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ricardo artigosRicardo Ribeiro | ricardo.ribeiro10@gmail.com

 

Ao tentar enfeitar a casa para o grandioso evento, o Brasil tenta mostrar um país de ficção, mas a verdade, essa danada, teima em aparecer.

 

Raulzito não dava bola pra visita estranha na sala e, fingindo ignorá-la, passava a vista no jornal, onde lia notícias com as quais não se importava. Indignado, reclamava, bem ao seu estilo: “mas, no entanto, não há galinha em meu quintal”. Quando falta o básico, é difícil transcender…

O galinheiro do Brasil está à míngua, mas não faltam raposas. Às vésperas de um megaevento internacional, o país fica como o anfitrião que buscou arrumar a casa para receber visitas. Mandou pintar o imóvel, comprar novo aparelho de jantar, forrar o velho sofá da sala e consertar o assento do vaso sanitário, que estava solto.

À chegada das visitas, muita ansiedade, a preocupação de receber bem e não passar vergonha. Mas é nesse momento que a dura realidade aparece: a parede tem infiltrações, os recursos para o novo aparelho de jantar foram usados na compra de canecas em uma loja de 1,99, o sofá foi forrado com pano de chita sobre as molas aparentes e o vaso sanitário está entupido… É problema até a tampa!

O Brasil é um país cordial e hospitaleiro, não é do tipo que ignora a visita estranha na sala e passa a vista no jornal. A tristeza do país é ignorar suas próprias mazelas, que passam despercebidas aos residentes, mas saltam aos olhos de quem chega de fora. Até mesmo de quem é quase de fora.

Integrantes da Força Nacional, procedentes de diversos Estados, foram alojados em frente a uma favela dominada pela milícia. Tentaram contratar um serviço de conexão à internet, mas nenhuma empresa aceita concorrer com a promissora “GatoNet” dos milicianos que dominam o morro vizinho. Os homens da FN, que estão no Rio de Janeiro para proteger os outros, foram deixados em situação vulnerável e têm que se preocupar, sobretudo, com a própria segurança.

Quanto aos de fora, nem se fale! Um lutador de jiu-jitsu da Nova Zelândia, que não veio para as Olimpíadas, mas para disputar uma competição no interior do Rio, foi sequestrado por homens de farda que o obrigaram a sacar dinheiro em um caixa eletrônico. Na Vila Olímpica, delegações de vários países, como Suécia e Austrália, recusam-se a utilizar os apartamentos que lhe foram reservados, dada a sua condição deplorável.

Ao tentar enfeitar a casa para o grandioso evento, o Brasil procura mostrar um país de ficção, mas a verdade, essa danada, teima em aparecer. Em vez de encará-la, um dos principais anfitriões faz piada e diz que, para agradar os australianos, está disposto até a colocar um canguru pulando na Vila Olímpica. Esquece a regra de que quem convida tem que dar banquete, mas é uma pena que não haja galinha no quintal.

Ricardo Ribeiro é advogado.

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