Terra Indígena em Porto Seguro registra terceiro assassinato de jovem || Foto Cimi
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A comunidade pataxó da Terra Indígena Barra Velha do Monte Pascoal, no extremo-sul da Bahia, sofreu ataque de pistoleiros na noite deste segunda-feira (10). O indígena Vitor Braz foi morto a tiros e um outro indígena ficou ferido e seria submetido a cirurgia ainda nesta terça-feira (11).

Vitor era morador da retomada Terra à Vista, área em processo de demarcação, em Prado, reforça o Conselho Indigenista Missionário (Cimi). O assassinato ocorreu na véspera de audiência pública em Brasília (DF) sobre a demarcação das TIs Tupinambá de Olivença, Tupinambá de Belmonte e Barra Velha do Monte Pascoal, todas na Bahia. A TI Barra Velha do Monte Pascoal abrange área de mais de 52 mil hectares nos municípios de Porto Seguro, Prado, Itamaraju e Itabela.

MINUTO DE SILÊNCIO

Conforme o Cimi, cerca de 300 indígenas dos povos Tupinambá e Pataxó encontram-se na capital federal para participar da atividade, promovida pelo Ministério Público Federal (MPF). A audiência iniciou com um minuto de silêncio em memória de Vitor Braz.

As três terras indígenas (TIs), localizadas no sul e extremo sul da Bahia, aguardam há mais de uma década a emissão de suas portarias declaratórias, atribuição do Ministério da Justiça. Não há nenhum impedimento jurídico ou administrativo para a emissão das portarias.

“ORQUESTRADO POR FAZENDEIROS”

O Conselho de Caciques Pataxó TI Barra Velha de Monte Pascoal (Conpaca) divulgou uma nota, na qual afirma que “Vitor Braz foi cruelmente assassinado por pistoleiros em um ataque orquestrado por fazendeiros”. Três jovens indígenas foram mortos no extremo-sul desde setembro de 2022, quando milícianos mataram Gustavo Pataxó, de apenas 14 anos. Três meses depois, criminosos mataram Nawir Brito de Jesus, de 17 anos, e Samuel Cristiano do Amor Divino, de 25, ambos da Terra Indígena Barra Velha do Monte Pascoal, foram assassinados numa rodovia próxima ao território. Em ambos os casos, policiais militares são investigados pelos crimes.

Com 52,7 mil hectares, a TI Barra Velha do Monte Pascoal foi identificada e delimitada pela Funai em 2008 e abrange áreas dos municípios de Itabela, Itamaraju, Prado e Porto Seguro. Com a morosidade no processo demarcatório e falta de espaço na pequena área reservada da TI Barra Velha, os Pataxó intensificaram, nos últimos anos, as reivindicações pela terra, com a realização de diversas retomadas no território. Sem avanços por parte do Estado, a reação de fazendeiros tem sido violenta.

Confira a íntegra da nota do Conselho de Caciques da TI Barra Velha do Monte Pascoal:

TI Barra Velha de Monte Pascoal, 11 de Março de 2025

NOTA DE REPÚDIO-NEM UMA GOTA DE SANGUE A MAIS

O Conselho de Caciques Pataxó (CONPACA) vem, por meio desta, manifestar seu mais profundo repúdio e indignação diante de mais um ato de violência brutal contra nosso povo no Território Indígena Barra Velha de Monte Pascoal.

No amanhecer deste dia, que marca a realização da audiência pública sobre a demarcação de nosso território em Brasília, a terra amanheceu manchada pelo sangue de mais um de nossos jovens. Vitor Braz foi cruelmente assassinado por pistoleiros em um ataque orquestrado por fazendeiros, e outros dois adolescentes seguem desaparecidos.

Essa nova tragédia se soma a um histórico de violações, ameaças e ataques sistemáticos contra o povo Pataxó, que luta incansavelmente pela defesa de seu território e de seu direito à vida. Não aceitaremos que nossas terras sejam tomadas e que nossas vidas sejam ceifadas impunemente. Não entregaremos nosso território a invasores que, com suas mãos manchadas de sangue, tentam nos exterminar.

Exigimos providências imediatas das autoridades competentes! Exigimos justiça para Vítor Braz e a localização urgente dos adolescentes desaparecidos! Não permitiremos que mais uma gota de sangue indígena seja derramada sem resposta.

Conselho de Caciques Pataxó TI Barra Velha de Monte Pascoal.

Atualizada às 8h40min do dia 12.

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