Tempo de leitura: 2 minutosO internacionalista Henrique Campos de Oliveira afirma que uma análise do ataque militar dos EUA à Venezuela na madrugada de hoje (3) deve considerar o atual tensionamento das relações internacionais. O contexto mais amplo, segundo o especialista, é a diminuição da diferença do poder de influência dos Estados Unidos em relação ao de países como Rússia e China.
“Os EUA não têm mais aquela distância que tinham em relação aos outros países, como nos anos 90. Inclusive, na própria América Latina, como tiveram nos anos 60 e 70, quando patrocinaram e empreenderam golpes militares para mudança de regime nos países. Hoje, a situação é outra”, afirmou ao PIMENTA o doutor em Ciências Sociais pela Universidade Federal da Bahia (UFBA).
Para o pesquisador, a projeção de Trump como liderança forjada fora da institucionalidade norte-americana favorece a ação de ruptura dos Estados Unidos contra as instituições internacionais que o mesmo país ajudou a criar após a Segunda Guerra Mundial, a exemplo do Conselho de Segurança das Nações Unidas (ONU) e o Tratado de Bretton Woods, que deu privilégios ao dólar no sistema monetário internacional.
O presidente norte-americano serviria ao interesse atual dos EUA em romper convenções do Direito Internacional, com o objetivo de se manter como país hegemônico, defendeu o analista:
– Essa postura de Trump virou uma espécie de desculpa [para as transgressões dos Estados Unidos]. Trump não é uma figura institucional, tradicional, e acaba rompendo com regras para que os EUA tentem se manter como o grande hegemon. O que Trump fez é altamente arbitrário, a invasão do espaço aéreo, território e soberania de outros país.
ZONAS DE INFLUÊNCIA IMEDIATA
No contexto de endurecimento das relações internacionais, acrescentou Henrique, o ataque à Venezuela reflete o movimento das grandes potências por maior controle de territórios vizinhos, como faz a Rússia na Ucrânia. “Isso também é um reflexo de como os países, nesse tensionamento geopolítico, vão começar a se posicionar, sobretudo, nas suas zonas de influência imediata”.
A diferença relevante, segundo ele, é que o país sul-americano não caminhava para se transformar em base avançada de rivais dos EUA, enquanto a Ucrânia pleiteava adesão à Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), movimento considerado uma ameaça existencial pela Rússia.
Apesar do apoio histórico dos governos chinês e russo à Revolução Bolivariana, o pesquisador avalia que a agressão estadunidense à Venezuela pode ter envolvido algum grau de consentimento dos gigantes do leste europeu e da Ásia. “A Venezuela é um país que deve muito à China e à Rússia. Mas, aparentemente, um movimento desse não seria feito sem que esses players [atores] fossem informados ou sem uma determinada negociação”.
POSIÇÃO BRASILEIRA
Henrique C. de Oliveira considera acertada a manifestação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que condenou o ataque ao país vizinho (leia aqui). Contudo, pondera a complexidade da relação do líder brasileiro com o Governo Maduro. “É um regime autoritário, autocrático, muito diferente do início do movimento revolucionário bolivariano, que enfrenta problemas em processos eleitorais, de falta de transparência”.
Também chama atenção para as implicações que a postura do presidente brasileiro em relação ao tema internacional pode ter num ano de eleições gerais. “É um ponto delicado, mas, além da questão eleitoral delicada, o ataque dá vazão à entrada dos EUA em um país com o qual o Brasil tem fronteira. É tudo muito complexo”, concluiu.