Estudo compara quilombos, terreiros e bairros do apartheid para analisar linguagem, identidade e cidadania || Foto Divulgação
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Do PIMENTA

O que um quilombo em Itacaré tem em comum com um bairro criado pelo apartheid na África do Sul? Essa foi uma das perguntas que levaram uma equipe da Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB) à Cidade do Cabo. Coordenado pelo linguista Gabriel Nascimento, o grupo tenta compreender como comunidades negras produzem sentidos por meio da linguagem e como essas formas de falar revelam modos de resistência, pertencimento e organização da vida social.

Para Gabriel, o ponto de partida rompe com uma ideia recorrente quando se fala em linguagem popular. “A gente não quer só valorizar essa linguagem. A gente quer entender como as pessoas usam a linguagem que usam e por quê.”

A explicação passa por um conceito que atravessa toda a pesquisa: “Linguagem também é tecnologia”. Em vez de estudar apenas regras gramaticais ou variações do português, a equipe busca compreender como a linguagem organiza relações sociais, produz pertencimento e registra formas de viver.

O trabalho reúne pesquisadores brasileiros, sul-africanos e angolanos e amplia uma cooperação acadêmica iniciada em 2020 entre a UFSB e a University of the Western Cape (UWC).

Estudo compara linguagem e pertencimento em territórios negros do Atlântico || Ilustração PIMENTA

QUILOMBOS

A primeira etapa do estudo concentrou-se em comunidades quilombolas de Itacaré: Porto de Trás, Santa Mara e João Rodrigues. Ali, os pesquisadores observaram que determinadas formas de falar aparecem associadas a experiências concretas da vida cotidiana.

Segundo Gabriel, o português utilizado nessas comunidades estabelece relações com “o rio, as práticas esportivas e também a vida em comunidade”, num repertório construído a partir das experiências compartilhadas pelos moradores.

Nos terreiros de candomblé, a pesquisa observou a importância do silêncio, do uso da linguagem em espaços específicos e do hábito permanente de pedir licença e bênção.

ÁFRICA DO SUL

A etapa desenvolvida na África do Sul levou a pesquisa para outro contexto marcado pela segregação racial. O trabalho de campo ocorreu no mês passado, nos Cape Flats, bairros periféricos criados durante o regime do apartheid para abrigar pessoas negras e mestiças, classificadas pelo governo sul-africano como coloreds.

“Nós queremos entender como as pessoas criam as suas construções semânticas nesse tempo-espaço”, explica Gabriel. Na Linguística, essas construções correspondem ao que os pesquisadores chamam de repertórios linguísticos: registros de linguagem capazes de revelar formas de ativismo, participação política, resistência e arte, por exemplo.

RACISMO LINGUÍSTICO 

Dois conceitos orientam a pesquisa. O primeiro é o de racismo linguístico, tema ao qual Gabriel Nascimento tem dedicado parte importante de sua produção acadêmica. “Queremos entender de que maneira essas línguas são afetadas por racismo linguístico”, afirma. O pesquisador cita situações em que determinados modos de falar deixam de ser reconhecidos por instituições como a escola ou passam a ser vistos de forma negativa.

O segundo conceito aparece como contraponto. Gabriel o chama de cidadania linguística. “É justamente o oposto do racismo linguístico. É quando as pessoas se apropriam das línguas para performar formas e valores”, resume. Para ilustrar a ideia, ele recorre ao exemplo da abaixo-assinado.

Projeto reforça cooperação internacional || Foto Divulgação

COOPERAÇÃO INTERNACIONAL

Além da pesquisa conduzida por Gabriel Nascimento na Cidade do Cabo, o projeto mantém uma frente de investigação em Luanda, Angola, sob responsabilidade da doutoranda Ana Carolina, que atuará na colaboração e na coleta de dados. A equipe também reúne o doutorando Nicolas Oliveira Santos, que desenvolve parte da pesquisa na África do Sul, e os mestrandos Daniel Oliveira e Grace Kelly de Oliveira, ambos vinculados ao Programa de Pós-Graduação em Ensino e Relações Étnico-Raciais da UFSB. Os dois colaboram voluntariamente com as atividades do estudo.

A parceria entre a Universidade Federal do Sul da Bahia e o Centro de Pesquisas em Multilinguismo e Diversidade da University of the Western Cape começou em 2020 e já produziu 13 publicações científicas em países como Brasil, Estados Unidos e Reino Unido. Ao longo desse período, a colaboração captou mais de meio milhão de reais junto a agências de fomento brasileiras, norte-americanas e sul-africanas, entre elas CNPq, Fulbright e Human Sciences Research Council.

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