A capa do EP de estreia da cantora e compositora grapiúna, assinada pela artista visual Mariaji Salvador
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Quando o mundo fechou as portas, Lígia Callaz abriu um caderno. O primeiro álbum autoral da cantora e compositora de Buerarema, no sul da Bahia, começou a nascer durante o confinamento, quando a rua parecia perigosa, os encontros migraram para as telas e o tempo perdeu a velha obrigação de passar depressa.

Já disponível nas plataformas da internet, Lígia Callaz e os Amores Pandêmicos reúne seis canções: Encontros, Pele, Lambendo as Pedras, Pura Conexão, Presente de Iemanjá e Cantar Mundo.

Embora as composições tenham brotado num período de medo, o disco não faz um inventário da doença. Lígia preferiu olhar para aquilo que continuava vivo enquanto quase tudo permanecia suspenso: o desejo, a falta, os corpos, as conexões possíveis e a vontade de voltar ao mundo.

O título nasceu da aproximação com Afrodite Pandemos, uma das formas atribuídas à deusa grega do amor. Pandemos remete ao amor partilhado por todos, terreno e coletivo. No trabalho de Lígia, a referência ganha outro sentido. São amores submetidos ao confinamento, mas ainda capazes de atravessar paredes.

Antes de entrar definitivamente em estúdio, Amores Pandêmicos viveu como espetáculo. A cantora levou o repertório a eventos como a Festa Literária de Ilhéus, o Festival de Arte e Gastronomia de Serra Grande e o Festival de Verão de São Gonçalo do Rio das Pedras, em Minas Gerais. As apresentações ajudaram as músicas a amadurecer diante do público.

PARTICIPAÇÕES

O disco começa com Encontros, gravada com a participação de Nitya. A escolha da palavra para abrir o trabalho parece responder ao tempo que o originou. Depois de uma experiência marcada pela distância, a primeira canção devolve à escuta justamente a possibilidade de encontrar alguém.

Em Pele, Lígia divide a interpretação com Júlia Neves, a Curandeira Cantante. A faixa parte da história de um corpo marcado pela renúncia e aborda aquilo que tantas vezes se cala para sobreviver. Voz e corpo deixam de ocupar lugares separados. A pele guarda o que a memória nem sempre consegue contar.

Lambendo as Pedras carrega no título uma imagem áspera. Há alguma coisa de resistência no gesto de procurar alimento ou afeto onde parece não existir mais nada. Logo depois, Pura Conexão recoloca o encontro no centro do disco, agora distante da intermediação fria das telas que dominou os dias de isolamento.

O mar aparece em Presente de Iemanjá, que amplia o território afetivo do trabalho e aproxima o amor da ancestralidade, da água e do movimento. Depois de tantas paredes, Lígia conduz o ouvinte para fora de casa e o deixa diante de uma paisagem sem teto.

Cantar Mundo, faixa com as participações de Brisa Aziz e Carla Valéria, encerra o percurso como uma declaração de propósito. A artista que começou escrevendo cercada pelo confinamento termina querendo ganhar o mundo pela voz. O disco sai do quarto, alcança o mar e procura outros ouvidos.

A produção musical leva as assinaturas do Canoa Sonora e da Mar de Engenhos. O projeto mobilizou dezenas de pessoas ao longo de sua construção e contou com patrocínio da Agro Granjeiro. A distribuição digital ficou a cargo da Tratore. Ouça o álbum completo.

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