O prefeito e a mãe de santo, que, antes de falecer no último sábado (27), manifestou publicamente o desejo de que estação elevatória de esgoto não seja construída no local da Festa de Iemanjá
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Thiago Dias
O feminino desempenha papéis centrais na dinâmica matriarcal de boa parte dos terreiros de candomblé. Posiciona mulheres – muitas delas negras – na liderança de comunidades, algo fora da curva numa sociedade patriarcal. Esse era o caso de Mãe Laura, que faleceu no último sábado (27), no Hospital de Ilhéus, vítima da Covid-19.
O prefeito Mário Alexandre (PSD), segundo nota da Secretaria de Comunicação, expressou “as suas mais sinceras condolências a todos os amigos, familiares e admiradores de Mãe Laura”.
Reinvestido do cargo mais importante do município, após a vitória grandiosa de 2020, Mário pode fazer mais do que uma manifestação de sentimento para honrar a memória de Mãe Laura.
Pode, por exemplo, realizar o último desejo manifestado publicamente pela mãe de santo, que se posicionou contra a instalação de um equipamento da Embasa no local onde, durante quatro décadas, ela organizou a Festa de Iemanjá, um dos festejos mais bonitos e tradicionais da cultura popular de Ilhéus.
Foi a Prefeitura de Ilhéus que cedeu à Embasa o terreno dentro da Maramata, local da celebração sagrada para o candomblé. Por isso, uma canetada do prefeito pode evitar que a estação seja construída ali. Afinal, município e Embasa têm recursos para desapropriar outro espaço com as condições topográficas exigidas pela boa técnica dos engenheiros.
Já o bom senso político, atravessado pela cultura, religião e economia, recomenda o tombamento da Festa de Iemanjá como patrimônio cultural de Ilhéus e a construção de um busto de Laura na Maramata, que poderia muito bem passar a ser chamada pelo nome da mãe de santo.
Nessa miragem, posso ver a Universidade Livre Mãe Laura ao lado da Praça Padre Luiz Palmeira.
Quando Haroldo Lima foi convidado a fazer uso da palavra parece ter feito uma viagem de volta ao passado, lembrando de que, quando estava na clandestinidade, perseguido pela força policial da Ditadura Militar, atuou como trabalhador rural nos municípios de Buerarema, São José da Vitória e Arataca…
Wenceslau Júnior
Hoje recebi um telefonema do amigo Lucas Costa, ex-secretário de Agricultura e Meio Ambiente do Município de Arataca.
Ele fez questão de manifestar o seu pesar pelo falecimento do nosso querido Haroldo Lima.
Logo hoje, 26 de março, Dia do Cacau, dois dias após o falecimento de Haroldo e um dia após o aniversário do Glorioso Partido Comunista do Brasil.
Uma história curiosa me chamou a atenção e jamais poderia guardá-la comigo.
Lucas lembrou de uma reunião ocorrida na campanha eleitoral do ano de 1998, ocasião na qual Haroldo Lima foi candidato a deputado federal e Davidson Magalhães a deputado estadual.
O cenário: umas dezenas de pessoas na porta do estabelecimento de um outro “cabo eleitoral” conhecido como “Zé do Caixão”, já falecido. Todos em pé no meio da rua. Uma caixa de som e um microfone improvisados. Lucas e Zé do Caixão apresentavam seus candidatos a Deputados.
Quando Haroldo Lima foi convidado a fazer uso da palavra parece ter feito uma viagem de volta ao passado, lembrando de que quando estava na clandestinidade, perseguido pela força policial da Ditadura Militar, atuou como trabalhador rural nos municípios de Buerarema, São José da Vitória e Arataca, período no qual se dedicou a “recrutar” e formar militantes rurais para resistirem à Ditadura.
Mirando uma mata que podia ser vista por todos, Haroldo Lima apontou para ela e disse: “Baixinhos, eu já quebrei muito cacau no pé de pau nestas matas de Arataca”.
Alguns permaneceram em silencio, outros cochicharam nos ouvidos daqueles que estavam ao lado. Um ar de desconfiança pairava no ar.
Evento encerrado, Haroldo e Davidson seguiram viagem com a comitiva e a turma permaneceu no bar de Zé do Caixão para bebericar e jogar sinuca.
Aí foi aquele alvoroço: “o que ele quis dizer com isso? Quebrar cacau no pé do pau?”
Muitos duvidando da história de Haroldo Lima trabalhador rural. Outros querendo entender a expressão, outros rindo da cara de Haroldo.
Quando Lucas explicou que nessa época costumava chover muito na região, o que dificultava a colheita e transporte do fruto na “cabruca” (cacau plantado sob a mata). Por tal razão os trabalhadores colhiam o fruto, colocavam nas raízes das árvores frondosas umas folhas de bananeira para servir de anteparo e não sujar a poupa e ali mesmo quebravam o cacau, dispensando a casca e coletando apenas o caroço. Tal pratica facilitava o transporte para as barcaças, pois reduzia o peso e o volume.
Lucas finalmente disse: “vocês estavam duvidando do homem e o homem mostrou que conhece mais de cacau de que vocês todos”.
Haroldo Lima e Davidson angariaram alguns votos e nossa amizade com Lucas que até hoje permanece sólida.
Wenceslau Júnior é ex-vereador de Itabuna e professor da Uesc.
Bolsonaro não pode ser tratado como um político comum. É um criminoso que tem nas costas a reponsabilidade da morte de 300 mil brasileiros.
Carlos Pereira Neto Siuffo
Sempre foi comum se ouvir a frase “não se deve brigar por política, religião e futebol”. É uma máxima de origem conservadora, brandida normalmente por pessoas que se consideravam “neutras” ou que diziam “não gostar de política”. O futebol entra de gaiato na história.
Tal frase poderia ter até sentido em períodos de normalidade política, nos jogos eleitorais das pequenas políticas provincianas, onde cada qual buscava as suas melhoras dentro das ofertas dos grupos políticos em contenda (processos fisiológicos de atendimento das necessidades de sobrevivência das pessoas, onde quase nulas as ofertas de trabalho e de acesso por meio de concursos públicos). Comuns os atritos ocasionais, os xingamentos, mas logo superados; as mesmas pessoas transitavam de um grupo para o outro conforme as possibilidades de êxito (ainda transitam).
Pessoalmente, acho que se deve brigar por política e religião. Falo da grande política, daquela que visa efetivamente transformar o mundo e a vida das pessoas. Não se pode aceitar o mascaramento segundo o qual todos são iguais (não são), tem que se desvelar o que não é normalmente visto, mostrar que existe luta de classes e que uns são beneficiados pela suposta normalidade das coisas. Na religião há que ter respeito à todas (o Estado é laico), mas não se pode aceitar o pensamento reacionário de interpretações preconceituosas, tem que se discutir, sim, demonstrar que aquele Jesus pregado não pode nunca ser o bíblico (é o Jesus do pastor malandro). Tem que ter o diálogo, mas não pode se aceitar a homofobia, o racismo, a misoginia, o preconceito contra religiões diversas; tem que brigar contra e muito.
Normalmente quem professa tal frase quer ficar no escondidinho dos seus preconceitos e/ou privilégios. Quer ficar no panteão da sua acomodação.
Já no futebol não tem por que brigar, tem que brincar, gozar o amigo torcedor do outro time. É desporto, brincadeira. Torcidas organizadas violentas são organizações políticas de natureza fascizantes (não fazem parte da naturalidade da coisa).
Já o Bolsonaro e os bolsonaristas, em regra, são fascistas. Não são políticos simplesmente conservadores interessados apenas em conservar o seu “status quo”. Bolsonaro não pode ser tratado como um político comum. É um criminoso que tem nas costas a reponsabilidade da morte de 300 mil brasileiros – em razão de um política sanitária genocida. Em diversas ocasiões defendeu tortura, ditadura, extermínio de índios, adversários e quilombolas (negro pesado em arroba). A mídia, todos os dias, mostra a corrupção das rachadinhas.
Desse modo, Bolsonaro e bolsonaristas são criminosos e assim devem ser tratados. Faço ressalvas para a massa de evangélicos, em verdade ignorantes e manipulados, que devem ser disputados religiosa e politicamente (o que não quer dizer que não são perigosos em face do fanatismo).
A rigor, com o julgamento da suspeição do Moro, o TSE deveria anular as eleições, e não só por isso, pois há as fraudes das Fake News. A eleição de Bolsonaro foi fruto de crimes e golpe.
Bolsonaro deve ser derrubado, julgado( com o devido processo legal,mas os seus crimes são gritantes) e condenado.
Carlos Pereira Neto Siuffo é professor de Direito da Universidade Estadual de Santa Cruz (Uesc).
Haroldo Lima, de camisa branca, compondo a mesa de ato em defesa da estadualização da Fespi, episódio histórico lembrado no artigo de Élvio Magalhães
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Foi na transição da Fespi para a Uesc que Haroldo Lima pôde despontar para minha geração como o que sempre foi: um orador brilhante, um dirigente afetuoso, um político estudioso, um defensor das causas da Bahia e do Brasil.
Élvio Magalhães || Para José Junseira e Adnaelson Amparo, “emarquianos uesquianos”
Numa madrugada de inverno de 1986, a pequena célula “emarquiana” do PCdoB iria fazer sua primeira ação eleitoral: colar nos alojamentos masculinos a propaganda de Haroldo Lima para deputado federal. Balde, soda cáustica, farinha de trigo, vassoura. Ainda guardo no rosto respingo da cola e a cicatriz da ferida e, no coração, os tempos idos de descoberta e rebeldia.
Na Emarc-Ur me fiz comunista, entre leituras amadianas e artigos de Haroldo, aquele deputado, líder do PCdoB, que emergia da clandestinidade como fênix, após vinte anos de arbítrio de uma ditadura militar feroz e implacável, que espancou, torturou, assassinou, prendeu e baniu.
No ano de 1986 haveria eleições para a Assembleia Constituinte, e os comunistas baianos do sul buscavam reeleger Haroldo Lima. Militante oriundo da Juventude Universitária Católica (JUC), um dos responsáveis pela incorporação da Ação Popular ao PCdoB, ele enfrentou a ditadura, resistiu à tortura, ao cárcere e à barbárie de cabeça erguida. E venceu!
A chegada na Fespi de parte daquela célula da Emarc foi uma alegria. Na entrada, Ramon Vane recitando o “Poema Sujo” de Ferreira Gullar e o megafone de Déa Jacobina, a carismática líder estudantil, nos davam boas-vindas. Foi na transição da Fespi para a Uesc que Haroldo Lima pôde despontar para minha geração como o que sempre foi: um orador brilhante, um dirigente afetuoso, um político estudioso, um defensor das causas da Bahia e do Brasil.
Em 1987, a crise no modelo híbrido (subfinanciamento pela Ceplac, complementado pelas mensalidades), que sustentou a Federação das Escolas Superiores de Ilhéus e Itabuna desde sua fundação, tinha chegado ao auge. No movimento estudantil, o PCdoB dirigia o DCE e organizava a luta contra aumentos de mensalidades e pela estatização. Neste ano o deputado Haroldo Lima consegue um recurso extra no Ministério da Educação do governo Sarney, que possibilita à FESPI pagar os salários dos professores e seguir sem onerar os estudantes, congelando as mensalidades.
Mas é no ano de 1988, com as palavras de ordem “parar pra acertar” e a campanha “Ô estadualiza ou pifa”, que foi possível o desencadeamento de uma greve com o qual o movimento estudantil e acadêmico arrancaram, após 7 meses de intensa mobilização política, a estadualização da Fespi e a gratuidade do ensino. Deste processo participaram intensamente a militância do PCdoB e o deputado federal Haroldo Lima. O governador Waldir Pires, antevendo o futuro, queria federalizar a Fespi, com o correto argumento de que era preciso investimento federal no ensino superior da Bahia, o que só viria acontecer 25 anos depois, com a criação, pela presidenta Dilma Rousseff, da Universidade Federal do Sul da Bahia.
No início dos anos 90, quando a transição da Fespi para universidade se alongou e o impasse institucional se deu em função do Patrimônio da Universidade e outras burocracias, foi de novo Haroldo Lima quem construiu a saída. Mesmo um tenaz opositor do então governador Antônio Carlos Magalhães, Haroldo utilizou de sua amizade com o deputado Luís Eduardo Magalhães, vizinho de apartamento funcional em Brasília, para relatar as dificuldades institucionais da Fespi e cavar uma audiência da comunidade universitária com o então governador ACM. Presente na reunião, vi quando ACM se dirigiu a Haroldo Lima e disse: “Haroldo, você não precisa de intermediários para falar comigo!”.
Desta reunião ficou decidido que a Fespi seria estadualizada e viraria a Universidade Estadual de Santa Cruz – Uesc, o que de fato ocorreu meses depois, numa solenidade no auditório do Pavilhão Jorge Amado, onde o então estudante Wenceslau Jr., recém-eleito presidente do DCE, foi intensamente aplaudido pelos presentes, como reconhecimento da condução vitoriosa do movimento estudantil para aquele desfecho. A maior conquista da minha geração.
Ultimamente, conversava com Haroldo sobre sua participação na vice-liderança da Comissão Permanente do Índio, presidida pelo deputado xavante Mário Juruna, que deu origem à atual Comissão dos Direitos Humanos e Minorias, os avanços conquistados na Constituição de 1988 e a luta dos povos indígenas pelos seus direitos. Não deu tempo de levá-lo à Marcha dos Tupinambás em Olivença, como combinado.
A nefasta política genocida do governo Bolsonaro, que boicotou vacinas e protocolos (e certamente colaborou para a morte prematura de Haroldo e de quase 300 mil vítimas da covid-19 no Brasil), só me faz ter a certeza da necessidade da construção de uma frente ampla, como defendia Haroldo, para que possamos derrotar o fascismo negacionista e descortinar o futuro de prosperidade para o povo brasileiro.
E, quando tudo isso passar, haveremos de fazer uma grande homenagem a este homem público imprescindível. Tomara que a Uesc esteja presente.
Haroldo Lima Vive!
Élvio Magalhães presidiu o Diretório Central dos Estudantes Carlos Mariguella, da Uesc; é membro da direção estadual do PCdoB na Bahia e assessor do deputado estadual Fabrício Falcão (PCdoB).
Uma ação ousada, pioneira no país, que dá um fôlego de boas energias a todos os envolvidos. Avante, Itacaré!
Manuela Berbert || manuelaberbert@yahoo.com.br
Vou logo adiantando que esse texto pode parecer apaixonado demais para alguns, mas estamos no Mês das Mulheres e por isso tenho licença poética para tal, instituída de mim para mim mesma, afinal não é novidade para ninguém a personalidade forte igual a pimenta: só acompanha as opiniões quem aguenta! Rs!
Brincadeiras à parte, a verdade é que venho nutrindo uma paixão arrebatadora por Itacaré. A cidade, que eu mesma achava até alguns anos um lugar belíssimo, mas sem o apelo sofisticado que os centros turísticos tinham, só me surpreende. E escrevo não somente como apreciadora das praias, restaurantes e pubs inusitados, mas como empreendedora. Ousei abrir a primeira loja física da marca Cola Na Manu no centro turístico dela, na Pituba, mesmo sabendo das limitações da pandemia, e também por isso sigo acompanhando todas as News, inclusive da atual gestão.
Em outras palavras, os profissionais de saúde terão descontos, cortesias em hotéis, pousadas, bares e restaurantes. Até guias turísticos estão entrando na campanha para atender com preços reduzidos de até 50%. Apesar de Itacaré ter barreira sanitária e uma taxa de infecção baixa, a campanha não é para lotar a cidade no próximo final de semana, por exemplo. Pelo contrário. Os profissionais poderão adquirir seus pacotes, se programar e usá-los até novembro. Uma ação ousada, pioneira no país, que dá um fôlego de boas energias a todos os envolvidos.
Lula, no imaginário popular, é uma figura muito maior do que o Lula de carne e osso. Lula não é só maior do que o PT, é maior do que ele próprio.
Carlos Pereira Neto Siuffo
1 – O discurso de Lula após as anulações dos processos por Fachin foi um grande acontecimento político.
2- Foi um discurso político com centro correto, priorizou a luta concreta e imediata, não colocou os carros na frente dos bois. Não se poderia ali exigir uma autocrítica dos erros passados (vi artigos cobrando isso).
3- Lula, no imaginário popular, é uma figura muito maior do que o Lula de carne e osso. Lula não é só maior do que o PT, é maior do que ele próprio.
4- Na força e no tamanho de Lula estão as virtudes e defeitos (os perigos). Ele pode ser o grande alinhavador da unidade das forças de esquerda, desde que use o seu tamanho para a construção de um programa mínimo de unidade e promova, junto com o conjunto, um calendário de lutas e de ações concretas para combater a pandemia e o a política neoliberal do desgoverno Bolsonaro. Mas, ele sofre uma grande pressão da direita petista e aí poderá vir a fazer alianças e concessões à direita, que serão mais problemas para as soluções dos infortúnios populares. Também o poder do chamado mercado pressiona para que se mantenha a atual política fiscal. Há também o risco do Lula de carne e osso, com as suas tendências conciliadoras (superadas, espero).
5- A esquerda ao lulismo não poderá ficar refém. Deverá tocar as suas lutas e participar das ações de unidade. A luta hoje é por vacina, auxílio emergencial de R$ 600 e para organizar no dia a dia as massas populares.
6- A força na luta política não se dá pela retórica. Ela é fruto da realidade concreta. Não se é temido pelo grito.
É, meu amigo, quanta falta você vai fazer! Agora, só tomando aquele “elixir tombante” pra aguentar a saudade.
Ricardo Ribeiro
Solon Cerqueira era uma figura que não passava despercebida. Espirituoso, inteligente, inquieto, era o centro da roda, o contador de causos, provocador de boas risadas. Foi diretor de rádio, fez campanha política, montou uma fábrica de cosméticos, o cara inventava mil e umas.
Trabalhamos juntos lá pelos idos de 2005 e ele logo ganhou naquela época, por motivos óbvios, o apelido de Monteiro Lobato. Tinha histórias incríveis, como a de quando foi convidado para montar um receptivo na reserva ambiental de Una para ninguém menos que o Duque de Edimburgo, durante visita do membro da família real britânica ao Brasil.
A forma como contava essa e outras histórias, reais e imaginárias, era única e a risada era inevitável, daquelas de doer a barriga.
As missões que a vida nos apresenta afastaram-nos, mas sempre conversávamos por telefone. No ano passado, encontrei-o junto com o também amigo Robson Hamil. Almoçamos e relembramos os velhos tempos. Não sei por que, mas na ocasião o achei mais sério e preocupado que de costume.
Ele iria fazer um trabalho político na cidade onde moro atualmente, mas veio a pandemia e os planos mudaram. Depois disso, voltamos a nos falar algumas vezes por telefone, inclusive no mês de julho, quando eu e minha esposa contraímos Covid e ele ligava todos os dias para ter notícias.
Esse era Solon. Amigo, solidário, muito sincero e o mais engraçado da turma. Quando o nosso querido amigo Antônio Lopes, jornalista e escritor, assumiu uma cadeira na Academia de Letras de Ilhéus, Solon não teve dúvidas e passou a tratá-lo cerimoniosamente como “imorrível”.
Em fevereiro, soube que Solon estava com Covid e havia sido internado. Nem tive tempo de ligar, como ele fez tantas vezes quando eu estava com esse vírus maldito. Tinha muita fé que nosso Monteiro Lobato sairia dessa e cheguei a imaginar o dia em que sentaríamos diante de uma mesa para ouvi-lo contar sua batalha pela vida.
É, meu amigo, quanta falta você vai fazer! Agora, só tomando aquele “elixir tombante” pra aguentar a saudade. Aí no plano superior, bate aquele papo com o Pai e apela em favor dos seres inferiores que permanecem aqui na Terra. A coisa tá feia, meu parceiro!
A grande novidade está fora do texto, num Lula reinvestido da expectativa de poder. Por isso o mundo lhe deu ouvidos durante três horas. E o Brasil, sob as botas do capitão, olha para 2002 sonhando o velho futuro possível.
Thiago Dias
O discurso do ex-presidente Lula, nessa quarta-feira (10) apoteótica, não trouxe novidade. Sua atração renovada está na justa reconquista dos direitos políticos.
Ali estava o candidato da Carta ao Povo Brasileiro, o autodenominado presidente da conciliação entre capital e trabalho, que evocou a memória do empresário José Alencar como a do vice perfeito.
Defendeu a recuperação do poder de compra do salário mínimo e de medidas de estímulo ao consumo, marcas dos anos dourados dos governos petistas que falam direto ao coração de quem vive do próprio suor.
As carências reais do povo sempre foram lembradas nos discursos de Lula. Como observa o professor Carlos Pereira em artigo neste site, o ex-presidente nunca flertou com o projeto revolucionário de setores mais à esquerda.
Acrescento que, a depender do ponto de vista de quem analisa, esse é o maior elogio ou a mais severa crítica ao lulismo. Pragmatismo imposto por correlação de forças, mesmo no auge da popularidade, ou capitulação diante do mercado? Desencobrir essa aporia é tarefa do auditório. Um e outro, Lula reivindica novamente o papel de conciliador nacional. No seu elogio a José Alencar ecoa um psiu para Luíza Trajano.
Nada disso é novo. A grande novidade está fora do texto, num Lula reinvestido da expectativa de poder. Por isso o mundo lhe deu ouvidos durante três horas. E o Brasil, sob as botas do capitão, olha para 2002 sonhando o velho futuro possível.
O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante o discurso desta quarta-feira (10) || Foto Andre Penner/AP
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LULA é hoje a maior liderança popular que o Brasil tem. Ele não é comunista nem revolucionário. É um socialdemocrata. Sabe ler os sentimentos das massas e falar com elas. Que a esquerda revolucionária faça o seu papel.
Carlos Pereira Neto Siuffo
Comecei a ouvir o discurso no início, interrompi após os agradecimentos para cuidar de outros afazeres. Estranhei a não citação de Dilma dois dias após a data comemorativa à luta das mulheres (8 de março), dia em que Ciro Gomes grosseiramente destratou a ex-presidente da República. Lula teria dado uma pisada na bola.
À tarde ouvi todo o discurso atentamente. Lula corrigiu o erro, no final, justificando o silêncio em face da ausência do nome na nominata e mais adiante, quando responde pergunta sobre mais uma grosseria do Ciro, faz uma espécie de desagravo.
Mitigou o equívoco inicial, porém foi uma falha grossa tanto do cerimonial quanto dele. Dilma, independentemente dos erros cometidos no governo, merece todas as homenagens possíveis, não só por sua vida de lutadora das causas populares como por ser a Presidenta do Brasil eleita pelo povo e golpeada pela direitada.
Lula fez um discurso preciso e correto. Atacou de frente o desgoverno neoliberal de Bolsonaro. Colocou na frente de tudo o combate à Covid-19, a necessidade urgente da vacina e do auxílio emergencial até o fim da pandemia.
Enfatizou a necessidade do investimento público para a criação de empregos. Defendeu as estatais e as riquezas nacionais. Acusou o desmonte que estão fazendo. Defendeu a presença de um Estado democrático e atuante. Insinuou a reestatização da Petrobras e manifestou-se radicalmente contra a autonomia do Banco Central.
Fez acenos conciliatórios para os empresários, mas deixou claro que o inimigo é o capital rentista e que enfrentará a política neoliberal. Atacou também os setores golpistas das Forças Armadas, sem deixar de estender as mãos (não discuto se isso é ilusório ou não). Porém, deixou claro qual seria o seu papel na defesa da soberania nacional.
O discurso político para a sociedade e as massas não é tese acadêmica nem programa de vanguarda. Lula focou em necessidades imediatas, apontou o caminho das ruas e da organização popular. Foi preciso ao ironizar a tal da Frente Ampla e demonstrou em que pontos ela seria possível (auxílio, vacina, etc.).
LULA é hoje a maior liderança popular que o Brasil tem. Ele não é comunista nem revolucionário. É um socialdemocrata. Sabe ler os sentimentos das massas e falar com elas. Que a esquerda revolucionária faça o seu papel. Organize as massas, conscientize-as, vá à luta e pressione organizadamente por conquistas mais radicais.
Defendo uma Frente de Esquerda com candidato próprio. Mas, Lula é parte fundamental do jogo e pode começar a estabelecer a criação de algo como a Frente Ampla Uruguaia, na qual muitos partidos (inclusive os sem representação parlamentar) acordem programas mínimos e unifiquem-se nas lutas.
Não caberia a Lula hoje fazer autocríticas dos muitos erros dos governos petistas. Não teria qualquer sentido. Isso pode ser feito na discussão sobre o programa e atualizá-las na prática futura.
Não sou petista e não me cabe escolher o candidato do partido. Lula, com o discurso desta quinta-feira (11), entra muito forte no jogo. Acredito que ajudará nas saídas desse desespero nacional. No momento, é ultrapassar a imensa barbárie em que está o Brasil. 2022 será fruto do que for feito agora. Eleições vêm depois. É hora de organização e lutas.
Carlos Pereira Neto Siuffo é professor de Direito da Universidade Estadual de Santa Cruz (Uesc).
Um ano após o primeiro caso de Covid-19, o país registra mais de 268 mil mortos e vive o pior momento da pandemia. O sistema de saúde colapsando e na maioria das cidades brasileiras, governadores e prefeitos, com exceções, fazendo o que podem para conter a tragédia da impossibilidade de atendimentos nos casos de internação, agravamento e UTI.
Em todo o país, uma onda de revolta, protesto e insurreição. Empresários e manifestantes começam a se rebelar contra as medidas restritivas, e surgem convites para manifestações contra governadores e prefeitos e as medidas de toque recolher (lockdown) e demais restrições impostas.
Durante os protestos, se quer mencionam a pandemia, o colapso na saúde, os índices de contágio e mortes, e tampouco a falta de vacina para imunizar mais de 210 milhões de brasileiros. Empresários acusam governadores e prefeitos de falirem suas empresas, e de serem os responsáveis por demissões.
Cada categoria afirma que o seu setor não é responsável pelo crescimento do contágio. Fechar o comércio não é solução. Fechar bares, restaurantes, academias não é solução. A questão hoje no Brasil, no entanto, não é ouvir o que não é a solução, mas saber qual é a alternativa ao fechamento das coisas.
Em alguns estados, o número de mortes nos dois primeiros meses deste ano já supera o total de vidas perdidas no ano passado, então, qual é a medida mais eficaz para conter o vírus, as mortes e o colapso nas redes de saúde? A situação do Brasil é singular, no sentido de ser uma das piores possíveis.
Como não bastasse, até mesmo o financiamento de leitos Covid que o Governo Federal mantinha está sendo cortado drasticamente. Não há dinheiro para abrir centenas de leitos e mantê-los, e mesmo se houvesse, já há falta de profissionais de saúde disponíveis e habilitados para atuar com os infectados.
Já se ouve rumores que, se a média de agravamento dos casos se mantiver no patamar que temos visto de janeiro pra cá, a indústria farmacêutica brasileira pode não ser capaz de produzir medicamentos sedativos suficientes para os entubados nas Unidades de Terapia Intensiva.
Diante da perplexidade efusiva, qual é, quais são as medidas propostas por quem acusa governadores e prefeitos por medidas de restrição? O que deve ser feito? Esperar o vírus se alastrar? Ver o surgimento de variantes mais severas e mais letais? Pagar para ver crescer o número de óbitos?
A imprensa, por sua vez, também vive sob uma condição crucial. Não é pequena a quantidade de brasileiros que se queixam de jornais, telejornais, rádios, sites. E então? Vamos ignorar que somos o segundo país do mundo em mortes, além de todas as dificuldades que enfrentamos?
O que assistiremos nos próximos episódios dessa ficção serão as controvérsias que tomarão as ruas, radicalizando a polarização, a politização da pandemia, a demonização dos gestores face à condução da crise e o estímulo à violência entre grupos, que veem a gestão da Covid de modos distintos entre si.
Houve um tempo em que o mundo ficou horrorizado com os mortos no campo de extermínio Dachau, na Alemanha Nazista. Se compararmos os números oficiais do campo de extermínio por gás, com o campo de extermínio de Covid no Brasil, por aqui já morreram o equivalente a oito Dachaus em apenas 1 ano.
Enquanto isso, em meio ao alto índice de infecções e óbitos, o ‘luto’ vai se tornando verbo, uma luta árdua vivida pela sociedade brasileira.
Lucas França é jornalista, publicitário e estrategista de marcas.
Esperamos que o estado de direito seja o norteador do ordenamento jurídico e político e que a democracia siga o seu curso, superando a falta da noção tão necessária para que sejamos de fato uma nação.
Rosivaldo Pinheiro || rpmvida@yahoo.com.br
O Brasil vive mais um momento efervescente não apenas pelas dificuldades impostas pela Covid-19, mas, também, pelas interferências provocadas pelo poder judiciário, que, aliás, passou a ser quem dita o ambiente desde a judicialização da política. O movimento foi iniciado em 2005, quando o presidente Lula buscava a sua reeleição.
A escalada do judiciário aconteceu sob um ambiente de letargia e, de certa forma, parceria do Congresso Nacional. Só que se agigantou e acabou criando um ambiente propício para chegar nos agentes políticos listados por setores do judiciário como adversários do sistema, à luz do combate à corrupção. O modus operandi culminou com a estruturação da Operação Lava Jato, comandada pelo ex-juiz Sérgio Moro, iniciada em 2014.
A estruturação da operação seguia uma pauta midiática: fases, performances, escutas ilegais, prisões e muito marketing, tudo em fina parceria com setores da grande mídia, além dos vazamentos seletivos anunciados sob grandes holofotes e plantões, retroalimentados em diversas emissoras. Uma massificação com um enredo hollywoodiano.
A operação parecia ser liderada por um herói, com prisões de figurões dos poderes político e econômico com claras participações em ilicitudes, e também de outros atores sem a necessária apresentação da materialidade do crime cometido. Entre idas, vindas, versões e notas de esclarecimento, aconteceu o fato de maior repercussão: a prisão do ex-presidente Lula.
O Brasil assistiu às oitivas em que o ex-presidente comparecia para ser interrogado pelo então juiz Moro e sempre se dizia inocente. A divisão do país só se acirrou e as urnas elevaram Bolsonaro ao posto de presidente. Já Moro, largou a magistratura para ser membro do novo governo como ministro da Justiça e Segurança Pública.
Mas surgiu algo inesperado: vazamentos de conversas privadas ocorridas entre Moro, integrantes da Lava Jato e membros do Ministério Público Federal foram divulgados pelo The Intercept Brasil. As conversas foram negadas pelos envolvidos e logo o ministro Moro ordenou a prisão dos responsáveis pelos vazamentos.
Foi montada a Operação Spoofing, que culminou com o encarceramento dos hackers responsáveis pela façanha. De lá para cá, muita coisa mudou e o ex-presidente Lula responde em liberdade, após cumprir pena de um ano e sete meses em regime fechado.
Diante dos fatos da Operação Spoofing, a defesa de Lula requereu ao Supremo Tribunal Federal acesso às mensagens e, após autorização, pediu a suspeição do ex-juiz Moro por parcialidade e motivação política. Com o avanço em favor do ex-presidente, o ministro do STF Edson Fachin adotou um remédio jurídico, fazendo valer a máxima popular “dá-se os anéis para não perder os dedos”.
Para livrar Moro e salvaguardar o que sobrou da operação Lava Jato, Fachin considerou a justiça de Curitiba incompetente para proceder o julgamento e, por consequência, devolveu os direitos políticos ao ex-presidente Lula. A ação de Fachin, embora pareça em favor de Lula, pode ter objetivado evitar a suspeição de Moro, provocando a anulação dos recursos da defesa do ex-presidente, na tentativa de forçar os seus arquivamentos por perda dos objetos.
A batalha jurídica e política parecem não ser encerradas de imediato, ao contrário, novos capítulos serão produzidos. Um deles foi iniciado nesta terça-feira (9) com a retomada do julgamento da suspeição do ex-juiz Moro, colocada em pauta pelo ministro do STF Gilmar Mendes. Aos brasileiros, restará ficar a postos, de olho no noticiário, principalmente porque o próximo ano é eleitoral e os desfechos dessas questões jurídicas influenciarão diretamente na composição das forças políticas que concorrerão no pleito. Esperamos que o estado de direito seja o norteador do ordenamento jurídico e político e que a democracia siga o seu curso, superando a falta da noção tão necessária para que sejamos de fato uma nação.
Rosivaldo Pinheiro é economista e especialista em Planejamento de Cidades (Uesc).
Quem, como Alencar Pereira da Silveira, nasce no dia consagrado a Iemanjá tem o corpo fechado e uma legião de amigos para clamar: Vida longa ao Caboclo Alencar!
Walmir Rosário
Se não puder ajudar, pelo menos não atrapalhe! Esse bordão é bastante antigo e não sai de moda, acredito eu que para passar um pito, chamar a atenção, dar um esfrega nas fuças do dito cujo que faz o que não deveria. Isso vale – e muito – para o sacripanta que uns dias atrás espalhou pelas redes sociais uma notícia falsa – ou fake news, como está na moda – dando conta que o Caboclo Alencar teria morrido.
Neste dia, logo cedo, enquanto esperava o café ser posto à mesa, me deparei com essa heresia no Facebook, no Instagram e no Whatsapp, de que o Caboclo teria partido para o outro mundo sem se despedir de ninguém. Com essa profusão de notícias ruins sobre os amigos que se vão, de início fiquei alarmado, mas fui me recuperando aos poucos todas as vezes que analisava uma premissa sobre sua morte.
Ora, sem mais delongas iniciei uma série de ligações para amigos comuns que trataram de desmentir a calúnia na mesma hora e prometeram tomar providências junto à polícia, à justiça e até ao papa, com a firme intenção de aplicar um castigo eficaz no mentiroso. Justamente quando o Caboclo Alencar acaba de comemorar seus 90 anos bem vividos um sujeito qualquer decreta a morte dessa autoridade, sem mais nem menos.
Mesmo neste terrível tempo em que a pandemia assola o mundo – incluído aí o Brasil e Itabuna – o Caboclo Alencar continua prestando relevantes serviços à sua clientela, servindo as deliciosas e quase sexagenárias batidas. Se bem que o Caboclo Alencar poderia se valer do alto dos seus 90 anos para resolver se aposentar do trabalho e passear com sua Neusa mundo afora. Mas não, continuou na labuta.
A única mudança que se permitiu foi mudar a linha de produção da indústria implantada no Beco do Fuxico, onde também funciona o internacionalmente famoso ABC da Noite, para a sua residência. É bom que se diga que também se permitiu a outra mudança: deixou de servir as batidas no varejo e agora somente trabalha em atacado, comercializando-as a partir de embalagens de litro.
Sujeito modesto esse Caboclo Alencar, que continua firme na lida para não deixar os alunos – repetentes ou não – do ABC da Noite a ver navios. Que ninguém repare não ser servido na forma tradicional, de pé no balcão e em pequenos copos de plásticos em dois tamanhos, pois não convém manter esse serviço em sua própria residência, cujos frequentadores são apenas os convidados.
Mesmo assim, na porta de entrada o Caboclo não se furta de entregar os maravilhosos litros de batida, quase sempre acompanhados de uma dose da bebida, para deleite do ilustre cliente. Nestas semanas em que prevalece o lockdown, nada melhor do que passar o fim de semana em casa e devidamente abastecido. Afinal, um boêmio distinto é conhecido pelos serviços que presta ao recepcionar seus convidados.
Mas voltando ao malfazejo que transmitiu essa heresia ao mundo por meio da internet, fico aqui imaginando o que o Caboclo Alencar teria feito de mal ao dito cujo, para premeditar tamanha vingança. Teria ele passado pelo Beco do Fuxico e dado de cara, por dias a fio, com o ABC da Noite fechado e se sentiu prejudicado no seu sagrado direito de beber uma das batidas, conforme mandava a tradição?
Não acredito na atitude mesquinha desse sujeito e rogo que a justiça venha a dar o tratamento merecido ao dito cujo, no tamanho que merece o tresloucado ato praticado. Se falhar a justiça dos homens que, pelo menos, atue a divina, e que ele seja, no mínimo, proibido de beber as tradicionais batidas do ABC da Noite por um longo período, na mesma proporção do estrago que causou aos amigos do Caboclo.
Para os que ainda não tomaram ciência do que representa o Caboclo Alencar, vai aqui uma simples amostra da importância desse homem para os frequentadores do ABC da Noite, tanto os diários como os esporádicos. De portas abertas desde 1962, o Caboclo coleciona uma carteira de amigos e clientes que ultrapassam limites, divisas e fronteiras, que sempre voltam para uma mais uma dose.
Itabunense nascido em Sorocaba (SP), Alencar Pereira da Silveira teve a ideia de transformar o açougue em que comercializava carne de porco em uma casa de batidas, cervejas e tira-gostos. De lá pra cá não fez outra coisa na vida que não fosse proporcionar a felicidades dos costumeiros clientes, transformando seu negócio numa verdadeira casa de amigos. E tantos amigos que crescem a cada dia.
E para tomar a saideira, de cara vou avisando ao dito cujo carcará sanguinolento que praga de urubu magro não pega em cavalo gordo. Quem, como Alencar Pereira da Silveira, nasce no dia consagrado a Iemanjá tem o corpo fechado e uma legião de amigos para clamar: Vida longa ao Caboclo Alencar!
Walmir Rosário é radialista, jornalista e advogado.
Ao tirar a competência da 13ª Vara Federal de Curitiba para julgar o ex-presidente Lula, o ministro do STF Edson Fachin anula todos os atos processuais em relação ao petista. Ou seja, de balaiada, anula duas sentenças (apartamento do Guarujá e sítio de Atibaia) e uma denúncia (terreno da Odebrecht para Instituto Lula) contra o ex-presidente.
A decisão devolve Lula ao jogo político, pois ele volta a ser ficha limpa e estará livre para concorrer à Presidência em 2022 se não tiver outra condenação em segunda instância até lá. O efeito é politicamente poderoso, pois evidencia a parcialidade no tratamento de Lula por Sergio Moro. Será muito difícil que Lula não esteja na cédula eleitoral do ano que vem.
Como o Brasil não é para amadores, Fachin tenta salvar o que restou da Lava Jato, que vem se enfraquecendo com a exposição das lambanças de Moro, Dallagnol e cia. ao corromperem o processo judicial. Se são nulos os atos de Moro, não é necessário mais julgar a sua suspeição, algo que estava pendente na Segunda Turma do STF. Ela, a suspeição, é mais do que evidente com a decisão de Fachin, que tenta isolar o caso do ex-presidente dos demais julgados por Moro. Clique e confira a íntegra do artigo de Kennedy Alencar em sua coluna no UOL.
Espera-se que a atual geração corrija a caminhada e reverbere um novo percurso. Certamente, seremos mais criativos, inovadores
Efson Lima | efsonlima@gmail.com
A sociedade convencionou comemorar o dia internacional da mulher em 8 de março, anualmente. A data faz lembrar lutas históricas, entre elas, o motivo que levou uma parte dos países no mundo a relembrar esse dia. Louvemos todas as mulheres, entretanto, peço licença para reverenciar aquelas que fazem da escrita a luta diária, utilizam suas vozes para promover direitos, afirmam o empoderamento feminino no dia a dia e apresentam caminhos para uma sociedade. As letras representam uma das feições mais avançadas de uma sociedade e registram o trajeto humano.
Como sabido, o ambiente do ensino superior no primeiro momento esteve reservado aos homens. Entretanto, as mulheres foram quebrando as correntes e adentrando no espaço que, aparentemente, tinha sido projetado para a perpetuação da masculinidade. E, agora, elas não só têm concretizado suas formações, mas se espalhado na efetivação de diversos ofícios. Buscam ocupar as diferentes profissões. Tornam-se professoras, médicas, advogadas, enfermeiras, juízas, engenheiras, escritoras… empreendedoras elas foram sempre.
O Coletivo Flisba (Festival Literário Sul-Bahia) busca compreender esse processo. Não sem razão, promoverá no dia 08/03, às 21 horas, pelo Instagram, uma live para refletir sobre a data. A mediação da atividade será feita pela professora Silmara Oliveira, presidenta da Academia de Letras de Itabuna (ALITA) e a convidada será a professora Tica Simões, professora universitária da UESC, que formou uma geração de pessoas e orientou tantas outras no campo da literatura, do turismo e da cultura. Ambas, sócias da ALITA. Além disto, são duas mulheres que exaltam a literatura do sul da Bahia e, certamente, vão refletir sobre a obra da poeta Valdelice Pinheiro, cuja escritora é a homenageada do Bardos Baianos – Litoral Sul.
O FLISBA reservou ainda dois outros momentos: em 09/03, às 20 horas, vai promover uma live com o tema “Violência oculta e explícita contra a mulher” no perfil do Flisba e no dia 11/03, uma roda de conversa “DE MULHER PARA MULHER – Desabafos e descobertas”. A roda de conversa receberá inscrições no Sympla. Estas duas atividades serão conduzidas por Indyara (Indy) Ribeiro, psicóloga e psicanalista, e da professora Luciana Chagas, ela que é doutora em Psicologia Clínica (USP), psicanalista e pesquisadora.
Como explicitado, o campo das letras é poder. Falar é poder. Dominar o código é ter assegurado um caminho. Mas nem sempre foi uma caminhada tranquila para as mulheres e mesmo se assenhoreando do código não significa que o trajeto só será de flores. Vejamos, Júlia Lopes, uma grande escritora brasileira, teve seu nome apagado da ata de fundação da Academia Brasileira de Letras. Para o seu lugar, colocou-se o esposo. A esposa do jurista Clóvis Beviláqua até tentou, mas foi escamoteada. Mais tarde, Rachel de Queiroz quebrou as correntes sexistas e adentrou ao Petit Trianon, que não só representou uma conquista pessoal, mas também coletiva e, simbolicamente, retomou a história de Júlia Lopes, que teve seu direito cerceado no museu Pedagogium, no Rio de Janeiro, naquele 20 de julho de 1897, quando da fundação da ABL. A professora Jane Hilda Badaró tem um excelente artigo publicado sobre as mulheres nas academias de letras, na Revista Estante da Academia de Letras de Ilhéus. Ela traça um panorama do ingresso das mulheres nesses espaços.
O sul da Bahia além de cacau, sempre deu escritoras. Não sem razão, temos uma plêiade de mulheres para serem lidas e estudadas. Peço licença para registrar as flisbianas, pois, elas têm colaborado significativamente para as artes e as letras no sul da Bahia. Elas promovem lives, escrevem poemas, participam de saraus, usam suas redes sociais e proclamam um novo estado de poesia. Elas não perdem a criticidade, provocam reflexões e nos sinalizam outros caminhos. Avançam no campo da gestão cultural, se socorrem na arte da docência para o sustento; pintam telas para retratar a região e sua gente; cuidam de museus e do patrimônio cultural, fazem gestão cultural e estudam. Não teríamos Flisba sem as presenças e sem as atuações destacadas delas. Algumas com mais tempo no grupo, outras chegando, elas se somam e mostram a força do “mulherio”: Anarleide Menezes, Aurora Souza, Cremilda Conceição, Hussiane Amaral, Indy Ribeiro, Laura Ganem, Luh Oliveira, Raquel Rocha, Sheilla Shew, Silmara Oliveira, Sophia Sá Barretto e Jane Hilda Badaró. Um salve, dois salves para elas que cumprem diversas jornadas e encontram forças para voluntariamente nos oferecer luzes sob a perspectiva de que uma outra humanidade é possível.
O feminino nunca foi problema. Problema sempre foi a masculinidade tóxica que impediu a mistura de homens e mulheres nos espaços, impossibilitou as trocas de experiências e dificultou uma geração com mais empatia. Espera-se que a atual geração corrija a caminhada e reverbere um novo percurso. Certamente, seremos mais criativos, inovadores, consequentemente, poderemos ser chamados de seres humanos dotados de inteligência e reflexão crítica.
Efson Lima é doutor, mestre e graduado em Direito (UFBA), membro do coletivo Flisba, professor universitário e advogado.