Mesa da Diretoria aos sábados na Fuxicaria do Beco
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Somente dois bastiões seguraram as pontas: o Caboclo Alencar, do ABC da Noite, fundado em 28 de julho de 1962, e Eduardo Gomes (nome de Brigadeiro) do Artigos para Beber. E seguraram as pontas mesmo, Caboclo Alencar à esquerda no primeiro quarteirão, no baixo beco; Eduardo Gomes à direita no terceiro quarteirão, no alto beco.

 

Walmir Rosário

É caso pra se pensar, mas não creio que tenha nada a ver com a mitologia grega. Acredito que seja apenas uma simples coincidência comparar a situação atual do Beco do Fuxico, em Itabuna, com o ressurgimento da Fênix, tal e qual as aparências. Não duvido que seja algum projeto saído da prancheta de algum conceituado marqueteiro, daqueles que têm o hábito de frequentar botecos.

O certo é que as mudanças foram profundas, bem fundadas e o “novo” Beco do Fuxico já pode ser considerado um perfeito case de sucesso. Há pouco tempo passava por uma crise interminável, daquelas que obrigaram o fechamento das portas dos bares, o fim do negócio, provocando um divórcio entre os donos dos botecos e os fidelíssimos clientes.

É que o peso da idade foi chegando como quem não queria nada, afastando alguns, de forma definitiva, aposentando outros, causando um prejuízo incalculável nos clientes, que mais do que de repente, ficaram solitários, perdendo seu personal boteco, e o segundo lar. E o mais grave: desagregando uma legião de amigos, irmãos, melhor dizendo.

Há anos que o Beco do Fuxico participa ativamente como personagem vivo e atuante da história de Itabuna. Deixou-nos Pedrão, Itiel, Dortas, Mota, Mário, Batutinha fechou as portas e guardou o saxofone, deixamos de sentar nos sacos de feijão, arroz e farinha de Alcides Rodrigues Roma, lamentávamos o fim do Quitandinha, e até a Confraria do Alto Beco do Fuxico foi fechada com a mudança de José D’Almeida Senna para Salvador.

Somente dois bastiões seguraram as pontas: o Caboclo Alencar, do ABC da Noite, fundado em 28 de julho de 1962, e Eduardo Gomes (nome de Brigadeiro) do Artigos para Beber. E seguraram as pontas mesmo, Caboclo Alencar à esquerda no primeiro quarteirão, no baixo beco; Eduardo Gomes à direita no terceiro quarteirão, no alto beco.

E o Caboclo Alencar, do alto dos seus 94 anos completados com festa em 2 de fevereiro, dia dedicado a Iemanjá, decidiu dar um freio de arrumação no ABC da Noite, criando uma consternação em seus alunos repetentes. Por ordens médicas, o “caboco” estava com as pernas cansadas, e mesmo assim, em respeito aos clientes, passou a abrir apenas aos sábados, das 10 às 13 horas.

E logo o ABC da Noite, famoso por seu rigoroso horário de atendimento aos clientes, conforme a placa de bronze afixada na parede. De segunda a sexta-feira: das 11 às 12h30min, e das 17 às 19 horas; aos sábados das 11 às 12h30min; sem expediente aos domingos. Não deu outra, as reclamações vieram de pronto, pois os alunos não sabiam onde frequentar nos dias de semana.

Clientes fidelizados se comunicam em grupos de whatsapp

E aí é onde entra o tal do projeto de marketing de Erick Senna, logo após a decisão de seu tio José Senna se mudar para a capital. Bem coladinho com o ABC da Noite, na esquina com o Calçadão da Ruy Barbosa, inaugurou a Fuxicaria do Beco, um bar sem espaço para os clientes de pé do balcão, porém com muitas mesas ao ar livre, no Calçadão, em meio do povo.

E não é que os confrades do Alto Beco do Fuxico atenderam aos reclames de Erick Senna e desceram a ladeira, especialmente aos sábados, os quais abancados nas extensas mesas discutem desde parto de elefante às ações de Donald Trump, sem a menor cerimônia. O debate político voltou a ganhar seu espaço ao som de renomados músicos, da forma mais democrática possível, como nos velhos tempos.

Músicos renomados se apresentam no coreto Caboclo Alencar

Música ao vivo, sim, e para tanto está presente o coreto batizado Caboclo Alencar, homenagem mais que justa, diria justíssima, ao alquimista das tradicionais batidas, que abriu mão de ser coroado Rei do Beco do Fuxico, como queria Roberto Carlos Goodygroves Bezerra, o Dr. Malaca, quando da instituição da Lavagem do Beco do Fuxico.

E assim, grande parte da Confraria do Alto Beco do Fuxico se mudou para a Fuxicaria do Beco, dando uma no cravo e outra na ferradura, melhor dizendo: se abastece das encantadoras batidas do Caboclo Alencar, enquanto degustam cervejas e outras bebericagens. E o Beco do Fuxico voltou aos seus gloriosos tempos em que comercializavam a amizade e a alegria engarrafadas.

A fidelidade dos clientes é de tamanha monta que eles utilizam a tecnologia das redes sociais para se comunicarem com o grande público, e entre si por meio do Whatsapp. As diversas tribos atendem no zap pelos nomes de Confraria do Alto Beco do Fuxico, Amigos do Beco do Fuxico, Grupo da Fuxicaria do Beco e até o inusitado Bodes do Caboclo, este exclusivo dos maçons frequentadores.

Sempre que posso ir a Itabuna num sábado não deixo de rever os amigos e confrades, jogando conversa fora, às vezes solucionando os problemas do mundo de uma só canetada. E foram justamente a Fuxicaria do Beco e o ABC da Noite que escolhi como palco para lançar os meus livros Crônicas de Boteco – um guia sem ordem e Como Sobreviver à Pandemia, em grande estilo, em meu segundo lar.

De minha parte, desejo sucesso ad aeternum.

Walmir Rosário é radialista, jornalista e advogado e autor de  autor de livros como O Berimbau – Valhacouto de boêmios, disponível na Amazon.

Prédio e equipe do lendário Baby Beef de Itabuna || Montagem Walmir Rosário
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No dia seguinte, na primeira aula, às 7h30min, o professor de Direito Civil, o então juiz do Trabalho Érito Machado (depois desembargador presidente do TRT-5), escreveu no quadro os temas da aula, virou-se para os alunos e disse: “Aqui tem uns caipiras que chegaram ao Baby Beef, em Itabuna, sem dinheiro para pagar a conta, como se estivessem na pensão de sua cidadezinha”.

 

Walmi Rosário

Eu sempre utilizo um ditado como modo de conduta: “Não vou a tudo em que sou convidado, muito menos onde sequer fui lembrado”. Por todo esse tempo esse costume não me causou qualquer arrependimento ou dissabor. Sei que não sou um bom conselheiro, pois me faltam predicados, embora não me furte a dar algumas dicas sobre os riscos que podem acometer aos penetras.

Outro comportamento que faz bem a qualquer desprevenido é não aparecer em locais nos quais seus bolsos são desqualificados, monetariamente. Em tempos passados, o velho talão de cheque poderia quebrar um galho no acerto de contas, embora nos dias seguintes fosse ele convidado a comparecer ao banco com os recursos para o competente depósito e cobrir o cheque voador. Hoje não mais, o cartão de crédito é rejeitado na hora e o Pix nem por sonho.

Durante toda a minha vida convivi com amigos de todos os comportamentos. Uns mais afoitos e de boa lábia, cujo poder de convencimento quebrava o mau humor do dono do estabelecimento e o permitia assinar um vale de quitação duvidosa. Um deles, após muitos goles de cachaça e cerveja, não contou conversa e puxou do bolso um talão de cheque e o preencheu com o valor da conta da mesa. Só que era a folha da requisição do talão de cheques, conforme ficou sabendo na segunda-feira, com a visita do dono do bar.

Desses casos coleciono algumas dúzias, mas um deles me chamou a atenção, e dia desses, ainda me fez lembrá-lo o colega causídico Antônio Apóstolo. Éramos estudantes de Direito, nos velhos tempos da Fespi, depois Universidade Estadual de Santa Cruz (Uesc). Estávamos no saudoso Baby Beef, disparado o melhor restaurante que Itabuna “já teve”.

Numa mesa, dois de nossos professores da faculdade, um deles recém-conhecido de dois colegas do curso. Ambos de uma pequena cidade do Recôncavo, e entraram no Baby Beef apenas para conhecer o restaurante, conceituado pelo serviço, comidas e bebidas. O certo é que ficaram embasbacados e começaram a circular entre as mesas, verificando as iguarias.

Ao se depararem com os ilustres professores, na maior inocência resolveram cumprimentá-los. Ao serem reconhecidos, os mestres responderam às saudações e um pequeno bate-papo foi estabelecido. Por educação, acredito, foram convidados a sentar-se à mesa e os visitantes não fizeram cerimônia. O garçom logo providenciou duas taças e pratos para o couvert.

Durante um bom tempo da noite de sexta-feira o quarteto conversou sobre a qualidade do vinho Liebfraumilch (garrafa azul), da comida, e da qualidade dos restaurantes de Itabuna, da faculdade e do que mais lhes apeteciam. E num restaurante da categoria do Baby Beef os solícitos maitre e garçons atentos à mesa, a abasteciam com muita frequência. Comeram um Peixe à Belle Meunière, que consideraram comida dos deuses.

Um pouco depois da meia-noite, bem satisfeitos, os professores elogiam a bela noitada num restaurante de primeira linha e anunciam que iriam embora, pois naquele sábado teriam que ministrar aulas logo nos primeiros horários. Pedem a conta e a conferem assim que chega. Num simples cálculo promovem a divisão equitativa, ou seja, fracionam o total entre os quatros participantes.

Os dois convidados começaram a gaguejar e suar frio, pedindo desculpas por se encontrarem desprevenidos de recursos, em dinheiro ou outro meio de pagamento, pois tinham ido ao Baby Beef apenas para conhecer o conceituado ambiente. Os professores não contaram conversa, pagaram as suas partes e avisaram aos dois alunos que resolvessem o problema com o maitre e partiram.

Atônitos, os dois se dirigiram ao balcão e quase em prantos relataram que não eram de Itabuna, embora gente de bem, estudantes de direito na Fespi, filhos de boas famílias e o único recurso para solucionar o problema seria fazer uma ligação telefônica para a família de um deles. Era a época do telefone fixo, e àquela hora ligaram para o pai, relatando o ocorrido, sendo liberados após a garantia de uma ordem de pagamento urgente na próxima segunda-feira.

No dia seguinte, na primeira aula, às 7h30min, o professor de Direito Civil, o então juiz do Trabalho Érito Machado (depois desembargador presidente do TRT-5), escreveu no quadro os temas da aula, virou-se para os alunos e disse: “Aqui tem uns caipiras que chegaram ao Baby Beef, em Itabuna, sem dinheiro para pagar a conta, como se estivessem na pensão de sua cidadezinha”.

Em seguida, deu início à aula, criando uma apreensão entre os alunos, ávidos em saber quais seriam os personagens descritos pelo mestre. Depois desta lição, nunca mais saíram desprevenidos, financeiramente, para uma noitada, mesmo de reconhecimento.

Walmir Rosário é radialista, jornalista, advogado e autor de  autor de livros como O Berimbau – Valhacouto de boêmios, disponível na Amazon.

O azeite de dendê Unauê recebeu esse nome em homenagem ao município de Una, onde é produzido || Foto Walmir Rosário
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Walmir Rosário

Sempre acreditei piamente que Deus deixou as coisas boas do mundo para todos os seus filhos, indistintamente, embora alguns se deem ao luxo de esnobar algumas comidas e bebidas por algum motivo. Mas não cabe eu analisar o que eles pensam, o que gostam ou desgostam, nem os motivos que os levaram a abominar certos tipos de comes e bebes. Mas que acho estranho, isto é fato.

Na Bahia protegida por todos os santos, então, é uma infâmia desprezar as iguarias africanas, a exemplo do abará e do acarajé, que fazem sucesso e enchem a boca de água só em pensar. Bote sua cabeça para funcionar e se imagine comendo um acarajé com todo aquele recheio escorrendo pelos “cantos da boca”, com realce para o azeite de dendê! Comida dos orixás, dos deuses!

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Fizemos uma moqueca de vermelho do olho amarelo usando todos os temperos habituais, inclusive gengibre e a banana da terra. A novidade foi o dendê Unauê, que proporcionou sabores incríveis.

Se vosmicê se contenta com uma moqueca sem dendê, do jeito que é cozida em alguns estados, não sabe o que está perdendo. Mas ainda dá tempo de recuperar o atraso e conhecer o novo tipo de dendê que é produzido pela Ceplac, em Una, no Sul da Bahia. Portanto, ao chegar a um bom restaurante ou tabuleiro de baiana do acarajé, pergunte primeiro: Esse prato é feito com o azeite de dendê Unauê?

Caso a resposta seja positiva, sossegue, relaxe e se sinta um privilegiado. Vosmicê estará prestes a embarcar numa experiência gastronômica sem precedentes. Sinta-se no Olimpo e deixe que suas papilas gustativas viajem pelos sabores despertados pelos temperos, gostos e, sobretudo o umami, presente no dendê Unauê.

O engenheiro florestal José Inácio, da Ceplac

Como disse no início dessa crônica, tenho que compartilhar com vocês essa novo dendê, que acredito ser uma iguaria dos deuses. Numa de minhas incursões por Una, encontrei com o colega ceplaqueanos José Inácio Lacerda Moura, engenheiro florestal da Ceplac, e responsável pela introdução do cultivar híbrido desse dendê na Bahia.

Era o ano de 2009 e o projeto previa a associação da alta produtividade do dendezeiro africano com a resistência ou tolerância a pragas e doenças, porte baixo e qualidade do óleo do caiaué. Esse trabalho contou com o apoio da Embrapa Amazônia Ocidental, e a intenção principal era evitar o debacle desse cultivo no Sul da Bahia.

José Inácio é Doutor em Entomologia Agrícola pela Unesp/Jaboticabal-SP; Especialista em Pragas das Palmeiras e Endoterapia Vegetal, também chefe da Estação Experimental Lemos Maia/Ceplac, em Una-BA, e que goza de conceito internacional. Ele explica que o declínio da dendeicultura baiana estava e ainda está calcado em vários fatores, tais como os cultivares existentes, o custo com a colheita em razão da altura, baixa produtividade, óleo com alta acidez em virtude do mau manejo, falta de assistência técnica e problemas fitossanitários.

O problema é agravado no pequeno agronegócio dendê na Bahia, constituído pelos chamados “roldões” que representam a grande maioria das unidades processadoras do óleo, localizadas na região conhecida como Baixo Sul, vem sofrendo sério revés econômico pela diminuição da matéria-prima, ou seja, cachos de dendezeiro. Esses “roldões” são responsáveis pela geração de cerca de 3 mil empregos diretos e de parcela considerável da renda regional.

O cientista ressalta que no campo a cultivar HIE OxG  vem obtendo bons resultados, e no comércio o azeite Unauê inova pois tem menor quantidade de ácidos graxos livres do que o óleo do dendezeiro, por isso é um azeite com menor acidez e melhor qualidade. É também mais insaturado e com maior teor de vitamina “E” e carotenos que o óleo do dendezeiro.

Estudos também demonstraram que o azeite Unauê tem potencial para o preparo de alimentos funcionais, rico em polifenóis, com propriedades antioxidantes e impacto favorável sobre os lipídios plasmáticos humanos relacionados com os fatores de risco cardiovascular. Devido a essas características, o uso do azeite Unauê, principalmente no caso de produtos da culinária tradicional que utilizam o óleo de dendezeiro não refinado, proporcionará produtos de melhor qualidade, sabor, propriedades nutracêuticas e/ou funcionais.

Em tom de brincadeira, José Inácio diz que as baianas de acarajé “odeiam” o HIE (ou Unauê) por ter pouca estearina (mais oleina). Devido a isso, só permite uma fritada – o que é bom para o consumidor. Já o dendezeiro – por ter muita estearina –, permite até 5 fritadas – o que é péssimo para o consumidor. Por fim, a cor amarela da estearina (ou borra) dá o dourado. Já quando feito com o Unauê, fica escuro, pois tem muita oleina. Contudo, o acarajé quando feito com Unauê é maravilhoso.

Walmir finaliza moqueca de vermelho com Unauê

Neste mês realizamos uma experiência gastronômica em casa com o Unauê e fomos bem sucedidos. Fizemos uma moqueca de vermelho do olho amarelo usando todos os temperos habituais, inclusive gengibre e a banana da terra. A novidade foi o dendê Unauê, que proporcionou sabores incríveis. Garanto que vamos repetir a prato, acrescentando outros temperos como experiência e inovação.

Walmir Rosário é radialista, jornalista e advogado, além de autor de livros como Os grandes craques que vi jogar: Nos estádios e campos de Itabuna e Canavieiras, disponível na Amazon.

Arquivo Walmir Rosário
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Walmir Rosário

Desde a segunda metade da década de 1950 que os torcedores de Itabuna e do Fluminense de nossa paróquia passaram a ter um xodó especial com um jogador, considerado a revelação e que atuou até no Itabuna Esporte Clube, nos fins da década de 1970. Bom driblador, embora sua marca maior fosse o poderoso petardo em direção ao gol. O terror dos goleiros.

Durante anos construiu sua história nos campos de Itabuna, Ilhéus, Itajuípe, Alagoinhas, Santo Amaro, São Félix, Belmonte, e onde mais a Seleção de Itabuna (amadora) jogasse. Não pense que ele não encantou a capital baiana, a Salvador dos grandes times profissionais. Em 1957 ele bagunçou as partidas nos campos da Graça e na Fonte Nova como se estivesse no quintal de casa.

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Santinho era mais que um jogador de futebol, um craque que sabia impor, ao mesmo tempo, o respeito e a admiração dos adversários. Fora de campo, um homem com amigos tantos que surpreendia até mesmo os que o conheciam. Deixou o futebol e foi cuidar dos seus afazeres profissionais em várias áreas, incluindo a Ceplac e a Tevê Santa Cruz.

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Pois é, assim era Santinho, que na vida civil levava o nome de Gilberto Silva Moura, que não se intimidava em jogar na casa do adversário, seja lá qual fosse. No dia 4 de abril de 1957 jogou a partida final do Torneio Antônio Balbino contra a Seleção de Feira de Santana, por ocasião da inauguração dos refletores do Estádio da Fonte Nova.

Jogo empatado em 1X1 e a disputa semifinal definida nos pênaltis, que seriam batidos por apenas um jogador de cada selecionado. Imediatamente o técnico da Seleção de Itabuna escolheu Santinho para bater as cobranças. Cinco penalidades batidas pela Seleção de Feira de Santana: cinco gols. O mesmo placar foi marcado por Santinho. Na segunda série, o mesmo resultado. O árbitro apita para a terceira série e Santinho marca os cinco gols, e para alegria dos itabunenses, o goleiro Carlito defende uma penalidade. Agora era a final.

Dois dias depois a Seleção de Itabuna vence a Seleção de Alagoinhas por 2X0 e o Torneio Antônio Balbino. Na tribuna de honra, autoridades das mais diversas, entre elas o governador da Bahia, Antônio Balbino, o ministro da Guerra, Marechal Lott e o presidente da República, Juscelino Kubistchek, que entregou a taça aos jogadores. Festa em Itabuna e os jogadores chegam como grandes heróis.

Alguns meses depois, fins de 1957, a Seleção de Itabuna volta a Salvador para disputar a final do Campeonato Baiano Intermunicipal contra a Seleção de Salvador. Ganha a primeira partida por 2X0, no campo da Graça, e aplica 3X1 no jogo de volta em Itabuna. Neste campeonato, num jogo bastante tumultuado em Ubaitaba, após a expulsão do goleiro Asclepíades, Santinho, com apenas 20 anos foi escolhido para concluir a partida no gol. Itabuna vence por 4X0.

Santinho na Seleção de Itabuna (em pé, o segundo da esquerda para a direita) || Arquivo Walmir Rosário

E aí Santinho não parou mais até ganhar o Hexacampeonato e estrear no Itabuna Esporte Clube profissional, em 1967. Durante todo esse período, ele se tornou um dos grandes líderes da Seleção de Itabuna. E fez por merecer todo o carinho da torcida, que vibrava com suas jogadas, seu chute certeiro que fazia tremer zagueiros e os goleiros. E não era pra menos, pois mais de uma vez seus petardos furavam as redes adversárias, literalmente.

Santinho sabia impor respeito aos adversários dentro das quatro linhas. Fora de campo, mais ainda. Ele se considerava o protetor dos colegas, principalmente dos garotos recém-chegados no time ou na seleção. Entre eles os “meninos” Bel e Lua, convocados para a Seleção de Itabuna aos 16 anos. No Fluminense, seu Astor, pai de Lua, delegou a Santinho os cuidados com o filho Lua.

Em campo não tinha medo de cara feia nem de zagueiros violentos. Resolvia tudo com sua autoridade de craque de futebol, intimidando os adversários com jogadas mirabolantes e petardos em direção ao gol, com um aproveitamento altamente positivo. Com o tempo soube utilizar sua sabedoria para jogar recuado – em todas as posições –, mesmo na defesa, aproveitando o seu conhecimento de futebol para potencializar as jogadas sem a energia física de antes.

Santinho era mais que um jogador de futebol, um craque que sabia impor, ao mesmo tempo, o respeito e a admiração dos adversários. Fora de campo, um homem com amigos tantos que surpreendia até mesmo os que o conheciam. Deixou o futebol e foi cuidar dos seus afazeres profissionais em várias áreas, incluindo a Ceplac e a Tevê Santa Cruz.

Indiscutivelmente, foi o jogador símbolo da Itabuna das décadas de 1950, 60 e 70, época em que os craques abundavam, ou melhor, como se dizia naquela época, “davam no meio da canela”. E Santinho se sobrepunha às situações ao jogar nas posições em que era escalado, com toda humildade de sua sabedoria, com a intenção de dar tudo de si pela equipe em que jogava.

Santinho nos deixou em 7 de julho de 2009, mas ainda ecoam em nossos ouvidos a voz dos narradores em suas jogadas e os gritos de gol!

Walmir Rosário é radialista, jornalista e advogado, além de autor de livros como Os grandes craques que vi jogar: Nos estádios e campos de Itabuna e Canavieiras, disponível na Amazon.

Valdemar Broxinha, com seu violão, no bar Katixa, em Una || Foto Walmir Rosário
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Walmir Rosário

Os sonhos fazem parte da vida de qualquer ser humano, isto é fato, embora possam ser diferentes, como os dedos de nossas mãos, mas existem e são guias para a formação de cada um. Apesar de não ter qualquer estudo ou formação em psicologia ou atividade afim, já presenciei muita gente abandonar os sonhos da infância e juventude e partir para caminhos diferentes.

Volta e meia somos surpreendidos com mudanças substanciais na vida de uma pessoa que enveredou por um caminho profissional e lá pra frente embica por outro, sem qualquer aviso prévio. Na carreira acadêmica não é diferente e não sei o que passa na cabeça dessas pessoas, que próximos a receberem os canudos mandam tudo pros ares, recomeçam em outro curso e se sentem felizes.

Eu não escondo a admiração que tenho pelas pessoas que desde cedo se envolvem pela carreira musical – mesmo a amadora –, pela dedicação, como se não houvesse “outro amanhã” nesse mundão de Deus. Envolvem-se com a arte de cantar ou os instrumentos musicais nas manhãs, tardes e noites com a vocação de um monge a repetir mantras sagrados com a maior tranquilidade.

Num desses sábados passados, como de costume, cheguei à casa de meu amigo e parceiro de ronda nos bares de Canavieiras, Valdemar (Araújo) Broxinha, para sairmos sem lenço ou documento. Jogaríamos conversa fora, veríamos os amigos, apreciaríamos algumas cervejas, tira-gostos de sustança, sempre ao som do violão e voz desse sonoro amigo.

O show em Camacan foi a gota d’água para Valdemar encerrar sua carreira, sob o pretexto de prejuízo nos seus afazeres profissionais na empresa em que era dirigente.

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Para minha surpresa, ele já me esperava na varanda fazendo vibrar as cordas do violão em sonoras melodias. Espantei-me, não pelo fato de tocar e cantar, mas das músicas que ora executava com total maestria, pois eram obras de Sir Charles Spencer “Charlie” Chaplin, Jr, compostas para seus filmes, e que fizeram e fazem um estrondoso sucesso em todo o mundo.

Ele dedilhava Smille, do filme Tempos Modernos; Feelings, de Morris Albert; passando por Maria Helena, cantada por Altemar Dutra; dentre outras obras de sucesso. E Valdemar somente encostou o violão para me servir uma bela cachaça, Amansa Búfalo, se não me engano. Retomou a apresentação apenas com a minha presença na plateia. Senti-me deverasmente privilegiado.

Como sou conhecedor do sentimento de Valdemar Broxinha, me conservei calado, ouvindo com atenção aos acordes sonoros do violão e sua voz suave, apaixonada pelo repertório escolhido. Nosso músico não tem nada a ver com o outro conterrâneo baiano, João Gilberto, mas também se irrita com os presentes que não respeitam a apresentação artística, mesmo em um boteco.

Nos áureos tempos da Bossa Nova e Jovem Guarda, Valdemar Broxinha, crooner da Banda Christians, de Canavieiras, era sucesso garantido em suas apresentações nas matinês, vesperais e soirées. Entre os pontos altos da banda, além do repertório e sonoridade, a impecável vestimenta de cortes bem assentados nos smokings, passeio completo e, no máximo esporte fino.

E o repertório dos Christians não ficava nada a dever aos grandes artistas nacionais e internacionais, tanto assim que ensaiavam os novos lançamentos para entregar – de pronto –, aos seus fãs. Naquela época fazia sucesso a música Meu nome é Gal e os músicos se esmeraram nos ensaios a semana inteira visando estar tinindo na apresentação de domingo em Camacan.

Mas eis que nosso artista resolveu esnobar e, sem comunicar aos integrantes da banda, se apresentaria com uma veste hippie, incluindo uma peruca com os cabelos desgrenhados como a própria Gal Costa. E a plateia não cansava de pedir o sucesso Meu nome é Gal. A banda faz uma pausa e ao retornar, entra o crooner Valdemar Araújo, com seu personagem, cantando como se fosse a própria Gal Costa.

Assim que entram no palco e começam a cantar, a plateia, atônita, inicia a apupar o personagem encenado por Valdemar, que contrastava com o restante dos músicos, estes em seus comportados ternos. Nova música, Valdemar retorna com sua vestimenta padrão e o baile segue normalmente, embora nosso crooner tenha permanecido magoado com as troças.

O show em Camacan foi a gota d’água para Valdemar encerrar sua carreira, sob o pretexto de prejuízo nos seus afazeres profissionais na empresa em que era dirigente. Agora somente tocava com os amigos. E foi justamente o amigo Batista quem resolveu reabilitá-lo na sua carreira intermunicipal, marcando com seu compadre Almir uma apresentação no conceituado boteco Katixa, na vizinha cidade de Una.

E na sexta-feira partimos para Una com a disposição de presenciar uma apresentação de Valdemar Broxinha, em alto estilo, dando a volta por cima em um show intermunicipal, após quase meio século do episódio de Camacan, a ser definitivamente esquecido. Batista, este que vos fala, o Almirante Nélson e Alberto Fiscal. Apoio moral em peso.

Reunido o público frequentador, todas as atenções eram voltadas para Valdemar Broxinha e seu violão. E ele iniciou o show com muito cuidado, se preparou com as honras da casa após umas cervejas e um mocofato de fazer gosto. Sou testemunha e dou fé que Valdemar foi sucesso absoluto, tanto assim que duas novas apresentações foram agendadas: uma em Canavieiras e a volta triunfal a Una.

Finalmente o fantasma de Camacan foi exorcizado!

Walmir Rosário é radialista, jornalista e advogado, além de autor de livros como Os grandes craques que vi jogar: Nos estádios e campos de Itabuna e Canavieiras, disponível na Amazon.

O agrônomo José Alberto de Lima
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Walmir Rosário

A vida do ser humano não se resume numa série de planos. Desde cedo os amigos e parentes começam a perguntar o que você quer ser quando chegar à fase adulta. Questionamentos fáceis, respostas difíceis, embora na maioria das vezes os pimpolhos respondam sem pestanejar: aviador, médico, motorista, engenheiro e, pasmem, até políticos.

Ainda nesta fase, não há qualquer planejamento, no sentido científico, quem sabe muitos sonhos – pensamentos – que passam pela cabeça da criança ou adolescente, geralmente o que busca se espelhar em parentes ou quaisquer outras pessoas com as quais se identifique. Quem sabe lá na frente mude de ideia ou abrace outras oportunidades. O que é natural.

E o exemplo da dedicada vida profissional transferiu para a família, da qual sempre se orgulhou, enaltecendo o convívio com a esposa, seus quatro filhos, todos bem-criados e que lhe deram sete netos. Sim, no alto dos seus 73 anos era chegada a hora de dar um tempo nas constantes viagens a trabalho, e privilegiar a família e os amigos mais chegados.

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Há quem defina como uma pessoa vocacionada, determinada pelos sonhos de criança a que abraçou a carreira com afinco. Tenho um amigo que é tal e qual o pensamento que ora descrevo. Estudou, se diplomou em engenharia agronômica em 1980 pela UFBA, trabalhou por longos 45 anos e sequer pensou em algum momento encerrar a carreira.

Alberto com a equipe de extensão de Ibicuí

Mas chega o momento em que chega a hora de desfrutar de mais descanso no seio da família, com fazem muitas dessas pessoas. Aqui cito um caso particular do meu amigo e ex-colega de trabalho, José Alberto de Lima, também conhecido como Alberto da Ceplac, jequieense que dedicou dois terços de sua vida à agronomia e ao Ministério da Agricultura.

E o exemplo da dedicada vida profissional transferiu para a família, da qual sempre se orgulhou, enaltecendo o convívio com a esposa, seus quatro filhos, todos bem-criados e que lhe deram sete netos. Sim, no alto dos seus 73 anos era chegada a hora de dar um tempo nas constantes viagens a trabalho, e privilegiar a família e os amigos mais chegados.

E Alberto colecionava amigos aos montes por onde passou. Assim que ingressou na Ceplac, lá pelos anos 1980, foi designado extensionista em Itapetinga, transferido dois anos depois para a cidade de Ibicuí, onde permaneceu por 14 anos. Em 1996, assume uma nova missão, desta vez como Auditor Fiscal do Ministério da Agricultura, em Salvador, até 1997.

Em 1998 Alberto foi transferido para Itabuna, embora prestasse seus serviços por várias cidades, a exemplo de Juazeiro e Petrolina, principalmente na inspeção de frutas para a exportação. E nesses 45 anos soube colecionar os amigos por onde passou, desde os colegas de trabalho, clientes do Mapa e os muitos vizinhos das cidades que residiu.

Allberto e colegas auditores fiscais do Mapa

Sempre foi a alegria em pessoa, distinto no trato dos colegas e desconhecidos, pronto a servir a quem dele precisasse, desde a uma simples orientação ou outro préstimo qualquer. A índole de Alberto combinava perfeitamente com a do extensionista, disposto a solucionar desafios junto aos agricultores, expondo os problemas e orientando resolvê-los.

Assim que Alberto chegava ao Clube Seac (Sociedade dos Engenheiros Agrônomos do Cacau), em Itabuna, ao refeitório da Ceplac ou qualquer bar era rodeado de colegas e amigos para um alegre bate-papo. E Alberto era – e é – sinônimo de bom humor, apropriado para contar uma boa história, levantar o astral de um amigo, as vitórias no dia a dia do seu trabalho.

Não posso deixar de citar aqui uma pequena indiscrição (no bom sentido). Sempre que convidado a participar de um encontro ou às comemorações de seu aniversário, eu observava atentamente. O anfitrião se preocupava com os mínimos detalhes sobre as preferências de cada um dos convidados, inclusive se preocupando em oferecer os comes e bebes de acordo com gostos e paladares.

Finalmente, a partir desse maio em curso, José Alberto (Alberto da Ceplac) entra em gozo definitivo dos benefícios de sua aposentadoria funcional, aos 73 anos bem vividos. Entretanto, ele continua em plena atividade no convívio da família, dos amigos, e torcendo pelo Bahia e Botafogo, times pelos quais divide sua paixão no futebol. Vida longa a Alberto!

Walmir Rosário é radialista, jornalista e advogado, além de autor de livros como Os grandes craques que vi jogar: Nos estádios e campos de Itabuna e Canavieiras, disponível na Amazon.

Os Ceplaqueanos compareceram em massa ao encontro
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Walmir Rosário

Uma das frases mais em voga nos dias de hoje é “quando o cavalo passa selado você tem que montá-lo”, dando a entender que jamais o indivíduo terá uma nova oportunidade. E isso aconteceu comigo recentemente e me nego a aceitá-la como verdade absoluta, como se eu ou qualquer outro ser humano não tivéssemos obstinação, persistência.

E esses dias eu deixei passar o tal do cavalo selado sem que pudesse montá-lo. Garanto que não se tratou de uma simples falha, incompetência, mas por motivos superiores. Não aqueles dados como desculpas esfarrapadas para não comparecer a compromissos assumidos, mas por excesso de confiança na sumida temporária da malfadada labirintite.

Eu deveria me apresentar às 11h, no Codornas Restaurante, em Itabuna, para o I Encontro dos Ceplaqueanos da Divisão de Extensão de Itabuna, nesse colóquio inaugural. Dada a sua importância, todo o planejamento realizado, bastaria me deslocar de Canavieiras com duas horas e meia de antecedência e abraçar os velhos e queridos colegas.

Missão abortada, devidamente comunicada por WhatsApp, com as devidas escusas e lamentar minha inusitada ausência, comportamento que não faz parte do meu dicionário. Mesmo impedido de estar no evento de corpo presente, mantive o compromisso moral de marcar presença mental, espiritual torcendo pelo sucesso do primeiro de uma série de eventos que prometem entrar em pauta.

 

Não fossem os programas da Ceplac, não teríamos o porto do Malhado, tal como é, os milhares de quilômetros de estradas vicinais, a maior rede de energia rural, a modernidade na telefonia, em todos os campos do conhecimento.

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Mas que os servidores da Ceplac discutiriam nesse encontro, se a instituição continua no leito de morte, sem direito a atendimento com vistas a recuperar seus áureos tempos? Tudo. O engenheiro agrônomo aposentado Luiz Ferreira da Silva anotou em seu livro “A fazenda Corumbá que virou Ciências 60 anos atrás” que a Ceplac era mais que uma empregadora, era uma religião.

Na mesma obra, Luiz Ferreira cita que seu colega e líder extensionista Ubaldino Machado movimentava sua turma por meio da palavra parceiro, em moda nos dias de hoje. Era esse o espírito de corpo implantado na instituição por Carlos Brandão e “Zé Haroldo”, incutindo em todos a chamada filosofia da solidariedade.

Do mais simples operário ao titulado cientista, a palavra colega era o tratamento adequado, pois todos deveriam agir com excelência na sua missão profissional conjunta. Do operário de campo, passando pelo motorista, escriturário, comunicador, técnico, aos profissionais mais graduados, tinham que ser os melhores. E a Ceplac disponibilizavam os meios para tal.

Cada um dos ceplaqueanos carregava consigo o dever de tornar a região cacaueira um modelo de desenvolvimento e até hoje se sentem orgulhosos com famosa sensação do dever cumprido. Ainda hoje perdura o reconhecimento regional sobre a excelente qualidade da formação e desempenho profissional dos ceplaqueanos, distinção que se estendeu por todas as regiões cacaueiras do Brasil.

Assim sendo, têm o que comemorar, comentar o dia a dia na instituição Ceplac, as lembranças das realizações, incluindo aí as dificuldades enfrentadas nas tarefas em locais inóspitos, as vitórias. A Ceplac não era uma simples empregadora, mas uma instituição reconhecida e respeitada pelos que fizeram acontecer na transformação das regiões cacaueiras da Bahia.

Para os mais novos que não puderam acompanhar a missão da Ceplac, vale lembrar que mantinha os departamentos de pesquisa, extensão, ensino técnico, e desenvolvimento atuando dentro e fora das porteiras das fazendas. Esse esforço de inovação tornou possível a implantação da Universidade Estadual de Santa Cruz (Uesc), ampliando a formação da inteligência regional.

Não fossem os programas da Ceplac, não teríamos o porto do Malhado, tal como é, os milhares de quilômetros de estradas vicinais, a maior rede de energia rural, a modernidade na telefonia, em todos os campos do conhecimento. Estrategicamente, beneficiou todos os municípios das regiões cacaueiras do Brasil, com escritórios, estações experimentais, todos tocados com o que tinha de mais inteligente e de alto poder aquisitivo no comércio.

Mas voltando ao encontro dos servidores da Divisão de Extensão de Itabuna, nada melhor que essa satisfação de bem estar pelo cumprimento das responsabilidades de antes e o reconhecimento de suas participações. Se por anos tiveram esse compromisso com a Ceplac, continuam, como sempre, com a sociedade onde vivem e são distinguidos.

E nada melhor do que viver com dignidade e alegria. No próximo estaremos juntos, parabenizando a eficiência da organização.

Walmir Rosário é radialista, jornalista e advogado, além de autor de livros como Os grandes craques que vi jogar: Nos estádios e campos de Itabuna e Canavieiras, disponível na Amazon.

Tasso Castro prepara quinto livro sobre o Fluminense do Rio de Janeiro || Montagem Walmir Rosário
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Walmir Rosário

O escritor e torcedor do Fluminense das Laranjeiras Tasso Castro está finalizando um novo projeto para presentear os tricolores de Itabuna e todo o sul da Bahia. E o novo livro tem como título – ainda provisório – Paulistas no Flu: glórias e troféus, em que mostrará a passagem dos jogadores e técnicos que nasceram em São Paulo e fizeram sucesso no tricolor carioca.

O trabalho, resultado de uma pesquisa de fôlego, demonstra que desde 1935 os paulistas são figurinhas carimbadas na trajetória do Fluminense, afastando qualquer rivalidade entre os jogadores dos estados do Rio de Janeiro e São Paulo. Nesse ano, a diretoria tricolor, de uma só vez, motivou um feito inédito ao contratar a base da Seleção Paulista.

 

E como tudo que dá certo é repetido, o Fluminense continuou se abastecendo no mercado paulista, o que não era nenhuma novidade. Nos anos 1980 vieram Assis e Vica. Nos anos 2000 chegaram Fernando Henrique, Ricardo Berna, Gabriel, Juan, Leandro, Tuta e Gum. Nos anos 2010, Rodriguinho e Deco, e nos ano 2012, Diego Cavalieri.

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E não se tratava de um elenco qualquer, e sim dos jogadores paulistas que conquistaram o Bicampeonato Brasileiro de Seleções nos anos de 1933 e 1934, atitude ímpar no futebol brasileiro daquela época. E os resultados alcançados pelo tricolor carioca foram à altura das contratações, no mesmo nível de qualquer seleção da América do Sul.

E os impactos positivos começaram a aparecer a partir de 1936, quando iniciou a conquista do tricampeonato, completado nos anos de 1937 e 1938, com muito sucesso. Embora tenha deixado escapar o tetracampeonato em 1939, o Fluminense não se abateu e voltou com supremacia, vencendo os campeonatos de 1940 e 1941, se sagrando bicampeão.

E os cartolas do tricolor das Laranjeiras voltaram a esquentar as turbinas e nos anos 1950, passaram a recrutar novos jogadores no mercado paulista, contratando os craques Marinho, Clóvis e Maurinho. O esquema voltou a funcionar e o Fluminense colecionou títulos no mundial, no Campeonato Carioca e nos disputados torneios Rio-São Paulo.

Muitos ainda se lembram de jogadores famosos e produtivos contratados nos anos 1960, a exemplo de Samarone, Cláudio, Félix (goleiro tricampeão na copa de 1970), Galhardo e Marco Antônio. Já nos anos 1970, a “importação” dos paulistas para o Flu das Laranjeiras continuaram com Didi, Ivair, Manfrini e Rivelino, contratações que mexeram com o futebol brasileiro.

E como tudo que dá certo é repetido, o Fluminense continuou se abastecendo no mercado paulista, o que não era nenhuma novidade. Nos anos 1980 vieram Assis e Vica. Nos anos 2000 chegaram Fernando Henrique, Ricardo Berna, Gabriel, Juan, Leandro, Tuta e Gum. Nos anos 2010, Rodriguinho e Deco, e nos ano 2012, Diego Cavalieri.

E a contabilidade dos troféus na sede das Laranjeiras é altamente positiva na coluna dos lucros. Dos anos 1960 a 2012, o Flu foi campeão Carioca (1969, 1971, 1973, 1975, 1976, 1983, 1984, 1985, 2005 e 2012) e campeão Brasileiro (1970,1984, 2010 e 2012) mantendo no elenco alguns jogadores ou técnicos oriundos de São Paulo, a exemplo de Tim, o estrategista, o único paulista campeão como jogador e treinador; Mário Travaglini em 1976; e Muricy em 2010.

Assim que for publicado Paulistas no Flu: glórias e troféus, Tasso Castro completará cinco publicações sobre o Fluminense do Rio de Janeiro, além de uma que abrange o Fluminense de Itabuna. Uma marca registrada nos livros de Tasso é que não somente ele relata e opina sobre o tricolor carioca, mas torcedores de todo o sul da Bahia.

E nesse novo livro não será diferente dos três últimos, em que vários torcedores escrevem um texto e expõem uma foto com a camisa tricolor. E pelo projeto, a prioridade dos textos se destina a escolher qual o jogador ou técnico paulista que ficou na memória?  Entre eles (jogadores) Félix, Galhardo, Marco Antônio, Samarone,  Manfrini, Rivellino, Assis, Diego Cavalieri ou Deco; e os técnicos Tim, Mário Travaglini ou Muricy Ramalho.

Os livros escritos por Tasso Castro são bastante ricos em informações, sempre obtidas nas fontes principais, documentadas com fotografias e reproduções dos jornais da época. Outros textos obedecem estritamente à lembrança dos torcedores, com o que ouviram e viram nas transmissões esportivas do rádio e TV, além das imagens de jogos assistidos nos estádios, guardadas na memória.

Vale a pena aguardar.

Walmir Rosário é radialista, jornalista e advogado.

Tempo de leitura: 3 minutos

 

 

Não posso deixar de contar o que acontecia com um conhecido, sem formação superior, que ao ir a instituições importantes, fazia uma ligação telefônica prévia para saber se o doutor fulano de tal (ele mesmo) já tinha chegado e deixava um pseudo recado para ele mesmo.

 

Walmir Rosário

O título de doutor enobrece aos que são distinguidos por essa forma de tratamento, não resta a menor dúvida. Entretanto não há legislação pertinente no Brasil que destine essa honraria aos diplomados (existem dúvidas). Mas no Império, a forma de tratamento de doutor aos advogados, estava na forma da lei, melhor, do Decreto Imperial de 1º de agosto de 1825, de Dom Pedro I.

E para reforçar, dois anos depois, em 11 de agosto de 1827, uma nova Lei Imperial cria os cursos de Ciências Jurídicas e Sociais em São Paulo e Olinda e introduz regulamento, estatuto para o curso jurídico; dispõe sobre o título (grau) de doutor para o advogado. Vale dizer que até hoje a validade dessa legislação é questionada, embora não haja revogação explícita ou tácita, inclusive no novo Estatuto da OAB, criado por lei.

E durante todo esse tempo as discussões sobre o título de doutor ao advogado dá o que falar, muitas vezes por ser confundido com os títulos de Doutorados Acadêmicos regidos pela Lei nº 9.394/96 (lei de Diretrizes e Bases da Educação). Sem dúvida, além de diplomado em Ciências Jurídicas (Direito), o doutor precisa estar com o registro na Ordem dos Advogados do Brasil (OAB).

Nos ambientes jurídicos, especialmente nos fóruns, esse tratamento ganha ares de sagrado, a começar pelo endereçamento de qualquer petição ao juízo, e dou um exemplo: “Exmo. Sr. Dr(a). da (…) Vara tal, da Comarca Tal)”, além do qualificado tratamento de Excelência – em todo o texto – dispensado ao magistrado. Ritual que deve ser cumprido rigorosamente.

Se no campo jurídico o doutor faz parte como exigência, o meio médico não dispensa esse tratamento. Lembro-me bem que na faculdade o acadêmico em direito começa a colocar o “trem nos trilhos” desde cedo, com as recomendações dos professores – advogados, promotores, juízes – para que os alunos se ambientem no futuro campo de trabalho.

E para ilustrar, conto aqui uma passagem verdadeira, embora me reserve ao direito de omitir os atores, no sentido de evitar qualquer constrangimento do pretérito. Muitos de nós éramos amigos de alguns professores e durante uma aula um aluno chamou o professor pelo seu nome de batismo, omitindo o sagrado tratamento de doutor, no que foi imediatamente repreendido.

– Doutor! Pode ir se acostumando por aqui, pois nos tribunais não há espaço para intimidades. Lá o tratamento é formal e a quebra desse preceito poderá causar sérios dissabores a quem infringir essa norma. Portanto, reserve esse tratamento chulo para a mesa de bar – repreendeu com sisudez o mestre.

Se no ambiente jurídico o tratamento é uma regra que extrapola as paredes dos tribunais, fora dele são vistas com desdém por algumas pessoas que afirmam ser o tratamento de doutor apenas para os que defenderam teses acadêmicas. Ledo engano, o doutor na academia está estipulado em outro diploma legal, a Lei 9.394/96 (Lei de Diretrizes e Bases da Educação).

Apesar de presente na legislação brasileira, o título de Doutor remonta a tempos antigos, o século XII, conferidos aos filósofos, a exemplo de Doctor Sapientiae, Doctor Angelicus, dentre outras denominações. E ainda existe o de Doutor Honoris Causa, concedido a personalidades de destaque (nem sempre). Há quem diga que doutor é todo aquele sabe e pode ensinar, neste caso, poderíamos incluir os mestres, especialistas e professores sem esses títulos.

Embora muitos acadêmicos não concordem, costumo dizer que teses são construídas diariamente por muitos profissionais e expostas a um público especializado, que o analisa, aprova, constrói e desconstrói, de acordo com a veracidade da peça. O advogado nos tribunais, os médicos em suas pesquisas, os jornalistas nos seus textos, os engenheiros nos projetos e materiais.

Ao tentar mostrar uma divergência corriqueira, posso ser criticado por falar asneiras num assunto de deveras importância, que exige muita pesquisa e capacidade intelectual para reunir conhecimentos e relacioná-los, argumentá-los. Acredito que se gasta muita saliva para debater qual o título de doutor que tem validade, pois todos são amparados em lei.

Não posso deixar de contar o que acontecia com um conhecido, sem formação superior, que ao ir a instituições importantes, fazia uma ligação telefônica prévia para saber se o doutor fulano de tal (ele mesmo) já tinha chegado e deixava um pseudo recado para ele mesmo. Ao chegar se apresentava à secretária, que o tratava por doutor à vista de todos e passava a informação. E ele se sentia satisfeito e feliz da vida.

Muitas vezes não há diferença entre o conhecimento intelectual e científico expostos no dia a dia pelo profissional, de um título impresso num simples cartão de visitas.

Walmir Rosário é  radialista, jornalista e advogado, além de autor de livros como Os grandes craques que vi jogar: Nos estádios e campos de Itabuna e Canavieiras, disponível na Amazon.

Tempo de leitura: 4 minutos

 

Para não deixar os leitores aflitos, perdidos numa discussão alheia, dou algumas coordenadas, informando que hoje a UFSB funciona na mesma área em que a Ceplac, hoje doente terminal. E concedo todos os méritos ao ex-diretor Juvenal Maynart em engajar a luta de abrigo na área da Ceplac, projeto ao qual me incorporei, com a finalidade de dar utilidade à área federal antes que fosse invadida.

 

Walmir Rosário

Imortalizada na voz do cantor paulista Sérgio Reis, a música Panela Velha, composta pelo Celmar de Moraes, o Moraezinho, deu o que falar e ficou famosa como um mote para vários significados. Desde a simples vasilha para preparar a comida, ou a experiência da pessoa em determinada função, muitas das vezes ditas em forma de gracejo.

Não temos como negar que é uma meia verdade se a dissermos na forma figurada, conotativa, do jeito como o povão gosta e entende. E tomo a frase para lembrar os bons tempos da Ceplac, melhor dizendo, do restaurante que a instituição manteve por muitos anos na sede da Coordenaria Regional, na rodovia Ilhéus-Itabuna.

Não tenho qualquer informação fidedigna da quantidade de refeições (almoços) que servia aos seus servidores no dia a dia. Posso assegurar que esse número passava dos dois mil, incluindo as marmitas para os operários de campo. Alimentação saudável, balanceada, conforme os estudos do pessoal da nutrição, apropriada para todas as idades e regimes de trabalho a preços subsidiados.

O velho cartão de refeições

Filas enormes eram formadas diariamente e nos admiravam os tamanhos dos pratos servidos para uma turma já conhecida e que pegava pesado. Ali comiam desde os diretores ao mais simples operário, conforme o padrão burocrático. E garanto: a comida era de boa qualidade, com cardápio que não se repetia na mesma semana. Com o sucateamento da Ceplac, o restaurante pereceu.

Esta semana soube por velhos colegas que a Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB) vai colocar em funcionamento um restaurante universitário para professores e estudantes. Animei-me com a informação, pois o local, hoje abandonado, voltaria a ter serventia, deixaria de ser um elefante branco, como são conhecidos os equipamentos públicos abandonados.

Mas como tudo o que é bom dura pouco, na sequência soube pelos colegas que não seria bem assim. A universidade iria construir um prédio novinho em folha e não aproveitaria o prédio antigo e seus equipamentos, por mais que continue imponente. De pronto achei, como os colegas, que seria uma aberração gastar nossos parcos recursos retirados a título de impostos.

Foi então que fui interpelado e questionado se meus conhecimentos técnicos e científicos seriam suficientes para analisar o aproveitamento de um prédio velho, se bem que em bom estado, para atender aos padrões de modernidade exigidos por um restaurante universitário. Quedei-me silente por instantes até recuperar a carcomida memória.

Fiz ver aos meus interlocutores que o nível dos clientes era o mesmo, pois serviria aos doutores, pós-doutores, mestres, especialistas, técnicos das mais diversas áreas, bem como outros em formação. E insisti que os clientes do futuro restaurante ganhariam muito mais com a rápida entrada em funcionamento, bastando alguns ajustes e a aquisição dos equipamentos.

Meus oponentes não deixaram por menos e voltaram a questionar quais os meus dotes nas áreas da gastronomia, nutrição, finanças, arquitetura e engenharia, me desqualificando para o debate de alto nível. Confesso que senti o golpe, mesmo assim exaltei minhas qualidades como chef de cozinha, sabendo lidar com forno e fogão, arrumação de mesas e outros tais ofícios.

Para não deixar os leitores aflitos, perdidos numa discussão alheia, dou algumas coordenadas, informando que hoje a UFSB funciona na mesma área em que a Ceplac, hoje doente terminal. E concedo todos os méritos ao ex-diretor Juvenal Maynart em engajar a luta de abrigo na área da Ceplac, projeto ao qual me incorporei, com a finalidade de dar utilidade à área federal antes que fosse invadida.

Além do mais, nada mais justo do que uma instituição do governo federal seja implantada na área ociosa da outra. Quem sabe, poderiam trabalhar em conjunto em projetos de pesquisa, aproveitando os laboratórios e o cabedal de conhecimento da Ceplac, antes que os poucos cientistas que restam se aposentem e que as informações sejam perdidas, fique no limbo.

Área e prédios não faltam, dependendo apenas de ajustes básicos para sua adequação, inclusive na cozinha e refeitório, satisfazendo todas as necessidades da universidade. De minha parte peço todas as escusas por cair de paraquedas em seara alheia, dando intrometidos pitacos, mesmo sem ter sido convidado a tecer comentários poucos interessantes.

A finalidade dos meus questionamentos, por mais que desinteressantes sejam, apenas têm o fito de dar utilidade ao conjunto de prédios daquela área, quem sabe economizando os parcos recursos públicos. Somo à minha bisbilhotice sempre gastar menos, focado na maximização das obras e a minimização dos investimentos.

Não é bem uma reclamação e sim apenas saudosismo. Quem sabe a galinha velha poderá dar um caldo melhor…

Walmir Rosário é  radialista, jornalista e advogado, além de autor de livros como Os grandes craques que vi jogar: Nos estádios e campos de Itabuna e Canavieiras, disponível na Amazon.

Garrincha em jogo da Seleção Brasileira contra a Portuguesa em 1962
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Melhor ser socorrido pelo Youtube e relembrar os bons jogos do passado, que mesmo já sabendo do resultado, voltamos a assistir com emoção.

 

Walmir Rosário

Inacreditável! A desastrada Confederação Brasileira de Futebol, mais conhecida como CBF, tenta acabar de vez com o futebol brasileiro, mas não é deixando de realizar os jogos em todo o Brasil. Não, eles escolheram um jeitinho e pretendem tornar o futebol um jogo amorfo, sem espetáculo, sem jogadas bonitas, um jogo praticado por pernas de pau ou autômatos.

Se hoje os jogos de futebol não merecem mais serem chamados de espetáculos, com raríssimas exceções, as frequentes canetadas oficiais o tornarão uma espécie de filme mudo, mas sem a graças dos grandes artistas. E essas proibições vêm sendo implantadas há anos, sob qualquer pretexto, quem sabe até globalistas. Perdoa, Pai, pois eles não sabem o que fazem.

O buraco é mais em baixo e eles sabem, sim, o que querem, e isto está largamente comprovado. De início, foram proibidos os dribles, os olés, as embaixadinhas, eliminando em campo as habilidades individuais. Agora não podem pisar com os dois pés na bola. Isso não pega bem, pois parece histórias de antigamente, quando quem mandava no jogo era o dono da bola. Ou ele jogava ou levava a bola para casa.

Sei que hoje não temos mais o Garrincha com as pernas tortas promovendo misérias em campo, fazendo os adversários de gato e sapato. Para alguns, os dribles do camisa 7 do Botafogo eram desmoralizantes, nem tanto, pois ele jogava o que sabia e mais alguma coisa. Daqui a mais um tempo os craques do futebol serão “castrados” e não poderão fazer qualquer espetáculo.

Meu saudoso amigo Danielzão, que jogou como goleiro e centroavante no futebol amador e profissional de Itabuna e Salvador, dizia há muitos anos que os cartolas e técnicos tinham a intenção de acabar a beleza e produtividade do futebol. Ele explicava que, enquanto os gringos levavam nossos jogadores para a Europa a peso de ouro, para a aprenderem nosso futebol, por aqui queríamos jogar como os gringos, sem gingas e maneios de corpo.

Não sabe – ou não quer saber – o presidente da CBF, que os “arquibaldos e geraldinos”, expressão criada pelo tricolor Nelson Rodrigues para se referir aos frequentadores das arquibancadas e geral do Maracanã, iam aos jogos para assistirem verdadeiros espetáculos. E as partidas no “Maraca” contabilizavam até mais de 200 mil expectadores, melhor, torcedores.

Duvido que alguém sairia de sua casa numa noite chuvosa ou numa tarde escaldante para assistir a uma partida de futebol maçante, sem os dribles de tempos recuados, hoje proibidos…nem pensar. Jamais veremos um lançamento de 80 metros feito pelo canhotinha Gerson, cuja bola morreria no peito do companheiro, que marcará o gol. Um espetáculo pra ninguém botar defeito, nem os adversários.

Será que a direção da CBF já assistiu aos jogos entre o Botafogo e Santos, em qualquer um deles impossível de adivinhar o placar final? Com a CBF de hoje Pelé seria ainda um jogadorzinho de várzea, por ser tolhido de protagonizar suas brilhantes jogadas. Garrincha nem entraria em campo, pois com certeza não saberia jogar o futebol burocrático pregado pelos atuais cartolas.

Hoje vale mais para a CBF os astronômicos salários dos dirigentes das federações, bem acima dos R$ 200 mil mensais, do que oferecer um espetáculo futebolístico à altura dos praticados pelos brasileiros. Ao que parece eles tentam matar a galinha dos ovos de ouro, não se contentando meter a mão somente nos ovos. Tudo indica que querem comer a galinha, e de uma só vez.

Na minha geração, bem como a dos mais novos, nos acostumávamos com os espetáculos já nos campinhos de babas próximos de nossas casas, nos entusiasmando ir às tardes de domingo ao campo da Desportiva assistir às apresentações cinematográficas dos nossos craques amadores. E digo mais: tínhamos pra mais 100, para formar seleções brasileiras superiores às de hoje.

Sou do tempo em que o futebol em campo obedecia a uma cadência musical espetacular, sem destoar das músicas tocadas pelas charangas nas arquibancadas de nossos estádios. Sou do tempo em que um jogador era escalado pelo futebol que praticava seria substituído por outro de igual qualidade. E não me arrependo, pelo contrário, me orgulho.

Não tenho receio em dizer que não perco mais o meu tempo a ver malfadados jogos da seleção brasileira com jogadores escalados pelos seus empresários, como dizem largamente representantes da imprensa brasileira. Melhor ser socorrido pelo Youtube e relembrar os bons jogos do passado, que mesmo já sabendo do resultado, voltamos a assistir com emoção.

Nesse diapasão, provavelmente chegará o tempo em que os times terão seus resultados programados para que não sofram qualquer tipo de bullying e se sintam assediados e oprimidos pelas equipes adversários. Lembrem-se, no futebol o jogador bom é aquele que provoca o jogo e intimida os adversários com gols de beleza plástica sem igual. É do futebol!

Acredito que serei classificado como um saudosista, que não conhece nada de futebol, haja vista o presidente da CBF ter sido reeleito por 100% dos presidentes de federações e dos clubes das séries A e B. Portanto, nada de reclamações. Pelo visto nunca mais assistiremos aos espetáculos com mais de 200 mil torcedores, números que minguam a cada dia. VARlei-me….

Walmir Rosário é  radialista, jornalista e advogado, além de autor de livros como Os grandes craques que vi jogar: Nos estádios e campos de Itabuna e Canavieiras, disponível na Amazon.

Dr. Érito Machado (o primeiro à esquerda acima)
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Diante do clima de velório visível na figura do prefeito, os convivas se dirigiram às suas residências sem tocar no assunto. Nem precisavam, pois a sentença lavrada pelo juiz de Direito ganhara os quatro cantos de Irecê.

 

 

Walmir Rosário

Recentemente abordei numa crônica um nosso professor de Direito Civil, Érito Francisco Machado (juiz, desembargador e presidente do TRT-BA 5ª Região), e recebi de colegas pedidos de novas histórias sobre ele. Mesmo sem ser preciso, não deixo de falar sobre seus atributos intelectuais, sua formação humanista e a independência em suas decisões.

Antes de Itabuna, aonde veio assumir a Justiça do Trabalho, foi juiz de Direito na Comarca de Irecê (BA), no final da década de 1950. E o Dr. Érito comentava que a prestação da justiça nos processos ia além dos autos, pois dependia da realidade e situação das partes. “Não posso condenar uma pequena empresa a pagar sentença absurda, fechar as portas e deixar outros 10 pais de família desempregados”, dizia.

E o juiz Érito Machado adotava uma linha de conduta rígida, a começar pelo modo de vestir, sempre social, se permitindo a tirar o paletó e arregaçar as mangas da camisa apenas quando ia à praia. Não frequentava qualquer ambiente, tampouco recebia presentes e outros mimos, obedecendo, rigorosamente, a liturgia do cargo e a educação familiar.

E ele nos contava que antes de ingressar na Justiça do Trabalho era juiz de Direito na comarca de Irecê. Reunia-se diariamente – após o expediente forense – na residência do prefeito, para um bate-papo intelectual seleto, com o padre, o diretor do ginásio, um pastor protestante, além do próprio alcaide e esporádicos convidados.

Certa feita julgou uma ação judicial que envolvia a propriedade de uma grande extensão de terras, cuja sentença foi contra os interesses do então prefeito, anfitrião diário dos encontros vespertinos. Agiu como o magistrado que era, e ao sair do fórum cumpriu seu ritual diário, para a tertúlia cotidiana com os amigos, justamente na casa da parte derrotada na ação.

Para o magistrado, nada fora da normalidade, agiu como deveria, dando o direito a quem deveria, sem o envolvimento inerente de quem detém o poder ou por causa da amizade. Chegou, abriu o portão, chegou à varanda cumprimentou os presentes e se sentou, como todos os dias, na sua cadeira favorita, conforme o ritual diário.

Todos os saudaram efusivamente, como de hábito, seguindo as costumeiras perguntas sobre o dia a dia, a exceção do anfitrião, que respondeu ao seu cumprimento com um muxoxo e sequer abriu os lábios para responder com a cordialidade de sempre. E nosso personagem cumpriu a rotina de sempre: falou sobre os assuntos mais importantes do dia e não foi respondido com a afabilidade de sempre.

De pronto, o Dr. Érito Machado desconfiou da distração do ora dissimulado anfitrião e continuou agindo como nada daquilo lhe dizia respeito. Se dirigiu à mesa, colocou gelo no copo, abriu o litro de whisky e se serviu generosamente, como costumeiramente fazia. Voltou a ocupar sua cadeira e retomou aos assuntos corriqueiros com os outros convidados.

Embora o bate-papo continuasse rolando, o clima não foi dos melhores, por parte do anfitrião, que assistia a tudo e não participava das conversas, como era do seu feitio. Não teceu críticas à falta de repasses de recursos pelos governos estadual e federal, não contou seus planos para o desenvolvimento da cidade, sua querida Irecê, como tratava.

Por volta das 19h30min, seguiram o rito mantido há anos, se despediram e prometeram retomar a discussão dos assuntos na tarde seguinte. Diante do clima de velório visível na figura do prefeito, os convivas se dirigiram às suas residências sem tocar no assunto. Nem precisavam, pois a sentença lavrada pelo juiz de Direito ganhara os quatro cantos de Irecê.

Para o prefeito a retumbante vitória na ação que se arrastava há anos, agora resolvida, seriam favas contadas. E foi o próprio alcaide quem sugeriu ao juiz que desse uma atenção especial ao processo que dormitava nos arquivos do cartório. Com toda a dedicação, o juiz Érito Machado examinou o processo e fez a justiça conforme demonstravam os fatos nos autos do processo.

Ao terminar de contar a história, o nosso professor Érito Machado dava uma verdadeira lição aos seus alunos e amigos. “O direito é pra ser concedido a quem o possui, não pode ser dado por amizade ou vendido a troco de dinheiro ou benesses. No dia seguinte, voltei à casa do prefeito, que já parecia refeito do trauma, conversamos como sempre e bebemos o nosso whisky à vontade”, finalizou a história.

Walmir Rosário é  radialista, jornalista e advogado, além de autor de livros como Os grandes craques que vi jogar: Nos estádios e campos de Itabuna e Canavieiras, disponível na Amazon.

Macarrão, beringela e pancetta substituíram o mocofato || Foto Walmir Rosário
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E de tanto planejar minhas andanças no Carnaval deste ano terminei transgredindo meus conceitos passados. Dei-me ao luxo de passear na avenida no horário vespertino, quando tomei conhecimento que existem blocos de crianças nessa parte do dia. Pelo menos fiquei longe das brigas de galeras dos trios elétricos e poupei minha cansada audição dos pornográficos “paredões”.

 

Walmir Rosário

Nunca escondi que gosto de comer bem e com alimentos de “sustança”, ainda mais quando o período exige, a exemplo das festas de longa duração, como o Carnaval, que requer redobrado vigor mental e físico, este, sobretudo. É um conceito que trago comigo há muito anos, diria até, a perder de vista. E tenho me dado bem com esse hábito.

E digo mais: pelos meus conhecimentos, não os científicos, mas os tornados de domínio público por várias gerações, é preciso repor as energias gastas na maratona carnavalesca. Afinal, a constante movimentação torna os músculos cansados, diria até fadigados, agravados, ainda mais com o consumo do xarope de cevada e outras beberagens destiladas.

E como aprendi na escola do mundo, nada melhor para combater essa fadiga do que as comidas mais energéticas, com músculos, colágenos, gorduras e outras propriedades científicas. Para tal, alimentos cozidos do tipo mocotó, fatada (ou os dois juntos), carnes ensopadas, uma boa e variada feijoada são altamente recomendadas para essas ocasiões.

Um amigo meu, dos pampas gaúchos, também recomenda a alimentação à base de churrasco com carnes malpassadas, aliadas a alguns vegetais, supimpas para recuperar a “moral” antes em baixa. Posso dizer com garantias escritas que aprovei, com algumas ressalvas, no que concerne aos vegetais, muitos deles fora do meu corriqueiro cardápio.

Faço questão de ressaltar que hoje não possuo a mesma disposição de antes. E que com o passar dos tempos a cabeça continua pensando com a mesma rapidez, mas em descompasso com os músculos. Não sei o motivo da desavença entre eles, só sei que hoje possuem conceitos ou vontades diferentes, distintos, o que não é do meu gosto.

Assim como a festa momesca mudou – para pior, acredito –, meu organismo também. Para enfrentar uma semana de intenso Carnaval, é preciso muito preparo conseguido com o auxílio da Educação Física, com malhações diárias e muito suor. E isso apenas para se preparar para a academia de lutas marciais e a defesa dos adversários atrás dos trios elétricos.

Assumo publicamente que não mais sou dotado do vigor de antes – não os necessários para as brigas –, o essencial para enfrentar as muitas horas nos blocos e nas “pipocas” avenida afora. Confesso que hoje dou preferência a locais reservados, nos quais posso me esbaldar com segurança, mantendo o nível de alegria de acordo com os padrões de mordomia.

E de tanto planejar minhas andanças no Carnaval deste ano terminei transgredindo meus conceitos passados. Dei-me ao luxo de passear na avenida no horário vespertino, quando tomei conhecimento que existem blocos de crianças nessa parte do dia. Pelo menos fiquei longe das brigas de galeras dos trios elétricos e poupei minha cansada audição dos pornográficos “paredões”.

Melhor mesmo foi me esbaldar regiamente sentado num bar com visão privilegiada para um palco onde cantores e músicos se revezavam lembrando as marchinhas carnavalescas de anos bastante recuados. Junto de nós foliões mais exaltados cortavam os céus travando inocentes guerras de serpentinas e confetes. A ameaça maior era esses artefatos carnavalescos caírem em nossos copos, que foram devidamente protegidos com bolachões de chopp.

A minha previdência em planejar tudo nos mínimos detalhes foi providencial. Ao que parece atingi em cheio, pensei, não fosse o esquecimento imperdoável no abastecimento da cozinha de casa. E só me dei conta disso no domingo à tarde, ao chegar em casa para o chamado almoço de sustança e recuperar as energias, já em frangalhos.

Minha decepção foi tamanha diante dos pratos colocados na mesa: adeus mocofato, nem sombra do ensopado de chupa-molho, nenhuma notícia do sarapatel. À minha frente, talharim com molho pesto bem recheado de parmesão; dadinhos de berinjela assados ao forno; e pancetta na airfryer. Imediatamente minha cabeça rodou para saber onde errei. Fui obrigado a reconhecer minha culpa.

Já mais calmo, abri uma cerveja e educadamente iniciei minha não esperada refeição. Juntei a fome com a vontade de comer e devorei dois pratos, sempre com o pensamento voltado para a mudança dos tempos. Não se faz mais Carnaval como antigamente, pensei alto, e ouvi minha mulher dizer com uma risadinha estampada. “Melhor rever seus conceitos”. Resignadamente, consenti.

Walmir Rosário é  radialista, jornalista e advogado, além de autor de livros como Os grandes craques que vi jogar: Nos estádios e campos de Itabuna e Canavieiras, disponível na Amazon.

Capa do livro que reúne poesias do escritor itabunense Firmino Rocha || Reprodução Walmir Rosário
Tempo de leitura: 3 minutos

 

 

Ao chegar a Itabuna em início dos anos 1960, o professor Flávio Simões foi um daqueles abordados pelo poeta Firmino Rocha, enquanto passeava com sua filha pela praça Olinto Leone. Em quase todas as tardes Flávio Simões ouvia os poemas de Firmino Rocha.

 

Walmir Rosário

Embora nunca tenhamos marcado qualquer encontro, religiosamente nos víamos, e sempre ao cair da tarde. Posso afirmar que nossos hábitos eram bem distintos em variados aspectos. Assim que terminava o expediente, eu e o famoso operador de som da antiga Rádio Clube de Itabuna, Eliezer Ribeiro (Corpinho de Leão), nos dirigíamos ao Ita Bar para tomarmos um (uns) aperitivo(s).

Aos poucos, vislumbrávamos a figura do nosso personagem cruzar a rua que separava a praça Olinto Leone, onde morava, e embocar no beco em direção ao Ita Bar. Passava rente ao saudoso castelinho, com sua pasta de couro, daquelas que os vendedores viajantes utilizavam àquela época. No interior da pasta, nada de talões de pedidos ou prospectos de publicidades. Só poesias.

Pelo caminho o ritual diário era o mesmo: cumprimentava a todos com sorrisos, algumas frases de elogios, especialmente flores para as mulheres. Essa distinção era rotineira. As pessoas que ainda não o conheciam geralmente olhavam aquela figura com desconfiança, até serem informados e certificados que se tratava de Firmino Rocha, poeta, pessoa de bem, e, para alguns, com a cabeça nas nuvens.

A indumentária era a mesma: um terno surrado, voltado para a cor cinza, às vezes com gravata, bem frouxa no pescoço e a cabeça protegida por um chapéu de baeta. Sempre com um sorriso nos lábios. Se houvesse oportunidade, abriria a maleta e pegaria os papéis soltos ou o caderno e os mostraria, declamando uma das dezenas de poesias.

Ao chegar ao Ita, sentava-se num banco junto ao balcão ou à mesa diante dos convites. Luzia, a garçonete com anos de experiência e conhecimento dos fregueses, lhe servia uma cachacinha pura ou o famoso “leite de onça”, aperitivo da casa. Engrenava a conversa, apresentava seus novos trabalhos, desfiava versos de seus novos poemas.

Nascido em 7-6-1910, à época desses nossos encontros (1964-65 em diante), Firmino Rocha, diplomado em Ciências e Letras, pouco se preocupava com o academicismo e sim com o que lhe rodeava. E assim, rodava, ou rondava Itabuna ao cair da noite, visitando bares e lanchonetes, revendo os amigos, conversando ou declamando versos.

Quem recorda bastante de Firmino Rocha é o advogado Gabriel Nunes (ex-presidente da OAB de Itabuna), muitas das vezes dos encontros na choperia e lanchonete Model, na avenida do Cinquentenário. Para Gabriel, Firmino Rocha era um poeta que quebrou os tabus e padrões da época, com um estilo eminentemente conhecido como o modernismo baiano.

E numa das viagens aos Estados Unidos, Gabriel Nunes foi visitar a sede da Organização das Nações Unidas (ONU), que exibe em seu hall uma bela homenagem a mais conhecida poesia de Firmino Rocha, “Deram um Fuzil ao Menino”, concebida por protesto à Segunda Guerra Mundial. “Assim que vi a mensagem, me senti também celebrado, pois era um grapiúna como o amigo Firmino Rocha”, declara Gabriel.

Mas como o tempo é implacável, Firmino Rocha morre aos 61 anos (1º de julho de 1971), deixando parte de sua obra publicada em jornais de Ilhéus e Itabuna e singelos livros que editou. Mas quis o tempo preparar a reabilitação do poeta itabunense em 2008, por ação do professor Flávio Simões Costa, quando diretor-presidente da Fundação Itabunense de Cultura e Cidadania (FICC).

Ao chegar a Itabuna em início dos anos 1960, o professor Flávio Simões foi um daqueles abordados pelo poeta Firmino Rocha, enquanto passeava com sua filha pela praça Olinto Leone. Em quase todas as tardes Flávio Simões ouvia os poemas de Firmino Rocha. Na FICC chegou a oportunidade de homenagear o poeta itabunense, editando o livro Firmino Rocha – Poemas escolhidos e inéditos, editado pela Via Litterarum.

O meu exemplar, autografado por Flávio Simões, é guardado como uma relíquia em local de destaque na minha biblioteca.

Walmir Rosário é  radialista, jornalista e advogado, além de autor de livros como Os grandes craques que vi jogar: Nos estádios e campos de Itabuna e Canavieiras, disponível na Amazon.

 

DERAM UM FUZIL AO MENINO

Adeus luares de Maio.

Adeus tranças de Maria.

Nunca mais a inocência,

nunca mais a alegria,

nunca mais a grande música

no coração do menino.

Agora é o tambor da morte

rufando nos campos negros.

Agora são os pés violentos

ferindo a terra bendita.

A cantiga, onde ficou a cantiga?

No caderno de números,

o verso ficou sozinho.

Adeus ribeirinhos dourados.

Adeus estrelas tangíveis.

Adeus tudo que é de Deus.

DERAM UM FUZIL AO MENINO

mineiros prestam informações em vídeo sobre o Rio Pardo || Foto Walmir Rosário
Tempo de leitura: 4 minutos

 

 

Aqui pra bandas da Bahia o povo ribeirinho do Rio Pardo ainda não abriu os olhos ou, melhor dizendo, não conseguiu convencer os governantes sobre o assoreamento do leito do rio, o fim da navegação, o sumiço dos peixes..

 

 

Walmir Rosário

A crescente preocupação com o meio ambiente vem aproximando os povos que tenham algo em comum. O que lhes unem não é o sangue, mas o que dispõem como a cultura ou meios de sobrevivência. De repente, o morador de Rio Pardo de Minas descobre que tem algo em comum com os canavieirenses, apesar dos quase 600 quilômetros de distância.

E têm: aí os moradores da nascente do rio Pardo, na Serra das Almas, em Rio Pardo de Minas (MG) e deságua em Canavieiras, após percorrer 565 quilômetros e encontrar o Oceano Atlântico. São 220 km em território mineiro e outros 345 em terras baianas. Se chove muito lá no norte de Minas essa água terá que desaguar na ilha da Atalaia, em Canavieiras.

E nesse caminho percorrido, às vezes muitos estragos são causados. Derruba casas, árvores, carrega animais, dá fim a lavouras. Certo que o mineiro não tem culpa, mesmo assim toma todas as providências para que retome a altivez de antes, quando o Pardo tinha água em abundância: pra dar e vender, como dizem. E os resultados positivos saltam aos olhos de qualquer vivente.

Aqui pra bandas da Bahia o povo ribeirinho do Rio Pardo ainda não abriu os olhos ou, melhor dizendo, não conseguiu convencer os governantes sobre o assoreamento do leito do rio, o fim da navegação, o sumiço dos peixes. Mesmo assim, o Pardo ainda é o maior habitat do robalo, pescado por caravanas do Espírito Santo, Rio de Janeiro, Goiás e até São Paulo. Levam toneladas.

A Lyra do Commercio se apresenta ao público em Canavieiras || Foto Walmir Rosário

E o Rio Pardo sempre teve uma responsabilidade muito grande com seus ribeirinhos, essencialmente no Sul da Bahia, onde banha imensos cacauais. Aliás, às margens do Rio Pardo foram plantados os primeiros cacaueiros por Antônio Dias Ribeiro, com as sementes trazidas do Pará por Luiz Frederico Warneau, isso em 1746.

Que o cacau foi e ainda é uma potência econômica da Bahia (e hoje do Brasil), todos sabem, mas poucos conhecem a importância do Rio Pardo na cacauicultura, fornecendo água e fertilizando com suas enchentes. Muitos ainda sabem esse cacau era transportado por canoas até os armazéns de Canavieiras, lembra que somente a canoa Baleia tinha capacidade de levar 200 sacas de 60 quilos (12 toneladas), além da tripulação.

Se a população de Rio Pardo de Minas se preocupa com o Rio Pardo, muitos sul-baianos têm se manifestado ao longo de anos. Nessa conta cabem o Grupo Apaixonados por Canavieiras, Tyrone Perrucho, Miguel Fróes, dentre outros. Uma dessas ações foi a Circunavegação Tyrone Perrucho, percorrendo o Rio Pardo, dando a volta às sete ilhas canavieirenses.

E foi a tenacidade de Miguel Fróes em realizar viagens em trechos do Rio Pardo, feitos em canoas e caiaques, explorando aspectos geográficos e culturais que “desaguou” nesse encontro dos povos do Rio Pardo. Na primeira tentativa, em que os canavieirenses iriam a Rio Pardo de Minas a pandemia não permitiu; feito conseguido agora com os mineiros explorando as margens do Rio Pardo por quase 600 quilômetros, montados em bicicletas.

E como o canavieirense é um grande anfitrião, Miguel Fróes moveu céus e terra para recebê-los em festa, com direito a encontro cultural e musical no Porto Grande (ou velho), justamente às margens do Rio Pardo. E os mineiros mostraram sua música de viola com Waldir Perninha; a cidade e a proteção ambiental com Felicíssimo Tiago e o Tenente Kennedy.

E Canavieiras apresentou sua fanfarra do Colégio Luiz Estadual Eduardo Magalhães (Fanec), a Lyra do Commercio, o Grupo de Percussão Ouro Negro e a Banda Mulheres do Samba. Foi uma sexta-feira (21-02) digna das festas realizadas no Porto Grande (centro histórico de Canavieiras). Neste sábado, a comitiva visitou a chegada das águas do Rio Pardo no Delta de Canavieiras e seu encontro com o Oceano Atlântico.

Em Canavieiras o Rio Pardo tomou gosto pela terra e se espalhou como quis, e continuou seu percurso em forma de V, criando dois leitos, nos quais se acomodou garbosamente. No da direita continuou sendo chamado de Pardo pelos ribeirinhos; no caminho tomado pela esquerda foi batizado como Cipó. Não contente, ao chegar perto da cidade tomou o nome de Patipe.

Ao vislumbrarem a Ilha da Atalaia, voltara a tomar forma única e, unidos num delta, o Pardo emboca na boca da barra para se juntar às águas do Oceano Atlântico. E Miguel Fróes não descansa e promete uma nova Circunavegação Tyrone Perrucho, agora ostentando o número 2, com a presença dos mineiros do Rio Pardo de Minas.

Walmir Rosário é  radialista, jornalista e advogado, além de autor de livros como Os grandes craques que vi jogar: Nos estádios e campos de Itabuna e Canavieiras, disponível na Amazon.