O escritor ilheense Rodrigo Melo acaba de lançar seu quinto livro, O Cavalo do Bandido Sempre Sai na Frente. A obra reúne 20 textos, que revisitam a crônica literária a partir do estilo marcante do autor, um mestre da concisão e da autoironia.
Também está ali a característica que atravessa as obras dos grandes cronistas, a capacidade de transformar o cotidiano mais banal em matéria-prima literária. Desse olhar acurado para o mundo da vida, nasce uma escrita fluida, que leva o leitor do riso à reflexão numa frase.
Para o jornalista Thiago Dias, do PIMENTA, Rodrigo Melo faz justiça à tradição da crônica brasileira. “É um autor em que a sofisticação está na escrita simples, na busca pela comunicação direta e íntima com o leitor, um Luís Fernando Veríssimo ou Fernando Sabino grapiúna”.
O Cavalo do Bandido Sempre Sai na Frente foi editado pela P55 e está disponível para compra no site da editora. Abaixo, leia o texto de abertura do livro.
UMA QUEDA TERRÍVEL
Rodrigo Melo
Dia desses, conversando com um amigo sobre vexames passados em público, recordei de uma queda que levei em um show de pagode. Não me pergunte como parei lá, mas lembro que estava ébrio e lançava o meu charme para uma morena que, embaixo de um toldo, fugia da garoa. Tinha os cabelos negros, que se derramavam até o meio das costas, e um desses olhares que chamam a gente. Eu sorria e ela, entre outras duas morenas, sorria de volta, e o seu jeito era encantador. Uma hora, peguei coragem e fui em sua direção.
Acontece, no entanto, que o local do show era aberto, havia chovido bastante naquela noite e os produtores do evento, talvez por medo de algum processo, colocaram tábuas de madeira, como uma espécie de ponte ou tapete, para que as pessoas não escorregassem na lama grossa e traiçoeira do lugar. E acontece também que, além de estar ébrio, os meus sapatos estavam gastos, os solados não dispunham do mínimo de aderência, eram lisos como um piso encerado. Mas nada daquilo importava: eu tinha um objetivo e seguia, confiante, rumo a ele, crente que a roda da vida giraria e tudo enfim se tornaria um eterno mar de rosas, quando, do nada, o chão desapareceu sob os meus pés e, por um ou dois segundos, me vi suspenso, planando no ar — tempo suficiente para recapitular toda a minha existência, que já tinha uma razoável quilometragem —, e, em seguida, me esborrachei de vez sobre a água e a poça de lama. Foi uma queda terrível, de imediato senti a minha bunda e as minhas costas doerem, e escutei os gritos e as risadas às minhas costas. Altas e longas. Bem longas. E, depois disso, eu apenas me levantei, chutei a tábua e segui em direção à saída, sem olhar pra trás.
Talvez tenha sido ali, a partir daquele instante, que comecei a ser um escritor.



















