Tempo de leitura: 3 minutosReverendo Luciano Campelo
O Brasil é uma nação fundada sobre princípios democráticos e sobre a soberania popular. A Constituição Federal de 1988 estabeleceu como pilares inegociáveis a dignidade da pessoa humana, a liberdade de crença e a laicidade do Estado. O Estado Democrático de Direito, portanto, deve ser defendido de quaisquer ameaças, sejam elas políticas, econômicas ou mesmo religiosas, quando estas se travestem de poder político-partidário.
Nesse contexto, é preciso reconhecer que o pastor Silas Malafaia, recentemente alvo de investigações, não representa todos os cristãos brasileiros — que, segundo o IBGE, compõem cerca de 90% da população — nem mesmo a totalidade dos evangélicos, que correspondem a aproximadamente 30% do povo brasileiro. Entre os cristãos do Brasil, a maioria é católica (romanos, ortodoxos, anglicanos e católicos das igrejas nacionais), e dentro do campo evangélico há grande diversidade denominacional: batistas, presbiterianos, wesleyanos, adventistas, assembleianos e tantas outras tradições. O próprio Silas Malafaia é presidente de um ramo da Assembleia de Deus, denominação que se subdivide em diferentes ministérios, não possuindo a exclusividade da representação evangélica no país.
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As lideranças religiosas merecem respeito, mas não estão acima da lei. Como qualquer cidadão, pastores, padres, rabinos, monges ou quaisquer ministros de fé devem responder por seus atos quando praticarem condutas ilícitas.
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É fundamental salientar que Malafaia faz uso político-partidário da posição religiosa que ocupa, instrumentalizando o nome de Deus para fins eleitorais e para atacar as instituições democráticas, especialmente após a derrota eleitoral de seu candidato à Presidência em 2022. Tal postura, ao invés de refletir o espírito do Evangelho, revela-se como manipulação da fé alheia. O apóstolo Paulo advertiu: “Porque, se alguém prega outro Jesus que não temos pregado, ou se recebeis outro espírito que não recebestes, ou outro evangelho que não abraçastes, de boa mente o tolerais” (2Co 11,4). Infelizmente, muitos têm sido induzidos por uma narrativa falaciosa, segundo a qual o Brasil viveria uma suposta “ditadura da toga”, uma “ditadura judicial”.
Ora, tal discurso constitui uma mentira perigosa, uma fake news, destinada a desacreditar o Poder Judiciário e a corroer as bases da República. Como dizia Hannah Arendt, “a mentira organizada tende a destruir aquilo que ela visa proteger: a confiança pública”. Nesse sentido, quando líderes religiosos usam sua influência para difundir inverdades, não apenas ferem a ética cristã, mas atentam contra a paz social.
A história ensina que a religião, quando instrumentalizada pelo poder político, pode ser usada como mecanismo de opressão e manipulação. É por isso que a laicidade do Estado brasileiro deve ser preservada com rigor. Laicidade não significa perseguição à fé, mas justamente a garantia da liberdade religiosa de todos. Nesse espírito, recorda-se a palavra de Jesus: “Dai, pois, a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus” (Mt 22,21). A distinção entre os campos político e religioso é, portanto, um princípio evangélico.
É preciso afirmar com veemência: Silas Malafaia age com extrema desonestidade ao difundir fake news, ao apoiar políticos hipócritas que se dizem cristãos apenas por conveniência eleitoral, mas que, na prática, defendem valores opostos ao Evangelho — como a tortura e a ditadura militar, ideias historicamente defendidas por setores bolsonaristas. Tais posicionamentos estão em frontal oposição ao mandamento maior de Cristo: “Amai-vos uns aos outros como eu vos amei” (Jo 13,34).
As lideranças religiosas merecem respeito, mas não estão acima da lei. Como qualquer cidadão, pastores, padres, rabinos, monges ou quaisquer ministros de fé devem responder por seus atos quando praticarem condutas ilícitas. Santo Agostinho já advertia: “Sem justiça, o que são os reinos senão grandes bandos de ladrões?”.
A soberania do Estado brasileiro exige que os três poderes da República — Executivo, Legislativo e Judiciário — atuem em harmonia, mas também com independência e firmeza. Ter um Judiciário forte, autônomo, independente e célere é indispensável para garantir que a democracia não seja subvertida por interesses particulares ou por manipulações religiosas de caráter político-eleitoral.
Como ensinava Rui Barbosa: “A pior ditadura é a do Poder Judiciário. Contra ela, não há a quem recorrer”. Mas esta frase, frequentemente distorcida, não significa que devamos enfraquecer o Judiciário; ao contrário, significa que sua atuação deve ser firme, equilibrada, transparente e respeitada, pois sem um Judiciário forte, não há Estado de Direito.
O povo brasileiro, em sua maioria cristão, é muito maior do que qualquer liderança isolada. A fé em Cristo não se confunde com projetos de poder. A democracia brasileira é um patrimônio comum que deve ser protegido por todos, independentemente de crença ou religião.
Que Deus, na sua infinita misericórdia, abençoe o povo brasileiro e ilumine as nossas autoridades, para que atuem com sabedoria, justiça e firmeza, preservando a liberdade, a paz e a democracia em nosso país.
Reverendo Luciano Campelo é padre da Igreja Católica Apostólica Anglicana e frade da Ordem Franciscana Anglicana.