Mulheres no ato do Dia da Consciência Negra, no Rio de Janeiro || Foto ABr
Tempo de leitura: 3 minutos

Que a força guerreira de Zumbi dos Palmares esteja presente e nos ajude nesta luta, hoje e sempre!

 

 

 

 

 

 

 

Julio Cezar de Oliveira Gomes

Hoje, data em que ocorreu o assassinato de Zumbi dos Palmares durante a defesa do maior quilombo que existiu no Brasil, celebramos o Dia Nacional da Consciência Negra, uma merecida e necessária homenagem que busca enaltecer a luta pela vida e liberdade da população negra e escravizada, luta protagonizada heroicamente por ela mesma.

Atualmente, a data é feriado em seis estados brasileiros: São Paulo, Alagoas, Amazonas, Amapá, Mato Grosso e Rio de Janeiro. Estranhamente, no estado da Bahia, tão importante para a cultura e sobrevivência das populações de origem africana no Brasil, ainda não houve o reconhecimento institucional da extrema importância que esta data tem, reconhecendo-lhe a condição de feriado estadual.

Mas o que concretiza, hoje, a luta pela liberdade, consciência e dignidade da população afrodescendente no Brasil?

Ao lado de todas as belíssimas e indispensáveis manifestações culturais que marcam a data e, aqui na Bahia, o Novembro Negro; além de todas as festas, eventos e painéis expondo a importância e o significado de Zumbi como protagonista do seu povo, faz-se necessárias políticas públicas e ações cotidianas capazes de erguer aqueles que ainda são a maioria dos que passam necessidades, dos que não têm acesso aos serviços públicos, daqueles que recebem as piores remunerações realizando os mais árduos trabalhos e que lotam as prisões, as favelas, as filas da indigência: a população afrodescendente.

Precisamos, para a superação das desigualdades históricas e estruturais da sociedade brasileira, da continuidade de políticas públicas como o Bolsa Família e do acesso ao ensino superior, via Prouni e Fies. Precisamos do fortalecimento dos direitos trabalhistas e previdenciários. Precisamos da afirmação dos direitos das mulheres e das redes de proteção a elas, pois são as não brancas as mais agredidas e mais assassinadas; precisamos de políticas específicas, de cotas para pretos no serviço público e nas instituições e instâncias representativas de nosso Brasil, entre outras ações relevantes.

Mas, precisamos também que cada jovem, cada mulher, cada pessoa afrodescendente se arme do espírito de luta de Zumbi e faça com ainda mais sangue no olho, fé e esperança a parte que lhe cabe: que os jovens estudem de verdade, aproveitando ao máximo as oportunidades que a escolarização e a instrução proporcionam; que as mulheres se valorizem, não se permitindo a relacionamentos que degradam sua dignidade; que todos se afastem da droga e do crime, que apesar do prazer momentâneo e do dinheiro que, respectivamente, proporcionam, terminam invariavelmente com a doença, a exclusão brutal e a morte prematura, em um verdadeiro show de horrores.

Ao mesmo tempo que devemos denunciar todos os tipos de violência a que a população negra está submetida e cobrar das autoridades e do governo que façam a sua parte, é indispensável que cada pessoa do povo afrodescendente e mestiço, nas variadas cores que encontramos na população brasileira, faça a sua parte: estude, trabalhe, conduza-se com responsabilidade, com dignidade e fique longe do crime, das drogas, de todos excessos que embriagam e matam, destruindo vidas, famílias e nações. Que a força guerreira de Zumbi dos Palmares esteja presente e nos ajude nesta luta, hoje e sempre!

Julio Cezar de Oliveira Gomes é graduado em História e em Direito pela Uesc.

Tempo de leitura: 2 minutos

Domingas contou sua história de superação e sucesso em evento no CCAF (Foto Gabriel Oliveira).
Domingas, ao microfone, conta sua história de superação e sucesso (Foto Gabriel Oliveira).

Lorena Guimarães
Relatos de preconceito na roda de conversa “Mulheres Negras”, no Centro de Cultura Adonias Filho, ontem (19), emocionaram as pessoas que participaram da atividade. O evento reuniu testemunhos dos que conviveram e ainda convivem com o preconceito étnico-racial no dia-a-dia.
Um dos momentos mais marcantes da roda de conversa Mulheres Negras, ontem, no Centro de Cultura Adonias Filho, foi o relato da trajetória de vida da educadora, psicóloga e coordenadora do Movimento Negro Unificado, Maria Domingas Mateus de Jesus. Filha de agricultores, ela saiu da cidade de Ituberá, no Baixo Sul do Estado, e aqui conseguiu se firmar no mercado de trabalho. “Meu pai sobrevivia aqui em Itabuna da pesca no Rio Cachoeira. Muitas vezes o peixe por ele pescado era o único alimento na nossa mesa”, contou.
E acrescentou: “Certa vez, pai não tinha chegado da pescaria e minha mãe me disse: ‘você não vai à escola’. Mas fui, porque sabia que lá teria merenda. Neste dia, a professora que nunca se aproximou de mim, colocou-me de castigo, porque eu disse que a filha dela era metida. Isso sempre me marcou”, contou a educadora emocionada.
Maria Domingas ainda assiste a manifestações de preconceito como a que sofreu no condomínio onde mora. “No meu prédio, parece mentira, mas muitos ainda me olham desconfiados. Outro dia eu fui até a piscina com minha filha e uma moradora chegou a perguntar à síndica o que eu estava fazendo ali. Recebeu como resposta que eu era moradora e se calou”, relatou.
HOJE TEM CORTEJO A ZUMBI DOS PALMARES
Nesta quinta-feira, ao som de atabaques, chocalhos e outros instrumentos musicais afro-brasileiros e com indumentárias, o cortejo em homenagem a Zumbi dos Palmares, sairá às 17 horas do Jardim do Ó em direção ao monumento Berimbau, na Avenida Princesa Isabel, no Banco Raso.
Será o ponto culminante das festividades promovidas pelo Coletivo de Entidades Negras de Itabuna e do Comitê Gestor Municipal de Políticas de Promoção da Igualdade Racial no Dia da Consciência Negra para que seja lembrado um dos um dos líderes de nossa história desde o Brasil Colonial.