IMPRENSA, CRISE E SALTO DE QUALIDADE

O FIM PRÓXIMO, MELANCÓLICO E INGLÓRIO
Temos dito (e ainda não mudamos de pensar) que parte dos jornais sobreviverá e parte está condenada a um final melancólico. No Sul da Bahia, onde o setor não tem recebido nenhuma espécie de investimento – ao contrário, vê seu capital de giro escapar pelo ralo da irresponsabilidade – a morte da comunicação impressa parece iminente, implacável, inexorável e irreversível. Sem atualização das linhas editoriais, sem investimentos em tecnologia e, sobretudo, em pessoal, o fim se aproxima, e estamos destinados a engrossar as estatísticas dos mortos sem glória na guerra contra a internet.
NOTÍCIA COM QUALIDADE DE PÃO DORMIDO
Nossos jornais se erguem sobre uma estratégia pouco resistente: acreditam que seu público está disposto a comprar notícia como se fosse pão mofado; que esse público não se incomoda de ver a mesma matéria (em geral produzida por órgãos públicos) em todos os jornais; e que os leitores gostam de publicações que se fazem de boletins partidários à direita ou à esquerda, quando deveriam fornecer análises mais ou menos isentas das campanhas políticas. Logo, faz-se uma aposta suicida na falta de inteligência do leitor, quando a lógica recomenda o contrário. Que isso vai dar errado, todo mundo faz que não sabe.CIDADÃOS CUMPREM A LEI; BANDIDOS, NÃO
Dia desses, em tom aberto de desafio que aceitei de bom grado, me perguntaram se eu era cidadão. Respondi que me esforçava para sê-lo. “E o que é ser cidadão?” – insistiram, agora com uma pergunta de resposta mais difícil. Improvisei algo que, a meu juízo, diferencia cidadãos e bandidos (sejam estes do morro ou da cidade, descalços ou de colarinho engomado, andando de buzu ou em carro de luxo): o cumprimento da lei. É a lei que iguala as pessoas, dá a todas elas os mesmos direitos e deveres, não é feita para servir uns e prejudicar outros. O dito cidadão que não cumpre a lei, bandido é, pois a ele se equipara em comportamento. O substantivo “fora-da-lei” lhe cai muito bem.VIVEMOS EM BAIXO NÍVEL DE CIDADANIA
Tentei me explicar, com uma espécie de decálogo do cidadão, que vai aqui repetida, não exatamente na ordem em que foi apresentada naquele momento. Cidadão, dentre outras coisas, 1) paga seus impostos, 2) não dirige alcoolizado, 3) não compra CD/DVD pirata, 4) usa cinto de segurança, 5) não joga no bicho, 6) não faz “gato” (serviços de água e/ou energia elétrica), 7) não ultrapassa em faixa dupla, 8 ) não contrabandeia drogas, armas, bebidas ou soja transgênica, 9) respeita a faixa de pedestres e 10) não ”invade” sinal vermelho. Se acaso você disser que não conhece muita gente que proceda assim, estará atestando o indigente grau de cidadania em que vivemos. Mas não me culpe.
O QUE CONTA É LEVAR VANTAGEM EM TUDO
É claro que há outros metros para avaliar o comportamento cidadão (jogar lixo na rua, e dirigir falando ao celular, por exemplo) e também é preciso consciência sobre os direitos, cobrar os compromissos do governo, a clareza de que os serviços públicos não constituem doação de governante bonzinho, mas obrigação do cargo ocupado. Nesta parte, entretanto, estamos bem: mesmo àqueles que não cumprem nenhum item do “decálogo” acima, não falta disposição para criticar todo tipo de atitude oficial. Embora use abertamente a lei da vantagem, o crítico exige pureza do governo. Nesse quesito, o brasileiro costuma valer-se de uma fórmula velha e calhorda: “Faça o que eu mando, não faça o que eu faço”.O ADJETIVO EM BUSCA DE UM LUGAR AO SOL
Os que escrevem habitualmente dividem preferências quanto ao adjetivo: uns o execram sem o menor sinal de compaixão, pregando reduzir a zero sua presença no texto; outros o aspergem aleatoriamente na página, atrelando-o a qualquer substantivo descuidado. Talvez seja possível encontrar-lhe um lugar, o meio termo, o uso quando necessário. Graciliano Ramos, escritor de estilo “descarnado”, usava esse penduricalho no lugar certo, no momento aprazado. “Na planície avermelhada os juazeiros alargavam duas manchas verdes”, diz ele abrindo magistralmente Vidas secas (citado aqui há poucos dias). Na mesma frase, dois adjetivos certeiros e indispensáveis.O TROPEL DA BOIADA TOCADA A ADJETIVOS

“DEFEITO” RECEBE ELOGIOS DE GRACILIANO

MULHERES DE NOEL, OU O AMOR EM VERSOS

PESSIMISMO QUE LEMBRA MACHADO DE ASSIS
Esta é a fase mais amarga do poeta: em Vai para casa depressa (com Francisco Matoso) ele fala da disputa de Julinha por “dois malandros de fibra”, dizendo que tal mulher não merece um duelo, e que “Só há uma solução:/ Pra que brigar à-toa?/Basta tirar cara ou coroa/ Com um níquel de tostão”. O otimismo não é recuperado em Cor de cinza: “Com seu aparecimento/ Todo o céu ficou cinzento / E São Pedro zangado”, e muito menos em Pra esquecer, em que se vislumbra um traço de pessimismo à moda de outro famoso carioca: “Prá esquecer a desgraça/ Tiro mais uma fumaça/ Do cigarro que filei/ De um ex-amigo/ Que outrora sustentei”. De toda forma, é pouco provável que Noel tenha lido Machado de Assis.
NOEL DESCOBRE O NOVO CAMINHO DO SAMBA

“ÚLTIMO DESEJO”: O TESTAMENTO DO POETA
Em 1937, aos 26 anos, tuberculoso, magro e frágil, Noel está morrendo em casa, ao lado de Lindaura, sua mulher (foto, de 1987), e outros familiares. Às portas da morte, ele não esquecera sua grande paixão, Ceci – que levará pela vida afora o testamento cruel do poeta (“Se alguma pessoa amiga/ pedir que você lhe diga/ se você me quer ou não…”), Último Desejo. São também desses derradeiros dias Eu sei sofrer e Pra que mentir (outro “recado” à amada). Às 16h30 daquele 4 de maio, Noel falou qualquer coisa com seu irmão Hélio, fechou os olhos e morreu, aos 26 anos, quatro meses e 23 dias. Na casa ao lado (do músico Vicente Sabonete), cantava-se o partido-alto De babado (Noel-João Mina). Aqui, Último desejo, com Nelson Gonçalves.(O.C.)
















Respostas de 3
Parabenizo Ousarme.
Texto primoroso. Noel agradecerá, de onde estiver.
gostei muito também dessa edição.
Belo retorno, em prosa e música, a Noel Rosa, nosso Poeta da Vida!