Pode-se discordar da Bahia. Pode-se criticar suas escolhas políticas. Pode-se considerar equivocada esta ou aquela opção eleitoral. Isso faz parte da democracia. O que não se pode admitir é transformar o voto de milhões de pessoas em atestado de inferioridade intelectual, cultural ou moral.
José Augusto Ferreira Filho
A declaração de Rodrigo Constantino sobre a vergonha que diz nutrir pela Bahia e por seu povo revela, antes de tudo, um preconceito antigo contra o Nordeste e os nordestinos, como se houvesse brasileiros de primeira e de segunda categoria definidos pela região onde nasceram.
É um pensamento ultrapassado. Diria até démodé. Sobretudo num País tão diverso e num tempo em que a informação circula por toda parte e torna ainda mais injustificável esse tipo de generalização.
As diferenças entre o Sul/Sudeste e o Nordeste são históricas, profundas e inegáveis. Mas, nada têm a ver com uma suposta “preguiça” atávica, hereditária ou genética de sua população, muito menos dos baianos.
Pode-se discordar da Bahia. Pode-se criticar suas escolhas políticas. Pode-se considerar equivocada esta ou aquela opção eleitoral. Isso faz parte da democracia. O que não se pode admitir é transformar o voto de milhões de pessoas em atestado de inferioridade intelectual, cultural ou moral.
A Bahia não precisa da aprovação de Rodrigo Constantino para ser o que é.
É terra que ajudou a formar o Brasil e que contribuiu decisivamente para a nossa cultura, nossa música, nossa literatura, nossa religiosidade, nossa economia e nossa identidade nacional. É terra de trabalhadores, professores, médicos, advogados, agricultores, empresários, artistas, pescadores, servidores públicos, homens e mulheres que enfrentam diariamente dificuldades que não podem ser explicadas por caricaturas preconceituosas.
Reduzir a votação de um partido político à pouca instrução de determinada população é uma leitura rasa da realidade. E, partindo de quem vive de comentar a política, revela ou desconhecimento da complexidade brasileira ou deliberada má-fé no argumento.
Ao longo da vida, sempre procurei construir amizades nos mais diversos espectros da política e nas diferentes camadas sociais. Aprendi que é possível discordar profundamente sem desrespeitar.
Talvez esteja justamente aí uma das maiores necessidades do Brasil de hoje: reaprender a discordar.
Se Flávio obteve êxito no primeiro turno e Lula ficou numa posição até então improvável, é preciso compreender que, até aqui, ninguém ganhou definitivamente. E alimentar divisões regionais, sobretudo a partir de premissas preconceituosas, nada acrescenta ao futuro que todos dizem desejar para o País.
Preocupam-me mais as declarações separatistas, intolerantes e exacerbadas do que propriamente o resultado final das eleições, ainda que eu tenha minha escolha e deseje vê-la vencedora.
Talvez esteja faltando à política brasileira justamente a figura do estadista: aquele que olha além da próxima eleição, pensa na próxima geração e entende que governar exige pacificar, e não aprofundar feridas.
Porque, passada a eleição, continuaremos todos no mesmo País.
E nós, baianos, continuaremos aqui.
Trabalhando. Produzindo. Criando. Pensando. Divergindo. Votando.
Com nossos problemas, que são muitos, e com nossas virtudes, que também são muitas.
A crítica política é legítima.
O preconceito, não.
José Augusto Ferreira Filho é servidor público. Baiano. Soteropolitano por nascimento. Itabunense por adoção.



















