
O que é esclarecedor e deve servir como reflexão nesse contexto político que estamos vivendo é que Nós Ainda Estamos Aqui. Eles também continuarão aqui.
José Cássio Varjão
No momento em que um punhado de pessoas, desprovidas de erudição, se aglomeram em determinados ambientes públicos para endossar as palavras e as ideias de mentes vazias e, às vezes, sem cognição, que pedem o “esquecimento”, por parte das autoridades, de crimes cometidos por tentativa de ruptura institucional, percebe-se explicitamente que, antes da particular liberdade de escolha de cada brasileiro, está plantada, por parte da elite branca, escravagista, antinacionalista e liberal/econômica, a semente do personalismo político, que teima desde 1930 em nos dividir entre nós e eles, o bem e o mal, de um lado qualquer um, e do outro quem tem nove dedos.
Quando incautas e desocupadas dezoito mil e trezentas testemunhas participam de um cortejo fúnebre, com a devida atenção dispensada ao defunto, e junto dele, seus asseclas, que não irão deixar nem o corpo do finado esfriar, para se apossar do seu espólio eleitoral, constata-se que continuaremos presenciando esse espetáculo dantesco. Ele dá engajamento, dá like e, principalmente, dá recortes distorcidos da realidade, como o da polícia de Claudio Castro, governador do Rio de Janeiro, que estimou essa bizarrice em quatrocentos mil presenciadores.
Os seguidores do irrefletido capitão são pessoas sem discernimento ou autonomia de escolha política, são os mesmos que votaram na UDN, na ARENA, em Fernando Collor, Fernando Henrique, votaram no PSDB, colocaram broche da Ucrânia na roupa, pediram voto impresso e auditável e ainda pedem intervencionismo militar. Nesse caso, por completa falta de entendimento do que foram os atos institucionais, principalmente o AI-5, ou um golpe, dentro do golpe.
Nesse panorama histórico atual, o filme Ainda Estou Aqui, extraído do livro autobiográfico de Marcelo Rubens Paiva, vencedor do Oscar de Melhor Filme Internacional, com mais de 5 milhões de expectadores e com arrecadação de mais de 200 milhões de reais em todo o mundo, não nos deixa esquecer do período cinzento da nossa história, que percorreu um continuum entre as agressões físicas e as prisões, os assassinatos e os desaparecimentos de cidadãos, que só cessaram com a malfadada Lei da Anistia, um acordo entre os poderosos, feito pelo andar de cima da sociedade, convencionado pelas oligarquias que sustentaram o regime, amparadas sob o guarda chuvas da ARENA, que deixou de punir os torturadores, os assassinos e os responsáveis pelos desaparecimentos, como o do ex-deputado Rubens Paiva.
A cultura do país resiste, Ainda Está Aqui, para lembrar que, das mentes brilhantes dos nossos artistas, saíram as vozes dissonantes contra o regime de exceção. Usando de metonímias e anáforas, para construir letras com duplos sentidos e metáforas, Chico Buarque, Adoniram Barbosa, Caetano Veloso, Gilberto Gil, João do Vale, Ney Matogrosso, entre outros, desafiavam a ditadura brincando com as palavras propositadamente incorretas. Adoniram Barbosa, em Tiro ao Álvaro, usou tauba, automóver, revórver e frechada, para desafiar os censores.
Chico Buarque, para também driblar a censura, criou um heterônimo para a solução do problema e ele se chamava Julinho da Adelaide. O personagem criado por Chico, supostamente, era um compositor de morro carioca que frequentava as páginas policiais. Julinho da Adelaide gravou duas músicas: Jorge Maravilha e Acorda Amor, e ficou tão famoso que, em 7 de setembro de 1974, o escritor Mário Prata (amigo de Chico) fez uma entrevista para o Jornal Última Hora. Os amigos, com o tempo, descobriram, mas os censores não. Os seguidores da turba são semelhantes, às vezes alguns deles não sabem nem o motivo pelo qual estão presentes no aglomerado de pessoas, o importante é estar de verde amarelo, gritar mito e rezar para pneus.
O jornalista Carlos Heitor Cony, imortal da Academia Brasileira de Letras – ABL, preso duas vezes, citava as dificuldades de convivência com a censura, antes e após o AI-5, com o fechamento total da ditadura. “A gente contava com dois fatores, um a favor e um contra. A favor era que os censores eram muito burros e não percebiam certas nuances. Por sua vez, por serem muito burros, às vezes, cismavam com coisas que não tinham nada demais e proibiam uma peça, um artigo ou uma música”.
Uma dessas vozes dissonantes, na plenitude dos seus 82 anos, fez um show apoteótico no Estádio Fonte Nova, em Salvador, no último sábado, dia 15.03.25. Na turnê de despedida da sua gloriosa carreira artística, chamada de Tempo Rei, mais de 40 mil empolgados fãs aproveitaram, por duas horas e trinta minutos, das músicas que marcaram a carreira de 60 anos de Gilberto Gil. Com direito a um estrondoso “Sem Anistia!”, Gil começou sua apresentação cantando Cálice e concluiu com Aquele Abraço.
Composta por Chico Buarque e Gilberto Gil, a música Cálice, lançada há 52 anos, em 1973, teve um impacto profundo e duradouro na MPB, se tornando um símbolo de resistência artística e política, fazendo um trocadilho com a expressão “cale-se”, uma clara referência ao silêncio imposto pelo regime. A letra, repleta de metáforas religiosas (como o cálice da Santa Ceia), criticava indiretamente a repressão e a violência do governo, driblando a censura de forma inteligente. A música se tornou um hino de relutância pacífica, inspirando outros artistas a usarem a arte como forma de protesto. A canção também é um exemplo da sofisticação poética da MPB, combinando elementos religiosos, políticos e sociais em uma letra densa e cheia de significados, sendo frequentemente relembrada em momentos de crise política no Brasil, mostrando que seu impacto transcende o período da ditadura.
Gilberto Gil e Caetano Veloso ficaram presos pela repressão, entre dezembro de 1968 e fevereiro de 1969, em Realengo, no Rio de Janeiro. Foram soltos numa Quarta-Feira de Cinzas com o objetivo, determinado pelos militares, de voltarem a Salvador, fazerem dois shows, para angariar fundos e saírem do Brasil para o exílio. Iriam para Londres. No avião, entre o Rio de Janeiro e Salvador, com um guardanapo e uma caneta na mão, a estrutura de Aquele Abraço saiu do imaginário artístico de Gil para entrar na história da MPB como um símbolo de resistência, de otimismo, de união, alegria e orgulho de ser baiano/carioca, afinal, a Bahia lhe deu “régua e compasso” para lutar contra as adversidades. Aquele Abraço era uma ode ao Rio de Janeiro, ao mencionar ícones culturais como o samba e a Portela, o futebol com o Flamengo (Gil é Fluminense, que tinha derrotado o Flamengo na final do Carioca de 1973), o Carnaval e a Banda de Ipanema, Chacrinha e sua Terezinha, sem se esquecer de Realengo. Aquele Abraço significava gesto passageiro, transitório. Gil sabia que iria voltar e que o regime iria acabar. É como se desejasse falar que Ainda Estaria Aqui, um dia, em breve.
Numa época em que os artistas reagiram à ditadura com a voz e um microfone nas mãos, o jornalismo fazia o mesmo, empunhando uma caneta, que a voz rouca do povo ecoava de dentro das cátedras das melhores universidades do país através de mentes brilhantes, percebemos, deste modo, o quanto somos lenientes nos dias atuais. Só quem não conhece a história pode se conformar com um país que não tenha o Ministério da Cultura, como no governo que essa turma quer trazer de volta.
O que nos move e o que nos faz seguir adiante, lutando contra as arbitrariedades que aconteceram há uns poucos anos no Brasil, é o legado de quem lutou contra um regime ditatorial e sanguinário, em síntese, quem de nós não gostaria de ter “caminhado contra o vento, sem lenço e sem documento?” ou não ter se encantado com as “Cardinales bonitas e a sensualidade de Bardot”, na letra de Caetano e Gil? Quem não gostaria de ser “apenas um rapaz latino-americano, sem dinheiro no banco e vindo do interior”, como Belchior foi? Quem não gostaria de ter “sonhado com a volta do irmão do Henfil, com tanta gente que partiu num rabo de foguete” ou “chorou com as Marias e Clarisses no solo do Brasil”, como Aldir Blanc e João Bosco escreveram e a grande Elis Regina eternizou com sua voz? Quem não quis “botar o bloco na rua, brincar e botar pra gemer” pulando de alegria com Sérgio Sampaio? Quem não “jurou mentiras e seguiu sozinho, assumindo seus pecados”, igual a Ney Matogrosso? Se “viver é melhor que sonhar”, e Belchior sabia “que o amor é uma coisa boa”, por que não sermos os embaixadores dessa mensagem? E não termos medo do “perigo na esquina”, até “porque eles já venceram e o sinal ficou fechado para nós”. Ainda bem “que somos jovens” e vamos seguir nossa luta, nossa caminhada contra o retrocesso que espreita sorrateiramente, cada passo dessa jornada.
O que é esclarecedor e deve servir como reflexão nesse contexto político que estamos vivendo é que Nós Ainda Estamos Aqui. Eles também continuarão aqui.
José Cássio Varjão é cientista político, MBA em Cooperação Internacional e Políticas Públicas; Administração Pública Municipal e Desenvolvimento Local; Administração Pública e Gestão de Cidades Inteligentes; Gestão de Negócios Inovadores e pós-Graduando FESPSP Repensando o Brasil: Sociologia, Política e História.



















Uma resposta
Texto altamente esclarecedor, além de ser claro e coerente.