Tempo de leitura: 3 minutos

70 MM

duas estrelas

Leandro Afonso | www.ohomemsemnome.blogspot.com

Chico Xavier (idem – Brasil, 2010), de Daniel Filho (Se Eu Fosse Você 1 e 2, Primo Basílio), é menos um filme que um manifesto religioso institucional, é mais um ponto de partida sem desenvolvimento que um ponto de vista. É um filme que ou se sustenta no factual histórico, que faz questão de querer se auto-legitimar no fim, ou investe na defesa da fé. O porém, e aí talvez resida o maior problema dele, é que essa fé não é na ou da ficção – o que o filme é (por mais que baseado em fatos reais e com término institucional) –, mas na fé no e do personagem, com e de suas convicções.

Desde o começo, Daniel Filho demonstra o que pode ser visto como competência, mas essa competência vem muito mais da inevitável experiência adquirida após 40 anos de produção especialmente para a tv do que de um talento específico para fazer cinema. O melhor exemplo disso talvez seja a cena (entrecortada com flashbacks durante todo o filme) em que é reconstituído o programa Pinga Fogo, da TV Tupi, em famosa entrevista de Chico Xavier.

O ritmo é tão convincentemente televisivo – e consequentemente rápido – que a distração causada pelos cortes e movimentos se torna maior que a atenção dada à mensagem passada por Chico Xavier (Nelson Xavier). Se a tentativa foi dar força a Chico Xavier ou à reconfiguração histórica (até por vermos um ator reconhecido por todos, Tony Ramos), ela é falha; se foi reforçar a personalidade do ateu vilanístico da história, funcionou.

Mas, como em várias outras bioproduções com presunção essencialmente populista num tempo recente (talvez em toda a Retomada), de Pelé Eterno a Lula – O Filho do Brasil, aqui o personagem torna-se maior que o filme. Não bastasse os créditos finais acompanhados de imagens de arquivo reencenadas no filme, e o uso de toda a expressão caricatamente martirizável de Ângelo Antônio como o personagem, somos (re)lembrados da hora da morte de Chico Xavier, para chegar à conclusão de que toda a espiritualidade dele estava certa.

Não que haja problema em defender uma ideia religiosa – longe disso. O problema é que, no fim, a impressão é que esse caráter defensor da direção e do roteiro (de Marcos Bernstein, de Central do Brasil) não privilegiaram o que a ficção poderia dar de melhor, já que os principais acontecimentos da vida do personagem guiam o filme em piloto automático, sem quase nada além do óbvio. O poder de convencimento, que aqui podemos chamar até de mérito, está mais ligado à fé na doutrina do que na maneira como defende ela. O que, infelizmente, só ressalta a sensação de apatia que beira a preguiça.

Visto, em Cabine de Imprensa, no Multiplex Iguatemi – Salvador, março de 2010

Chico Xavier (idem – Brasil, 2010)

Direção: Daniel Filho

Elenco: Nelson Xavier, Ângelo Antônio, Matheus Costa, Tony Ramos, Christiane Torloni

Duração: 124 minutos

Projeção: 1.85:1

8mm

Soul Kitchen (2009), de Fatih Akin

Ainda que deixe um talvez demasiado gosto da decepção, Soul Kitchen (2009), de Fatih Akin, nos mostra uma Anna Bederke que, se tudo der errado, vai no mínimo sempre lembrar Anna Karina – musa de Godard e da Nouvelle Vague nos anos 60. E como adendo, além de a moça parecer mais alguém que não tenho certeza (acho que não é Uma Thurman), o que contribuiu para uma impressão promissora é que ela faz aqui apenas seu primeiro filme.

Filmes da semana

1. Ressaca de Amor (2008), de Nicholas Stoller (DVD) (***1/2)
2. O Filho da Noiva (2001), de Juan José Campanella (DVD) (***1/2)
3. Halloween 2 (2010), de Rob Zombie (Multiplex Iguatemi) (**1/2)
4. Chico Xavier (2010), de Daniel Filho (Multiplex Iguatemi – Cabine de Imprensa) (**)
5. Soul Kitchen (2009), de Fatih Akin (Cine Vivo) (**1/2)

6. Comédias e Provérbios: Pauline na Praia (1983), de Eric Rohmer (DVDRip) (****)
7. Noite Americana (1973), de François Truffaut (DVD) (****)

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Leandro Afonso é comunicólogo, blogueiro e diretor do documentário “Do goleiro ao ponta esquerda”.

Respostas de 8

  1. Na verade, o espiritismo não é apenas uma religião, mas uma ciência, …!!!

    Talvez se o filme abordasse as questões de forma científica a maioria do povo não iria entender e/ou não absorver a mensagem que queriam passar a respeito do Chico Xavier, …!!!

    Uma teoria muito simples, mas que é científica é a “teoria do ventilador”, onde um observador, ao olhar para uma pessoa, atrás das paletas de um ventilador desligado, não consegue enxergar quem está lá atrás, mas se o ventilador for ligado, as paletas girando em alta velocidade, proporciona ao observador enxergar quem está do outro lado, …, isso é Física, pois o aumento da frequência foi que proporcionou, possibilitou, ver o que e/u quem está do outro lado, sendo que as paletas, mesmo girando, continuam lá, na frente, …!!!

    Há muitas outras coisas, muitas outras terias, mas certamente não ficaria muito laro para a maioria das pessoas que fossem assistir ao filme, …!!!

    Espiritismo exige muito, mas muito estudo, …!!!

    Falar superficialmente disso é negar totalmente o conhecimento a respeito da doutrina, …!!!

    Por isso, discordo do nobre comentarista, nesta oportunidade, …!!!

    Mas a vida é assim mesmo, …, ninguém é universal, …!!!

  2. Concorco com o comentário acima
    Espiritismo é uma ciência que requer estudo. A abordagem do filme não poderia ser diferente. Primeiro, pois o filme em questão engloba a vida de Francisco Cândido Xavier, que além de ser um grande “nome” que representa o espiritismo no Brasil é um exemplo a ser seguido de homem de bem.
    A doutrina espírita é ampla, há detalhes a serem estudados que não podem ser tratados superficialmente. Certamente um filme com algumas horas não retrataria nem 1/3 dos ensinamentos de tal.
    Ainda não assisti o filme, mas creio que se conseguiu passar a msg que Chico tentou passar, de amor, de paz e de caridade, então já vai ter valido a pena a produção do mesmo…

  3. Sérgio,

    A crítica não é nem sobre Chico Xavier, o personagem, quanto mais sobre o espiritismo, muito mais amplo – não tenho essa pretensão. A ideia dela é falar sobre CHICO XAVIER – O FILME, pra mim um dos exemplares do nosso cinema “bonitinho mas ordinário” – com ênfase no ordinário.

    Isso porque o público médio brasileiro, o que dá renda ao cinemão da Globo Filmes, acredita mais do que lê, vai ao cinema mais pelo tema do que pelo filme. Sabedor disso desde sempre, Daniel Filho dá ao “público” (como massa amorfa) o que ele quer – um filme glorificador de uma figura já glorificada. E ele faz todo um esforço para não sair dessa linha, já que sua intenção não é se expressar de um jeito pessoal, com um ponto de vista próprio (seja estético, narrativo, filosófico, político, religioso ou o que for), mas dialogar com o maior número possível de pessoas. Nisso ele é bem sucedido, e por isso dá pra entender que ele não faça nada além do óbvio – mas não consigo dizer que me sinto atraído por esse cinema.

    De qualquer jeito, até textos minimamente pró-filme, de gente que respeito, tende a cair no lado espírita da coisa (como o de Ursula Röselle, no http://blogpolvo.blogspot.com/2010/04/chico-xavier-de-daniel-filho_03.html). O que, pra mim, só prova que o tema – e sua natureza bela – tem sobrepujado a execução. E isso não pode ser bom.

  4. É que a maioria da população apurou o gosto em filmes que mostrem o lado violento das pessoas. De tanto vibrar na frequência da negatividade, os piores vícios que escapuliram da Caixa de Pandora, acabaram se materializando, para prejuizo da imensa massa humana. Por isso, a compreensão ainda retrógrada das pessoas, não consegue perceber a mensagem de libertação implícita no filme.

    É pertinente lembrar que o Espiritismo é a Ciência da Vida, carecendo de muito estudo e disponibilidade para compreendê-lo, e não é qualquer pessoa que aprecia a Ciência. Fica fácil fazer comentários baseados em recursos aleatórios…

  5. Perdão, Juliana e Leidikeit, por meu enfoque – nessa coluna – não ser a religião.

    É geralmente bom ouvir outras opiniões sobre o filme, especialmente nesse caso, quando entreguei o texto antes da estreia nacional, com pouquíssimas opiniões publicadas.

    Infelizmente, também não garanto escrever novamente sobre o filme porque, pra ser sincero, não me vejo com a vontade para revê-lo e tentar rabiscar outra coisa.

    Ainda assim, estou aberto a falar sobre ele.

    Ps: se estiverem em Itabuna ou região, sem CHICO XAVIER, assistam a ILHA DO MEDO. Se servir de consolo, Scorsese também é religioso – católico.

  6. sem problemas…
    pelo meu entendimento, ou pelo que eu li sobre o filme, o enfoque é sobre a vida de Chico e não sobre a doutrina…
    Não vi o filme, como disse acima, mas como espírita e estudo a doutrina, é claro que li sobre a vida de Chico e acho que ele foi (e continua sendo) um espírito iluminadíssimo por suas obras de caridade.
    O filme deve ter focado mais isso ao invés de envidenciar a doutrina, e está certo, pois na condição evolutiva do ser humano, hoje, há pessoas que simplesmente não iriam ao cinema ver um filme que fala sobre a doutrina, que é uma ciência com base também na moral cristã!
    Li um certo comentário no próprio blog que chico tinha pacto com “o demo”.
    não quero abrir aqui um debate religioso, já que estamos falando unicamente do filme… mas realmente, um homem de bem como ele foi, que vivia a vida da maneira mais simples possivel e todo o dinheiro que ganhou com suas obras mediúnicas foram revestidos para obras de caridade eu me pergunto: como uma pessoa dessas tinha pacto com o demo? quando na verdade, as coisas ruins residem no coração de quem se permite… Fica a dica ;D

  7. Então…
    É hábito das pessoas fazerem comentários pejorativos sobre o que não conhecem. O Leandro Guimarães tem nossa desculpa, até porque o próprio Chico Xavier, se lesse esta matéria ficaria nada preocupado com opiniões quaisquer, tampouco os adeptos desta doutrina que não veio para exigir adesão, mas para divulgar o verdadeiro Evangelho de Jesus Cristo. Quer queiramos quer não, todos somos o fato verdadeiro da universalidade, ou seja, espíritos que sobrevivemos ao momento da matéria densa. “Quem tiver olhos de ver, que veja”, pois isso também é para poucos!

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