A história de Antônio Pazos Garrido e de sua família representa um capítulo significativo da imigração espanhola no sul da Bahia. Por meio do trabalho, da educação e da dedicação à vida comunitária, os Pazos Garrido contribuíram para a construção da história social, cultural e educacional de Itabuna.
Eugênio Abreu
A trajetória de Antônio Pazos Garrido confunde-se com a história de muitas famílias espanholas que atravessaram o Oceano Atlântico em busca de novas oportunidades e encontraram no sul da Bahia uma terra de acolhimento, trabalho e prosperidade.
Filho de Moisés Pazos González e de Caridad Garrido Vidal, Antônio nasceu em 30 de janeiro de 1946, na cidade de O Grove, Província de Pontevedra, na região da Galícia, Espanha.
Sua história familiar está profundamente vinculada aos movimentos migratórios do pós-guerra europeu. Seu pai, Moisés Pazos González, ex-combatente da Guerra Civil Espanhola, participou durante três anos dos conflitos que marcaram aquele período turbulento da história da Espanha.
Como tantos compatriotas, decidiu reconstruir a vida longe da Europa devastada pela guerra.
Em 1950, Moisés chegou sozinho ao Brasil, estabelecendo-se em Itabuna, cidade que vivia o esplendor econômico da lavoura cacaueira. A primeira residência da família localizou-se na Avenida Inácio Tosta Filho, nº 579.
Após firmar-se economicamente, providenciou a vinda da esposa, Caridad Garrido Vidal, e dos filhos, reunindo novamente a família em terras brasileiras.
Posteriormente, adquiriu um terreno na então Avenida dos Trovadores, nº 42 — atual Avenida Itajuípe — onde construiu o conhecido Prédio da Família Garrido, referência urbana que simbolizou a consolidação da família na sociedade itabunense.
O LEGADO DE MOISÉS E A FORMAÇÃO FAMILIAR
Homem trabalhador e respeitado, Moisés exerceu inicialmente a profissão de mecânico de fogões a querosene, atividade de grande relevância para a época.
Mais tarde, assumiu a gerência do Posto Texaco pertencente ao empresário José Oduque Teixeira, ampliando sua participação na vida econômica da cidade.
Faleceu aos 95 anos de idade, deixando um legado de dignidade, perseverança e dedicação à família. Sua esposa, Caridad Garrido Vidal, também já falecida, foi presença fundamental na formação moral e cultural dos filhos.
Ao lado dos irmãos Francisco Pazos Garrido, conhecido como Paco, e Manuel Pazos Garrido, Antônio cresceu em um ambiente familiar que preservava as tradições espanholas sem perder a integração à cultura brasileira.
Paco manteve fortes vínculos com a Espanha, onde veio a falecer.
VOCAÇÃO PARA AS LETRAS E A EDUCAÇÃO
Desde cedo, Antônio revelou especial inclinação para as letras, a linguagem e as humanidades. Ingressou na antiga Federação das Escolas Superiores de Ilhéus e Itabuna (Fespi), instituição pioneira do ensino superior regional, onde graduou-se em Letras, consolidando uma vocação que o acompanharia por toda a vida.
Professor de Língua Portuguesa, Literatura Brasileira, Língua Espanhola e Redação, dedicou mais de três décadas ao magistério.
Atuou nas redes municipal, estadual e particular de ensino, destacando-se pela sólida formação humanística, competência pedagógica e compromisso com a formação intelectual e cidadã de seus alunos.
Lecionou em importantes instituições educacionais de Itabuna, entre elas o Imeam e o Colégio Estadual de Itabuna. Nesta última instituição, exerceu, além da docência, as funções de Coordenador de Estágio Supervisionado e Vice-Diretor, contribuindo significativamente para a formação de professores e para o fortalecimento da gestão escolar.
Reconhecido pelo domínio da língua portuguesa e pelo profundo conhecimento da cultura espanhola, participou de trabalhos de revisão textual, tradução e iniciativas culturais voltadas à valorização das letras e do intercâmbio cultural entre Brasil e Espanha.
Sua atuação ajudou a preservar as raízes culturais da família e a enriquecer o ambiente intelectual da região.
ÚLTIMOS ANOS E LEGADO PESSOAL
Em 25 de maio de 2006, casou-se, na Espanha, com Romilda Sousa Gomes. A união fortaleceu seus laços com a terra natal e marcou uma nova etapa de sua vida.
Antônio Pazos Garrido faleceu em 18 de outubro de 2012, na Espanha, encerrando uma trajetória pautada pela educação, pela cultura e pelos valores familiares.
A TRAJETÓRIA DE MANUEL PAZOS GARRIDO
Seu irmão, Manuel Pazos Garrido, nascido em O Grove, em 10 de dezembro de 1949, chegou a Itabuna em 1958. Formou-se em Filosofia pela antiga Fespi, com habilitação em Psicologia, Sociologia e Ciências Físicas, Biológicas e Matemáticas.
Durante mais de três décadas destacou-se como professor de Física em tradicionais instituições de ensino da região, dentre elas Colégio Estadual de Itabuna, Imeam, Colégio Sementeira, Colégio Ação Fraternal de Itabuna, Colégio Divina Providência, em Itabuna, e Instituto Nossa Senhora da Piedade, em Ilhéus.
Em 29 de novembro de 1986, Manuel casou-se com a professora Ana Cristina Reis Carvalhais Garrido, itabunense, graduada em Administração com habilitação em Recursos Humanos pela FTC e pós-graduada em Especialização para o Ensino Superior pela Facsul.
Também dedicada à educação, Ana Cristina construiu uma respeitada trajetória profissional, contribuindo para a formação de inúmeras gerações de estudantes.
O casal tem um filho, Filipe José Carvalhais Garrido, engenheiro civil e estudante de Medicina, representante da continuidade de uma tradição familiar construída sobre os pilares do conhecimento, da educação e da busca permanente pelo aperfeiçoamento humano.
UMA FAMÍLIA QUE AJUDOU A CONSTRUIR A HISTÓRIA DE ITABUNA
A história de Antônio Pazos Garrido e de sua família representa um capítulo significativo da imigração espanhola no sul da Bahia. Por meio do trabalho, da educação e da dedicação à vida comunitária, os Pazos Garrido contribuíram para a construção da história social, cultural e educacional de Itabuna.
Seu legado permanece vivo na memória de familiares, amigos, colegas e ex-alunos, testemunhando a força transformadora do conhecimento e da educação.
Professor por vocação, humanista por essência e espanhol de raízes profundas, Antônio pertenceu à geração de educadores que compreendia o ensino como um compromisso com o futuro e a cultura como um patrimônio a ser compartilhado.
A LEMBRANÇA DE UM MESTRE DAS PALAVRAS
Para aqueles que tiveram o privilégio de conhecê-lo, permanece uma imagem inesquecível: onde estivessem os letristas, os catedráticos, os escritores e os pensadores, certamente ali estaria Antônio Garrido.
Em meio às conversas sobre literatura, gramática, filosofia e cultura, muitas vezes animadas por uma boa massa, uma pizza compartilhada e a alegria da convivência, encontrava-se o professor apaixonado pelas palavras.
Com entusiasmo e erudição, enaltecia as letras e os vocábulos, revelando que via na linguagem não apenas um instrumento de comunicação, mas uma das mais elevadas expressões da inteligência humana.
Assim permanece sua lembrança: a de um educador culto e generoso, um mestre das letras, um defensor do conhecimento e um homem que fez da educação sua missão. Enquanto houver ex-alunos que recordem seus ensinamentos, amigos que rememorem suas conversas e familiares que preservem sua história, Antônio Pazos Garrido continuará vivo, habitando para sempre o universo das palavras que tanto amou.
Eugênio Abreu é geógrafo.




















