autor de livros como Os grandes craques que vi jogar: Nos estádios e campos de Itabuna e Canavieiras, disponível na Amazon.

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Valorizar o servidor não é uma mera condescendência do gestor. É, sobretudo, um dever legal.

 

 

Osias Lopes

O SERVIDOR PÚBLICO NA ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA – O subtítulo deste modesto artigo parece até um lugar comum, eis que por obviedade o servidor público é imprescindível para que ocorra, de fato, o funcionamento da chamada máquina pública. Todo serviço público é executado pelo servidor, é ele quem faz acontecer a entrega dos produtos e serviços essenciais à vida na municipalidade. Mas, na prática não é assim que ele é visto e tratado por um determinado segmento de “gestores” que teimam em enxergá-los de maneira estranhamente enviesada, esdrúxula até, a começar por terem a folha de pagamento de pessoal como incômoda despesa. E mais, quase sempre se utilizam da verba de pessoal para a prática nefasta de política assistencialista/clientelista, deturpando todos os princípios básicos que regem a administração pública, resultando no que todos vemos, uma máquina pública entrevada, coxa, sem foco, sem eira nem beira, que pouco ou quase nada serve ao público, sua única razão de existir.

A ESCOLA DE GOVERNO – Contrapondo-se a essa realidade, é interessante lembrar que lá pelos idos dos anos primeiros da primeira década do século XXI, de maneira pioneira, a gestão pública itabunense experimentou a implementação do projeto de uma Escola de Governo, quando foi desenvolvida uma importante fase embrionária com o apoio da sociedade e efetiva participação de autoridades locais, membro do Ministério Público Estadual, profissionais liberais e, fundamentalmente, de professores da UESC, quando ministraram aulas extraordinárias acerca das mais variadas temáticas, tudo voltado à formação e ao crescimento intelectual do servidor, conferindo-lhe conhecimentos de todos os naipes, inclusive e especialmente os voltados à melhoria da gestão municipal.

O MODELO DE CAMPINAS, SÃO PAULO – Essa Escola foi inspirada no modelo então adotado no Município de Campinas, São Paulo, sem formalismos estruturais físicos ou burocráticos que demandassem custos extras, haja vista que para o seu mister eram utilizadas salas de reuniões e auditórios já existentes, com uma programação elaborada a partir das mais ingentes e urgentes carências detectadas no quadro de pessoal decerto que poderia ter progredido mais, mas a mudança de hábitos e de rotina assusta, fez a Escola sofrer os mais variados ataques, até de quem não deveriam vir.

A institucionalização da Escola de Governo. E o fato é que, a preocupação em fazer andar esse projeto era tamanha que o legislador municipal foi convencido da necessidade de institucionalizar a iniciativa, e foi assim que, através da Emenda nº 007/2003, se inseriu no Capítulo II da Lei Orgânica do Município de Itabuna – LOMI, dedicado aos servidores municipais, no § 3º do art. 94, a seguinte obrigação:

Art. 94- …
§ 3º O Município criará Escola de Governo, sob a denominação “Escola de Governo e Desenvolvimento do Servidor Público Municipal de Itabuna” para a formação e o aperfeiçoamento dos Servidores Públicos Municipais, constituindo-se a participação nos cursos um dos requisitos para a promoção de carreira, facultada, para isso, e elaboração de convênios ou contratos entre os entes federados ou privados.

CONSECTÁRIOS ÓBVIOS DA IMPLEMENTAÇÃO DA ESCOLA DE GOVERNO – É fácil de imaginar o melhoramento da gestão municipal, imbuída de capacidade satisfatória para enfrentar os desafios impostos pelas constantes mudanças e transformações trazidas pelos novos tempos, tivesse havido a concretização da criação dessa Escola há mais de vinte anos. Certamente que todos os servidores estariam praticando as melhores técnicas, com melhores conhecimentos, atualizados e muito mais aptos a exercerem suas funções. Para isso bastava aos alcaides que se sucederam anos afora, cumprir com esse dever legal, insculpido na mais elevada norma municipal, popularmente considerada como constituição municipal. Mas o fato é que tal dispositivo foi solenemente ignorado, desprezado, e não bem avaliado também e até pela instituição sindical, que em última análise, poderia e pode requerer em juízo a criação da Escola, ferramenta estratégica e de fundamental importância para o aprimoramento da prestação do serviço público.

RESPEITO À VERDADEIRA MEMÓRIA DA ADMINISTRAÇÃO – Em vez disso, estamos testemunhando alguns “incidentes” que afetam de maneira demasiadamente negativa membros dos quadros de servidores municipais, especialmente o segmento dos mais antigos, demonstrando até mesmo uma certa insensibilidade no trato com quem realmente dedicou e ainda dedica a vida à causa pública, desprezando o conhecimento e a experiência que carregam, verdadeiras memórias vivas da Administração que, observadas pelo gestor com inteligência, sobriedade e respeito, em muito poderiam e podem contribuir para a boa fluência e qualidade dos serviços públicos prestados, assim como para o aprimoramento da atuação dos novos servidores.

O DEVIDO CUMPRIMENTO DA LEI – A mais disso, tem-se ouvido falar sobre o dever de se cumprir a Lei, afirmativa essa, claro, que não merece qualquer reparo. Mas não se pode dizer isso distante da prática e seletivamente, pois não é razoável que se eleja para cumprimento apenas normas que mais satisfaçam ao ego de quem, precipuamente e por ofício, tem esse dever.

A EMENDA CONSTITUCIONAL Nº 103/2019 – Não é assim que, sob esse mesmo argumento de cumprimento da Lei, em nossa cidade se levou a efeito um dispensar indistinto de servidores aposentados, sob o argumento de se estar no cumprimento de ditames constitucionais, o que não passa de meia verdade, pois a Emenda Constitucional nº 103/2019 quer fora do serviço público somente os que a partir de sua vigência se aposentaram, fazendo ressalva expressa quanto aos aposentados anteriormente a ela, excetuando-os, permitindo-lhes, ipso facto, a permanência no emprego.

TODA APOSENTADORIA SERÁ CASTIGADA (??!) – Aliás, se tem notícia de que os servidores aposentados pelo RGPS vêm sofrendo retaliações faz tempo, pois o enquadramento nos cargos criados, coisa que a todos os demais servidores foi garantido, não lhes foi deferido, sendo mantidos, ao que se sabe, num quadro à parte, numa anomalia inexplicável, posto que, antes da EC nº 103/2019, tinha-se por certo que a aposentadoria não causava rutura contratual laboral. Daí, infere-se que, se não havia, como não houve, rutura do pacto laboral, liame esse que seguia indene mesmo ante a aposentadoria, impunha-se o enquadramento do servidor

FUNCIONÁRIO E CARGO. CARGO E FUNCIONÁRIO – Fala-se também que aos servidores aposentados pelo regime geral de previdência gerido pelo INSS foi imposto o regime estatutário. Ora, como dito acima, não houve enquadramento dos mesmos nos cargos criados, não havendo portanto que se falar, in casu, em mudança de regime, pois não há funcionário sem cargo (aqui, ambos os termos, funcionários e cargo, tomados na acepção técnico jurídica trazida pelo Direito Administrativo). Essa situação leva a uma outra perversa anomalia, posto que, não ocupando o aposentado cargo público não há que se falar em vacância de cargo, o que impede a aplicação da Lei Municipal que trata da matéria, pela óbvia impossibilidade de se declarar vacância de cargo sem existir, no particular, cargo a ser vacante.

Pois é… Valorizar o servidor não é uma mera condescendência do gestor. É, sobretudo, um dever legal.

Osias Lopes é ex-secretário de Administração de Itabuna.

Cleonice Monteiro é professora e doutora em Teologia e engajada na causa das mulheres || Foto Divulgação
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O Dia Internacional da Mulher é um dia para relembrar o esforço, a força e a luta de todas, tanto no passado quanto no presente. É triste pensar que ainda precisamos de um dia para nos lembrar disto e dos direitos arduamente conquistados.

 

Cleonice Monteiro

Desde o final do século 19, organizações femininas oriundas de movimentos operários protestavam em vários países da Europa e nos Estados Unidos. As jornadas de trabalho de aproximadamente 15 horas diárias e os salários medíocres introduzidos pela Revolução Industrial levaram as mulheres a greves para reivindicar melhores condições de trabalho e o fim do trabalho infantil, comum nas fábricas durante o período.

Foi escolhido 8 de março porque neste dia, do ano de 1857, as operárias têxteis de uma fábrica de Nova Iorque entraram em greve, e ocuparam a fábrica onde trabalhavam. Elas reivindicavam redução da carga horária diária de trabalho para 10 horas. Porém, o resultado foi a morte de 130 das grevistas queimadas vivas trancadas dentro da fábrica.

Elas tinham como objetivo chamar a atenção para a função social e para a dignidade da mulher, sendo:

a)incentivar a tomada de consciência do valor da mulher enquanto pessoa;
b)destacar o papel desempenhado pelas mulheres na sociedade;
c)romper com os preconceitos e as limitações, que historicamente, vinham sendo impostos à mulher o qual ainda existem até os tempos atuais.

Algumas outras datas são bastante significativas na história da luta das mulheres por direitos iguais.

Em 1691 as mulheres do Estado do Massachusetts conseguem o direito de voto, embora venham a perdê-lo posteriormente (1789).

Em 1788, Condorcet, filósofo e homem político francês, reclamava para as mulheres o direito à educação, à participação na vida política e ao acesso ao emprego.

Quatro anos depois, ou seja, em 1792, no Reino Unido, Mary Wollstpnecraft pioneira da ação feminista, publica uma texto tratando das dificuldades das mulheres em terem direitos; ela denomina seu texto, se não me engano, de algo como “direitos das mulheres- injustiças dos homens”.

Em 1840, nos Estados Unidos, Lucrécia Mott lança os alicerces da Equal Rights Association, reivindicava direitos iguais para mulheres e negros.

Todos somos iguais em dignidade, e o respeito à mesma surge do reconhecimento de que a diversidade não pode, sob hipótese alguma, servir de base para a discriminação, opressão.

O Dia Internacional da Mulher é um dia para relembrar o esforço, a força e a luta de todas, tanto no passado quanto no presente. É triste pensar que ainda precisamos de um dia para nos lembrar disto e dos direitos arduamente conquistados.

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Luiz Conceição é jornalista e bacharel em Direito
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Não há dúvida de que a sociedade precisa refletir caminhos que não sejam drones, guerra cibernética e foguetes flamejantes e bombas sobre suas cidades e cabeças a pretexto de se querer voltar a um passado sem volta.

 

Luiz Conceição

“Em todo o caso, estamos persuadidos, e todos concordam nisto, de que é necessário, com medidas prontas e eficazes, vir em auxílio dos homens das classes inferiores, atendendo a que eles estão, pela maior parte, numa situação de infortúnio e de miséria imerecida. O século passado destruiu, sem as substituir por coisa alguma, as corporações antigas, que eram para eles uma protecção; os princípios e o sentimento religioso desapareceram das leis e das instituições públicas, e assim, pouco a pouco, os trabalhadores, isolados e sem defesa, têm-se visto, com o decorrer do tempo, entregues à mercê de senhores desumanos e à cobiça duma concorrência desenfreada. A usura voraz veio agravar ainda mais o mal. Condenada muitas vezes pelo julgamento da Igreja, não tem deixado de ser praticada sob outra forma por homens ávidos de ganância, e de insaciável ambição…”

O pequeno trecho que abre esta reflexão foi extraído de um texto magnifico que mudou o mundo há 134 anos. Na Rerum Novarum, uma encíclica do Papa Leão XIII, cujo título significa “Das Coisas Novas” ou “Da Revolução das Coisas”, o então pontífice renova a doutrina social da Igreja Católica e fala de esperança. “Fecha o segundo período do movimento social católico e abre o último”, escreveu um teólogo.

A encíclica teve grande importância ao proclamar a Justiça Social na Europa, que enfrentava a Revolução Industrial. Além disso, sustentava a necessidade de novas bases nas relações de trabalho para que a dignidade humana no labor fosse preservada e sustentava o fundamento moral na necessária intervenção do Estado para a solução da “questão social”.

O Papa Leão XIII, sabe-se, ”possuía a arte de ouvir, e de aceitar as reivindicações de que o visitasse, “ao menos em vários casos, deixando-os amadurecer bastante antes de chegar a uma síntese, e sobretudo conseguia se fazer servir de maneira valiosa, embora descontraída e discreta, por seus secretários, que redigiam os textos pontifícios, corrigindo-os uma duas e mais vezes pacientemente até que exprimissem perfeitamente a ideia do Soberano”.

Em 1891, pequenos grupos de ricos e de opulentos impunham à multidão de proletários sua ganância e deve acrescentar-se o monopólio do trabalho e dos papéis de crédito, que se tornaram o quinhão. Se comparados aos tempos atuais, quando donos das big techs se unem aos chefes de plantão para alterar a convivência democrática dos povos, que tais estados antes defendiam com golpes, deposições e outros diabos, o texto com pequenas correções continuam atualíssimo.

“O homem é o lobo do homem” é uma frase popularizada pelo filósofo inglês Thomas Hobbes (1588-1679), a dizer que os seres humanos têm uma tendência natural a prejudicar uns aos outros. Mais atual que isto, somente a luz do sol que nos chega gratuitamente a cada dia depois de noites em que a paz, a harmonia e a convivência social dão lugar a todo tipo de violência que se amplia com as ditas redes digitais ou sociais que não são nem uma coisa nem outra, já que pequeno grupo de sujeitos mundo a fora ardilosamente pregam o ódio e a desarmonia em likes e cortes.

Escrevi a amigos, em tom de pilhéria, que num tempo onde a saúde mental é tema de preocupações mundiais e se populariza termo inglês “brain rot”, ou “cérebro podre”, que a Universidade de Oxford, no Reino Unido, definiu como a palavra (ou expressão) do ano de 2024, efetivamente precisamos de uma nova encíclica ou doutrina a nos encorajar a lutar contra os podres cérebros adultos que confundem ideologia com expressões de ódio, inclusive chefes de estado que imaginam mudar o construído ao longo de séculos e anos com expeditas ordens.

O verbete da Oxford da moda fala da “suposta deterioração do estado mental e intelectual de uma pessoa, especialmente pelo consumo exacerbado de conteúdo superficial no contexto da internet”. Não há dúvida de que a sociedade precisa refletir caminhos que não sejam drones, guerra cibernética e foguetes flamejantes e bombas sobre suas cidades e cabeças a pretexto de se querer voltar a um passado sem volta.

Luiz Conceição é bacharel em Direito (1994) e jornalista desde 1975 (época em que era muito feliz!).

Macarrão, beringela e pancetta substituíram o mocofato || Foto Walmir Rosário
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E de tanto planejar minhas andanças no Carnaval deste ano terminei transgredindo meus conceitos passados. Dei-me ao luxo de passear na avenida no horário vespertino, quando tomei conhecimento que existem blocos de crianças nessa parte do dia. Pelo menos fiquei longe das brigas de galeras dos trios elétricos e poupei minha cansada audição dos pornográficos “paredões”.

 

Walmir Rosário

Nunca escondi que gosto de comer bem e com alimentos de “sustança”, ainda mais quando o período exige, a exemplo das festas de longa duração, como o Carnaval, que requer redobrado vigor mental e físico, este, sobretudo. É um conceito que trago comigo há muito anos, diria até, a perder de vista. E tenho me dado bem com esse hábito.

E digo mais: pelos meus conhecimentos, não os científicos, mas os tornados de domínio público por várias gerações, é preciso repor as energias gastas na maratona carnavalesca. Afinal, a constante movimentação torna os músculos cansados, diria até fadigados, agravados, ainda mais com o consumo do xarope de cevada e outras beberagens destiladas.

E como aprendi na escola do mundo, nada melhor para combater essa fadiga do que as comidas mais energéticas, com músculos, colágenos, gorduras e outras propriedades científicas. Para tal, alimentos cozidos do tipo mocotó, fatada (ou os dois juntos), carnes ensopadas, uma boa e variada feijoada são altamente recomendadas para essas ocasiões.

Um amigo meu, dos pampas gaúchos, também recomenda a alimentação à base de churrasco com carnes malpassadas, aliadas a alguns vegetais, supimpas para recuperar a “moral” antes em baixa. Posso dizer com garantias escritas que aprovei, com algumas ressalvas, no que concerne aos vegetais, muitos deles fora do meu corriqueiro cardápio.

Faço questão de ressaltar que hoje não possuo a mesma disposição de antes. E que com o passar dos tempos a cabeça continua pensando com a mesma rapidez, mas em descompasso com os músculos. Não sei o motivo da desavença entre eles, só sei que hoje possuem conceitos ou vontades diferentes, distintos, o que não é do meu gosto.

Assim como a festa momesca mudou – para pior, acredito –, meu organismo também. Para enfrentar uma semana de intenso Carnaval, é preciso muito preparo conseguido com o auxílio da Educação Física, com malhações diárias e muito suor. E isso apenas para se preparar para a academia de lutas marciais e a defesa dos adversários atrás dos trios elétricos.

Assumo publicamente que não mais sou dotado do vigor de antes – não os necessários para as brigas –, o essencial para enfrentar as muitas horas nos blocos e nas “pipocas” avenida afora. Confesso que hoje dou preferência a locais reservados, nos quais posso me esbaldar com segurança, mantendo o nível de alegria de acordo com os padrões de mordomia.

E de tanto planejar minhas andanças no Carnaval deste ano terminei transgredindo meus conceitos passados. Dei-me ao luxo de passear na avenida no horário vespertino, quando tomei conhecimento que existem blocos de crianças nessa parte do dia. Pelo menos fiquei longe das brigas de galeras dos trios elétricos e poupei minha cansada audição dos pornográficos “paredões”.

Melhor mesmo foi me esbaldar regiamente sentado num bar com visão privilegiada para um palco onde cantores e músicos se revezavam lembrando as marchinhas carnavalescas de anos bastante recuados. Junto de nós foliões mais exaltados cortavam os céus travando inocentes guerras de serpentinas e confetes. A ameaça maior era esses artefatos carnavalescos caírem em nossos copos, que foram devidamente protegidos com bolachões de chopp.

A minha previdência em planejar tudo nos mínimos detalhes foi providencial. Ao que parece atingi em cheio, pensei, não fosse o esquecimento imperdoável no abastecimento da cozinha de casa. E só me dei conta disso no domingo à tarde, ao chegar em casa para o chamado almoço de sustança e recuperar as energias, já em frangalhos.

Minha decepção foi tamanha diante dos pratos colocados na mesa: adeus mocofato, nem sombra do ensopado de chupa-molho, nenhuma notícia do sarapatel. À minha frente, talharim com molho pesto bem recheado de parmesão; dadinhos de berinjela assados ao forno; e pancetta na airfryer. Imediatamente minha cabeça rodou para saber onde errei. Fui obrigado a reconhecer minha culpa.

Já mais calmo, abri uma cerveja e educadamente iniciei minha não esperada refeição. Juntei a fome com a vontade de comer e devorei dois pratos, sempre com o pensamento voltado para a mudança dos tempos. Não se faz mais Carnaval como antigamente, pensei alto, e ouvi minha mulher dizer com uma risadinha estampada. “Melhor rever seus conceitos”. Resignadamente, consenti.

Walmir Rosário é  radialista, jornalista e advogado, além de autor de livros como Os grandes craques que vi jogar: Nos estádios e campos de Itabuna e Canavieiras, disponível na Amazon.

Apresentação da BaianaSystem no Carnaval de Salvador || Foto Alfredo Filho/SecomSSA
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Enquanto isso, uma das poucas bandas que propõem renovação, a BaianaSystem, parece enfrentar dificuldades para conquistar espaço nos canais de mídia durante o Carnaval. Coincidência ou não, suas apresentações frequentemente sofrem cortes na transmissão para dar lugar a artistas mais tradicionais.

 

Dimas Roque

O Carnaval de Salvador, na Bahia, é reconhecido mundialmente por sua grandiosidade e riqueza cultural. Entretanto, ao olhar para o passado e o presente dessa celebração, surge uma questão inquietante: estaria o Carnaval da Bahia envelhecendo mal?

É verdade que o Carnaval de Salvador já viveu momentos inesquecíveis. Recordo-me das imagens vibrantes do Trio Caetanave desfilando pela Avenida Sete há quase cinco décadas. Nessa época, o Carnaval pulsava inovação e encantava multidões com o som das guitarras elétricas dos pioneiros Armandinho, Dodô e Osmar. Anos depois, nos idos de 1985, Luiz Caldas lançou o álbum Magia, que continha o hit Fricote. Assim nascia o movimento Axé Music, um gênero irreverente e contagiante que dominou não apenas o Carnaval, mas também as rádios e festas em todo o Brasil.

No início dos anos 1990, o Carnaval baiano se reinventava novamente. Ricardo Chaves surgia como destaque, trazendo novos ritmos e tornando-se uma sensação nacional. A banda Timbalada, com os talentosos Xexéu, Ninha e Patrícia, conquistou o público com suas inovações visuais e percussivas – os corpos pintados e as batidas hipnotizantes ecoaram mundo afora. Por sua vez, o Olodum revolucionava a música afro-brasileira, encantando artistas como Paul Simon e Michael Jackson, que gravaram ao lado do grupo em Salvador.

No entanto, ao observar os circuitos tradicionais, como Barra-Ondina e Campo Grande, percebe-se uma preocupante estagnação. Artistas renomados continuam a apresentar sucessos consagrados, mas raramente arriscam algo novo. São performances que, por mais brilhantes que tenham sido no passado, já não possuem o impacto inovador de outrora. Enquanto isso, uma das poucas bandas que propõem renovação, a BaianaSystem, parece enfrentar dificuldades para conquistar espaço nos canais de mídia durante o Carnaval. Coincidência ou não, suas apresentações frequentemente sofrem cortes na transmissão para dar lugar a artistas mais tradicionais.

Isso nos leva a uma reflexão crítica sobre o futuro do Carnaval de Salvador. É possível honrar a tradição sem abrir mão da inovação? A resposta é sim. O Carnaval precisa abraçar a diversidade de ritmos e artistas, equilibrando as estrelas consagradas com novos talentos que anseiam por espaço. Existe uma riqueza criativa nos compositores da Bahia que ainda não foi plenamente explorada.

Ao longo de sua história, o Carnaval de Salvador sempre se destacou por sua capacidade de transformação e reinvenção. Para que continue a ser relevante e encantador, é essencial que essa tradição de mudança persista. O público, seja no circuito ou nas telas, merece vivenciar a explosão de cores, sons e criatividade que fez do Carnaval da Bahia uma referência cultural mundial.

Que este espírito renovador sirva de norte para os próximos 40 anos – porque envelhecer bem é, antes de tudo, abraçar o novo sem perder o brilho do passado.

Dimas Roque é jornalista.

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Países como o Brasil, que traz na sua gênese uma cultura de paz, precisam ser e ter voz mediadora, e também voltar-se para dentro e mergulhar um pouco mais nesse tecido divisório, buscando romper com o pseudopatriotismo e alcançar a brasilidade.

 

Rosivaldo Pinheiro

Num país ainda dividido, sem senso de nação, o sucesso do filme Ainda Estou Aqui acabou transparecendo, ainda mais, as nossas vias e veias abertas e, com elas, o nível da polarização existente e persistente.

O filme traz em sua composição a denúncia de um crime. Narra uma parte da nossa história, uma fase que ainda carece ser revisitada, apurada e os seus responsáveis punidos, ainda que seja com a estruturação simbólica de medidas legais aos que já partiram. Nossa saúde e nossa longevidade democrática exigem. Delas, acredito, iniciaremos a nossa construção de nação, coisa que os sucessivos golpes na ordem democrática não permitiram. Não à toa assistimos há pouco todos os desdobramentos que culminaram com o 8 de janeiro de 2023.

É fato que o mundo passa por um momento em que o viés autoritário e autocrata tem tido destaque. Estamos observando uma nova estratégia de dominar o que ainda resta de ativos econômicos capazes de garantir longevidade econômica para os países de maior poderio bélico.

Baseados nessa lógica, estamos assistindo aos últimos acontecimentos geopolíticos, a exemplo das guerras Israel X Gaza, Rússia X Ucrânia e outras com menor exposição na mídia global. A lógica dos financiadores visa apenas o benefício pleno das suas nações: querem comer o mel sem sujar diretamente as mãos.

É preciso, porém sairmos desse modelo para evitar que o pior aconteça. Assim, países como o Brasil, que traz na sua gênese uma cultura de paz, precisam ser e ter voz mediadora, e também voltar-se para dentro e mergulhar um pouco mais nesse tecido divisório, buscando romper com o pseudopatriotismo e alcançar a brasilidade.

A punição de forma exemplar aos autores, financiadores e idealizadores da última tentativa de abater as instituições democráticas, com vistas a estabelecer um novo ciclo ditatorial no país, exige uma mudança de rumo. Precisamos, ao contrário das vezes anteriores, ter punição exemplar. Evitando a ideia de que no patriotismo seja dado o direito de todo poder, seja ele de esquerda ou direita. Algo que precisa ser enfrentado e barrado.

Aí reside, acredito, o combate que vimos por parte dos defensores do golpe contra o filme. Penso que ele seja uma voz da realidade, e traga de forma inquestionável o quanto temos ainda que dar passos na direção da cidadania plena, e no passar a limpo da história. Ainda estamos aqui!

Rosivaldo Pinheiro é comunicador, economista e secretário de Educação de Itabuna.

Capa do livro que reúne poesias do escritor itabunense Firmino Rocha || Reprodução Walmir Rosário
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Ao chegar a Itabuna em início dos anos 1960, o professor Flávio Simões foi um daqueles abordados pelo poeta Firmino Rocha, enquanto passeava com sua filha pela praça Olinto Leone. Em quase todas as tardes Flávio Simões ouvia os poemas de Firmino Rocha.

 

Walmir Rosário

Embora nunca tenhamos marcado qualquer encontro, religiosamente nos víamos, e sempre ao cair da tarde. Posso afirmar que nossos hábitos eram bem distintos em variados aspectos. Assim que terminava o expediente, eu e o famoso operador de som da antiga Rádio Clube de Itabuna, Eliezer Ribeiro (Corpinho de Leão), nos dirigíamos ao Ita Bar para tomarmos um (uns) aperitivo(s).

Aos poucos, vislumbrávamos a figura do nosso personagem cruzar a rua que separava a praça Olinto Leone, onde morava, e embocar no beco em direção ao Ita Bar. Passava rente ao saudoso castelinho, com sua pasta de couro, daquelas que os vendedores viajantes utilizavam àquela época. No interior da pasta, nada de talões de pedidos ou prospectos de publicidades. Só poesias.

Pelo caminho o ritual diário era o mesmo: cumprimentava a todos com sorrisos, algumas frases de elogios, especialmente flores para as mulheres. Essa distinção era rotineira. As pessoas que ainda não o conheciam geralmente olhavam aquela figura com desconfiança, até serem informados e certificados que se tratava de Firmino Rocha, poeta, pessoa de bem, e, para alguns, com a cabeça nas nuvens.

A indumentária era a mesma: um terno surrado, voltado para a cor cinza, às vezes com gravata, bem frouxa no pescoço e a cabeça protegida por um chapéu de baeta. Sempre com um sorriso nos lábios. Se houvesse oportunidade, abriria a maleta e pegaria os papéis soltos ou o caderno e os mostraria, declamando uma das dezenas de poesias.

Ao chegar ao Ita, sentava-se num banco junto ao balcão ou à mesa diante dos convites. Luzia, a garçonete com anos de experiência e conhecimento dos fregueses, lhe servia uma cachacinha pura ou o famoso “leite de onça”, aperitivo da casa. Engrenava a conversa, apresentava seus novos trabalhos, desfiava versos de seus novos poemas.

Nascido em 7-6-1910, à época desses nossos encontros (1964-65 em diante), Firmino Rocha, diplomado em Ciências e Letras, pouco se preocupava com o academicismo e sim com o que lhe rodeava. E assim, rodava, ou rondava Itabuna ao cair da noite, visitando bares e lanchonetes, revendo os amigos, conversando ou declamando versos.

Quem recorda bastante de Firmino Rocha é o advogado Gabriel Nunes (ex-presidente da OAB de Itabuna), muitas das vezes dos encontros na choperia e lanchonete Model, na avenida do Cinquentenário. Para Gabriel, Firmino Rocha era um poeta que quebrou os tabus e padrões da época, com um estilo eminentemente conhecido como o modernismo baiano.

E numa das viagens aos Estados Unidos, Gabriel Nunes foi visitar a sede da Organização das Nações Unidas (ONU), que exibe em seu hall uma bela homenagem a mais conhecida poesia de Firmino Rocha, “Deram um Fuzil ao Menino”, concebida por protesto à Segunda Guerra Mundial. “Assim que vi a mensagem, me senti também celebrado, pois era um grapiúna como o amigo Firmino Rocha”, declara Gabriel.

Mas como o tempo é implacável, Firmino Rocha morre aos 61 anos (1º de julho de 1971), deixando parte de sua obra publicada em jornais de Ilhéus e Itabuna e singelos livros que editou. Mas quis o tempo preparar a reabilitação do poeta itabunense em 2008, por ação do professor Flávio Simões Costa, quando diretor-presidente da Fundação Itabunense de Cultura e Cidadania (FICC).

Ao chegar a Itabuna em início dos anos 1960, o professor Flávio Simões foi um daqueles abordados pelo poeta Firmino Rocha, enquanto passeava com sua filha pela praça Olinto Leone. Em quase todas as tardes Flávio Simões ouvia os poemas de Firmino Rocha. Na FICC chegou a oportunidade de homenagear o poeta itabunense, editando o livro Firmino Rocha – Poemas escolhidos e inéditos, editado pela Via Litterarum.

O meu exemplar, autografado por Flávio Simões, é guardado como uma relíquia em local de destaque na minha biblioteca.

Walmir Rosário é  radialista, jornalista e advogado, além de autor de livros como Os grandes craques que vi jogar: Nos estádios e campos de Itabuna e Canavieiras, disponível na Amazon.

 

DERAM UM FUZIL AO MENINO

Adeus luares de Maio.

Adeus tranças de Maria.

Nunca mais a inocência,

nunca mais a alegria,

nunca mais a grande música

no coração do menino.

Agora é o tambor da morte

rufando nos campos negros.

Agora são os pés violentos

ferindo a terra bendita.

A cantiga, onde ficou a cantiga?

No caderno de números,

o verso ficou sozinho.

Adeus ribeirinhos dourados.

Adeus estrelas tangíveis.

Adeus tudo que é de Deus.

DERAM UM FUZIL AO MENINO

mineiros prestam informações em vídeo sobre o Rio Pardo || Foto Walmir Rosário
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Aqui pra bandas da Bahia o povo ribeirinho do Rio Pardo ainda não abriu os olhos ou, melhor dizendo, não conseguiu convencer os governantes sobre o assoreamento do leito do rio, o fim da navegação, o sumiço dos peixes..

 

 

Walmir Rosário

A crescente preocupação com o meio ambiente vem aproximando os povos que tenham algo em comum. O que lhes unem não é o sangue, mas o que dispõem como a cultura ou meios de sobrevivência. De repente, o morador de Rio Pardo de Minas descobre que tem algo em comum com os canavieirenses, apesar dos quase 600 quilômetros de distância.

E têm: aí os moradores da nascente do rio Pardo, na Serra das Almas, em Rio Pardo de Minas (MG) e deságua em Canavieiras, após percorrer 565 quilômetros e encontrar o Oceano Atlântico. São 220 km em território mineiro e outros 345 em terras baianas. Se chove muito lá no norte de Minas essa água terá que desaguar na ilha da Atalaia, em Canavieiras.

E nesse caminho percorrido, às vezes muitos estragos são causados. Derruba casas, árvores, carrega animais, dá fim a lavouras. Certo que o mineiro não tem culpa, mesmo assim toma todas as providências para que retome a altivez de antes, quando o Pardo tinha água em abundância: pra dar e vender, como dizem. E os resultados positivos saltam aos olhos de qualquer vivente.

Aqui pra bandas da Bahia o povo ribeirinho do Rio Pardo ainda não abriu os olhos ou, melhor dizendo, não conseguiu convencer os governantes sobre o assoreamento do leito do rio, o fim da navegação, o sumiço dos peixes. Mesmo assim, o Pardo ainda é o maior habitat do robalo, pescado por caravanas do Espírito Santo, Rio de Janeiro, Goiás e até São Paulo. Levam toneladas.

A Lyra do Commercio se apresenta ao público em Canavieiras || Foto Walmir Rosário

E o Rio Pardo sempre teve uma responsabilidade muito grande com seus ribeirinhos, essencialmente no Sul da Bahia, onde banha imensos cacauais. Aliás, às margens do Rio Pardo foram plantados os primeiros cacaueiros por Antônio Dias Ribeiro, com as sementes trazidas do Pará por Luiz Frederico Warneau, isso em 1746.

Que o cacau foi e ainda é uma potência econômica da Bahia (e hoje do Brasil), todos sabem, mas poucos conhecem a importância do Rio Pardo na cacauicultura, fornecendo água e fertilizando com suas enchentes. Muitos ainda sabem esse cacau era transportado por canoas até os armazéns de Canavieiras, lembra que somente a canoa Baleia tinha capacidade de levar 200 sacas de 60 quilos (12 toneladas), além da tripulação.

Se a população de Rio Pardo de Minas se preocupa com o Rio Pardo, muitos sul-baianos têm se manifestado ao longo de anos. Nessa conta cabem o Grupo Apaixonados por Canavieiras, Tyrone Perrucho, Miguel Fróes, dentre outros. Uma dessas ações foi a Circunavegação Tyrone Perrucho, percorrendo o Rio Pardo, dando a volta às sete ilhas canavieirenses.

E foi a tenacidade de Miguel Fróes em realizar viagens em trechos do Rio Pardo, feitos em canoas e caiaques, explorando aspectos geográficos e culturais que “desaguou” nesse encontro dos povos do Rio Pardo. Na primeira tentativa, em que os canavieirenses iriam a Rio Pardo de Minas a pandemia não permitiu; feito conseguido agora com os mineiros explorando as margens do Rio Pardo por quase 600 quilômetros, montados em bicicletas.

E como o canavieirense é um grande anfitrião, Miguel Fróes moveu céus e terra para recebê-los em festa, com direito a encontro cultural e musical no Porto Grande (ou velho), justamente às margens do Rio Pardo. E os mineiros mostraram sua música de viola com Waldir Perninha; a cidade e a proteção ambiental com Felicíssimo Tiago e o Tenente Kennedy.

E Canavieiras apresentou sua fanfarra do Colégio Luiz Estadual Eduardo Magalhães (Fanec), a Lyra do Commercio, o Grupo de Percussão Ouro Negro e a Banda Mulheres do Samba. Foi uma sexta-feira (21-02) digna das festas realizadas no Porto Grande (centro histórico de Canavieiras). Neste sábado, a comitiva visitou a chegada das águas do Rio Pardo no Delta de Canavieiras e seu encontro com o Oceano Atlântico.

Em Canavieiras o Rio Pardo tomou gosto pela terra e se espalhou como quis, e continuou seu percurso em forma de V, criando dois leitos, nos quais se acomodou garbosamente. No da direita continuou sendo chamado de Pardo pelos ribeirinhos; no caminho tomado pela esquerda foi batizado como Cipó. Não contente, ao chegar perto da cidade tomou o nome de Patipe.

Ao vislumbrarem a Ilha da Atalaia, voltara a tomar forma única e, unidos num delta, o Pardo emboca na boca da barra para se juntar às águas do Oceano Atlântico. E Miguel Fróes não descansa e promete uma nova Circunavegação Tyrone Perrucho, agora ostentando o número 2, com a presença dos mineiros do Rio Pardo de Minas.

Walmir Rosário é  radialista, jornalista e advogado, além de autor de livros como Os grandes craques que vi jogar: Nos estádios e campos de Itabuna e Canavieiras, disponível na Amazon.

José Cássio Varjão é cientista político
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As opiniões de alguns profissionais do Direito terão uma dose apurada de apelo político, natural num país que naturalizou os arroubos, os palavrões e a falta de liturgia do cargo mais importante da nação.

 

José Cássio Varjão

Ao longo dos últimos 80 anos, diversos acontecimentos globais colocaram algumas profissões no centro das atenções do mundo contemporâneo. Na corrida armamentista/tecnológica entre os Estados Unidos da América e a União Soviética, denominada Guerra Fria, entrou em evidência a atividade científica, com destaque para a chegada do homem à lua, pelo lado dos americanos, e por colocarem o primeiro humano fora da órbita terrestre, ficou a cargo dos soviéticos. Também após o fim da Segunda Grande Guerra, a expansão e a reconstrução econômica, principalmente dos países europeus, os aliados ocidentais, destacaram-se os economistas com a chamada Era de Ouro do Capitalismo ou Boom econômico pós-guerra, criando o Plano Marshall.

Já no século XXI, com a continuação da exploração tecnológica, evidenciando o desenvolvimento de softwares, a indústria de TI, banco e análise de dados, tiveram ênfase as profissões como ciência de dados, engenharia de software e da computação, desenvolvedor mobile, tecnologia da informação, programador web, robótica, marketing digital etc.

Nessa época em que entramos, no segundo quarto do século XXI, além da continuação e do crescimento acelerado das áreas tecnológicas, destaca-se a importância e o conhecimento do profissional de relações internacionais, analisando e discutindo os reflexos do cenário geopolítico mundial, num momento em que o poderio do imperialismo americano se enfraquece – e um mundo multipolar surge, dividindo o centro do poder entre os países que compõe os BRICS, com características de maior integração entre países e organizações internacionais.

No Brasil, desde a época do pós-guerra, entre explosões inflacionárias e crescimento industrial, os economistas também tiveram grande relevância, destacando-se Celso Furtado, Ignácio Rangel, Edmar Bacha e Carlos Langoni. Posteriormente, dentro os diversos planos econômicos criados para controlar os processos inflacionários que teimaram em minar durante toda a segunda metade do século XX, a nossa frágil economia, sobressaíram-se Delfim Netto, André Lara Resende, Pérsio Arida, Edmar Bacha e outros. Pelos acontecimentos recentes, nos próximos meses, frequentarão os telejornais e sites de notícias, com grande visibilidade, os profissionais da advocacia.

Os profissionais do Direito, entre adesões e censuras, discorrerão sobre a denúncia do procurador-geral da República, Paulo Gonet, contra Jair Messias Bolsonaro e et caterva. Será um evento de enorme repercussão e incontáveis narrativas. Em estágio inicial dos embates, ainda na fase de entrevistas e exposições em redes sociais, alguns juristas, consideraram “a denúncia muito forte, consistente e muito bem fundamentada, obrigando os advogados de defesa a trabalharem muito na tentativa de estabelecer o contraditório, objetivado defender seus clientes, sobretudo os mais graúdos e relevantes”.

Por outro lado, outros profissionais trilham caminhos inversos, como demover a credibilidade da delação premiada do tenente-coronel Mauro Cid. Nesse contexto, poderíamos evocar o conceito de paradigma de Thomas Kuhn e a imagem ambígua do pato-coelho, como forma de descrever duas formas diferentes de se ver a mesma realidade.

Mergulhados nos últimos anos por discussões sobre liberdade de expressão e manifestação de pensamento, a nossa sociedade se equilibra entre os limites do estado democrático de direito, esses determinados pelas “quatro linhas” da Constituição, e a negligência da má-interpretação, dolosa ou não, do que são, constitucionalmente, direitos e garantias individuais.

Na filosofia aristotélica, o silogismo é uma forma de raciocínio lógico, que consiste em deduzir uma conclusão a partir de duas premissas, melhor dizendo, uma premissa maior ou uma afirmação geral; uma premissa menor ou uma afirmação específica relacionada à maior, e a conclusão, a inferência lógica que segue das duas primeiras. Em resumo, o silogismo na filosofia aristotélica é uma ferramenta essencial para o raciocínio dedutivo, permitindo a derivação de conclusões válidas a partir de premissas estabelecidas. Como analogia ao equilíbrio do estado democrático de direito, uma linha limítrofe entre dois polos, o silogismo aristotélico se divide em duas partes: o científico, que se baseia em argumentos técnicos e específicos, contendo o valor da verdade, tanto nas premissas, quanto nas conclusões, e o dialético, baseado em juízos hipotéticos e incertos, usados na retórica e na persuasão, referindo-se exclusivamente às opiniões.

A advocacia é uma profissão técnica que defende interesses de pessoas e empresas em questões legais, baseando-se nas leis, decisões judiciais e teorias jurídicas. Nesse caso específico, que julga a orquestração de um golpe contra as instituições da República, a tentativa de eliminação de adversários políticos e de magistrado da alta corte do país, as opiniões de alguns profissionais do Direito terão uma dose apurada de apelo político, natural num país que naturalizou os arroubos, os palavrões e a falta de liturgia do cargo mais importante da nação.

José Cássio Varjão é cientista político com MBA em Cooperação Internacional e Políticas Públicas e pós-graduado em Administração Municipal e Desenvolvimento Local; Administração Pública e Gestão de Cidades Inteligentes; e Gestão de Negócios Inovadores.

Orlando Cardoso está no ar há 64 anos, ininterruptos
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Os locais destinados aos visitantes eram em espaços exíguos e junto às torcidas adversárias, intimidando-os o jogo inteiro. Algumas vezes foi obrigado a transmitir os jogos em cima do teto da Kombi da Rádio Difusora.

 

Walmir Rosário 

Sem sombras de dúvida, o radialista Orlando Cardoso é um ícone da comunicação radiofônica de Itabuna. Não apenas pelos 64 anos ininterruptos à frente do microfone, mas pelo conceito adquirido junto aos ouvintes da região cacaueira. É preciso competência, carisma e credibilidade junto ao público – cativo – por longos anos.

E uma das marcas de Orlando Cardoso é ter responsabilidade em tudo que leva ao ouvinte, com o apoio de boa música e os comentários dos fatos no dia a dia de seus programas. E não é pra menos, pois a credibilidade do comunicador garante uma audiência cativa, com reflexos positivos na área comercial, com anúncios nos programas.

E a simplicidade de Orlando Cardoso não permite que ele fale sobre a publicidade no seu programa diário (matinal) Panorama 640 (meia quatro zero), sem espaços vazios na grade de comerciais. E cheios de orgulho, alguns colegas e amigos dizem que é o único programa a recusar novas publicidades, por um fator inédito: não existe espaço disponível.

Com toda a tranquilidade Orlando revela que o rádio lhe deu muita experiência de vida, a chance de conhecer parte do país, o que jamais teria em outras profissões. E não economiza elogios ao dizer que o rádio sempre foi tudo pra ele, depois de Deus e a família. E em seguida emenda que nunca foi metido a besta, o que lhe ajudou também na política.

Orlando Cardoso trabalhou nas três emissoras AMs de Itabuna – Difusora, Clube e Jornal – sempre disputando o primeiro lugar em audiência, com a mesma tranquilidade, focando sempre na sua comunicação. Numa conversa nossa há algum tempo ele disse que tem muita gente boa de audiência no rádio, mas que não conseguiu se eleger na política por não ser popular, simpático, e que a política não perdoa.

Mas os ouvintes não têm a menor ideia da trabalheira que é ser líder de audiência. E pra começo de conversa, exige um projeto que caia no gosto do ouvinte, acompanhado de músicas e boas informações. No esporte não é diferente e ele mesmo já passou muitos dissabores em estádios onde transmitia jogos da Seleção de Itabuna, a Hexacampeã Baiana de Amadores.

Em muitos desses jogos, os radialistas eram também tratados como adversários e tinham que ter muito jogo de cintura para realizar uma transmissão de qualidade. Os locais destinados aos visitantes eram em espaços exíguos e junto às torcidas adversárias, intimidando-os o jogo inteiro. Algumas vezes foi obrigado a transmitir os jogos em cima do teto da Kombi da Rádio Difusora.

E Orlando Cardoso não nega que era um apaixonado pela Seleção de Itabuna, e os torcedores apaixonados por ele. Nas transmissões sua vibração era transmitida pelo rádio e a torcida acompanhava, a exemplo do gol do Hexacampeonato, em Alagoinhas, quando ele narrou com toda a força dos pulmões o bordão: “É gol Itabunense, torcida grapiúna!”.

E nessa hora balançaram tanto a Kombi que ele não pode ver quem teria marcado o gol, muito menos ouvir o repórter Ramiro Aquino dar os detalhes do gol de cabeça do centroavante Pinga. “Acabou o jogo, entramos na Kombi e voltamos para Itabuna, e somente aí é que fui informado que o gol teria sido de Pinga, mas pouco importava, pois já éramos Hexacampeões”, ainda comemora Orlando.

A primeira participação de Orlando Cardoso no microfone foi na Rádio Clube de Itabuna, indicado pelo radialista e publicitário Cristóvão Colombo Crispim de Carvalho, por volta de 1960, quando narrou um jogo imaginário. Em seguida narrou outro jogo, este de verdade, no Campo da Desportiva, mas não continuou. Em seguida narra outro jogo imaginário na Rádio Difusora, a pedido de Romilton Teles, e é chamado para um teste na emissora, a qual trabalha.

E prestes a chegar aos 83 anos continua firme e forte na condução do Programa Panorama 640 (meia quatro zero) para a alegria de milhares de ouvintes. Vida longa na existência física e radiofônica, Orlando Cardoso!

Walmir Rosário é  radialista, jornalista e advogado, além de autor de livros como Os grandes craques que vi jogar: Nos estádios e campos de Itabuna e Canavieiras, disponível na Amazon.

Os ex-governadores e ex-ministros Waldir Pires e Antônio Carlos Magalhães
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O que Waldir ainda não sabia é que Sarney fazia parte do jogo. Antes da conversa com Waldir, Roberto Marinho e ACM já tinham se reunido com Sarney, exposto o plano e este não se opôs. A Globo tinha autonomia no governo para fazer o que quisesse.

 

José Cássio Varjão

 

Após as eleições de 1962, ainda se recuperando da derrota para Lomanto Júnior, Waldir voltou a Brasília para concluir seu mandato de deputado federal. Perder a eleição por meros 33.623 votos, sabendo que a Igreja Católica foi preponderante para sua derrota, era seu calvário, teria que aceitar, era fato consumado. Numa circunstância eleitoral, até então, inédita, mesmo com a derrota, os dois senadores eleitos para aquela legislatura, Antônio Balbino e Josaphat Marinho, eram da chapa de Waldir Pires.

Os primeiros anos da convivência entre Waldir Pires e Antônio Carlos Magalhães, dois deputados estaduais de primeiro mandato, eram cordiais, principalmente, porque ambos apoiavam o governador Antônio Balbino. ACM sabia da ligação próxima entre Waldir e o governador. O Diário da Assembleia, de 19 de junho de 1955, relata debate acalorado, ocorrido na tribuna da Casa, entre os deputados Adelmário Pinheiro e Josaphat Marinho, ambos da oposição, contra Waldir Pires, sobre a sua presença no governo de Régis Pacheco.

Aspas para Waldir: “Deixei a secretaria em fins de 1953, por imperativos de fidelidade pessoal e política ao hoje governador Antônio Balbino. E deixei as melhores relações pessoais com S. Excia., senhor governador Régis Pacheco. Deixei a secretaria pobre, como hoje o sou. Não tenho coisa nenhuma, absolutamente coisa nenhuma, e vivo exclusivamente dos meus subsídios. Não tenho títulos, nem imóveis ou bens pessoais”. Num aparte, o deputado Antônio Carlos Magalhães, emendou: “mas tem um grande patrimônio moral”. Os dois conviviam civilizadamente.

Em outro momento, conforme discurso publicado no Diário Oficial da ALBA, dia 21 de fevereiro de 1957, ACM fez importante intervenção em defesa do veto do governador a um aumento dos subsídios para os deputados. Foi um pronunciamento firme e contundente contra um acréscimo de 12 mil cruzeiros nos vencimentos dos parlamentares: “um escândalo contra a maioria dos assalariados baianos”, bradou ACM.

Enquanto a maioria dos deputados fazia apartes defendendo a majoração dos seus vencimentos, Waldir interveio afirmando que “a verba pretendida pelos seus pares, era inconveniente na essência, na substância”. Antônio Carlos agradeceu de imediato a manifestação de Waldir: “Eminente líder, agradeço o aparte de V. Excia., – e quando digo eminente líder, digo-o conscientemente por que em qualquer posição que V. Excia. se encontre, nesse plenário, V. Excia. é um líder da moralidade, um líder da boa causa! Consequentemente, tenho somente que agradecer o aparte de V. Excia. que vem em auxílio aos meus argumentos, e isso fulmina a todos quantos queiram sofismar a respeito de um assunto tão importante”.

Foram várias as oportunidades que os apartes, vindos de lado a lado, aconteceram com deferência mútua, sem os entraves da formação política, sobretudo por estarem em posições diametralmente opostas. Para aquele momento, exclusivamente o que os unia era a defesa do governo de Antônio Balbino. Waldir, por sua formação no PSD e rigorosa coerência democrática, não se encontrará na sua trajetória política quaisquer ligações com o campo da direita. Já Antônio Carlos, oriundo da UDN, foi peça chave para sustentação da ditadura militar no estado da Bahia, sendo nomeado pelos militares prefeito biônico em 1967 e, governador em duas oportunidades, em 1970 e 1978, pelos militares.

Em 1963, Waldir Pires é nomeado por João Goulart, presidente da República, e João Mangabeira, ministro da Justiça, para o cargo de consultor-geral da República, que hoje equivale a Advogado-Geral da União. Nessa época, ACM era deputado federal. Com o golpe militar de 1964 e a deposição do presidente João Goulart, Waldir Pires deixa o Palácio do Planalto, direto para o exílio no Uruguai. Waldir e Darcy Ribeiro foram os últimos a deixar o Palácio do Planalto, no momento em que Auro de Moura Andrade declarou vago o cargo de presidente da República, convocando o presidente da Câmara dos Deputados, Ranieri Mazzili, para assumir o cargo.

A reação de revolta de Tancredo Neves entrou para a história da política brasileira, com a célebre frase “Canalha! Canalha! Canalha”. Após quase dois anos no Uruguai, sem possibilidades de se manter financeiramente, Waldir desembarca no aeroporto de Orly, era o dia 18 de dezembro de 1965. A escolha por Paris se dava pelo conhecimento da língua e pela presença dos amigos Max da Costa, Raul Riff, Celso Furtado e Josué de Castro.

Lecionou, com destaque, na Universidade de Dijon, na área de Direito Constitucional Comparado. Sua aula inaugural sobre “Grandes Problemas Contemporâneos”, que revelava o clima político, econômico e social vivido pela América Latina, com a implantação de ditaduras, contou com a presença de quase 200 alunos e diversos professores, todos curiosos em conhecer aquele professor estrangeiro. Waldir tinha provocado grande entusiasmo nos presentes, pelo seu conhecimento de Direito Constitucional. Ao final, com o auditório em suas mãos e todos impressionados com sua oratória, ele se sentiu como “o conquistador do mundo”. Por um período, o sustento da sua família estava garantido.

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“Paris, nunca mais te esquecerei, mas a minha luta é no meu país”.

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Apesar de estabelecido na França, no final de 1969, Waldir decidiu, junto com Yolanda, que após concluir seus trabalhos em Dijon, voltariam ao Brasil. Não queria que os filhos fossem criados longe da sua pátria. “Paris, nunca mais te esquecerei, mas a minha luta é no meu país”. No início de 1970, decidiram voltar, mas para o Rio de Janeiro. Era impossível viver numa Bahia sob a dominação de Antônio Carlos Magalhães, com a tutela do AI-5. Após 12 dias de viagem, Waldir viu uma lancha da Polícia Federal se aproximando no navio, que parou a uns 500m do porto. Um sujeito de terno e gravata o interpelou, para que o acompanhasse. Chegaram à PF antes das 10h da manhã e o interrogatório durou todo o dia. Por que o senhor está voltando para o Brasil? O que o senhor pretende fazer aqui? O senhor volta para a subversão? Qual a organização subversiva o senhor pertence? Vai viver com qual renda? E a luta armada? Mesmo após todas as explicações, de que voltava para o Brasil para criar os filhos no país deles, a PF o liberou, dizendo que sabiam onde ele iria morar e que não poderia sair do Rio de Janeiro sem permissão policial.

Com a aprovação da Lei da Anistia, em 1979, Waldir mais uma vez arruma as malas. Era chegada a hora de voltar para a sua amada Bahia, enfrentar quem quer que seja, reestruturar o PMDB e cumprir o que o povo baiano delegasse. Sua chegada a Salvador, em 12 de janeiro de 1979, foi apoteótica, com mais de 200 pessoas o aguardando no Aeroporto Dois de Julho. Eram dirigentes partidários, deputados, amigos e parentes.

Aquele não foi um acontecimento qualquer. Antônio Carlos não podia ignorar esse evento, tinha que demonstrar receptividade. Então, pediu a Clériston Andrade, que era o presidente do Baneb e ex-colega de Waldir na Faculdade de Direito, que, por sua vez, procurou Gerbaldo Avena, cunhado de Waldir, para sondar sobre o encontro entre os dois. A proposta era Waldir ir ao encontro de ACM. A resposta foi positiva, porém, com ACM indo ao encontro de Waldir. “Pode mandar dizer a Antônio Carlos que o recebo na minha casa. Ele sabe que sou um sujeito educado”, disse Waldir.

O encontro se deu na casa de Gerbaldo, irmão de Yolanda. Foi breve, ameno, com gentilezas e amabilidades entre os dois casais. ACM estava acompanhado de D. Arlete e, ao se despedirem, Waldir foi incisivo, dizendo que agradecia a visita, mas não poderia fazer o mesmo, pois ACM era um representante daqueles que oprimiam o Brasil e a Bahia, que exercia a ditadura no Estado, de modo que não poderia retribuir a visita. Com essa atitude, Waldir marca terreno na política do estado da Bahia, cortando os laços com quem governava com um chicote numa mão e uma mala de dinheiro na outra. Tinha retornado para resgatar o PMDB, que ainda era adesista, e dessa missão ele não abriria mão.

Em 1985, entre as atividades do ministério e a campanha para o governo do estado, a saúde de Waldir sentiu o esforço. No dia 27 de julho, após o encerramento da convenção do PMDB, um comício seria realizado na Praça da Sé, centro de Salvador. Com a aglomeração de pessoas nas ruas, o carro não pôde chegar ao local do evento, ficando estacionado da Rua da Ajuda. Waldir seguiu a pé com outros correligionários, quando se sentiu mal na Rua do Tira Chapéu, ao lado da Câmara de Vereadores. Tinha asma, que foi sendo agravada pelas andanças pelo interior do estado. Os adversários, cientes da sua enfermidade, faziam poeira aonde ele chegava para os comícios. Após esse incidente, Waldir foi para o Rio de Janeiro para a realização de exames mais apurados, tinha vivido na cidade por 9 anos. Preferiu fazer os exames no Hospital dos Servidores do Estado, se recusando a usar instituições privadas. Nessa internação, só foi permitida a presença de familiares ou de médicos. ACM, com seu diploma de médico, esteve no hospital para visitá-lo, talvez como um sinal de aproximação. Porém, foi enfaticamente barrado pela filha Ana Cristina, que não admitiu a presença dele.

Em 1986, durante um ato em alusão aos 100 dias do seu governo, Waldir e Yolanda Pires recebem a notícia do suicídio de Ana Lúcia Magalhães, de 28 anos, filha de Antônio Carlos. Mesmo sendo membro da família do seu principal adversário, o ato foi suspenso em respeito à dor da família Peixoto de Magalhães. Waldir e Yolanda passaram pela mesma tragédia, na morte de Waldemir Pires, filho do casal.

Enquanto Waldir estava no exílio, ACM já tinha sido nomeado prefeito de Salvador, governador do estado e seria empossado novamente como governador, em 15 de março daquele ano, 1979 – na mesma época que solicitou aquela visita, via Clériston Andrade. Com o término do seu primeiro mandato como governador, em 15 de março de 1975, Roberto Santos foi indicado para o cargo, escolha que contrariava ACM, que desejava a indicação de Clériston Andrade. Mário Kertész, ex-prefeito de Salvador, num documentário realizado pela Rádio Metrópole, de sua propriedade, disse que “após deixar o Palácio de Ondina, Antônio Carlos passava o dia de pijama, caminhando de um lado para o outro na varanda da sua casa, na Graça. Andava meio depressivo”. Concluiu. ACM entrava no ostracismo.

Em novembro de 1975, o ministro das Minas e Energia do governo de Ernesto Geisel, Shigeaki Ueki, resolveu demitir o presidente da Eletrobrás, Mário Bhering. Ueki e Golbery do Couto e Silva, chefe da Casa Civil, convenceram o Alemão, como era chamado Geisel, a nomear ACM para o cargo. Ligaram para ACM e adiantaram que ele seria nomeado para a Eletrobrás: “o presidente vai lhe chamar”. Antônio Carlos, que não sabia bulhufas sobre a função que deveria assumir, voou para o Rio de Janeiro, se trancou num quarto, por um fim de semana, para aprender o que fosse possível, com o intuito de impressionar o presidente. Fingindo não saber de nada, Geisel lhe fez o convite, e ACM verteu conhecimento sobre o desafio que iria assumir. ACM foi salvo pelo gongo, por Ueki e por Golbery. Esse momento da vida de ACM, foi preponderante para seu futuro político, pois, ao ser alçado a um cargo no governo federal, com dimensão nacional, ele passa a ter maior relevância dentro do grupo, que já foi comandado por Juracy Magalhães.

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Com a interferência do amigo Roberto Marinho, dono da Rede Globo, ACM foi indicado para o Ministério das Comunicações. A amizade dos dois foi construída no período em que esteve na Eletrobrás.

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Entusiasta da candidatura de Mário Andreazza para suceder a João Figueiredo, ACM fez forte oposição à Paulo Maluf na convenção nacional do PDS, em 1984. Maluf venceu Andreazza por 493 a 350 votos. Antônio Carlos mudou de lado e compôs a Aliança Democrática que elegeu, em 15 de janeiro de 1985, Tancredo Neves. Com a interferência do amigo Roberto Marinho, dono da Rede Globo, ACM foi indicado para o Ministério das Comunicações. A amizade dos dois foi construída no período em que esteve na Eletrobrás. A influência de Marinho para a formação do governo era tão grande que Tancredo dizia: “eu brigo com o ministro de Exército, mas não com Roberto Marinho”. Quando o nome de ACM foi ventilado para compor o ministério, Tancredo disse a ACM, com o intuito de agradar ao dono da Globo: “o senhor se incomoda de Roberto Marinho lhe fizer o convite para ser ministro”? ACM respondeu: “não, não me incomodo, ele é meu amigo”. O detalhe dessa negociação de cargo é que Roberto Marinho não aceitou que ele fizesse a indicação, afirmando que “se o convite fosse dele, estaria enfraquecendo Antônio Carlos, que deveria ser visto como um ministro do presidente, e não da Globo”. Antônio Carlos Magalhães foi o único ministro a ficar na pasta por todo o governo Sarney.

O ápice da disputa política entre Waldir e ACM aconteceu quando a transmissão da Rede Globo, na Bahia, que era feita pela TV Aratu, desde 1969, tinha na família de Luiz Vianna uma das suas proprietárias. Já a TV Bahia, fundada em 10 de março de 1985, era afiliada à Rede Manchete e tinha como seus donos ACM Júnior e César Mata Pires, genro de ACM. No final de 1986, a Rede Globo oficializa à TV Aratu a não renovação do contrato de transmissão.

Waldir Pires estava atormentado com essa situação desde o final de 1986, ou seja, o fato foi consumado antes dele tomar posse como governador. Definitivamente, ACM se municiou de todas as condições favoráveis pela condição de Ministro das Comunicações para golpear a família Vianna e dominar a comunicação do estado, visto que já era o dono do jornal Correio da Bahia, fundado em 1978. Waldir procurou o presidente Sarney, ainda em novembro de 1986, informando sobre os impactos que aquela decisão teria para o PMDB e para seu governo. Como seria possível aparelhar o seu adversário, derrotado de forma humilhante, semanas antes, premiando-o com poder fogo suficiente para criar sérios problemas ao seu governo? O que Waldir ainda não sabia é que Sarney fazia parte do jogo. Antes da conversa com Waldir, Roberto Marinho e ACM já tinham se reunido com Sarney, exposto o plano e este não se opôs. A Globo tinha autonomia no governo para fazer o que quisesse. Coincidência ou não, a TV Mirante, do Maranhão, foi fundada em 1987, por Fernando Sarney, filho de José Sarney, como transmissora dos canais SBT e, em 1991, passa a ser a transmissora da Rede Globo.

Em 1987, a bancada federal do PMDB baiano, denunciou a Sarney o escândalo das concessões de estações de rádio FM praticadas por ACM, em benefício de pessoas ligadas a ele. À época, o ministro admitiu que pudesse ter beneficiado algumas pessoas, corroborando que tais concessões eram feitas de acordo com interesses do governo. De acordo com o Ministério das Comunicações e do Diário Oficial da União, entre 1985 e 1988, durante todo o governo Sarney, foram outorgadas 632 emissoras de rádio FM, 314 de rádio OM e, 82 concessões de TVs, totalizando 1.028 concessões e permissões.

O Instituto de Estudos e Pesquisas em Comunicação (EPCOM) ilustrou como se estruturou o chamado, “coronelismo eletrônico”, baseado no domínio de emissoras de televisão. O jornalista Sérgio Murillo, presidente da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) avaliou, que “ACM ajudou a formar a imagem do ministério como um cartório de grupos de rádio e TV do país. Ele era o agente político desses grupos que controlam a mídia no Brasil. E foi um dos mais competentes neste sentido, nessa tradição de misturar os interesses públicos com interesses privados”.

Na caminhada para 1986, em determinado momento, ainda na fase das articulações, ventilou-se a possibilidade de composição com o PDS, incluindo ACM, nos moldes do que Tancredo Neves construiu em 1985. Era um novo momento do país, era a Nova República, a ditadura derrotada, existiam novas possibilidades e desafios. Era a hora da abrangência, não da exclusão. ACM também não descartou essa aliança, não tinha interesse em disputar o governo da Bahia, mas queria uma vaga no Senado. Nessa discussão, os dois lados sabiam que existia um risco calculado, pois os anos passados deixavam as pontes bastante avariadas e atravessá-las seria um alto risco. Waldir experimentou o exílio, as dificuldades para sobreviver, sentira a violência da ditadura, consigo e com vários companheiros de caminhada. Antônio Carlos fez o caminho oposto, participou de tudo no golpe de 1964, era um dos homens fortes do regime militar, governou em três oportunidades indicado pelos militares. ACM só foi consagrado pelo escrutínio popular nas eleições de 1990, na sucessão de Nilo Coelho. “Os homens fazem a sua história. Porém, não a fazem como querem, sob circunstâncias de sua escolha, e, sim, sob aqueles com que se defrontam diretamente, legadas e transmitidas do passado”. Karl Marx. As circunstâncias históricas e o legado do passado não permitiram que selassem a aliança.

Como prometido durante a publicação da primeira parte sobre a vida e as controvérsias da carreira política de Waldir Pires, essa segunda parte tratou da convivência entre WP e ACM. Como essa narrativa se estendeu um pouco mais do que imaginei, será necessário descrever, em outro texto, sobre o poder de ACM em interferir, via governo federal, para dificultar as ações do governo Waldir Pires e, consequentemente, sua renúncia para concorrer, junto com Ulisses Guimarães, nas eleições presidenciais de 1989.

José Cássio Varjão é cientista político com MBA em Cooperação Internacional e Políticas Públicas e pós-graduado em Administração Municipal e Desenvolvimento Local; Administração Pública e Gestão de Cidades Inteligentes; e Gestão de Negócios Inovadores.

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Em Itabuna, Tasso Castro lança livro sobre a Copa Rio de 1952
Tempo de leitura: 3 minutos

 Tasso Castro deixa clara a mudança no Fluminense, que do pejorativo timinho de 1951 se transformou no campeão Carioca do mesmo ano e continuou com seu poderio em campo, se sagrando campeão Mundial de Clubes, no ano seguinte.

 

Walmir Rosário

 

 

 

 

 

Um livro para ficar na história dos torcedores do Fluminense carioca, ou das Laranjeiras, como queiram, estará à disposição dos tricolores de todo o Brasil, contando a história da 2ª Copa Rio, conquistada pelo Fluminense, em 1952, data do seu cinquentenário. E a obra do escritor Tasso Castro – 1952, A maior conquista do futebol tricolor – será lançada nesta segunda-feira (10 de fevereiro), às 18h30min, no Shopping Jequitibá, em Itabuna.

De pronto, vale avisar aos tricolores mais moços, que a Copa Rio foi o primeiro Campeonato Mundial de Clubes, realizado pela então Confederação Brasileira de Desportos (CBD), a CBF da época, com licença da Federação Internacional de Futebol (Fifa). Os jogos eram realizados no Rio de Janeiro e São Paulo, por equipes da Europa e da América Latina, duas delas brasileiras.

E o texto cirúrgico e preciso é o resultado de pesquisa realizada por Tasso Castro, que conta em detalhes o futebol da época, ressaltando o grande feito do Fluminense, desde a participação do Campeonato Carioca de 1951, considerado um timinho pela mídia. Além de faturar o Carioca de 51, os dirigentes ainda convenceram a CBD e a Fifa a realizarem a Copa Rio um ano antes, já que seria realizada de dois em dois anos, portanto, em 1953.

No livro, o Autor também mostra que o Fluminense foi o primeiro time brasileiro a vingar a nossa derrota de 1950 para a Seleção do Uruguai, que ficou conhecida como o “Maracanazo”. Isto porque o Fluminense jogou contra o Peñarol e aplicou um “chocolate” de 3X0, e nem tomou conhecimento dos carrascos Ghiggia, Schiaffino, dentre outros. Obdúlio Varela não jogou por estar contundido.

A cada jogo o Fluminense de Castilho, Píndaro, Pinheiro, Jair, Édson, Bigode, Lino, Telé, Orlando, Vilalobos, Marinho, Didi, Robson, Quincas, Carlyle, Simões e cia., foi derrotando seus adversários, apesar dos susto inicial no 0X0 contra o Sporting português. Aos poucos se firmou e não tomou conhecimento do Grasshopper (suíço); Peñarol (uruguaio); Áustria Wien; e o Corinthians (dois jogos nas finais). O 1º venceu por 2X0, e empatou o segundo em 2X2.

Os leitores não perdem por esperar, pois além das informações gerais sobre cada uma das partidas, ainda poderão conferir as análises realizadas pelos jornalistas das maiores publicações esportivas. Nelas, cada atleta é estudado em cada partida, e nem mesmo Didi, que viria a ser conhecido como o “Senhor Futebol” escapou das críticas, apesar de considerado o craque da competição.

No texto, Tasso Castro deixa clara a mudança no Fluminense, que do pejorativo timinho de 1951 se transformou no campeão Carioca do mesmo ano e continuou com seu poderio em campo, se sagrando campeão Mundial de Clubes, no ano seguinte. “Com certeza, vencer a Copa Rio de forma invicta demonstra um Fluminense Espetacular”, ressalta o Autor.

O livro 1952 – A maior conquista do futebol tricolor, é formatado em 5 capítulos: I – Copa Rio, 1951, II – Campeonato Carioca 1951, III – Copa Rio 1952, IV – O mundial da Fifa 2000; e o V – Testemunhos de tricolores, além de prefácio, a extinção da Copa Rio e posfácio. Em cada um dos depoimentos os tricolores demonstram a paixão pelo Fluminense, que vão desde a transferência do amor aos filhos até a participação nos jogos em cidades distantes.

Sobre o autor, Alexandre Berwanger escreveu: “Se não bastasse o Fluminense Football Club ostentar entre os seus torcedores Nelson Rodrigues, o “Shakespeare brasileiro”, Paulo-Roberto Andel, o “João do Rio do Século XXI”, também tem Tasso Castro, o “Novo Jorge Amado”, escritor baiano talentoso radicado em Itabuna que publicou outros três livros sobre o Tricolor:

* “Fluminense, memórias de uma paixão” (2011).

* “Oxente, Somos Flu!” (2018).

* “Doces Vitórias” (2022).

Esse seu quarto livro, como o nome indica, aborda a conquista da Copa Rio de 1952, o primeiro título internacional oficial do Fluminense, competição organizada pela CBD, autorizada e acompanhada pela FIFA para a qual segundo o seu Estatuto toda a competição acompanhada por ela tem o caráter de oficial.

Em 1928 o Fluminense conquistou as suas primeiras taças internacionais, amistosas, mas essa é outra época, outra história, embora também muito retumbante.

Além de escrever algumas linhas no excelente livro tenho a satisfação de ter contribuído com a imagem da capa, a do troféu tão significativo para nós tricolores”, finalizou.

Walmir Rosário é radialista, jornalista e advogado.