Juliana Soledade é advogada, escritora, empresária e teóloga || Foto Divulgação
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Celebrar as mulheres é garantir que nenhuma seja reduzida a um único papel para ter seu valor reconhecido. É sustentar, com firmeza e lucidez, que a grandeza feminina não cabe em rótulos, e muito menos em ataques gratuitos.

 

Juliana Soledade

Março é o Mês da Mulher, tempo de reconhecer conquistas, honrar resistências e afirmar que somos inteiras em qualquer configuração de vida. Com filhos ou sem eles. Mães ou não. Plenas não por imposição, mas por existência.

No entanto, em plena edição do Big Brother Brasil 26, uma fala da atriz Solange Couto reacendeu uma ferida antiga. Ao declarar: “Quando Deus não deu filhos a ela, é porque sabe que ela não teria capacidade de amar alguém”, direcionando o comentário a Ana Paula, a atriz não atingiu apenas uma participante. Atingiu uma multidão silenciosa de mulheres que já ouviram, explícita ou sutilmente, que lhes falta algo.

A frase carrega um peso histórico. Ecoa o machismo internalizado que insiste em medir o valor feminino pela maternidade. Como se o amor tivesse endereço fixo no útero. Como se a capacidade de cuidar estivesse condicionada à biologia. Como se ser mulher fosse sinônimo de gerar.

Isso machuca porque simplifica dores complexas. Há mulheres que não quiseram filhos. Há as que quiseram e não puderam. Há as que tentaram e enfrentaram perdas. Há as que escolheram outros caminhos. Nenhuma dessas trajetórias autoriza julgamento. Amor não é patente de maternidade. Amor é prática, é escolha, é construção cotidiana.

Há mães extraordinárias. Há mães que falham. Há mulheres sem filhos que sustentam redes inteiras de afeto, que são referência, abrigo, orientação. Madrastas que aprendem o amor como decisão consciente. Amigas que se tornam família. Ativistas que dedicam a vida à proteção de crianças que não geraram, mas defendem com coragem.

Nesse mesmo confinamento, outras declarações ampliaram a indignação. A frase “Eu nasci do prazer, não nasci de estupro”, seguida de insinuações sobre “trepada mal dada”, banaliza uma violência que marca a história de inúmeras mulheres. A comparação com “travesti velho” reforça estigmas que a sociedade há décadas tenta desconstruir. Palavras não são neutras. Elas moldam ambientes, legitimam exclusões, perpetuam dores.

É impossível não notar o contraste: fora da casa, sua própria filha atua como ativista na defesa de direitos humanos, pautas raciais e na proteção de crianças e adolescentes. Uma trajetória que aponta para o conhecimento como ferramenta de libertação. Esse contraste revela que informação transforma, enquanto a repetição de preconceitos aprisiona.

O silêncio dos demais participantes também chama atenção. Nenhuma contestação imediata. Nenhum freio ético. O confinamento intensifica emoções, é verdade. O reality show expõe virtudes e fragilidades. O Big Brother Brasil 26, como qualquer vitrine social, amplia o que já existe. Alguns crescem sob pressão. Outros deixam escapar discursos que talvez sempre estiveram ali, apenas contidos.

Mas é preciso dizer com clareza: amor e maternidade não são sinônimos. Ser mãe não é troféu de humanidade. É uma possibilidade, não um critério moral. O amor existe em todas nós, independentemente da experiência da gestação.

No Mês da Mulher, repudiar esse tipo de discurso não é promover cancelamento. É afirmar dignidade. É proteger mulheres de narrativas que as diminuem. É lembrar que somos múltiplas, complexas, capazes de amar em incontáveis formas.

Celebrar as mulheres é garantir que nenhuma seja reduzida a um único papel para ter seu valor reconhecido. É sustentar, com firmeza e lucidez, que a grandeza feminina não cabe em rótulos, e muito menos em ataques gratuitos.

Juliana Soledade é advogada, escritora, empresária e teóloga, pós-graduada em Direito Processual Civil e Direito do Trabalho, além de autora dos livros Despedidas de MimDiário das Mil Faces e 40 surtos na quarentena: para quem nunca viveu uma pandemia, terapeuta e curandeira ayahuasqueira.