Thiago Dias
Uma dor de cabeça forte e recorrente levou Reidnei ao pronto-socorro do Hospital São José, em Ilhéus. Quando respirava fundo, também sentia dores no tórax. Corria o mês de fevereiro de 2021. Aos primeiros sintomas, somou-se o cansaço, e o jovem voltou ao Hospital, onde foi novamente medicado. No entanto, as dores e o desconforto não demoraram a voltar. Ele buscou atendimento na Coci e, após fazer exames de sangue e raio-x, foi encaminhado a um hematologista, médico especialista em identificar e tratar doenças no sangue.
Foi então que, em abril de 2021, Reidnei Sacramento Santos dos Santos recebeu diagnóstico de leucemia, câncer que ataca o tecido sanguíneo. Começava ali a corrida do jovem trabalhador para iniciar o tratamento da doença e tentar recuperar os dois meses perdidos desde o aparecimento dos sintomas.
A primeira parada foi em Salvador. Loro, apelido de Reidnei, chegou a se internar em um hospital, mas, sem confirmação de uma data para início do tratamento, decidiu pedir alta para tentar ajuda em São Paulo, onde sua esposa, Jéssica Lima dos Santos, tem familiares que os acolheram. Hospedaram-se na casa de uma tia de Jéssica, em São Lourenço da Serra, a menos de 50km da capital paulista. Na cidade, receberam auxílio do vereador Almir Nunes para que Loro fosse atendido no Hospital das Clínicas, em São Paulo. “Quatro dias depois, ele iniciou a quimioterapia [no Instituto do Câncer]”, relembrou Jéssica, em conversa com o PIMENTA, nesta segunda-feira (23).
Jéssica e Reidnei se conheceram em 2018, na zona norte de Ilhéus. Já eram amigos quando começaram a namorar e, pouco depois, a morar juntos. Para acompanhá-lo na viagem, ela deixou o emprego de operadora de caixa de supermercado. O tratamento surtiu efeito e eliminou as células cancerígenas de Loro, abrindo caminho para o transplante de medula óssea.
Ainda em São Paulo, os jovens ilheenses decidiram se casar e assim o fizeram, no dia 17 de agosto de 2022, um mês antes do transplante. Mas, os resultados dos exames de preparação para o procedimento mostraram que o câncer tinha voltado – e de forma avassaladora. Isso impediu Loro de receber a doação de medula de seu irmão mais novo, Edvan.
Para tentar conter a doença, Loro fez novas sessões de quimioterapia, que, dessa vez, não causaram a remissão do câncer. “Foi quando tudo começou a piorar”, recordou Jéssica, referindo-se ao momento em que a equipe médica a desenganou sobre a possibilidade de recuperação de seu marido e iniciou os cuidados paliativos, técnicas para diminuir o sofrimento de pacientes em estado terminal.

A constatação foi comunicada à jovem em uma conversa reservada, sem a presença de Loro. Intuitivamente, ele notou que médicos e esposa tentavam poupá-lo da notícia aterradora. Foi difícil para Jéssica. “Tentei ao máximo não falar com ele, mas, me colocando no lugar dele, eu também ia querer saber pela boca dele. Aí contei”, justificou. Perguntamos qual foi a reação de Reidnei. “Ele se manteve firme, cheio de fé em Deus”, respondeu Jéssica. Ela e o marido voltaram a seguir o Evangelho em São Paulo.
Loro faleceu às 17h deste domingo (22), aos 25 anos, no Instituto do Câncer de São Paulo Octavio Frias de Oliveira. “Ele morreu em Cristo. Ele estava com fé, pedindo muito a Deus [pela vida], mas pedindo que fosse feita a vontade de Deus. Morreu sabendo da situação dele, da doença, mas também morreu em Cristo, aceitando a vontade de Deus”, afirmou Jéssica, como se tentasse aplacar a própria dor enunciando a resignação do companheiro.
DESPEDIDA
Quando soube da morte do amigo, Ademário Souza, 36, iniciou campanha para arrecadar o dinheiro do translado do corpo para Ilhéus. A meta foi atingida em menos de 24h, na manhã de ontem (23), e o corpo já está em trânsito. As doações, que chegaram a R$ 12 mil, também foram suficientes para que Jéssica volte à cidade de avião, na manhã desta terça-feira (24). Ela chegará a tempo de participar do velório, a partir das 14h, na Assembleia de Deus, no Savoia, perto da loja dos Supermercados Meira. O sepultamento está marcado para as 10h desta quarta-feira (25), no Cemitério do Basílio.
“Nunca vi um negócio desse, foi relâmpago”, disse Ademário ao PIMENTA, ressaltando a velocidade das doações para o translado do corpo, o que atribui ao carinho por Loro. “Era uma pessoa sensacional. Eu me vejo nele. Um cara humilde, trabalhador, bom marido, bom filho, bom amigo, bom irmão, porque eu o considero como irmão, um cara do bem, sem maldade”, descreveu.
Foi Ademário quem recomendou o amigo para uma vaga de emprego na APK, transportadora onde trabalharam juntos. À noite, depois da jornada no emprego formal, Loro dobrava o expediente como motoboy. Apaixonado pelo Flamengo, adorava jogar futebol com os amigos do Baba do Sete. “Era um volante nato”, resumiu Ademário. “Marcava como João Gomes e atacava como Gerson”, acrescentou, ao ser questionado se Loro estava no nível dos meio-campistas rubro-negros que comeram a bola nos últimos anos. Sem entrar no mérito da avaliação generosa do amigo, o Baba do Sete foi desfalcado para sempre.

















