O HOMEM À BEIRA DE LAVAR-SE EM PRANTOS

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Olhos de avermelhados a “rasos d´água”
Os olhos, que estavam avermelhados, tornaram-se “rasos d´água” (esta expressão subliterária vem a calhar), o pranto saiu em esguichos e borbotões, tão injusta e irreparável era a perda de João Paulo. Logo me culpei. Nunca ia saber que um irresponsável “É verdade?”, emitido na falta absoluta de algo útil a dizer, tivesse o condão de desencadear tanta emoção num homem adulto, de barba na cara (mal feita, aliás, me permiti observar). Enquanto o sujeito fungava, eu tinha um olho na tevê, e por ela fiquei sabendo que o defunto fresco (com todo respeito!) era a outra metade da dupla “sertaneja” João Paulo e Daniel, que eu, com essa capa de ignorância com que o bom Deus me protege, jamais ouvira.
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O pranto sem lenço e sem ombro amigo

LUGAR-COMUM: O BRILHO ANTES DA TRISTEZA
“Expressão surrada feito colchão de hospedaria”. Num conto de Machado de Assis, localizo este ótimo conceito de lugar-comum, grande inimigo da boa linguagem. É curioso que ele nasce de um lance de criatividade do falante/escrevente, brilha, belo e útil por breves tempos – e, depois, transforma-se num estorvo. O lugar-comum nasce condenado ao efêmero, porém almas mais ingênuas do que bondosas parecem querer eternizá-lo. As rosas também carecem de perenidade: hoje são encantadoras, frescas, sedosas, brilhantes; amanhã, murchas, secas, desbotadas, tristes. E se não digo que as pessoas possuem iguais características…
NA TV, ARRANCA-TOCOS E PERNAS-DE-PAU
… é porque não pretendo aspergir melancolia sobre as gentis leitoras. Não digo, mas penso que talvez não passemos todos, ao fim de tudo, de meros e enfatuados lugares-comuns. Numa tarde de sol e bola, já perdida nos escaninhos da memória, um cronista inventivo disse que aquela intrincada partida de futebol se assemelhava a um jogo de xadrez. Bela imagem para um dérbi lhe pareceu a criação, e assim seria se permanecesse naquela época e por lá fosse sepultada. O mal é que locutores mal informados misturam futebol com xadrez a todo tempo, tendo como pano de fundo alguns encontros de arranca-tocos e pernas-de-pau com que a tevê aberta nos brinda duas vezes por semana.
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Mequinho (quase) escalado no Flamengo
Creio ter sido em 1974, num dérbi Vasco e Flamengo, que um repórter de rádio patrocinou este episódio: “É um jogo de xadrez!”, chutou o amante dos lugares-comuns. “Neste caso, Mequinho deveria ser escalado no Flamengo!”– rebateu de primeira o narrador Jorge Cury, em dia de bom humor (Henrique da Costa Mecking, o Mequinho, flamengo, era o terceiro melhor enxadrista do mundo, na época). E foi mesmo um jogo difícil: terminou 0 x 0 – o que deu o título de campeão carioca ao time rubro-negro. Restou dizer que dérbi (derby) é coisa tão arcaica quanto “esporte bretão” (dérbi se ouve ainda no Recife, enquanto “esporte bretão” é usado apenas como gracejo).
PAULINHO DA VIOLA DUAS VEZES EM PAUTA
Por e-mail, me chegam duas sugestões: uma leitora pede a história que contei em outro lugar e tempo, envolvendo Paulinho da Viola; um leitor quer saber mais sobre Ousarme Citoaian, origem, significado, se é pseudônimo ou heterônimo, essa brincadeira que eu imaginava esclarecida. Penso que o pedido vale uma entrevista-montagem ou exercício semelhante. Aos que desconhecem esse recurso jornalístico: é quando o repórter formula as perguntas e dá as respostas, baseado no conhecimento que tem do entrevistado. Paulinho da Viola, que já estava em pauta – entrará outra vez, mais tarde.
OS GENIAIS BRANQUELOS DE DAVE BRUBECK

(O.C.)



















