Porque aquilo que negamos, rejeitamos ou excluímos encontra formas de retornar, pedindo uma nova oportunidade de integração.
Rava Midlej
O relacionamento de paz com a vida começa, inevitavelmente, na relação com nossos pais. Caso contrário, sentimentos e sensações limitantes continuam se repetindo: nos vínculos, na autoestima, na prosperidade e até na possibilidade de viver uma vida significativa.
Muitos passam anos tentando conquistar o seu lugar no mundo, sem perceber que não ocuparam o primeiro lugar: o de filha(o).
“Lá vem ela de novo falando sobre pai e mãe…” – talvez isso esteja passando pela sua cabeça neste momento. Estou errada?
Sim, vou falar de novo. Porque falar disso é falar da nossa capacidade de estar no mundo. É falar de estrutura, chão, base.
Quando, por algum motivo, pai ou mãe não podem ocupar o lugar deles em nosso coração, é como se não tivéssemos pernas para caminhar nem alicerce para sustentar a jornada. E, sem dar um lugar a eles dentro de nós, a própria vida parece não nos dar lugar também.
Por isso, precisamos falar sobre esse tema. Há feridas que nos acompanham desde o berço. Algumas vêm da ausência. Outras, do excesso. E quase sempre têm nome – pai e mãe.
Certa vez, uma cliente me contou sobre sua adolescência:
“Eu me escondia. Tinha vergonha de ser quem eu era. Sentia uma rejeição tão profunda que parecia não haver lugar para mim no mundo.”
Essa sensação é mais comum do que parece. Muitos de nós carregamos dores antigas que não começaram apenas na infância ou no nascimento, mas que, ao longo da vida, foram sendo potencializadas, especialmente desde o início da nossa jornada. Não por acaso, os estudos da Psicologia Pré e Perinatal têm ganhado destaque na Ciência, assim como pesquisas que integram medicina e espiritualidade.
No caso dessa cliente, durante as sessões de terapia, ela percebeu algo essencial: quanto mais alimentava o julgamento da mãe e a rejeição pelo pai, mais se sentia pequena, envergonhada e com medo de se expor. A postura que ela assumia diante dos pais era a mesma que assumia diante da vida.
“Mas por quê, Rava?”
Porque aquilo que negamos, rejeitamos ou excluímos encontra formas de retornar, pedindo uma nova oportunidade de integração.
Eu não estou dizendo que isso é fácil, nem que você deve fazer. Mas é possível experimentar esse movimento e perceber a diferença que ele provoca em sua vida. Eu sei que a maioria das pessoas teve infâncias difíceis, marcadas por ausência, rejeição, abuso e tantas outras questões. Nada disso deve ser negado ou diminuído: a dor é real e faz parte da história de quem a viveu.
Mas existe uma armadilha em viver na exigência daquilo que poderia ter sido e não foi.
Quando nos fixamos no que não recebemos, permanecemos abraçados à dor, à escassez, à morte. Enquanto rejeitamos pai e mãe como são, rejeitamos também a vida que veio através deles. Rejeitamos a nós mesmos (as).
A vida recebida pode não ser perfeita, mas é a única que temos. Quando aprendemos a aceitar tudo o que foi – e, também, o que não foi – damos um passo em direção à reconciliação com a nossa própria existência.
E é a partir desse movimento que podemos, então, reescrever uma história diferente e ocupar, de fato, o nosso lugar no mundo.
“Somente quando estamos em sintonia com o nosso destino, com os nossos pais, com a nossa origem e tomamos o nosso lugar, temos a força.” — Bert Hellinger.
A força que buscamos vem da harmonia com nossa origem e com o lugar que nos foi entregue.
Rava Midlej é comunicadora e terapeuta sistêmica.



















