Gérson Souza presidindo o Legislativo de Itabuna
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Gérson Souza é daquelas personalidades que nascem de 100 em 100 anos e que vêm à terra com a finalidade de servir, tornar o mundo melhor com sua colaboração e dos amigos que o cercam.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Walmir Rosário

Tabelião do Cartório do 1º Ofício de Itabuna (registro de pessoas e casamentos), Gérson Souza era uma das pessoas mais influentes nas instituições da cidade, pela dedicação com que tratava as obrigações assumidas. E no futebol não era diferente. Na seleção de Itabuna era considerado um dirigente insubstituível e que conduziu o selecionado ao hexacampeonato baiano de amadores.

Gérson Souza era homem de aceitar desafios, inclusive no futebol. Em 1947, época de poucas estradas e veículos, chefiou a delegação da Seleção de Itabuna na partida contra a Seleção de Valença. E não era fácil, pois as estradas eram péssimas e o transporte disponível era a carroceria de caminhão. Após 12 horas de viagem venceram, e a partida seguinte seria contra Santo Amaro, em Salvador, porém o campeonato foi cancelado.

Daí pra frente Gérson Souza não deixou mais a Seleção de Itabuna e foi um partícipe importante na criação do Itabuna Esporte Clube, o primeiro time profissional da cidade, em 1967. Mas até chegar lá, o “Marechal do Hexa” esteve presente em todos os momentos, simplesmente apoiando ou coordenando a seleção amadora, bem como a equipe de profissionais, sempre com bastante sucesso e determinação.

Com a bondade que fazia o afago quando necessário, era capaz de tomar decisões mais duras que o momento exigisse. E não precisava alteração, bastava uma conversa de pé de ouvido que tudo se acertava. Sua argumentação convencia, mesmo nos momentos mais cruciais. Sabia como ninguém motivar diretores, jogadores e comissão técnica, com palavras simples, porém bem colocadas.

Na última partida para a conquista do hexacampeonato, Gérson Souza não titubeou ao suspender uma das maiores estrelas da seleção, o ponteiro-esquerdo Fernando Riela, por não ter permanecido concentrado com os demais jogadores. Numa conversa franca entre ele, o técnico Gil Nery e Fernando, expôs os prejuízos do comportamento e os riscos de sua atitude. Resolveu arriscar e os itabunenses comemoraram o título.

Provavelmente, o sucesso da Seleção de Itabuna tenha sido a convocação de uma base permanente, com substitutos à altura. Craques não faltavam em Itabuna e muitos ainda ficavam de fora desta super equipe. Porém Gérson Souza não conseguia ver um craque de outra cidade jogar, que não o convencesse a vir fazer carreira no brilhante futebol de Itabuna. Na maioria das vezes dava certo.

Um desses “convocados” por Gérson Souza foi Albertino Pereira da Silva, o goleiro Betinho, que trouxe – junto com Zelito Fontes – de São Félix para Itabuna, primeiro para o Janízaros, e depois para o Itabuna Esporte Clube. Betinho se notabilizou ao participar de uma partida jogando pela Seleção de Ilhéus contra o Santos. Pela sua atuação, foi levado por Pelé para o time da Vila Belmiro, mas devido ao seu comportamento não fechou um vantajoso contrato.

Em 1970, com a renúncia do presidente do Itabuna Esporte Clube, o time entrou em decadência, e mais uma vez Gérson Souza se dispõe a colaborar com o amigo Gabriel Nunes, que condicionou presidir o Itabuna com a sua participação. Das cinzas, o Itabuna ressurge com um plantel sem grandes estrelas, mas conscientes do que poderiam fazer para dar a volta por cima.

Apesar do descrédito de muitos, o Itabuna ganhou o segundo turno e se sagrou vice-campeão baiano. Não fossem as forças poderosas do extracampo, por certo teriam alcançado o primeiro lugar. Graças à união e credibilidade dos dirigentes junto aos torcedores, o time conseguiu os recursos necessários para participar dos jogos, com o apoio pessoal da torcida, mesmo nas partidas mais distantes.

Gérson Souza é daquelas personalidades que nascem de 100 em 100 anos e que vêm à terra com a finalidade de servir, tornar o mundo melhor com sua colaboração e dos amigos que o cercam. Encarar os desafios era uma de suas especialidades. Desprendido, coordenava e secretariava instituições com a maior naturalidade, debatendo e assumindo responsabilidades para si e o seu grupo.

E a responsabilidade com que traçava planos e projetos transmitia segurança em todos os segmentos da sociedade civil, que abraçavam suas ideias, tornando uma causa em comum de Itabuna. Era impossível a ausência de Gérson Souza nos projetos sociais. Sempre procurado pelo Executivo, Legislativo – do qual foi presidente –, Judiciário e líderes da sociedade, solicitando seus experientes conselhos para novos empreendimentos.

Sabia encarar os compromissos com muita seriedade sem ser sisudo. Ao contrário, a alegria de Gérson Souza era inebriante e contagiava os que conviviam com ele. Daí, trabalhavam com afinco até atingir os objetivos em plenitude e comemoravam as vitórias com a mesma intensidade. Gérson Souza é daquelas figuras ímpares, sempre lembradas com carinho pelo que fez em vida, deixando saudosos os que ainda choram seu desaparecimento.

Walmir Rosário é radialista, jornalista, advogado e autor d´Os grandes craques que vi jogar: Nos estádios e campos de Itabuna e Canavieiras, disponível na Amazon.

Clóvis Aquino (à direita, embaixo) e família
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Após muitos anos, torcedores e adversários se mostram saudosos com o futebol praticado pela Associação, um elenco digno de respeito e que se perpetuou na história do esporte itabunense.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Walmir Rosário 

A cada dia o futebol contagiava os itabunenses e crescia em bons jogadores e torcida. No final da década de 1930, surge a equipe Associação Athletica Itabunense (AAI), considerado o “bicho-papão” do futebol. A proposta era apresentar um futebol amador de forma organizada, com técnica suficiente para ganhar partidas e campeonatos seguidos, com um elenco de fazer inveja aos adversários.

E a Associação, como carinhosamente era chamada, aterrorizava os adversários, principalmente pelo nível dos jogadores, em que titulares e reservas possuíam o mesmo potencial. Saía um entrava o outro e o time não caia de produção. Para isso, escolhiam uma zaga vigorosa, um meio de campo técnico e um ataque arisco, composto por jogadores que se movimentavam muito, sempre em direção do gol adversário.

A contratação de um jogador se baseava não apenas no talento com a bola. Eles tinham que primar pelo coletivo, fazer se respeitar dentro e fora de campo e cumprir as determinações técnicas para manter a tática imposta pelo técnico, entre eles, Costa e Silva. No período compreendido entre 1939 e 1946 a Associação Athletica se impôs no futebol de Itabuna e região se tornando pentacampeã.

Certa feita, numa entrevista concedida aos jornalistas José Adervan, Ramiro Aquino, Antônio Lopes e Walmir Rosário, no Jornal Agora, um dos remanescentes da Associação, o engenheiro agrônomo e produtor rural Clóvis Nunes de Aquino, lembrou sua passagem pela equipe. E ele apresentou algumas cadernetas, nas quais registrava, fielmente, todos os dados das partidas da Associação.

E Clóvis Aquino era um jogador fenomenal, um centroavante com talento e vigor suficiente para marcar os gols nas vitórias da Associação. Os seus predicados futebolísticos foram descobertos quando ainda estudante de agronomia na conceituada Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq), em Piracicaba (SP). Mesmo assim, amargava jogar no segundo quadro da Associação e ser reserva do também craque Juca Alfaiate.

Embora não gostasse da reserva, mostrava seu futebol ao entrar em campo, no primeiro ou segundo quadro, encantando os torcedores. E Clóvis Aquino recordava com alegria sua participação como titular da equipe principal em 1946, ano em que disputou o campeonato como dono da posição, o que lhe valeu o título de pentacampeão itabunense. Tudo registrado em suas cadernetas.

E as notícias do escrete “matador” chegam à capital baiana e a diretoria dos times de Salvador se interessam em excursionar no Sul da Bahia, notadamente para jogar contra a famosa Associação Athletica Itabunense. No campo da Desportiva jogavam de igual para igual, e na maioria das vezes, a Associação mostrava o seu magistral futebol, ganhando as partidas, sem se importar com os adversários.

Mais experta foi a Associação Desportiva Guarany, que veio ver de perto os propalados craques de Itabuna e resolveu levar o time inteiro para Salvador. Dos titulares, apenas Juca Alfaiate não aceitou a proposta e continuou na Associação. Mesmo assim, o Guarany contratou o segundo reserva de Juca, Elísio Peito de Pomba. Pela primeira vez, a equipe do Guarany se sagrou campeã baiana em 1946, único de sua história.

Alguns torcedores da Associação creditam o declínio da Associação à perda dos jogadores contratados pelo Guarany, a exemplo de Tombinha, Nivaldino, Amaral, Bolívar, Bacamarte, Quiba, Elísio Peito de Pomba, Elvécio, Tuta, Mangabeira, Juca e Zezé, sendo que estes três últimos se transferiram para o Flamengo local. Elísio Peito de Pomba foi o artilheiro do Guarany com 12 gols marcados no campeonato.

A Associação Athletica Itabunense possui uma história gloriosa, o que é inegável até pelos adversários. Se chegava a notícia de um grande jogador, a diretoria não media esforços para contratá-lo e assim formou a equipe mais temida do interior da Bahia. De início, um time de elite, no qual só jogavam atletas brancos; com o passar do tempo, passaram a aceitar pessoas de cor negra, sendo o primeiro deles, o zagueiro Ruído, de Jequié.

Nas cadernetas de Clóvis Aquino estão anotados jogadores famosos da Associação Athlética Itabunense (AAI) como Balancê, Niraldo, Mota e Victório na posição de goleiros, Bolivar, Álvaro, Bacamarte, Dircinho, na posição de zagueiros, na chamada linha intermediária Amaral, Mangabeira, Zecão, Helvécio e ainda os atacantes Tombinha, Puruca, Juca, Clóvis, Nivaldino, Tuta, Zezé e Nandinho.

E após muitos anos, torcedores e adversários se mostram saudosos com o futebol praticado pela Associação, um elenco digno de respeito e que se perpetuou na história do esporte itabunense. Alguns remanescentes daquela época não pensam duas vezes em escalar as equipes da Associação, com titulares e reservas, além dos gols e momentos importante de cada partidas que jogavam.

E a Associação permanece na saudade dos itabunenses.

Walmir Rosário é radialista, jornalista, advogado e autor d´Os grandes craques que vi jogar: Nos estádios e campos de Itabuna e Canavieiras, disponível na Amazon.

Propaganda do BC exalta disseminação do PIX || Foto Reprodução
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Preciso me atualizar, passando pelo Artigos para Beber e o ABC da Noite, para saber se José Eduardo e o Caboclo Alencar já aderiram ao PIX.

 

 

 

 

 

 

 

Walmir Rosário

Se tem uns serviços prestados aos brasileiros que temos que tirar o chapéu são os bancários, mas somente em termos de avanço tecnológicos, que fiquem bem claro, para que eu não tenha problemas no futuro com bate-bocas inexplicáveis. Longe de mim perder tempo e gastar meus nervos com altercações que não levam a nada a não ser no desgaste físico e emocional com bobagens.

Dadas as devidas explicações, leio sempre que o Brasil – ou melhor, os bancos brasileiros – estão na vanguarda internacional quando o assunto é informática e segurança bancária na prestação de serviços aos clientes. Não poderia deixar de esclarecer, de pronto, que custam os olhos da cara – do cliente, é claro – para o gáudio dos riquíssimos banqueiros, sempre ávidos pelo nosso escasso dinheiro.

E aí, de forma desavisada, vem o Banco Central e cria o PIX, meio de transferência rápida, imediata, na mudança de t

itularidade dos nossos reais, desde que se encontrem dormitando nas contas bancárias. Melhor de tudo, de graça, sem as pesadas taxas e prazos decretados pelos bancos, sob a complacência do Banco Central, um aliado de todas as horas do sistema bancário, antes de sua autonomia.

E o PIX caiu em cheio no gosto do povo, apesar dos golpes aplicados pelos larápios cibernéticos. Uma ameaça aqui, outra acolá e o PIX seguiu seu caminho, mesmo a contragosto dos banqueiros, que não viam a hora de começar a cobrar pesadas taxas. Como o Banco Central não se amofinou, os banqueiros trataram logo de inventar serviços agregados ao PIX, oferendo dinheiro emprestado para quem não tinha a essencial provisão de fundo para a transferência.

Pela primeira vez os clientes aplicaram e encaixaram socos certeiros no queixo do sistema bancário. Se o pagador gostou do serviço, mais ainda os donos de estabelecimentos comerciais, que poderiam receber o pagamento sem destinar uma polpuda parte aos cartões, com a vantagem imediata de ter o resultado da venda creditado na sua conta bancária, ampliando o saldo bancário.

O PIX caminhou com suas próprias pernas (?) e podemos ver as plaquinhas de “aceitamos PIX” não só nos estabelecimentos comerciais, sejam qual o tamanho, mas e também nos empreendedores pelas diversas ruas e cruzamentos da cidade. Dando uma busca pela internet, consegui ver – até mesmo – pedintes exibindo suas placas de adesão ao serviço de transferência criado pelo Banco Central, com a finalidade de evitar a desculpa de “não tenho trocado”.

No mês passado, em Florianópolis, uma senhora de idade bastante avançada nos abordou no carro oferecendo uns docinhos, por três reais, cada. Agradecemos e recusamos a compra e ela não se deu por vencida: “Se não tem trocado, não tem problema, eu recebo pelo PIX”. Mas eis que chega nosso filho e partimos para outra avenida sem completarmos a relação de negócio com a empreendedora.

Não é comum eu circular por aí com dinheiro no bolso, a depender de onde vou e o que vou fazer. De acordo com minhas visitas, levo alguns trocados no bolso para o devido pagamento em dinheiro, reais em espécie. E um desses locais sempre foi o ABC da Noite, para minha satisfação e gozo das conceituadas batidas elaboradas pelo alquimista do Beco do Fuxico, Caboclo Alencar.

Como não tenho ido com frequência a Itabuna e, consequentemente, ao Beco do Fuxico, para o devido reconhecimento, preciso me atualizar, passando pelo Artigos para Beber e o ABC da Noite, para saber se José Eduardo e o Caboclo Alencar já aderiram ao PIX. Somente a título de lembrança, o Caboclo já frequentou escola de informática, em busca de conhecimentos cibernéticos. Daí para o PIX é um pulo.

Outra pesquisa que pretendia fazer – também in loco – seria na Confraria d’O Berimbau, onde o assunto ganhou destaque anos passados em relação aos cartões de crédito, isso, ainda, na administração de Neném de Argemiro e que ganhou destaque no jornal Tabu. De início, Neném não disse que sim nem que não, o que resultou numa assembleia, na qual nada ficou definida.

Com o fechamento d’O Berimbau, perdemos uma ótima fonte de pesquisa para saber da satisfação do cliente e do comerciante sobre o PIX como meio eficiente no pagamento de cachaças, cervejas e outras iguarias etílicas. Mesmo com minha pesquisa incompleta, poderei ter uma base da aceitação pelos donos de botequins, que hoje simplesmente deixaram de ouvir aquele sonoro aviso do cliente ao ir embora: “Some minha conta e tome no assento”.

Traduzindo: “Veja quanto devo e anote no caderno que pago depois, quando Deus mandar um bom tempo”. Com o PIX os cadernos de fiado vão deixando de existir e cairá por terra mais uma cultura popular. Dia desse cheguei num tradicional bar em Canavieiras e na hora de acertar a conta, o proprietário me apresentou uma folha de papel-ofício com um desenho chamado “QR code” e mandou que apontasse a câmera do celular para pagar com o competente PIX.

Walmir Rosário é radialista, jornalista, advogado e autor d´Os grandes craques que vi jogar: Nos estádios e campos de Itabuna e Canavieiras, disponível na Amazon.

Ilheense sabotaram viagem de jogadores de Itabuna, escreve Walmir Rosário
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Esse espírito beligerante permaneceu por muito tempo, e cada torcida culpava o adversário pelo início da animosidade, que se transformou em grandes confrontos.

 

 

 

 

 

 

 

Walmir Rosário

As relações de amizade entre a população e autoridades de Itabuna e Ilhéus nunca foram das melhores e remontam desde o tempo em que Itabuna era Tabocas, distrito de Ilhéus. A inimizade foi ampliada com a autonomia político-administrativa e se tornou mais acirrada com as disputas futebolísticas entre as equipes das duas cidades, o que perdura até os dias de hoje, sem qualquer prazo para acabar.

No livro “Bahia, Terra, Suor e Sangue; lembrança do passado/História da Região Cacaueira, o autor José Pereira da Costa narra, com pormenores, a guerra travada entre as duas torcidas. Em 1920, jogaram em Ilhéus o Rio Branco Esporte Clube, de Itabuna, contra o Ypiranga Esporte Clube, de Ilhéus, partida que quase se transformara numa tragédia entre as populações das duas cidades.

Toda essa confusão remonta de 10 de maio de 1897, quando Itabuna solicita ao Conselho Administrativo de Ilhéus, através de um memorando, a sua emancipação de Ilhéus. O memorando foi esquecido numa gaveta qualquer e, novamente, em 1906, foi enviado, desta vez ao governador da Província da Bahia, José Marcelino, azedando ainda mais a frágil relação.

De outra feita, em 1907, por ocasião da inauguração do Palácio Paranaguá, Dr. Xavier, genro do fundador de Itabuna, Firmino Alves, fora convidado na qualidade de orador das festividades. No discurso, prometeu construir prédio ainda melhor de que o Paranaguá para a administração de Itabuna. Resultado, o orador foi apedrejado e teve que voltar para Itabuna escondido.

Mas voltando ao tema que nos interessa, em 1920, para a peleja entre o Rio Branco (Itabuna) e o Ypiranga (Ilhéus), a diretoria do time itabunense fretou um trem especial com 20 classes para atender aos torcedores ávidos para assistir à partida. No dia, saíram bem cedo com destino a Ilhéus, acompanhados da Filarmônica Minerva. Tinha tudo para ser uma grande festa de congraçamento entre as duas cidades.

Entretanto, o jogador João Rego, do Rio Branco, logo após de ter feito o primeiro gol e o único da partida, sofreu uma agressão do filho do Dr. Soares Lopes, e teve o nariz quebrado. Jogo paralisado e início de briga entre as duas torcidas. Para cessar o grande tumulto, pessoas das duas cidades pediram paz, embora alguns ilheenses passassem a jogar água quente nos itabunenses.

Não bastasse a briga em campo, pessoas influentes pressionaram a direção do Hotel Coelho para que fechasse as portas, não permitindo, sequer, que os jogadores pegassem suas roupas. Como a direção da estrada de ferro era de Ilhéus, tampouco permitiu que o trem fretado fosse liberado para retornar a Itabuna. Por onde passavam, laranjas podres, cebolas, ovos e outros objetos eram atirados nos itabunenses.

Após muitas discussões e promessas de morte, enfim, conseguem o compromisso para a liberação do trem, puxado pela máquina de número 12 e empurrada pela de nº 01 para subir com as 20 classes na serra da Baleia. Antes, porém, o trem parou e, para surpresa de todos, os maquinistas tinham sumido. Armaram uma emboscada para deixar os itabunenses no meio da estrada.

Diante do desespero, eis que surge um cidadão chamado Belmiro, que se encontrava em Itabuna a passeio e viera assistir ao jogo, e se apresenta como maquinista. E Belmiro conduz a máquina e os passageiros são e salvos a Itabuna, chegando por volta das 4 da manhã. Mas apesar das agressões sofridas pela grande comitiva de Itabuna, o jogo que não terminou estava com o placar de Rio Branco 1X0 Ypiranga, o que valeu para “lavar a alma” dos itabunenses.

Pelo que se sabe, esta foi a primeira das guerras no futebol entre os papas caranguejos e papas jacas de que se tem notícia. Mas não foi a única. A cada jogo entre os times ou seleções das duas cidades os torcedores se incumbiam de recepcionar a torcida alheia, se armando com pedras, paus e o que mais lhes aparecia às vistas. Bastava escolher um local em que os caminhões passassem devagar para iniciar a artilharia.

E esse espírito beligerante permaneceu por muito tempo, e cada torcida culpava o adversário pelo início da animosidade, que se transformou em grandes confrontos. Com o início do Campeonato Intermunicipal de Amadores da Bahia, as batalhas campais se perpetuaram, chegando à profissionalização dos times de futebol. Somente a partir de 1980 é que as torcidas de Ilhéus e Itabuna selaram um armistício e a paz voltou a reinar nos jogos de futebol entre as duas cidades.

Walmir Rosário é radialista, jornalista, advogado e autor d´Os grandes craques que vi jogar: Nos estádios e campos de Itabuna e Canavieiras, disponível na Amazon.

Goleiro Plínio de Assis foi dos grandes nomes do futebol itabunense || Acervo Walmir Rosário
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Reza a lenda que Pelé correu pra área, suspendeu Betinho puxando pela camisa e teria dito: “Levanta goleirão, vou lhe levar pro Santos!”.

 

 

 

 

 

 

Walmir Rosário

Recentemente recebi do colega radialista e advogado Geraldo Santos Borges, uma mensagem por WhatsApp me incentivando a mostrar os bons goleiros que passaram por Itabuna, desde os amadores até os profissionais. E mais, o Jurista, como nos tratamos, ainda catalogou bons nomes e informações dos que fizeram a alegria dos itabunenses, em seus clubes ou na brilhante Seleção de Itabuna amadora.

E como não poderia deixar de ser, Carlito, colega nosso de Ceplac, encabeça a lista. Em 4 de abril de 1957, titular da Seleção de Itabuna no Torneio Antônio Balbino, foi um dos responsáveis diretos pela conquista do título. À época, na disputa por pênaltis, que eram batidos por um só jogador. E nessa final foram cobradas três séries de cinco penalidades, cada. Pela Seleção de Itabuna Santinho marca todos os 15 e Carlito defende um. Classificada para a final contra Alagoinhas, Itabuna vence por 2X0 e é Campeã.

Esse mesmo selecionado, no segundo semestre, se sagra vencedor do Campeonato Intermunicipal Baiano de Amadores, desta vez com o goleiro Asclepíades (se revezava com Carlito). E Geraldo Borges ressalta que além de defender, Asclepíades era um excelente batedor de pênaltis, o que fazia com frequência no Flamengo, time em que jogava. E ele era o terror dos atacantes nas cobranças de escanteio contra o time que defendia, pois saia do gol pra socar a bola ou algum atacante que se descuidasse na tentativa de cabecear para o gol.

Outro merecedor de destaque é Plinio Assis, também do Flamengo. Tranquilo, frio, extraordinário. Diziam que o time era Plinio e mais dez. Na seleção de Itabuna, em um jogo na desportiva contra a seleção de São Felix, a bola já havia passado e ele a tirou com o calcanhar. Fatalmente entraria. Após o jogo, o narrador Geraldo chama de lance de pura sorte. Plínio ficou possesso e ressaltou que fez a defesa de forma consciente.

E tudo indica que foi mesmo. De outra feita, conta o Vasco da Gama, no campo da Desportiva, Delém chuta a bola na marca do pênalti e Plínio parte para a jogada, a bola bate no seu peito e não entra. Contra a seleção de Muritiba, o atacante cabeceia, Plínio foi vencido e levanta seu calcanhar como último recurso, conseguindo evitar o gol. E Geraldo Borges arremata: “Que Higuita que nada”, ao ver o goleiro da Colômbia fazer malabarismos e artes deste tipo, até em jogos de Copa do Mundo. Plínio já fazia antes.

Luiz Carlos foi outro goleiro inesquecível. Fechava o gol. Era uma segurança. Alto, esguio, elegante, preciso, seguro. Se ele não tivesse sido jogador antes de Leão – do Palmeiras e da Seleção Brasileira –, certamente não faltaria quem dissesse que ele imitava o Leão. Até o gesto que fazia quando a bola ia pra fora era semelhante ao do goleiro Leão. Luiz Carlos e Plínio se revezavam na Seleção de Itabuna.

– E o Betinho? Este tem uma história difícil de acreditar para quem não viveu àquela época – lembra Geraldo.

E Geraldo Borges continua: “Já ouviram falar em alguém que acertou na loteria e rasgou o bilhete? Pois foi quase isso que aconteceu com Betinho. Trazido a Itabuna para jogar no Janízaros de Gerson Souza, se superava a cada partida. Alto, bom porte, ‘como um gato’ (diria Tadeu Schimidt) pegava tudo e mais alguma coisa”.

O Santos – então melhor time do mundo – veio jogar um amistoso em Ilhéus, trazendo Pelé e o time completo. “Os ilheenses buscaram Betinho para jogar na seleção de Ilhéus que seria a equipe adversária do Santos. Betinho, fechou o gol. Pegou tudo. Mesmo assim o Santos ganhou pelo placar de 3X1.

Durante a partida, o ponta-esquerda Pepe, conhecido pelo chute forte como o canhão da Vila Belmiro, era o cobrador de faltas do Santos. Chovia, campo molhado, bola pesada. Falta na intermediária de Ilhéus e Betinho desafia Pepe, mandando abrir a barreira. Pepe cobra forte, como sempre. E Betinho segura e cai com a bola. A mão ficou em frangalhos, mas a bola não passou e ele continuou no jogo como se nada tivesse acontecido.

Reza a lenda que Pelé correu pra área, suspendeu Betinho puxando pela camisa e teria dito: “Levanta goleirão, vou lhe levar pro Santos!”. Betinho foi. Mas não ficou. Com saudades dos amigos e das farras itabunenses, pegou um ônibus e voltou pra Itabuna. De nada adiantou as recomendações de Claudio, então titular no gol do Santos. “Calma baiano, você vai jogar no gol do melhor time do mundo!…”.

Daqui de Itabuna o Betinho foi para o Vitória. E segundo me disseram, morreu em Jequié, sua terra, trabalhando como carregador de caminhão – uma pena!… Ressalta o escritor esportivo Tasso Castro, que nunca viu um goleiro segurar (sem encaixar) chutes fortes de fora da área como Betinho. Ele era diferente.

– Sua colocação e segurança eram impressionantes. Parecia que a bola o procurava. Tinha poucos defeitos como nos cruzamentos para área, por exemplo. Vi um jogo do Itabuna contra o Bahia no estádio da Graça. No empate de 1 x 1, que deu o título do segundo turno ao Itabuna, ele fechou o gol. Eu estava lá –, comenta Tasso Castro.

Também passaram outros bons goleiros por Itabuna, a exemplo de Ivanildo, do Fluminense, que tinha bastante colocação e segurança ao disputar as bolas na área. Pelo Itabuna Esporte Clube também jogaram grandes goleiros, como Geraldo (do Rio de Janeiro), que morreu afogado no rio Cachoeira, próximo ao Salobrinho; Zé Lourinho, Laércio e Getúlio, cada um deles dando conta do recado.

Wagner Rosário é radialista, jornalista, advogado e autor d´Os grandes craques que vi jogar: Nos estádios e campos de Itabuna e Canavieiras, disponível na Amazon.

Nocha em foto do jornalista Walmir Rosário
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Por muitos anos continuou a jogar os babas, sempre com a mesma categoria e virilidade de antigamente. Hoje critica o futebol jogado pra trás, sem arte, que não empolga os torcedores e nem produz grandes resultados.

 

Walmir Rosário

A célebre frase cunhada pelo zagueiro Moisés, em 1982, “zagueiro que se preza não pode ganhar o Belfort Duarte, aí perde o moral”, por certo não se aplicaria ao lateral direito itajuipense Nocha. Ele sabia como ninguém desarmar o adversário jogando o bom futebol, porém sabia ser viril quando a jogada merecia, muitas das vezes sem cometer falta, embora em alguns casos tivesse que parar o contrário com a energia necessária.

Nocha, que também atende por José Raimundo Freitas, do alto dos seus quase 81 anos, admite que sempre usou da habilidade e força necessárias para ganhar uma jogada nos clubes em que atuou, desde sua infância nos clubes de Itajuípe, até pendurar as chuteiras. E faz questão de ressaltar que nunca foi desleal com o adversário, pois sabia jogar futebol e não precisava recorrer à violência.

E foi justamente pela sua conduta em campo, destacando-se pelo futebol sério que jogava que foi descoberto pelos diretores do Bahia de Itajuípe, ainda menino, e levado para o time sensação do Sul da Bahia no final da década de 1950. E no Bahia de Itajuípe tanto fazia jogar no primeiro ou segundo quadro para ser reconhecido como um craque do futebol e cobiçado pelos clubes de Ilhéus, Itabuna e Salvador.

Seleção de Itabuna – Nocha, o penúltimo em pé, à direita || Arquivo Walmir Rosário

Na pujança do cacau, os cartolas do Bahia de Itajuípe – mesmo amador – iriam buscar um jogador que se destacava em qualquer cidade próxima, mantendo um verdadeiro “esquadrão de aço”. E como relembra Nocha, eles participavam da melhor vitrine do futebol do Sul da Bahia, recebiam constantes convites de outros clubes, na maioria das vezes bastante tentadores.

Ainda jovens, o que queriam eram jogar bola. E bem. Atrair a atenção dos amantes do bom futebol e ganhar presentes, fossem em dinheiro ou outros bens materiais como era praxe nos clubes amadores dirigidos por pessoas de grandes posses. Vencer uma partida era “bicho” garantido, um campeonato, então, o “carvão” caia direto. E na assinatura e renovação de contrato era só felicidade.

E assim Nocha recebe uma proposta tentadora do Janízaros, de Itabuna, e deixa o Bahia de Itajuípe. Com ele também mudam outros craques itajuipenses. No novo clube era uma garantia jogar na Seleção de Itabuna, que chegou ao Hexacampeonato ao vencer o Campeonato Intermunicipal Baiano por seis vezes seguidas. E Nocha era um desses craques vencedores.

Após vencer alguns campeonatos no Janízaros se transfere para o Flamengo de Itabuna, no qual também se torna vencedor de campeonatos. E Nocha nem se preocupa com a mudança de time, pois também jogava ao lado da “nata” do futebol itabunense, colegas na brilhante seleção de Itabuna. E era grande a rivalidade nesses clubes no campeonato de Itabuna, em que Janízaros, Flamengo e Fluminense se revezavam nos títulos.

E a rivalidade não era apenas nas torcidas. Dentro de campo, os colegas da seleção eram adversários e o lateral-direito Nocha tinha a obrigação de marcar o maior ponta-esquerda que se teve notícia em Itabuna, na Bahia e quiçá no Brasil, Fernando Riela. Mas essa contenda não abalava Nocha, que marcava seu oponente jogando o bom futebol. E a renhida disputa era equilibrada, com vantagens alternadas a cada jogo.

As décadas de 1950 e 60 foram notabilizadas pelo bom futebol, jogado por craques que prezavam a camisa que vestiam, principalmente na Seleção de Itabuna. E não era pra menos, a cada ano acumulava mais um título, vencido com galhardia, contra bons adversários, a exemplo de Ilhéus, Feira de Santana, Alagoinhas, Belmonte, Santo Amaro, São Félix, Jequié, dentre outros.

Merecem destaque a eterna rivalidade entre Ilhéus e Itabuna, duas das maiores seleções. E Itabuna sempre levou a melhor, desclassificando o selecionado ilheense, um timaço, como lembra Nocha, que faz questão de ressaltar nunca ter perdido uma partida para a seleção praiana. Outro destaque lembrado por Nocha foram as partidas contra os grandes times do Rio de Janeiro, em que jogavam de igual para igual. Sem medo.

Em 1967, com a fundação do Itabuna Esporte Clube, Nocha se profissionaliza e participa da primeira equipe que jogou o Campeonato Baiano de Profissionais, junto com outros colegas da Seleção de Itabuna. Quando sentiu que era chegada a hora de parar de jogar o futebol profissional, ainda no auge, deixa o Itabuna Esporte Clube. Poderia ter jogado mais um ou dois anos, mas preferiu sair por cima, deixando boa lembrança na memória dos torcedores.

Mas Nocha não abandonou o futebol e passou a atuar nos times amadores de Itajuípe, notadamente o Grêmio e o Santa Cruz, pelos quais disputou mais partidas. E por muitos anos continuou a jogar os babas, sempre com a mesma categoria e virilidade de antigamente. Hoje critica o futebol jogado pra trás, sem arte, que não empolga os torcedores e nem produz grandes resultados.

Prestes a completar 81 anos, Nocha mantém uma invejável forma física, passeia diariamente pelas ruas de Itajuípe, visita os amigos, faz compras e conversa sobre futebol. Com a simplicidade, diz não recordar muito do seu passado até a conversa fluir e relatar os bons tempos nos campo de futebol. Como diz o ditado: Quem foi rei nunca perde a majestade. E Nocha continua sendo uma referência no bom futebol do Sul da Bahia.

Walmir Rosário é radialista, jornalista, advogado e autor d´Os grandes craques que vi jogar: Nos estádios e campos de Itabuna e Canavieiras, disponível na Amazon.

Eduardo Mello autografa a tradicional Cachaça Coqueiro, de Paraty (RJ)
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Se a moda pega, Eduardinho tem que se preparar para fortalecer a munheca.

Walmir Rosário

Confesso que do alto dos meus bem vividos setenta e tantos janeiros já vi muita coisa nesta vida, mas sempre me surpreendo com algumas novidades a que somos apresentados nos dias atuais. É uma simples constatação de que por mais conhecimentos que temos, sempre existe uma novidade a presenciar, não simplesmente por ouvir dizer, mas ao vivo e em cores, como afirmava aquela propaganda televisiva de recuados anos.

E vou logo dando uma pista para não amolar o prezado leitor: o que vou citar é costume antigo, praticado por gente famosa, acostumada a fazer sucesso com determinadas atividades, quase que exclusivamente artística. Pelo que sempre vi, esse hábito era para quem cantava, tocava instrumentos, atuava nos palcos de teatro, filmes e novelas. Mas teria que fazer muito sucesso.

O assédio era total em determinados artistas, tanto que eram formadas filas enormes nas saídas das emissoras de rádio e TV e as multidões de fãs conseguiam furar os bloqueios em busca do tão sonhado autógrafo. Euforia e desmaios eram comuns no passado, quando uma fã conseguia ultrapassar a barreira de segurança e voltava com o autógrafo do seu ídolo escrito no caderninho.

Diziam as revistas focadas nas especulações artísticas que muitas dessas multidões eram “fabricadas” pelas próprias gravadores e agentes dos artistas para dar uma mãozinha na carreira de sucesso que viria a acontecer com mais rapidez. Lembro até de um português cujo troféu buscado não era o simples autógrafo, o que lhe satisfazia era beijar a pessoa famosa, fosse homem ou mulher, daí seu apelido de beijoqueiro.

Com o tempo, vimos diminuir esse interesse pelos autógrafos, até porque ninguém – ou quase nenhum vivente – tem o velho costume de carregar lápis, caneta ou um pedaço de papel nos bolsos ou bolsa. Coisa do passado que não volta mais. Agora – há cerca de 15 anos ou mais – o costume é foto do tipo selfie, lado a lado do famoso de estimação. Basta publicar instantaneamente nas redes sociais e cruzar o mundo em um segundo.

Alguns artistas têm ojeriza à multidões – inclusive de fãs – e dão um jeitinho de não se aproximar das legiões de tietes, seja por uma logística competente ou mesmo por mau humor. Outros nem tanto, pacientemente param, acenam posam para as selfies, causando o desespero de sua entourage. Não critico os que se escusam, pois faz parte do seu modo de vida, mesmo que dependa do sucesso.

Dia desses vi no YouTube um lançamento de um livro, numa grande livraria de São Paulo, capital. Uma fila quilométrica, de dobrar quarteirões, em que pessoas aguardavam, pacientemente, pelo seu autógrafo no livro recém-lançado. O autor em questão era o advogado e jornalista Tiago Pavinatto, que apresentava sua mais recente obra: Da Silva: “A Grande Fake News da Esquerda”. Um fenômeno.

Não é todo o santo dia que presenciamos tamanho sucesso, principalmente quando o centro das atenções é um livro, mesmo sendo o autor um personagem na crista da onda nas áreas da comunicação e da política. Pelo que soube, algumas pesquisas já creditavam tamanho apoio na próxima eleição para o cargo presidencial, embora ele sempre negue pretensão de ingressar nesse meandro.

Pois bem, neste fim de semana me deparo com outro sucesso absoluto em plena cidade maravilhosa, o Rio de Janeiro. Exatamente no dia 13 de setembro de 2023, uma quarta-feira à noite, e o local, pelo que soube, era a Academia da Cachaça. Sentado à mesa, lá estava o meu amigo Eduardo Mello, CEO da Destilaria Engenho D’água, de Paraty, autografando litros e garrafas da conceituada cachaça que fabrica: a Coqueiro.

Diante de tal cena pergunto pelo WhatsApp ao meu amigo Antônio Mello (Neguinho), irmão de Eduardo, que me descreva a imagem, embora tenha enxergado bem com esses olhos que a terra um dia há comer. E como resposta, fico sabendo que a cada viagem do comendador Eduardinho o ritual se repete por uma legião de cachaceiros (consumidores) de boa cepa, que fazem questão de levar pra suas adegas as garrafas devidamente autografadas.

Apesar de não ter perguntado, ficou subtendido que não basta ao nobre consumidor desta iguaria paratiense levar pra casa um produto confiável, mas que também tenha um selo atestando o padrão de qualidade, afiançado pelo próprio fabricante. Não vejo a hora de voltar a Paraty para sentarmos à mesa – quem sabe no próprio alambique – para jogar conversa fora enquanto Eduardinho autografa garrafa por garrafa de Coqueiro.

Com essas preciosidades, mesmo que consuma todo o estoque em tempo recorde – isto é, antes de retornar a Paraty – posso expor as garrafas como verdadeiros troféus, mesmo que vazias à espera da reposição de um meu objeto de desejo, sonho de consumo, a boa cachaça. E digo isso com toda a autoridade de quem participou das farras com a Quero Essa e o início da produção da Coqueiro no seio da família Mello.

Se a moda pega, Eduardinho tem que se preparar para fortalecer a munheca.

Walmir Rosário é radialista, jornalista, advogado e autor de Os grandes craques que vi jogar: Nos estádios e campos de Itabuna e Canavieiras, disponível na Amazon.

Walmir Rosário recupera história do duelo futebolístico entre Belmonte e Itajuípe
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Pires prometeu que nunca mais jogaria em Belmonte e abandonaria o futebol se tivesse que fazer outra partida naquela cidade.

 

 

 

 

 

 

 

Walmir Rosário

Quem jogou ou, pelo menos, acompanhou jogos do futebol amador em tempos passados sabe a dificuldade em disputar uma partida no campo adversário. Nas fazendas, então, era o parto da bezerra. O visitante era convidado a jogar, mas era impedido de ganhar. Para tanto, o árbitro era escolhido a dedo pelo mandante, com o dever de impedir, a qualquer custo, a vitória do time de fora. E não adiantava espernear.

Para não ficarmos falando só do passado, isso existe até hoje, não pela simples rivalidade entre as duas equipes, a exemplo de Itabuna e Ilhéus, que perdura aos dias atuais e não tem prazo para encerrar. Com as equipes profissionais convencionou-se dizer que nos seus domínios o adversário tem que agir com muita cautela, chegando a afirmar que o touro em pasto alheio não passa de bezerro. E os velhos alçapões estão aí.

Para não dizer que não saí da cozinha de casa, lembro bem das partidas entre os times brasileiros e argentinos nos estádios dos hermanos, que não respeitam a torcida, os árbitros e muito menos os adversários. Quando o resultado não já estava encomendado, eles o fabricavam, sem qualquer cerimônia ou receio das consequências legais que poderiam ser tomadas.

Não tenho base legal ou conhecimento para afirmar que os antigos dirigentes e torcedores da Seleção Amadora de Belmonte, no Sul da Bahia, herdaram esses costumes dos argentinos, mas que agiam parecido, isto é fato e não se pode negar. Que digam os atletas, dirigentes e torcedores das seleções amadoras de Canavieiras, Ilhéus, Itabuna nos velhos tempos do Campeonato Baiano de Amadores.

Pra início de conversa, assim que a seleção adversária chegava era recepcionada por uma comissão que tinha como objetivo atingir moralmente os adversários com palavras difamantes, ultrajantes e tudo o mais que a valha. Mas não ficava por aí, essas comissões se revezavam em frente a pensão que hospedava a delegação, e fazia muito barulho noite a dentro, evitando que dormissem o sono dos justos.

Uma solução encontrada por Itabuna foi viajar para Belmonte em aviões, os famosos teco-tecos, com a finalidade de chegar um pouco antes da partida. Os que se aventuravam ir de ônibus comiam o pão que o diabo amassou. Tinham que chacoalhar nas velhas “marinetes” da Sulba por quase 200 quilômetros. Aguentar a poeira os atoleiros, a depender da estação do ano.

No começo da década de 1960, a Seleção de Itajuípe tinha um compromisso com o selecionado de Belmonte pelo Campeonato Baiano de Amadores. Os dirigentes alugam um ônibus e saem no sábado bem cedo (um dia antes). No caminho desceram para empurrar o veículo várias vezes e conseguiram chegar com o sol caindo no horizonte. Foram ao estádio reconhecer o gramado e dali se dirigiram à pensão.

Por recomendação do presidente Jackson Hage e dos diretores Fernando Mansur e Tuffik, os jogadores não saíram da pensão para conhecer a cidade, por motivos óbvios. Mas não conseguiram dormir com a batucada na praça em frente, sob o comando da apaixonada torcida belmontense. E Itajuípe tinha que sair de Belmonte, no mínimo, com um empate, para disputar com a Seleção de Ilhéus. Mas o pensamento do grupo era ganhar o jogo.

E a partida não saia do 0X0. Mais ou menos aos 35 minutos do segundo tempo, o árbitro, do meio de campo, marcou um pênalti contra a Seleção de Itajuípe, sem qualquer motivo e fora de qualquer jogada. Não adiantaram as reclamações. O árbitro estava irredutível. Atrás do gol de Itajuípe, uma pessoa chegou para perto do goleiro Antônio Pires, tirou o revólver da cintura e disse: “Se você se mexer na área eu lhe encho de chumbo”.

Ao presenciarem a cena, os jogadores da Seleção de Itajuípe comunicaram o fato à diretoria, que por sua vez chamou a polícia, que confirmou a arma e a estranha ameaça. Não se sabe o motivo e o poder do agressor, já que os policiais não o prenderam. Apenas se dividiram em dois grupos, um junto ao ameaçador e outro ao lado da trave, no sentido de evitar que o crime se consumasse, caso o goleiro Pires pegasse o pênalti.

Confusão amainada, o jogador do selecionado belmontense chuta a bola e o goleiro Pires a encaixa com segurança. Mesmo com a proteção dos policiais, o ameaçador continua prometendo transformar Pires numa tábua de pirulito, pelos tiros que prometia dar. O árbitro é obrigado a interromper o jogo, pois todos os jogadores formaram um cordão de isolamento para proteger o goleiro ameaçado.

A única solução encontrada pelos dirigentes foi fretar um avião teco-teco e transferir Pires para Ilhéus. Embarcaram Pires em um jipe, na companhia de Fernando Mansur e Tuffik, além dos policiais, para levá-los ao avião, enquanto em outro jipe ficou o agressor cercado de policiais. Assim que o teco-teco levanta voo, o jogo é retomado, com o goleiro reserva no lugar de Pires, e o placar de 0X0 foi mantido, apesar do desespero dos itajuipenses.

Pires prometeu que nunca mais jogaria em Belmonte e abandonaria o futebol se tivesse que fazer outra partida naquela cidade. E não se falou mais nisso.

Walmir Rosário é radialista, jornalista, advogado e autor de Os grandes craques que vi jogar: Nos estádios e campos de Itabuna e Canavieiras, disponível na Amazon.

Ex-prefeito Antônio Olímpio faleceu nesta quarta-feira || Foto Mary Melgaço
Tempo de leitura: 3 minutos

Pelo que conheço de AO como irmão, valoroso maçom, servidor público, professor e amigo, acredito que ele não gostaria de deixar triste os amigos, até pelas piadas que contava. Prefiro o sentimento da saudade, que o da tristeza; da lembrança dos momentos agradáveis, do que os maçudos; da espontaneidade, do que os críticos. AO estará fisicamente longe de nós, mas perto do coração.

 

Walmir Rosário

Ilhéus amanheceu tristonha nesta quinta-feira (27) com a notícia da partida de Antônio Olímpio Rehem da Silva, ou simplesmente AO. E ele deixa saudosos os ilheenses de todos os recantos e níveis sociais. Para AO, a figura humana não tinha a distinção que porventura é feita de acordo com os costumes, credos, situação financeira ou cor da pele. Era do tipo que conhecia todos como gente.

O anúncio de sua partida para o Oriente Eterno gerou uma grande comoção em Ilhéus. Após uma queda, há dias ele se encontrava internado para tratamento no Hospital São José, porém não resistiu. Aos 91 anos, deixa a viúva Maria Amélia e os filhos Marcus Flávio e Luciano, além de netos. Também deixa órfã uma grande legião de amigos que construiu durante sua vida.

AO é (ou era) um itabunense adorado pelos ilheenses. Foi prefeito por duas vezes e deputado estadual. Em sua primeira eleição, desafiou o status quo da política, se elegeu prefeito e foi responsável pela transformação da cidade e dos distritos. Soube buscar os recursos necessários e realizou obras de infraestrutura importantes, muitas das quais responsáveis por mudanças no cartão postal da cidade.

Antônio Olímpio prefeito se notabilizou por dar vez e voto a uma nova geração de políticos, deixando de lado o varejo e o compadrio para entregar aos ilheenses uma Ilhéus planejada. Pelo primeira vez, a Prefeitura subiu aos morros fora da campanha política, com investimentos estruturantes, os distritos ganharam acessibilidade e Ilhéus passou a executar uma política turística de apresentar sua história e personagens ao mundo.

Foi o prefeito que trabalhou junto à população, o que, para ele, não era nenhuma novidade, pois sempre circulou com desenvoltura em todas as camadas sociais. Com a simplicidade que visitava os gabinetes em Brasília e Salvador, passeava em todos os recantos de Ilhéus, constatando os reclames da população e fiscalizando a execução das obras da Prefeitura.

Sua intimidade com a população era tamanha, que logo cedo conversava com os pescadores do Pontal – bairro em que morava –, atendia as lideranças políticas, vereadores e o povão de Deus sem a menor cerimônia. Conhecia a todos e os tratava com respeito e intimidade, chamando-os pelos nomes, sobrenomes e apelidos, dedicando carinho e cobrando quando necessário.

Se era bem recebido nos salões da nobreza, AO também era fortemente abraçado pelos mais simples, aos quais tratava com brincadeiras e gozações. Não raro era visto batendo papo nas ruas ou na praça São João, no Pontal, comportamento que não é peculiar aos políticos. Se sentia confortável ao visitar os amigos da tarifa (entreposto de pescado), permanecendo para algumas partidas de dominó.

Pescador exímio e conceituado, ministrava aula de pesca aos pescadores, informando com segurança os melhores locais onde as diferentes espécies de peixes seriam mais facilmente encontradas. Mas a simples localização não bastava, e ele complementava com o tempo e o clima ideal em que eles estariam gordos, excelentes para o consumo e o tipo de captura mais adequado.

Advogado de conceito, servidor do Ministério do Trabalho, professor, secretário do Meio Ambiente, Presidente da Fundação Universidade do Mar e da Mata (Maramata), escritor, brindava os amigos com sua sabedoria e os “causos” contados com a verve que Deus lhe deu. Era do tipo que poderia perder o amigo, mas nunca a piada, como diz o ditado, só que não, conservava os dois.

Outra grande e excelente habilidade de AO era a gastronomia, notadamente em peixes e frutos do mar. Nesse mister, formou bons chefs nos cursos em que promovia na Maramata, entre os quais me incluo (sem o adjetivo acima citado). Poderia ser considerado um bon vivant, como todos os que valorizam os prazeres da vida, generoso, bem-humorado, de bem com a vida.

Tive a felicidade de conviver um bom tempo com Antônio Olímpio, momentos que jamais serão esquecidos. Nos nossos encontros, muitos deles profissionais, elaborei boas histórias, boa parte das quais contadas em reportagens administrativas, políticas e gastronômicas. E essa convivência se transformou em amizade, daquelas que ele sabia construir e conservar por toda a vida.

Pelo que conheço de AO como irmão, valoroso maçom, servidor público, professor e amigo, acredito que ele não gostaria de deixar triste os amigos, até pelas piadas que contava. Prefiro o sentimento da saudade, que o da tristeza; da lembrança dos momentos agradáveis, do que os maçudos; da espontaneidade, do que os críticos. AO estará fisicamente longe de nós, mas perto do coração.

Walmir Rosário é radialista, jornalista e advogado.

Rádio, por anos a magia da comunicação
Tempo de leitura: 4 minutos

Com a chegada da internet, mais uma vez o rádio foi jurado de morte. E o povo do rádio nem deu a mínima. Mais que depressa, tomou para si as facilidades dessa nova tecnologia e ampliou seu espectro social com as ferramentas da rede.

 

Walmir Rosário

Desde que fui iniciado no rádio me acostumei a ouvir a derrocada desse meio de comunicação instantâneo, antes calcado no tripé: música, esporte e notícia. Com a chegada da TV, sua morte foi decretada solenemente, mas o rádio se recusou a morrer de morte matada. Fosse hoje, diríamos que a notícia circulante se tratava apenas de uma fake news e não deveria ser levada a sério, como não deve até hoje.

De lá pra cá, essas mentirinhas continuaram a ser ditas assim que anunciada uma nova tecnologia. E o rádio, sorrateiramente, continuou firme e forte, ampliando sua área de atuação e o tripé de sustentação de antes passou a implantar novos “pés”, e se encontra mais sólido que nunca. Por um tempo esteve segmentada, principalmente com a aquisição de emissoras pelas igrejas de várias denominações.

Quem manteve a segmentação pura e simples deu com os burros n’água e foi obrigado a promover uma profunda mudança. Os segmentos católicos e protestantes não eram capazes de manter uma estrutura vibrante sem os comunicadores; apenas locutores de programas religiosos não bastavam. Daí que hoje algumas delas promovem debates ecumênicos com representantes de várias religiões, espíritas, ateus e que mais valham.

Fora desses horários, os comunicadores disputam a audiência com muita inteligência, buscando a cumplicidade dos ouvintes. E a MPB, o samba, o romantismo, o rock estão presentes em suas programações na mesma intensidade dos programas de autoajuda, de apoio às donas de casa, do apoio providencial aos motoristas nas grande cidades, ao homem do campo pelas manhãs, e aos notívagos, madrugadores, boêmios ou no batente.

Eu entrei no rádio por acaso, ao participar da equipe do seminário nos programas religiosos transmitidos pela Rádio Sociedade de Feira de Santana, lá pelos idos de 1963. Algum tempo depois – 1965 –, em Itabuna, o empresário Carlito Barreto compra a Rádio Clube e doa aos frades capuchinhos. E quem vem dirigir a emissora é justamente Frei Hermenegildo de Castorano, ex-diretor da emissora coirmã em Feira de Santana.

E mais uma vez lá vai eu em direção ao rádio, inicialmente na programação religiosa, depois em outras atividades como a mesa de som, técnica em transmissão externa, locução, e por aí afora. Por um tempo me dediquei à atividade e outros tantos fora dela. Volta e meia retornava, na redação, reportagem, apresentação, e convivi com várias “feras” da comunicação e em diversos horários, inclusive nas madrugadas.

No programa De Fazenda em Fazenda, na Rádio Difusora, produzido e apresentado pela Ceplac, estive no comando por anos e presenciei o que era a verdadeira interação com os ouvintes da cidade e, principalmente da área rural. Em determinados momentos chegamos a receber uma montanha de cartas, mais de 600 delas entregues nos diversos escritórios da Ceplac na cidades irradiadas. Muitas quais escritas por pessoas de pouca ou quase nenhuma alfabetização.

Só quem trabalhou na reportagem sabe a dificuldade de passar um flash ao vivo da rua quando ainda não existia entre nós o aparelho de telefonia celular. Era preciso disputar uma fila num orelhão e introduzir diversas fichas metálicas para que a ligação não caísse, fosse cortada, enquanto passava a informação. Do contrário, bastava ter a cara de pau de pedir para usar o telefone fixo em uma casa comercial ou residencial.

Sem esses auxílios providenciais, só após chegar à emissora algum tempo depois com a fita gravada. Para isso teria que contar com a sorte e não tomar o furo de outra emissora. De vez em quando um ouvinte ligava passando a informação e torcíamos que não fosse um trote. Não posso falar em gravar uma entrevista sem comentar o tamanho e o peso dos jurássicos gravadores e suas fitas cassetes que cismavam não gravar em momentos importantes.

Outra atividade radiofônica que sempre gostei de trabalhar era o horário gratuito nas campanhas eleitorais. Somente quem milita nesse segmento sabe da importância do rádio numa eleição. Numa oportunidade, fui convidado a coordenar a campanha de rádio de um candidato em Itabuna. E a missão que recebi do coordenador geral de comunicação da campanha, jornalista Sérgio Gomes, foi a de produzir um programa totalmente independente da veiculada na televisão.

Contratamos um excelente comunicador, Paulo Vicente, na edição de áudio, Luiz Barroso (meu operador por anos), eu na direção, redação e locução de editoriais, e contamos com a participação de uma dupla pra lá de especial: os radialistas Paulo Leonardo e Florentina Jerimum, estes na apresentação de humor. Nesta editoria eu escrevia apenas um roteiro e os dois se encarregavam de finalizá-lo na gravação, sem qualquer texto prévio.

Resultado, todos os dias eu era surpreendido nos bares, esquinas e demais locais públicos com as discussões dos quadros do programa e muitas das expressões viraram memes e bordões no boca a boca dos ouvintes e eleitores. Desta vez, o programa de rádio influenciou o programa de TV, que passou a abordar os temas apresentados no programa radiofônico do candidato, vencedor da eleição (não apenas e tão somente por isso).

Com a chegada da internet, mais uma vez o rádio foi jurado de morte. E o povo do rádio nem deu a mínima. Mais que depressa, tomou para si as facilidades dessa nova tecnologia e ampliou seu espectro social com as ferramentas da rede mundial de computadores. Na minha humilde concepção, com a internet, o rádio perdeu apenas seu glamour ao expor seus apresentadores nos canais das redes sociais, ganhando em intimidade.

O rádio continuará firme e forte, desde que não queiram inventar a roda quadrada.

Walmir Rosário é radialista, jornalista e advogado.

Notícia da viagem de Nininho para teste no Fluminense, em 1958
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O menino de Macuco, iniciado no Pindorama Futebol Clube, depois no Brasil Esporte Clube, o BEC, venceu no futebol e até hoje é reconhecido como bom exemplo por onde passou.

 

Walmir Rosário

Campeão pela Seleção de Itabuna no primeiro Intermunicipal vencido, Nininho, o Sputnik, sentiu necessidade de mostrar seu futebol em outras terras, se apresentar no Maracanã, o santuário do futebol. E aqui pra nós, qual jogador de futebol que nunca sonhou atuar no Gigante do Maracanã? Nem tinha medo com o tradicional friozinho na barriga no jogo de estreia. Era o começo de uma carreira, quase sempre bem-sucedida.

E José Maria Santos, o menino de Macuco, hoje Buerarema, só pensava nisso. Tanto foi assim que dispensou as honrarias dos cartolas, comerciantes e torcedores de Itabuna para aventurar a carreira no Rio de Janeiro. Quem sabe poderia aparecer no Canal 100, em todos os cinemas do Brasil, jogando por um grande clube do Rio de Janeiro ou São Paulo. A mudança valeria a pena e ele estava disposto a correr o risco.

Artilheiro com 11 gols marcados em sete jogos da Seleção de Itabuna campeã. Eleito em 1958 o atleta mais eficiente e disciplinado de Itabuna, Nininho ganhou uma passagem de ida e volta, além da hospedagem para 15 dias em hotel no Rio de Janeiro. Viajou acompanhado do colega Hildebrando, que ia visitar dona Guiomar, esposa de Didi do Botafogo, que é da região cacaueira. Nininho foi apresentado aos dois e se tornaram grandes amigos.

Finalmente, o craque Sputnik se foi. No Rio, fez teste no Fluminense, time em que jogava o conterrâneo Léo Briglia, e treinou muito bem. Aprovado, o técnico Pirilo queria inscrevê-lo como juvenil, mas não foi possível, pois já completara 20 anos. Como não tinha vaga no aspirante, completo com jogadores subidos dos juniores, nem mesmo a intervenção de Léo Briglia resolveu. A escolinha do Flu era uma fábrica de craques, o que sempre impedia o aproveitamento de novos valores. E o Sputnik era um deles.

Se não deu certo no Fluminense, ainda em 1958 Nininho decidiu dar uma passada no Botafogo para se submeter aos testes. Enquanto fazia o famoso vestibular no Glorioso, um treinador do Guarani de Divinópolis gostou de sua atuação e quis saber qual era situação do atleta. Informado que era livre e estava passando por testes, convidou o Sputnik para ir disputar o Campeonato pelo Guarani. Aceitou, de pronto.

Em janeiro de 1959, volta ao Rio de Janeiro para se submeter a novos testes no Botafogo, onde pretendia jogar ao lado do time dos grandes craques. Nesse período, foi levado para o Canto do Rio, em Niterói, e daí para o América, no qual se sagrou campeão carioca em 1960. Nesse ano, mesmo na reserva, foi o artilheiro dos aspirantes. Nessa época já tinha incorporado novo nome: Zé Maria.

Nininho (Zé Maria) no América campeão carioca de 1960

Emprestado ao Bonsucesso Futebol Clube para fazer uma excursão no exterior, atuou no Chile e Peru. Nessa viagem jogou o que sabia nos 15 jogos realizados, uma campanha invicta. No último jogo, contra o Sporting Cristal, do Peru, que já era campeão peruano antecipado, faltando três rodadas para o fim do certame, marcou o gol mais bonito de sua vida. Para ele foi a consagração como jogador profissional.

Em 1962 volta a São Paulo, desta vez para jogar na Prudentina. No ano seguinte, 1963, Sputnik, ou Zé Maria, joga um belo campeonato. Àquela época, a Prudentina era um time cheio de bons jogadores e ele consegue se destacar, embora a equipe tenha ido mal. Resultado: no final do ano todos os atletas foram dispensados. Nininho chegou a ser cotado para ir para o Peru, onde jogaria no Sporting Cristal, mas como não se concretizou, ele continua no Brasil e passa a jogar pelo Nacional.

Depois disso foi trabalhar na Rede Ferroviária Federal e continuou jogando por dois anos, e encerrou a carreira em 1967. Anos depois o craque volta para Itabuna. Deixa a Rede Ferroviária, um emprego federal e se instala em Itabuna. Convidado por Ramiro Aquino, José Adervan e João Xavier para supervisionar o Itabuna Esporte Clube, cumpriu a missão de fortalecer o profissionalismo no futebol itabunense.

Nininho preferia ser treinador, mas foi convencido a atuar na supervisão. E fez um excelente trabalho, dando uma nova cara à equipe profissional, àquela época ainda tratada com muito amadorismo no sul da Bahia. O Itabuna chega ao final do campeonato em uma boa colocação, resultado do trabalho implantado por ele e o treinador Roberto Pinto, mudando as características do futebol por aqui praticado.

Nessa época, Itabuna reunia bons jogadores, muitos deles valores regionais. Um em especial, vindo de Itarantim para fazer teste no Itabuna como quarto zagueiro. Era Zezito Carvalho. Assim que viram a baixa estatura dele, Nininho, Roberto Pinto e João Xavier sugeriram que fosse testado na lateral direita. Deu certo e o Zezito Carvalho passou a se chamar Tarantini, nome dado em homenagem ao jogador argentino e que fazia referência à sua cidade, Itarantim.

Nininho também fez um excelente trabalho com a juventude itabunense, quando convidado pelo amigo João Xavier, à época vice-prefeito e secretário de Esporte de Itabuna. A missão era implantar as escolinhas de futebol projetadas pela Prefeitura. E execução deu excelentes resultados, retirando meninos da rua para proporcioná-los uma vida melhor com a prática de esportes, notadamente o futebol.

O menino de Macuco, iniciado no Pindorama Futebol Clube, depois no Brasil Esporte Clube, o BEC, venceu no futebol e até hoje é reconhecido como bom exemplo por onde passou.

Walmir Rosário é radialista, jornalista e advogado.

Ronald Kalid afirma que não disputará eleição em Itabuna || Foto Laele
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Aposto que não mudarão os partidos, os candidatos, com ou sem pré, e tampouco Ronald Kalid, que deve continuar pensando igualzinho. E tudo continuará como dantes no quartel de Abrantes e adjacências.

Walmir Rosário 

Em Itabuna, o arquiteto Ronald Kalid afirma que não será candidato a cargo eletivo em 2024. Sequer está filiado a um partido político, situação esta que poderá ser mudada, embora jure de pés juntos ter o tempo passado e, com ele, o tal do cavalo selado. Mas o que teria feito Ronald mudar de ideia? Acredito eu, que pela tal da coerência, que ele sempre fez questão de manter ativa e altiva.

Parece uma blasfêmia, ou idiotice, sei lá, falarmos – pior ainda escrever – que um vivente com o juízo em perfeito estado agir nesses moldes, hoje tão em desacordo com os costumes desses tempos tecnológicos. Mas existem, poucos, é verdade, vivos e são, ouvindo e analisando tudo que vê à sua volta, discordando, em dissintonia, ou desacordando dos moldes atuais de fazer política.

Melhor seria dizer – para parecer mais claro – em campanha eleitoral permanente, embora a legislação não permita o uso dessa afirmação. Mas como nesse Brasil varonil sempre conseguimos um jeitinho pra tudo, podemos dizer, sem medo de errar, pré-campanha. Não sei se por soar mais bonito, ou simplesmente como uma figura de linguagem, recurso estilístico produzido para ficar bem na fita.

Pior, ainda, aos olhos dos aplicadores da lei, atentos aos deslizes dos políticos, mais ainda às denúncias dos adversários por infringir às nuances das leis e regulamentos eleitorais. Melhor dizer, pré-candidato, que está tudo bem. Atende muito bem nesses tempos em que o politicamente correto não admite esses cochilos e desce a marreta nos candidatos, “ops”, pré-candidatos.

Mas não acredito que somente essas questiúnculas tenham atemorizado Ronald Kalid, um frequentador assíduo do senadinho do Café Pomar e do Beco do Fuxico, com assento aos sábados na Fuxicaria itabunense. Com certeza, não. Me arrisco a dizer, sem ter perguntado o porquê da desistência, que os motivos são outros. Pra muito gente, quem sabe, o nosso político em questão preferiria manter sua fama de mau.

Não que Ronald trate alguém com descortesia, pelo contrário, mas por ser visto como possuidor inveterado de três atributos considerados terríveis numa campanha eleitoral, ou pré, como queiram. Ser sisudo, não cumprimentar desconhecidos no meio da rua, principalmente com as famosas risadinhas. Com esse péssimo costume (?) não passará, jamais, no difícil vestibular para trono do executivo.

É essencial que para o pretendente ao Centro Administrativo de Itabuna esteja sempre pronto para os tapinhas nas costas dos futuros eleitores, melhor seria acompanhados dos beijinhos nos rostos das eleitoras, sempre acompanhadas das “incumpríveis” (será que existe essa palavra?) promessas em liberar rios de leite e ribanceiras de cuscuz, bem ao estilo costumeiro, pois é assim que a banda toca.

Basta um de nós perguntar a qualquer marqueteiro ou aos amigos da imprensa sobre esse terrível costume. Eles não deveriam concordar, mas quem iria contrariar uma tese vencedora a cada dois anos nas campanhas eleitorais brasileiras? Melhor ficar com a grande maioria, até porque fica mais fácil afirmar que a “voz do povo é a voz de Deus”, e estamos devidamente conversados.

Maus exemplos como esse deveriam ficar escanteados nesses tempos tão modernosos, que poderiam servir de baliza, mergulhando na consciência eleitoral de cada um. Mas que nada, melhor criar nossos mitos, de preferência santos com pés de barro, que podem ser quebrados depois com certa facilidade. Quem sabe ficaremos com mais poder de barganha caso haja qualquer necessidade de manutenção da governabilidade.

Não sei se por isso o Brasil seja o campeão da enorme população flutuante nos partidos políticos, que muda das agremiações de acordo com seus interesses e não com os estatutos partidários. Eles aprenderam que pouco importa para o povão a ideologia, o que vale é o agora, qual benefício poderá auferir. Políticos não são anjos e sequer têm vocação para santos, mas têm que ser vivos, sabidos ao extremo, pois os simplórios estão de fora.

E assim pouco importa o ontem, administrações passadas, capacidade de trabalho, conhecimento da administração pública. Bom mesmo é o agora, com os interesses pessoais antes dos coletivos. É o salve-se quem puder, com o aval partidário, pois não participam do grande banquete os que não foram amplamente sufragados nas urnas eleitorais eletrônicas.

A mudança sempre é necessária, desde que para melhor. E aqui no nosso minúsculo debate, quem deveria mudar: os partidos, cumprido sua ideologia e seus princípios elencados nos estatutos, entregando aos eleitores a mercadoria vendida; Ronald Kalid, cuja promessa é das mais simplórias, simplesmente garantindo um relacionamento saudável entre os poderes públicos e a iniciativa privada.

Pelo pouco que conheço das artes políticas, numa campanha se gasta muita saliva, sola de sapato e dinheiro, este precioso e doado pelos partidos coligados e alguns amigos, hoje de acordo com o processo legal. Mas aposto que não mudarão os partidos, os candidatos, com ou sem pré, e tampouco Ronald Kalid, que deve continuar pensando igualzinho. E tudo continuará como dantes no quartel de Abrantes e adjacências.

Walmir Rosário é radialista, jornalista e advogado.

Fluminense de Itabuna; em pé: Luiz Carlos, Orlando Anabizu, Valdemir Chicão, Amilton, Ronaldo Dantas e Boquinha; agachados: Vanderlei (Teiú), Santinho, Jonga, Carlos Riela e Fernando Riela.
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Carlos Riela não era craque porque apenas gostava de futebol, mas por estar sempre atento ao desenrolar da partida e se adiantar às jogadas. Ele sabia utilizar os seus sentidos em benefício do seu time.

Walmir Rosário 

Essa é a minha opinião, quem achar que estou errado, que me corrija, mas não acredito que terei vozes discordantes, só se o distinto não gostar, ou sequer já assistiu a uma partida do bom futebol. É preciso que o atleta, para ser considerado um craque completo, tenha mais do que os cinco sentidos, quem sabe seis ou sete, além de uma ou duas especialidades e muito gosto pela bola.

Pra começo de conversa, o craque em questão deve ter em boa conta os cinco sentidos humanos, como a boa visão: ver de onde o jogo vem e pra onde deve ir; audição: escutar tudo o que os jogadores do seu time e os adversários conversam; olfato: sentir no vento o cheiro da bola e dos adversários; paladar: um dos mais importantes, pois tem que comer a bola, encará-la como se fosse um delicioso prato de comida em frente a um esfomeado; e o tato: saber como vem a bola e dar o efeito necessário para desviá-la do concorrente.

Mas, o meu craque, que passarei a descrevê-lo agora, tem muito mais que isso, ultrapassa a simples ciência pelos gramados, bem sofríveis ou ruins, à época, é verdade, e ele conseguia pelo tipo de arrepio de sua pele, dominar a jogada; com equilíbrio, dominava a bola; e com a intuição despachava a pelota para o companheiro que sabia se colocar na área e marcar o gol.

Pelo que já noticiei, passamos por oito sentidos em uma só jogada e poderíamos enunciar mais com a ajuda da ciência. Mas vamos ficar por aqui, não sem antes de anunciar outra qualidade maior deste meu craque: O DNA. Basta verificar o sobrenome dele para finalizar alguma discussão que por ventura surja, mas não creio. Eu estou me referindo a Carlos Riela, que, com os irmãos Fernando, Leto e Lua, proporcionavam o espetáculo no Campo da Desportiva Itabunense, ou qualquer campo adversário.

O meu craque era muito mais do que tudo isso que já disse e vou continuar dizendo. Acreditem os senhores, ele se diferenciava dos outros jogadores, pois entrava em campo trajando smoking, afinal as partidas pelas quais jogava pelo Flamengo, Fluminense, Seleção de Itabuna ou o Itabuna Esporte Clube eram festa de gala. Ao fim do jogo não estava amarrotado nem perdia o vinco.

Na Seleção de Itabuna ingressou para disputar o Tetracampeonato Baiano de Amadores. Gostou tanto, que venceu e foi em busca do Pentacampeonato e Hexacampeonato, sem dó nem piedade dos famosos adversários. As famosas seleções de Ilhéus, São Félix, Feira de Santana, Santo Amaro e Alagoinhas participavam apenas para abrilhantar as vitórias da Seleção Itabunense.

E Carlos Riela se destacava na ponta-direita ou como volante, destruindo e armando jogadas que finalizavam no fundo do gol adversário, sem stress para ele, distribuindo o jogo tal e qual um comandante fazia com seus soldados numa guerra. Não estou errado, uma partida contra a seleção amadora de Itabuna era vista pelos adversários como mais uma batalha, geralmente perdida por eles.

Se entre os leitores desta crônica existem os de faixas etárias mais novas tenho provas a serem apresentadas, a exemplo do jogo decisivo do Hexacampeonato, contra a Seleção de Alagoinhas, vencida por Itabuna pelo placar de 1X0, gol de Pinga na casa do adversário. Tenho em minhas mãos a narração do jogo pelo radialista Geraldo Santos, em que 70% dos ataques de Alagoinhas eram desmanchados nos pés de Carlos Riela e convertidos em contra-ataques de Itabuna.

Se intenção eu tivesse poderia criar uma ingrisilha para saber quem teria sido mesmo o herói do Hexa: Pinga, que marcou o magistral gol; Piaba, que recebeu um pontapé no rosto e segurou bem a defesa; ou Carlos Riela, que comandou, magistralmente, o jogo, desmanchando ataques adversários e iniciando os contra-ataques da seleção itabunense. Melhor deixar quieto, pois os três foram grandes guerreiros.

Não sei ao certo a idade de Carlos Riela, que deve estar beirando a casa dos 80 anos. Como sempre, amável, afetuoso, educado, bastante apegado à família. Tanto é assim que, Astor, seu pai, conseguiu reuni-los no Fluminense de Itabuna. De outra feita, no Itabuna Esporte Clube, seu Astor recomendou que se afastassem do time após um desentendimento entre Leto e Anselmo, este cunhado do técnico Velha. Sequer discutiram.

Na minha modesta opinião, Carlos Riela não era craque porque apenas gostava de futebol, mas por estar sempre atento ao desenrolar da partida e se adiantar às jogadas. Ele sabia utilizar os seus sentidos em benefício do seu time. Quando os irmãos jogavam juntos era uma covardia. O mesmo acontecia quando defendiam times diferentes, em que cada um deles fazia valer sua destreza, para o delírio da plateia do velho Campo da Desportiva.

Só para lembrar, àquela época, os jogadores não tinham um time de assessores de comunicação, personal trainer, personal style e outros profissionais que estão sempre prontos para afastá-lo dos torcedores. Jogavam à beira do gramado, separados apenas por uma tela de arame e podiam ser puxados pela camisa enquanto batiam uma falta ou lateral. Pouco se importavam, pois bom mesmo era jogar um futebol de craque.

Walmir Rosário é radialista, jornalista e advogado.

O comandante Tedesco em sua cadeira de alumínio e titânio
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O que mais me chama a atenção é que esses generosos amigos sabem tudo a meu respeito, como o número do telefone (é claro, não a operadora), o endereço, o tal do CPF, carteira de identidade e até o banco por onde recebo minha parca aposentadoria. Pelo que me lembro, nunca repassei esse tipo de informação, nem mesmo numa boa farra. Mas, para nos ajudar, os verdadeiros amigos fazem de tudo.

Walmir Rosário

Já faz um bom tempo que venho matutando sobre a minha participação nas ditas redes sociais. Esse é um incômodo que vem me atormentando terrivelmente e, às vezes, me sinto devassado, a ponto de não saber mais se sou eu quem me domino ou os chamados amigos e seguidores. Volta e meia acredito que as pessoas sabem mais ao meu respeito do que eu mesmo.

De um certo tempo pra cá passei a ser mais seletivo ao atender ao telefone celular. Não sei como, todo o mundo sabe de cor e salteado o número do meu aparelho e tentam falar comigo. Não sou uma pessoa mal-educada, isso é fato, mas não tenho condições de atendê-los a qualquer hora do dia ou da noite. E o que é pior, atendo amigos que nem sei quem são e como os tornei do meu ciclo de amizades digitais.

Constrange-me viver a dizer não a essa legião de amigos, que entram em contato comigo com a finalidade de me servir. E bem, diga-se de passagem. Oferecem-me de tudo, desde dinheiro emprestado, cartões de crédito com recursos consideráveis liberados para que eu compre até o que não preciso. Sinto-me lisonjeado com a bondade de amigos que nem conheço e a confiança que em mim depositam.

Não raro me oferecem condições especiais para conhecer o mundo inteiro em moderno e maravilhosos transatlânticos, em viagens temáticas onde me sentiria um rei. Por vezes fico balançado em singrar os mares gozando do luxo disponível, mas nem sempre me sinto corajoso a ponto de me tornar um Pedro Álvares Cabral, um Américo Vespúcio, a descobrir terras desconhecidas. Minhas combalidas finanças não aguentam essas aventuras.

Bobagem, me dizem ao telefone. Você terá um prazo de parto de égua para pagar e em módicas prestações. Recebo uma aula das vantagens e do custo-benefício, das mordomias em terra e além-mar, do luxo das cabines, das quase 10 refeições diárias, da festa de gala com o comandante. E sem mais nem menos arrematam, basta apresentar seu cartão de crédito internacional que terá uma banda do mundo à disposição. Mas é aí que a porca torce o rabo.

Há algum tempo descobriram que sou uma pessoa religiosa e a partir de então minha caixa de Correios vive abarrotada. Recebo, regularmente, envelopes com terços, escapulários, fotos de santos, todas devidamente acompanhadas de um boleto com código de barras, onde descubro o preço dos mimos santificados a mim ofertados, desde que repasse uma contrapartida financeira.

O que mais me chama a atenção é que esses generosos amigos sabem tudo a meu respeito, como o número do telefone (é claro, não a operadora), o endereço, o tal do CPF, carteira de identidade e até o banco por onde recebo minha parca aposentadoria. Pelo que me lembro, nunca repassei esse tipo de informação, nem mesmo numa boa farra. Mas, para nos ajudar, os verdadeiros amigos fazem de tudo.

Num passado bem recente cheguei a receber – via e-mail – uma tentadora proposta de um corretor para adquirir uma linda e promissora fazenda no Mato Grosso, na qual poderia desfrutar de todos os prazeres da terra na casa mansão cercada de piscina, bares e churrasqueiras e áreas de esportes, enquanto administrava a propriedade. Aptidões não faltavam para plantar soja, algodão e criar milhares de bovinos. Esse, sim, realmente é um amigo que quer o meu bem.

De vez em quando me pego pensando não ser uma pessoa sociável, pois nada faço para retribuir a amizade e generosidade quem têm para comigo. Sou incapaz de convidá-los para um fim de semana em casa, um almoço ou até uma chegada num bar para desfrutarmos umas cervejas com um belo torresmo mineiro. Juro a mim mesmo que mudarei essa minha personalidade individualíssima.

Mas, confesso a vocês que nas redes sociais nem tudo são flores e já estou organizando uma lista para promover um corte na relação dos amigos de grupos de Whatsapp, que enchem nossa paciência e a memória do celular. Esses, sim, são mais individualistas que eu, pois chegam ao cúmulo de firmar uma série de obrigações e, além de não cumprirem, ainda exijam que eu faça por eles.

Todos os santos dias recebo mensagens e mais mensagens com cartões onde fazem promessas aos seus santos padroeiros e nos ameaçam caso não rezemos a quantidade de Pai Nosso e Ave Maria estipuladas. E é do tipo dá ou desce: se rezar sua conta no banco se encherá de dinheiro, mas, caso despreze as recomendações, todos os malefícios cairão sobre nossa descoberta cabeça. Fazem promessas e querem que eu pague. Porreta!

Prometo que deixarei as redes sociais e me aliarei ao capitão Miguel Fróes, ao comandante de longo curso Tedesco e ao artista plástico Eliomar Tesbita no estudo semanal das ilhas e barras canavieirenses. Singraremos da Barra Velha à Barra do Albino, com paradas para estudos e lazer, sem qualquer compromisso com redes sociais. Falta-me apenas adquirir uma cadeira reforçada como a de Tedesco, feita de alumínio e titânio, para instalar na lancha, um reforçado isopor para as cervejas e zarpar na próxima viagem.

Sem qualquer sinal de internet!

Walmir Rosário é radialista, jornalista e advogado.

Walmir Rosário escreve sobre história da Ceplac
Tempo de leitura: 4 minutos

O livro “A Fazenda Corumbá que virou Ciências (Cepec), 60 anos atrás” tem a apresentação de outro pioneiro da Ceplac, Lício de Almeida Fontes e suporte fotográfico e de informações do técnico agrícola José Rezende Mendonça, também dos tempos da Fazenda Corumbá. A Scortcci Editora produziu o livro. É um bonito passeio pela história da Cacauicultura, inclusive a queda da Ceplac. Vale a pena dedicar algumas horas de leitura.

Walmir Rosário

Parece que foi ontem! Esta é a impressão que o engenheiro agrônomo Luiz Ferreira da Silva deixa transparecer no livro “A Fazenda Corumbá que virou Ciências (Cepec), 60 anos atrás”. Em janeiro de 1963, ainda com o diploma cheirando a tinta, ele aporta em Itabuna para iniciar sua vida profissional no ainda embrionário Centro de Pesquisas do Cacau (Cepec), mais ou menos convicto das dificuldades que o esperavam.

Assim que recebeu o diploma na Escola Nacional de Agronomia da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) passou a analisar três propostas de trabalho: da Acar-ES, da Sudene, em Pernambuco, e do Ministério da Agricultura no Sul da Bahia, em convênio com a Ceplac. Duas dessas bastante conhecidas e conceituadas, e ainda por cima, já estava com a passagem aérea enviada pela Sudene para iniciá-lo no emprego.

Mas, por ironia do destino, Luiz Ferreira se influencia com uma explanação do engenheiro agrônomo Frederico Afonso sobre o início da operação da Ceplac na cacauicultura, inclusive com o levantamento dos solos da região cacaueira. Bom aluno de matéria Pedologia, ainda teria o seu professor Marcelo Camargo, como orientador. Soube de todas as dificuldades que passaria numa região inóspita, mas resolveu topar a parada.

E assim, em 22 de janeiro de 1963, Luiz Ferreira desce do Dart Herald da Sadia no aeroporto de Ilhéus para correr os quatro cantos das terras do cacau. Nesta época, o Cepec, que se transformou no maior centro de pesquisas de cacau do mundo, sequer existia. Pelo que ele conta, o ditado “tirar leite de pedra” era verdade e a ciência começava a ser feita numa casa sede da Fazenda Corumbá.

Sob a coordenação de Paulo Alvim, entomologistas, fitopatologistas, fisiologistas, dentre outros especialistas se juntaram à equipe de pedologia, entre eles os geólogos Paulo Ganem Souto e Pedro Barbosa de Deus. E os novos cientistas vasculharam toda a região cacaueira fazendo o levantamento de solos, sejam nos jipes pretos da Ceplac, no lombo de burros, a pé e até por avião, com o levantamento aerofotogramétrico.

Enquanto o corpo técnico desbravava fazendas de cacau, a Ceplac construía a sede do Cepec, adquiria equipamentos de ponta para a pesquisa, contratava novos profissionais de áreas afins. A proposta era solucionar, vez por todas, os problemas da cacauicultura baiana, custe o que custar, analisando dentro e fora das porteiras. Apenas o crédito não bastava, era preciso ter boas plantas e repassar as técnicas aos produtores.

E o Cepec se tornou a maior sede da ciência por metro quadrado, com engenheiros agrônomos, biólogos, geólogos, economistas, sociólogos, profissionais de laboratórios e técnicos agrícolas que se teve notícia. A repercussão foi bastante positiva também nas áreas urbanas, com o imenso volume de conhecimento espalhado por toda uma região, sem falarmos na forte injeção de recursos vindos para os projetos, insumos e salários.

Os que aqui chegaram fincaram raízes, formaram famílias, numa nova e mais ampla miscigenação da região cacaueira da Bahia. Transformou a economia para melhor e a cacauicultura foi esse carro-chefe por longos anos. Novos cacaueiros, adubações de solo eficientes, defensivos agrícolas mais qualificados, ampliação da produção e a produtividade do cacau. Saímos do gravame à fartura dos dólares no preço do cacau.

A frase dita pelo presidente Ernesto Geisel numa visita à região e à Ceplac: “Feliz do Brasil se tivesse 20 ou 30 Ceplac” ecoou por muito tempo e encheu de orgulho não só os ceplaqueanos, mas todo a nação grapiúna e sul baiana. No livro, Luiz Ferreira mostra com dados a produção de resultados altamente satisfatórios, com recursos aplicados na infraestrutura regional. Ganhamos estradas, energia elétrica, água tratada, telefone, porto, universidade. Traduzindo: a nação grapiúna ganhou dignidade.

Luiz Ferreira continua impregnado pelo visgo do cacau

Aposentado há alguns anos, Luiz Ferreira, que foi diretor do Cepec e da Ceplac Amazônia, continua publicando artigos e livros sobre a cacauicultura, sempre com sugestões da ampliação e melhoramento da cacauicultura, uma atividade altamente rentável e de proteção à Mata Atlântica. Aos 86 anos, esse alagoano que resolveu enfrentar as dificuldades em prol da cacauicultura continua impregnado pelo visgo do cacau.

O livro “A Fazenda Corumbá que virou Ciências (Cepec), 60 anos atrás” tem a apresentação de outro pioneiro da Ceplac, Lício de Almeida Fontes e suporte fotográfico e de informações do técnico agrícola José Rezende Mendonça, também dos tempos da Fazenda Corumbá. A Scortcci Editora produziu o livro. É um bonito passeio pela história da Cacauicultura, inclusive a queda da Ceplac. Vale a pena dedicar algumas horas de leitura.

Walmir Rosário é radialista, jornalista e advogado.