KL Jay cumprimenta fã antes de show em Ilhéus || Foto PIMENTA
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Thiago Dias

Parte da zona norte de Ilhéus estava sem luz quando KL Jay chegou ao Almáfrica, onde se apresentou na última sexta-feira (9). Apesar do breu, fãs o reconheceram e logo formaram fila para registrar em foto o encontro com o gênio dos toca-discos. Um homem negro, alto, de camisa branca, aproximou-se, deu um abraço apertado no artista e caiu no choro.

Aquela emoção não é rara. Costuma se manifestar sempre que um dos membros dos Racionais MCs – ou o quarteto – é visto pelos admiradores Brasil afora. Um abraço que diz muito do que o grupo criado em São Paulo, no final dos anos 1980, representa para o País, com uma obra que deu dimensão nacional às agruras e à beleza de gerações inteiras.

Faltava eletricidade, mas Kleber Geraldo Lélis Simões, 57, percebe outro tipo de energia nas frequentes visitas à terra de Jorge Amado e Dorival Caymmi.

– Aqui é a terra dos pretos. Eu me sinto num pedaço da África aqui. Eu sempre falo para os meus filhos e amigos: Bahia é a terra dos pretos. Aqui não tem só as praias e o calor. Tem uma energia no ar, tem uma espiritualidade no ar que você sente. É quase palpável. E eu me identifico muito com isso. Eu amo os pretos – afirmou o DJ ao PIMENTA.

Questionado a respeito do momento político do país, KL Jay ponderou sobre a divisão socioeconômica que, segundo ele, ainda reproduz as estruturas herdadas do regime de escravidão:

– É um país construído à base da escravidão. Os europeus vieram aqui, pegaram tudo pronto. Tinham terras para eles. É só puxar a história. Isso causou uma divisão, e essa mentalidade escravocrata está aí até hoje.

Para o músico, houve avanço com a ascensão social de pequena parte da população negra, mas nada que tenha abalado a cisão econômica e racial do Brasil. “É só você viajar o País que você vê. Então, é uma luta constante”, emendou.

E parte fundamental dessa luta, segundo KL Jay, consiste em democratizar poder econômico e institucional. “O lance é ser dono, ter terra, ter dinheiro, ter instituição. Não é ter carro, por mais que a gente goste. Eu gosto muito de carro, mas o lance é ter autonomia financeira mesmo e política. É isso que é dar poder ao povo, e a gente precisa disso, de autonomia política e financeira”.

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