Tempo de leitura: 2 minutosDo PIMENTA
Na tarde de 17 de dezembro de 2024, uma terça-feira, a arroba de cacau bateu R$ 1.029,00 na praça de Ilhéus. Foi o preço nominal mais alto da história do produto. Nesta sexta-feira (20), os mesmos 15 quilos de amêndoas do fruto de ouro valiam R$ 155. Desvalorização de 84,94% em um ano e dois meses.
Nesse intervalo, o mercado saiu de um choque de oferta – provocado pela redução da produção em países como Gana e Costa do Marfim – para a conjuntura atual, de diminuição da demanda associada ao alto nível de estoques reabastecidos pela retomada de produtividade da lavoura na África.
Além dos fatores que depreciam a commodity no mercado internacional, produtores brasileiros acusam as grandes empresas compradoras de cacau de atuarem, de forma coordenada, para reduzir ainda mais o preço do produto no país. Segundo eles, haveria uma cartelização para, artificialmente, diminuir a cotação do cacau no Brasil em relação à bolsa de valores de Nova Iorque, impondo deságio ao preço da mercadoria nacional.
A cotação no mercado futuro de Nova Iorque fechou a sexta-feira (20) a 3.174 dólares por tonelada, algo próximo de R$ 16.570. Por esse valor, o quilo do cacau seria cotado a R$ 16,57 e a arroba, R$ 248. Sem considerar as mediações implicadas na conversão desses valores, o preço em Ilhéus (R$ 155) representa um deságio de 37,5% em relação à cotação internacional.
Os produtores brasileiros também acusam as grandes indústrias moageiras de usarem as importações de cacau para baratear a mercadoria no Brasil, valendo-se do sistema chamado de drawback, que isenta o importador de impostos sobre insumos usados na fabricação de produtos para a exportação.
OUTRO LADO
As multinacionais Cargill, Olam e Barry Callebaut respondem por mais de 90% das compras de cacau no país e dominam o processamento industrial do produto no Brasil. Juntas, compõem a Associação Nacional das Indústrias Processadoras de Cacau (AIPC), que nega a existência de cartel na compra do produto.
A Associação afirma que não interfere nos preços praticados no mercado. Segundo a entidade, as empresas negociam de forma autônoma com os produtores, de acordo com suas políticas comerciais, e eventuais bonificações por qualidade dependem da relação individual com os fornecedores.
A AIPC também defendeu as importações como essenciais para manter as linhas de produção, citando déficit de quase 40 mil toneladas entre moagem e recebimento no primeiro semestre de 2025, o que poderia levar à paralisação das fábricas sem o complemento externo.
A entidade criticou a possível suspensão do regime de drawback, alegando que a medida prejudicaria as exportações de derivados e a geração de divisas, além de comprometer o atendimento ao mercado interno e externo.
O QUE DIZ O GOVERNO FEDERAL
Durante agenda em Gandu, no baixo-sul da Bahia, no final de janeiro, o ministro da Casa Civil, Rui Costa, anunciou que a sua Pasta, o Ministério da Agricultura e a Advocacia-Geral da União vão acionar o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), solicitando investigação da denúncia de suposto cartel.