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Leandro Afonso | www.ohomemsemnome.blogspot.com

Exibido em impecável cópia digital (o que é difícil de acontecer e acreditar), Uma Noite em 67 (idem – Brasil, 2010), de Renato Terra e Ricardo Calil, é um filme que se apresenta tão generoso quanto apaixonado pelas imagens do festival que retrata. É um filme que nasce inevitavelmente velho e datado, mas sem a impressão de que isso seja ruim. Por outro lado, a paixão e o respeito que cativam são os mesmos que, aparentemente, assumem o protagonismo ao prejudicar o ritmo e fazer o filme flertar com um mais do mesmo que beira ou atinge a monotonia.

Temos aqui o último dia do festival de 67, que incluiu, entre outros, Chico Buarque, Roberto Carlos, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Edu Lobo, Sérgio Ricardo e Os Mutantes. São longos períodos sem cortes, músicas executadas e reexibidas na íntegra, com introdução e aplausos/vaias incluídos.
Os depoimentos atuais são, digamos, submissos ao passado. (Bem diferente, por exemplo, de Filhos de João, de Henrique Dantas, documentário sobre os Novos Baianos onde a importância maior é do presente e dos casos e causos contados.) O filme não é o que ele conta, mas o que já foi contado, aqui acrescentado de uma ou outra nuance atual – e projetado em tela grande.
Nesse ponto, a atitude é tão humilde quanto louvável. Não temos, hoje em dia, nem uma televisão com tamanha ousadia, nem plateia tão ensandecida. Pode-se falar, com razão, em público mal educado, mas a falta de educação que existiu em alguns momentos era também símbolo de um caráter crítico e apaixonado daqueles ali presentes.
Os momentos eram outros, vigorava a ditadura, mas também era uma época em que ser um músico sorridente e carismático não significava, necessariamente, ser imbecil.
É verdade, todavia, que o ritmo do filme se perde, até porque é complicado manter a toada quando grandes blocos são entrecortados com depoimentos que vão de poucas frases a divagações grandes – os 85 minutos parecem muito mais.
Ainda assim, um mérito gigantesco de Uma Noite em 67 é exibir uma força descomunal que já teve a música popular (e em escala menor, até a TV) brasileira. Formada por pessoas que, como filmadas, não são mitificadas (até porque não mais precisam, em alguns casos), e se mostram de carne, osso, talento e imperfeições. São, como merecem, respeitadas. Como o passado e o que fizeram, o que o filme mostra com tanta modéstia quanto orgulho.

Visto no Cinema da Ufba – Salvador, agosto de 2010.

Filmes da semana

1. Antes que o Diabo Saiba que Você está Morto (2007), de Sidney Lumet (DVD) (***1/2)
2. Uma Noite em 67 (2009), de Renato Terra e Ricardo Calil (Cinema da Ufba) (***)
3. À Prova de Morte (2007), de Quentin Tarantino (Cinema da Ufba) (****1/2)
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Leandro Afonso é comunicólogo, blogueiro e diretor do documentário “Do goleiro ao ponta esquerda”.

<p style=”text-align: center;”><a href=”http://www.pimentanamuqueca.com.br/wp-content/uploads/70-MM2.jpg”><img title=”70 MM” src=”http://www.pimentanamuqueca.com.br/wp-content/uploads/70-MM2.jpg” alt=”” width=”559″ height=”95″ /></a></p>
<p style=”text-align: center;”><a href=”http://www.pimentanamuqueca.com.br/wp-content/uploads/Final-3.jpg”><img class=”aligncenter size-full wp-image-30092″ title=”Final 3″ src=”http://www.pimentanamuqueca.com.br/wp-content/uploads/Final-3.jpg” alt=”” width=”42″ height=”13″ /></a></p>
<p style=”text-align: center;”>
<p><strong>Leandro Afonso</strong> | <a href=”http://www.ohomemsemnome.blogspot.com”>www.ohomemsemnome.blogspot.com</a></p>
<p><em><img class=”alignright” src=”http://roteiroceara.uol.com.br/wp-content/uploads/2009/09/BLOG2_viajo_porque_preciso_volto_porque_te_amo_cultura.jpg” alt=”” width=”368″ height=”182″ />Viajo porque preciso, volto porque te amo</em> (<em>idem</em> – Brasil, 2009), de Karim Aïnouz (<em>O Céu de Suely</em>, <em>Madame Satã</em>) e Marcelo Gomes (<em>Cinema, Aspirinas e Urubus</em>), é um <em>road-movie </em>experimental (também por isso inevitavelmente irregular) que tem de melhor o que de melhor seus dois diretores podem oferecer – especialmente Aïnouz. É um filme em um meio, o semi-árido nordestino, e sobre sentimentos – carinho, amor, rejeição – já visitados por ambos, mas trata também e principalmente das divagações e aflições do personagem principal.</p>
<p>Faz sentido dizer que a maioria dos planos de <em>Viajo porque preciso…</em> não tem significado concreto ou função narrativa. Do mesmo modo, praticamente tudo aquilo que visa o horizonte e paisagens afins dura mais que o que o plano de fato mostra – mas esses fatos são menos um demérito que uma defesa da contemplação. E ainda que muitas vezes simplesmente não haja o que ser contemplado, faz parte do personagem esse sentir-se parado – a agonia e o tédio do personagem chegam a nos atingir, às vezes, sem eufemismo algum</p>
<p>Em filme que se assume tão ou mais experimental quanto narrativo, temos aí, no entanto, talvez – e paradoxalmente – uma tentativa de evitar uma monotonia que a ideia do filme sugere. Quase tudo não acontece em cena, mas na cabeça do personagem principal, a escrever suas cartas – trata-se de um filme epistolar de mão única. Como, então, filmar isso – algo tão ligado a um diário, algo a princípio tão anti-audiovisual?</p>
<p>Não temos uma resposta, mas uma opção arriscada, na qual os melhores momentos vêm de depoimentos (prostituta falando em vida-lazer, por exemplo), quando percebemos que os dois souberam extrair uma sinceridade tocante que emana daqueles que dirigem. Isso sem falar do personagem como entrevistador/provocador, em situação que nos liga inevitavelmente a ele fazendo o papel de diretor.</p>
<p>Esse caráter experimental, contudo, pode camuflar desnecessários tremeliques de câmera ao mostrar o personagem em meio à sua jornada, uma vez que não dá para chamar de experimental (ou dar qualquer mérito aqui) o que já virou um quase padrão – a câmera na mão nos dias de hoje.</p>
<p>Ainda assim, vale dizer que os altos do filme atingem um nível de sensibilidade que vem, entre outras coisas, justamente dessa abstração da narrativa convencional: da por vezes completa imersão em um mundo acima de tudo sensorial. Torto, talvez fatalmente torto, talvez o mais fraco trabalho de ambos, mas com momentos de coragem e brilhantismo bem-vindos.</p>
<h2><span style=”color: #800000;”>8mm</span></h2>
<p><strong>Paixão do visível</strong></p>
<p style=”text-align: left;”><em><img class=”aligncenter” src=”http://harpymarx.files.wordpress.com/2009/03/sylvia2.jpg” alt=”” width=”480″ height=”270″ />Na Cidade de Sylvia</em> (<em>En La Ciudad de Sylvia</em> – Espanha/ França, 2007) é meu primeiro contato com José Luis Guerín, catalão que teve três de seus longas exibidos no Panorama Internacional Coisa de Cinema. (Alguém sabe falar sobre?)</p>
<p>Guerín se mostra preocupado com a cidade, às vezes mais que com seus dois personagens principais, ou – o que pinta com alguma prioridade – as relações entre personagens diversos e o lugar onde vivem. No entanto, a busca dele (Xavier Lafitte) por ela (Pilar López de Ayala) é interessante a ponto de causar angústia quando algo foge do esperado. Ele desenha e retrata a cidade, é ele o mais afetado e sobre quem é o filme, é ele que não sabemos de fato o que sente, viveu ou viu; mas é ela que magnetiza a tela quando aparece.</p>
<p>Todavia, e felizmente, o filme vai além da contemplação de um sensacional rosto de uma boa atriz. Pode-se entrar em longas discussões e análises sobre memória e imagem, sobre miragem e dúvida; em uma palavra, sobre cinema. E, o que é melhor, através do cinema.</p>
<h2><span style=”color: #800000;”>Filmes da semana<br />
</span></h2>
<ol>
<li><strong>Viajo porque preciso, volto porque te amo (2009), de Karim Aïnouz e Marcelo Gomes (Cine Vivo) (***)</strong></li>
<li><strong>Batalha no Céu (2008), de Carlos Reygadas (sala Walter da Silveira) (***1/2)</strong></li>
<li><strong>O Refúgio (2009), de François Ozon (Espaço Unibanco – Glauber Rocha) (***)</strong></li>
<li><strong>O Profeta (2009), de Jacques Audiard (Espaço Unibanco – Glauber Rocha) (***1/2)</strong></li>
<li>O Demônio das 11 Horas (1965), de Jean-Luc Godard (DVDRip) (****)</li>
<li>Na Cidade de Sylvia (2007), de José Luis Guerín (DVDRip) (***1/2)</li>
</ol>
<p>______________</p>
<p><strong>Leandro Afonso</strong> é comunicólogo, blogueiro e diretor do documentário “Do goleiro ao ponta esquerda”.</p>
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Gil, em Jequié, faz crítica a preconceito religioso (Foto Divulgação).

Vera Rabêlo

Em tom professoral e apropriadamente indignado, Gilberto Gil mandou um recado para evangélicos de Jequié durante show no palco principal do São João, sábado (26), dia do seu aniversário de 68 anos.

Os religiosos haviam protestado contra o nome da festa “São João Xangô Menino”, homônimo de uma música de Caetano Veloso, pela clara alusão a um dos orixás do Candomblé. No final do show, parabenizando os organizadores do evento, Gil, adepto da religão afrodescendente, devolveu o protesto:

– Isso é uma ignorância, um preconceito inconcebível. Essa gente precisa aprender a respeitar a religião alheia. Deus já existia antes de todas as religiões. É Uno. É Todo Poderoso. E não uma parte para uma minoria preconceituosa se dizer dona dele. Vocês chegaram com Deus agora no mundo é?

Gil foi aplaudido com entusiasmo, até mesmo pela improvável presença de evangélicos no meio do “furdunço”, já na madrugada do domingo (27). E completou: “Muito antes de nós termos nascido, Xangô já era São João nesta terra”. Acompanhe em vídeo parte da cutucada do músico baiano:

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QUEM AINDA LÊ GILBERTO AMADO?

Ousarme Citoaian

Dia desses falamos aqui, incidentalmente, em Gilberto Amado – por extenso, Gilberto de Lima Azevedo Souza Ferreira Amado de Faria (foto). Ensaísta, cronista, romancista, memorialista político, diplomata, GA, da Academia Brasileira de Letras (ABL), é um desses escritores que ninguém mais lê. Igual a Afrânio Peixoto e Graça Aranha. Nascido em Estância/SE, Gilberto foi o primeiro de uma prole de 14 filhos do casal  Melchisedech Amado de Faria e Ana Amado, a Donana (quem neste mundo ainda se chama Melchisedech?). A família teve outros intelectuais: os irmãos Genolino (também da ABL), Gildásio e Gílson, além dos primos James e um certo Jorge  Amado. Pois é: Gilberto é sobrinho de João Amado de Faria, pai de Jorge.

SEU MELCHISEDECH E O “G”

Pôr na filhara nomes com a inicial G era direito de que seu Melchisedech (foto) não abdicava. Conta-se que, ao nascer mais um rebento, o velho esfregou as mãos, de contente. “É mais um com G”, comemorou. Aí, a surpresa: a mulher lhe disse que, devido a uma dificuldade na gravidez, fizera a promessa de que dariam ao filho o nome de José. Seu Melk ficou inconsolável, mas não desistiu do intento. Pensativo, mediu a sala do casarão em passos largos durante toda aquela manhã e no começo da tarde entrou no quarto de Donana, já com a solução em punho. “Ana, vamos botar nele o nome de José, sim, mas em italiano!”. Batizado e registrado como Giusepe Amado, o novo sergipano passou a reforçar o time do G.

JUSSARI QUASE VIRA “GILENÓPOLIS”

Antes que perguntem, não sei os nomes dos 14 filhos (há quem diga que são 15) de seu Melk e Donana. Só Gilberto, Genolino, Gentil, Gildásio, Gildo, Gennyson (o caçula), Giusepe, Genoline (que morreu aos sete anos), Gillete e Genne.  Deixei por último, de propósito, um que se fez político famoso no Sul da Bahia, a partir de Itabuna: Gileno Amado, que por pouco não ligou seu nome ao município de Jussari (foto) – que passaria a se chamar… Gilenópolis! A frase que citei de Gilberto foi “não escrevo sem dicionário” (por algum tempo, pensei que fosse minha!). Mas há outra, ótima, a propósito de chatice: “chato é aquele sujeito que nos rouba a solidão sem nos fazer companhia”. Gilberto Amado definiu, soi-disant, Jararaca Ensaboada.

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DE SONHOS E PESADELOS

Noite dessas, após jantar exageradamente, recolhi-me ao leito, na expectativa de sonhos impublicáveis. Imaginava que Morfeu me presentearia com a vizinha do 6º andar, ou, na hipótese menos otimista, com Anamara Brito (foto). Antevendo um mar de bandalheiras noite adentro, adormeci, tendo nos lábios um sorrizinho prenunciador de safadezas mil. Vã esperança, traumatizante experiência. Ia alta a madrugada, quando fui surpreendido por estranhíssimo sonho: visitou-me a vizinha, mas, antes que algo relevante entre nós ocorresse, ela – tão rapidamente quanto surgiu – esfumou-se, desapareceu no ar, escafedeu-se, dando lugar a uma figura a princípio indefinida, mas que logo se materializou: era a ex-PM Anamara Brito, inteiramente desfardada, se é que vocês sabem do que estou falando…

JOTAÉ ATACA EM ALTA MADRUGADA

“Maravilha!” – pensei com os botões do pijama – calculando que, mesmo sem a vizinha difícil, eu ainda estava em alto lucro. Mas o inesperado me fez uma surpresa, mudando o sonho em pesadelo: em meio a meus planos maquiavélicos envolvendo a ex-policial, eis que ela, por artes e manhas que nem o velho Freud explicaria, se transformou em… Jararaca Ensaboada! E esta, multiplicada por dois em altura, largura, peso e más intenções, danou-se a me abraçar, beijar, apertar e lamber, com tamanho estoque de descarações que me fez despertar transido de pavor, já a cama em feitio de lagoa, tantos eram os suores. Quando abri estes olhos cansados, estava em desabalada carreira em direção à janela, acho que na busca de socorro urgente. Com a luz do sol nascente, dissipou-se o delírio e ficou-me uma decisão radical: doravante, à noite, só comida leve.

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BIZARRO: GENTIL, NOBRE, GARBOSO

“Como vai essa bizarria?” – perguntava Olavo Bilac a Emílio de Menezes (foto), na rua do Ouvidor, em 1920. Bizarria é qualidade de quem é bizarro, sabemos, mas o poeta parnasiano, ao se dirigir ao colega nestes termos, não queria ofendê-lo. Ao contrário: bizarro (está nos dicionários) é “gentil, nobre, generoso, bem-apessoado, bem-parecido, garboso, vestido com elegância, alto e esbelto, elegante e loução, generoso e liberal”. E também “fanfarrão, jactancioso, extravagante, esquisito e excêntrico”. Curioso é como bizarro perdeu todo o seu poder de agradar, restando-lhe somente a raspa dos dicionários, a face pior do termo. Os jovens, se vêem um sujeito com uma melancia pendurada no pescoço, umas roupas estranhas, cabelo idem e sapatos de duas cores logo o rotulam: bizarro.

SUPRASSUMO DO MAU GOSTO

As palavras têm vida própria. Nascem, se desenvolvem, envelhecem e morrem no descaso das novas gerações. É o caso de bizarro, que não tem, em nossos dias turbulentos, o mesmo sentido que se lhe davam poetas, prosadores e o povo em geral no início do século XX. O termo se transformou, de sorte que a imensa maioria dos falantes do português (no Brasil, ao menos) associa bizarro a ofensa. Na acepção hipoteticamente usada por Bilac (foto) ele hoje é um arcaísmo, uma velharia. Há muitos outros que a turma passada dos 40 aninhos ainda se lembra. Por exemplo, teteia (mocinha atraente, delicada, mimosa – segundo a média dos dicionários). Se eu dissesse à vizinha do 6º andar que ela é uma teteia, aí sim, teria a certeza de ser  ignorado até o fim dos tempos. Antes, teteia era o suprassumo do elogio; hoje, do mau gosto.

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UM CHUTE EM JOÃO MANGABEIRA

O PSB demorou a se pronunciar sobre o assassinato de professores em Porto Seguro, e quando o fez mostrou ter perdido a oportunidade de permanecer calado. Em nota “manifesta, de público, sua recusa em qualquer conivência com qualquer tipo de crime contra a vida e contra o patrimônio público”. Apesar da frase mal construída, percebe-se que o partido nega cumplicidade (”conivência”) com os crimes contra a vida e o patrimônio. É pouco.  O cidadão medianamente informado conhece, até porque muito os vê praticados, vários tipos de crime: contra a vida e o patrimônio público, sim, mas também contra a honra, a dignidade sexual, o meio ambiente, o patrimônio histórico, a administração da justiça, a economia popular… Como foi escrita a nota (“quem não sabe rezar…”), fica a impressão de que, tirando o patrimônio público e a vida, outro tipo de crime… pode!  O aguerrido João Mangabeira (foto) está subindo pelas paredes da tumba.

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A “VINGANÇA” DE LENY ANDRADE

Leny Andrade (foto) não gosta de ser chamada de jazz singer. “Sou uma cantora de música brasileira”, reagiu certa vez ao comentário de um jornalista americano. Mas não se pode negar em seu fraseado a influência (benéfica) das grandes vocalistas do jazz. No fim dos anos noventa, esteve em nossa região, para um show no Teatro de Ilhéus, quando, com seus maravilhosos scat singings, não conseguiu encher mais de um quarto do recinto. Vingou-se. Subiu num avião e, quatro dias depois, apresentou-se no Carnegie Hall, em Nova Iorque, tendo na primeira fila, a bater palmas para ela, um senhor chamado Tony Benett. Nada mau para uma cantora branca.

JOHNNY ALF, UM MESTRE DA MPB

O pianista, cantor, compositor e mestre da MPB Johnny Alf (foto), nome artístico do carioca Alfredo José da Silva, morreu na quinta-feira, dia 4, em Santo André-SP, aos 80 anos. Ele estava submetido a quimioterapia contra um câncer de próstata, há seis meses. Rotulado como “precursor da bossa-nova”, Alf foi bem mais do que isso, atuando durante mais de meio século e influenciando a MPB contemporânea. Sua Ilusão à toa, composta nos anos cinquenta, é um clássico que já inspirou Ronaldo Bastos e Lulu Santos (Um certo alguém) e Caetano Veloso (Amor mais que discreto).

“SEU NOME EU NÃO DIGO”

“Ilusão à toa” teve gravações de Elis Regina, Gal Costa, Alcione, Leila Maria (foto), Eliseth Cardoso, Caetano, Gilberto Gil e outros. Na letra codificada, uma situação é sugerida, mas não esclarecida. Por deixar no ar o sentimento de que “o seu nome eu não digo” – o tema é muito festejado pelo universo homossexual. Tanto que foi incluída no CD Canções de amor de iguais, de Leila Maria (compositora, em 1997, de Bom é beijar, que tem versos como bom é beijar, não importa se é cavalheiro ou dama.

MINHA CANÇÃO PREFERIDA

Voltando às preferências sexuais consideradas “ortodoxas” (ou “caretas”?), devo dizer que dentre as canções que sei de Johnny Alf (Duas contas, Eu e a brisa, Rapaz de bem…) Ilusão à toa é a minha preferida. Sozinho, entre quatro paredes, faço dela minha trilha sonora com a vizinha do 6º andar, aquela que passa e não me olha, sem saber que, apesar de tudo, a mim me apraz essa ilusão à toa… E antes que mergulhemos na lamentável subliteratura sem volta, vamos à arte, propriamente dita: Leny Andrade e Ilusão à toa (o show foi em NI, naturalmente). Depois, Gilberto Gil (foto) com participação de Johnny Alf, numa leitura mais jazzística de Eu e a brisa.

(O.C.)