Arquivo Walmir Rosário
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Walmir Rosário

Desde a segunda metade da década de 1950 que os torcedores de Itabuna e do Fluminense de nossa paróquia passaram a ter um xodó especial com um jogador, considerado a revelação e que atuou até no Itabuna Esporte Clube, nos fins da década de 1970. Bom driblador, embora sua marca maior fosse o poderoso petardo em direção ao gol. O terror dos goleiros.

Durante anos construiu sua história nos campos de Itabuna, Ilhéus, Itajuípe, Alagoinhas, Santo Amaro, São Félix, Belmonte, e onde mais a Seleção de Itabuna (amadora) jogasse. Não pense que ele não encantou a capital baiana, a Salvador dos grandes times profissionais. Em 1957 ele bagunçou as partidas nos campos da Graça e na Fonte Nova como se estivesse no quintal de casa.

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Santinho era mais que um jogador de futebol, um craque que sabia impor, ao mesmo tempo, o respeito e a admiração dos adversários. Fora de campo, um homem com amigos tantos que surpreendia até mesmo os que o conheciam. Deixou o futebol e foi cuidar dos seus afazeres profissionais em várias áreas, incluindo a Ceplac e a Tevê Santa Cruz.

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Pois é, assim era Santinho, que na vida civil levava o nome de Gilberto Silva Moura, que não se intimidava em jogar na casa do adversário, seja lá qual fosse. No dia 4 de abril de 1957 jogou a partida final do Torneio Antônio Balbino contra a Seleção de Feira de Santana, por ocasião da inauguração dos refletores do Estádio da Fonte Nova.

Jogo empatado em 1X1 e a disputa semifinal definida nos pênaltis, que seriam batidos por apenas um jogador de cada selecionado. Imediatamente o técnico da Seleção de Itabuna escolheu Santinho para bater as cobranças. Cinco penalidades batidas pela Seleção de Feira de Santana: cinco gols. O mesmo placar foi marcado por Santinho. Na segunda série, o mesmo resultado. O árbitro apita para a terceira série e Santinho marca os cinco gols, e para alegria dos itabunenses, o goleiro Carlito defende uma penalidade. Agora era a final.

Dois dias depois a Seleção de Itabuna vence a Seleção de Alagoinhas por 2X0 e o Torneio Antônio Balbino. Na tribuna de honra, autoridades das mais diversas, entre elas o governador da Bahia, Antônio Balbino, o ministro da Guerra, Marechal Lott e o presidente da República, Juscelino Kubistchek, que entregou a taça aos jogadores. Festa em Itabuna e os jogadores chegam como grandes heróis.

Alguns meses depois, fins de 1957, a Seleção de Itabuna volta a Salvador para disputar a final do Campeonato Baiano Intermunicipal contra a Seleção de Salvador. Ganha a primeira partida por 2X0, no campo da Graça, e aplica 3X1 no jogo de volta em Itabuna. Neste campeonato, num jogo bastante tumultuado em Ubaitaba, após a expulsão do goleiro Asclepíades, Santinho, com apenas 20 anos foi escolhido para concluir a partida no gol. Itabuna vence por 4X0.

Santinho na Seleção de Itabuna (em pé, o segundo da esquerda para a direita) || Arquivo Walmir Rosário

E aí Santinho não parou mais até ganhar o Hexacampeonato e estrear no Itabuna Esporte Clube profissional, em 1967. Durante todo esse período, ele se tornou um dos grandes líderes da Seleção de Itabuna. E fez por merecer todo o carinho da torcida, que vibrava com suas jogadas, seu chute certeiro que fazia tremer zagueiros e os goleiros. E não era pra menos, pois mais de uma vez seus petardos furavam as redes adversárias, literalmente.

Santinho sabia impor respeito aos adversários dentro das quatro linhas. Fora de campo, mais ainda. Ele se considerava o protetor dos colegas, principalmente dos garotos recém-chegados no time ou na seleção. Entre eles os “meninos” Bel e Lua, convocados para a Seleção de Itabuna aos 16 anos. No Fluminense, seu Astor, pai de Lua, delegou a Santinho os cuidados com o filho Lua.

Em campo não tinha medo de cara feia nem de zagueiros violentos. Resolvia tudo com sua autoridade de craque de futebol, intimidando os adversários com jogadas mirabolantes e petardos em direção ao gol, com um aproveitamento altamente positivo. Com o tempo soube utilizar sua sabedoria para jogar recuado – em todas as posições –, mesmo na defesa, aproveitando o seu conhecimento de futebol para potencializar as jogadas sem a energia física de antes.

Santinho era mais que um jogador de futebol, um craque que sabia impor, ao mesmo tempo, o respeito e a admiração dos adversários. Fora de campo, um homem com amigos tantos que surpreendia até mesmo os que o conheciam. Deixou o futebol e foi cuidar dos seus afazeres profissionais em várias áreas, incluindo a Ceplac e a Tevê Santa Cruz.

Indiscutivelmente, foi o jogador símbolo da Itabuna das décadas de 1950, 60 e 70, época em que os craques abundavam, ou melhor, como se dizia naquela época, “davam no meio da canela”. E Santinho se sobrepunha às situações ao jogar nas posições em que era escalado, com toda humildade de sua sabedoria, com a intenção de dar tudo de si pela equipe em que jogava.

Santinho nos deixou em 7 de julho de 2009, mas ainda ecoam em nossos ouvidos a voz dos narradores em suas jogadas e os gritos de gol!

Walmir Rosário é radialista, jornalista e advogado, além de autor de livros como Os grandes craques que vi jogar: Nos estádios e campos de Itabuna e Canavieiras, disponível na Amazon.

Valdemar Broxinha, com seu violão, no bar Katixa, em Una || Foto Walmir Rosário
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Walmir Rosário

Os sonhos fazem parte da vida de qualquer ser humano, isto é fato, embora possam ser diferentes, como os dedos de nossas mãos, mas existem e são guias para a formação de cada um. Apesar de não ter qualquer estudo ou formação em psicologia ou atividade afim, já presenciei muita gente abandonar os sonhos da infância e juventude e partir para caminhos diferentes.

Volta e meia somos surpreendidos com mudanças substanciais na vida de uma pessoa que enveredou por um caminho profissional e lá pra frente embica por outro, sem qualquer aviso prévio. Na carreira acadêmica não é diferente e não sei o que passa na cabeça dessas pessoas, que próximos a receberem os canudos mandam tudo pros ares, recomeçam em outro curso e se sentem felizes.

Eu não escondo a admiração que tenho pelas pessoas que desde cedo se envolvem pela carreira musical – mesmo a amadora –, pela dedicação, como se não houvesse “outro amanhã” nesse mundão de Deus. Envolvem-se com a arte de cantar ou os instrumentos musicais nas manhãs, tardes e noites com a vocação de um monge a repetir mantras sagrados com a maior tranquilidade.

Num desses sábados passados, como de costume, cheguei à casa de meu amigo e parceiro de ronda nos bares de Canavieiras, Valdemar (Araújo) Broxinha, para sairmos sem lenço ou documento. Jogaríamos conversa fora, veríamos os amigos, apreciaríamos algumas cervejas, tira-gostos de sustança, sempre ao som do violão e voz desse sonoro amigo.

O show em Camacan foi a gota d’água para Valdemar encerrar sua carreira, sob o pretexto de prejuízo nos seus afazeres profissionais na empresa em que era dirigente.

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Para minha surpresa, ele já me esperava na varanda fazendo vibrar as cordas do violão em sonoras melodias. Espantei-me, não pelo fato de tocar e cantar, mas das músicas que ora executava com total maestria, pois eram obras de Sir Charles Spencer “Charlie” Chaplin, Jr, compostas para seus filmes, e que fizeram e fazem um estrondoso sucesso em todo o mundo.

Ele dedilhava Smille, do filme Tempos Modernos; Feelings, de Morris Albert; passando por Maria Helena, cantada por Altemar Dutra; dentre outras obras de sucesso. E Valdemar somente encostou o violão para me servir uma bela cachaça, Amansa Búfalo, se não me engano. Retomou a apresentação apenas com a minha presença na plateia. Senti-me deverasmente privilegiado.

Como sou conhecedor do sentimento de Valdemar Broxinha, me conservei calado, ouvindo com atenção aos acordes sonoros do violão e sua voz suave, apaixonada pelo repertório escolhido. Nosso músico não tem nada a ver com o outro conterrâneo baiano, João Gilberto, mas também se irrita com os presentes que não respeitam a apresentação artística, mesmo em um boteco.

Nos áureos tempos da Bossa Nova e Jovem Guarda, Valdemar Broxinha, crooner da Banda Christians, de Canavieiras, era sucesso garantido em suas apresentações nas matinês, vesperais e soirées. Entre os pontos altos da banda, além do repertório e sonoridade, a impecável vestimenta de cortes bem assentados nos smokings, passeio completo e, no máximo esporte fino.

E o repertório dos Christians não ficava nada a dever aos grandes artistas nacionais e internacionais, tanto assim que ensaiavam os novos lançamentos para entregar – de pronto –, aos seus fãs. Naquela época fazia sucesso a música Meu nome é Gal e os músicos se esmeraram nos ensaios a semana inteira visando estar tinindo na apresentação de domingo em Camacan.

Mas eis que nosso artista resolveu esnobar e, sem comunicar aos integrantes da banda, se apresentaria com uma veste hippie, incluindo uma peruca com os cabelos desgrenhados como a própria Gal Costa. E a plateia não cansava de pedir o sucesso Meu nome é Gal. A banda faz uma pausa e ao retornar, entra o crooner Valdemar Araújo, com seu personagem, cantando como se fosse a própria Gal Costa.

Assim que entram no palco e começam a cantar, a plateia, atônita, inicia a apupar o personagem encenado por Valdemar, que contrastava com o restante dos músicos, estes em seus comportados ternos. Nova música, Valdemar retorna com sua vestimenta padrão e o baile segue normalmente, embora nosso crooner tenha permanecido magoado com as troças.

O show em Camacan foi a gota d’água para Valdemar encerrar sua carreira, sob o pretexto de prejuízo nos seus afazeres profissionais na empresa em que era dirigente. Agora somente tocava com os amigos. E foi justamente o amigo Batista quem resolveu reabilitá-lo na sua carreira intermunicipal, marcando com seu compadre Almir uma apresentação no conceituado boteco Katixa, na vizinha cidade de Una.

E na sexta-feira partimos para Una com a disposição de presenciar uma apresentação de Valdemar Broxinha, em alto estilo, dando a volta por cima em um show intermunicipal, após quase meio século do episódio de Camacan, a ser definitivamente esquecido. Batista, este que vos fala, o Almirante Nélson e Alberto Fiscal. Apoio moral em peso.

Reunido o público frequentador, todas as atenções eram voltadas para Valdemar Broxinha e seu violão. E ele iniciou o show com muito cuidado, se preparou com as honras da casa após umas cervejas e um mocofato de fazer gosto. Sou testemunha e dou fé que Valdemar foi sucesso absoluto, tanto assim que duas novas apresentações foram agendadas: uma em Canavieiras e a volta triunfal a Una.

Finalmente o fantasma de Camacan foi exorcizado!

Walmir Rosário é radialista, jornalista e advogado, além de autor de livros como Os grandes craques que vi jogar: Nos estádios e campos de Itabuna e Canavieiras, disponível na Amazon.

O agrônomo José Alberto de Lima
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Walmir Rosário

A vida do ser humano não se resume numa série de planos. Desde cedo os amigos e parentes começam a perguntar o que você quer ser quando chegar à fase adulta. Questionamentos fáceis, respostas difíceis, embora na maioria das vezes os pimpolhos respondam sem pestanejar: aviador, médico, motorista, engenheiro e, pasmem, até políticos.

Ainda nesta fase, não há qualquer planejamento, no sentido científico, quem sabe muitos sonhos – pensamentos – que passam pela cabeça da criança ou adolescente, geralmente o que busca se espelhar em parentes ou quaisquer outras pessoas com as quais se identifique. Quem sabe lá na frente mude de ideia ou abrace outras oportunidades. O que é natural.

E o exemplo da dedicada vida profissional transferiu para a família, da qual sempre se orgulhou, enaltecendo o convívio com a esposa, seus quatro filhos, todos bem-criados e que lhe deram sete netos. Sim, no alto dos seus 73 anos era chegada a hora de dar um tempo nas constantes viagens a trabalho, e privilegiar a família e os amigos mais chegados.

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Há quem defina como uma pessoa vocacionada, determinada pelos sonhos de criança a que abraçou a carreira com afinco. Tenho um amigo que é tal e qual o pensamento que ora descrevo. Estudou, se diplomou em engenharia agronômica em 1980 pela UFBA, trabalhou por longos 45 anos e sequer pensou em algum momento encerrar a carreira.

Alberto com a equipe de extensão de Ibicuí

Mas chega o momento em que chega a hora de desfrutar de mais descanso no seio da família, com fazem muitas dessas pessoas. Aqui cito um caso particular do meu amigo e ex-colega de trabalho, José Alberto de Lima, também conhecido como Alberto da Ceplac, jequieense que dedicou dois terços de sua vida à agronomia e ao Ministério da Agricultura.

E o exemplo da dedicada vida profissional transferiu para a família, da qual sempre se orgulhou, enaltecendo o convívio com a esposa, seus quatro filhos, todos bem-criados e que lhe deram sete netos. Sim, no alto dos seus 73 anos era chegada a hora de dar um tempo nas constantes viagens a trabalho, e privilegiar a família e os amigos mais chegados.

E Alberto colecionava amigos aos montes por onde passou. Assim que ingressou na Ceplac, lá pelos anos 1980, foi designado extensionista em Itapetinga, transferido dois anos depois para a cidade de Ibicuí, onde permaneceu por 14 anos. Em 1996, assume uma nova missão, desta vez como Auditor Fiscal do Ministério da Agricultura, em Salvador, até 1997.

Em 1998 Alberto foi transferido para Itabuna, embora prestasse seus serviços por várias cidades, a exemplo de Juazeiro e Petrolina, principalmente na inspeção de frutas para a exportação. E nesses 45 anos soube colecionar os amigos por onde passou, desde os colegas de trabalho, clientes do Mapa e os muitos vizinhos das cidades que residiu.

Allberto e colegas auditores fiscais do Mapa

Sempre foi a alegria em pessoa, distinto no trato dos colegas e desconhecidos, pronto a servir a quem dele precisasse, desde a uma simples orientação ou outro préstimo qualquer. A índole de Alberto combinava perfeitamente com a do extensionista, disposto a solucionar desafios junto aos agricultores, expondo os problemas e orientando resolvê-los.

Assim que Alberto chegava ao Clube Seac (Sociedade dos Engenheiros Agrônomos do Cacau), em Itabuna, ao refeitório da Ceplac ou qualquer bar era rodeado de colegas e amigos para um alegre bate-papo. E Alberto era – e é – sinônimo de bom humor, apropriado para contar uma boa história, levantar o astral de um amigo, as vitórias no dia a dia do seu trabalho.

Não posso deixar de citar aqui uma pequena indiscrição (no bom sentido). Sempre que convidado a participar de um encontro ou às comemorações de seu aniversário, eu observava atentamente. O anfitrião se preocupava com os mínimos detalhes sobre as preferências de cada um dos convidados, inclusive se preocupando em oferecer os comes e bebes de acordo com gostos e paladares.

Finalmente, a partir desse maio em curso, José Alberto (Alberto da Ceplac) entra em gozo definitivo dos benefícios de sua aposentadoria funcional, aos 73 anos bem vividos. Entretanto, ele continua em plena atividade no convívio da família, dos amigos, e torcendo pelo Bahia e Botafogo, times pelos quais divide sua paixão no futebol. Vida longa a Alberto!

Walmir Rosário é radialista, jornalista e advogado, além de autor de livros como Os grandes craques que vi jogar: Nos estádios e campos de Itabuna e Canavieiras, disponível na Amazon.

Os Ceplaqueanos compareceram em massa ao encontro
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Walmir Rosário

Uma das frases mais em voga nos dias de hoje é “quando o cavalo passa selado você tem que montá-lo”, dando a entender que jamais o indivíduo terá uma nova oportunidade. E isso aconteceu comigo recentemente e me nego a aceitá-la como verdade absoluta, como se eu ou qualquer outro ser humano não tivéssemos obstinação, persistência.

E esses dias eu deixei passar o tal do cavalo selado sem que pudesse montá-lo. Garanto que não se tratou de uma simples falha, incompetência, mas por motivos superiores. Não aqueles dados como desculpas esfarrapadas para não comparecer a compromissos assumidos, mas por excesso de confiança na sumida temporária da malfadada labirintite.

Eu deveria me apresentar às 11h, no Codornas Restaurante, em Itabuna, para o I Encontro dos Ceplaqueanos da Divisão de Extensão de Itabuna, nesse colóquio inaugural. Dada a sua importância, todo o planejamento realizado, bastaria me deslocar de Canavieiras com duas horas e meia de antecedência e abraçar os velhos e queridos colegas.

Missão abortada, devidamente comunicada por WhatsApp, com as devidas escusas e lamentar minha inusitada ausência, comportamento que não faz parte do meu dicionário. Mesmo impedido de estar no evento de corpo presente, mantive o compromisso moral de marcar presença mental, espiritual torcendo pelo sucesso do primeiro de uma série de eventos que prometem entrar em pauta.

 

Não fossem os programas da Ceplac, não teríamos o porto do Malhado, tal como é, os milhares de quilômetros de estradas vicinais, a maior rede de energia rural, a modernidade na telefonia, em todos os campos do conhecimento.

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Mas que os servidores da Ceplac discutiriam nesse encontro, se a instituição continua no leito de morte, sem direito a atendimento com vistas a recuperar seus áureos tempos? Tudo. O engenheiro agrônomo aposentado Luiz Ferreira da Silva anotou em seu livro “A fazenda Corumbá que virou Ciências 60 anos atrás” que a Ceplac era mais que uma empregadora, era uma religião.

Na mesma obra, Luiz Ferreira cita que seu colega e líder extensionista Ubaldino Machado movimentava sua turma por meio da palavra parceiro, em moda nos dias de hoje. Era esse o espírito de corpo implantado na instituição por Carlos Brandão e “Zé Haroldo”, incutindo em todos a chamada filosofia da solidariedade.

Do mais simples operário ao titulado cientista, a palavra colega era o tratamento adequado, pois todos deveriam agir com excelência na sua missão profissional conjunta. Do operário de campo, passando pelo motorista, escriturário, comunicador, técnico, aos profissionais mais graduados, tinham que ser os melhores. E a Ceplac disponibilizavam os meios para tal.

Cada um dos ceplaqueanos carregava consigo o dever de tornar a região cacaueira um modelo de desenvolvimento e até hoje se sentem orgulhosos com famosa sensação do dever cumprido. Ainda hoje perdura o reconhecimento regional sobre a excelente qualidade da formação e desempenho profissional dos ceplaqueanos, distinção que se estendeu por todas as regiões cacaueiras do Brasil.

Assim sendo, têm o que comemorar, comentar o dia a dia na instituição Ceplac, as lembranças das realizações, incluindo aí as dificuldades enfrentadas nas tarefas em locais inóspitos, as vitórias. A Ceplac não era uma simples empregadora, mas uma instituição reconhecida e respeitada pelos que fizeram acontecer na transformação das regiões cacaueiras da Bahia.

Para os mais novos que não puderam acompanhar a missão da Ceplac, vale lembrar que mantinha os departamentos de pesquisa, extensão, ensino técnico, e desenvolvimento atuando dentro e fora das porteiras das fazendas. Esse esforço de inovação tornou possível a implantação da Universidade Estadual de Santa Cruz (Uesc), ampliando a formação da inteligência regional.

Não fossem os programas da Ceplac, não teríamos o porto do Malhado, tal como é, os milhares de quilômetros de estradas vicinais, a maior rede de energia rural, a modernidade na telefonia, em todos os campos do conhecimento. Estrategicamente, beneficiou todos os municípios das regiões cacaueiras do Brasil, com escritórios, estações experimentais, todos tocados com o que tinha de mais inteligente e de alto poder aquisitivo no comércio.

Mas voltando ao encontro dos servidores da Divisão de Extensão de Itabuna, nada melhor que essa satisfação de bem estar pelo cumprimento das responsabilidades de antes e o reconhecimento de suas participações. Se por anos tiveram esse compromisso com a Ceplac, continuam, como sempre, com a sociedade onde vivem e são distinguidos.

E nada melhor do que viver com dignidade e alegria. No próximo estaremos juntos, parabenizando a eficiência da organização.

Walmir Rosário é radialista, jornalista e advogado, além de autor de livros como Os grandes craques que vi jogar: Nos estádios e campos de Itabuna e Canavieiras, disponível na Amazon.

Tasso Castro prepara quinto livro sobre o Fluminense do Rio de Janeiro || Montagem Walmir Rosário
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Walmir Rosário

O escritor e torcedor do Fluminense das Laranjeiras Tasso Castro está finalizando um novo projeto para presentear os tricolores de Itabuna e todo o sul da Bahia. E o novo livro tem como título – ainda provisório – Paulistas no Flu: glórias e troféus, em que mostrará a passagem dos jogadores e técnicos que nasceram em São Paulo e fizeram sucesso no tricolor carioca.

O trabalho, resultado de uma pesquisa de fôlego, demonstra que desde 1935 os paulistas são figurinhas carimbadas na trajetória do Fluminense, afastando qualquer rivalidade entre os jogadores dos estados do Rio de Janeiro e São Paulo. Nesse ano, a diretoria tricolor, de uma só vez, motivou um feito inédito ao contratar a base da Seleção Paulista.

 

E como tudo que dá certo é repetido, o Fluminense continuou se abastecendo no mercado paulista, o que não era nenhuma novidade. Nos anos 1980 vieram Assis e Vica. Nos anos 2000 chegaram Fernando Henrique, Ricardo Berna, Gabriel, Juan, Leandro, Tuta e Gum. Nos anos 2010, Rodriguinho e Deco, e nos ano 2012, Diego Cavalieri.

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E não se tratava de um elenco qualquer, e sim dos jogadores paulistas que conquistaram o Bicampeonato Brasileiro de Seleções nos anos de 1933 e 1934, atitude ímpar no futebol brasileiro daquela época. E os resultados alcançados pelo tricolor carioca foram à altura das contratações, no mesmo nível de qualquer seleção da América do Sul.

E os impactos positivos começaram a aparecer a partir de 1936, quando iniciou a conquista do tricampeonato, completado nos anos de 1937 e 1938, com muito sucesso. Embora tenha deixado escapar o tetracampeonato em 1939, o Fluminense não se abateu e voltou com supremacia, vencendo os campeonatos de 1940 e 1941, se sagrando bicampeão.

E os cartolas do tricolor das Laranjeiras voltaram a esquentar as turbinas e nos anos 1950, passaram a recrutar novos jogadores no mercado paulista, contratando os craques Marinho, Clóvis e Maurinho. O esquema voltou a funcionar e o Fluminense colecionou títulos no mundial, no Campeonato Carioca e nos disputados torneios Rio-São Paulo.

Muitos ainda se lembram de jogadores famosos e produtivos contratados nos anos 1960, a exemplo de Samarone, Cláudio, Félix (goleiro tricampeão na copa de 1970), Galhardo e Marco Antônio. Já nos anos 1970, a “importação” dos paulistas para o Flu das Laranjeiras continuaram com Didi, Ivair, Manfrini e Rivelino, contratações que mexeram com o futebol brasileiro.

E como tudo que dá certo é repetido, o Fluminense continuou se abastecendo no mercado paulista, o que não era nenhuma novidade. Nos anos 1980 vieram Assis e Vica. Nos anos 2000 chegaram Fernando Henrique, Ricardo Berna, Gabriel, Juan, Leandro, Tuta e Gum. Nos anos 2010, Rodriguinho e Deco, e nos ano 2012, Diego Cavalieri.

E a contabilidade dos troféus na sede das Laranjeiras é altamente positiva na coluna dos lucros. Dos anos 1960 a 2012, o Flu foi campeão Carioca (1969, 1971, 1973, 1975, 1976, 1983, 1984, 1985, 2005 e 2012) e campeão Brasileiro (1970,1984, 2010 e 2012) mantendo no elenco alguns jogadores ou técnicos oriundos de São Paulo, a exemplo de Tim, o estrategista, o único paulista campeão como jogador e treinador; Mário Travaglini em 1976; e Muricy em 2010.

Assim que for publicado Paulistas no Flu: glórias e troféus, Tasso Castro completará cinco publicações sobre o Fluminense do Rio de Janeiro, além de uma que abrange o Fluminense de Itabuna. Uma marca registrada nos livros de Tasso é que não somente ele relata e opina sobre o tricolor carioca, mas torcedores de todo o sul da Bahia.

E nesse novo livro não será diferente dos três últimos, em que vários torcedores escrevem um texto e expõem uma foto com a camisa tricolor. E pelo projeto, a prioridade dos textos se destina a escolher qual o jogador ou técnico paulista que ficou na memória?  Entre eles (jogadores) Félix, Galhardo, Marco Antônio, Samarone,  Manfrini, Rivellino, Assis, Diego Cavalieri ou Deco; e os técnicos Tim, Mário Travaglini ou Muricy Ramalho.

Os livros escritos por Tasso Castro são bastante ricos em informações, sempre obtidas nas fontes principais, documentadas com fotografias e reproduções dos jornais da época. Outros textos obedecem estritamente à lembrança dos torcedores, com o que ouviram e viram nas transmissões esportivas do rádio e TV, além das imagens de jogos assistidos nos estádios, guardadas na memória.

Vale a pena aguardar.

Walmir Rosário é radialista, jornalista e advogado.

Alcides Kruschewsky escreve sobre o papel do turismo ilheense nas Eleições 2026 || Foto PIMENTA
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Assim como o país, o eleitorado da nossa cidade está dividido. O centro menos radical, menos ideologizado e mais apartidário, levará a vitória para um lado ou outro. É aí, a depender de resultados concretos, como já opinei, que a disputa será decidida.

 

 

Alcides Kruschewsky Neto

Digo sempre, e não me refiro ao atual governo municipal, que está começando: “Todos se elegem destacando o turismo como potencial e prioridade. Depois colocam o turismo na “prateleira” e o discurso passa a ser o porquê não conseguem fazer: as dificuldades, precatórios, dívidas que consomem as receitas, custeio da máquina, etc”. Essa tem sido a prática.

O último governo local teve sobrevida graças aos investimentos do governo estadual: Hospital da Costa do Cacau, Maternidade, Policlínica, Saneamento Zona Sul, Nova Ponte e duplicação do início da Rodovia Ilhéus-Olivença, principalmente, dos quais extraiu dividendos eleitorais. Mas, no final, o desgaste deixava claro que não conseguiria fazer o sucessor.

Por sua vez, também, o governo estadual cometeu dois erros crassos deixando duas importantes obras paralisadas que afetaram a imagem e o funcionamento da cidade: a continuação da duplicação da Orla Sul (com o embate com os cabaneiros) e o fechamento do canal de esgoto da Avenida Lindolfo Collor, Central de Abastecimento, no Malhado.

Ambas prejudicaram não apenas os comerciantes que ali laboram, mas a população e a mobilidade da cidade como um todo, transformando o sul e as imediações da Central de Abastecimento num caos, com grandes prejuízos e até falências de comerciantes. Caso as obras estivessem em andamento por ocasião das eleições o resultado seria outro, haja vista a diferença entre o candidato eleito e a segunda mais votada.

Com 1.300 votos migrados de um candidato para o outro, a vitória mudaria de mãos. A isso somaram-se outros erros menores e também acertos da coligação vencedora, que foram consolidando a pequena diferença a favor do prefeito eleito.

Portanto, existem fatores que vão impactar a decisão do eleitor ilheense nas próximas eleições, decisivamente. Ainda, ambas as obras citadas, seu prosseguimento e conclusão, terão grande influência no eleitorado, podendo ser “fatal”. Mas, também, o desempenho do governo municipal até lá é outro fator variável de grande influência. Se, por exemplo, a administração municipal captar um grande investimento somará pontos importantes. E se esse investimento for na área turística poderá ampliar o acerto.

As promessas do possível candidato do União Brasil, ACM Neto, têm dois gumes. Por um lado, ele evidencia deficiências estruturais de Ilhéus e se compromete a resolver, se eleito; por outro, dá ao governo estadual a chance de suprir tais deficiências, concretamente, ainda a tempo para as eleições.

Qual será a decisão do governador Jerônimo Rodrigues? Deixar as obras abandonadas, não acrescentar outras soluções como a demanda por uma nova Central de Abastecimento e não se limitar apenas à duplicação da rodovia Ilhéus-Itabuna, e com isso modificar a satisfação do ilheense? Ou irá apostar no que já tem, com o que disputou as eleições municipais, e no conteúdo apenas discursivo e político, onde entra o turismo, para tentar convencer o público a votar nos seus candidatos e na sua reeleição?

O provável candidato, ACM Neto, como oposição, só pode prometer, vender sonhos. Embora outras questões, o inusitado ou o imponderável possa acontecer, acho que esses são questionamentos chave para influenciar as decisões de cada um e formar maioria para as próximas eleições.

Assim como o país, o eleitorado da nossa cidade está dividido. O centro menos radical, menos ideologizado e mais apartidário, levará a vitória para um lado ou outro. É aí, a depender de resultados concretos, como já opinei, que a disputa será decidida.

O setor turístico, daqui até lá, vai chegar às suas conclusões. A meu ver, o desenvolvimento do turismo não sensibiliza apenas o Trade, aqueles que têm no segmento suas atividades econômicas, mas grande parte dos eleitores que veem nesse quesito a forma mais rápida de retorno dos investimentos na geração de resultados como emprego e renda. Esses são os votos influenciados pelo desempenho dos governos nesse setor. É só olharmos há quantos anos esperamos a Fiol e o Porto Sul, para deduzirmos que haverá mais pragmatismo na decisão do ilheense. Portanto, a influência do turismo nessa decisão terá um peso mais ou menos importante, na medida em que dermos mais peso e importância às demandas do setor e fizermos repercutir possíveis conquistas na opinião da sociedade.

Quem resolver melhor essa equação e trouxer o turismo encabeçando as prioridades dará um passo decisivo para colocar a mão na “taça”! Mas não vamos pagar sonhos, mas ações!

Alcides Kruschewsky Neto é presidente da Associação de Turismo de Ilhéus (Atil).

Luiz Conceição é jornalista e bacharel em Direito
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Ainda ecoa a sábia definição do escritor Umberto Eco sobre essas tais: “As redes sociais deram o direito à palavra a legiões de imbecis que, antes, só falavam nos bares, após um copo de vinho e não causavam nenhum mal para a coletividade”.

 

Luiz Conceição

“Aqui, esses beleguins de tropa militar não entram, porque entrar na universidade só através de vestibular”, disse o reitor da Universidade do Brasil, Pedro Calmon Muniz de Bittencourt, que durante o regime militar proibiu a entrada da polícia militar no campus.

Memória desse instante de coragem e lucidez surge a propósito do que ora acontece na nação que um dia foi o farol da civilidade e democracia e agora asfixia Harvard, Columbia e outras Universidades, assim como muitas instituições de caridade e grupos religiosos, isentos do pagamento de imposto de renda federal. Tudo em nome da estupidez que lhe é natural e contagiosa.

Aliás, democracia que, no passado recente, impunha a outros povos e nações na base da desestabilização social, política e econômica, dinheiro ou porrete. De triste e saudosa memória, o século XX tem fartos exemplos dessas ações da então considerada maior democracia do ocidente.

Apesar disso, é bom recordar que sua cooperação e interação nos últimos 80 anos deu azo a organismos multilaterais como Organização das Nações Unidas (ONU) e agências congêneres na saúde, educação, infância, e Organização dos Estados Americanos (OEA), finda a Segunda Grande Guerra.

O que se vê neste quarto do século XXI é um Nero de cabelo exótico,sem cítara e cântico a tudo incinerando com áulicos grosseiramente falando bobagens e atrocidades que serão lembradas como atraso civilizatório mas desconcertante de todos os tempos. Como pode tamanho retrocesso? Qual foi a chave para se abrir essa caixa para sair tanta desgraça, que nem Pandora desejaria na mitológica história dos antigos gregos?

Na infância, o desafio era aprender a ler e escrever. Na adolescência,ser visto e ouvido. Na juventude descobrir o mundo, suas nuanças, histórias e possíveis segredos. Foram muitos ensinamentos ouvidos: “vai estudar, vai estudar”.

Agora sei que a leitura de clássicos da literatura e de obras atuais e do passado são janelas abertas a dar vazão e a concretizar sonhos e trazer conhecimento, liberdade e equilíbrio mental., já que a inteligência é inata ao homem.

Na atualidade, o que se vê é gente desinteressada nos estudos e nos livros, analfabetos funcionais, analógicos e digitais enquanto a mídia comercial, vinculada a grupos econômicos e financeiros, vender o Novo Mundo da Inteligência Artificial (IA), um novo “Bezerro de Ouro” que vai tirar empregos e extinguir profissões, inclusive de jornalistas e outros profissionais da cultura, lazer e entretenimento e até de motoristas.

Por isso, é desconcertante ouvir e ler tantas tolices daquilo que era uma vez a américa amplificadas nas ditas redes digitais que de sociais nada têm e na mídia comercial daqui e do estrangeiro. Como decaiu o jornalismo como advento da internet que deveria ser veículo de conhecimento, inteligência e verdade. Mas…

Aliás, ainda ecoa a sábia definição do escritor Umberto Eco sobre essas tais: “As redes sociais deram o direito à palavra a legiões de imbecis que, antes, só falavam nos bares, após um copo de vinho e não causavam nenhum mal para a coletividade”, declarou, ao receber o título de doutor honoris causa em comunicação e cultura na Universidade de Turim, norte da Itália, em 2015.

Não há definição mais precisa, inclusive se olharmos com atenção as ditas big-techs ávidas por dinheiro e poder, não necessariamente nessa ordem, que agora tutelam governos.

Luiz Conceição é bacharel em Direito (1994), leitor de temas econômicos e jornalista, desde 1975 (época em que era muito, mas muito feliz!).

Tempo de leitura: 3 minutos

 

 

Não posso deixar de contar o que acontecia com um conhecido, sem formação superior, que ao ir a instituições importantes, fazia uma ligação telefônica prévia para saber se o doutor fulano de tal (ele mesmo) já tinha chegado e deixava um pseudo recado para ele mesmo.

 

Walmir Rosário

O título de doutor enobrece aos que são distinguidos por essa forma de tratamento, não resta a menor dúvida. Entretanto não há legislação pertinente no Brasil que destine essa honraria aos diplomados (existem dúvidas). Mas no Império, a forma de tratamento de doutor aos advogados, estava na forma da lei, melhor, do Decreto Imperial de 1º de agosto de 1825, de Dom Pedro I.

E para reforçar, dois anos depois, em 11 de agosto de 1827, uma nova Lei Imperial cria os cursos de Ciências Jurídicas e Sociais em São Paulo e Olinda e introduz regulamento, estatuto para o curso jurídico; dispõe sobre o título (grau) de doutor para o advogado. Vale dizer que até hoje a validade dessa legislação é questionada, embora não haja revogação explícita ou tácita, inclusive no novo Estatuto da OAB, criado por lei.

E durante todo esse tempo as discussões sobre o título de doutor ao advogado dá o que falar, muitas vezes por ser confundido com os títulos de Doutorados Acadêmicos regidos pela Lei nº 9.394/96 (lei de Diretrizes e Bases da Educação). Sem dúvida, além de diplomado em Ciências Jurídicas (Direito), o doutor precisa estar com o registro na Ordem dos Advogados do Brasil (OAB).

Nos ambientes jurídicos, especialmente nos fóruns, esse tratamento ganha ares de sagrado, a começar pelo endereçamento de qualquer petição ao juízo, e dou um exemplo: “Exmo. Sr. Dr(a). da (…) Vara tal, da Comarca Tal)”, além do qualificado tratamento de Excelência – em todo o texto – dispensado ao magistrado. Ritual que deve ser cumprido rigorosamente.

Se no campo jurídico o doutor faz parte como exigência, o meio médico não dispensa esse tratamento. Lembro-me bem que na faculdade o acadêmico em direito começa a colocar o “trem nos trilhos” desde cedo, com as recomendações dos professores – advogados, promotores, juízes – para que os alunos se ambientem no futuro campo de trabalho.

E para ilustrar, conto aqui uma passagem verdadeira, embora me reserve ao direito de omitir os atores, no sentido de evitar qualquer constrangimento do pretérito. Muitos de nós éramos amigos de alguns professores e durante uma aula um aluno chamou o professor pelo seu nome de batismo, omitindo o sagrado tratamento de doutor, no que foi imediatamente repreendido.

– Doutor! Pode ir se acostumando por aqui, pois nos tribunais não há espaço para intimidades. Lá o tratamento é formal e a quebra desse preceito poderá causar sérios dissabores a quem infringir essa norma. Portanto, reserve esse tratamento chulo para a mesa de bar – repreendeu com sisudez o mestre.

Se no ambiente jurídico o tratamento é uma regra que extrapola as paredes dos tribunais, fora dele são vistas com desdém por algumas pessoas que afirmam ser o tratamento de doutor apenas para os que defenderam teses acadêmicas. Ledo engano, o doutor na academia está estipulado em outro diploma legal, a Lei 9.394/96 (Lei de Diretrizes e Bases da Educação).

Apesar de presente na legislação brasileira, o título de Doutor remonta a tempos antigos, o século XII, conferidos aos filósofos, a exemplo de Doctor Sapientiae, Doctor Angelicus, dentre outras denominações. E ainda existe o de Doutor Honoris Causa, concedido a personalidades de destaque (nem sempre). Há quem diga que doutor é todo aquele sabe e pode ensinar, neste caso, poderíamos incluir os mestres, especialistas e professores sem esses títulos.

Embora muitos acadêmicos não concordem, costumo dizer que teses são construídas diariamente por muitos profissionais e expostas a um público especializado, que o analisa, aprova, constrói e desconstrói, de acordo com a veracidade da peça. O advogado nos tribunais, os médicos em suas pesquisas, os jornalistas nos seus textos, os engenheiros nos projetos e materiais.

Ao tentar mostrar uma divergência corriqueira, posso ser criticado por falar asneiras num assunto de deveras importância, que exige muita pesquisa e capacidade intelectual para reunir conhecimentos e relacioná-los, argumentá-los. Acredito que se gasta muita saliva para debater qual o título de doutor que tem validade, pois todos são amparados em lei.

Não posso deixar de contar o que acontecia com um conhecido, sem formação superior, que ao ir a instituições importantes, fazia uma ligação telefônica prévia para saber se o doutor fulano de tal (ele mesmo) já tinha chegado e deixava um pseudo recado para ele mesmo. Ao chegar se apresentava à secretária, que o tratava por doutor à vista de todos e passava a informação. E ele se sentia satisfeito e feliz da vida.

Muitas vezes não há diferença entre o conhecimento intelectual e científico expostos no dia a dia pelo profissional, de um título impresso num simples cartão de visitas.

Walmir Rosário é  radialista, jornalista e advogado, além de autor de livros como Os grandes craques que vi jogar: Nos estádios e campos de Itabuna e Canavieiras, disponível na Amazon.

Tempo de leitura: 3 minutos

 

 

 

Francisco aproximou a Igreja do mundo — não para profaná-la, mas para purificá-la com o pó dos caminhos, com as dores humanas, com o riso dos simples. Ele tirou o Vaticano das alturas e o colocou entre as vielas, nos hospitais, nos abrigos, nas aldeias.

 

Juliana Soledade

Foi na delicadeza de uma madrugada de segunda-feira, 21 de abril, que ele partiu. Sem alarde, sem pompas, como tudo o que sempre foi. Francisco, o Papa que nos ensinou que santidade se faz de passos simples e coração desperto, fechou os olhos para o mundo e abriu os braços à eternidade.

Parece até que escolheu o momento — como quem esperou a ressurreição de Cristo no domingo para só então, em paz, descansar. Como quem sabe que a missão só termina quando o amor se completa.

Francisco tinha essa sensibilidade de ouvir o invisível, de enxergar o outro com os olhos de Deus. Ele era, acima de tudo, um homem bom. E essa bondade não vinha de discursos eloquentes, mas do modo como olhava as pessoas, como as escutava. Como acolhia.

A sua humildade foi marcada numa noite em que sob a chuva leve que pincelava as pedras vazias da Praça de São Pedro, Francisco caminhou só até o altar improvisado; cada passo ecoava como prece em meio ao silêncio do mundo. De olhar terno, ergueu o ostensório diante de um vazio que parecia não suportar mais dor, e ali, solitário, abençoou a humanidade aflita — como se naquele gesto único carregasse, num sopro, a esperança de que, mesmo em quarentena pela pandemia, o amor divino jamais nos abandonaria.

Foi ele quem, com a suavidade de um ancião e a ousadia de um jovem, nos lembrou do mandamento mais esquecido: “Amai-vos uns aos outros, assim como Eu vos amei.”

Não dizia isso apenas com palavras, mas com gestos — lavando os pés de presidiários, abraçando refugiados, abrindo os braços para os que nunca se sentiram bem-vindos. Não lhe importava o credo, a religião, a sexualidade. A todos, oferecia o mesmo: respeito, compaixão e um lugar no coração de Deus.

Francisco aproximou a Igreja do mundo — não para profaná-la, mas para purificá-la com o pó dos caminhos, com as dores humanas, com o riso dos simples. Ele tirou o Vaticano das alturas e o colocou entre as vielas, nos hospitais, nos abrigos, nas aldeias.

Foi o Papa que canonizou Santa Dulce dos Pobres, a nossa santinha de Salvador. E naquele gesto, como em tantos outros, honrou o Brasil e a força escondida nos que se doam em silêncio.

Ele sabia reconhecer a luz dos pequenos — porque era um deles. Um Papa que jamais quis parecer maior que ninguém. Que recusou a ostentação e preferiu morar onde os sinos soam mais baixinho.

Sim, ele era progressista. Mas não por ideologia — e sim por fé. Porque acreditava que Deus continua caminhando com a humanidade, mesmo quando esta tropeça. Porque sabia que o Evangelho não é um livro engessado, mas um rio que precisa correr, tocar, banhar, renovar.

Agora, Francisco descansou.

Mas ele não se foi. Permanece em cada semente que plantou com as mãos da alma. Permanece nas crianças sorrindo nas ruas da África, nos jovens LGBTQIA+ que pela primeira vez se sentiram vistos, nos católicos que reaprenderam a ter fé, nos não-católicos que encontraram paz em sua voz.

Francisco agora habita o mistério.

Talvez esteja ali, ao lado de São Pedro e São Francisco, sorrindo sereno, ainda orando por nós.

Francisco era assim.

Um sopro de Cristo no tempo.

Um eco de Assis em meio aos ruídos da modernidade.

E agora, ao partir, deixa uma saudade doce — dessas que não machucam, mas fazem florescer.

Porque homens como ele não morrem.

Eles se transformam em ponte.

Entre o céu e a Terra. Entre o humano e o sagrado. Entre o ontem e o amanhã.

E talvez, bem agora, ele esteja repetindo para nós, lá do alto, com seu sorriso de pastor cansado e feliz:

“Por favor… não deixem de amar uns aos outros.”

Juliana Soledade é advogada e autora de Despedidas de Mim, Diário das Mil Faces e 40 surtos na quarentena: para quem nunca viveu uma pandemia.

Cristina Buarque de Holanda faleceu neste domingo (20) || Foto Divulgação
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Sua morte, neste domingo, 20 de abril, ressoa como um batuque triste no peito dos que amam a cultura brasileira em sua forma mais autêntica. Mas seu canto segue reverberando nas esquinas, nos quintais e nas rodas que resistem — como ela resistiu. 

 

Luiz Carlos Jr

Cristina Buarque de Hollanda partiu neste domingo, aos 74 anos, após um ano de luta contra o câncer de mama. Seria injusto dizer que a cultura brasileira perdeu apenas uma cantora. Cristina foi muito mais. Foi resistência, foi escolha. Escolheu viver como quis: perto do samba, longe da fama — mesmo sendo filha do historiador Sérgio Buarque de Hollanda, da intelectual Maria Amélia e irmã de dois ícones da música brasileira, Chico e Miúcha.

Avessa aos holofotes, fumante contumaz e fiel às rodas de samba, Cristina morava na bucólica Paquetá, na cidade do Rio de Janeiro, de onde comandava uma das rodas mais celebradas do país. Ali, como em tantos outros quintais, manteve viva a chama de um Brasil profundo, ancestral, rítmico e combativo.

Portelense, entre suas gravações marcantes, está Quantas Lágrimas, de Manacéa — talvez seu maior sucesso como intérprete. Mas há uma canção que a coloca em outro patamar da história: Morro do Sossego, de Candeia. Um samba censurado pela ditadura de 64. Um hino da luta de classes. Cristina foi a primeira a gravá-lo, em 1988, como quem resgata não apenas uma canção, mas uma memória.

A história por trás desse samba é digna de filme. Morro do Sossego nasceu de um poema de Arthur Poerner, militante, jornalista, autor censurado e perseguido pelo regime. Foi escrito numa sexta-feira da paixão e, anos depois, ganhou melodia pelas mãos de Candeia. Mas o regime o engavetou. Censurou. Silenciou. Dissera que os versos incitavam a luta de classes. E como incitavam!

Não vou ser esvaziado, pro meu patrão engordar / Homem não consome o homem”, dizia a letra que os censores tanto temeram. Cristina, com sua voz grave, serena e firme, deu corpo e alma a esses versos. Cantou o que muitos não ousavam nem ler. E sem alarde, sem estardalhaço, apenas com coragem e coerência.

Sua morte, neste domingo, 20 de abril, ressoa como um batuque triste no peito dos que amam a cultura brasileira em sua forma mais autêntica. Mas seu canto segue reverberando nas esquinas, nos quintais e nas rodas que resistem — como ela resistiu.

Cristina Buarque de Hollanda viveu como quis. E isso, talvez, seja seu maior legado.

Luiz Carlos Jr é diagramador e amante da cultura popular.

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Para não deixar os leitores aflitos, perdidos numa discussão alheia, dou algumas coordenadas, informando que hoje a UFSB funciona na mesma área em que a Ceplac, hoje doente terminal. E concedo todos os méritos ao ex-diretor Juvenal Maynart em engajar a luta de abrigo na área da Ceplac, projeto ao qual me incorporei, com a finalidade de dar utilidade à área federal antes que fosse invadida.

 

Walmir Rosário

Imortalizada na voz do cantor paulista Sérgio Reis, a música Panela Velha, composta pelo Celmar de Moraes, o Moraezinho, deu o que falar e ficou famosa como um mote para vários significados. Desde a simples vasilha para preparar a comida, ou a experiência da pessoa em determinada função, muitas das vezes ditas em forma de gracejo.

Não temos como negar que é uma meia verdade se a dissermos na forma figurada, conotativa, do jeito como o povão gosta e entende. E tomo a frase para lembrar os bons tempos da Ceplac, melhor dizendo, do restaurante que a instituição manteve por muitos anos na sede da Coordenaria Regional, na rodovia Ilhéus-Itabuna.

Não tenho qualquer informação fidedigna da quantidade de refeições (almoços) que servia aos seus servidores no dia a dia. Posso assegurar que esse número passava dos dois mil, incluindo as marmitas para os operários de campo. Alimentação saudável, balanceada, conforme os estudos do pessoal da nutrição, apropriada para todas as idades e regimes de trabalho a preços subsidiados.

O velho cartão de refeições

Filas enormes eram formadas diariamente e nos admiravam os tamanhos dos pratos servidos para uma turma já conhecida e que pegava pesado. Ali comiam desde os diretores ao mais simples operário, conforme o padrão burocrático. E garanto: a comida era de boa qualidade, com cardápio que não se repetia na mesma semana. Com o sucateamento da Ceplac, o restaurante pereceu.

Esta semana soube por velhos colegas que a Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB) vai colocar em funcionamento um restaurante universitário para professores e estudantes. Animei-me com a informação, pois o local, hoje abandonado, voltaria a ter serventia, deixaria de ser um elefante branco, como são conhecidos os equipamentos públicos abandonados.

Mas como tudo o que é bom dura pouco, na sequência soube pelos colegas que não seria bem assim. A universidade iria construir um prédio novinho em folha e não aproveitaria o prédio antigo e seus equipamentos, por mais que continue imponente. De pronto achei, como os colegas, que seria uma aberração gastar nossos parcos recursos retirados a título de impostos.

Foi então que fui interpelado e questionado se meus conhecimentos técnicos e científicos seriam suficientes para analisar o aproveitamento de um prédio velho, se bem que em bom estado, para atender aos padrões de modernidade exigidos por um restaurante universitário. Quedei-me silente por instantes até recuperar a carcomida memória.

Fiz ver aos meus interlocutores que o nível dos clientes era o mesmo, pois serviria aos doutores, pós-doutores, mestres, especialistas, técnicos das mais diversas áreas, bem como outros em formação. E insisti que os clientes do futuro restaurante ganhariam muito mais com a rápida entrada em funcionamento, bastando alguns ajustes e a aquisição dos equipamentos.

Meus oponentes não deixaram por menos e voltaram a questionar quais os meus dotes nas áreas da gastronomia, nutrição, finanças, arquitetura e engenharia, me desqualificando para o debate de alto nível. Confesso que senti o golpe, mesmo assim exaltei minhas qualidades como chef de cozinha, sabendo lidar com forno e fogão, arrumação de mesas e outros tais ofícios.

Para não deixar os leitores aflitos, perdidos numa discussão alheia, dou algumas coordenadas, informando que hoje a UFSB funciona na mesma área em que a Ceplac, hoje doente terminal. E concedo todos os méritos ao ex-diretor Juvenal Maynart em engajar a luta de abrigo na área da Ceplac, projeto ao qual me incorporei, com a finalidade de dar utilidade à área federal antes que fosse invadida.

Além do mais, nada mais justo do que uma instituição do governo federal seja implantada na área ociosa da outra. Quem sabe, poderiam trabalhar em conjunto em projetos de pesquisa, aproveitando os laboratórios e o cabedal de conhecimento da Ceplac, antes que os poucos cientistas que restam se aposentem e que as informações sejam perdidas, fique no limbo.

Área e prédios não faltam, dependendo apenas de ajustes básicos para sua adequação, inclusive na cozinha e refeitório, satisfazendo todas as necessidades da universidade. De minha parte peço todas as escusas por cair de paraquedas em seara alheia, dando intrometidos pitacos, mesmo sem ter sido convidado a tecer comentários poucos interessantes.

A finalidade dos meus questionamentos, por mais que desinteressantes sejam, apenas têm o fito de dar utilidade ao conjunto de prédios daquela área, quem sabe economizando os parcos recursos públicos. Somo à minha bisbilhotice sempre gastar menos, focado na maximização das obras e a minimização dos investimentos.

Não é bem uma reclamação e sim apenas saudosismo. Quem sabe a galinha velha poderá dar um caldo melhor…

Walmir Rosário é  radialista, jornalista e advogado, além de autor de livros como Os grandes craques que vi jogar: Nos estádios e campos de Itabuna e Canavieiras, disponível na Amazon.

Garrincha em jogo da Seleção Brasileira contra a Portuguesa em 1962
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Melhor ser socorrido pelo Youtube e relembrar os bons jogos do passado, que mesmo já sabendo do resultado, voltamos a assistir com emoção.

 

Walmir Rosário

Inacreditável! A desastrada Confederação Brasileira de Futebol, mais conhecida como CBF, tenta acabar de vez com o futebol brasileiro, mas não é deixando de realizar os jogos em todo o Brasil. Não, eles escolheram um jeitinho e pretendem tornar o futebol um jogo amorfo, sem espetáculo, sem jogadas bonitas, um jogo praticado por pernas de pau ou autômatos.

Se hoje os jogos de futebol não merecem mais serem chamados de espetáculos, com raríssimas exceções, as frequentes canetadas oficiais o tornarão uma espécie de filme mudo, mas sem a graças dos grandes artistas. E essas proibições vêm sendo implantadas há anos, sob qualquer pretexto, quem sabe até globalistas. Perdoa, Pai, pois eles não sabem o que fazem.

O buraco é mais em baixo e eles sabem, sim, o que querem, e isto está largamente comprovado. De início, foram proibidos os dribles, os olés, as embaixadinhas, eliminando em campo as habilidades individuais. Agora não podem pisar com os dois pés na bola. Isso não pega bem, pois parece histórias de antigamente, quando quem mandava no jogo era o dono da bola. Ou ele jogava ou levava a bola para casa.

Sei que hoje não temos mais o Garrincha com as pernas tortas promovendo misérias em campo, fazendo os adversários de gato e sapato. Para alguns, os dribles do camisa 7 do Botafogo eram desmoralizantes, nem tanto, pois ele jogava o que sabia e mais alguma coisa. Daqui a mais um tempo os craques do futebol serão “castrados” e não poderão fazer qualquer espetáculo.

Meu saudoso amigo Danielzão, que jogou como goleiro e centroavante no futebol amador e profissional de Itabuna e Salvador, dizia há muitos anos que os cartolas e técnicos tinham a intenção de acabar a beleza e produtividade do futebol. Ele explicava que, enquanto os gringos levavam nossos jogadores para a Europa a peso de ouro, para a aprenderem nosso futebol, por aqui queríamos jogar como os gringos, sem gingas e maneios de corpo.

Não sabe – ou não quer saber – o presidente da CBF, que os “arquibaldos e geraldinos”, expressão criada pelo tricolor Nelson Rodrigues para se referir aos frequentadores das arquibancadas e geral do Maracanã, iam aos jogos para assistirem verdadeiros espetáculos. E as partidas no “Maraca” contabilizavam até mais de 200 mil expectadores, melhor, torcedores.

Duvido que alguém sairia de sua casa numa noite chuvosa ou numa tarde escaldante para assistir a uma partida de futebol maçante, sem os dribles de tempos recuados, hoje proibidos…nem pensar. Jamais veremos um lançamento de 80 metros feito pelo canhotinha Gerson, cuja bola morreria no peito do companheiro, que marcará o gol. Um espetáculo pra ninguém botar defeito, nem os adversários.

Será que a direção da CBF já assistiu aos jogos entre o Botafogo e Santos, em qualquer um deles impossível de adivinhar o placar final? Com a CBF de hoje Pelé seria ainda um jogadorzinho de várzea, por ser tolhido de protagonizar suas brilhantes jogadas. Garrincha nem entraria em campo, pois com certeza não saberia jogar o futebol burocrático pregado pelos atuais cartolas.

Hoje vale mais para a CBF os astronômicos salários dos dirigentes das federações, bem acima dos R$ 200 mil mensais, do que oferecer um espetáculo futebolístico à altura dos praticados pelos brasileiros. Ao que parece eles tentam matar a galinha dos ovos de ouro, não se contentando meter a mão somente nos ovos. Tudo indica que querem comer a galinha, e de uma só vez.

Na minha geração, bem como a dos mais novos, nos acostumávamos com os espetáculos já nos campinhos de babas próximos de nossas casas, nos entusiasmando ir às tardes de domingo ao campo da Desportiva assistir às apresentações cinematográficas dos nossos craques amadores. E digo mais: tínhamos pra mais 100, para formar seleções brasileiras superiores às de hoje.

Sou do tempo em que o futebol em campo obedecia a uma cadência musical espetacular, sem destoar das músicas tocadas pelas charangas nas arquibancadas de nossos estádios. Sou do tempo em que um jogador era escalado pelo futebol que praticava seria substituído por outro de igual qualidade. E não me arrependo, pelo contrário, me orgulho.

Não tenho receio em dizer que não perco mais o meu tempo a ver malfadados jogos da seleção brasileira com jogadores escalados pelos seus empresários, como dizem largamente representantes da imprensa brasileira. Melhor ser socorrido pelo Youtube e relembrar os bons jogos do passado, que mesmo já sabendo do resultado, voltamos a assistir com emoção.

Nesse diapasão, provavelmente chegará o tempo em que os times terão seus resultados programados para que não sofram qualquer tipo de bullying e se sintam assediados e oprimidos pelas equipes adversários. Lembrem-se, no futebol o jogador bom é aquele que provoca o jogo e intimida os adversários com gols de beleza plástica sem igual. É do futebol!

Acredito que serei classificado como um saudosista, que não conhece nada de futebol, haja vista o presidente da CBF ter sido reeleito por 100% dos presidentes de federações e dos clubes das séries A e B. Portanto, nada de reclamações. Pelo visto nunca mais assistiremos aos espetáculos com mais de 200 mil torcedores, números que minguam a cada dia. VARlei-me….

Walmir Rosário é  radialista, jornalista e advogado, além de autor de livros como Os grandes craques que vi jogar: Nos estádios e campos de Itabuna e Canavieiras, disponível na Amazon.

Luiz Conceição é jornalista e bacharel em Direito
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Por enquanto, ninguém está gargalhando das sandices ou mesmo rindo, comedidamente. Enfezados, arrogantes e ameaçadores, seus áulicos repetem grosserias sobre grosserias a cada microfone aberto, câmera, luz, ação.

 

Luiz Conceição

A tarifação desmedida do líder estadunidense de cabelo exótico merece uma reflexão séria. Há cinco décadas, as indústrias e empresas americanas do norte globalizaram suas atividades para valer. O valor da hora no chão de fábrica impedia, criava obstáculos para ganhar mais para si e seus acionistas.

Pode-se dizer que o que pagavam a um de seus trabalhadores por hora era mais que suficiente para remunerar inúmeros operários com ganhos menores em outros continentes, especialmente no Império do Meio. Em uma simplória comparação, a história do presidente do tarifaço é similar àquela do personagem Benjamin Button do cinema, que nasce idoso e à medida que o tempo passa rejuvenesce.

Os empresários bilionários que cercam o presidente do inacreditável tarifaço não devem ter visto o filme do diretor David Fischer, lançado em 2009, ganhador do Oscar de Melhores Efeitos Visuais. Também não tinham e não têm tempo para a cultura ou mesmo para conhecer ou estudar filosofia, arte, geografia e história, principalmente a econômica. Pode-se dizer o mesmo para os políticos.

Na película, decorridos 12 anos do seu nascimento, Button conhece Daisy, uma criança que cresce para ser dançarina. A sua relação com ela o faz acreditar que os dois se encontrarão no momento certo da vida. Como se fosse possível o tempo voltar. É um filme marcante até por sua semelhança com um personagem real.

No caso do tarifaço, não. A sua megalomania o leva a imaginar que impor exorbitantes tarifas em economias concorrentes fará ressurgir a outrora fulgurante indústria americana de parte do século XX, cujo orgulho estava em Detroit, no Michigan, endeusada como a Capital do Automóvel, em 1950, com população superior a dois milhões de habitantes. Pelo que se publicou, em 8 de julho de 2013, a cidade declarou falência, com dívida de bilhões de dólares, tornando-se a maior cidade dos EUA a declarar falência.

Ou quem sabe, o Cinturão da Ferrugem (Rust Belt, em inglês), conhecido até meados dos anos 1970 como Cinturão da Manufatura, que abrange estados do Nordeste, dos Grandes Lagos e do Meio-Oeste. Talvez, pelo sucesso econômico e tecnológico do Vale do Silício, o presidente imagina ser possível parar o relógio inexorável do tempo para fazer seu país grande novamente por meio de decretos, imitando outros presidentes em vários continentes que o fazem quando imaginam barrar a economia e seus contratempos.

Por enquanto, ninguém está gargalhando das sandices ou mesmo rindo, comedidamente. Enfezados, arrogantes e ameaçadores, seus áulicos repetem grosserias sobre grosserias a cada microfone aberto, câmera, luz, ação. Será que era uma vez a…?

Quem sabe empresários, intelectuais e exportadores do agronegócio ainda não infectados o acordem desse sonho maluco que a todos empobrece, envergonha e é motivo de piada. Pela incerteza para todos nós e os americanos de que, ao despertar, ele aperte o botão errado e… bum!!!. Já fomos…

Luiz Conceição é bacharel em Direito (1994) pela Uesc, leitor de temas econômicos e jornalista desde 1975 (época em que era muito feliz!).

Motorohomes na área do Cristo Redentor de Ilhéus
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Cristo Redentor de Ilhéus, ao longo dos anos, foi consagrado como uma referência espacial que extrapola a simples denominação de uma praia, destacando-se por sua importância histórica e identificação com os habitantes

 

Alcides Kruschewsky

Resguardar o patrimônio cultural e histórico, enquanto se pede que seja encontrada uma alternativa adequada para os motorhomes, que são bem-vindos, está longe de ser hostilidade. A hostilidade é ao patrimônio cultural, este sim vítima da negligência pública, não de agora, em se permitir que o valor que a escultura empresta à paisagem seja subtraído pelos obstáculos que interferem entre o monumento e os que querem contemplá-lo. Isso sem que um olhar sensível, sobretudo das mentalidades mais preparadas, recaía sobre o fato.

Nenhum outro lugar que tenha pretensões turísticas e bom nível educacional permitiria tal desagravo a um ícone dessa importância, visto por alguns como se fosse apenas uma coisa qualquer que atenua o sol escaldante para os que ali, também, organizam farras, sob sua sombra. Mas estamos em Ilhéus, onde se elogia os predicados turísticos da cidade vizinha, Itacaré, mas não se leva em conta que esta não permite o ingresso de ônibus turísticos na zona urbana, quando estes pretendem se dirigir às praias e ali estacionar. Estaria também Itacaré enxotando turistas?

Sugerimos alternativa para motorhomes, sim, pois ali não é adequado para estacionamento. Da mesma forma e pelos mesmos motivos, indicamos a área entre a nova pista e a Av. Dois de Julho, a 20 metros dali, para que os frequentadores daquela praia possam estacionar seus veículos sem nenhum prejuízo ao lazer. Resguardar o visual da estátua, o seu valor na paisagem livre e desimpedido, mantendo intocável o seu potencial de divulgação de Ilhéus através das milhares de fotografias e vídeos que já circularam e continuarão a circular pelo mundo, além de sua proteção material, é a nossa intenção. Não é lúcido que seja permitido a interposição de obstáculos no seu arredor.

Estátua do Cristo Redentor de Ilhéus

É preciso fazer uma delimitação que distancie veículos que hoje ali param, literalmente, nos pés do Cristo Redentor de Ilhéus, consentindo que apenas pessoas possam se aproximar da obra artística, construída e idealizada para ser vista. Os demais motivos são do imaginário dos que a idealizaram em 1941, projetada pelo renomado artista italiano Pasqual De Chirico. Para melhor esclarecimento dos interessados sugiro a leitura do artigo De Braços Abertos na Entrada do Ancoradouro: O Monumento ao Cristo Redentor de Ilhéus, cujo autor é Danilo José Messias Marques, especialista em História do Brasil pela Universidade Estadual de Santa Cruz, cujo link segue: https://nossailheus.org.br/artigo-de-bracos-abertos-na-entrada-do-ancoradouro-o-monumento-ao-cristo-redentor-de-ilheus/

E já aproveito para destacar parte do seu texto:

“Ao circularmos pela cidade, nos deparamos com uma diversidade de imagens e símbolos que, por sua localização ou singularidade, acabam servindo de orientação para seus habitantes. De acordo com o urbanista Kevin Lynch, esses “elementos marcantes” constituem-se como verdadeiros pontos de referência, funcionando como indicações seguras do caminho a seguir.

Alguns desses elementos são tão eficientes que acabam se consolidando como verdadeiros marcos urbanos, que, segundo Leonardo Oba, “são produtos sociais e culturais vinculados ao processo de construção da cidade e da sua identidade”. Esse é o caso do Cristo Redentor de Ilhéus, que, ao longo dos anos, foi consagrado como uma referência espacial que extrapola a simples denominação de uma praia, destacando-se por sua importância histórica e identificação com os habitantes.

Alcides Kruschewshy é presidente da Associação de Turismo de Ilhéus (Atil).

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Promover o destino Costa do Cacau como uma experiência plural e integrada aumenta a competitividade da região, o tempo de permanência do visitante e o impacto positivo na economia local.

 

Marcos Souza “Japu”

A Costa do Cacau, localizada no sul da Bahia, reúne destinos que encantam por sua beleza natural, cultura rica, excelente gastronomia e diversidade de experiências. Municípios como Ilhéus, Itacaré, Maraú, Uruçuca/Serra Grande, Una e Canavieiras formam esse corredor turístico privilegiado, marcado pela história do cacau, pela presença forte da literatura e por um patrimônio arquitetônico e ambiental de valor inestimável.

Apesar desse potencial, a fragmentação das ações e a promoção isolada de cada município ainda são entraves para o pleno desenvolvimento da região. A construção de um projeto coletivo e integrado de turismo é, hoje, uma necessidade urgente para tornar a Costa do Cacau uma marca forte e reconhecida nacional e internacionalmente.

O PODER DA UNIÃO: VENDENDO O DESTINO COSTA DO CACAU

A união dos destinos em torno de um planejamento colaborativo permite que todos saiam ganhando. Vender Itacaré, Maraú, Una, Uruçuca, Ilhéus ou Canavieiras separadamente é limitar a força do conjunto. Promover o destino Costa do Cacau como uma experiência plural e integrada aumenta a competitividade da região, o tempo de permanência do visitante e o impacto positivo na economia local.

A diversidade de atrativos é um ponto de força: o visitante que chega interessado nas praias e trilhas de Itacaré pode se encantar também pela cultura histórica de Ilhéus, pela riqueza natural de Uruçuca ou pelo charme colonial de Canavieiras, por exemplo. Com roteiros bem planejados, infraestrutura conectada e uma comunicação unificada, a região se transforma em um destino completo.

UM CHAMADO À GESTÃO COMPARTILHADA 

“Enquanto secretário de Turismo de um dos mais importantes destinos do Brasil, Itacaré, percebo que seguiremos muito mais fortalecidos se unirmos forças, planejarmos juntos e executarmos as propostas dialogando com os governos municipais, estadual e federal, bem como com a iniciativa privada e sociedade civil. A tarefa não é simples, pois existem diferenças de entendimento no campo da política, vaidades e uma falta de avaliação coletiva. Contudo, compreendo que esse é o melhor caminho. Precisamos que prefeitos e secretários/diretores de turismo estejam alinhados e ajustados nesse sentido de criarmos uma concepção coletiva, trocar experiências e nos fortalecer enquanto gestão compartilhada para o Turismo da Costa do Cacau”.

Essa fala representa o espírito que deve nortear a construção de um novo momento para o turismo regional: diálogo, articulação, escuta e cooperação entre todos os atores envolvidos — poder público, iniciativa privada e sociedade civil organizada.

Vantagens da integração entre os destinos

• Fortalecimento da marca Costa do Cacau no mercado nacional e internacional;

• Criação de roteiros turísticos integrados, mais atrativos e com maior potencial de consumo;

• Divisão de esforços e investimentos em promoção, infraestrutura e capacitação;

• Aumento da permanência do turista na região e estímulo ao turismo de retorno;

• Redução da competição interna e valorização da complementaridade entre destinos; e

• Capacitação e qualificação da mão de obra também de forma integrada, chamando para tal instituições como Uesc, UFSB, Ifs, Sebrae, Senar.

O caminho é coletivo. O turismo não se desenvolve de forma sustentável quando cada destino caminha sozinho. É preciso compreender que a competitividade está na união, não na disputa. Trabalhar coletivamente, com metas regionais, é criar uma base sólida para um turismo mais estruturado, rentável e sustentável.

O TURISMO COMO MOTOR DE DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO

O turismo vai muito além do lazer: ele é uma atividade econômica poderosa, capaz de transformar realidades. Quando bem planejado e promovido, atrai investimentos, gera empregos/ trabalho e renda e movimenta setores diversos da economia — da hotelaria e alimentação ao transporte, receptivos, guias, artesanato e agricultura familiar.
Como ressaltamos, enquanto secretário de Turismo de Itacaré:

“Atrair mais turistas brasileiros e estrangeiros para os destinos da Costa do Cacau é trazer fortalecimento da economia e geração de trabalho e renda para os trabalhadores e trabalhadoras do setor. Moeda estrangeira mais forte e consumo mais alto, ticket médio alto, é o que precisamos operacionalizar nos destinos.”

Essa visão reforça o papel estratégico do turismo como política pública de desenvolvimento regional. Quanto mais visitantes qualificados e bem acolhidos, maior será o impacto positivo na economia local. Por isso, a integração entre os destinos da Costa do Cacau não é apenas uma decisão inteligente do ponto de vista turístico, mas também uma ação urgente para fortalecer a economia da região, gerar renda e criar oportunidades reais para a população local.

A Costa do Cacau tem tudo para se tornar uma referência no Brasil e no mundo — mas isso só será possível com visão compartilhada, liderança estratégica e compromisso conjunto. A hora de agir juntos é agora.

Há que se compreender cada especificidade dos destinos. Cada um chama atenção pelo que possui de atrativo. Se cada destino se propõe a não vender apenas o destino, mas ofertar as opções dos destinos contíguos, seria o máximo. Por exemplo, como deixar Ilhéus de fora se Ilhéus é polo vetor da chegada via aérea e via portuária. Aeroporto e porto de Ilhéus nos trazem muitos turistas. Precisamos ajustar, melhorar esses equipamentos, bem como discutir com fortaleza de coletivo a malha aérea, os valores excessivos de passagens para o aeroporto Jorge Amado, a falta de voos diretos para Brasília, Belo Horizonte, que são dos maiores emissores de turistas para a Costa do Cacau.

Eventos podem ser criados com um calendário para a zona turística, criando uma rota, um roteiro, uma pauta tratada em cada município e socializada com os outros destinos, para tentar ajustes e minimizar custo. Isso é economia e organização.

Fortalecer a zona turística é buscar juntar forças políticas e técnicas com o objetivo de chamar a atenção para um dos maiores setores que mais crescem no Brasil, que mais gera trabalho e renda, o turismo. Precisamos de investimentos e entendimento geral para avançar muito mais, alinhar com todos os órgãos , a UPB, AMURC, Consórcios CDS Litoral Sul E Cima, todos outros já citados acima, e trabalhar muito na formação e qualificação dos profissionais. Vamos transformar para melhor o futuro.

Marcos Souza “Japu” é secretário de Turismo e ex-secretário de Administração de Itacaré, bacharel em Administração e em Direito e foi quadro de órgãos estaduais e federais.