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Mais do que nunca, é necessário vigilância crítica. O uso de espaços sagrados para fins políticos, aliado à propagação de discursos excludentes, deve ser questionado com firmeza.

 

Wenceslau Júnior

No dia 19 de março, estive na casa da minha família, em Itabuna, como faço tradicionalmente há décadas durante a Procissão de São José, padroeiro da cidade. Da janela da cozinha, acompanho todos os anos a concentração dos fiéis antes do cortejo, um momento de fé, respeito e comunhão.

Naquela tarde, por volta das 14h30min, enquanto descansava após o almoço para, em seguida, participar da procissão, fui surpreendido por um jingle político. A princípio, pensei se tratar de um engano auditivo. No entanto, ao me aproximar da janela, confirmei o que parecia improvável: além de ouvir claramente a música, avistei o ex-prefeito de Salvador ACM Neto cercado por apoiadores, utilizando aquele espaço e aquele momento para promoção política.

O conteúdo do jingle — “Tá faltando homem, doutor, para governar…” — não apenas destoava do ambiente religioso, como também carregava uma mensagem abertamente machista e misógina, ao sugerir que a capacidade de governar estaria vinculada ao gênero masculino. Trata-se de uma narrativa ultrapassada e perigosa, que desqualifica mulheres e reforça desigualdades históricas.

O episódio se torna ainda mais simbólico por ocorrer justamente na celebração de São José, figura reconhecida como exemplo de dignidade, trabalho e parceria, especialmente em sua relação com Maria, mãe de Jesus. A utilização de um ato religioso para veicular mensagens políticas dessa natureza revela não apenas falta de sensibilidade, mas também uma estratégia preocupante de instrumentalização da fé.

Paralelamente, observa-se em Salvador a adoção de medidas que dialogam com essa mesma lógica excludente. A recente promulgação de uma lei municipal que restringe o uso do termo “gênero” nas escolas públicas aponta para um alinhamento com discursos conservadores que têm ganhado força no país. Sob o rótulo distorcido de “ideologia de gênero”, proliferam movimentos que, na prática, alimentam desinformação, intolerância e violência.

É impossível ignorar as consequências concretas desse tipo de narrativa. O Brasil convive com índices alarmantes de violência de gênero, incluindo casos brutais que chocam pela crueldade e pela frequência. Nesse contexto, reforçar estereótipos e negar debates fundamentais nas escolas não contribui para a solução, ao contrário, agrava o problema.

As recentes sinalizações políticas de ACM Neto e do prefeito de Salvador, Bruno Reis, indicam uma aproximação com setores mais radicais da direita brasileira. Esse movimento não é neutro, ele comunica valores, prioridades e compromissos. E, ao que parece, tem rendido frutos no cenário político nacional, inclusive o convite de Flávio Bolsonaro para Bruno Reis compor a sua chapa na disputa pela Presidência da República.

Diante disso, é preciso reafirmar o óbvio: a Bahia e o Brasil são formados por homens e mulheres plenamente capazes de ocupar qualquer espaço de liderança, seja na administração pública ou na iniciativa privada. O que está em jogo não é capacidade, mas o tipo de sociedade que se pretende construir.

Mais do que nunca, é necessário vigilância crítica. O uso de espaços sagrados para fins políticos, aliado à propagação de discursos excludentes, deve ser questionado com firmeza. Democracia se fortalece com pluralidade, respeito e responsabilidade, não com retrocessos disfarçados de tradição.

Wenceslau Júnior é advogado, professor do curso de Direito da Uesc, ex-vereador e ex-vice-prefeito de Itabuna.

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