Depois de falar, parava para escutar e, a depender do que ouvia nos resmungos de Ruy, passava a xingá-lo com todos os impropérios que conhecia.
José Nazal
Em Ilhéus há duas antigas praças, muito próximas. Ambas ficam na avenida beira-mar, onde tudo acontece, denominada de Soares Lopes. As praças são dedicadas a dois ilustres baianos: o poeta Castro Alves e o jurista Ruy Barbosa.
Um velho frequentador das praças, o bancário Coló, apreciador de uma boa pinga e fumante inveterado, era apaixonado pelo “Poeta dos Escravos” e adversário ferrenho do “Águia de Haia”. Coló, no auge dos seus ‘’porres”, era o mensageiro que levava e trazia os recados entre os bustos dos ilustres homenageados. Na maioria das vezes, recados desaforados.
Coló morava próximo da praça de Antônio, nome pelo qual ele se dirigia ao ídolo e amigo íntimo, o poeta baiano Antônio Frederico Castro Alves. Diante do busto, bradava em alto e bom som: “Antônio, vim lhe dizer que o tal do Ruy desafiou você. Disse-me hoje que encontrou erros de português em seus versos! Vim aqui te dizer isso e pedir permissão para voltar lá e dizer uns desaforos a ele. Tá pensando o quê, o tal jurista? Que é mais importante que você? Vou lá e volto já”.
Partia então Coló, calmamente e num equilíbrio perfeito (com a solenidade que apenas os bêbados têm), para a praça de Ruy. Chegando, desancava o jurista com o recado que trazia a resposta de Castro Alves. Depois de falar, parava para escutar e, a depender do que ouvia nos resmungos de Ruy, passava a xingá-lo com todos os impropérios que conhecia.
Assisti a essas cenas diversas vezes. Quem não viu tem o direito de não acreditar.
José Nazal é fotógrafo, memorialista e foi vice-prefeito de Ilhéus (2017-2020).
Como não estava acostumado a ser retrucado com veemência, Manuel continuou a viagem até Medeiros Neto sem dar uma palavra com seu amigo “Cambão”.
Walmir Rosário
Manuel Leal de Oliveira foi uma figura ímpar do Sul da Bahia. Eclético e desinibido, sempre esteve presente nas mais diversas ocasiões relevantes da política e da economia regional. Morou um tempo na Guanabara e São Paulo. Na capital carioca, trabalhou nos jornais Última Hora e Jornal do Commércio. Após tirar a “sorte grande” na Loteria Federal, volta a Itabuna.
Já em terras grapiúna, Manuel Leal adquire, com os recursos da premiação, uma fazenda em Firmino Alves (ex-Itamirim), onde por muito tempo ocupou cargos e a presidência do Sindicato Rural. Como sindicalista patronal rural, demonstrou prestígio e fez parte da diretoria do outrora Conselho Consultivo dos Produtores de Cacau-CCPC, chegando a ocupar cargos importantes, como a Secretaria.
Foi sócio de alguns empreendimentos, entre eles uma fábrica de balas e uma indústria de química que fabricava água sanitária e alvejante: a Alvex. Usando sua experiência adquirida na área de marketing dos jornais do Rio de Janeiro, promoveu uma revolução na comunicação de Itabuna, junto com o jornalista Cristóvão Colombo Crispim de Carvalho, ao promover o lançamento do produto utilizando o teaser.
Manuel Leal possuía verve afiada e uma facilidade incrível de fazer amigos – desafetos também –, tornando uma pessoa importante na sociedade regional. Foi fiscal da Prefeitura de Itabuna e, em seguida, nomeado fiscal do Instituto de Aposentadorias e Pensões dos Comerciários (IAPC), que mais tarde se tornou o Instituto Nacional de Previdência Social (INSS), após a unificação do sistema.
Vida estabilizada – cacauicultor, empresário, funcionário público –, Manuel Leal sempre teve uma grande paixão: o jornalismo. Ainda estudante do Colégio Divina Providência, fundou o polêmico jornal A Terra, que lhe tornou ainda mais conhecido. Logo depois criou o Tribunal Regional, que fizeram história ao falar abertamente do cotidiano, da economia e da política, sempre com uma linguagem afiada, o que não agradava os poderosos.
Desde estudante que era considerado comunista, embora se relacionasse perfeitamente e com destaque com pessoas das mais diversas classes sociais e ideologias, seus amigos e de sua família. De vez em quando um comunista famoso procurado pela polícia era abrigado em sua casa ou fazenda, com todas as honras e mesuras que merecia, a pedido dos tantos amigos.
Em 1987, junto com o escritor e jornalista Hélio Pólvora, Manuel Leal funda os jornais Cacau Letras e A Região, dois jornais elaborados com esmero e que – de cara – ocuparam o merecido lugar na comunicação estadual. E A Região conseguiu chegar ao clímax, influenciando o pensamento e a política regional. E o jornal passou a ser aguardado aos sábados pelo conteúdo altamente polêmico.
Além de Hélio Pólvora, passaram pelo A Região editores e repórteres da mais alta linhagem do jornalismo sulbaiano, mantendo, sempre, o tom “manuelino” que fez história na comunicação regional. Algumas semanas a tiragem de 5 mil exemplares era insuficiente para atender aos ávidos leitores e a gráfica tinha que se desdobrar para aumentar o número de exemplares.
Lembro-me quando editor de A Região – junto com Daniel Thame – inovar na diagramação do jornal, modificando, inclusive, a primeira página para aproveitar uma grande notícia de última hora. Não raro, jornal na gráfica, nos livrávamos das chamadas da primeira página, substituindo-a por um tijolão de três laudas e uma foto de um fato que não poderia deixar de ser publicado.
Com todas essas atividades, Manuel Leal nunca deixou de ser o fiscal do INSS, fiscalizando empresas das cidades baianas. Numa dessas viagens tinha como motorista o seu fiel escudeiro José Emanoel Aquino, o conhecido “Cambão”. Ao se aproximar do posto da Polícia Rodoviária Federal, em Itamaraju, o policial fez o sinal para o veículo em que viajavam parar para fiscalização.
Assim que o policial se aproximava do carro, Manuel Leal sacou do bolso da camisa uma carteira de couro com as armas da República contendo sua carteira funcional do INSS, e brandiu:
– Fiscal federal do INSS. Estou a serviço! – exclamou.
Tranquilo, o policial rodoviário não se intimidou com a carteirada e retrucou em quente:
– E o senhor quer dizer que eu estou aqui brincando, não é…Favor passar os documentos do veículo e do condutor – pediu.
Como não estava acostumado a ser retrucado com veemência, Manuel continuou a viagem até Medeiros Neto sem dar uma palavra com seu amigo “Cambão”.
Manuel Leal foi assassinado após uma denúncia feita pelo jornal A Região. Hoje o jornal é mantido na forma digital pelo seu filho, o jornalista Marcel Leal.
Walmir Rosário é radialista, jornalista e advogado. Com artigos e crônicas, ele também edita o Blog Walmir Rosário.
Seria mais honesto vestir a carapuça do governo e mostrar a verdadeira face oportunista do Carlismo, que “mamou o tempo todo nas tetas da ditadura”.
Wenceslau Junior
É impressionante o contorcionismo político do ex-prefeito de Salvador e presidente nacional do Democratas, ACM Neto, para não vincular sua imagem a Bolsonaro.
O presidente nacional do DEM comandou pessoalmente o “cavalo de pau” na eleição da Mesa da Câmara dos Deputados, quando o partido abandonou a candidatura de Baleia Rossi (MDB-SP), construída por Maia e comprometida com a independência do legislativo, para apoiar Arthur Lira (PP-AL), candidato oficial do Planalto, apoiado por Bolsonaro, que derramou milhões de reais em emendas e prometeu fazer uma reforma administrativa, abrindo mais espaço para o centrão em troca de votos.
Nem bem o “defunto esfriou”, ou seja, menos de 15 dias da eleição da Mesa Diretora, realizada no dia 1º de fevereiro, o Planalto faz o movimento de promover Onyx Lorenzoni (DEM-RS) do Ministério da Cidadania para a Secretaria-Geral da Presidência. Lembrando que o mesmo, além de coordenar a transição, ocupou o Ministério da Casa Civil, entre janeiro de 2019 e fevereiro de 2020, quando passou a ocupar o Ministério da Cidadania.
É bom salientar que Onyx Lorenzoni não foi o único democrata a ocupar cargos no primeiro escalão do governo Bolsonaro. O também deputado federal Luiz Henrique Mandetta (DEM-MS) ocupou o Ministério da Saúde de janeiro de 2019 a abril de 2020, enquanto a deputada federal Tereza Cristina (DEM-MS) ocupa o Ministério da Agricultura desde o início da gestão de Bolsonaro.
Portanto, a legenda comandada nacionalmente por Neto indicou 3 Ministros no início do governo, sendo que um deles (Lorenzoni) pode ser considerado o “curinga” da gestão. Atualmente, são 2 Ministros (Tereza e Lorenzoni) em ministérios importantes, fora os membros da legenda que ocupam cargos de segundo e terceiro escalões, a exemplo de José Carlos Aleluia (ex-deputado federal e ex-presidente estadual do DEM-BA), reconduzido ao Conselho de Itaipu em maio de 2020.
Com a assunção do Ministério da Cidadania por João Roma, assume o mandato a deputada federal Tia Eron (PRB), passando José Carlos Aleluia a ocupar a primeira suplência.
Como é de conhecimento público, o DEM deu um “cavalo de pau”, deixando Rodrigo Maia, Baleia Rossi e a oposição “a ver navios”.
Nunca se teve notícia, até então, de uma abertura de cofre tão escancarada em troca de votos para eleger a Mesa da Câmara. Além da liberação de emendas e outras verbas, cargos de primeiro, segundo e terceiro escalões “choveram na horta” de deputados que se renderam ao Poder Central.
Sabemos que, além do compromisso de pautar com “força total” as matérias conservadoras do presidente Bolsonaro, haja vista a meteórica votação da autonomia do Banco Central, especula-se que está no pacote o engavetamento das dezenas de pedido de impeachment do desastroso presidente.
Depois de ter contribuído abertamente para a vitória de Bolsonaro na eleição da Mesa, o DEM, inclusive na Bahia, vem recebendo as contrapartidas por parte do Governo e uma delas é a nomeação do “apagado” deputado federal João Roma (Republicanos-BA), ex-chefe de gabinete da Prefeitura, compadre e amigo pessoal de Neto, para o Ministério da Cidadania.
Como se não soubesse de nada, Neto esbraveja ter sido traído por Roma e que se Bolsonaro fez a nomeação com intuito de intimidá-lo, ganhou um inimigo.
Esse jogo de cena, esse “contorcionismo” político não entra na cabeça de quem tem um mínimo de acesso à informação, vejamos:
1º – O DEM esteve presente na campanha, na transição e na composição do Governo o tempo todo. Onyx Lorenzoni foi coordenador de campanha, coordenador da transição e encontra-se no terceiro ministério;
2º- Neto é presidente nacional da legenda e nunca se posicionou contrário às presenças de deputados do partido em ministérios importantes;
3º- Neto se envolveu pessoalmente na articulação que desembarcou a maioria dos deputados do DEM da candidatura de Baleia Rossi para a de Arthur Lira.
Me parece que se trata da velha tática de colher o bônus (cargos, emendas, recursos) sem vincular sua imagem com o desgaste (fascismo, machismo, homofobia, violência, entreguismo e negacionismo) do desgoverno Bolsonaro.
“O tempo é o senhor da razão e da verdade”. Vamos ver os municípios da Bahia que mais irão aquinhoar os recursos do Ministério da Cidadania. Vamos ver em que palanque João Roma estará nas eleições de 2022.
Seria mais honesto vestir a carapuça do governo e mostrar a verdadeira face oportunista do Carlismo, que “mamou o tempo todo nas tetas da ditadura”. Não adianta tentar construir uma imagem de “progressista”, “avançado”, “comprometido socialmente”, pois a prática do DEM escancara o liberal-conservadorismo que compõe o seu DNA.
Wenceslau Junior é professor universitário, advogado e membro da Comissão Política Estadual do PCdoB
O cancelamento do carnaval nos deu a oportunidade de refletirmos sobre nossas práticas, o barulho do trio elétrico foi naturalmente trocado pelo silêncio, o que possibilita escutarmos as vozes internas para quem sabe trocar o cancelamento de pessoas pelo acolhimento, nossa arrogância pela tolerância, mesmo com os que não toleram.
Marcos Cardoso
Certamente, 2021 será lembrado como o ano em que não teve carnaval. Para a geração daqui a trinta anos, será impossível imaginar, como foi o “País do Carnaval” cancelado, o Brasil sem a folia. Isto, se o mundo voltar para os velhos trilhos, anterior à pandemia da Covid-19.
A festa popular exportada da Europa, derivada do entrudo, ritual de jogar farinha, ovo e água, era uma forma prazerosa do adulto brincar e findava no primeiro dia da quaresma. Ao longo do tempo foi se modificando e adequando ao jeito brasileiro, junto com o futebol, para os críticos, o nosso “ópio”. Para alguns teóricos, a festa desvela também a nossa hierarquização social, na mesma medida em que os dias de folia eram o salvo-conduto, para a fantasia simbólica de ser quem não é no dia a dia, através da fantasia literal, digo a vestimenta, assim os menos favorecidos viravam reis e rainhas da folia ou o que a sua imaginação permitisse.
Nos últimos dias, a palavra cancelamento esteve em evidência, tanto pelo carnaval cancelado, quanto pelas situações ocorridas na casa mais vigiada do Brasil, a do Big Brother. Certamente, este foi o ponto de ebulição para as reflexões expostas.
O ineditismo do não carnaval, no ano em que o cancelamento em todas as suas versões ganhou protagonismo, o do carnaval foi compulsório, pelas autoridades, foi protocolar. Porque, antes disso, os agentes biológicos nos cancelaram, restando a alternativa de suspensão dos festejos.
Fevereiro sem carnaval mexe primeiro com a cadeia produtiva na sociedade de consumo, mas vai além, já que esta usina de alegria, simbolicamente incutida no imaginário dos brasileiros e vendida aos gringos que aqui aportam todo fevereiro, toca na alma de milhões que se alimentam durante doze meses desta expectativa é a data mais esperada do ano, cantada em verso e prosa.
Nossa identidade cultural foi construída em torno do carnaval e historicamente se consolidou como uma festa identitária, em que minorias sociais levantam suas bandeiras contra o racismo, machismo e por mais direitos como reivindica o movimento social LGBTQIA+.
Sim, o carnaval é palco de lutas sociais, mas é também a síntese de um povo cheio de mazelas que se permite extravasar alegria, tristeza e lascividade, já que a festa é da carne e na modernidade, que é líquida, as relações são fluídas.
Como ocorre também no programa Big Brother Brasil, muitos vivem esses dias intensamente, se comportam no público como se estivessem no privado. Famosos e anônimos, ricos e pobres, convivem no mesmo ambiente, todavia, com prazo de validade determinado, já que a folia dura em média quatro dias e na casa mais vigiada do Brasil, noventa.
As semelhanças vão além, tanto lá (BBB) como cá (carnaval), ambos exigem equilíbrio tantas vezes ignorados. São verdadeiras maratonas, seja em Salvador, ao som do axé, ou nos passos do frevo nas ladeira de Olinda, requerem condicionamento físico, como nas provas de líder da casa, em sua natureza são competições, vide Carnaval do Rio, com premiação em dinheiro para a escola de samba campeã ou o mais de um milhão de reais, para o vencedor do programa. Falar de BBB e carnaval é falar de narcisismo, sempre exaltado através dos corpos desnudos em exposição.
A edição BBB 21 coincidiu até mesmo no quesito cancelamento, o carnaval por motivos óbvios, para não propagação do corona vírus. No reality recheado de tretas, o “cancelar” pessoas (prática de boicote, deixar de seguir alguém nas redes sociais, para puni-la e fazer perder contratos de trabalhos) foi a pauta mais evidente desta temporada ainda em andamento.
Em que vozes tidas como progressistas, empoderadas, que são ou eram abraçadas pela militância antimachismo, racismo e GLBTfóbicas, deixaram aflorar seu lado perverso, potencializado pela exposição midiática, sobretudo por reproduzir o comportamento do opressor, justamente quem se coloca, fora da casa, na posição de protagonista na quebra das amarras.
Por fim, o cancelamento do carnaval nos deu a oportunidade de refletirmos sobre nossas práticas, o barulho do trio elétrico foi naturalmente trocado pelo silêncio, o que possibilita escutarmos as vozes internas para quem sabe trocar o cancelamento de pessoas pelo acolhimento, nossa arrogância pela tolerância, mesmo com os que não toleram. Talvez neste processo se colha um fruto saudável, a geração de consciência sobre a diversidade social.
Marcos Cardoso é técnico em Segurança Pública e graduando em Ciências Sociais (Uesc).
Notícia boa viaja a pé, já as más, a cavalo. E é exatamente nessa antiga premissa que estamos nos acostumando – mesmo com irresignação – a viver nesses últimos tempos assolados pela pandemia da Covid-19. Desta vez, a péssima notícia chega em dose dupla, pelo whatsapp de José Nazal: “Nosso amigo Faria faleceu nesta sexta-feira (12), de Covid-19, e sua esposa Thelma se encontra internada na UTI”.
Irrequieto, dinâmico, agitado, astucioso, afável – para muitos –, carrancudo – nem tanto – para outros. E neste contexto se encaixava o ilheense Carlos Farias Reis, exatamente como o pensamento de Nélson Rodrigues, para quem toda a unanimidade era burra. Eu mesmo o classificaria com mais adjetivos díspares, principalmente quando o tema era sua conduta no trabalho, no dia a dia. Ainda bem.
Meses atrás, o casal Farias e Thelma deixa Ilhéus para dar apoio à filha em Aracaju, onde o genro passou um grande tempo na UTI, lutando contra a terrível Covid-19. Trancado no apartamento, não se conformava na mudança de vida, no comportamento totalmente estranho para quem sempre foi acostumado a sair às ruas, passear pela cidade, ou simplesmente conversar com os amigos.
Por ironia do destino, o Casal Farias Reis resolve retornar a Aracaju, refazendo o trajeto anterior pela capital baiana, revendo os amigos mais chegados. Já em Sergipe, sentem-se mal e são diagnosticados com a infecção da Covid-19. O que tanto temiam que infectassem os amigos, chegou a eles sem qualquer aviso-prévio, longe de sua querida cidade natal, Ilhéus.
Farias era um apaixonado por Ilhéus, embora sempre manifestasse vontade de se mudar para Aracaju, para viver mais próximo à família, ato sempre postergado por ele e cumprido pelo Divino. Farias se foi e agora rezamos por Thelma, sua esposa, para que se livre desta doença e deixe a UTI, restabelecendo-se por completo. Um casal perfeito, separado de forma violenta.
E desde o início do ano passado que Farias tentava marcar um almoço em sua casa para homenagear o jornalista José Adervan, falecido em 12 de fevereiro de 2017. Com a epidemia, a data festiva não foi agendada, e uma das preocupações do anfitrião eram as sucessivas mortes dos convidados – acometidos da Covid-19 –, com o risco de não haver quorum para a recepção. E Farias morre exatamente quatro anos após Adervan.
Por falar em recepcionar os convidados, um dos seus chegados na legião de amigos, o saudoso Raimundo Kruschewsky (Barão da Popov), sempre foi pródigo em nomear Farias como o último dos grandes anfitriões de Ilhéus. Essa frase foi tomada emprestada do escritor grapiúna Jorge Amado, que costumava chamar seu amigo Raimundo Pacheco Sá Barreto de o último coronel do cacau.
Grande anfitrião, Farias (ou Carranca, para alguns), se preocupava de forma exagerada com os amigos, tanto que nos nossos telefonemas quase diários, dava notícia do estado de saúde de quase todos, perguntando acerca dos que não tinha notícia. Nessa lista, uma de suas inquietudes era o jornalista e escritor Antônio Lopes, seu amigo desde os tempos de escola, com direito a cadeira e litro de whisky cativo na residência de Farias.
Carlos Farias Reis era considerado um homem das antigas, embora transitasse com muita facilidade em todas as faixas etárias e sociais, às vezes dizendo verdades merecidas, outras vezes palavras de conforto, ou simples pilhérias. Em sua casa reunia amigos, sem importar a ideologia política, posição social ou financeira, e seus convidados iam de representantes do clero, passando por jornalistas, comerciantes, comerciários ou políticos.
Ao tomar conhecimento da morte de seu amigo Farias, Antônio Lopes, ainda agastando com os efeitos de um infarto, ao se refazer do choque, exclamou. “Estou arrasado, creio que perdi uma parte de mim”. O sentimento de Lopes por certo ecoou em Ilhéus e ultrapassou seus limites, dada a comoção que tomou conta de amigos tantos em Itabuna, Canavieiras, Salvador, Aracaju, dentre outras cidades.
Funcionário da Petrobras, abandonou sua merecida aposentadoria quando chamado para implantar o terminal da empresa de Itabuna, tornando a vestir o pijama listrado assim que inaugurado. Como era do seu temperamento irrequieto, prestou vestibular para Direito; formado, prestou concurso para juiz conciliador do Juizado Especial; aprovado, preferiu não assumir o cargo, deixando a vaga para os mais novos.
Em sua colação de grau, Farias não era chamado pelos amigos de formando, como natural, mas de desembargador, pela idade, o que valeu um lauto almoço, com direito a assento na mesa da diretoria. Como bem disse o amigo Antônio Lopes, com a partida de Faria todos perderam um pedaço de si – em graus diferentes –, lembrança que por certo não sairá da memória de cada um de nós.
Walmir Rosário é radialista, jornalista e advogado.
Jogo duro, aquele. Ninguém queria se arriscar e a marcação era feita homem a homem. Jogo pra “pirão”, narravam Orlando Cardoso e Geraldo Santos. Era uma partida para ficar nos anais da Desportiva.
Walmir Rosário
Quem não conheceu a tabelinha Pelé e Coutinho no auge do time do Santos Futebol Clube? Claro que todos os desportistas daquela época (décadas de 1950/60). Mas eu garanto que se não fosse o poder da mídia paulista e carioca, com suas emissoras de rádios potentes e com poderes de dominação cultural, essa dupla seria fichinha se comparada a que jogava pelo Botafogo de Rodrigo: Pedrinha e Mundeco.
Nada se comparava a essa espécie de irmãos siameses do futebol do bairro Conceição, em Itabuna, que fazia vibrar os torcedores do Botafogo, além dos gritos estridentes de Rodrigo, que ecoavam no campo da Desportiva a cada jogada da dupla. Essa tabelinha era tão importante para o time, que Rodrigo – após o último treino de apronto – tomava todas as precauções com a saúde dos dois atletas.
Na verdade, Rodrigo tratava Pedrinha e Mundeco com o desvelo de um pai – principalmente antes dos jogos –, dando orientações e conselhos. Como um psicólogo, tentava mergulhar numa análise do subconsciente de cada um deles, auscultando-os sobre as dores da alma e outros problemas que os afligiam cotidianamente.
Esses problemas nada mais eram do que as incursões que os dois faziam, na calada da noite, pelo jardim da Estação Ferroviária (hoje praça José Bastos) à “caça das gatas” (chamadas maldosamente de graxeiras, por serem empregadas domésticas). Para dar coragem de enfrentá-las, ambos não dispensavam umas doses de “verdinhas”, tomadas nos botecos da cabeceira da ponte velha.
Era aí que morava o perigo, e disso bem sabia o experiente Rodrigo Antônio dos Santos, que tinha a mesma habilidade ao cuidar de tipos frios e impressões de sua gráfica, como das escapadas noturnas de seus atletas. Afinal, nem por sonho poderia entrar para o jogo do Campeonato Amador da cidade, justamente contra o Flamengo, desfalcado dos seus meio campistas. Pedrinha e Mundeco eram os maestros que regiam a orquestra botafoguense.
E o receio de Rodrigo não era infundado. Véspera do jogo, nada de Mundeco comparecer ao treino das cinco da manhã, no campo da Desportiva. Mais tarde, após algumas diligências, o todo-poderosos presidente do Botafogo era informado da notícia que menos queria ouvir: Mundeco estava acamado com uma forte gripe contraída nas noites de sereno embaixo dos pés de fícus do jardim da Estação.
Domingo, após lamentar a terrível baixa, o time do Botafogo se dirige à Desportiva para enfrentar seu mais ferrenho adversário, o Flamengo, que acabara de contratar quatro novos jogadores e prometia se vingar da última derrota sofrida pelo rival da “Abissínia”, como chamavam pejorativamente o bairro Conceição.
Jogo duro, aquele. Ninguém queria se arriscar e a marcação era feita homem a homem. Jogo pra “pirão”, narravam Orlando Cardoso e Geraldo Santos. Era uma partida para ficar nos anais da Desportiva.
Aos quarenta e quatro minutos do segundo tempo, Pedrinha, que até então não tinha acertado uma – era impossível jogar sem seu parceiro de tantos anos –, descobre o centroavante Danielzão na grande área e lança a bola. O centroavante matou a redonda no peito e, na hora de mandar a bomba, recebeu uma tesoura voadora do zagueiro flamenguista. Pênalti! Apitou o árbitro. Finalmente a pátria alvinegra estaria salva.
Silêncio total na velha Desportiva. De longe, Rodrigo grita:
– É sua, Pedrinha, bata esse pênalti – autorizou.
Bola na marca do pênalti. Todas as duas torcidas na expectativa e o árbitro finalmente trila o apito. Pedrinha se encaminha para a bola e chuta. Todos acompanham a trajetória da bola e, pasmem, ela faz uma curva parabólica ao contrário e se encaminha para o morrinho onde hoje está localizada a Igreja de Santa Maria Goretti.
Ninguém entendeu nada, era impossível Pedrinha errar o gol, já que uma de suas marcas era chutar colocado. Poderia, no máximo, o goleiro pegar, mas errar daquele jeito, nunca. Recomeça o jogo e o árbitro apita final de partida. Um raquítico zero a zero que não interessava a nenhuma das duas equipes. Rodrigo entra em desespero e, no vestiário, entre lamentos e palavrões cobra explicações ao seu craque.
Passada a aflição, Pedrinha enfim, pode se explicar. Ao se encaminhar para a bola e bater o pênalti, ele ouve o sinal característico do seu parceiro Mundeco pedindo o passe, com aquela tossidela combinada. Aí então ele não contou conversa, passou a bola para o seu parceiro de tabelinhas. Para quem não conheceu a dupla, o que aconteceu foi o seguinte: como Mundeco estava gripado, foi assistir ao jogo do morro da igreja, seu local preferido. Ao vir descendo a ladeira, uma irritação na garganta o fez tossir. Aquele hã-hã característico foi o suficiente para que Pedrinha atendesse ao sinal combinado do seu parceiro.
Walmir Rosário é radialista, jornalista e advogado, além de editar o Blog Walmir Rosário.
Para Carlos Pereira, ACM Neto passa longe do poder ostentado pelo avô
Tempo de leitura: 3minutos
ACM Neto não tem nem de longe o poder do avô. Evidentemente, vem de uma escola familiar, é de direita, oportunista, inteligente e habilidoso. É apenas uma pequena parte do antigo poder do carlismo, mas em situação histórica totalmente diversa.
Carlos Pereira Neto Siuffo
ACM foi um político que predominou na política baiana por quase trinta anos. Começou na UDN com Juracy Magalhães, antes do golpe de 1964. Depois rompeu, e posteriormente alternou o poder disputando com outras correntes das classes dirigentes (o juracisismo, o vianismo e, meio outsider, com Roberto Santos).
ACM era dirigente da direita tradicional, conhecia muito das virtudes e fraquezas humanas e sabia manipular os instrumentos de poder como poucos. Eram conhecidos os slogans divulgados por seus seguidores: “quatros anos de pau sem pão”; “aos amigos os favores da lei, aos inimigos os rigores da lei”; ” a bolsa ou chicote”. Sabia corromper e bater, tinha arte em extorquir empresários e, também, agradar intelectuais e jornalistas.
Carlos Castelo Branco conta que ele mandava buscar jornalistas do sul para almoços na Bahia. E muitos intelectuais outrora de esquerda eram seus amigos (dentre eles, Jorge Amado). Comandava a Bahia com dengo e chicote. Era um populista de direita e patrocinava a cultura popular. Fazia da Bahia um sincretismo. Católico tradicional, afagava o candomblé.
Praticamente dizia a “Bahia sou eu”, a ponto de incorporar os símbolos e as cores do Estado em suas propagandas partidárias.
Comandava as instituições do Estado com mão de ferro (todas). As polícias eram milícias suas. Também era dono do judiciário. Era famosa a sabadada dos desembargadores no beija-mão.
Agradava e socorria amigos (desde que não o comprometesse) e era impiedoso com os adversários. Tinha espírito de moleque de rua e tanto telefonava quanto mandava fac-símile expressando xingamentos horríveis para jornalistas.
ACM foi o modernizador por cima da economia baiana. Uniu as oligarquias rurais com o capitalismo moderno e se cercava de tecnocratas competentes. Desde que não fizesse política contra ele internamente, não se importava com pessoas de esquerda nos órgãos do Estado. De quando em quando, cooptava algumas – era conhecida a esquerda baiana na Seplantec. Boa parte de suas bancadas estadual e federal eram compostas de seus tecnocratas, forçava os oligarcas regionais a votar neles.
Rompendo com a ditadura em seus estertores, manteve um grande poder no governo Sarney. Com isso, sufocou o governo estadual de Waldir Pires e o de Lídice em Salvador. Alertando que ele continuava com grande força nas instituições estaduais.
A coligação PSDB e PFL manteve forte o carlismo. Mesmo após o rompimento com FHC, ACM continuou forte e cooptando políticos antes adversários, como fez com parte do PSDB, cujas lideranças comandam o PP da Bahia.
O principal cálculo de poder de ACM era fazer Luís Eduardo Magalhães presidente do Brasil. A morte do filho começa a fazer desandar o carlismo, por falta de um sucessor natural.
O carlismo era formado no mando ditatorial e nos interesses econômicos e fisiológicos dos seus “fiéis seguidores”. Internamente, era um ninho de cobras, cada qual querendo picar a outra.
A morte de ACM dispersa o carlismo. A maioria dos seus então seguidores hoje apoia o governo petista. As instituições também não são mais as mesmas. O carlismo morreu e não existe mais. Seu poder era alicerçado nos muitos interesses econômicos e fisiológicos das classes dirigentes e nas características pessoais de um líder de direita, inclusive muito bem articulado nacionalmente.
ACM Neto não tem nem de longe o poder do avô. Evidentemente, vem de uma escola familiar, é de direita, oportunista, inteligente e habilidoso. É apenas uma pequena parte do antigo poder do carlismo, mas em situação histórica totalmente diversa.
O carlismo foi um fenômeno histórico. Os antigos seguidores do carlismo hoje estão no governo de Rui Costa e também na oposição. O fenômeno carlista deixou de existir.
Não esquecer que Oto Alencar chegou a ser governador pelo antigo carlismo. Não esquecer!
Carlos Pereira Neto Siuffo é professor de Direito da Universidade Estadual de Santa Cruz (Uesc).
Pelé chega ao Estádio Mário Pessoa em ônibus da velha Sulba
Tempo de leitura: 3minutos
Como a porta estava entreaberta, ouvi a voz inconfundível de Pelé: “Deixe o menino entrar, eu dou a entrevista…”. Entrevistei o Rei durante 15 minutos e ainda de quebra ouvi Haroldo e Lima.
Ramiro Aquino
Devia ter um ano de rádio quando o Santos Futebol Clube, o inigualável Santos de Pelé, veio pela primeira vez a Ilhéus. Corria o ano de 1964, salvo engano, e o timaço do Santos jogaria contra a Seleção local, soube mais tarde reforçada pelo excelente goleiro Betinho, do Janízaros, de Itabuna. A delegação do Santos vinha de Belém, a capital do Pará, e viajaria para o exterior em duas ou três semanas.
Cabe aqui um retrocesso nesse caso, pois o goleiro Betinho jogaria na véspera contra o Grêmio Esportivo pelo Campeonato amador de Itabuna na velha e acabada (sempre foi) Desportiva. E foi Pelé quem pediu a presença de Betinho, pois ele já sabia da fama do jogador.
Não existia ainda a ponte Ilhéus-Pontal e os moradores do bairro do Pontal, veranistas e passageiros do aeroporto, eram transportados nas pequenas lanchas e desembarcavam bem defronte ao Ilhéus Hotel, de Jocelin, amigo velho de meu pai.
O Betinho era irresponsável (disse “era” porque ele já morreu) e jogou a partida toda do sábado contra o Grêmio, mesmo depois de ter rasgado a mão, em lance fortuito. Mas, mesmo assim, confirmou a presença no jogo contra o Santos.
Apesar de novo no rádio o Geraldo Santos, meu narrador e meu chefe, me escalou para cobrir o Santos. Cheguei a Ilhéus duas horas antes e revi alguns companheiros de Salvador e de Ilhéus. E aí…
Chegou o Santos na lancha e não vi o Pelé. Lá estavam os outros jogadores do time santista, como Peixinho, Mengálvio, Pepe e os menos votados. Como era perto da hora do almoço, todos se dirigiram para o restaurante do Ilhéus Hotel, e lá estavam as aparelhagens das rádios de Salvador e Ilhéus. Vi ali Nílton Nogueira, que já conhecia, o ilheense Djalma Costa Lino, acoplado ao irmão Fernando, que por permanecer na terra levava alguma vantagem.
Entrevistei Peixinho, Pepe, etc. E vi também um técnico de som meu conhecido de uma rádio de Ilhéus, Nivaldo, que foi a minha salvação.
Ele conhecia todos os investigadores de Polícia da cidade e disse ter visto Pelé, Haroldo e Lima subirem direto para os aposentos onde iam ficar no mesmo quarto. Conversou com dois amigos da polícia e estes deixaram nós subirmos. O mais difícil estava na porta do quarto. Dois “guarda-roupas” guardavam Pelé e Cia. Conversei com eles, que tinha menos de 9 meses e era novo no rádio, disse ter viajado 300 kms (aumentei somente uma “pequena porcentagem”) só para entrevistar o Rei. Como a porta estava entreaberta, ouvi a voz inconfundível de Pelé: “Deixe o menino entrar, eu dou a entrevista…”. Entrevistei o Rei durante 15 minutos e ainda de quebra ouvi Haroldo e Lima.
Desci ao restaurante e encontrei todos os radialistas atrás de uma entrevista com Pelé. Como eram de Salvador e Ilhéus passei para eles sob a condição ser citado e em que condições eu consegui a entrevista.
Entrei no carro e voltei rapidamente para Itabuna. Até hoje, com menos qualidade, guardo essa entrevista. A primeira boa entrevista a gente não esquece.
Ramiro Aquino é radialista, jornalista e cerimonialista.
A candidatura do prefeito de Itajuípe, Marcone Amaral, em chapa única, aponta uma melhoria no nível de compreensão do valor regional por parte dos prefeitos e prefeitas e traz esperança de superarmos as ilhas de poder que constituíram o nosso modelo de atuação política ao longo dos anos.
Rosivaldo Pinheiro
O Litoral Sul da Bahia vem, sistematicamente, sofrendo as consequências da falta de uma ação política coletiva. Essa tática de ação conjunta possibilitaria melhor dinâmica socioeconômica das cidades e regiões, sendo, portanto instrumento decisivo para o processo da construção de saídas aos problemas apresentados.
A região detém grande importância para a economia baiana. Historicamente, temos no cacau a nossa principal identidade. O produto já ditou o nosso modelo econômico e ainda é uma marca forte, geradora de riqueza. Mas, hoje, esse modelo não é mais essencialmente tocado por ele. Nosso perfil econômico encontrou outros nichos: turismo, comércio e serviços se integraram ao nosso portfólio, melhorando o nosso desempenho.
Se ao longo do tempo tivéssemos voz uníssona para cobrar do governo federal, a nossa região seria melhor escutada e as nossas múltiplas pautas ganhariam força, ajudando a destravar importantes ações, como os macro vetores de desenvolvimento, que já estariam em outras fases de implantação. O Porto Sul, a Ferrovia Oeste-Leste, a duplicação da BR-415 e o novo aeroporto possivelmente já seriam realidades.
Destaque-se que, nos últimos anos, a região ganhou uma maior atenção do governo do estado. Prova disso é que importantes obras foram realizadas e entregues nesse período. Essa atenção é oriunda do arco de alianças que chegou ao poder na Bahia a partir do governo de coalisão, tendo em Rui Costa, Jaques Wagner, Otto Alencar e João Leão seus principais expoentes, privilegiando, inclusive, a nossa região com a liderança do governo na Assembleia Legislativa da Bahia, representada pelo deputado Rosemberg Pinto, natural do Médio Sudoeste e que se transformou no principal interlocutor político da região cacaueira.
Nesta sexta-feira teremos a eleição da Amurc (Associação dos Municípios da Região Cacaueira da Bahia), que integra três territórios: Litoral Sul, Extremo Sul e Médio Sudoeste. A candidatura do prefeito de Itajuípe, Marcone Amaral, em chapa única, aponta uma melhoria no nível de compreensão do valor regional por parte dos prefeitos e prefeitas e traz a esperança de superarmos as ilhas de poder que constituíram o nosso modelo de atuação política ao longo dos anos. É preciso compreender que a luta municipalista e a configuração do valor dos territórios são componentes de grande impacto que impõem respeito aos governos centrais.
A frente ampla, pluripartidária, demonstra ser o caminho mais seguro para garantir uma luta política mais coesa e, por consequência, vitoriosa, em favor das providências necessárias para a superação dos nossos principais problemas. Estar alicerçada por uma instituição como a Amurc é também sinal de um novo momento da política regional, que é reflexo da chegada ao poder de novos nomes, e esse é um combustível que alimenta a nossa esperança.
Rosivaldo Pinheiro é economista e especialista em Planejamento de Cidades (Uesc)
Vítima de AVC, Luis Roberto completaria 80 anos na próxima quinta-feira (4)
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O ex-jogador de futebol Luis Roberto de Oliveira, conhecido como “Boca”, faleceu ontem (27), em Ilhéus, vítima de um acidente vascular cerebral (AVC). Ele jogou profissionalmente nas décadas de 1950 e 1960. Atuou no Fluminense (RJ) e Colo-Colo de Ilhéus, entre outros clubes.
Em fevereiro de 1966, quando jogava na ponta esquerda do Grêmio de Maringá, fez um gol em Lev Yashin, goleiro lendário da antiga União Soviética, que visitou o time paranaense para jogo amistoso. Nessa quinta-feira (28), o ex-vice-prefeito José Nazal (REDE) publicou relato sobre uma cena protagonizada por Boca, que completaria 80 anos no próximo dia 4. Leia.
Lá “pras folhas tantas”, começaram a cantar um sambinha animado e, entusiasmado, eis que se alevanta Dêlibri, iniciando um samba no pé ao lado da mesa de pista onde estava. Queria apenas curtir, dançar como ele gostava.
José Nazal || nazalsoub@gmail.com
Triste com a notícia do passamento de Luis Roberto de Oliveira, Boquinha, Boca Boca, Dêlibri – dentre tantas maneiras como era conhecido. Eu me lembrei de um famoso episódio ocorrido em uma festa no Clube Social de Ilhéus. Quem estava presente deve recordar; quem não estava, passa a saber o que ocorreu.
Final dos anos 70, a dupla Antonio Carlos e Jocafi fazia enorme sucesso nas paradas musicais, com agenda concorrida para apresentação em shows por todo o Brasil, inclusive aqui em Ilhéus, terra já famosa e conhecida como a “terra do cacau”, onde havia riqueza e fartura.
Numa festa no Clube Social de Ilhéus, a dupla veio se apresentar. O salão cheio, as mesas todas vendidas para a festa dançante, com uma orquestra de baile. No meio da noite, a apresentação da famosa dupla.
Quando o relógio bateu 1 hora da manhã, a orquestra parou e foi anunciado o show, com todos os presentes sentados para assistir. Com banda própria, os dois cantores foram alegrando os presentes com seus hits mais famosos. Lá “pras folhas tantas”, começaram a cantar um sambinha animado e, entusiasmado, eis que se alevanta Dêlibri, iniciando um samba no pé ao lado da mesa de pista onde estava. Queria apenas curtir, dançar como ele gostava.
Percebendo que os olhares dos presentes estavam mais voltados para a mesa de Boca Boca do que para o palco, Jocafi, incomodado com o fato (mesmo tentando não demonstrar), parou o show e disse educadamente: “peço ao batera para ir aumentando o ritmo, para o amigo fazer o show dele e depois continuamos o nosso”. O baterista foi aumentando o ritmo e então Boca foi no embalo, gesticulando com as mãos, pedindo mais (imaginem a cena porque com palavras não consigo descrever a velocidade). Ao ver que o baterista não conseguia derrubar Boquinha, Jocafi se rendeu e disse: “companheiro, se quiser, suba para dançar no palco ou então dance aí mesmo. Você é fera no samba no pé”.
Muita gente ainda deve se lembrar dessa maravilhosa cena no Clube Social.
Essa é minha singela e sincera homenagem ao amigo Luis Roberto. Afirmo, sem a habitual complacência post mortem: das pessoas que conheci, ele foi uma daquelas que mais viveram e encararam a vida, em seus altos e baixos, com simplicidade, resiliência e alegria de viver.
José Nazal é fotógrafo, memorialista e autor do livro Minha Ilhéus (Via Litterarum); foi vice-prefeito de Ilhéus entre 2017 e 2020.
Com os rumores de impeachment e a queda da sua popularidade nas pesquisas de opinião, o presidente atenuou o discurso. Em mensagem publicada no Twitter, fez as vezes de estadista e informou que a China está prestes a enviar os insumos da CoronaVac ao Brasil. “Agradeço a sensibilidade do Governo chinês”, escreveu um Bolsonaro afável.
Thiago Dias || diasalvest@gmail.com
Em setembro de 2018, a jornalista Malu Gaspar, da revista Piauí, publicou reportagem sobre o economista Paulo Guedes, atual ministro da Economia. A menos de um mês das eleições, o “Posto Ipiranga” era o fiador de Jair Bolsonaro junto ao mercado financeiro.
Naquela altura, acenando para “a elite brasileira”, Guedes enfatizou a viabilidade eleitoral de Bolsonaro. De quebra, xingou o deputado federal Aécio Neves (PSDB-MG), além dos ex-presidentes Michel Temer e José Sarney. “Quer dizer: todo mundo aí trabalhou para o Aécio, ladrão, maconheiro. Trabalhou para o Temer, ladrão. Trabalhou pro Sarney, ladrão e mau-caráter que aparelhou o Brasil inteiro. Aí chega um sujeito completamente tosco, bruto e consegue voto como o Lula conseguiu”.
Em seguida, tratou o estilo verborrágico do candidato como problema menor. Na opinião dele, ao invés de impor obstáculos contra Jair por causa da sua língua solta, a elite econômica deveria amansá-lo. Aproveitando a deixa, a repórter perguntou se isso era possível. “Acho que sim, já é outro animal”, respondeu o economista.
Diferente do que previa Guedes, no comando do país, Bolsonaro não amansou a retórica beligerante. Enquanto era possível, esticou as cordas contra o Judiciário e o Legislativo. Nas relações internacionais, em atitude de subserviência ao ex-presidente dos EUA, Donald Trump, zombou da China, principal destino das exportações brasileiras. Na pandemia, menosprezou a importância das vacinas contra a Covid-19, o que inviabiliza o acesso rápido do Brasil ao volume necessário de doses para imunizar sua população.
Nesta semana, com o crescimento dos rumores sobre a possibilidade de impeachment e a queda da sua popularidade nas pesquisas de opinião, o presidente atenuou o discurso.
Ontem, em mensagem publicada no Twitter, fez as vezes de estadista e informou que a China está prestes a enviar os insumos da CoronaVac ao Brasil. “Agradeço a sensibilidade do Governo chinês”, escreveu um Bolsonaro afável.
Até parece “outro animal”.
Thiago Dias é repórter do PIMENTA.
Este comentário não reflete, necessariamente, a opinião do blog.
Temos um clima e terras férteis favoráveis a diversas culturas. Temos a tecnologia da Ceplac, da Uesc e outros órgãos governamentais. Mas nos falta, sobretudo, vontade política de todos os demais envolvidos para conduzir este processo de desenvolvimento regional.
Mark Wilson
Estamos numa crise econômica agora também agravada pela pandemia. Porém, muitas crises econômicas mundo afora acabaram com planejamentos estratégicos, com pesados investimentos governamentais, como foi o caso do “New Deal” (Novo Acordo) no pós guerra. Itabuna e região têm este dever de não deixar ser diferente.
Temos pujança no comércio, turismo e em serviços, mas esta mesma renda se esvai no consumo de muitos itens básicos da população (como hortifrutigranjeiros, alimentos industrializados, etc.) produzidos em outras regiões. O que deve ser objeto de maior atenção para que possamos produzir mais do que consumimos. É como fazer uma análise da balança comercial municipal ou regional em um modelo importação x exportação.
Riqueza é gerada com excesso de produção, seja agregando valor no beneficiamento para comercialização, seja com poupança. Praticamente tudo que consumimos vem de fora. E o pouco que produzimos em sua maioria é beneficiado em outras regiões, o que nos faz perder a grande oportunidade de agregar valor aos nossos produtos e gerar esta riqueza que tanto necessitamos.
Há muitas vertentes ou segmentos econômicos a se trabalhar visando o desenvolvimento econômico social do município e região, mas vamos citar como exemplo o segmento da agricultura familiar, que pode ser uma base norteadora para repensar os demais setores econômicos tendo como parâmetro esta simplória e modesta análise empírica.
Itabuna possui uma população com mais de 213 mil habitantes consumindo diariamente dezenas de toneladas somente com hortaliças, legumes, verduras e frutas a um preço já adicionados fretes, impostos, mão-de-obra, lucros e outros, que são pagos diretamente aos municípios produtores, e que pouco nos contribuem financeiramente nesta cadeia produtiva, uma vez que produzimos menos de 8% destes alimentos que comemos. Vamos tentar imaginar quantas toneladas por semana, por mês, por ano, que compramos de fora, uma vez que poderíamos comprar aqui mesmo.
Uma conta simples é a gente ver o custo por quilo no prato de nosso almoço diário o que poderíamos produzir aqui no município e multiplicarmos por cada habitante. É um dinheiro gasto que deixamos de gerar emprego, renda e divisas para nossa cidade e região, além de que o preço unitário na mesa de cada cidadão sairia bem mais barato.
A mudança para este tipo de política governamental passa pela mudança de mentalidade para o também produzir, para o também beneficiar, além do somente comercializar. Temos que mudar urgentemente este paradigma. No sul do país há uma grande qualidade de vida para todos pois praticamente não existem municípios pobres. Acredito que um dos fatores é o espírito de organização cooperativista para a agricultura familiar que supre aquelas populações, além de gerar renda e receitas fiscais.
Temos um clima e terras férteis favoráveis a diversas culturas. Temos a tecnologia da Ceplac, da Uesc e outros órgãos governamentais. Mas nos falta, sobretudo, vontade política de todos os demais envolvidos para conduzir este processo de desenvolvimento regional.
Mark Wilson é graduado em Administração, com especializações em Administração Pública & Gerência de Cidades; Elaboração & Gestão de Projetos Sociais e em Gestão Pública Municipal.
Diante da dificuldade de muitos para lidar com a frustração e a relação direta desse sentimento com a ansiedade no Enem, listamos algumas sugestões que podem ser úteis nesses momentos. Confira:
Carolina Loureiro
A terapia ajuda a ter equilíbrio emocional, trabalhar a autoestima e evitar que o estresse e a ansiedade prejudiquem o desempenho nos estudos. A psicoterapia pode amenizar a pressão para que a vivência do vestibular não seja traumática, pois, por meio do autoconhecimento, o estudante desenvolve habilidades que podem auxiliá-lo no manejo dos seus próprios conflitos.
Devido à pressão psicológica causada pelos impactos da pandemia de Covid-19 em diferentes aspectos da vida da população, o Ministério da Saúde realizou uma pesquisa sobre a saúde mental do brasileiro. Os resultados apontaram a ansiedade como o transtorno mais presente durante os cenários de crise. Na preparação para o ENEM, a situação é bem semelhante.
Geralmente, esses quadros surgem em situações novas e em eventos que geram muita expectativa. Principalmente para os mais jovens, o momento do vestibular chega carregado de incertezas. Por ser uma fase de mudanças significativas, comumente surgem dúvidas, medo e insegurança, que levam à frustração, depressão e ansiedade.
Porém, até mesmo os estudantes bem preparados podem ser dominados pela ansiedade de não passar. Além do peso da responsabilidade de encarar um processo seletivo concorrido, a competição com amigos e colegas — e a expectativa dos pais e professores — também contribuem para elevar os quadros de instabilidade psicológica.
Sentir essa pressão faz parte do processo, pois os estudantes estão preocupados com a resposta que darão aos familiares e à sociedade. Assim, é preciso buscar alternativas que fortaleçam a saúde emocional deles. Nesse momento, é importante fazê-los perceber que não estão sozinhos e que, caso não alcancem o resultado esperado, novas oportunidades virão.
Devido ao grau de complexidade das provas, o estudante se torna apreensivo em relação à concorrência, sobretudo, em cursos que exigem pontuação alta e universidades públicas mais conceituadas. Todavia, ter certa preocupação com o exame é normal, mas não se pode permitir que a autocobrança provoque crises de ansiedade que levem aos desequilíbrios emocionais.
Quando isso acontece, o candidato não consegue a concentração necessária para se manter focado nas disciplinas mais difíceis e a rotina fica comprometida. Por conseguinte, isso pode atrapalhar gradativamente o rendimento dele ao longo do processo e comprometer a performance no dia da prova.
Para controlar essa situação e evitar problemas assim ao longo da trajetória de preparação para o ENEM, o ideal é conversar com os pais sobre as eventuais dificuldades e sentimentos gerados pela autocobrança. Igualmente relevante é ter a consciência de que é preciso respeitar as limitações e projetar expectativas mais realistas quanto à aprovação.
A organização dos estudos e o planejamento são fundamentais para atingir o sucesso da preparação para o ENEM. Os estudantes devem elaborar um cronograma de acordo com o grau de dificuldade de cada disciplina e o tempo disponível para os estudos. Manter a organização ajuda a evitar o esgotamento mental e os riscos que ele representa para a saúde integral.
Porém, quando essa situação sai do controle, alguns sinais que indicam a necessidade de buscar ajuda profissional se tornam mais evidentes. Nessas circunstâncias, o cansaço mental e o desânimo não devem ser vistos como sinônimos de fracasso, mas como indicativos de que pode ser necessário ter mais organização e disciplina para não comprometer os resultados.
Confira, agora, como reconhecer as evidências de esgotamento mental
Apatia e irritabilidade;
Episódios de depressão;
Isolamento e fobia social;
Desinteresse pelos estudos;
Insônia ou excesso de sono;
Alergias e alterações na pele;
Mau funcionamento do intestino;
Queda drástica no desempenho escolar;
Medo de fazer provas e simulados do ENEM;
Falta de apetite, excessos na alimentação e compulsão por doces;
Crises de ansiedade, acompanhadas de falta de ar, tontura, taquicardia e dor de estômago.
O vestibular é um dos grandes fatores de desequilíbrio da saúde mental dos participantes. A avaliação psicológica foi centrada em ansiedade, depressão, estresse, comprometimentos das habilidades sociais e desesperança. (Clique em leia mais, abaixo e confira a íntegra do artigo.)
Sabemos que os estudantes que forem aprovados nesse certame não estarão iniciando as aulas presenciais e até mesmo remotas nesse primeiro quadrimestre, logo, deveria o Ministério da Educação tê-lo adiado, deixando-o para ser realizado logo após a aplicação da vacina e a diminuição da curva pandêmica.
Rosivaldo Pinheiro
Estamos num país dividido. Todos os temas acabam sendo politizados sob o manto ideológico que logo despenca à intolerância. Nenhum tema, por mais ou menos relevante ou obviedade que tenha, escapa a essa contaminação, dificultando que a própria sociedade encontre uma saída para os nossos graves problemas. Questões ligadas à pandemia jamais deveriam fazer parte dessa conjuntura, mas acabaram sendo o terreno mais fértil para esse comportamento e manifestação dos grupos antagônicos.
Primeiro, foi incorporado como tábua de salvação para o enfrentamento da covid o uso da cloroquina, atualmente rejeitada e retirada dos debates dos grupos pró-governo federal. Mas o Brasil possui estoque para abastecer as cidades brasileiras por 100 anos, segundo levantamento do portal Metrópoles. Atualmente, ganharam notoriedade as discussões em torno da necessidade da vacinação em massa, tendo clara resistência por parte de alguns segmentos que se deixam pautar pela corrente negacionista, tendo no presidente da República seu principal difusor.
A vacina CoronaVac passou a ser descredenciada e uma rede de informações contrárias sistematicamente socializada, tudo em função da sua origem chinesa e por ser ela divulgada e defendida pelo governador de São Paulo, João Dória, hoje claro desafeto do presidente Bolsonaro, já que eram parceiros políticos unidos pelo ódio ao PT até o segundo turno das eleições o presidenciais em 2018.
Brasileiros e brasileiras que nunca buscaram saber as origens das nossas vacinas (BCG, Poliomielite, Varíola, Sarampo, Gripe etc) passaram a se apropriar do discurso contrário ao seu uso como se fossem verdadeiros infectologistas, estudiosos da sua eficácia e das relações internacionais que cercam a geopolítica.
Os resultados dos testes feitos pelos cientistas do Instituto Butantã foram desmerecidos, e a margem de segurança e eficácia, desconsiderada, por entenderem, os seus detratores, que se trata de um subproduto, colocando a vacina quase como um placebo. Vejam que esses mesmos negacionistas não se opunham ao uso da cloroquina, mesmo após os cientistas comprovarem a sua ineficácia para covid, ficando claro que a manifestação desses grupos visa apenas dar voz à tese patrocinada pelo presidente da República.
Diante de todo esse desencontro de informações, o país já registra mais de 204 mil mortes e uma calamidade humanitária em Manaus, mas nada disso parece ganhar um olhar de maior análise por parte dos seguidores do negacionismo. Neste domingo teremos o Enem, que só será realizado pela falta de sensibilidade do MEC diante desse momento de extrema vulnerabilidade por que passamos no aspecto epidemiológico e, por consequência, os desdobramentos psicológicos por que passam as famílias e parte dos estudantes que farão a prova nessa primeira etapa.
Sabemos que os estudantes que forem aprovados nesse certame não estarão iniciando as aulas presenciais e até mesmo remotas nesse primeiro quadrimestre, logo, deveria o Ministério da Educação tê-lo adiado, deixando-o para ser realizado logo após a aplicação da vacina e a diminuição da curva pandêmica. Resta agora às famílias e aos participantes buscarem cumprir os protocolos necessários e mitigar os riscos das exposições e aglomerações nos locais de prova.
Que a nossa sociedade saia desse divisionismo nocivo à vida e que possamos respirar – literalmente. Para isso, que cheguem as doses das vacinas e a civilidade.
Rosivaldo Pinheiro é economista e especialista em Planejamento de Cidades.
O professor e comunicador Odilon Pinto e dois de seus filhos
Tempo de leitura: 4minutos
Aos 72 anos, com a diabetes aperreando, morreu vítima de infarto, deixando um legado importante para a comunicação e a educação do Sul da Bahia. Mais um exemplo de vida que nos deixa fora do combinado.
Walmir Rosário || wallaw2008@outlook.com
Até parece que foi combinado: Na terça-feira (12) o jornalista Tyrone Perrucho nos deixa aqui neste mundo, e na quarta-feira (13), sem qualquer aviso-prévio, toma o mesmo caminho o radialista, jornalista e professor Odilon Pinto. Além da tristeza e saudade, passo a me considerar um estranho obituarista – função que existe numa redação – essencial para informar os que partem.
Mas como dizia Odilon Pinto: “Rosário, o jornalista é o grande secretário da sociedade, o encarregado de lavrar a ata dos feitos deste mundo, sejam eles bons ou ruins, não importam, têm que ser anotados”. Há alguns anos que não via e nem tinha notícia de Odilon, que há muito se transformou numa pessoa caseira, com o ofício de cuidar da diabetes que lhe acometia e da Língua Portuguesa.
Odilon Pinto era uma artista nato, um homem show, que dedilhava o violão, tocava “sanfona” ou outro tipo de instrumento, amparado por sua voz a cantar músicas de todos gêneros, como já fizera em bandas regionais. A partir dos anos 70, se dedicou às músicas para o homem do campo, como uma extensão do programa De Fazenda em Fazenda, produzido pela Divisão de Comunicação da Ceplac (Dicom).
Narrar, em poucas palavras, a que se prestava o De Fazenda em Fazenda é essencial para conhecermos mais Odilon e sua atuação para agregar todo o pacote tecnológico da Ceplac às fazendas de cacau, convencendo produtores e trabalhadores rurais. Era a comunicação de apoio dos extensionistas, com uma linguagem apropriada para que as práticas agrícolas fossem feitas em sua plenitude. Esse era o nosso mister.
E Odilon chegou à Ceplac com uma bagagem importante: saber se comunicar de forma simples, direta, de igual para igual com os homens que permaneciam no campo e aqueles que se mudaram para a cidade. Esse traquejo vinha da sua larga militância no PCdoB, o que lhe rendeu, além de um grande conhecimento sociológico e antropológico, alguns dissabores, a exemplo do convívio no xadrez por ordem das autoridades militares.
E a necessidade da Ceplac – ainda nos anos de chumbo – e o cabedal de conhecimento de Odilon casaram-se perfeitamente. Com o programa radiofônico em alta, foram aparecendo seus subprodutos, como o “Forró do Mata o Veio” e o programa radiofônico Namoro no Rádio, que encantava a todos. Lembro bem que recebíamos até 700 cartas por semana, correspondências estas enviadas das roças por pessoas pouco alfabetizadas.
E a finalização do De Fazenda em Fazenda era a apoteose com o quadro “Vida na Roça”, tirado das singelas cartas, com toda a verve de Odilon, fazendo com que muitos chorassem. Chegaram as mudanças políticas em nível nacional, eis que a nova direção da Ceplac resolve trocar a veiculação do programa, tirando-o da Rádio Jornal de Itabuna e levando-o para a Rádio Difusora de Itabuna.
Nadando contra a correnteza, Odilon se nega a apresentar o programa na nova emissora e cria o programa Na Fazenda do Odilon, continuando na Rádio Jornal, apesar da ameaça do desemprego. Enquanto isso, continua dando suas aulas de português em diversos colégios de Itabuna, na atual Universidade Estadual de Santa Cruz (Uesc). Odilon era diplomado em Letras e mestre e doutor em Literatura e Linguística.
Sem perder a simplicidade, continuou apresentando seu programa das 4 às 6h40min, dando aulas nos colégios e universidade, por muitas vezes fazendo esse périplo a pé e de ônibus, numa demonstração de como administrar seu tempo. Volta e meia a diabetes lhe consumia, e ele resolvia tocar o barco pra frente, com mais uma atividade, a exemplo de uma assessoria de comunicação e até ingressar na política.
Esse seu conceito e densidade eleitoral chega aos ouvidos do então candidato a governador Pedro Irujo, que o filia ao PRN e o faz candidato a deputado estadual, com a possibilidade de estar entre os mais votados, conforme as pesquisas. Como não poderia apresentar seus dois programas, substituo-o, mantendo o mesmo estilo, enquanto ele viajava dia e noite para manter o contato com os eleitores.
Disparado nas pesquisas, Odilon comete o pecado de não planejar a famosa boca de urna, e no dia da eleição sai de casa apenas para votar e aguardar a apuração. O resultado não poderia ser dos piores, todas as suas intenções de voto foram providencialmente trocadas nas entradas das cidades, comandadas pelos prefeitos e seus cabos eleitorais, com polpudas ofertas em dinheiro ou outros bens de consumo.
A fragorosa derrota não abalou Odilon, que continuou seu labor no rádio e nas salas de aula. Anos depois, retorna ao seu antigo partido, o PCdoB, porém não se aventura a outra candidatura. E assim esse piauiense tocava sua vida, sem reclamar da sorte, nem mesmo dos períodos em que passou fugitivo trabalhando na zona rural, ou na prisão, onde sofreu todos os tipos de tortura.
Assim como o colega Tyrone Perrucho, Odilon Pinto de Mesquita Filho era agnóstico, mas convivia com as crenças. Sonhava com o delta do Parnaíba, no qual passou parte de sua vida, que levava na esportiva. Numa das nossas muitas viagens, uma delas à Amazônia, não perdia a fleuma em nos acompanhar – a mim e ao fotógrafo Águido Ferreira – nas incursões aos bares e restaurantes, mesmo que tivesse de tomar duas doses de insulina.
Com o tempo, passou a apresentação do programa na Fazenda do Odilon para o filho Rivamar e se dedicou exclusivamente à educação, aos livros e aos artigos que escrevia para o Diário Bahia. Aos 72 anos, com a diabetes aperreando, morreu vítima de infarto, deixando um legado importante para a comunicação e a educação do Sul da Bahia. Mais um exemplo de vida que nos deixa fora do combinado.