BILHETE A UM JOVEM REDATOR DE JORNAL
Em resposta a certa indagação, faço uma espécie de “carta a um jovem redator”, um bilhete, talvez. Digo-lhe: fuja do lugar-comum com a rapidez com que o Capeta corre da água benta. E tente riscar do seu vocabulário certas expressões: se lhe vier à boca “perguntar não ofende”, puxe as próprias orelhas e, enquanto elas ardem, a vontade passa. É garantido. Este método tão singelo também serve se lhe ataca um frenesi de dizer “a pergunta que não quer calar”. Não diga essa bobagem, pois você corre o risco de dirigir-se a um entrevistado inteligente (às vezes, ele é burrinho, mas o público, não). Tenha um olho na entrevista e outro no leitor, bicho decididamente no fim do ciclo de vida.
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Acalente a esperança de mudar o mundo

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“A aprendizagem é uma longa clausura”
Chamado a redigir anúncios (isto há de ocorrer, cedo ou tarde) não deixe que o cliente enxerte no texto coisas do tipo “ligue agora, está esperando o quê?” ou, esta, também abominável: “a prestação cabe no seu bolso”. Se ele insistir, desista: vá-se o cliente, fique a qualidade. Lembre-se de que você não é casa de tolerância, onde quem paga tem todos os direitos. Voltemos ao velho Rilke: “Pessoas jovens que ainda são estreantes em tudo, não sabem amar, têm que aprendê-lo. Com todo o seu ser, com todas as suas forças concentradas em seu coração solitário, medroso e palpitante, devem aprender a amar, mas a aprendizagem é sempre uma longa clausura”. Troque amar por escrever e… boa sorte.
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DE HISTÓRIA, POESIA E AFRODESCENDÊNCIA
Integrada ao seu tempo, a Editus, Editora da Universidade Estadual de Santa Cruz, acaba de entrar para o contemporâneo segmento dos livros digitais. Já estão disponíveis para leitura na maquininha três autores antes editados em papel: Ruy Póvoas (Versorreverso, Itan de boca a ouvido, A fala do santo e Itan dos mais velhos), Maria Luísa Silva Santos (O quibe no tabuleiro da baiana) e Antônio Lopes (Solo de trombone – ditos & feitos de Alberto Hoisel). É só clicar e ler, sem mais desculpas, pois é de graça feito o ar que se respira. Sem trombetas ou megafones, confetes ou serpentinas, a Editus abre caminho para um excelente programa de leitura.(ENTRE PARÊNTESES)
Tenho em mãos os originais do último livro de Marcos Santarrita (1941-2012), À sombra dos laranjais. Versado em romance histórico (fez, nesta linha, Mares do sul e Ilha dos trópicos – além de uma trilogia sobre a ditadura militar), o autor agora ambienta sua narrativa na Guerra do Paraguai. Tendo entre os personagens figuras como Caxias, Osório, D. Pedro II e Solano López, Santarrita desfia uma história de amor e guerra, sexo, espionagem e traição. Resultado de exaustiva pesquisa, o texto reconstitui usos e costumes da época, tendo até diálogos em guarani. À sombra… é o oitavo romance de Marcos Santarrita.“NEGRA, POBRE, PROSTITUÍDA E DROGADA”
Esqueçam o que eu escrevi. Lembram-se desta frase de famoso presidente? Tomo-a emprestado, noutro contexto, para mudar explicação aqui dada a respeito do registro, em 1958, de Fine and mellow, por Billie Holiday com um grupo all stars. Descrição muitíssimo melhor do que a minha é a de Sylvia Fol, em Billie Holiday (Coleção Biografias L&PM Pocket, tradução de Williams Lago/2010). É a pungente história de uma mulher negra, pobre, prostituída, drogada, de voz lânguida e vigorosa, que influenciou centenas de vocalistas. Não só sinônimo de jazz, Billie é também um caminho para a liberdade. A seguir, o texto de Mrs. Fol, em tradução livre._______________
“Billie escuta os solos dos três melhores saxofonistas tenores da era do swing com reações diferentes. Cheia de boa vontade para com Ben Webster, plena de admiração com Coleman Hawkins. Marcando o ritmo, um vago sorriso erra sobre seus lábios, seus olhos se entristecem… Depois, Lester Young, parecendo extenuado e doente, se levanta, volta o rosto inchado para Billie, os olhos são fendas sem vida. Toca, com ar distante, mas seu solo, expressivo e sensual, é de uma nostalgia perturbadora, como se seu último suspiro fosse inspirado por essa mulher tão amada… Billie cobre ´Prez´ com um olhar inesquecível, cheio de bondade, ternura e reconhecimento”. Eu que agradeço.
(O.C.)
















Respostas de 4
Professor (O.C.), nada a comentar. Só ler e ouvir: Rilke, Santarrita e o jazz de Billie, nesse universo. Outra semana virá, eu sei!
Meu caro:
Eu que tenho mania de ser pontual,me atrasei um pouco pra não sair ser ler esta coluna.Valeu.Excelente.
Forte Abraço.
Caro amigo, permite-me (e desculpa-me) pisar em falso neste sagrado território e te contar o que, em dia de desespero, escrevi:
PRISÃO
Que sina! Que tristeza!
Não quero mais falar…melhor dizendo,
recuso a sentença que me cabe:Escrever.
E eis-me qual fantasma errando pelos cantos
da sela em que habito, na busca do lápis, do papel…
É incontrolável.
Resisto,esperneio, rasgo as vestes.
De dentro o grito lacerante:
-Não!
Na mão, o lápis, o apontador…
Sucumbo sob a forte maldição
-Escreve!
-Não quero!
-Escreve!
-Não devo! Não posso!
Sem forças, a mão já não resiste
Na página em branco corre o grafite
quase tão negro quanto a dor condenatória
-a execução da pena imposta
por um deus ou um demônio que, sem contemplação,
se impõe à força…
Felizmente(ou infelizmente), hoje, já não sei o que dizer…e resta-me o silêncio…(Claro, sem querer me comparar ao ilustre poeta citado, a quem admiro com profunda devoção).
Menino, quando li esses versos de Ruy Póvoas num dos livros a mim presenteado, fui ao céu e desci ao inferno, diante da intensidade e profusão de sentimentos neles descritos…
Os livros de Marcos Santarrita deveriam ser reeditados e você poderia tomar a iniciativa junto à família do mesmo. Que tal?
E continuo me deliciando com suas escolhas musicais. Obrigada!