CAYMMI E A ESCOLHA DO VERBO ACONTECER

EM CARTOLA, NINHO VAZIO, CORAÇÃO FRIO

O AMOR NOS IMPÕE URGÊNCIA E SURPRESA
Depois de Caymmi e Cartola, chega a vez de Abel Silva (com João Bosco), em Quando o amor acontece/1976: “O amor quando acontece/ a gente logo esquece/que sofreu um dia”.Vinícius disse que a mulher amada não vem; surge. Então é isso. Mesmo se estamos à espera, o ser amado acontece, emerge, sempre nos pega desprevenidos, nos impõe urgência e surpresa, taquicardia e respiração entrecortada. Os meninos Kim, César e Júlio, do ex-gospel Catedral atestam (Quando o amor acontece): “Quando o amor acontece/ é difícil dizer não”. Tudo muito longe da pobreza do acontece das colunas sociais e dos convites mal redigidos.JORGE AMADO E SUA “SINFONIA INACABADA”
Bóris, o Vermelho é talvez o livro não publicado que mais teve espaços na mídia. Jorge Amado não lhe pôs o ponto final (e determinou que seus trabalhos não concluídos jamais venham a público). Bóris, de nome russo, é um hippie de Itapuã, de cabeça oca, interessado somente em surfe e erva. O sobrenome Vermelho se impôs devido a seu cabelo sarará. É na ditadura militar e um cara chamado Bóris, o Vermelho não fica impune, segue o figurino: prisão, tortura e morte (talvez por ser “morredor”). Apesar da cobrança dos rodapés dos jornais, o livro cedeu espaço para Tocaia grande, O sumiço da santa e outras obras, permanecendo como uma espécie de sinfonia inacabada do filho de Ferradas.LIVRO QUE ESTAVA “EM TODOS OS JORNAIS”

GREEN, TRANQUILO: “LEIA MEUS LIVROS”

ANTIGA LIÇÃO QUE MUITOS NÃO APRENDERAM
Há quem ache que Greene (1904-1991), autor de clássicos lidos em todo o planeta (por exemplo, O poder e a glória, Nosso homem em Havana), foi muito duro com o repórter. Eu, não (até porque ele respondeu em tom educado). A mais primária das lições que um entrevistador aprende é que ele precisa conhecer o básico sobre o entrevistado. Repórter que pergunta a um escritor (músico, pintor, ator e outros) o que ele fez, conforme já vi em nossa mídia, revela-se, além de ignorante do assunto, despreparado profissional e grosseiro com a pessoa entrevistada. O autor de O americano tranquilo deixou uma lição que não deve ser desdenhada pelas novas gerações de comunicadores.ATRAPALHAÇÃO AO REDOR DE POLICHINELO

AFINAL, O QUE É “SEGREDO DE POLICHINELO”?

PIERRÔ CHORA PELO AMOR DE COLOMBINA
Esses elementos ítalo-franceses estão incorporados à nossa cultura, via MPB: “Pierrô, Pierrô/ teu destino, tão lindo/ é sofrer, é chorar toda a vida…” (Pierrot, Joubert de Carvalho-Paschoal Carlos Magno/1932); “Um Pierrô apaixonado/ que vivia só cantando/ por causa de uma Colombina/ acabou chorando, acabou chorando” (Noel Rosa-Heitor dos Prazeres/1936); “Colombina eu amei/ mas você não quis/ eu fui para você/ um Pierrô feliz” (Colombina, Armando Sá-Miguel Brito/1956); “Arlequim está chorando/ pelo amor de Colombina/ no meio da multidão” (Máscara negra, Zé Kéti/1967).POLICHINELO PARECE RIR DOS APAIXONADOS
Polichinelo é uma espécie de palhaço, que parece se divertir com a confusão de sentimentos que vê a seu redor: Pierrô ama Colombina (foto), que ama Arlequim, que ama todas as belas damas do salão. Na irônica canção de Noel e Heitor, o triângulo amoroso da Commedia dell´Arte aterrissa no Carnaval do Rio de Janeiro e, por extensão, na cultura brasileira. Clique e (re) veja a leitura da dupla, na voz de Betânia.


















