Camacãense, José Cássio Varjão é cientista político com MBA em Cooperação Internacional e Políticas Públicas
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Entre esse pensamento e hoje, já se passaram 30 longos anos e a penumbra cinzenta, que abraça Camacã, nunca se dissipou, continua dizimando nossas expectativas e nossos sonhos.

José Cássio Varjão 

Continuando com o que foi proposto no artigo anterior, tendo como evento principal o decréscimo populacional que o município de Camacã vem enfrentando, de forma mais acentuada, na última década e meia, o que provocou, a perda de duas vagas na Câmara Municipal, trataremos aqui sobre quais ações foram propostas pelas administrações desse período, relativamente a proposições concretas, no sentido de criar planos e metas para acelerar o desenvolvimento econômico local, objetivando mitigar a migração voluntária de parte da nossa população. Baseando-se no ano de 1990, que foi o início da queda da lavoura cacaueira, em 35 anos não seria tempo suficiente para dar um novo rumo na economia de Camacã?

Por dois motivos, decidi fazer a divisão desse material em dois períodos, tendo como base os 64 anos de emancipação política de Camacã. Num primeiro momento, para separar as administrações amadoras, capitaneadas pelos coronéis do cacau e alicerçadas na alta arrecadação de ICM. Em seguida, o período pós-coronelismo, com administrações que não romperam com velhas práticas de governos anteriores, porém foram afetadas pela diminuição gradativa das arrecadações, o que aumenta exponencialmente as dificuldades de governabilidade.

Quero deixar evidente que não falo de pessoas, analiso planos e propostas de governo que, a princípio, deveriam nortear as administrações que passaram pela Prefeitura de Camacã nesse período. Todavia, convém salientar que a determinação da apresentação de um plano de governo no ato de registro de candidatura no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) passou a valer nas eleições de 2012. Essa exigência foi introduzida pela Lei nº 12.034, de 29 de setembro de 2009, alterando a Lei 9.504/97. Mas, como admitir que alguém se proponha a administrar uma cidade sem o mínimo conhecimento e sem ter previamente uma planificação do que pretende fazer e, principalmente, de como fazer?

Quem planta vento, colhe tempestade. Com grandes consequências e nenhuma responsabilização, o rastro de atraso estrutural herdado por Camacã inaugurou o período de penúria, que se acentua cada vez mais. A cidade começa a colher o que “nunca foi plantado” nos primeiros 32 anos, e, juntando os fatores migratórios e econômicos, vários órgãos começaram a deixar a cidade. O que era latente ficou explícito. Como dito anteriormente, a população que já tinha começado uma migração gradual, entre 1980 e 2010, aumentou exponencialmente. Entre 2010 e 2024, apenas 14 anos, 8,7 mil pessoas deixaram Camacã – 27,61% da população. Essas são informações do IBGE. Vale o que está documentado.

A partir da primeira eleição pós-coronelismo, em 1996, os governos, nessa e nas eleições posteriores, trabalharam de acordo com as circunstâncias. Na primeira parte da história política de Camacã, os coronéis, com todas as condições financeiras disponíveis, construíram como destaque dos seus governos uma Fonte de Água Luminosa, que nem existe mais. No período subsequente, até os dias atuais, também nenhuma obra de impacto foi realizada. Os gestores dessa segunda etapa, pós-emancipação, cada um com suas virtudes e seus defeitos, trabalharam dentro das suas possibilidades, fizeram as obras que estavam ao seu alcance, mas nada que mudasse o contexto econômico-social local, causa da forte migração.

Imagem aérea de Camacã, no sul da Bahia || Foto PMC/Divulgação

Como imaginar que a cidade, que já colheu 1,3 milhão de arrobas de cacau, a maior produção de cacau do Brasil, nunca construiu as sedes para os poderes executivo e legislativo municipal? Como imaginar que Camacã, movida, exclusivamente, pela agricultura do cacau, não tenha pleiteado na Ceplac a construção de uma Escola Média de Agricultura Regional da Ceplac (Emarc), que tinha como finalidade formar mão de obra qualificada para a região cacaueira? Não pensaram no futuro dos seus jovens, obrigando-os a sair do município para cursar Técnicas Agrícolas ou Agrimensura em outras localidades. A Ceplac construiu as escolas em Uruçuca, Itapetinga, Valença e Teixeira de Freitas.

A Constituição Federal de 1988, no artigo 29, conferiu aos municípios brasileiros um status de ente federativo autônomo, consolidando sua posição no Estado Democrático de Direito. Essa autonomia se manifesta em três dimensões, a política, a administrativa e a financeira, e garante aos municípios a capacidade de se autogovernarem, elaborando suas próprias leis por meio da Lei Orgânica Municipal, desde que em conformidade com os princípios das Constituições Federal e Estadual. Com isso, os municípios passam a ter competências legislativas para tratar de assuntos de interesse local, promovendo a descentralização do poder e permitindo uma gestão mais eficiente e próxima da realidade de suas populações. A autonomia municipal, portanto, é essencial para o fortalecimento da democracia e para o desenvolvimento local sustentável. O entrave, está na falta de qualificação de parte dos servidores públicos, principalmente nos 2.476 municípios menores de 10 mil habitantes, ou 44,8% das cidades brasileiras, em conjunto a inaptidão para os cargos dos agentes políticos, os gestores municipais.

Na base econômica das pessoas, é primordial uma renda para ter acesso a bens de consumo pessoal, como alimentação, aluguel, vestuário, lazer e outros, com percentual equivalente a 60% dos seus ganhos. Os serviços públicos, como saúde, educação e segurança, que são classificados como bens de consumo coletivos, são compartilhados entre o governo federal, o estadual e o municipal. Como exposto, se a população não tem acesso aos proventos para suprir as suas necessidades pessoais, e essa é uma responsabilidade do município, gerando trabalho e renda, Camacã demonstra que quase nunca correspondeu às necessidades do total da população, ocasionando exclusão social e econômica, motivo do deslocamento populacional interno, ou seja, dentro do mesmo país. A essência desse quesito, está na falta de competência, amparadas por promessas vazias das administrações passadas e atuais, em promover o desenvolvimento econômico do município para além da agricultura. Eis a motivação da migração promovida por quase metade da população nesses últimos anos. Aquela cidade que atraia pessoas até de fora do estado da Bahia, há anos não abraça seus moradores. O desenvolvimento local não se espera, se assume e se constrói.

Reconhecendo o disposto na Constituição Federal, que dá autonomia aos municípios, vamos entender porque determinadas ações devem ocorrer de baixo para cima, da base da pirâmide para o topo, melhor dizendo, partindo dos municípios. Se o Brasil é uma República Federativa, composta por um governo federal, por 27 governos estaduais e por 5.570 governos municipais, de onde deve nascer a resolução dos problemas locais, cada um com suas peculiaridades, o status de sua economia e localização geográfica? O papel dos governos federal e estadual nesse processo, é agir como elemento colaborador dessas realizações propostas pelos municípios. Esperar que saia de Brasília, por parte da estrutura federal ou de parlamentares, a solução dos problemas caseiros de cada um dos 5.570 municípios é engano proposital e inaceitável.

O primeiro passo é sempre fazer a lição de casa. Como legado e como todo processo arcaico, a população de Camacã traz da época do coronelismo a péssima prática de fazer suas compras, inclusive as despesas mensais com alimentação, em Itabuna. Aquela era a época áurea do cacau, do Hipermercado Messias e do Restaurante Baby Beef, portanto, um ambiente para ver e ser visto, (pena não existir celular na época). Eis que, quando se usa o dinheiro auferido em sua cidade, fruto do seu trabalho ou do seu comércio, para gastos em outro local, você fragiliza a demanda do comércio da cidade em que reside, contribuindo para o enfraquecimento econômico local e, consequentemente, para a menor necessidade de empregabilidade nos estabelecimentos locais. Esse costume tem se perpetuado por décadas. Para efeito de comparação, se somente 200 pessoas da sede e dos distritos, gastarem mensalmente em outras localidades R$ 1.000,00, em média com suas despesas pessoais primárias, perfazem R$ 200.000,00 por mês. O total anual será de R$ 2.400.000,00, que deixou de circular no comércio da cidade. Quantos empregos seriam criados com a mudança desse hábito?

Não há economia forte se a base da sociedade for excluída. É ela que dá sustentação ao comércio, é ela que está todos os dias no supermercado, vendendo o almoço para comprar a janta, na padaria, no açougue, fazendo compras, enquanto os mais abastados fazem aplicações financeiras e não geram um único emprego. É a base que dinamiza e movimenta o capital local e, quando essa base não tem renda, quebra-se o ciclo econômico e os reflexos são sentidos por toda a sociedade. Portanto, assim como o sangue precisa se circular para manter o corpo vivo e nutrido, a economia precisa de movimento, com produção, consumo, investimento, crédito e inovação, para manter a sociedade saudável. A primeira ação no sentido de criar emprego em uma localidade é fazer circular nesse entorno toda a riqueza local. Assim sendo, de forma didática, o poder público deveria fazer campanhas de conscientização com a CDL, com a população e com os comerciantes, para que, de um lado, melhores produtos sejam disponibilizados nas prateleiras das lojas e supermercados, com preços adequados e, do outro, a população, instruída para realizar suas comprar no comércio local. Essa é primeira lição, a de casa.

Para efeito de comparação, de acordo com dados de 2024, do IBGE, a cidade de Camacã tinha 22.756 habitantes, dos quais somente 3.692 pessoas estavam ocupadas, um percentual de 16,35% da população, com PIB Per Capta de R$ 11.067,74. Tendo como base o mesmo critério populacional usado no texto anterior, comparamos os mesmos itens das principais cidades baianas margeadas pela BR-101, com Camacã.

Da mesmo forma que o comparativo anterior, Gandu e Itamaraju ficam com os menores índices, pelos mesmos motivos citados anteriormente. Por outro lado, usando como parâmetro o percentual de pessoas ocupadas nas sete cidades citadas, resulta em 22,58% de média. Assim, Camacã precisaria ter, para se equiparar à média obtida, 5.138 pessoas ocupadas, ou seja, mais 1.446 postos de trabalho preenchidos.

No quesito arrecadação, Camacã, que já foi equiparada a Juazeiro, no norte da Bahia, teve receitas brutas arrecadadas no montante de R$ 130.449.684,43 em 2024. Juazeiro, por sua vez, aproveitando o boom da implementação da agricultura irrigada no Vale do São Francisco, a partir da década de 1990, teve como receitas brutas R$ 1.298.063.475.42 também em 2024. Em termos percentuais Juazeiro é o município com a 5ª maior arrecadação no estado da Bahia, Camacã está chegando ao 170º lugar, clarificando que creditar nossas desgraças somente ao declínio do cacau é mascarar a falta de planejamento do poder público local. Com critério idêntico aos anteriores, a arrecadação dos sete municípios margeados pela BR 101 são os seguintes:

Para efeito de confrontação e melhor entendimento, seguem abaixo os índices de população ocupada, percentual de ocupação, renda per capta e arrecadação das cidades que utilizam Camacã como centro de referência comercial e bancária.

Percebe-se que o índice de pessoas com carteira de trabalho assinada é muito baixo, sendo um problema da região do cacau, devendo-se levar em consideração que, nesse montante de ocupações, estão incluídos os funcionários públicos dos municípios. Assim, tomando como exemplo a cidade de Santa Luzia, com uma população de 13.896 habitantes (2024) e o menor índice, 6,29%, de pessoas empregadas com CTPS, como vive o restante da população da cidade? Que outras vagas de trabalho, existem em Santa Luzia, Mascote, Pau Brasil e Arataca, que não seja o funcionalismo público? Como os gestores dessas cidades, convivem com essa constatação?

Pessoas certas, no lugar certo, aumentam as possibilidades de sucesso em qualquer empreitada. Ora, de acordo com os índices propostos acima, continuamos em franco declínio, demonstrando que nenhum plano de desenvolvimento econômico foi proposto e nenhuma política pública, nesse contexto, supostamente adotadas nesse período, mostraram-se eficazes. Sem a necessidade de apontar nomes, todos os que trouxeram Camacã até aqui, nesses 64 anos de emancipação, são diretamente apontados como responsáveis pelo declínio da cidade, uns mais e outros menos, sendo que três administrações nesse período duraram quase 30 anos no poder, a metade dos anos de emancipação da cidade.

O alto percentual das questões com segurança pública está na falta de ações nas áreas de educação, assistência social, mas principalmente na falta de emprego e renda daqueles menos assistidos da sociedade. Uma alternativa que poderia ter sido trabalhada seria o cadastramento dessas famílias para que, mediante parcerias com a iniciativa privada, pelo menos um membro da família tivesse ocupação. Se os gestores não sabem como trazer grandes empresas para o município, que gerem 200 ou 500 empregos de uma só vez, que criem ambiente, oferecendo vantagens aos comerciantes locais, para contratar 10 pessoas por mês, 120 por ano e 480 em quatro anos. Melhor enfrentar a realidade e conhecer o percentual de habitantes desempregados do que continuar na inércia, vivendo no escuro.

Os planos de governo apresentados ao TSE, de 2012 para cá, assim como “Lei para Inglês ver”, citam ações para a área da agricultura, mas não falam ou falam genericamente sobre desenvolvimento econômico através do comércio e dos serviços. Ora, quase 90% da população do Brasil vive em cidades e, especificamente em nossa região, com o êxodo dos trabalhadores do cacau, esse índice pode ser maior, pois hoje um número cada vez menor de agricultores vive nas fazendas. Durante a década de 90, no auge da vassoura de bruxa, com o êxodo rural local, eu afirmava que se o cacau um dia voltasse a ser o que já foi não teríamos trabalhadores para a colheita da lavoura. Vide os acordos de meia colheita firmados atualmente entre proprietários e trabalhadores na região. Portanto, a curto e médio prazo, a solução para trazer a prosperidade econômica de volta a Camacã, não passa exclusivamente pela agricultura. Não será a agricultura, que fará o “upgrade” necessário para mudar o patamar da economia local. Isso é fato. Passaram-se 35 anos e nada nesse contexto aconteceu.

“Se você não sabe aonde quer chegar, qualquer caminho serve”, determinou Lewis Carroll em Alice no País das Maravilhas. Essa é a frase que define Camacã nas últimas décadas. Nunca foi dado um passo além do convencional, nada de excepcional, nenhuma ação com o objetivo explícito de mudar o contexto da economia local. Imaginem que essa cidade, que vem definhando ano após ano, não tenha uma secretaria, ou melhor, uma Autarquia Municipal, com personalidade jurídica própria, gerida por pessoa qualificada  e competente (engenheiro, economista, arquiteto…), fiel às regras que a instituíram, sendo descentralizada da administração e que tenha como missão fundamental, criar um Plano de Desenvolvimento Econômico – PDE, que faça, por exemplo, diagnósticos centrados na matriz SWOT, exaltando nossas Forças e Oportunidades, assim como admitindo nossas Fraquezas e Ameaças. Como não falar do plano de governo vencedor em 2012, que colocou desenvolvimento econômico como item das propostas da Secretaria de Agricultura? Tampouco das propostas que venceram em 2020 e 2024, com a manutenção do poder. Algo foi construído entre essas duas eleições, para que o item com as propostas de desenvolvimento econômico, que constava em 2020, fosse excluído da proposta de 2024? Como não colocar a geração de emprego como meta principal, não de um plano de governo, mas de fato como meta primordial da administração?

Quando existe um propósito, inclusive na nossa vida pessoal, todos os dias acordamos centrados naquilo, com um objetivo fixo. Uma administração que não tem o seu Plano de Governo em cima da mesa, não tem essa ação como objetivo essencial. Quando esse documento só tem serventia para obedecer a legislação eleitoral, essa comunidade continuará ao Deus dará. Volto a repetir, critico a desarmonia entre o compromisso com a população e a realidade. Critico a imaterialidade dos termos propostos pelas coligações, arquivados como Plano de Governo, no Tribunal Superior Eleitoral – TSE, que deveriam servir como norte para uma administração.

Em 2010, no período em que morei nos EUA, li no Financial Times uma entrevista com Kevin Kaiser, PhD em Finanças e professor da Wharton School da Universidade da Pensilvânia, afirmando que “o problema da Europa estava na folha de pagamento”. Outra entrevista com o professor foi publicada nas páginas amarelas de determinada revista semanal brasileira, no final de 2012. E eu questiono: Ora doutor, onde o problema não está na folha de pagamento? Com o intuito de cumprir promessas de campanha, os prefeitos se utilizam das prerrogativas de contratações diretas para beneficiar seus partidários. Encontram-se duas inconveniências nessa prática: a) de acordo com a CF 88, todas as contratações devem ser amparadas por processos seletivos ou concursos públicos, e aí corre-se o risco, com méritos próprios, de um adversário político ser contemplado com a vaga, em detrimento ao seu partidário; b) apesar de ser eleito com parte dos votos da população local, o sujeito é designado para governar para toda a coletividade e não para uma minoria. E os vereadores com mandatos nessas última 4 eleições, que “devem” ter como uma de suas atribuições a fiscalização do executivo, o que fizeram? Vistas grossas? Não tinham conhecimento de que um plano de governo é o que norteia a administração? São as compulsões da política paroquial.

Quando o governo eleito contempla somente os seus partidários, escancara uma das motivações para as migrações ocorridas em Camacã nas últimas décadas. Essa falta de conhecimento prático e técnico, causa um enorme desfalque nas receitas locais, pois gerar emprego na comunidade tendo o ente público como mantenedor é uma prática que nos remete ao tempo dos coronéis. Naquela época, antes da CF 88, para entrar no serviço público, só precisava da canetada do prefeito endereçada ao RH, pois não existia a obrigatoriedade da realização de concursos públicos.

Hipoteticamente, se o agente político eleito pelo povo de uma comunidade faz a contratação de 500 pessoas, da sua escolha, usando como base um salário mínimo nacional de R$ 1.518,00, gera uma despesa mensal com salários, encargos sociais, INSS, FGTS, proporcional de 13º salário e proporcional de 1/3 de férias, sem incluir auxílio alimentação e vale-transporte, de quase R$ 2.300,00 por contratado, totalizando, mensalmente, R$ 1.150.000,00 de despesa com pessoal. Com montante anual de R$ 13.800.000,00, em quatro anos, são R$ 55.200.000,00 que poderiam ter sido usados em benefício da coletividade, num todo, com diversos fins.

Há um jargão no ambiente político que diz: “jogar pedra na vidraça alheia é sempre mais fácil”. Fernando Gomes, em Itabuna, 2016, após ser eleito, disse que a prefeitura estava sem caixa, como se isso fosse novidade para quem já tinha quatro mandatos de prefeito e, que também havia deixado cofres vazios para seus sucessores. Nenhum dos prefeitos de Camacã foi enganado sobre as condições financeiras do município, sentaram na cobiçada cadeira sabendo, pelo menos, das dificuldades que iriam encontrar, administrativas e financeiras, e que não poderiam fazer muita coisa, além de serem subservientes às combalidas receitas recebidas mensalmente. O ambiente político local demonstra que aquele que já foi a vidraça, posteriormente se tornou a pedra, e luta para voltar a ser a vidraça novamente. Vai entender!

A partir de 2012, Camacã inaugurou um novo modelo de prática política que envolve Jesus Cristo como contrapeso de aspirações políticas pessoais. É necessário pensar e agir para além dessa bolha dos conchavos, esse longo período de tribulação precisa ser cessado, acabar com o amadorismo dos gestores e, para isso, é preciso agir com responsabilidade, ter consciência de que existem soluções para todos os problemas socioeconômicos pelos quais a maioria dos municípios passam, mas é preciso conhecimento, saber como encontrar o rumo, o populismo por si só, não resolve. Essa responsabilidade deve ser assumida. Da mesma forma que conversa bonita nunca encheu a barriga de ninguém, promessas vazias só irão prorrogar a agonia das famílias que veem seus filhos, cada vez mais, abandonarem essa nau sem rumo. Eis a equação da política de Camacã nos últimos anos:

Quem e quantos serão os prefeituráveis da situação e da oposição para 2028?

Além do mais, o espectro político de Camacã mostrou exacerbado personalismo político, em detrimento do partidarismo. Todos os candidatos, desde 2012, concorreram na eleição seguinte por partido diferente. Essa prática corriqueira, demonstra a mudança ocorre somente em busca por melhores condições para a disputa.

Nem tudo que reluz, é ouro. A política paroquial, praticada com frequência nos municípios, obriga o cidadão a escolher um lado. Essa ação do cidadão/eleitor não se dá por livre escolha, pela melhor opção ou pelas propostas do candidato. Ela ocorre em detrimento ao adversário, é o contraponto, é o que restou votar. Em vez de conhecer os meios para resolver as questões econômicas do município, o objetivo é ganhar a eleição, colocar um deputado a tiracolo, para receber um pingado de emendas e tirar as ilustres fotografias para redes sociais. A esperança é que ele, o deputado, dê a solução para os problemas alheios ou o receba em Brasília, nas peregrinações em busca aleatória de soluções. Não se esqueçam, quem não tem cão, caça como gato. Pequenas ações podem e devem gerar grandes resultados, e, se ocorrer de forma contínua, gradativamente essa migração tende a arrefecer.

Por que a administração privada faz uso de diversos critérios para contratação de um gerente, por exemplo, mas no caso da administração pública, em seu cargo mais importante, que é gerenciar uma cidade, não existe critério algum? Por que o escolhido, em ambiente político, pode ser um sujeito amador e populista, que não conhece nada da função à qual vai ocupar? Fica cristalina a necessidade de profissionalizar os gestores públicos, mas principalmente, os atores políticos, formando pessoas habilitadas para gerenciar com êxito a evolução e a expansão das localidades. Somente de boas intensões o inferno está cheio. Por aqui, nas terras de Pindorama e dos índios Kamacãs, a história nos mostra que precisamos de resignação para continuar vivendo em Camacã.

É necessário ter a capacidade de organização, toda a população, sem separatismos, sem nós e eles, sem católicos e protestantes/evangélicos, sem ser só Camacã, Panelinha, Jacareci ou Leoventura. Tem que ser a totalidade da comunidade em conjunto, o poder público, a população, os comerciantes, os professores, as associações de classe, os grupos sociais, a CDL, a Maçonaria, com o mesmo objetivo, todos juntos para criar meios de transformar Camacã num polo comercial e de serviços. Esse é o caminho. É dar oportunidades aos que aqui estão e criar meios para que outros cheguem.

Sendo um ditado usual na internet, que aqui eu cito como ironia cósmica, “o mundo não gira, ele capota”. Meu pai, José Loiola Varjão, que deixou sua terra natal, Uauá, no sertão da Bahia, no final da década de 1940, fugindo da seca e em busca de melhores oportunidades de vida, chegou ao eldorado Camacã, no sul da Bahia e a adotou como sua terra. Por aqui, viveu e morreu. Hoje, Uauá, a capital brasileira do bode, que se situa no Sertão de Canudos, tem 24.665 habitantes, somente 1909 pessoas a mais de Camacã. Porém, com arrecadação de R$ 201.202.782,61, são mais de 70 milhões de reais de arrecadação mensal, do que Camacã.  Uauá é margeada pela BR 235 (olha o que uma BR não faz!), a famosa Rodovia do Vaqueiro, com 1.772 km de extensão, também chamada de MATOPIBA, por atravessar os estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia.

Quando chegou a minha vez de migrar, em 1995, cheguei em Brasília e percebi que estava num lugar onde todos os dias acorda-se com novas perspectivas, possibilidades e oportunidades. Onde todos os dias tem-se a certeza de que há um novo amanhã, que tudo pode acontecer. Quanto aos meus conterrâneos, pensava na época, estavam num lugar onde todos os dias eram iguais. Entre esse pensamento e hoje, já se passaram 30 longos anos e a penumbra cinzenta, que abraça Camacã, nunca se dissipou, continua dizimando nossas expectativas e nossos sonhos. Quanto à população, se acostumou com o infortúnio, aprende todos os dias a sobreviver numa cidade sem amanhã.

Volto a repetir, não falo de pessoas. Explicito no mundo real o acentuado declínio, que se ratifica com a perda de dois vereadores na última eleição. O que mascara a real situação econômica de Camacã é população flutuante, de outras cidades, que diariamente circula na cidade, porém, os gestores não perceberam que a solução parte desse ponto. Camacã precisa deixar os aparelhos, voltar a respirar por conta própria, sair dessa convalescença. Até o próximo pleito, em 2028, são 40 meses. Encontrem meios para colocar nossa cidade nos caminhos do desenvolvimento ou, pelo menos, para iniciar esse processo. Condições para isso existem. Incluam a população nas discussões, o que se chama de apropriação do desenvolvimento pela base. É ela o capital social dessa comunidade, é ela que vive as dificuldades do dia a dia e é ela que vê cada geração de camacaense, que completa a maior idade, deixar a cidade com destino, provavelmente, ao bairro Baianão, em Porto Seguro.

Quanto a quem está no poder, é primordial salientar que o salário de um prefeito, assim como seus bônus, ganhos e vantagens, representa apenas uma face do princípio universal descrito pelas leis herméticas: todo benefício traz consigo um peso proporcional. Se de um lado há o status, a remuneração e o prestígio, do outro existem responsabilidades, cobranças e desvantagens inerentes ao cargo. A polaridade se manifesta de forma clara: quanto maior a honra, maior também o ônus; quanto mais privilégios, mais deveres. O exercício do poder, nesse sentido, é a perfeita expressão da lei hermética de causa e efeito, pois cada ganho exige uma contrapartida em esforço, equilíbrio e entrega. Assim, o prefeito experimenta em sua função a dinâmica universal de que não existe bônus sem ônus, as duas faces inseparáveis de uma mesma realidade.

Ninguém entra para a história contribuindo com o declínio de uma cidade, a diminuição da população, e, consequentemente, da arrecadação. A história não os perdoará. Passarão de maneira fugaz pela memória de Camacã e só serão lembrados na galeria dos prefeitos municipais. Caso contrário, tenham hombridade, exerçam o direito constitucional de votar, mas se não enxergam a solução, renunciem, também, ao direito constitucional de serem votados. Mais uma vez evoco Waldeck Ribeiro: “Uma das maiores virtudes do ser humano é a renúncia”.

José Cássio Varjão é camacãense é graduado em Ciência Política e possui MBA em Cooperação Internacional e Políticas Públicas, pós-Graduado em Administração Pública Municipal e Desenvolvimento Local, pós-Graduado em Administração Pública e Gestão de Cidades Inteligentes e pós-Graduado em Gestão de Negócios Inovadores.

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