Jornalista e radialista tinha 72 anos e comandou a reconstrução do Tigrão
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Morreu neste domingo (30), aos 72 anos, o jornalista, radialista e ex-presidente do Colo-Colo de Futebol e Regatas José Maria Almeida de Santana. Ele faleceu em casa, na Avenida Soares Lopes, em Ilhéus. A causa da morte e as informações sobre velório e sepultamento ainda não foram divulgadas.

Conhecido como Zé Maria do Colo-Colo, o ex-dirigente entrou para a história do futebol baiano ao comandar o Tigrão na conquista do Campeonato Baiano de 2006. O título interrompeu uma hegemonia de Bahia e Vitória que durava desde 1970 e foi o primeiro de uma equipe do sul da Bahia na Primeira Divisão estadual.

Há pouco mais de um mês, em 15 de julho, José Maria concedeu entrevista de mais de duas horas ao Pod Gusma #44, transmitido pelo Canal do Gusmão no YouTube. Na ocasião, contou que retomava suas atividades depois de 30 dias afastado por causa de duas fortes crises renais e urinárias. Disse também que voltaria ao rádio no dia seguinte. Não há confirmação de relação entre esses problemas de saúde e a morte.

Na mesma entrevista, José Maria afirmou que convivia com diabetes desde os 40 anos. Ao longo da conversa, recuperou sua trajetória na imprensa, no rádio e no Colo-Colo, além de contar detalhes pouco conhecidos sobre a reconstrução do clube e a montagem do elenco campeão de 2006.

DA COLUNA SOCIAL AO RÁDIO ESPORTIVO

No jornal impresso, José Maria adotou o pseudônimo Joseph Marie. Foi um dos colunistas sociais de destaque de Ilhéus nos anos 1970.

A circulação nos meios sociais e empresariais ajudaria anos depois na busca por apoio para o Colo-Colo. No Pod Gusma, José Maria reconheceu a importância desses contatos para a manutenção do clube. “Eu não pedia para mim; eu pedia para o Colo-Colo”, explicou.

Nos anos 1980, foi narrador esportivo da Rádio Santa Cruz AM. Cobriu jogos do Campeonato Brasileiro em estádios como Maracanã, Pacaembu e Mineirão. Também criou o Bate Bola, programa esportivo exibido das 9h às 10h, horário então incomum para esse tipo de atração.

Depois de um período afastado do rádio esportivo para trabalhar no jornal impresso e na televisão, retornou aos microfones em dezembro de 2012, na Rádio Baiana de Ilhéus. Mais tarde, comandou o Gol da Baiana e integrou a equipe da Ubatã FM 91,9 nas transmissões do Campeonato Intermunicipal.

UMA VIDA INTEIRA NO COLO-COLO

Nascido em 1º de abril de 1954, José Maria começou a frequentar o Colo-Colo aos cinco anos, em 1959. O pai foi diretor técnico do clube durante 13 anos consecutivos e levava o menino para acompanhar as atividades do Tigrão. Zé Maria guardava lembranças do tetracampeonato ilheense conquistado entre 1959 e 1962.

A paixão ganhou força em 1967, quando, aos 13 anos, acompanhou a estreia do Colo-Colo no futebol profissional. No dia 1º de junho daquele ano, no Estádio Mário Pessoa, o Tigrão goleou o Ypiranga por 5 a 0. Miltinho Simões marcou os cinco gols da partida. Dez dias depois, José Maria também estava no estádio no empate em 2 a 2 com o Leônico, com mais dois gols de Miltinho.

Antes de assumir o Tigrão, José Maria presidiu o Clube Social de Ilhéus por um mandato. Contou no Pod Gusma que avisou à diretoria que não tentaria permanecer no cargo porque tinha outra prioridade: devolver o Colo-Colo ao futebol profissional.

Assumiu o clube em 1992. Segundo relatou, encontrou uma instituição desorganizada, sem sede e afastada havia anos até das competições amadoras. A nova direção reformulou o estatuto, reorganizou o Conselho Deliberativo e iniciou trabalho gradual de recuperação.

O Colo-Colo voltou à Liga Ilheense, conquistou o campeonato municipal de 1997 e disputou a Copa da Bahia em 1998. No ano seguinte, com um elenco formado principalmente por jogadores de Ilhéus e da região, venceu a Segunda Divisão do Campeonato Baiano diante do favorito Fluminense de Feira e garantiu o acesso à elite.

A partir de 2000, o Tigrão permaneceu 12 temporadas consecutivas na Primeira Divisão. José Maria considerava essa permanência um dos principais legados de sua gestão, especialmente porque o clube não tinha patrimônio nem uma estrutura financeira permanente e dependia do trabalho de dirigentes, conselheiros, comerciantes e torcedores.

A CADERNETA DO TIME CAMPEÃO

José Maria mantinha caderneta na qual anotava os jogadores que se destacavam nas equipes adversárias. O dirigente observava partidas e registrava os nomes que poderiam servir ao Colo-Colo.

A montagem do elenco de 2006 começou ainda no feriado de Finados de 2005, quando viajou para Catu e estabeleceu na cidade uma base para negociar contratações. O atacante Ednei foi o jogador que exigiu a conversa mais demorada.

O goleador terminou o Campeonato Baiano como artilheiro do Colo-Colo, com 23 gols. Gil marcou 11 e foi apontado por José Maria como a principal liderança do grupo. O capitão havia chegado ao clube ainda no futebol amador, em 1997, participou do acesso de 1999 e permaneceu até a conquista estadual.

O TÍTULO DE 2006

O Colo-Colo disputou 34 partidas no Campeonato Baiano de 2006. Foram 18 vitórias, dez empates e seis derrotas, com 67 gols marcados e 46 sofridos. “O Colo-Colo não foi campeão por acaso”, ressaltou José Maria no Pod Gusma, ressaltando o antigo formato da competição.

O Tigrão venceu o primeiro turno diante do Vitória, após empate por 1 a 1 no Estádio Mário Pessoa e vitória por 1 a 0 no Barradão. No segundo turno, voltou a superar o clube da capital. Ganhou por 4 a 3 em Ilhéus e chegou à partida de volta, no dia 28 de maio, com a possibilidade de conquistar o título de maneira antecipada.

No Barradão, o Vitória abriu 2 a 0 no início da partida. O Colo-Colo reagiu, empatou ainda no primeiro tempo e venceu por 4 a 2, com dois gols de Gil e dois de Ednei. Como havia conquistado os dois turnos, o clube ilheense tornou desnecessária uma final geral do campeonato.

Antes da partida, os jogadores pediram uma gratificação de R$ 60 mil. José Maria decidiu elevar o prêmio para R$ 100 mil como forma de motivar o grupo. O clube parcelou a diferença de R$ 40 mil, mas quitou todos os compromissos com o elenco. Segundo o ex-presidente, o título não deixou dinheiro em caixa, mas também não deixou dívidas com o time campeão.

SAÍDA E LEGADO

José Maria deixou a presidência em dezembro de 2011, depois do rebaixamento do Colo-Colo. Disse no Pod Gusma que percebeu o fechamento das portas e entendeu que não havia mais ambiente para sua permanência. Organizou a eleição seguinte e entregou os livros e documentos da instituição ao sucessor, Walter Teles.

Em 2018, a Federação Bahiana de Futebol deu o nome de José Maria Almeida de Santana ao troféu do Campeonato Baiano. Em abril de 2024, a Câmara de Ilhéus aprovou uma moção de aplausos em reconhecimento à sua contribuição ao esporte.

Na última entrevista, José Maria demonstrou preocupação com a inatividade do Colo-Colo, a situação do Estádio Mário Pessoa e a preservação da memória do clube.

Ao final do Pod Gusma, depois de receber homenagens dos apresentadores e do público, José Maria resumiu a relação construída desde a infância. “Eu cresci no clube”. Abaixo, assista à entrevista completa.

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