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Com participação de pesquisador do sul da Bahia, um estudo publicado na revista científica Science Advances mostra que as florestas em processo de regeneração em áreas agrícolas abandonadas não são todas iguais e podem ajudar a restaurar e conservar as distintas regiões ecológicas (biomas) nas Américas.

O artigo Strong floristic distinctiveness across Neotropical successional forests é assinado por uma equipe de cientistas ligados à rede internacional de pesquisa 2ndFOR, dentre eles o professor Daniel Piotto, que leciona e pesquisa no Centro de Formação em Ciências Agroflorestais (CFCAF) da Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB).

A equipe de ecólogos estabeleceu 1.215 parcelas em florestas em processo de regeneração, também chamadas de florestas secundárias, do Oeste do México ao Sul do Brasil. Eles encontraram uma grande variação nas espécies de árvores entre regiões, resultado combinado da história evolutiva do continente e de condições ambientais atuais.

Com o estudo, os pesquisadores constataram que fatores como a história biogeográfica e a filtragem ecológica tiveram efeito mais intenso que a ação antropogênica na composição de espécies das florestas secundárias. O termo “florestas secundárias” designa florestas que crescem naturalmente após a remoção quase completa da cobertura florestal para uso humano, seja para agricultura itinerante, cultivo convencional ou pecuária.

De acordo com os pesquisadores, atualmente, mais da metade das florestas tropicais do mundo não são florestas antigas, mas florestas em regeneração natural, das quais grande parte é floresta secundária. Na América Latina tropical, as florestas secundárias cobrem até 28% da área terrestre.

MAIS DESCOBERTAS

O estudo descobriu que a composição de espécies de florestas jovens em regeneração é muito variável em todo o continente, formando 14 regiões florísticas distintas. Os estudiosos usaram a maior base de dados do mundo sobre florestas tropicais secundárias, da própria rede 2ndFOR, com 1.215 lotes de amostragem e 102.834 árvores, para caracterizar a composição de espécies arbóreas em 75 paisagens modificadas pelo ser humano, em matas tropicais com diferentes graus de umidade. A descoberta é surpreendente porque a hipótese inicial era de que essas florestas jovens seriam dominadas pelo mesmo pequeno conjunto de espécies pioneiras generalistas.

A autora principal do estudo no Brasil, Catarina Jakovac, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), explica que “espécies pioneiras típicas de florestas jovens são geralmente abundantes e dispersas por animais generalistas, então pensamos que a maioria delas estaria presente em várias regiões, como as espécies Trema micrantha e Guazuma ulmifolia.”

No entanto, o estudo mostrou que a ampla distribuição não é a regra nessas florestas em regeneração, e que 80% das 2.164 espécies analisadas estavam presentes em apenas uma região florística. Isso significa que diferentes grupos de espécies prosperam em cada região e, portanto, a regeneração de florestas pode ajudar a conservar a diversidade de biomas nas Américas.

As variações nas condições ambientais e aspectos relacionados a biogeografia também foram determinantes na separação das regiões florísticas, uma vez que elas estão associadas ao pH do solo, sazonalidade da temperatura e disponibilidade hídrica. O professor Daniel Piotto da UFSB, co-autor do estudo, indica que o estudo mostrou que algumas espécies de estágios iniciais de sucessão só prosperam sob condições ambientais específicas, apesar de sua capacidade de dispersão por longas distâncias.

Ele conclui que, para garantir a diversidade florística nas florestas neotropicais, as iniciativas de restauração florestal devem prestar muita atenção à seleção de espécies e devem priorizar as espécies locais em seus esforços de restauração.

PARTICIPAÇÃO DA UFSB

O professor Piotto também avalia como essa recomendação influencia nos projetos para recuperação na Mata Atlântica na Bahia. “Os resultados indicam que idealmente as mudas de árvores nativas utilizadas em projetos de restauração florestal devem ser produzidos com sementes de espécies nativas da própria região. Na Mata Atlântica temos três regiões florísticas distintas e no caso da Bahia não é recomendada a utilização de mudas de espécies da Mata Atlântica provenientes da região sudeste (com exceção do Espírito Santo) e sul do Brasil”.

A rede internacional 2ndFOR é uma rede de pesquisa colaborativa sobre florestas secundárias que envolve mais de 100 pesquisadores de 18 países diferentes. A rede se concentra na ecologia, dinâmica e biodiversidade das florestas secundárias e nos serviços ecossistêmicos que elas fornecem em paisagens tropicais modificadas pelo homem.

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