Do PIMENTA
O crescimento do número de suicídios entre pessoas de 10 a 19 anos acompanha a popularização dos smartphones. A coincidência histórica foi apontada pelo psiquiatra e psicanalista Marcelo Veras durante a conferência “Saúde mental na era da IA: o que a psicanálise tem a dizer”, na quinta-feira (23), no Teatro Municipal de Ilhéus.
Veras chamou atenção para uma mudança no perfil das mortes por suicídio. “Nunca antes ocorreu de a faixa de 10 a 19 anos se matar tanto quanto agora”, afirmou. Em seguida, lançou a pergunta que orientou parte da palestra: “Por que os jovens de 10 a 19 anos estão se matando tanto?”
O psicanalista observou que o aumento coincide com o período em que o smartphone passou a integrar de forma permanente a vida dos adolescentes. “Coincide a escalada do suicídio de jovens de 10 a 19 anos com o quê? Com o smartphone. Com a época em que todos os jovens têm na mão quase um novo órgão de gozo”, disse.
Dados oficiais confirmam a dimensão do problema, embora não permitam atribuir as mortes a uma única causa. Segundo o Ministério da Saúde, o Brasil contabilizou 1.075 suicídios entre pessoas de 15 a 19 anos em 2021. Naquele ano, as lesões autoprovocadas foram a terceira principal causa de morte nessa faixa etária. Entre crianças e adolescentes de 5 a 14 anos, houve 224 mortes.
A relação entre redes sociais e saúde mental também é tratada com cautela pela literatura científica. Pesquisas apontam associações entre o uso problemático das plataformas e fatores como depressão, ansiedade, isolamento, perda de sono, exposição ao bullying e comportamentos suicidas. Os estudos não autorizam, no entanto, a conclusão de que o smartphone, isoladamente, provoque suicídios. O fenômeno envolve condições individuais, familiares, sociais e econômicas.
O TEMPO NECESSÁRIO PARA COMPREENDER
Marcelo Veras recorreu ao pensamento do famoso psicanalista francês Jacques Lacan para explicar como a velocidade do ambiente digital pode afetar a elaboração das experiências. Lacan divide o chamado tempo lógico em três movimentos: “instante de ver, tempo para compreender e momento de concluir”.
O instante de ver corresponde ao primeiro contato com uma situação. O momento de concluir leva o indivíduo a decidir como agir. Entre os dois está o tempo para compreender. É nesse intervalo que a pessoa reflete, confronta impressões, recupera outras informações e considera a presença e a perspectiva do outro.
“É ali que a gente pensa”, resumiu Veras. “O instante de ver você não pensa. Você vê e aí você pensa. E aí vai concluir.” Para o psicanalista, o instante de ver e o momento de concluir pertencem ao sujeito. O tempo de compreender depende da relação com o outro e da possibilidade de construir sentidos.
As redes sociais comprimem justamente esse intervalo, segundo o palestrante. O usuário vê uma imagem, reage e passa imediatamente para outra. “O que acontece quando o tempo de experiência, de dialogar e de conversar com o outro é reduzido a 20 segundos? É o outro que é esvaziado. Significa que nós vemos e concluímos muito rapidamente”, explicou.
Na interpretação apresentada por Veras, essa passagem acelerada da percepção para a conclusão ajuda a entender tanto a propagação de notícias falsas quanto determinadas respostas impulsivas ao sofrimento. O problema não estaria apenas no conteúdo exibido pelas telas, mas também no ritmo imposto ao pensamento.
O psicanalista citou o acolhimento de pessoas com pensamentos suicidas para mostrar a importância de ampliar esse intervalo. Em vez de oferecer uma ajuda vaga, aconselhou que familiares e amigos criem compromissos concretos: marcar uma ligação, combinar um novo encontro e manter contato. “O que você faz quando faz isso? Você dilata os 20 segundos. Então você tira a pessoa do instante de ver para o momento de concluir”, afirmou.
A VIDA COMO UMA PLAYLIST
Outro conceito apresentado na palestra foi o de “vida como uma playlist”. Veras usou a expressão para explicar o funcionamento dos algoritmos, que identificam preferências e passam a oferecer conteúdos semelhantes de forma contínua. “Se você gostou desta série, provavelmente vai gostar daquela. Se gostou desta música, provavelmente vai gostar daquela”, exemplificou.
Na avaliação dele, essa personalização não busca apenas facilitar a experiência do usuário. Seu objetivo central é prolongar o consumo e aumentar a dependência das plataformas. “A rede é tudo menos social, porque é feita para nos nichar, nos enquadrar naquilo que nós mesmos buscamos. É uma rede narcísica”, declarou.
O mecanismo forma bolhas com pouca disposição para o diálogo. Ao receber repetidamente aquilo que confirma seus gostos, medos ou rejeições, o usuário encontra menos espaço para a diferença. Os algoritmos também exploram conteúdos capazes de provocar indignação e horror, emoções que estimulam reações imediatas e compartilhamentos.
Veras ainda relacionou a oferta permanente de conteúdos à dificuldade de esperar. Filmes, séries, músicas, compras e respostas estão disponíveis sob demanda. “Essa geração mais nova, que tem tudo on demand, não suporta esperar, não suporta a frustração”, afirmou.
Apesar das críticas, Marcelo Veras afastou uma visão de rejeição absoluta à tecnologia. Para ele, a inteligência artificial pode contribuir com a saúde mental desde que fortaleça a escuta e os vínculos, em vez de substituir as relações humanas. “A gente pode usar a inteligência artificial para coisas maravilhosas. Mas, na saúde mental, ela tem que ser usada para nos aproximar do humano.”



















