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Suas propagandas faziam parte das conversas e seus bordões faziam parte do nosso dia a dia. E era mais que um publicitário, era um popstar. No modo de se vestir, no modo de falar e até no modo de viver.

 

 

Afonso Dantas

Para nós, era uma espécie de guru, praticamente um mago, ou uma espécie de deus. Um deus da criatividade. Um deus da propaganda. Assim era Washington Olivetto para quem é de publicidade, a profissão que eu abracei, e que já foi a mais glamourizada das profissões pelos jovens, inclusive com sua concorrência no vestibular, sendo mais requisitada que a da tradicional medicina.

Eu tive o prazer de encontrá-lo e conversar com ele, em um festival de publicidade no Rio de Janeiro, o Wave Festival, no ano de 2008, em um dos locais mais icônicos do Rio, o Copacabana Palace.

Chegamos para o inesquecível café da manhã na charmosa varanda do Copa, com vista para a praia e para a bela paisagem do Rio, antes do evento, e fui fazer meu prato, maravilhado com as delícias que o buffet exibia, quando minha esposa, Tiana, sentou-se a uma grande mesa e alguns minutos depois, um senhor elegante, sentou-se, perguntando se tinha alguém ali. Ela disse que ele poderia sentar e ela o reconheceu, mas conversou amigavelmente, sem tietagem. Eu cheguei alguns minutos depois e, com uma mistura de surpresa e admiração pela presença do ídolo da propaganda, fui cumprimentá-lo, sentei à mesa e começamos a conversar sobre um assunto que não poderia ser outro em um festival de propaganda: Futebol.

Pois é. Não sei se por que, mas ao invés de perguntar alguma coisa sobre propaganda ao mestre, perguntei: – E aí, e esse seu Corinthians, hem? E ele desandou a falar do seu Timão e eu também a falar do meu, o Bahia (BBMP!), onde ele me passou várias ideias, do potencial que o Bahia teria se fizesse algumas coisas que valorizassem sua origem e sobretudo sua torcida. E papo vai, papo vem, acabei nem pedindo foto ou coisa parecida para não o incomodar. Terminado o café, fomos todos para a palestra de nada mais, nada menos do que do próprio. Uma palestra, para variar, muito bacana e inspiradora.

Olivetto era genial. Descrever sua obra era descrever a história contemporânea do Brasil, nas décadas de 70, 80, 90 e começo dos anos 2000. Suas propagandas faziam parte das conversas e seus bordões faziam parte do nosso dia a dia. E era mais que um publicitário, era um popstar. No modo de se vestir, no modo de falar e até no modo de viver. Uma vida de causar inveja e desejo de pertencer àquele mundo. E isso, em todo o mundo.

E, para mostrar seu reconhecimento mundial, os únicos dois comerciais brasileiros que foram incluídos na lista dos 100 maiores do mundo foram o Primeiro Sutiã e Hitler, todos os dois disponíveis na internet, junto com vários outros fantásticos e inesquecíveis, como os estrelados pelo talentoso Carlos Moreno, o “Garoto Bombril”. Além disso, Olivetto entrou para o Hall da Fama da publicidade mundial, único brasileiro a conseguir essa façanha, sem contar com a conquista de mais de 50 leões em Cannes, o maior prêmio de propaganda do mundo, dentre tantas outras conquistas..

Agora, com a sua perda, parece até que perdemos um parente, como também senti na perda do grande Duda Mendonça, pois cada trabalho em propaganda que fazia, cada movimento da W/Brasil era acompanhado com afinco, principalmente em um tempo em que a propaganda era mais recheada de ideias do que de métricas (Cadê a criatividade?).

Perdemos um gênio. Perdemos um artista, um artesão da comunicação, que com seu talento moldou a propaganda e também alguns costumes do brasileiro. Quase que enveredou para a indústria musical, mas mesmo assim acabou influenciando muito a cena musical brasileira. (- Alô, alô, W/Brasil!). Foi- se o gênio, mas fica o legado e o exemplo a ser seguido. E nossa gratidão por compartilhar conosco sua criatividade. Que surjam outros Olivettos para revolucionar o mundo com suas ideias. Viva a criatividade! Viva Washington Olivetto!

Afonso Dantas é publicitário, sócio e diretor de criação da Camará Comunicação Total, CEO da Lá ele! Camisas e Coisas, Especialista em Gestão Cultural, torcedor do Bahia e pai de Maria.

A camisa criada por Afonso Dantas desperta o sentimento de pertencimento do itabunense
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Nada mais brega do que a velha rivalidade entre papa-jacas e papa-caranguejos.

 

Walmir Rosário

Guardo muitas recordações dos tempos de menino, entre elas as boas brigas por apelidos, gentílicos, etnônimos, topônimos, principalmente os vistos como depreciativos. E não era pra menos, imagine um itabunense ser chamado taboquense, por ser Tabocas o nome do distrito que deu origem a Itabuna. Pior, ainda, e totalmente sem cabimento, o nascido em Itabuna ser chamado de papa-jaca pelos ilheenses. Por pouco não é declarada uma guerra, finalmente, pacificada agora por Afonso Dantas.

Eu mesmo já sofri muito com os preconceituosos gentílicos por ter nascido em Ibirataia (BA), nomeada de Tesouras quando ainda distrito de Ipiaú (também papa-jaca). Em 1960, finalmente, Ibirataia ganha sua “carta de alforria” e passa a ser cidade, município. Para fazer a população e os “de fora” se acostumarem com o novo nome, o prefeito teria tido uma conversa de pé de ouvido com o delegado, que proibiu Ibirataia ser chamada de Tesouras. E as ameaças não eram poucas, inclusive com a permanência de uns dias de xilindró.

Mas em Itabuna era inaceitável ser chamado de papa-jaca, notadamente pelos ilheenses, que não se conformavam em ter perdido o domínio sobre a nova Itabuna, mormente pelos contos de réis que embolsavam nos tempos de Tabocas. Pois bem, a rivalidade era acirrada, pois Itabuna se agigantava e exibia uma Associação Comercial (em Ilhéus ainda não existia), ganhava no futebol, no comércio, enfim, ameaçava – de verdade – a hegemonia de Ilhéus.

Como não sou historiador, não fui nem irei à cata de documentos para fazer as devidas comprovações do que digo, pois sabidamente está na boca do povo. E o gentílico papa-jaca nasceu por pura inveja dos ilheenses, pelo simples fato dos itabunenses ignorarem, também, os restaurantes e pensões de Ilhéus, quando iam à praia da Avenida. Na carroceria de caminhões, os itabunenses levavam seu farnel, reforçado com feijoada, farofa de jabá e uma boa jaca, saboreada como sobremesa, para a inveja dos ilheenses.

Depois disso, pelo que soube por gente da minha inteira confiança, e fui conferir que até o conterrâneo Jorge Amado (ele itabunense de fato e eu por direito), no livro Terras do Sem-fim, renegou a origem e descreveu ser o papa-jaca gente de Itabuna, pessoas rústicas, mulheres de comportamento duvidoso e homens violento, às vezes cornos. Fiquei puto da vida, mas não vou brigar com um conterrâneo, e que já se foi deste mundo.

Inconformados com a independência e altivez do itabunense, os ilheenses partiram para a galhofa, retrucada em seguida com o gentílico papa-caranguejo, por motivos óbvios. Aí é que rivalidade aumentou, chegando às raias do quebra-pau. Lembro-me que à época o sentimento de pertencimento com a cultura popular não era aceito e os gentílicos e etnônimos malvistos e resolvidos na porrada.

Mesmo em tempos recentes, um desprestigiado e despudorado juiz de direito (hoje ex) chegou a tentar denegrir o presidente da OAB itabunense, tendo o desplante de chamar o causídico de papa-jaca, como se ofensa fosse. Em resposta, no Forró do Advogado, em pleno Alto Beco do Fuxico, foi esculachado em uma música criada pelos advogados itabunenses, que foi hit por meses a fio, colocando o tal do então magistrado em seu devido lugar, o lixo.

Com o passar do tempo, os malvistos passaram a ser benquistos e incorporados como bens imateriais. E cito aqui um fato comprobatório: Na década de 1970, o paratiense, cujo gentílico era papa-goiaba, recusava terminantemente ser chamado de Caiçara, rebatendo o adjetivo, por considerar pejorativo e somente se aplicar aos moradores do litoral paulista, e não aos “beiradeiros fluminenses”. Hoje acredita ser um deles e aceita os dois gentílicos com todos os mimos.

Mas voltando à nossa paróquia, já aceitamos e adotamos os gentílicos e etnônimos, mesmo que os topônimos não tenham nenhuma ligação. Nada mais chique do que desfilar por aí – em Itabuna, Ilhéus, Salvador, Nova Iorque ou Paris – com uma vistosa camisa criada pelo publicitário e cronista Afonso Dantas, com a bela figura de uma jaca ricamente estampada, arrematada logo abaixo com a pomposa legenda: Papa-jaca. Tudo isso teve início quando Afonso passou a criar camisas com gírias e expressões tiradas das raízes mais profundas do vocabulário “baianês”. Lá ele! Tô fora!

É de meter inveja aos ilheenses, que ficam putos da vida, por sentir o efeito contrário da galhofa: em vez da raiva anterior, o itabunense demonstra sabedoria e pertencimento. Trocando em miúdos, fez do limão uma limonada. E o projeto de Afonso Dantas não se resume a Itabuna, pois muitas cidades da região cacaueira – a nação grapiúna – esnobam as demais, e apresentam a jaca como figura e adereço cultural maior.

A criação das camisas ganhou o mundo, como já disse, e elevou a autoestima do itabunense, papa-jaca sim senhor, e com muito orgulho. Tanto assim que perdoou o conterrâneo Jorge Amado, acreditando ter sido influenciado pelos coronéis ilheenses da época, putos da vida com o desenvolvimento de Itabuna. Hoje, papa-jacas e papa-caranguejos dividem e convivem o mesmo espaço praiano com a mais perfeita harmonia.

Daqui de Canavieiras, onde me refugiei há mais de uma dezena de anos, tomei ciência que o gentílico papa-caranguejo é palavra corrente para distingui-los. E como se não bastasse, eles ainda ressaltam que é a iguaria mais gostosa, além das mais belas pernas da Bahia. Sem qualquer descortesia, Trajano Barbosa utilizou o caule da jaqueira como mastro na festa do “Pau de Bastião” por mais de 60 anos, na famosa festa da Capelinha.

Nada mais brega do que a velha rivalidade entre papa-jacas e papa-caranguejos.

Walmir Rosário é radialista, jornalista e advogado, além de autor de livros como Os grandes craques que vi jogar: Nos estádios e campos de Itabuna e Canavieiras, disponível na Amazon.