ARMANDO E O CUIDADO COM AS PALAVRAS

ESTULTICE LEONINA QUE A TODOS DRIBLOU
Leio em edição recente do bom caderno Esporte Clube (A Tarde), no alto da página, um título absolutamente inusitado: “Por renda três vezes maior, Leão luta pela sua salvação”. Depois de nada entender, pus-me a cismar sobre o que levaria um profissional a escrever tamanha estultice, como tamanha estultice logrou driblar o editor da página e chegar às bancas e se quem produziu tamanha estultice sabe que produziu tamanha estultice. Só encontro resposta para esta última: sabe, sim. Escreveu dessa forma por não ter captado a lição de Armando (atenção: entendi que o Leão do título infeliz é o infeliz Vitória).
POR AQUI, NÃO GANHOU NEM NOME EM BECO
Armando Oliveira nasceu em Água Preta/Uruçuca e fez carreira em Ilhéus (Banco do Brasil e Rádio Cultura), transferindo-se já maduro para a Rádio Sociedade da Bahia, na capital. Cobriu cinco Copas do Mundo como comentarista e recebeu oito vezes o Bola de Ouro. Camaçari batizou de Armando Oliveira seu estádio, os melhores de cada temporada do futebol baiano recebem o troféu Armando Oliveira e a sala de imprensa do Carnaval de Salvador, montada em 2005 pela prefeitura, chama-se Sala de Imprensa Armando Oliveira. Ali em Ilhéus ele não é nem nome de beco, e em Uruçuca é um desconhecido ilustre. Coisas nossas, como diria Noel.UM ANIMAL EM EXTINÇÃO CHAMADO LEITOR
O escritor Flávio Moreira da Costa dá a receita em Modelo para morrer (Record/1999), com o personagem Wallace Jones, que ensina a regra de ouro do ofício de escrever: “envolver e não chatear esse animal desconhecido e em extinção chamado leitor”. Detalhista, Jones, autor de livros policiais, acrescenta que “é importante pegar o leitor pelo colarinho logo de início e levá-lo a acompanhar o livro até o final”. Quem encontra um leitor encontra um tesouro, disso sei eu. Mas como pegá-lo pelo colarinho e levá-lo ao final do texto é que é o “x” do problema” (outra referência proposital a Noel centenário). Na escrita também parece viger o preceito bíblico de que muitos são chamados e poucos escolhidos, ou, como diria o mano Cae: quem lê tanta notícia?JUAZEIROS VERDES NA PLANÍCIE VERMELHA
O texto frouxo, cheio de circunlóquios, evasivas, negaças, lugares-comuns e obviedades serve apenas a leitores ociosos, quando os aeroportos estão em crise. Econômico, direto, despojado, Graciliano Ramos começa Vidas secas assim: “Na planície avermelhada os juazeiros alargavam duas manchas verdes. Os infelizes tinham caminhado o dia inteiro, estavam cansados e famintos”. Pronto. Pegou o leitor. Outros exemplos: “A síndica cheirava muitíssimo bem. Foi a primeira coisa que percebi ao entrar no edifício” (Flávio Moreira da Costa, obra citada); “Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o coronel Aureliano Buendía havia de recordar aquela tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o gelo” (Gabriel García Márquez, Cem anos de solidão).
BURRINHO PEDRÊS VINDO DE NÃO SEI ONDE
“Aos 16 anos matei meu professor de lógica. Invocando legítima defesa – e qual defesa seria mais legítima? – logrei ser absolvido por cinco votos contra dois, e fui morar sob uma ponte do Sena, embora nunca tenha estado em Paris” (Campos de Carvalho, A lua vem da Ásia); Guimarães Rosa, abrindo Grande sertão: veredas: “Nonada. Tiros que o senhor ouviu foram de briga de homem não, Deus esteja”; outra, de O burrinho pedrês: “Era um burrinho pedrês, miúdo e resignado, vindo de Passa-Tempo, Conceição do Serro, ou não sei onde no sertão”; e mais uma, da novela Duelo: “Turíbio Todo, nascido à beira do Borrachudo, era seleiro de profissão, tinha pelos compridos nas narinas, e chorava sem fazer caretas; palavra por palavra: papudo, vagabundo, vingativo e mau”.O LEITOR NÃO TEM PIEDADE DO MAU TEXTO
Não resisto a mais referências, colhidas ao acaso: “Os primeiros dragões que apareceram na cidade muito sofreram com o atraso dos nossos costumes” (Murilo Rubião, Os dragões); ou Ruy Castro, em Tempestade de ritmos: “Agora que Miles Davis está morto, quem reclamará seu corpo? “Ainda me lembro daquele amanhecer em que meu pai me levou pela primeira vez para visitar o Cemitério dos Livros Esquecidos” (Carlos Ruiz Zafón, A sombra do vento). Para encerrar a pequena mostra, Monteiro Lobato, em O colocador de pronomes: “Aldrovando Cantagalo veio ao mundo em virtude dum erro de gramática”. Está certo Wallace Jones: se as frases iniciais não segurarem o animal em extinção chamado leitor, o texto será abandonado, sem piedade.DIPLOMA, MELINDRES, MÁGOAS E RANCORES
Sinto que uma discussão estéril e rasteira tenha nascido de um comentário desta coluna (na semana passada), a propósito da atividade jornalística no Sul da Bahia. Não tratamos dessa cretina dicotomia entre ter ou não ter diploma (ser contra o diploma de qualquer curso é uma estupidez a cujo luxo não nos damos): deploramos que a Fenaj casse a pedradas os profissionais não diplomados, quando estes exercem honestamente (nem sempre, é verdade!) sua atividade e que os veículos abriguem “colunistas” (bissextos ou não) a quem não remuneram – sugerindo que eles recebem “por fora”, numa moeda podre, não publicável. Não é nossa intenção servir de canal para suspeitos melindres, mágoas adormecidas e rancores mal resolvidos.
NOEL É VÍTIMA DE CANTORES DESLEIXADOS

MESMO COM OS ERROS, UM MOMENTO ÚNICO

DE COMO ARACI DE ALMEIDA PISOU NA BOLA
Ao que me consta, Noel não ouviu Último desejo em disco: ele morreu em maio de 1937 e Araci de Almeida só fez a gravação em junho. Mas isso é da minha memória, informação sujeita àquelas já famosas chuvas e trovoadas desta coluna, não tive como conferir. “Araci de Almeida é, na minha opinião, a pessoa que interpreta com exatidão o que eu produzo”, disse Noel em 1936, numa entrevista. Gosto de pensar que ele nunca ouviu o erro de Araci, que passou a ser repetido por futuros intérpretes: o poeta escreveu “Às pessoas que eu detesto/ diga sempre que eu não presto/ e que meu lar é o botequim” e Araci, cabeça de vento, gravou “… e que o meu lar é um botequim”.
NOEL MORREU INOCENTE DO ERRO FAMOSO
Olívia Byington fez em 1997 um CD antológico, A dama do Encantado, reeditando gravações de Araci, com muito Noel, é óbvio (das vinte faixas, dez são dele). Preocupada em ser fiel ao texto, Olívia chama a atenção para o famigerado erro e explica, didaticamente, a distância entre o botequim (conforme escreveu Noel) e um botequim (como Araci tornou “oficial”): se eu digo que minha casa é o botequim, digo que “moro” no bar; se falo que minha casa é um botequim, estou dizendo que minha casa é uma zona… Ainda bem que Noel, também cantor, morreu sem saber o que sua cantora preferida aprontou. Voltaremos ao tema. Por enquanto, ouçamos Maria Betânia, com Feitio de oração (com erros, é claro).(O.C.)





















Respostas de 6
A cantora preferida do Noel era a Marília Batista! E por falar no “animal em extinção”, meus aluninhos se espantaram ao saber que se roubam livros..para que mesmo fessora ?
O Sr. “O.C.” nem precisa me segurar pelos lacinhos da minha fresca roupa de domingo, pois leio a sua coluna do início ao fim. Com voracidade. Às vezes até releio uns trechos.
Rsrs.
Por Noel, a Vila deve estar em festa,
E eu aqui na longínqua e pacata Ilhéus.
Lembrar da Vila é o pouco que me resta.
Ao talentoso boêmio, retiro o meu chapéu!
Pode-se continuar afirmando que a Vila também é de Isabel; das eternas notas musicais nas calçadas de pedras portuguesas; do Martinho; do Boulevard; do Grupo Recreativo e Escola de Samba que leva seu nome para a Sapucaí; de boa parte da boemia carioca…
me desculpe compaheiros do pimenta mas vocês estão eganados, em uruçuca tem um estadio que leva o nome de armando oliveira,por favor pesquisem se eu não tiver enganado não estou fazendo criticas estou tentando lembrar vocês que existe..
1)Embora muitos críticos abonem a afirmação de que Marília Batista foi a cantora preferida de Noel, o próprio disse (está na coluna desta semana) que sua melhor intérprete era Araci de Almeida. Penso que se trata de opinião relevante… No mais, a história diz que Marília dividiu o microfone com o Poeta da Vila (cantavam em dupla), enquanto Araci dividiu a cama – o que ela jamais confirmou. AA chegou aos nossos dias como cantora de Noel (ainda esta semana a ouvi, num especial de tevê sobre o centenário do poeta), enquanto MB é desconhecida de todo o público menor de 85 anos (salvo os pesquisadores), pois a mídia (incluindo as gravadoras) ergueram sobre ela uma cortina de silêncio.
2)A informação que nos chega é de que o bom Armando Oliveira não teve homenagem em sua terra: consta que o estádio municipal de Água Preta/Uruçuca chama-se Antônio Ferreira.
3)Aproveito e agradeço a todos pelos comentários postados, alguns com a exagerada generosidade característica das leitoras e releitoras deste espaço.
Armando Oliveira foi:
-excepcional funcionário do BB
-o maior comentarista esportivo da Bahia
-um dos colunistas mais brilhantes de sua época
-um grande amigo.
Mil homenagens para ele.