O segundo dia da Flicacau, nesta sexta-feira (28), no Centro de Cultura Adonias Filho, em Itabuna, consolidou o Espaço Estação Juventudes como um dos ambientes mais vibrantes da Festa Literária da Região Cacaueira. Debates sobre literatura, comunicação, território e novas formas de imaginar o futuro reuniram públicos diversos ao longo de toda a manhã e tarde, em encontros conduzidos por autores que dialogam diretamente com a experiência jovem.
A programação começou às 9h, com o bate-papo Suspense Verde: o futuro da vida em jogo, com Raphael Montes e mediação de Marina Maria, discutindo como a ficção pode tensionar debates ambientais e despertar atenção para riscos, escolhas políticas e caminhos possíveis diante da crise climática.
Às 11h, o encontro O que plantam as palavras?, com Camila Apresentação e Deco Lipe, e mediação de Rafael Gama, trouxe ao centro a potência criativa das juventudes, a relação entre linguagem e pertencimento e o uso das plataformas digitais como espaços de criação e aproximação.
LINGUAGEM COMO PONTE
Camila Apresentação destacou que o desafio de construir diálogo real com o público a fez repensar sua própria forma de comunicar. Segundo ela, insistir apenas na literatura escrita limitava o alcance das conversas. “Percebi que eu estava falando para um público específico. Nem todo mundo lê livros e, daquele jeito, eu não estava falando com as pessoas negras que eram o meu foco. A linguagem estava criando uma distância”.
A autora relatou que encontrou um caminho ao conectar temas do cotidiano, como música, internet, cultura pop, a discussões profundas sobre identidade e experiência negra. “Comecei a falar das coisas que eu gostava de uma forma que qualquer pessoa do meu bairro pudesse entender. A principal forma de me conectar com as pessoas era pela linguagem. Ela precisa aproximar, não separar.”
Deco Lipe ressaltou que sua entrada na literatura veio da percepção de que muitos espaços não dialogavam com perfis como o seu, de jovens LGBTQIAPN+ e leitores de fora dos grandes centros. “Chego na literatura por não enxergar esses espaços. Quando começo a publicar, percebo que trazer uma perspectiva infantil e LGBT abre um olhar que quase nunca aparece nos circuitos tradicionais”, disse.
Ele enfatizou ainda o papel da internet para quem produz literatura jovem e descentralizada: “Busco muito o que está acontecendo nas redes. Isso vira matéria para a minha escrita e para as curadorias. A Bahia tem um arcabouço enorme de autores e territórios esquecidos. Quando colocamos esses lugares como protagonistas, mostramos uma Bahia que escreve e constrói literatura.”
FUTUROS, TERRITÓRIO E COSMOVISÕES INDÍGENAS
Às 14h, o debate Utopia originária: a necessidade de novos paradigmas, com Glicéria Tupinambá e Ezequiel Vitor Tuxá, sob mediação de Randra Kevelyn, trouxe uma das reflexões mais potentes do dia, apontando para a urgência de novos modos de imaginar o mundo.
Ezequiel Tuxá destacou a diferença fundamental entre a literatura dos povos originários e a produção literária dominante. “A literatura indígena sempre vai falar sobre a Terra. Ela reage ao ambiente. Por muito tempo, outros escreveram sobre nós. Agora escrevemos para mostrar quem somos e como pensamos o Brasil”.
Ele reforçou que essas narrativas provocam deslocamentos importantes. “A literatura faz refletir e mudar o pensamento. Para nós, o bem-estar é coletivo. Se a água, o solo, o vento não vivem bem, ninguém vive bem. A reflexão indígena ensina isso”.
Artista plástica e filha da Serra do Padeiro, nos limites entre Ilhéus e Buerarema, Glicéria Tupinambá reforçou o valor das narrativas ancestrais para a compreensão do mundo contemporâneo. “Nossas histórias fazem sentido dentro de nossas cosmovisões, que são diversas e têm especificidades próprias”, afirmou, lembrando que esses saberes seguem vivos, apesar de séculos de silenciamento.
COSTURANDO NOVOS FUTUROS
Fechando o dia, às 16h, o bate-papo Juventude em verde e prosa, com Isabela Freitas e mediação de Erik Sales, Raianne Farias e Jorge Almeida, reuniu o público para discutir criação, redes sociais, experiências geracionais e os desafios de produzir conteúdo e literatura num tempo marcado por sobrecarga, urgência e desejo de transformação.
O Espaço Juventudes se firmou, assim, como um território de encontro, escuta e experimentação, reafirmando o compromisso da Flicacau com a formação de novos leitores, autores e produtores culturais.


















