Do PIMENTA
“Mainha é um milagre de Deus”. É assim que Risia Kaliane Santana de Souza, de 41 anos, resume a série de provações a que sua mãe, Maria Santana de Souza, 75, sobreviveu nos últimos 20 anos. Uma delas foi a implantação de um aparelho chamado Heart Mate 3, conhecido popularmente como coração artificial. Moradora de Ilhéus, no sul da Bahia, Maria foi a primeira pessoa das regiões Norte e Nordeste do País a receber esse tipo de implante.
Ao PIMENTA, o cardiologista Gustavo Duarte, um dos médicos que acompanharam a jornada de Maria Santana, explicou que o aparelho tem esse nome popular porque, acoplado ao coração, faz o bombeamento do sangue. “É um dispositivo de assistência ventricular, ‘um coração artificial’”.
Para fazer o procedimento, Maria recorreu à Justiça, que obrigou seu plano de saúde a transferi-la para uma unidade especializada. A vaga surgiu no Instituto de Cardiologia e Transplantes do Distrito Federal (ICDF), em Brasília. O histórico da paciente, que sobreviveu ao doloroso tratamento de um câncer de mama descoberto em 2005, levou a equipe do Instituto a descartar o transplante de um novo coração para Maria, optando pelo Heart Mate 3.
Gustavo detalhou a escolha técnica dos colegas de Brasília diante do quadro de insuficiência cardíaca avançada de Maria Santana. “Para fazer o transplante, se faz avaliação da pressão dos pulmões. Quando o coração começa a ficar fraco, o paciente tende a aumentar a pressão do pulmão. Se você coloca um coração novo com a pressão do pulmão alterada, esse coração falha, porque não consegue bombear o sangue devido a esse aumento da pressão pulmonar”.
Daí a opção pelo aparelho, que, numa tradução sem rigor técnico, também poderia ser chamado de companheiro do coração.
“O Heart Mate 3 é colocado no ápice do coração. Ele puxa o sangue dessa região do órgão e joga para a região da aorta, fazendo um desvio, como se fosse uma bomba de puxar água. Só que, ao invés de devolver para o coração, ela devolve um pouco à frente, gerando um mecanismo de bombeamento para ajudar o coração da paciente a atuar. Ela tem o coração dela, que bate, mas também tem esse coração artificial, que puxa sangue e devolve ao corpo”, explicou o cardiologista Gustavo Duarte.
DOS PRIMEIROS SINTOMAS AO IMPLANTE
Maria Santana de Souza é baiana de Mutuípe, no Vale do Jequiriçá, e morou por quatro décadas em Uruçuca, onde foi servidora do município e manteve a Livraria e Papelaria Vitória. Os primeiros sinais de que seu coração não ia bem apareceram durante uma caminhada com Risia, em julho de 2021, quando a família já havia se mudado para Ilhéus por causa da maior facilidade de acesso aos serviços de saúde.
“A gente fazia caminhadas na praia, e ela seguia praticamente no mesmo ritmo que eu”, recorda Risia Kaliane. No entanto, após a atividade física, Maria ficou mais cansada do que o normal. Isso a levou a fazer um novo check-up, mesmo já tendo feito um no mesmo ano.
Foi a médica Neila Rocha quem descobriu alterações no funcionamento do coração da paciente e solicitou exames específicos. Os resultados das primeiras investigações indicaram problema complexo, mas não fecharam o diagnóstico. Com medicações, os sintomas arrefeceram num primeiro momento. Depois, veio o susto.
A descrição de Risia sugere que a mãe teve uma experiência de quase morte. “No dia 2 de outubro de 2021, ela teve um apagão, caiu e, segundos depois, acordou, como se estivesse voltando à vida”. Contatada pela família, Neila Rocha recomendou a internação de Maria no Hospital São José, em Ilhéus.
Como estava com a frequência cardíaca muito baixa, Maria foi levada para a UTI do São José e, no dia 14 de outubro, recebeu um marca-passo provisório. O definitivo seria implantado no dia seguinte. As intervenções foram suficientes para que a idosa atravessasse todo o ano de 2022 sem intercorrências.
Os problemas no coração voltaram em 2023, quando Maria Santana passou a ser acompanhada também pelo médico Gustavo Duarte, no Hospital Calixto Midlej Filho, em Itabuna. Devido às particularidades da paciente, relacionadas ao tratamento do câncer, ao invés de substituir o marca-passo, o cardiologista decidiu que era mais seguro implantar um segundo aparelho, sem remover o primeiro.
Maria ganhou o segundo marca-passo no início de 2024 e se adaptava bem a ele, mas os sintomas de cansaço extremo retornaram em abril daquele ano. No mês seguinte, deu entrada no Hospital de Ilhéus. “Liguei para o dr. Gustavo e ele, prontamente, nos encontrou no Hospital”, conta Risia Kaliane,
Na UTI do hospital ilheense, Maria Santana recebeu medicação inotrópica, usada para estimular os batimentos cardíacos, explica Gustavo Duarte. Porém, a equipe médica constatou que o corpo da paciente passou a não reagir ao estímulo medicamentoso, e o cardiologista esclareceu que ela teria que ser submetida a um transplante de coração ou implante do Heart Mate 3.
Já em Brasília, no dia 5 de agosto de 2024, a equipe do Instituto de Cardiologia e Transplantes do Distrito Federal, liderada pelo médico Vitor Salvatore Barzilai, implantou o coração artificial em Maria.
INTERCORRÊNCIAS E REABILITAÇÃO
A cirurgia durou 8h. Durante e após o procedimento, Maria Santana enfrentou oito intercorrências. Na última delas, teve as extremidades dos cinco dedos da mão direita amputadas.
A família Souza frequenta a Igreja Batista há décadas. Por sua formação evangélica, Risia Kaliane acredita que Deus usou os médicos no caminho de Maria como instrumentos para salvar a vida de sua mãe, que voltou para Ilhéus no dia 30 de dezembro de 2024.
Antes da volta, Risia e seu pai, Geraldo Estevão Souza, de 74 anos, fizeram treinamento e prova rigorosos que os habilitaram manusear o Heart Mate 3. Também apreenderam a fazer diálise peritoneal, outro procedimento de que Maria necessita para viver, contornando um tipo de insuficiência renal.
Filha e marido se revezam nos cuidados, além do acompanhamento de profissionais de saúde. “Meu pai é um guerreiro e superapaixonado pela minha mãe. É um amor de 46 anos”, disse Risia sobre a relação de Geraldo e Maria. A irmã de Risia, Rosana Keila, mora no Espírito Santo, mas fez o possível para estar com a mãe em momentos decisivos.
Com idas e vindas, Maria Santana de Souza teve melhoras significativas, recuperou peso corporal e já começa a fazer caminhadas assistidas. Há dois meses, fez o primeiro passeio. Foi com Geraldo e Risia à comemoração do mês da família da Congregação da Igreja Batista Lindinópolis Sul 2, em Ilhéus.























