Lucas França
A Ceplac colocou a cacauicultura do sul da Bahia no centro da agenda da economia verde ao lançar, na última quarta-feira (8), em Ilhéus, o projeto Conservação da Mata Atlântica por meio do manejo sustentável das paisagens agroflorestais cacaueiras. A iniciativa, que tem apoio técnico da FAO, financiamento do Fundo Global para o Meio Ambiente, mira recuperar áreas degradadas e reposicionar o sistema cabruca como eixo estratégico de produção sustentável.
No centro da proposta está o fortalecimento da cabruca, modelo tradicional que cultiva cacau sob a sombra de árvores nativas, como resposta concreta à perda de biodiversidade na Mata Atlântica. A lógica é simples: produzir com a floresta em pé, gerando renda e, ao mesmo tempo, restaurando funções ecológicas essenciais, como regulação hídrica e formação de corredores biológicos.
A iniciativa deve alcançar 3 mil produtores organizados em consórcios regionais, com prioridade para inclusão: pelo menos 50% dos beneficiários serão mulheres e jovens. O foco é combinar assistência técnica, acesso a mercados e aumento de produtividade, sem romper com o modelo agroflorestal.
METAS AMBICIOSAS
O projeto nasce com números que chamam atenção:
– 12 mil hectares de cacau cabruca a serem restaurados;
– 203 mil hectares de áreas protegidas com gestão aprimorada;
– 3,72 milhões de toneladas de gases de efeito estufa a serem mitigadas.
No campo econômico, a expectativa é triplicar a produtividade média e elevar em até 30% a renda das famílias atendidas, com foco em mercados de maior valor agregado.
Para o diretor-geral da Ceplac, Thiago Guedes, a proposta representa uma mudança de chave. “O que estamos lançando na Bahia vai além de um projeto ambiental ou produtivo: é um modelo concreto de inovação no campo, baseado na cabruca e na conservação produtiva, que concilia produção de alimentos, conservação da biodiversidade e enfrentamento das mudanças climáticas”, disse. “Estamos posicionando a cacauicultura agroflorestal como um ativo estratégico para o futuro da agricultura mundial, considerando o grande ativo que é a agricultura familiar e a nossa juventude”, completa.
INOVAÇÃO E CRÉDITO
Além da recuperação produtiva, o projeto incorpora ferramentas de inovação. Entre elas, o uso de blockchain para rastreabilidade do cacau, a criação de uma Escola do Cacau para formação de técnicos e produtores e a implantação de um Centro de Inteligência Territorial (CIT), voltado ao monitoramento em tempo real da paisagem.
Outro eixo importante é o acesso a financiamento. A iniciativa prevê mecanismos de crédito sustentável e o fortalecimento de redes de comercialização, ampliando a inserção do cacau cabruca em mercados nacionais e internacionais.
PRODUZIR E PRESERVAR
Para a FAO, o projeto pode se tornar referência global. A proposta alia conservação de espécies nativas com produção agrícola, em um modelo que responde diretamente às exigências de cadeias produtivas mais sustentáveis. “A Mata Atlântica é um bioma de importância mundial. O projeto será um exemplo notável de conservação produtiva, onde a agricultura sustentável coexiste com a preservação de espécies nativas e endêmicas”, explica Jorge Meza, representante da FAO no Brasil.
No campo, a percepção é de oportunidade. Produtores apostam que a melhoria da qualidade da amêndoa, somada à valorização do cacau de origem, pode garantir mais renda e estabilidade.
No sul da Bahia, a cabruca deixa de ser apenas tradição. Com apoio institucional e escala, passa a ser estratégia e, cada vez mais, um caminho viável para alinhar produção, mercado e conservação. O evento também contou com a participação da deputada federal Elisângela Araújo (PT-BA), uma das principais defensoras da agricultura familiar e da cacauicultura brasileira.

















