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Daniel Thame | www.danielthame.blogspot.com

Houve um tempo em que nos estádios de futebol as torcidas vestiam a camisa do time do coração e faziam tremular as bandeiras, entoando hinos de apoio ao clube e a seus ídolos. Um tempo em que ir ao estádio era um programa tipicamente familiar.

Era um tempo, também, em que se praticava o futebol-arte, de toques, dribles, lançamentos precisos e gols que, de tão bonitos, mereciam placas.

Vão longe esses tempos quase poéticos, em que Pelé, Garrincha, Didi, Rivelino, Falcão e Zico, só para citar os craques nacionais, desfilavam talento pelos gramados.

Da arte, sobraram lampejos perpetrados vez ou outra por um jogador extraclasse, cada vez mais raro, que insiste em romper as amarras de esquemas táticos que priorizam a força bruta.

E, por força de um espírito competitivo em que se joga para vencer ou vencer, a arte deu lugar à correria, à preparação física que transforma meninos talentosos em atletas-robôs.

Saiu a inspiração, entrou a transpiração.

Saíram os craques, entraram os guerreiros.

Sim, os guerreiros, que motivam até propaganda de cerveja e que transmutam, sem a menor sutileza, campos de futebol em campos de batalha.

Se o que temos é batalha campal, guerra pelo resultado positivo, nada mais natural que esse espírito guerreiro se espalhasse para as arquibancadas.

E se espalhou mesmo.

O torcedor espontâneo, apaixonado pelo time, deu lugar às chamadas torcidas organizadas, verdadeiras facções que se dirigem aos estádios como quem se dirige a uma guerra, onde é preciso abater o inimigo a qualquer preço.

Nada de apitos, buzinas, fogos de artifício.

Pedaços de pau, barras de ferro, bombas de fabricação caseira e revólveres compõem o kit-guerreiro. Um verdadeiro arsenal, para ferir e, se for o caso, matar o inimigo.

No futebol guerreiro, a guerra se dá em todas as frentes.

Alex Furlan de Santana, 26 anos, é a mais recente vítima dessa guerra. Ele foi baleado na cabeça durante um confronto entre torcedores do São Paulo e do Palmeiras. Outras 12 pessoas saíram feridas.

Em tempo: em campo, os guerreiros do Palmeiras venceram os guerreiros do São Paulo por 2×0.

Mas quem se importa com isso?

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W. S. O. e J. S. S. não são apenas duas iniciais, embora seja melhor que continuem  conhecidos assim, para poupá-los de novos constrangimentos.

Porque, de constrangimentos e de privações W. S. O. e J. S. S. já devem estar cheios.

W. S. O. e J. S. S. são feitos de carne, osso e alma.

Talvez mais osso do que carne, talvez nem liguem para essa coisa de alma ou nem tenham tempo para se preocuparem com isso, dadas as necessidades menos transcendentais e mais reais de suas vidas.

W. S. O. e J. S. S. são dois meninos de Itabuna, meninos da Bahia, meninos do Brasil.

Meninos de um mundo absurdamente desigual.

W. S. O. e J. S. S. cresceram num meio em que lhes falta tudo, da comida que sacia a fome aos serviços básicos que garantem uma existência digna.

Integram aquela legião que a estatística aponta como excluídos sociais. Exclusão que uma considerável parte da população brasileira traz no código genético, passando de pai para filho, ainda que seja necessário destacar a validade de programas como o Bolsa Família, porta de acesso para que milhões de brasileiros rompessem a barreira da miséria absoluta e adentrassem, mesmo que de forma modesta, ao planeta cidadania.

Infelizmente esse não é o caso de W. S. O. e J. S. S., detentores da Bolsa Miséria e habitantes do planeta fome.

W. S. O. e J. S. S. são exemplos de que ainda há muito que ser feito, um longo caminho a ser percorrido para que eles e seus colegas de infortúnio deixem de ser apenas estatística.

Ou iniciais que impedem suas identificações.

Poderiam ser Wilson e João, por exemplo, colegas de escola e de time de futebol, filhos de dona Maria e seu José e de dona Antonia e seu Pedro, trabalhadores que moram num bairro onde existe saneamento, lazer, escola de qualidade e posto de saúde que funciona de verdade.

Mas são apenas W. S. O. e J. S. S., que além de engrossarem a estatística da exclusão social, agora engrossam também a estatística de menores que cometem ato infracional.

Na noite de quarta-feira, W. S. O. e J. S. S. foram apreendidos pela Polícia Militar e encaminhados ao Complexo Policial de Itabuna.

O “crime” que eles cometeram: furtar comida, brinquedo e material escolar num supermercado do Shopping Jequitibá.

Para alguns, W. S. O. e J. S. S. estavam pisando no primeiro degrau da escada da criminalidade.

Idiotice pura.

W. S. O. e J. S. S., ao pegarem comida, brinquedo e material escolar sinalizaram apenas as necessidades básicas de que eles foram privados.

Caso efetivamente subam novos degraus nessa escalada infame, a culpa é menos deles e mais de quem deveria zelar para que meninos e meninas como eles tenham presente e tenham futuro.

Um presente e um futuro que lhes está sendo roubado.

Quem é mesmo o ladrão nessa história?

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Daniel Thame é jornalista e blogueiro

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Por força da circunstância, Agulhão F. adiou a sequência da prometida série de perfis políticos sul-baianos (veja aqui).

“Como ninguém fala em outra coisa, a não ser as besteiras de Caetano Veloso (aliás, um especialista no tema), vamos nessa”, justificou-se. E cutuca: “Peço-lhe que adie a safadeza dos políticos e fiquemos no, digamos assim, plano musical”.

Fato é que o rebento de Agulhão faz uma análise antropo-político-fofoqueiro-sociológica e conclui que o ódio de Caetano Veloso a Lula é uma simples e banal questão genética. “Só quem presta ali é a professora Mabel, mas ainda espero encontrar alguma coisa contra ela”, diz o cruel epigramista, muito isento, já se vê.

A seguir, a opinião, “dedicada ao Mano Cae e ao companheiro Daniel Thame”:.

Coisa muito complicada
é a família Veloso:
Bethania é desafinada,
Caetano preconceituoso…
.
Quando ACM encontrava,
a velhinha mãe do clã
quase que se comportava
como tresloucada fã!…
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Só  Mabel ali eu salvo,
sangue bom, não tem defeito…
Mas uma coisa eu ressalvo:
não a conheço direito!…
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Daniel Thame | www.danielthame.blogspot.com

De “herança maldita” convencionou-se chamar aquela situação em que um presidente, governador ou prefeito que assume o cargo e se depara com dívidas monumentais e o patrimônio público sucateado, o que praticamente impede a realização de obras e outros investimentos. 

Serve tanto para mostrar o quão irresponsáveis são alguns de nossos administradores, como também como uma bela desculpa para não trabalhar, desviar dinheiro e, num moto-contínuo da politicalha, deixar uma nova herança maldita para o sucessor.

A expressão “de pai para filho” nos remete aos empreendimentos de tradição familiar, geralmente bem sucedidos, que passam de geração a geração e em que o sobrenome tem o mesmo peso da marca da empresa.

Serve para mostrar a solidez de uma família e de uma empresa, que graças a esse lastro, é capaz tanto de resistir às crises eventuais, como se adaptar os novos modelos empresariais, de competição feroz e mercados globais.

Pois, num bairro da periferia de Itabuna, o paupérrimo e esquecido Novo Horizonte (cujo horizonte dos sofridos moradores é quase nenhum), os conceitos conhecidos de “herança maldita” e “de pai para filho”, foram subvertidos de forma trágica.

Troque-se apenas o “de pai para filho” para o “de irmão para irmã” e temos o que se pode chamar, no sentido literal da palavra, de herança maldita.

Como nas melhores casas do ramo, Maria Fernanda dos Santos, a Nanda, de 27 anos, herdou o negócio, bastante rentável ao que parece, do irmão José Fernandes dos Santos, o Bida, de 30 anos, assassinado no ano passado num entrevero com a polícia.

O infortúnio do irmão fez com que a jovem Nanda se apossasse do negócio do irmão, na verdade um empreendimento nada ortodoxo, um concorrido ponto de venda de drogas.

No jargão da reportagem policial, Nanda virou a “Rainha do Tráfico” no Novo Horizonte, uma rainha sem trono e sem coroa, sentada sobre um barril de pólvora.

Que, como não é raro nesse negócio lucrativo, mas extremamente disputado, explodiu.

Seguindo a sina do irmão, Nanda também foi assassinada, não pela polícia, mas provavelmente numa disputa entre traficantes.

Seu corpo foi encontrado num campinho de futebol no São Lourenço, outro bairro onde, na ausência do poder público, o crime impõe o terror aos moradores, gente de bem e trabalhadora obrigada a conviver com o medo e a violência. 

Nessa tragédia familiar e ao mesmo tempo coletiva que é o mundo das drogas, a herança maldita de Bida para Nanda, que passou de irmão para irmã, se resumiu a uns poucos palmos de terra num túmulo mulambento de um cemitério qualquer, sem direito a choro nem vela.

Esse é um mundo em que reis e rainhas, que na verdade não passam de peões pobres coitados, vêem a majestade virar pó ou fumaça num piscar de olhos.

Ou num apertar do gatilho! 

Daniel Thame é jornalista e blogueiro

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Descoberta/ocupada pelos portugueses em 1500, redescoberta pelos hippies no final da década de 1970 e ocupada pelos ricos e famosos de todo o mundo a partir da década de 1990, Porto Seguro sempre foi cantada em prosa e verso como a versão terrena do paraíso divino prometido por Deus, depois que Seu Magnífico Esforço de Seis Dias, a criação da Terra, apresentou, digamos, falhas de projeto por conta daquela que parecia ser sua obra-prima: o ser humano.

Terra mágica, de belezas naturais estonteantes e de um astral capaz de relaxar o mais renhido dos estressados, Porto Seguro se transformou num dos principais pólos turísticos do país e ganhou até um aeroporto de padrão internacional, privilégio reservado a poucas cidades de seu porte e que dá bem uma idéia de sua importância.

De pousadas baratas a hotéis ultra-estrelados, Porto Seguro virou uma espécie de Meca do turismo de todos os níveis sócio-econômicos e onde todos convivem na mais perfeita harmonia, seja nas praias sempre lotadas, nos shows que parecem não acabar nunca e nos carnavais que rompem as datas oficiais e duram quase duas semanas.

Porto Seguro de todos os sotaques, todos os idiomas, das lojinhas de artesanato e das lojas de grife, dos restaurantes das comidas simples e baratas e dos estabelecimentos de cozinha internacional e preços na estratosférica.

Enfim, Porto Seguro que é sinônimo de alegria.

Pois é essa cidade-paraíso (pelo menos para quem a visita e não necessariamente para quem reside lá) que foi manchada de sangue pelo brutal assassinato de Álvaro Henrique Santos, de 28 anos.

Álvaro era presidente do Sindicato dos Professores de Porto Seguro e foi vítima de uma emboscada. Levou um tiro na cabeça, chegou a ser transferido para Salvador, mas não resistiu aos ferimentos.

Na mesma emboscada, morreu outro professor, Elisney Pereira, de 31 anos.

O líder sindical foi atacado num sítio pertencente à sua mãe, feita refém pelos bandidos. A polícia descarta a hipótese de tentativa de assalto e trabalha com a possibilidade de atentado.

Álvaro Henrique Santos comandava uma campanha salarial em Porto Seguro, com ampla mobilização da categoria, que pela primeira vez conseguiu se organizar para reivindicar melhores salários e condições dignas de trabalho.

O presidente do Sindicato dos Professores foi vítima de uma violência inaceitável que se torna ainda mais absurda se for comprovado que ele morreu por conta de sua militância em defesa dos companheiros de profissão.

Não é o caso de transformar o professor Álvaro num mártir, porque é preferível mil vezes o batalhador vivo do que o herói morto.

É o caso, isso sim, de apurar esse crime com rigor e punir não apenas os assassinos, mas também e principalmente os mandantes.

A cidade que tanta gente que aprendeu a gostar não pode se transformar num paraíso de impunidade, um faroeste sem lei.

Que se faça justiça, pois!

Daniel Thame é jornalista e blogueiro

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Daniel Thame

São 8:45 minutos numa sala de aula de uma faculdade em Itabuna. Os alunos estão impacientes. Nada a ver com a complexidade do assunto abordado ou com a prova difícil na próxima aula.

A impaciência é em função do início da novela, que está nos capítulos finais. Na impossibilidade de se chegar em casa, a televisão da cantina será proverbial.

O mocinho da novela, que morreu mas não morreu  na explosão de um trem, após descobrir que seu filho não era seu filho, vai continuar com a mocinha sofredora, que começou a novela amando um intocável e depois se tocou que o melhor era amar alguém que poderia tocá-la todos os dias?

A vilã da novela, tão má quanto bonitinha, vai pagar pelos seus incontáveis crimes ou dará um jeitinho de se safar da cadeia para aplicar novos golpes?

O empresário que também morreu mas não morreu para poder fugir para Dubai e  ficar com a grana que desviou da empresa da família e depois se arrependeu, receberá o perdão dos que lesou?

São 13:30 minutos num restaurante de Cruz das Almas. Um grupo de cinco pessoas, todos servidores do estado, almoça e conversa animadamente. O assunto não é a greve dos professores nem a explosão de violência em Salvador.

É o final da novela.

A professorinha frágil abrirá mão de uma pós-graduação na Inglaterra para se casar com o namorado esquizofrênico, que acredita que Michael Jackson está vivo, que um time do Rio de Janeiro será campeão brasileiro de 2010 e que Sarney é vítima de perseguição da imprensa?

O empresário que morreu mas não morreu para poder ficar com a grana que desviou da empresa da família e depois se arrependeu, receberá o perdão dos que lesou?

São 16:15 minutos num posto de gasolina nas proximidades de Gandu. O frentista discute acaloradamente com o gerente. Nada a ver com as obras de recuperação da rodovia BR-101 ou com os caminhoneiros que insistem em arriscar a própria vida e a vida dos outros tomando “bolinha” para esticar a jornada de trabalho.

De novo, o assunto é o final da novela.

O guarda de trânsito corno que perdoou a mulher fogosa, que não vale nada, mas ele gosta, continuará tendo dificuldades em passar pela porta e usar boné?

Que destino terão  as criancinhas que passaram a novela toda fazendo aquela dancinha ridícula? Irão se apresentar na “Dança dos Famosinhos” no Domingão do Faustão ou serão atiradas nas águas sagradas do Rio Ganges, aonde em vez de irem para o brejo as vacas tomam banho?

Situações como as registradas em Itabuna, Cruz das Almas e Gandu se repetem em todas as partes do País, como se os personagens da novela fizessem parte da vida cotidiana cada um de nós.

Os bons são amados, os vilões são odiados e o final feliz, com casamentos, criancinhas nascendo e beijos apaixonados, é ansiosamente aguardado.

Enquanto isso no núcleo pobre da vida real os pobres continuam morando em bairros sem infra-estrutura, com transporte, educação e saúde precários, correndo atrás de empregos improváveis.

No núcleo rico, os ricos continuam desfrutando as delícias de serem ricos, mesmo que á custa da pobreza do núcleo pobre.

No núcleo marginal, os marginais impõem a lei do terror, o tráfico manda e desmanda e a polícia não passa nem perto, tão desaparelhada que está.

E no núcleo político, os políticos continuam legislando em benefício próprio, desfrutam de mordomias que o núcleo pobre nem sonha em desfrutar e surfando nas ondas da impunidade, pois sabem que sempre terão um final feliz.

Mas, cá pra nós, quem é que está preocupado com a novela da vida real, com tantos caminhos e descaminhos (das índias) da novela da vida irreal?

FIM

Daniel Thame é jornalista e blogueiro

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