ACM Neto não tem nem de longe o poder do avô. Evidentemente, vem de uma escola familiar, é de direita, oportunista, inteligente e habilidoso. É apenas uma pequena parte do antigo poder do carlismo, mas em situação histórica totalmente diversa.
Carlos Pereira Neto Siuffo

ACM era dirigente da direita tradicional, conhecia muito das virtudes e fraquezas humanas e sabia manipular os instrumentos de poder como poucos. Eram conhecidos os slogans divulgados por seus seguidores: “quatros anos de pau sem pão”; “aos amigos os favores da lei, aos inimigos os rigores da lei”; ” a bolsa ou chicote”. Sabia corromper e bater, tinha arte em extorquir empresários e, também, agradar intelectuais e jornalistas.
Carlos Castelo Branco conta que ele mandava buscar jornalistas do sul para almoços na Bahia. E muitos intelectuais outrora de esquerda eram seus amigos (dentre eles, Jorge Amado). Comandava a Bahia com dengo e chicote. Era um populista de direita e patrocinava a cultura popular. Fazia da Bahia um sincretismo. Católico tradicional, afagava o candomblé.
Praticamente dizia a “Bahia sou eu”, a ponto de incorporar os símbolos e as cores do Estado em suas propagandas partidárias.
Comandava as instituições do Estado com mão de ferro (todas). As polícias eram milícias suas. Também era dono do judiciário. Era famosa a sabadada dos desembargadores no beija-mão.
Agradava e socorria amigos (desde que não o comprometesse) e era impiedoso com os adversários. Tinha espírito de moleque de rua e tanto telefonava quanto mandava fac-símile expressando xingamentos horríveis para jornalistas.
ACM foi o modernizador por cima da economia baiana. Uniu as oligarquias rurais com o capitalismo moderno e se cercava de tecnocratas competentes. Desde que não fizesse política contra ele internamente, não se importava com pessoas de esquerda nos órgãos do Estado. De quando em quando, cooptava algumas – era conhecida a esquerda baiana na Seplantec. Boa parte de suas bancadas estadual e federal eram compostas de seus tecnocratas, forçava os oligarcas regionais a votar neles.
Rompendo com a ditadura em seus estertores, manteve um grande poder no governo Sarney. Com isso, sufocou o governo estadual de Waldir Pires e o de Lídice em Salvador. Alertando que ele continuava com grande força nas instituições estaduais.
A coligação PSDB e PFL manteve forte o carlismo. Mesmo após o rompimento com FHC, ACM continuou forte e cooptando políticos antes adversários, como fez com parte do PSDB, cujas lideranças comandam o PP da Bahia.
O principal cálculo de poder de ACM era fazer Luís Eduardo Magalhães presidente do Brasil. A morte do filho começa a fazer desandar o carlismo, por falta de um sucessor natural.
O carlismo era formado no mando ditatorial e nos interesses econômicos e fisiológicos dos seus “fiéis seguidores”. Internamente, era um ninho de cobras, cada qual querendo picar a outra.
A morte de ACM dispersa o carlismo. A maioria dos seus então seguidores hoje apoia o governo petista. As instituições também não são mais as mesmas. O carlismo morreu e não existe mais. Seu poder era alicerçado nos muitos interesses econômicos e fisiológicos das classes dirigentes e nas características pessoais de um líder de direita, inclusive muito bem articulado nacionalmente.
ACM Neto não tem nem de longe o poder do avô. Evidentemente, vem de uma escola familiar, é de direita, oportunista, inteligente e habilidoso. É apenas uma pequena parte do antigo poder do carlismo, mas em situação histórica totalmente diversa.
O carlismo foi um fenômeno histórico. Os antigos seguidores do carlismo hoje estão no governo de Rui Costa e também na oposição. O fenômeno carlista deixou de existir.
Não esquecer que Oto Alencar chegou a ser governador pelo antigo carlismo. Não esquecer!
Carlos Pereira Neto Siuffo é professor de Direito da Universidade Estadual de Santa Cruz (Uesc).




















Respostas de 2
Belo artigo.
Grande abraço carlinhos. AXÉ