Jorge Amado, Zélia Gattai, Simone Beauvoir, Jean Paul Sartre e convidados na Fazenda Progresso || Foto Diário de Itabuna
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Como não poderia deixar de ser, no sábado, Jorge e Zélia Amado, Otoni Silva e Moisés Alves da Silva ciceronearam os filósofos Jean Paul Sartre e Simone de Beauvoir ao distrito de Ferradas.

 

Walmir Rosário

 

 

 

 

Era uma sexta-feira daquelas qualquer, que não prometia nada de especial ao Itabunense. Entretanto, o dia 19 de agosto de 1959 entrou na história do povo grapiúna. Logo pela manhã chega o voo de Salvador e descem quatro personagens internacionais. Naquele dia, nada de recepções, banda de música, charanga ou uma bela comissão de boas-vindas. Tudo normal, ou quase isso.

Assim que o avião estaciona no aeroporto Tertuliano Guedes de Pinho, apenas uma pessoa demonstrava nervosismo ao vislumbrar quatro passageiros assomarem a porta do aparelho e descerem a escada. Era Moisés Alves da Silva, um generoso mecenas, tido como grande amante das artes, incluída aí a literatura e a filosofia.

Assim que os dois ilustres casais pisam em solo grapiúna, trocam longos e afetuosos cumprimentos e efusivos abraços com Moisés. Pelo que se sabe, ele, Moisés, era o segundo itabunense a ter contato com o casal de filósofos franceses representantes do existencialismo, Jean Paul Sartre e Simone de Beauvoir. Eles mesmos, em carne e osso em solo grapiúna. Um sonho realizado.

Jean Paul Sartre e Jorge Amado na Fazenda Progresso || Foto Diário de Itabuna

O outro casal era bastante conhecido, sendo ele um itabunense da gema, nascido em Ferradas e considerado o mais lido romancista do mundo, portanto um conterrâneo de renome internacional. Ao seu lado, como esperado, sua esposa, Zélia Gattai, chamada pelos jornalistas do Diário de Itabuna de Zélia Amado, em respeito ao nome de família do esposo, nosso ídolo das letras.

Pelo que se comentou, a visita teria sido programada pelo deputado federal e líder do governo federal na Câmara, Aziz Maron. O silêncio em relação às visitas seria apenas uma estratégia para não transtornar a permanência dos visitantes com centenas ou milhares de pessoas de toda a região, tornando improdutiva a pesquisa que pretendiam fazer sobre a vida do homem do campo, mais exatamente na cacauicultura.

O casal Simone de Beauvoir e Sartre na Fazenda Progresso || Foto Diário de Itabuna

Do aeroporto direto para o Lord Hotel, onde foram acomodados por Nelson Muniz Barreto. Após uma rápida toilette e um lanche, partiram para a Fazenda Progresso, do Coronel Nicodemos Barreto, parte do grupo de fazendas que iria até Buerarema. Apesar de não contar com a presença do coronel e dos filhos, foram recebidos nababescamente na propriedade.

De início, beberam mel de cacau, chuparam a polpa das amêndoas, doces e ácidas, subiram nas barcaças onde secavam as amêndoas, não se amedrontaram e entraram nas plantações, apesar de serem alertados sobre os riscos de animais peçonhentos, cobras, inclusive. Conversaram com os trabalhadores rurais para conhecer de perto o “operário agrícola”, sua vida, família, moradia e salário.

Após agradecer a gentil e tradicional hospitalidade da família Barreto, almoçaram no Lord Hotel e rumaram para Ilhéus. Desta vez, a curiosidade de Sartre era conhecer a vida e o trabalho numa pequena fazenda de cacau, uma burara, como explicou Jorge Amado. Em Ilhéus visitaram amigos de Jorge, o porto e locais turísticos da cidade.

À noite novos compromissos, e já reservada para os visitantes receberem os intelectuais itabunenses e da região, uma considerável legião de admiradores, que colheram autógrafos dos filósofos franceses e do escritor conterrâneo em seus livros. De acordo com os jornalistas do Diário de Itabuna e da Rádio Clube de Itabuna, foi uma festa da inteligência, da elegância e do culto à ilustração.

Na manhã seguinte, um sábado, 20 de agosto, Jorge Amado, Sartre e Simone concederam a prometida entrevista à Rádio Clube de Itabuna, capitaneado pelo diretor Otoni Silva, coadjuvado pelo advogado Wilde Oliveira Lima e o jornalista Cristóvão Colombo Crispim de Carvalho. A esperada entrevista foi anunciada para ir ao ar nos próximos dias, em data e horário exaustivamente anunciados.

Como não poderia deixar de ser, no sábado, Jorge e Zélia Amado, Otoni Silva e Moisés Alves da Silva ciceronearam os filósofos Jean Paul Sartre e Simone de Beauvoir ao distrito de Ferradas, berço de Jorge Amado. Posaram para fotos em frente à casa do escritor, num preito de gratidão e reconhecimento à terra natal de Jorge Amado.

Em seguida, seguiram para o aeroporto Tertuliano Guedes de Pinho, em Itabuna, e tomaram o primeiro voo com destino a Salvador, onde os aguardavam vários círculos da mais fina intelectualidade baiana. E assim Itabuna viveu dois dias como sendo a capital do existencialismo da liberdade individual, embora eu não conheci o prometido estudo do trabalhador do cacau.

Walmir Rosário é radialista, jornalista e advogado e autor de livros como O Berimbau – Valhacouto de boêmios, disponível na Amazon.

Maestro Arnaldo Dias atua na formação de novos músicos || Foto Walmir Rosário
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Outro desafio lançado pelo presidente José Vanderley ao maestro Arnaldo Dias foi reorganizar a Filarmônica Euterpe Itabunense, trabalho que vem sendo feito com treinamento dos músicos.

 

 

 

Walmir Rosário

Atualmente pouquíssimas instituições beneficentes conseguem sobreviver prestando serviços aos seus associados e à comunidade em geral. Em Itabuna, uma delas, a Sociedade Montepio dos Artistas de Itabuna, caminha em sentido contrário e pretende comemorar seus 107 anos de fundação em 1º de novembro de 2026 em perfeita sintonia com as propostas do seu Estatuto.

As dificuldades são enormes, ressalta o presidente da Assembleia Geral da Entidade, José Vanderley Borges de Sousa (Vando), mas, apesar dos percalços, estamos conseguindo promover uma reestruturação. Para o presidente, com as mudanças nas áreas da assistência e da previdência, muitas das atribuições beneficentes do Montepio perderam espaço, e com isso recursos para atuação.

Como uma das atribuições do Montepio é manter a Filarmônica Euterpe Itabunense, a direção da Sociedade envida esforços para formar novos músicos entre os jovens e mantê-la viva e atuante. Criada em 1925, fez sua primeira tocata por ocasião da comemoração da Independência do Brasil, no dia 7 de Setembro daquele ano, tendo como maestro o professor Rosemiro Pereira.

O presidente da Montepio, José Vanderley || Foto Walmir Rosário

O ensino da música aos artistas e operários se tornou uma tradição do Montepio, por meio da Filarmônica Euterpe Itabunense, que se rivalizava com outras coirmãs pela distinção dos fardamentos e qualidade dos músicos e repertório. No calendário das apresentações, o dia 19 de março (Padroeiro de Itabuna, São José), 1º de Maio (Dia do Trabalhador), 28 de Julho (Dia da Cidade), 7 de Setembro, dentre outras ocasiões festivas.

Pela Filarmônica Euterpe Itabunense passaram regentes e músicos conceituados. Dentre os mais recentes, o maestro Zózimo, o sargento PM e maestro Carlos, o maestro Heleno e Wellington Quintas, este falecido recentemente. Outro destaque é o professor Adilson Alves dos Santos (Dilsinho), representante da Ordem dos Músicos do Brasil em Itabuna e região.

E a formação dos novos músicos continua sendo das atividades prioritárias da diretoria do Montepio. Atualmente quem comanda a educação musical dos futuros músicos é o maestro Arnaldo Dias, profissional com mais de 52 anos de experiência profissional em instrumentos e arranjos musicais de filarmônicas, bandas e orquestras.

O maestro Arnaldo Dias, com passagem na extinta Filarmônica Carlos Gomes (Itabuna), na Banda Los Tropicanos; na Banda Solo, na Banda Lordão por 30 anos, nesta responsável por tocar instrumentos de sopro e escrever os arranjos. Longe de pensar em aposentadoria, aceitou o convite do presidente José Vanderley para dinamizar a Filarmônica Euterpe Itabunense.

Filarmônica Euterpe Itabunense em 1936 || Foto Walmir Rosário

Atualmente o professor Arnaldo Dias é responsável pela capacitação da turma de jovens, aos sábados, que não se limitar a formar profissionais da música, mas cidadãos bem postos na sociedade, como faz questão de completar. “Eles chegam aqui com muita vontade de aprender, muitos deles com o sonho de tocar determinados instrumentos, o que mostra que são vocacionados”, conta o maestro Arnaldo.

Dentre os instrumentos preferidos entre os jovens estão o saxofone, trompete, flauta e clarinete. Assim que chegam, verificamos a intimidade com o instrumento e oferecemos algumas opções, a depender do que cada um pretende seguir no futuro. Como exemplo, o clarinete e o bombardino são dispositivos que requerem leitura mais apurada, notadamente nas filarmônicas.

Outro desafio lançado pelo presidente José Vanderley ao maestro Arnaldo Dias foi reorganizar a Filarmônica Euterpe Itabunense, trabalho que vem sendo feito com treinamento dos músicos. Na opinião do maestro, os músicos disponíveis na instituição são excelentes para uma orquestra de câmara, mas ainda não possuem treinamento em filarmônica.

A grande diferença é que na orquestra de câmara os músicos tocam seus instrumentos sentados ou em pé, mas parados, enquanto na filarmônica eles precisam se movimentar, tocar andando. Outras diferenças são a quantidade de músicos, menores na orquestra de câmara e maiores na filarmônica; bem como o repertório, peças para grupos menores na câmara, enquanto grandes sinfonias na filarmônica.

E o maestro Arnaldo Dias fala com entusiasmo do trabalho de reestruturação que vem sendo realizado na Filarmônica Euterpe Itabunense, cujo público se encanta durante as apresentações, desde as crianças até os mais idosos. Mais importante, ainda, segundo ele, será a transformação dos jovens em músicos com capacidade em tocar não apenas de ouvido, como se diz, mas de ler e interpretar partituras de autores diversos e renomados por séculos.

O presidente José Vanderley ressalta o esforço hercúleo que a Sociedade Montepio dos Artistas de Itabuna vem empreendendo para transformar, com parcos recursos, a realidade da juventude itabunense. “Ele chegam aqui entusiasmados com o que pode acontecer em suas vidas, e com certeza ganharão uma profissão e realizarão seus sonhos como artista”, resume o presidente da Assembleia Geral do Montepio.

Walmir Rosário é radialista, jornalista e advogado e autor de livros como O Berimbau – Valhacouto de boêmios, disponível na Amazon.

Entrega da Comenda 2 de Julho ao médico e ex-deputado Renato Costa, hoje (13), na Alba || Imagem TV Alba
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Pela sua postura democrática, Renato Costa defendeu com maestria um conjunto de ideias, debatendo com grupos adversários, de forma veemente, porém reverente e altiva.

 

 

 

 

Walmir Rosário

O respeito ao contraditório é uma das virtudes que marcou a trajetória do Renato Costa dentro e fora da política. Como médico é visto como humanista nos 58 anos de carreira profissional. Essa compostura fez de Renato Costa um amigo leal dos que tiveram a oportunidade de conhecerem e conviverem com ele em todos os setores da sociedade.

Essas características foram determinantes para conferir a Renato Borges da Costa, ex-parlamentar, a Comenda 2 de Julho, mais alta honraria conferida pela Assembleia Legislativa da Bahia (Alba) às pessoa dedicadas às grandes causas. A indicação foi do deputado estadual itabunense Pancadinha (SD), por meio da Resolução 2.263/2025, e a solenidade de entrega foi realizada nesta sexta-feira (13), em sessão especial no Plenário Orlando Spínola.

Para Renato Costa, o homem é sua circunstância e a dele é retornar à esta Casa Legislativa onde esteve por 8 anos, tempo de boa convivência. Para ele, a Comenda é motivo de honra e responsabilidade, por ser símbolo carregado de história, pois representa a confirmação de independência gestada de forma coletiva, o que orgulha o povo baiano.

E de início o deputado Pancadinha traçou um breve perfil do homenageado, classificando-o como “um homem ínclito, parlamentar competente e atento, em resumo um cidadão digno dos maiores elogios pela sua vida pública e privada”. Em seus mandatos como deputado estadual (1995 a 2003), Renato Costa concentrou sua atuação nas áreas da saúde, educação e segurança pública, e às necessidades do Sul da Bahia, com ênfase em Itabuna e Ilhéus.

Na medicina, seu sacerdócio, o doutor Renato Costa sempre foi fiel ao preceito de que o médico deve agir de tal modo que a sua ação possa se tornar uma lei universal, com a integridade moral sendo a base prática da medicina – como reza o juramento de Hipócrates – exercendo a medicina com dignidade e consciência, colocando a saúde e o bem-estar das pessoas acima de qualquer outro interesse.

Outro grande destaque do deputado estadual Renato Costa foi a incessante defesa do interesse da sociedade baiana, especialmente do Sul da Bahia, notadamente Itabuna, Ilhéus e região. Participou e presidiu importantes comissões parlamentares, como a de Proteção ao Meio Ambiente; a CPI para Apurar Adoções de Crianças por Estrangeiros na Bahia; Saúde e Saneamento; a Especial do Cacau; a CPI para Apuração de Ilicitudes na Manipulação dos Recursos SUS (2000-2002), Agricultura e Política Rural, dentre outras.

A militância política de Renato Costa é oriunda do período estudantil, na qual travou lutas pela liberdade de opinião presente em qualquer democracia e contra a opressão na ditadura militar. E esse contato próximo com a sociedade o preparou para o exercício da medicina, sem distinção, trazendo essas convicções para a política.

E a partir de 1989, Renato Costa passou a atuar diretamente no campo político ao ser eleito vice-prefeito de Itabuna (1989-1992); deputado estadual pelo Partido da Social Democracia Brasileira – PSDB (1995-1999); reeleito pelo Partido Socialista Brasileiro – PSB, 1999-2003. Na Assembleia legislativa exerceu diversos cargos, a exemplo de Líder da Minoria, vice-líder do PMDB; vice-líder da Minoria; Vice-líder do PSB; líder do Bloco PSDB/PSB; líder do PSB; e vice-líder do Bloco Parlamentar, dentre outros.

Pela sua postura democrática, Renato Costa defendeu com maestria um conjunto de ideias, debatendo com grupos adversários, de forma veemente, porém reverente e altiva. E esse respeito à diversidade política conferiu ao parlamentar a deferência dos colegas de atuação em campos opostos, pela tolerância, o diálogo permanente e a pronta solução de conflitos.

Como fez questão de ressaltar o deputado Pancadinha, em 2001, Renato Costa recebeu o Prêmio Destaque Parlamentar, concedido pelo Comitê de Imprensa da Assembleia Legislativa da Bahia. Dentre os atributos, sua atuação, pois além de excelente orador – constante na tribuna – também trabalhou com afinco nas comissões técnicas.

Na Santa Casa de Itabuna, Renato Costa sempre se destacou como líder e participou ativamente da criação do primeiro serviço de Nefrologia e Hemodiálise do interior da Bahia, depois transformado no Centro de Estudos Professor Edgard Santos, em 1974, hoje uma Fundação. Foi, ainda, fundador da Unimed e do Sicred de Itabuna e realizou a primeira sessão de hemodiálise do interior da Bahia.

O Governo da Bahia, inclusive, reconheceu a sua dedicação e trabalho pioneiro em prol da nefrologia e dos pacientes renais crônicos conferindo o nome de Dr. Renato Costa ao novo Centro de Hemodiálise de Itabuna, com 54 leitos para pacientes renais crônicos. Hoje, prestes a completar 85 anos, acompanha, religiosamente os pacientes.

Walmir Rosário é radialista, jornalista e advogado.

Praia dos Milionários, point dos itabunenses || Foto José Nazal
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Essa é a verdadeira história da Praia dos Milionários, desbravada por itabunenses e que se transformou na grande e festejada praia das grandes cabanas da zona sul de Ilhéus. Hoje os responsáveis por essa criação são respeitáveis senhores que, aos sábados, ainda sentam praça no Beco do Fuxico, especialmente na Fuxicaria.

 

Walmir Rosário

No final da década de 1960 e início de 1970 o point ilheense era o distrito de Olivença. Distante 18 quilômetros da sede, era frequentada por poucos ilheenses e ainda menos itabunenses. Estrada de chão, muita poeira, areia e as chamadas costelas de vaca tornavam a viagem uma aventura. O local de área veraneio, férias ou outros desafios. Destino de alguns abastados.

Alguns itabunenses também possuíam casas, sítios ou fazendas na antiga estrada Pontal-Olivença, entre eles a família Messias. Num desses domingos, Berger Brasil, da Loja Consul, que atendia a Classe A de Itabuna, se dirigiu para encontrar o amigo José Badaró e encontra outro chegado, Antônio Brito, que o convida para passar o dia com eles.

Após as desculpas de praxe, Brasil explica que tem compromisso firmado em Olivença, onde iria jogar um baba, e, para tanto, carregava uma bola e um isopor cheio de cervejas em lata. Diante da extensão do convite para o próximo domingo, prometeu que apareceria com os colegas para o prometido baba. E chegou com uma boa turma, boa de bola e de cerveja.

De maneira informal, começaria ali a primeira partida do futuro Baba dos Milionários, que fez história e batizaria uma das mais importantes praias da zona sul de Ilhéus. No domingo seguinte – o terceiro –, apareceram também alguns ilheenses, a exemplo de Ninho (Marcos Vieira). A ideia era manter os jogos entre os itabunenses e os ilheenses.

E tudo combinava favoravelmente entre eles, pois na semana posterior apareceu um senhor de nome Sidrak, com uma galinhota (carrinho de mão) carregada de cerveja gelada. A turma jogou o baba, bebeu a cerveja que levaram e ainda acabou todo o estoque do Sidrak. Naquele dia ficou mais que provado que o baba teria vida longa e os jogos seriam entre as seleções de Itabuna e Ilhéus.

Iram Marques, Cacifão

Na segunda-feira, Renato Cunha e Ninho resolvem comprar os uniformes das duas seleções. Nisso Berger Brasil encarrega Iram Marques (Cacifão) de comprar as camisas para a Seleção de Itabuna. E por ironia do destino, ele encontra as camisas nas cores amarela e preta, no padrão da bandeira itabunense. Agora seria apenas imprimir o nome.

De repente, Renato Cunha e Ninho resolvem mudar o nome dos times, para evitar o acirramento da rivalidade existente entre as duas cidades no futebol amador. A ideia era nomear a tal Seleção de Itabuna com um nome tupi-guarani. Ao dar a contra ordem a Cacifão, Brasil ouve o que não queria:

– Agora é tarde, Brasil, as camisas já estão impressas. E o nome é Os Milionários –, informou Cacifão.

E para justificar, Iram Marques, do alto de sua sabedoria e criatividade, convenceu os amigos com a narrativa de que o nome criado por ele era perfeito, pois só participava do baba quem tinha dinheiro, possuía carro, argumentando que nem todos poderiam ir, já que sequer existiria linha de ônibus. E assim Os Milionários foi o nome aprovado.

E o baba se tornou sucesso em Itabuna e Ilhéus, tanto que Os Milionários também passou a dar nome à conhecida a praia onde as partidas eram jogadas. A cada domingo chegavam novos pretendentes, muitos desconhecidos, o que levou Cacifão a adotar nova estratégia para manter o grupo pioneiro unido.

O controverso Iram Marques (Cacifão), que à época não possuía carro, saía de Itabuna para Ilhéus no ônibus das 5 da manhã e conseguia chegar de táxi primeiro que todos. Munido de uma prancheta e papel pautado, escalava os times a seu bel prazer, além de ditar todas as regras no sentido de afastar os menos favorecidos, financeiramente.

E Cacifão passou a instituir taxas para a lavagem do material esportivo (30,00, em moeda da época), além da quantidade de cervejas e tira-gostos que cada um deveria levar. Mesmo que o pretendente fosse bom de bola, era vetado, não importando os pedidos. Com isso, os incidentes entre a rivalidade entre as duas cidades também permaneceram zerados.

E o baba dos Milionários, como passou a ser chamado, ganhou a atenção dos boleiros e da mídia. Um dos primeiros jogadores profissionais a jogar no baba foi Jorge Campos, atacante do Bahia, levado pelo seu irmão César Campos. Em outra feita apareceram o jogador do Flamengo e Seleção Brasileira, Júnior (Capacete) e o técnico Cláudio Coutinho.

Dentre os frequentadores pioneiros do baba dos Milionários: Berger Brasil, Renato Cunha, Antônio Brito, Eduardo Brito, Iram Marques (Cacifão), José Verdinho, João Carlos Fontes, César Campos, Antônio Wense com os filhos Ronie e Marcos, Edulindo, Erick Etinger, Tonho Bicudo, Tonhão, Ninho, Geraldo Sessa, George Cordeiro, Alcides Paulino, Chico Orelinha, Dr. Alair, os 4 irmãos Andrade e Haroldo Messias, dentre outros.

Essa é a verdadeira história da Praia dos Milionários, desbravada por itabunenses e que se transformou na grande e festejada praia das grandes cabanas da zona sul de Ilhéus. Hoje os responsáveis por essa criação são respeitáveis senhores que, aos sábados, ainda sentam praça no Beco do Fuxico, especialmente na Fuxicaria. Outros já não habitam mais entre nós, a exemplo de Cacifão, o homem das ingrisilhas, que deixou suas histórias a serem contadas.

Walmir Rosário é radialista, jornalista e advogado e autor de  autor de livros como O Berimbau – Valhacouto de boêmios, disponível na Amazon.

Escultura do poeta Tema Padilha || Foto Wamir Rosário
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Tristão de Athayde, Raquel de Queiroz, Mário Quintana, Jorge Amado, Carlos Drumond de Andrade, João Cabral de Melo Neto, dentre outros os citam como um dos mais importantes poetas líricos do Brasil.

 

Walmir Rosário

Ainda em tempo Itabuna sai do rol dos inadimplentes ao prestar uma justa homenagem ao poeta itabunense Telmo Fontes Padilha. Dívida antiga, mas que começa a ser honrada, do jeito que merece o “poetinha”, como carinhosamente o chamávamos. Um intelectual que gostava do povo, de sua cidade e que muito contribuiu para a arte e cultura.

Nesta quinta-feira (26), finalmente, foi inaugurado o Palco da Poesia, com um mosaico de 150 poetas de Itabuna, e a peça central é uma escultura concebida e executada pelo escultor Diovane Tavares, homenageando o poeta Telmo Padilha. A obra foi construída numa parceria entre o Clube do Poeta (que administrará a área) e a Prefeitura de Itabuna, na Orla do Berilo, um dos points da boemia itabunense, com a presença da família do poeta.

Nascido em Ferradas (antigo distrito e hoje bairro de Itabuna) em 05 de maio de 1930, Telmo Padilha nos deixou em 17 de julho de 1997, num trágico acidente na BR-101, entre Buerarema e Itabuna. Nesses 67 anos fez acontecer como pessoa, menino, gente grande, poeta, jornalista, um amigo daqueles que gostamos do fundo do peito. E a recíproca era verdadeira, com toda a sua elegante simplicidade.

Apesar de nos deixar drasticamente, continuou sendo aquela figura inesquecível, sempre a nos brindar com sua poesia, sua prosa, textos jornalísticos irretocáveis, de tamanha elegância e graça, como exaltava Onaldo Xavier. Não sei se cabe aqui ressaltar que em Telmo Padilha a vida e a arte eram uma só, sem imitações.

Tomo a cumplicidade de Onaldo Xavier para expor o que disse no Prefácio de Canto de Amor e Ódio a Itabuna: “A poesia de Telmo é seu retrato por inteiro e ele poetizava para todo o mundo, e sua terra, como um eterno poema, não poderia ser esquecida. No poema de abertura, tal qual um épico camoniano, o autor discorre em momentos belíssimos, coroados com sentimentos diversos de amor, alegria, beleza, raiva, incompreensão e compaixão sobre sua cidade, como a querer prestar contas com ela…”, ressaltou.

“As raízes deste poema estavam dentro de mim

e eu o escrevia ou ele me arrebentava, era preciso

expulsá-lo como invasor intruso de fundas

lembranças e mágoas passadas e presentes, e a

úlcera untei de unguento para não soçobrar em

seu curso, e palavras amotinei para domá-lo, e

as rédeas ele me tomou como negro cavalo de crinas

eriçadas e nervosos cascos, e já não era eu

em mim mas a cidade em meu corpo, estuário de

incandescentes larvas, ciclotímico rio de quedas e

remansos, na direção de um tempo incontrolável e

sem fronteiras.”

É a Itabuna de Ferradas, onde nasceu, cujas pessoas conservam a pureza no modo de andar, na forma como olham as pessoas. É a Ferradas quem mantém a casinha de poucos cômodos onde nasceu. Colada à igreja. Aos quatro anos veio para Itabuna, a sede do município, exatamente para a rua da Jaqueira (hoje Fernando Cordier), em frente ao rio Cachoeira.

A mesma rua da Jaqueira cheia de árvores frutíferas – com mangas, laranjas, pitangas, jambos, sapotis nos galhos. A primeira morada, por sinal, é bem pertinho da atual “Orla do Berilo”, ali na cabeceira da ponte Lacerda, onde o poeta Telmo Padilha pousa de estátua. Um local onde se reúne a boemia, os artistas de todas as vertentes culturais a declamarem poesias.

Mas o Telmo não é só poesia, é prosa, é jornalista em busca de reportagens em Ilhéus e Itabuna, com uma passagem relevante em jornais e revistas no Rio de Janeiro, ao lado dos conterrâneos grapiúnas Adonias Filho e Hélio Pólvora. Na terra carioca poetou, participou de eventos literários, construiu amigos importantes e letrados.

Tristão de Athayde, Raquel de Queiroz, Mário Quintana, Jorge Amado, Carlos Drumond de Andrade, João Cabral de Melo Neto, dentre outros os citam como um dos mais importantes poetas líricos do Brasil. Publicou 38 livros, deixou outros 11 ainda inéditos, e suas obras correram o mundo em português, inglês, francês, italiano, alemão, espanhol e japonês.

Ganhou prêmios importantes como o Jabuti de Poesia, foi feito Doutor Honoris Causa pela hoje Universidade Estadual de Santa Cruz (Uesc), que ajudou a implantar, descobriu e despertou talentos. Contratado pela Ceplac dirigiu o PACCE – Projeto Artístico e Cultural Cacau Europa, com a participação do Conselho Nacional dos Produtores de Cacau (CCPC) e o Sistema Coopercacau – Cooperativa Central do Cacau.

E Telmo Padilha chacoalhou a cultura do Sul da Bahia com lançamento de livros de novos escritores, vernissages e demais eventos culturais aqui no planeta cacau e até na Suíça. Em 23 de agosto de 1987 Telmo Padilha morre um pouco com o passamento do seu filho Paulo, e escreve Provação – Solidão – Angústia – Saudade – Lágrima. Poemas Póstumos.

Telmo Padilha foi casado com Ecy Padilha, com quem teve os filhos Luísa, Fernanda, Cláudia, Clara e Paulo (in memoriam).

Walmir Rosário é radialista, jornalista e advogado e autor de  autor de livros como O Berimbau – Valhacouto de boêmios, disponível na Amazon.

Igreja de São Jorge teve placa histórica furtada || Fotos Portal Católico e José Nazal
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A falta ou desvirtuamento da família dá a sensação de que tudo é permitido, o que é corroborado pela falta da chamada punição dos homens.

 

Walmir Rosário

 

 

 

Recentemente recebi um zap do meu amigo José Nazal narrando o furto de uma placa da Igreja de São Jorge, em Ilhéus, paróquia que está entre as mais antigas do Brasil. Só para nos situarmos na história, ela foi criada pelo primeiro bispo do Brasil, Dom Pero Fernandes Sardinha, aquele que foi comido pelos índios em Alagoas, após o naufrágio do navio que o levava de volta a Portugal.

E conta Nazal que, quando a paróquia chegou ao seu quarto centenário, em 1956, o então bispo diocesano, Dom João Resende Costa, promoveu a realização de um Congresso Mariano para a comemoração. Para marcar a data, assentou uma placa comemorativa na parede frontal da Igreja, em 07 de outubro d 1956, até então Sé Diocesana de Ilhéus.

Pois bem, não é que às 22h05min de 07 de fevereiro último, a câmera do escritório de Geraldo Carvalho registra o furto da placa por uma pessoa de aparência drogada. Ao que tudo indica, buscava algo de valor para continuar na sua vida desregrada. “Um pobre em Cristo desajustado com a humanidade”, assim citou José Nazal, que fotografou a Igreja e a placa por diversas vezes.

Nesse mesmo período, recebi um vídeo do pároco da Igreja de Nossa Senhora de Lourdes, em Coaraci, também aqui no sul da Bahia, no qual o Padre lamentava a falsificação de bilhetes do caruru da Festa da Padroeira. Mais de 150 bilhetes foram vendidos pelos falsificadores – sem a menor cerimônia – na comunidade católica.

Visivelmente acabrunhado pela ação dos falsificadores, o padre mandou um recado para eles – os falsificadores – comentando os castigos divinos em que poderiam ser penalizados, além dos impostos pelos homens. “Quero dizer que as pessoas que tiveram a coragem de fazer isso esperem a torradeira do inferno, para que um dia sejam queimadas, por cometerem um crime inconcebível”, desabafou.

Como se esses crimes cometidos contra o respeito com a Igreja fossem poucos, em cerca de três meses a Igreja de São Judas Tadeu, em Itabuna, sofreu a ação do amigo do alheio. Mesmo equipada com câmeras de vigilância, os larápios retiraram fios da rede elétrica. Um desses furtos foi feito assim que o eletricista recuperou a rede elétrica da igreja, e sem a menor preocupação.

A cada instante somos surpreendidos por atos e fatos que nos deixam assombrados com a banalização dos costumes e até mesmo da própria vida, desvalorizada ao extremo. Os valores religiosos e morais são alvo de zombarias e vandalismo a todo o momento, como se tivéssemos sofrido um apagão em nossa memória.

Fomos acostumados a crer e respeitar a família, nossos semelhantes, e o que é considerado sagrado. Todas as divergências entre religiões eram toleradas, embora cada grupo defendesse sua crença internamente, considerando a vida em sociedade. Claro que cito exemplos de modo geral, embora as diferenças de alguns tenham chegado ao extremo, por vezes.

Cada grupo obedecia aos seus princípios, suas regras, sua ética ou convicções morais criadas ou impostas pelas autoridades dominantes. No tocante às religiões, as igrejas ou locais de reuniões sempre foram respeitados, intocáveis, mesmo por aqueles tidos como foras da lei, embora tementes a um Ser superior: Deus e os santos católicos.

Exemplos mais práticos como o que citei acima podem ser verificados nos casos de grupos armados, como os cangaceiros do Nordeste brasileiro, notadamente o liderado por Virgulino Ferreira, o Lampião. Seus atos de violência física ou os saques praticados em cada cidade se restringiam às residências e as igrejas eram preservadas por temor a Deus.

Com o tempo, esse costume vem mudando – cada vez mais rápido. No meu entender, é o embrutecimento da sociedade, provocado pela perda da sensibilidade espiritual, na mesma velocidade em que são desfeitas as famílias. Hoje o homem faz pouco caso da justiça divina, com ações egoístas, ausência do respeito ao próximo, arrogância e a falta de Deus no coração.

Esses atos de vandalismo – crimes, mesmo – são praticados sem a menor cerimônia, pois nem sempre existe o cumprimento da pena ao violador do patrimônio alheio. Na minha visão, a banalização do crime pelo Estado incentiva, ainda mais, o retorno do criminoso a agir criminosamente com mais tranquilidade, por ser considerado de menor potencial ofensivo.

Se por um lado não existe o temor do Estado contra seus atos aqui na terra, menos, ainda, o temor do juízo divino, sobretudo pelo distanciamento de Deus, levando-o ao pecado desenfreado. A falta ou desvirtuamento da família dá a sensação de que tudo é permitido, o que é corroborado pela falta da chamada punição dos homens.

Walmir Rosário é radialista, jornalista e advogado e autor de  autor de livros como O Berimbau – Valhacouto de boêmios, disponível na Amazon.

O economista e professor Alessandro Fernandes, reitor da Uesc || Foto Uesc
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Quem sabe, todo esse acervo de comunicação poderá ser reunido num grande projeto disponibilizado à sociedade após a digitalização, tratamento gráfico com o que existe de mais moderno na informática.

 

 

Walmir Rosário

Agora em Itabuna, estou mais perto da Universidade Estadual de Santa Cruz (Uesc), respirando os ares da sabedoria emanados daquele centro de conhecimento, que vem acumulando troféus e títulos de excelência. Felizmente a Uesc tomou um caminho bem diferente de outras instituições de ensino superior, que descem ladeira abaixo neste Brasil contemporâneo.

De pronto, dou pleno conhecimento público que não estou alisando os bancos de nenhum curso superior, o que me faria bem, mas tão somente bisbilhotando o Centro de Documentação (Cedoc). Quase todos os dias, munido de máscara contra a poeira e ácaros, e luvas para me livrar das velhas tintas gráficas, estou espreitando, conferindo as páginas dos jornais antigos de Ilhéus e Itabuna.

São edições incompletas em determinados anos, mas permite pesquisar o que acontecia em épocas passadas. As minhas visitas seriam apenas (não são mais) para rever as glórias do futebol de Itabuna, por meio dos seus times e da eterna vencedora Seleção de Itabuna, assuntos para futuros livros, com a missão de informar aos que não tiveram a felicidade de viver àquela época.

Com a mão nas páginas, relembro fatos tantos vividos pela sociedade pretérita em Itabuna, Ilhéus e região sobre a economia, as agruras sofridas pela cacauicultura, bem como os bons tempos em que a tonelada de cacau era vendida nas bolsas de Nova Iorque e Londres a preços compensadores, coisa de US$ 4,5 mil até US$ 5 mil, tudo contado em dólares.

A sociedade mantinha um padrão de vida bem confortável e Itabuna se dava ao luxo de tocar os discos em LPs e compactos (poucos sabem o que é isso) em lançamentos simultâneos com o Rio de Janeiro, São Paulo e Salvador. Mas como nem tudo são flores, os protestos e reclamações apareciam estampados nas páginas de nossos jornais sem a menor cerimônia.

O que acontecia na política ganhava destaque, inclusive os aumentos de impostos que pesavam sobre o cacau, figurinha carimbada nos tempos ruins, a salvação da lavoura do governo do estado para pagar os gastos feitos em outras regiões. A conta não era nossa, mas o governador jurava que deveria ser paga por todos. E como o cacau faturava, sentava-se à cabeceira da mesa.

E a Uesc vem assumindo uma responsabilidade com a sociedade sul-baiana ao guardar, manter intacto, catalogar e disponibilizar toda a produção dos meios de comunicação de épocas passadas, mantendo viva a história do povo grapiúna. Além de jornais, a Uesc também registra em seu acervo a história do Poder Judiciário em Ilhéus e milhares de documentos históricos importantes. Se tornou a guardiã da nossa história.

No Centro de Documentação estão disponíveis, por exemplo, os jornais Diário da Tarde, de Ilhéus; o Tabu, de Canavieiras; o Diário de Itabuna e o Agora, de Itabuna, este através de um esforço recíproco da sociedade. E o Reitor Alessandro Fernandes de Santana acolheu o pleito, sensível que é aos reclames da sociedade, sobretudo do que diz respeito às questões sociais, sobretudo à educação.

Sei que a Uesc muito ainda tem que caminhar, mas os louros obtidos nesse trajeto são sinal bastante positivo, o que nos leva a crer e vislumbrar uma universidade “coladinha” com a sociedade. A Uesc pode e deve ser o carro-chefe do pensamento regional, com poderes para influir na renovação da tecnologia e nas mudanças que levem ao desenvolvimento.

O Magnífico Reitor Alessandro Fernandes tem ao seu lado cabeças pensantes capazes de elaborar e tocar projetos em todas as áreas do conhecimento, notadamente na comunicação. Se a Uesc tem gente à disposição, também possui prédios herdados do Instituto de Cacau da Bahia (ICB) que podem abrigar esses novos serviços à sociedade.

Quem sabe, todo esse acervo de comunicação poderá ser reunido num grande projeto disponibilizado à sociedade após a digitalização, tratamento gráfico com o que existe de mais moderno na informática. De casa, do escritório, aqui no Sul da Bahia, Estados Unidos ou Japão estará disponível em apenas alguns cliques. Afinal, uma universidade é um centro de sabedoria com a missão de tornar as pessoas mais inteligentes. E a hora é agora.

Walmir Rosário é radialista, jornalista e advogado e autor de  autor de livros como O Berimbau – Valhacouto de boêmios, disponível na Amazon.

Blocos Maria Rosa e Dez Casados, com os fundadores da lavagem || Montagem Walmir Rosário
Tempo de leitura: 3 minutos

 

 

 

Este ano, o presidente Sandoval Benevides repetiu a dose e na Lavagem apresentou sua nova música e o bar móvel, com figuras da criação da Lavagem do Beco do Fuxico, a exemplo de Bebeto Elmo, Paulo Nunes Neto, Abelardo Moreira (Bel), dentre outros carnavalescos. Sucesso Garantido.

 

Walmir Rosário 

Pense aí num evento que você agenda e se entrega à vontade: é a folia de Momo, na tradicional Lavagem do Beco do Fuxico, reduto da boemia itabunense, bem no centro da cidade. E o mais importante são os custos reduzidos da festa, investimentos pífios para beber a batida do Caboclo Alencar, a cerveja da Fuxicaria, do bar Artigos para Beber e nos ambulantes.

Fora dos blocos, nem mesmo a fantasia é indumentária obrigatória para quem quer se esbaldar à vontade. Apesar do forte calor e enorme quantidade de pessoas o folião não precisa se preocupar, pois a prefeitura cumpre à risca, todos os anos, em dar um banho nos foliões, pois a vassoura, ferramenta necessária para a lavagem já caiu de moda.

O esperado é o carro-pipa aspergindo água em profusão nos distintos carnavalescos, que segundo dizem, serve para confortá-los durante a bebedeira. Já foi o tempo em que os frequentadores da Lavagem do Beco do Fuxico eram mais exigentes e faziam questão de dançar, se esbaldar, no ritmo das marchinhas. Hoje os tempos são outros e o que tocar eles pulam e sambam.

A Lavagem do Beco do Fuxico teve início em 1980, de forma simples, como o eram seus criadores e frequentadores do conceituado Beco. Um caminhão pipa emprestado, uma espalhadeira de betume asfáltico, que quebraram na primeira lavagem, embora esse insucesso não tenha sido suficiente para desmotivar os frequentadores do Beco.

Com o passar dos anos, a Lavagem do Beco do Fuxico toma fôlego na programação da prefeitura e a participação de blocos, entre eles, o longevo Maria Rosa, Casados I… Responsáveis, Mendigos e Gravata, Os Dez Casados, e uma dezena de outros. E a festa está rolando com todas as músicas e fantasias, aliadas à irreverência dos participantes.

Neste sábado, 17 de janeiro do ano de 2026, a ausência notada com todas as letras foi o Casados I…Responsáveis, o mais irreverente deles, e com a missão de abrir Lavagem do Beco. Sucesso garantido em sua participação em todo o Carnaval de Itabuna, o bloco sofreu com a perda de muitos fundadores, mas já começa a se reorganizar para 2027, como garante um dos seus dirigentes, Nérope Martinelli.

E como alegria não tem segredo, os foliões dos blocos irreverentes têm a obrigação de levar para as ruas a descontração estampada no rosto, também conhecida por felicidade. Além dos desfiles nas ruas de Itabuna, na manhã de domingo de Carnaval, “os Casados I…Responsáveis” promoviam uma visita à Santa Casa de Misericórdia para alegrar os enfermos.

Mas enquanto o bloco “Casados” se encontra em descanso, os Dez Casados não poupam esforços em promover um Carnaval com todos os requintes. Este ano, o presidente Sandoval Benevides repetiu a dose e na Lavagem apresentou sua nova música e o bar móvel, com figuras da criação da Lavagem do Beco do Fuxico, a exemplo de Bebeto Elmo, Paulo Nunes Neto, Abelardo Moreira (Bel), dentre outros carnavalescos. Sucesso Garantido.

Beco do Fuxico lavado, a folia continuou na praça Adami, centro dos festejos de Itabuna até perto da meia-noite. Com este evento, o Carnaval de Itabuna foi aberto oficialmente e os carnavalescos têm até a próxima quinta-feira (22) para descansar e entrar na folia, comemorando a festa de Momo até o raiar da próxima segunda-feira.

Walmir Rosário é radialista, jornalista e advogado e autor de  autor de livros como O Berimbau – Valhacouto de boêmios, disponível na Amazon.

Milho plantado em Poço Verde em local de plena caatinga || Foto Walmir Rosário
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Silenciosamente, desenvolveram gado de leite e corte de alta qualidade, animais criados com comida de qualidade; e todas as espécies de produtos agrícolas, com produtividade de fazer inveja aos centros mais avançados.

 

Walmir Rosário 

Rever os conceitos faz um bem danado para quem quer se manter na onda, auferindo resultados positivos. Por mais que façamos certo, sempre tem algo em nossa vida ou nossos negócios que precisa ser acertado. Afinal, como diz a piada, relógio que adianta não atrasa. É o tal de adiantar o passo após as reflexões, já transformadas em ações presentes e futuras.

Num simples apanhado, o Sul da Bahia não vai mal: o cacau se recuperando em genética, sanidade e preço de comercialização; o comércio se mantém estável, passando pelas mudanças de sempre, resistindo bravamente; os serviços a mil por hora, principalmente na área da saúde privada, com profissionais qualificados e equipamentos de ponta.

Não sei se estaria sendo coerente comigo mesmo se afirmasse que estamos apenas a um pontinho acima da mesmice, tendo em vista que grandes investimentos não são direcionados para o Sul da Bahia. Prova disse é a população estável, com índices bem abaixo de outras regiões da Bahia, mesmo possuindo terras férteis, chuvas em abundância e infraestrutura considerável.

Não nos faltam faculdades e universidades, embora, em minha opinião, ainda um pouco distantes dos setores produtivos, sem dar régua e compasso para fazer a economia prosperar. Como se tal não bastasse, nossa antiga fonte de desenvolvimento científico – devidamente comprovada – a Ceplac, é hoje carta fora do baralho.

Nossa tão sonhada indústria de informática, implantada em Ilhéus, não prosperou como planejada, embora ainda contribua para o crescimento – e quem sabe –, um dia para o desenvolvimento. Não conseguimos implantar um aeroporto internacional (gargalo para informática) e somos sobressaltados constantemente com a paralisação da construção da Ferrovia Oeste-leste (Fiol).

A Fiol e o Porto Sul – irmãos siameses –, e atual esperança nossa de desenvolvimento, sofrem com as paralisações decorrentes da política governamental e das empresas mães. Os motivos são os mais díspares possíveis, que vão desde as dificuldades econômicas do mercado internacional, as mudanças societárias e até desconfiança na política governamental.

E nós sul-baianos, já acostumados às dificuldades, simplesmente aguardamos que as bênçãos dos céus desçam por aqui para solucionar problemas que não foram criados pelos religiosos ou nossos santos padroeiros. Esperar por ações de nossos representantes políticos é tarefa impossível, pois não os colecionamos nas muitas eleições por décadas passadas.

Se olharmos para o passado, quem sabe poderíamos nos espelhar em nossos ancestrais, os sergipanos, que há mais de um século deixaram suas cidades assoladas pela seca para construir a civilização cacaueira, grapiúna. Aqui enfrentaram as matas fechadas e inóspitas, enriqueceram, criaram praticamente toda a infraestrutura de uma nova região.

Não custa lembrar que a economia da região cacaueira prosperou em níveis cada vez mais crescentes, apesar das dificuldades de então. Criaram um mercado forte, cujo produto por eles comercializado era pago ao produtor mesmo antes de entregá-lo. Comércio bem diferente do restante da atividade agrícola, cuja liquidez inicia geralmente após os 30 dias da entrega.

Como bons descendentes de sergipanos – caatingueiros dos bons –, visitamos nossos parentes, passamos férias em Aracaju, local em que encontramos sul-baianos nas ruas como se em Ilhéus ou Itabuna estivéssemos. Só que desprezávamos o campo, há anos em plena transformação. Pois bem, aos poucos começamos enxergar as mudanças, realizadas de forma silenciosa.

Há muito os sergipanos descobriram que, se tinham capacidade de fazer crescer negócios em outras regiões, também poderiam prosperar em sua própria terra, já bastante conhecida. No campo, resistiram às secas, criaram tecnologias para conviver e superar as dificuldades. Nas cidades, desenvolveram pequenas indústrias, notadamente de confecções, redes e o turismo.

Hoje todo o Brasil está perplexo com a capacidade de superação do sergipano, na cidade ou no campo. Silenciosamente, desenvolveram gado de leite e corte de alta qualidade, animais criados com comida de qualidade; e todas as espécies de produtos agrícolas, com produtividade de fazer inveja aos centros mais avançados.

Se antes se deslocavam em cima de caminhões pau-de-arara para se livrar da seca e ganhar a vida no Sul da Bahia, hoje plantam cacau numa região antes impensável. Não acredito que essa virada histórica saiu apenas de um papel num gabinete qualquer, mas sim da vontade de viver bem na sua própria terra, construindo sua própria e nova história.

Se antes o Sul da Bahia “importava” os sergipanos como simples mão de obra para implantar a cacauicultura, bom seria fazermos o caminho inverso, desta vez para beber da sabedoria dos nossos parentes em todas as áreas da economia. Por certo, voltaríamos com um novo cabedal de conhecimento para impulsionarmos nossa região. Também aproveitem o passeio, pois o sergipano continua sendo um excelente anfitrião.

Walmir Rosário é radialista, jornalista e advogado e autor de  autor de livros como O Berimbau – Valhacouto de boêmios, disponível na Amazon.

O Natal que encanta corações || Foto Pedro Augusto/Secom-Itabuna
Tempo de leitura: 3 minutos

 

Tenho plena consciência das transformações do mundo, que a cada dia nos apresenta mudanças, nem sempre para o bem. E teremos que ter a capacidade de nos adaptar aos chamados novos tempos, sempre preservando a nossa dignidade.

 

Walmir Rosário

Logo no início de dezembro nosso cérebro vai se enchendo de mensagens por conta das festas natalinas. Parte menor dessa comunicação deve ser aproveitada, pois atinge, em cheio, nossa alma, tocando a mente e o coração. A grande maioria nem tanto, pela falta de essência – tipo palavras ao vento –, que entra por um ouvido e sai pelo outro.

De qualquer maneira considero positivo, dado o tom e a essência desses informes, que nos incutem mensagens positivas de bem-estar e amor ao próximo em quantidade muito acima do que recebemos durante o ano inteiro. Acredito eu – e só serve tão somente pra mim, como diz meu amigo José Nazal – que essa fartura de informações nos obriga a pensar, fazer uma profunda reflexão.

E geralmente iniciamos pelos projetos que pensamos para o ano que se finda, veremos o que aproveitamos de verdade, se seguimos à risca, ou os que abandonamos ao longo dos meses, seja por falta de desfrute ou impossibilidade de execução. A cabeça roda (no sentido figurado) para lembrarmos se fizemos o bem como previsto no final do ano passado.

E essas reflexões atingem o ponto máximo quando buscamos saber se somos felizes. Embora confesse que até hoje não conheço a fundo os fatores necessários para efetuar tal mensuração, me ponho a pensar se não pisei na bola mais do que deveria. Tarefa difícil, mas necessária para colocar os pensamentos em dia, pois depende de uma análise isenta sobre si mesmo.

E aí é que está a importância do autoconhecimento, tão buscado por nossos filósofos, principalmente de Sócrates pra cá. Decifrar o “só sei que nada sei” requer mais do que muitos estudos e é primordial sermos honestos com nós mesmos, humildes o suficiente para realizarmos uma investigação séria, isenta, verdadeira, como merece.

Deveremos nos despir de todas as vaidades e arrogâncias que gravitam no nosso interior e exterior. Não é uma tarefa fácil, mas necessária se nosso projeto for chegar à satisfação interior, o “ser” e não apenas o “ter”, reconhecendo que este último não deve ser desprezado, mas conseguido de maneira honesta, na qual um negócio só pode ser considerado bom quando vantajoso para as duas partes.

Tenho plena consciência das transformações do mundo, que a cada dia nos apresenta mudanças, nem sempre para o bem. E teremos que ter a capacidade de nos adaptar aos chamados novos tempos, sempre preservando a nossa dignidade. O incrível é que, com todo o conhecimento à disposição, o homem se embrutece a passos largos e cria novos e mais complicados conflitos.

É preciso parar com frequência para refletir nossa vida e o que nos rodeia, para que possamos julgar nossa vida, analisando atos e fatos e promovendo as mudanças necessárias ao nosso interior. Com isso, é bem possível que possamos viver em paz com nós mesmos e com os que nos rodeiam, para tornarmos o mundo melhor.

Não espere apenas por Papai Noel, pois assim, a cada final de ano, poderemos contribuir para construir uma sociedade melhor.

Walmir Rosário é radialista, jornalista e advogado e autor de  autor de livros como O Berimbau – Valhacouto de boêmios, disponível na Amazon.

Os sábados do Beco do Fuxico sempre são agitados || Arquivo
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Daí pra frente como um animal gregário que sou, sentarei às mesas com dezenas de amigos e confrades que fazem dos sábados no Beco do Fuxico a mais importante trincheira da boemia itabunense.

 

Walmir Rosário 

Posso assegurar que continuo vivo e gozando da mais perfeita saúde, avalizado por um conceituado médico após ler e reler o papelório enviado pelo laboratório de análises clínicas. Sequer um Melhoral, Cibalena ou outro qualquer medicamento me foi receitado, embora o ilustre esculápio tenha me alertado sobre os anos que pesam na minha cacunda, como se dizia antigamente.

Confesso que comemorei o feito por pelos menos três semanas, em encontros com amigos para uns dois dedos e prosa, sempre mediados por uns goles de cerveja, bons aperitivos de cana e apetitosos tira-gostos. Como Canavieiras ficou pequena para as comemorações, fui com Batista levar a boa nova a Una, desta vez sem a presença de Valdemar Broxinha e seu violão.

Após esse período de vida social agitada resolvi – solenemente – mergulhar no recôndito do lar para mais que um merecido descanso, pois afinal ninguém é de ferro. Estripulias à parte, nada melhor do que um período sabático – por menor que seja – para as devidas meditações e análises de ações pretéritas e o planejamento do breve porvir.

Nesta sexta-feira (também conhecida pelo início do fim de semana) acordei cedo, e embora não tivesse a menor necessidade de pegar o sol com a mão, a pequena claridade me anunciou um novo dia. Não posso negar que ao abrir os olhos me senti mareado, como se tivesse navegado por mares bravios, apesar da maciez do colchão que me ajudou a dormir o sono dos justos.

Deixei a cama bem devagar, abri uma fresta na cortina para me situar bem da localização e descobri que estava em local sabido e seguro. Não me contive e escancarei a cortina, permitindo o clarão solar penetrar em todo o quarto. Foi aí que me dei conta estar em frente ao famoso, histórico e não menos agradável Beco do Fuxico, em Itabuna, na Bahia.

Aos poucos fui recuperando a consciência do meu novo endereço, com nome de rua e CEP. É que deixei Canavieiras para os passeios de finais de semana, onde encontrarei os amigos bem chegados para novas comemorações. Aos poucos contive meus ímpetos, afinal tinha a obrigação familiar de ajudar na arrumação da bagagem, colocar a casa em ordem.

De pronto, digo e repito que esse não é o tipo de obrigação doméstica que tenho desvelo, embora não seja de correr do chamamento ao dever, desde que não prejudique a torta coluna e demais músculos atrofiados. Por volta do meio-dia, com o coração palpitando, desci o Beco do Fuxico em busca de alguns produtos para casa, cumprimentando alguns amigos e prometendo revê-los em muito breve.

Para não ser traído pela memória resolvi pegar um bloco de notas de uma caneta e traçar o caminho deste sábado, quando os estabelecimentos etílicos do Beco do Fuxico estarão no auge de suas atividades. Logo cedo passarei para cumprimentar o Brigadeiro Eduardo Gomes no bar Artigos Para Beber, e duas quadras após chegarei à Fuxicaria e farei o reconhecimento dos confrades.

Caboclo Alencar e o aluno repetente

Ao lado, no ABC da Noite, pedirei ao Caboclo Alencar a renovação de minha matrícula, sem muita burocracia, diante de minha condição de aluno repetente desde o século passado. Pra começo de conversa, serei servido com uma das mais famosas batidas de minha predileção por dona Neusa, quando então me sentirei no meu segundo lar.

Daí pra frente como um animal gregário que sou, sentarei às mesas com dezenas de amigos e confrades que fazem dos sábados no Beco do Fuxico a mais importante trincheira da boemia itabunense. Entre um gole de batida e um copo de cerveja não deixarei de cumprimentar outras “tribos”, inclusive as que raramente aparecem para um gole, além dos abstêmios. Sim, eles existem!

E alguns ainda não acreditam em amigos (os verdadeiros). Por ironia do destino, ao comentar o amigo e irmão José Augusto Ferreira que estaria retornando – de mala e cuia – a Itabuna, minutos depois e comenta com outro confrade, o Paulinho Neto. Por incrível que pareça, Paulinho responde: “No meu prédio tem um apartamento vagando e já é dele”.

Agora, para entrar no Beco do Fuxico nem dobro esquina, basta traçar uma perpendicular e descer a ladeira.

Walmir Rosário é radialista, jornalista e advogado e autor de  autor de livros como O Berimbau – Valhacouto de boêmios, disponível na Amazon.

Sob a seta, Waldir de Roxinho, que fincou raízes no Rio de Janeiro
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Com o dinheiro curto, os pupilos de Robert Baden-Power embarcaram num avião da Cruzeiro do Sul na pequena viagem entre Canavieiras e Belmonte. Daí pra frente seria o que Deus quiser, sempre focados nos ensinamentos do Escotismo.

 

Walmir Rosário

Em 1958 Canavieiras pouco tinha a oferecer aos seus moradores, do ponto de vista exterior. Embora o cinema mostrasse o desenvolvimento ao redor do mundo, suas novidades, por aqui a vida girava em torno da economia cacaueira, das chegadas e partidas dos aviões de carreira, do movimento de navios nos portos, o futebol, a vida nas boates e bares.

De Canavieiras era possível, sim, “enxergar” o mundo através das emissoras de rádio do Rio de Janeiro, São Paulo e Salvador, jornais, revistas, e pelo testemunho dos canavieirenses mais abastados que estudavam fora. Em 1958 a grande atração era a participação da Seleção Brasileira na Copa do Mundo, a ser disputada na Suécia, e a remota chance de ser campeã.

Mas o sonho de conhecer outras terras, a exemplo do Rio de Janeiro, não saía da cabeça dos mais jovens, a maioria sem condições financeiras para realizar um passeio dessa magnitude. Flanar por Copacabana, assistir aos jogos dos seus times no Maracanã, frequentar a capital federal do Brasil representava a glória para qualquer ser vivente.

Em abril de 1958 um grupo de 10 escoteiros resolveu transformar esse sonho em realidade. Nenhum deles possuía experiência em uma viagem dessa magnitude, mas não faltavam a coragem e a convicção do aprendizado de anos no Escotismo. E assim os garotos de 16 a 18 anos iniciaram o planejamento da viagem, com a aquiescência dos pais. Entretanto, um deles não voltaria.

Com o dinheiro curto, os pupilos de Robert Baden-Power embarcaram num avião da Cruzeiro do Sul na pequena viagem entre Canavieiras e Belmonte. Daí pra frente seria o que Deus quiser, sempre focados nos ensinamentos do Escotismo. E enfrentar a segunda parte da viagem não seria moleza para eles, pois o percurso de Belmonte a Vitória, no Espírito Santo, custou 21 dias de viagem, cumpridos em jornadas a pé.

E o grupo formado por Walter e Trajano Barbosa, Coló Melo, Raimundo Oliveira (depois tenente Raimundo), Orleans da Hora, Dinael Santos, Edson Dedo, Waldyr de Roxinho, Everaldino Piloto e José Araújo empreenderam o trajeto, sob o comando de Henrique Ciência. Nesse segundo trecho eles conheceram, de verdade, o valor do slogan do escotismo: “Sempre alerta”.

No percurso, privilegiaram a caminhada nos trechos de praias, superando as dificuldades que surgiam com frequência, atravessando a pé ou a nado os ribeirões e bocas de barras. Também tiveram que usar de artifícios para caminhar no meio de florestas, evitando as armadilhas naturais e os animais, principalmente as cobras.

Quando encontravam um sítio conversavam com os moradores sobre o melhor caminho que deveriam tomar e eram avisados sobre em que trechos poderiam parar para descansar e dormir. Num desses locais em que passaram a noite, como sempre, armaram e tocaram fogo numa grande fogueira para espantar as onças, cujas pegadas e os esturros foram vistas e escutados bem próximas.

Em um costado do mar foram obrigados a acelerar o passo para conseguir vencer o percurso enquanto a maré estava em baixa, do contrário poderiam ser tragados pelas grandes ondas. Cansados, já sem quase nenhum recurso financeiro e víveres, finalmente chegaram a Vitória, no Espírito Santo, e tiveram a ideia de se apresentarem ao prefeito.

A aventura dos escoteiros canavieirenses emocionou o prefeito, que os ajudou com alimentação e passagens de trem para o Rio de Janeiro. Na Guanabara se apresentaram na sede dos Escoteiros do Mar, foram recepcionados pelo General canavieirense Asclepíades Santos, participaram de uma feijoada, e no Maracanã assistiram ao jogo Brasil e Portugal, com a presença de Pelé e Garrincha, dois novatos na Seleção Brasileira.

Missão cumprida, 21 dias após embarcam no navio Comandante Capela com destino a Ilhéus, numa viagem de seis dias. Em seguida, viajaram na carroceria de um caminhão até Camacan, e a partir daí uma picape os levou a Canavieiras. Entretanto, dos 10 que empreenderam a viagem de ao Rio de Janeiro, um deles não voltou, continuou na Guanabara. Na bagagem, nem uma foto, selfie, ou vídeo, só as lembranças contadas.

É que Waldir Souza, o Waldir de Roxinho, resolveu se engajar na Marinha do Brasil, com a permissão de seu pai. Músico, saxofonista, foi incorporado à Banda dos Fuzileiros Navais, agora como clarinetista, conforme as recomendações do maestro regente. E Waldir faz carreira como militar e músico, viajando, conhecendo o mundo, até sua baixa como oficial.

No Rio de Janeiro constitui família, criou os filhos, depois formados e com carreiras pós-tituladas, prontos para enfrentarem a vida. Reformado na vida militar, eis que Waldir retorna a Canavieiras, onde retoma a vida civil, suas obrigações familiares. Nas horas de folga, se encontra com os amigos no Bar Laranjeiras, no qual possui cadeira cativa, e em sábados pretéritos, quando ainda existia a Confraria d’O Berimbau, como confrade batia o ponto.

Esse é o feito de quem determinou e direcionou sua vida no propósito de seguir carreira, transitar na sociedade com distinção, fazer amigos por onde passou e cuidar bem de suas obrigações. E na última quarta-feira – 15 de outubro de 2025 – Waldir de Roxinho alcança os 89 anos de vida, sempre rodeado pelos amigos: os que aqui deixou em 1958, e os que construiu ao longos desses anos.

Parabéns, Waldir!

Walmir Rosário é radialista, jornalista e advogado e autor de  autor de livros como O Berimbau – Valhacouto de boêmios, disponível na Amazon.

Wilson Midlej lança "A Saga dos Sírios e Libaneses no Sudeste da Bahia" || Montagem Walmir Rosário
Tempo de leitura: 4 minutos

 

Wilson Midlej nos serve de cicerone nas viagens empreendidas pelos parentes e “brimos” para encontrar as terras do cacau, numa viagem nos navios até Ilhéus, onde muitos moravam.

 

 

Walmir Rosário

Os árabes – sírios e libaneses –, incluindo aí os povos egípcios e turcos, quando se encontram à mesa é uma festa gostosa sem data para acabar. Em meio às delícias de comer e beber, muitas histórias. E não falam somente das saudades sentidas da terrinha do outro lado do Oceano Atlântico, mas da felicidade que sentem em viverem no Brasil, sobretudo, de serem brasileiros.

Imaginem o sentimento do jornalista, escritor e advogado Wilson Midlej em contar as muitas histórias de sua família, que por motivos diversos, fincaram moradia permanente no Brasil, mais especificamente no Sudeste da Bahia. Mas como eles não vivem sozinhos, os “brimos” ganharam generosos espaços no livro A Saga dos Sírios e Libaneses no Sudeste da Bahia.

Se mais o irrequieto Wilson Midlej não contou foi motivado pela falta de informações verídicas, confirmadas por meio de documentos, ou viva voz dos que aqui aportaram e adotados num país distante, diferente em costumes e clima. Enfrentaram um mundo novo sem, sequer, falar uma palavra do nosso português, embora conhecessem o francês, inglês, árabe e outros idiomas.

E o nosso Autor não fez por menos e convidou o ilustre e festejado intelectual Sérgio Mattos, jornalista, escritor, poeta, mestre e doutor em comunicação, com assento em academias tantas. Do ofício conhece sobejamente, já que autor de 54 livros entre técnicos e ficção. E o livro sobre nossos amigos do Oriente Médio ganhou um luxuoso prefácio.

Sobre Wilson Midlej, Sérgio Mattos discorreu: “O jornalista, contista, romancista, historiador e empreendedor é um cidadão que não desiste de seus projetos e quando começa um novo desafio só quando termina a obra é que se dá por satisfeito. Dono de uma grande simpatia pessoal, com a qual soube construir um grupo de amigos diletos, além de determinação na realização de sonhos, neste livro, o quarto de sua autoria, ele assumiu o compromisso pessoal de resgatar a memória de algumas famílias de origem sírio-libaneses que se radicaram na Bahia, mais precisamente na região cacaueira”.

E no livro, tecnicamente elaborado e editado, o leitor viajará por terras inóspitas, mas vividas com intensidade dos que vieram para construir uma vida diferente, diria até que jamais imaginada. E souberam encarar com muita sabedoria, perseverança e fé em Deus, já que de maioria cristã Maronita.

E eram duas jornadas: a primeira com início no Oriente Médio, passando pela Europa e cruzando o Atlântico. A segunda, bem real, começava ao desembarcar do navio, em Santos, Rio de Janeiro ou Salvador. Passavam por exames de saúde, eram inquiridos sobre o que fariam, muitos trocavam seus nomes e eram orientados sobre como encontrarem seus familiares. Outros, nem tanto.

E Wilson Midlej nos serve de cicerone nas viagens empreendidas pelos parentes e “brimos” para encontrar as terras do cacau, numa viagem nos navios até Ilhéus, onde muitos moravam. Muitos deles mascateando embreados na Mata Atlântica que protegia as plantações de cacau; outros vivendo do comércio e serviços na cidade grande.

Os recém-chegados encontravam todo o apoio dos parentes ambientados e trabalhavam com afinco para fazer fortuna. Ilhéus e seus distritos prósperos, como Pirangy (hoje Itajuípe), Tabocas (atual Itabuna), Rapatição e Alfredo Martins (ainda Camamu), posterior distrito de Rio Novo (quando passou para Jequié), e em 1933 passou a ser chamado de Ipiaú, já elevado a município.

De mascates passaram a empregados e donos de lojas, e a cada dinheiro economizado passavam a investir em fazendas de cacau e pecuária. Influenciaram na cultura dessas cidades, na culinária, e mesmo quando faltavam ingredientes a sabedoria das senhoras era pródiga em substituí-los por produtos da agricultura brasileira.

Dentre os Midlej merecem destaque Elias Abraham e Vitória Koury, ele nascido em Kaituly, no Líbano, e ela egípcia. Conheceram-se em Alexandria (Egito). Já casados e com uma filha, Reymonde, e mais uma gravidez, resolveram se mudar para o Brasil, onde já moravam três irmãs, um irmão e uns primos de Elias. Em Salvador, desembarcaram na Ponta de Humaitá, em Montserrat.

E os então futuros avós do Autor, Wilson Midlej, rumaram para Ilhéus, se estabelecendo no distrito do Rio do Braço, empreendendo numa casa comercial, levada pela enchente de 1914. Com o dinheiro que restava se mudam para Ilhéus, e em seguida para Rio Novo. À época, a família contava com cinco filhos: Raymonde, Angel, Frederico, Jancy e Beatriz. Em seguida vieram Ibrahim, Vivaldo, Floripes e Fauze.

Além dos Midlej, o Autor também esmiúça as famílias Maron, Thiara, Hagge, Salomão, sendo que algumas delas se entrelaçam pelos municípios do Sul e Sudeste da Bahia, com destaque para Ilhéus, Itabuna, Ipiaú, Jequié, Itajuípe, Ibirataia, dentre outros. O livro é um romance histórico que nos prende na leitura, com surpresas e emoções.

E para quem pensa que os nossos desbravadores sírios e libaneses só se preocupavam em trabalhar, amealhar dinheiro e enriquecerem, estão enganados. Aqui eles estabeleceram um modo de vida típico brasileiro, sem esquecer a cultura de origem, seus costumes, sua rica culinária, com pratos deliciosos e receitas disponíveis neste livro.

E Wilson Midlej não deixou por menos e usou toda sua verve de exímio contador de histórias, a exemplo de livros anteriores: Crônicas da Bahia Sob o Sol de Jequié (2014), Gatilhos de Lembranças: a Eternidade do Tempo (2015), e Anésia Cauaçu – Lendas e Histórias do Sertão de Jequié (2017).

Walmir Rosário é radialista, jornalista e advogado e autor de  autor de livros como O Berimbau – Valhacouto de boêmios, disponível na Amazon.

Na Confraria d'O Berimbau Tyrone Perrucho observava a satisfação de todos e me abastecia de cerveja na cozinha. Na foto, com Walmir Rosário
Tempo de leitura: 4 minutos

 

Construí, mantive e mantenho um monte amigos de verdade, por todo o tempo. Alguns somem no caminho, por falta de alguma liga que cimentaria a verdadeira amizade. Coisa do passado. Mas não esqueçam que amigo é um bem muito caro.

 

Walmir Rosário

De há muito tempo a palavra amigo vem sendo descaracterizada e usada para nomear pessoas que nos batemos no dia a dia, embora não possuímos qualquer requisito de simpatia, confiança, ou quem sequer conhecemos. Às vezes nos referimos a alguém como amigo apenas para fazer uma pergunta e queremos mostrar educação ou alguma intimidade.

Na Canção da América, composta por Fernando Brant e Milton Nascimento, a coisa é mais séria e solenemente expõe: “Amigo é coisa pra se guardar/Debaixo de sete chaves/Dentro do coração…”. No Brasil o vocábulo amigo tem o mesmo poder de um canivete suíço nas mãos de quem se encontra no meio do mato sem cachorro e a usa como em mil e uma utilidades, como se fosse Bombril.

Em nenhum outro país deste mundão de Deus a palavra “amigo” é tão mal utilizada quanto no Brasil, quem sabe para mostrar aos cinco continentes que somos o povo mais bonachão na face da terra. Fora daqui, o brasileiro quebra a cara ao tentar dar um abraço em quem acabou de conhecer e apenas pediu uma simples informação.

Pelos manuais de convivência dos gringos deve ser observado um espaço regulamentar entre as pessoas desconhecidas, embora eu não possa precisar em centímetros. Em Amigo, Alexandre O’Neill destaca: “Mal nos conhecemos/ Inauguramos a palavra amigo!/ Amigo é um sorriso/De boca em boca,/Um olhar bem limpo”.

Existem os que afirmam que alguns amigos são mais que irmãos, pois não nasceram e nem conviveram no mesmo lar, filhos dos mesmos pais, mas que devem não apenas sorrir com a boca quando nos veem, e sim demonstrar com os olhos, quem sabe abrir os braços. Para um conhecido meu, a responsabilidade é tanta, que o amigo tem a mesma obrigação de um padrinho com o afilhado.

Outros, nos quais me incluo, são de opinião que amigos de verdade podem ser adquiridos num bar, desde que tenha a mesma qualidade de sua segunda casa, ou melhor, segundo lar. Os mais exaltados chegam a afirmar, categoricamente, que não se fazem amigos bebendo leite, líquido que não possui nenhuma substância capaz de atrair dois viventes entre a troca de palavras enquanto degustam uma cerveja.

No livro Crônicas de Boteco – um guia sem ordem, de nossa humilde autoria está estampado: “Um bom botequim tem que possuir requisitos essenciais para a volta do boêmio, seja no dia seguinte, no próximo fim de semana, ou quem sabe, muito em breve”.

Como diz a canção de Adelino Moreira tão bem interpretada por Nelson Gonçalves: “Boemia, aqui me tens de regresso/ e suplicando lhe peço a minha nova inscrição/ Voltei, pra rever os amigos que um dia/ Deixei a chorar de alegria/ Me acompanha o meu violão”.

E para reforçar, na mesma canção, até mesmo a mulher amada dispensa com o coração transbordando de amor as aventuras de encontrar os velhos amigos: “Acontece que a mulher que floriu meu caminho/ De ternura, meiguice e carinho/ Sendo a vida do meu coração/ Compreendeu e abraçou-me dizendo a sorrir/ Meu amor você pode partir/ Não esqueça do teu violão/ Vá rever os teus rios, teus montes, cascatas/ Vá cantar em novas serenatas/ E abraçar teus amigos leais”.

Como na música, mesmo sabendo que o boêmio andou distante, os colegas de botequim o acolhem com todo o carinho para matar a saudade do tempo de sumiço. Nada de gente falante a ironizar o afastamento, pois o que interessa mesmo é o retorno do companheiro de mesa, de pé de balcão, para, juntos, beberem novas e infinitas saideiras. Amigos de verdade, amigos do peito, como cantava a Turma do Balão Mágico.

Os amigos não esquecem um do outro. Mesmo que distantes não sossegam enquanto não se encontram. Não falo aqui do amigo de grupos de whatsapp, de conversa decorada, curta. Mas daqueles que Paulo Leminski cita no seu poema Amizade: “Meus amigos/ quando me dão a mão/ sempre deixam/ outra coisa/ presença/ olhar/ lembrança, calor/ meus amigos/ quando me dão deixam/ na minha/ a sua mão”.

De antemão aviso que olhares, sorrisos e gestos são os bens mais preciosos do que presentes materiais, estes esquecidos facilmente. Construí, mantive e mantenho um monte amigos de verdade, por todo o tempo. Alguns somem no caminho, por falta de alguma liga que cimentaria a verdadeira amizade. Coisa do passado. Mas não esqueçam que amigo é um bem muito caro.

Não poderia encerrar sem os gestos simples, consolidadores da amizade e que muitos nem chegam a notar. Um deles, que nos deixou com antecedência, Tyrone Perrucho, chegava ao extremo de observar as feições de todos os amigos da Confraria d’O Berimbau, para, com um simples olhar, descobrir quem por ventura não se sentia bem, satisfeito no momento.

E disso sou testemunha de quando me encontrava na prática do fogão ou churrasqueira, o amigo Tyrone Perrucho chegava sorrateiramente com um copo cheio de cerveja bem gelada e recomendava:

– Aproveite e beba, pois você está se prejudicado, sem beber nesse calorão. Aproveite a farra, pois Deus deixou as boas coisas para todos seus filhos –.

Gesto igual só partindo de um verdadeiro amigo!

Walmir Rosário é radialista, jornalista e advogado e autor de  autor de livros como O Berimbau – Valhacouto de boêmios, disponível na Amazon.

O movimentado escritório em Canavieiras já não funciona || Foto Walmir Rosário
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De quando em vez recebo telefonemas e mensagens de ceplaqueanos e pessoas de várias cidades reclamando do abandono do patrimônio da Ceplac.

 

Walmir Rosário

A tradição brasileira não recomenda a longevidade das instituições nacionais, mesmo que tenham uma gama de serviços prestados, devidamente comprovados, a exemplo da vetusta Ceplac. Convenhamos que comemorar 68 anos de existência é um feito um tanto, se ainda dispusesse do vigor de tempos pretéritos, quando exibia suas qualidades na área científica – pesquisa, extensão e ensino –, notadamente da cultura cacaueira.

O peso de anos é visto a olhos nus. Sua sede regional no sul da Bahia ainda ostenta as enormes construções de concreto aparente, um pouco carcomidas, é claro, mas com muitas histórias para contar. Ali está sediado o outrora maior centro de pesquisas de cacau do mundo, repleto de cientistas, pesquisadores de especialidades variadas, extensionistas, educadores, administradores, biólogos, engenheiros florestais, economistas, sociólogos, a elite regional.

A cada ano, em 20 de fevereiro, o aniversário era comemorado com festejos mil para exaltar o cumprimento das metas e o planejamento das próximas. A velha e decadente lavoura se tornou sadia, produtiva e batia seguidamente recordes de produção e produtividade. Neste período, a cacauicultura ganhou novas tecnologias e a região cacaueira da Bahia viveu a transição para o desenvolvimento.

Em cada cidade um escritório local, com engenheiros agrônomos e técnicos agrícolas estimulando e transferindo tecnologia, uma revenda de insumos agrícolas, enfim, toda uma estrutura administrativa. Em determinados pontos estratégicos foram implantadas as Emarcs (Escola Média de Agricultura da Região Cacaueira), além de estações experimentais, que cuidavam do acompanhamento das pesquisas.

Em seguida, o pujante órgão do cacau (como era chamado), assumiu parte do desenvolvimento regional, construindo o porto de Ilhéus, melhorando estradas vicinais, ampliando e implantação energia elétrica, telefonia, construindo escolas. Tornou-se um Estado dentro do Estado, este, o ente federativo, proporcionando uma visível melhoria na qualidade de vida da população como um todo e não apenas dos proprietários e trabalhadores da atividade cacaueira.

Até então a Ceplac – por incrível que pareça – era um órgão do Ministério da Fazenda. Com o passar dos anos e dos governos, a instituição cacaueira foi atrelada ao Ministério da Agricultura e teve que se adequar à nova realidade. Já deixara a condição de um órgão criado para a recomposição de dívidas dos cacauicultores e recuperação da lavoura para gerir apenas a pesquisa, extensão rural e ensino técnico.

Semanas atrás, numa crônica, publiquei a ação de grupos sem-terra que invadiram a Estação Experimental Lemos Maia, em Una, e outras duas (Joaquim Baiana, em Itajuípe, e a do Extremo Sul, em Itabela) já tinham sofrido esse dano. De quando em vez recebo telefonemas e mensagens de ceplaqueanos e pessoas de várias cidades reclamando do abandono do patrimônio da Ceplac.

As mais recentes foram do Escritório Local de Santa Luzia (Bahia) e de Jaru (Rondônia). Num vídeo à disposição na internet, o vereador de Jaru, Chiquinho do Cacau, mostra o prédio abandonado, cheio de lixo e mato, totalmente abandonado. E ele conclama a sociedade para que defenda a instituição, que foi e ainda pode ser muito importante para a economia de Rondônia.

Na publicação o vereador Chiquinho do Cacau, pergunta: “O que queremos para a Ceplac?”. E Ele mesmo cita a grande riqueza gerada pela Ceplac na área de pesquisa e extensão, ressaltando o seu patrimônio humano. “A Ceplac precisa de ajuda para continuar trabalhando, apresentando resultados, mas o que vemos é uma falta de respeito ao produtor rural”, reclama.

Um dos exemplos do abandono dos escritórios locais – fechados por falta de pessoal – podia ser visto em Itabuna. O prédio que abrigava a divisão regional e a extensão local, uma verdadeira obra de arte da arquitetura, ficou abandonado por muitos anos. Agora passa por obras, e pelo que soube, será cedido à Prefeitura de Itabuna. Antes estava sendo ocupado por viciados.

O de Canavieiras, há mais de 10 anos teria o mesmo destino, repassado à Prefeitura. Não sei o motivo dos empecilhos, o certo é que a cessão deu errado. Atendendo ao pedido do prefeito Almir Melo, elaborei um memorial sobre a péssima situação do prédio, relatando a situação com testemunho fotográfico, mas a Superintendência de Patrimônio da União não chegou a concretizar a transferência.

Agora, em setembro deste ano da graça de 2025, o prédio tem outro pretendente. Desta vez o candidato é o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), mas que até agora não recebeu as chaves, apesar de ser, também, uma instituição do governo federal. Quais os empecilhos apresentados não se tem o menor conhecimento. E a situação do prédio se agrava ainda mais.

A realidade é que não existem mais no antigo prédio da Divisão Regional e Escritório Local da Ceplac, em Canavieiras, sequer um engenheiro agrônomo, um técnico em agropecuária, um escriturário para atender aos agricultores. O prédio só não se encontra com as portas fechadas, pois um único remanescente da área operacional aguarda apenas o dia da tão sonhada aposentadoria para entregar as chaves.

Esses prédios se apresentam como fortes candidatos à destruição física pelo envelhecimento e à invasão, devido à atávica imobilidade dos órgãos do governo federal. Como diz o velho e corriqueiro ditado: “Faça por ti que eu te ajudarei”. Antes de pedir Deus na causa é preciso uma forcinha por parte dos órgãos e administradores da União.

Walmir Rosário é radialista, jornalista e advogado e autor de  autor de livros como O Berimbau – Valhacouto de boêmios, disponível na Amazon.