A riqueza gerada pela lavoura do cacau transformou Ilhéus em símbolo de modernização no interior do Nordeste no início do século 20, afirmam os professores Marcial Cotes e Elvis Barbosa, da Universidade Estadual de Santa Cruz (Uesc). No artigo Cacau, Imprensa e Urbanização: A Inauguração do Estádio Mário Pessoa, em Ilhéus, e a Repercussão Nacional, os pesquisadores constatam que os recursos da economia cacaueira financiaram obras urbanas, escolas e equipamentos esportivos que mudaram a paisagem da cidade.
Um dos símbolos desse período, afirmam, foi a construção do Estádio Mário Pessoa, inaugurado em 1940. O equipamento chamou atenção pelo tamanho e pela estrutura para a época. De acordo com o estudo, ele chegou a ser considerado “o maior estádio municipal da região Nordeste e o segundo maior do país, superado apenas pelo Pacaembu”, em São Paulo.
O crescimento urbano ocorreu em paralelo à expansão da produção cacaueira. Dados históricos citados pelos pesquisadores indicam que Ilhéus liderava a produção regional nas primeiras décadas do século 20, com área cultivada e número de cacaueiros superiores aos de cidades vizinhas, a exemplo de Canavieiras e a recém-emancipada Itabuna. Esse cenário consolidou o município como centro econômico da região e permitiu investimentos em infraestrutura urbana.
Além do estádio, a cidade recebeu obras de pavimentação, iluminação pública e construção de escolas, incluindo o primeiro ginásio municipal do interior da Bahia, o Instituto Municipal de Ensino Eusínio Lavigne, legado da gestão do prefeito que lhe dá nome, no final da década de 1930.
Para os autores, esses investimentos buscavam projetar uma imagem de progresso e concluem:
– A riqueza gerada pela monocultura cacaueira anuiu investimentos significativos em urbanização, lazer e educação.
FUTEBOL E PROJEÇÃO

Com a inauguração do Estádio Mário Pessoa, o futebol ganhou um templo vistoso da cidade. O estudo observa que “a monumentalidade do estádio não servia apenas para a promoção do futebol”, mas também para reforçar a imagem de desenvolvimento urbano de Ilhéus.
A imprensa também ajudou a divulgar esse momento de prosperidade. Jornais da época registraram obras e inaugurações e associaram o crescimento urbano à riqueza da região cacaueira. Essa cobertura reforçou a percepção de que Ilhéus vivia período de forte desenvolvimento econômico.
A ILHÉUS DE JORGE PARA A REVISTA CARIOCA
Numa matéria especial sobre Ilhéus para a Revista Carioca, em agosto de 1939, Jorge Amado retratou uma cidade em acelerado desenvolvimento urbano, associado à riqueza do cacau.
“As edificações caras, os jardins que se sucedem, as muitas obras em início que sempre existem, mostram ao viajante que está diante de uma cidade que tem dinheiro e trabalha”, escreveu o grande mestre da literatura.
Segundo os pesquisadores, o conjunto de obras tinha um objetivo claro: projetar Ilhéus como centro urbano moderno no sul da Bahia. A cidade buscava superar a condição de periferia regional e se apresentar como referência de progresso.
Marcial Cotes e Elvis Barbosa concluem que o ciclo do cacau foi decisivo para moldar a identidade urbana do município. Leia a íntegra do estudo publicado na revista Acervo.

















