Thiago Dias
A história da série O Último de Nós (The Last of Us) começa em 1968, num programa de TV. Diante do auditório e das câmeras, o apresentador interage com dois epidemiologistas. O primeiro especialista fala sobre os danos que uma pandemia viral poderia causar. O segundo, Dr. Neuman, admite que o evento mataria milhões de pessoas, mas diz não se preocupar com essa possibilidade. Pondera que, apesar das baixas, os humanos sempre venceram as guerras contra os vírus.
Teríamos problemas maiores se, ao invés de viral, a pandemia fosse provocada por um fungo, acrescenta Neuman, citando espécies que parasitam formigas e outros insetos. Elas assumem o comando do sistema nervoso e usam o corpo do hospedeiro para se desenvolver e se dispersar.
Quando Neuman descreveu a hipótese de uma pandemia fúngica, o outro epidemiologista refutou, lembrando que os parasitas desse reino não ameaçam os humanos. Os fungos não sobrevivem a mais de 35 graus, e a temperatura média do corpo humano é de 36 graus. Mas, retrucou Neuman, se as condições ambientais passassem a exigir, por exemplo, uma adaptação dos seres vivos a temperaturas maiores:
– Aí, sim, o fungo teria por que evoluir. Um gene sofre mutação, e um Ascomiceto, Candida, Esporão-do-centeio, Cordyceps, Aspergillus, qualquer um deles poderá se cravar no nosso cérebro e tomar o controle, não de milhões de nós, mas de bilhões. Bilhões de fantoches com a mente envenenada, voltados a um objeto comum: espalhar a infecção a todo ser humano vivo, custe o que custar. E não há tratamento. Não há profilaxia nem cura.
“E se isso acontecer?”, pergunta o apresentador do programa. “Vamos perder”, responde Neuman. Assim termina o prólogo da série.
CORDYCEPS, NÃO ESTAMOS A PERIGO
Estudioso do Reino Fungi, Alexandre Rafael Lenz explica que o fungo representado na série é do gênero Cordyceps, que foi dividido em dois, Cordyceps e Ophiocordyceps. “Eles infectam insetos, artrópodes, e conseguem controlar o sistema nervoso, transformando esses insetos em zumbis”.
Também esclarece que, na distopia adaptada de um videogame e lançada pela HBO em 2023, o salto evolutivo do fungo destoa do ritmo real de transformação dos seres. Ao contrário dos personagens Joel Miller e Ellie Williams, protagonistas da ficção distópica, não corremos o risco de ser tomados pelo fungo que devasta a maior parte da humanidade na história.
“Pode ser que um dia esse fungo evolua para infectar humanos. Se isso ocorrer, a gente não vai estar mais aqui, porque a evolução é um processo lento. Não ocorre de um dia para o outro. Na atualidade, o que a gente tem é infecção de insetos”, disse ao PIMENTA o professor da Universidade do Estado da Bahia (Uneb).
Cientista da Computação e doutor em Biotecnologia pela Universidade de Caxias do Sul, Alexandre coordena pesquisas sobre bioinformática e é um dos idealizadores do projeto Micotrilhas da Bahia, que formatou quatro trilhas para a observação de fungos. Duas delas ficam na Chapada Diamantina, e as outras no Parque Estadual da Serra do Conduru, que se estende por mais de nove mil hectares, nos limites de Ilhéus, Uruçuca e Itacaré, no sul do estado.
A série inspirou o nome da trilha Cordyceps, mas a ideia do projeto se deve ao documentário Fungos Fantásticos, lançado em 2019 e dirigido por Louie Schwartzberg. A referência à série, diz Alexandre, é um link com a cultura pop e uma forma de despertar a curiosidade do grande público para o universo pouco conhecido dos cogumelos.
De todas as possibilidades de uso dos fungos, Alexandre tem se dedicado, especialmente, às da farmacologia e orienta pesquisas na área. “Trabalho com prospecção de moléculas de cogumelos que tenham potencial anticâncer”. Ele explica que seu giro da Ciência da Computação para a Farmácia tem como pano de fundo o entendimento do potencial da biodiversidade do Brasil, sobretudo da Mata Atlântica. Com as Micotrilhas, o pesquisador abriu caminho nesse bioma para os visitantes do Parque Estadual da Serra do Conduru.
A TRILHA
O PIMENTA se juntou à segunda turma de visitantes da trilha Cordyceps, que foi inaugurada em 2024. O trajeto tem pouco mais de um quilômetro, mas é feito vagarosamente, sob a orientação de guias treinados para localizar e descrever as dezenas de espécies de cogumelos encontradas no percurso. A trilha Amanita fica no mesmo parque. Juntas, as duas trilhas já tiveram mais de 160 espécies de fungos catalogadas.
Além do PIMENTA e dos guias, o grupo da incursão incluiu dois seguranças da empresa que administra o Parque e cinco visitantes. A busca pelos cogumelos foi minuciosa e bem-sucedida. No percurso, encontramos alguns exemplares do Cordyceps acoplados a insetos, sobretudo formigas.
A trilha também é um prato cheio para quem aprecia a culinária baseada no Reino Fungi. Com ajuda do catálogo disponibilizado aos visitantes e com a experiência dos guias, é possível distinguir espécies comestíveis.

A experiência na trilha ajuda a dimensionar apenas uma fração do imenso Reino Fungi. Um universo ainda pouco conhecido pela ciência e quase invisível para o grande público, apesar de seu potencial para enfrentar alguns dos principais problemas criados pelo próprio ser humano.
“A gente pode usar fungos para resolver, praticamente, qualquer problema que o homem criou até hoje”, afirma Alexandre Lenz. Segundo o pesquisador, eles já são estudados e utilizados na degradação de plásticos, na limpeza de ambientes contaminados, no tratamento de água poluída, na produção de embalagens recicláveis, biocombustíveis, medicamentos e alimentos. “São várias alternativas utilizando os fungos, e a população não conhece”.
Esse desconhecimento também se expressou na institucionalidade. Durante décadas, os fungos ficaram à margem das políticas de conservação. “Eles sempre foram muito negligenciados. Para você ter uma ideia, até 2018 nenhum programa de conservação previa a proteção dos fungos, apenas de flora e fauna”, explica o pesquisador.
Foi nesse contexto que surgiu o termo funga, criado para colocar o Reino Fungi no mesmo patamar das plantas e dos animais nas estratégias de preservação ambiental. “Está tudo conectado. A floresta não fica de pé sem fungos.”
INTELIGÊNCIA EMERGENTE
A conexão entre as diversas formas de vida vai além do visível. Cerca de 90% das árvores dependem de fungos associados às raízes para sobreviver. São as micorrizas, responsáveis por formar uma vasta rede subterrânea que permite a troca de nutrientes e sinais químicos entre as plantas, descreve Alexandre Lenz. “Se uma árvore é infectada por um patógeno, ela consegue avisar às outras árvores por meio da rede dos fungos”.
Estudos conduzidos em universidades da Europa e da América do Norte já demonstraram esse tipo de comunicação, que vem sendo descrita por pesquisadores como uma forma de inteligência distribuída da floresta.
O conceito de inteligência, nesse caso, não se refere a uma consciência individual, como estamos acostumados a pensar, mas à capacidade de armazenar informações, responder a estímulos e tomar decisões coletivas em favor da autopreservação do sistema. “Estamos falando de memória e tomada de decisão. Uma rede que abrange uma floresta inteira pode ter muito mais conexões do que um cérebro humano”, constata o pesquisador.
Demonstrar isso em grande escala ainda é um desafio científico. “É algo extremamente complexo de avaliar, mas pequenos estudos indicam que essa inteligência distribuída pode existir”, afirma. Essa perspectiva, segundo ele, desloca a forma como a humanidade se vê em relação ao meio ambiente. É a própria noção de equilíbrio ecológico: “Se todos os seres estão conectados e um depende do outro, eliminar alguns vai desequilibrar tudo”.
FLORESTA EM PÉ
No Parque Estadual da Serra do Conduru, o turismo científico pode ajudar a difundir essa perspectiva sobre a Casa Comum. “Hoje, a maioria da população nem sabe que o parque existe”, pondera Lenz. A expectativa é de que atividades de baixo impacto, como as micotrilhas, tragam visibilidade a um dos trechos mais preservados da Mata Atlântica, um dos biomas mais biodiversos do planeta.
Os resultados científicos reforçam a singularidade da área. Nos parques da Chapada Diamantina e da Serra do Conduru, a equipe já coletou 266 espécies de fungos. Cem delas tiveram o DNA sequenciado. Desse total, 62 ainda não puderam ser identificadas. “Há uma grande chance de serem espécies novas para a ciência”, especula Alexandre Lenz.
Um dos exemplos é o cogumelo que dá nome à trilha Amanita, encontrado até hoje apenas naquele trecho do Parque. “O fato de ocorrer somente ali nos deixa atentos, porque pode ser uma espécie endêmica e sob risco de extinção”, alerta.
Entre o que já se conhece e o que ainda permanece oculto no solo da floresta, as micotrilhas revelam um reino silencioso, fundamental para a vida na Terra — e que começa, pouco a pouco, a sair da invisibilidade.
QUER CONHECER?
Na manhã do próximo domingo (28), o projeto Micotrilhas receberá nova turma de visitantes na Serra do Conduru. Interessados podem agendar participação pelo telefone/WhatsApp (73) 99920-3331. Pela BA-001, no trecho Ilhéus-Itacaré, o acesso ao parque fica em Serra Grande, distrito litorâneo de Uruçuca.






















