À esq., matéria de Jorge Amado para a imprensa carioca || Imagens Reprodução
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A riqueza gerada pela lavoura do cacau transformou Ilhéus em símbolo de modernização no interior do Nordeste no início do século 20, afirmam os professores Marcial Cotes e Elvis Barbosa, da Universidade Estadual de Santa Cruz (Uesc). No artigo Cacau, Imprensa e Urbanização: A Inauguração do Estádio Mário Pessoa, em Ilhéus, e a Repercussão Nacional, os pesquisadores constatam que os recursos da economia cacaueira financiaram obras urbanas, escolas e equipamentos esportivos que mudaram a paisagem da cidade.

Um dos símbolos desse período, afirmam, foi a construção do Estádio Mário Pessoa, inaugurado em 1940. O equipamento chamou atenção pelo tamanho e pela estrutura para a época. De acordo com o estudo, ele chegou a ser considerado “o maior estádio municipal da região Nordeste e o segundo maior do país, superado apenas pelo Pacaembu”, em São Paulo.

O crescimento urbano ocorreu em paralelo à expansão da produção cacaueira. Dados históricos citados pelos pesquisadores indicam que Ilhéus liderava a produção regional nas primeiras décadas do século 20, com área cultivada e número de cacaueiros superiores aos de cidades vizinhas, a exemplo de Canavieiras e a recém-emancipada Itabuna. Esse cenário consolidou o município como centro econômico da região e permitiu investimentos em infraestrutura urbana.

Além do estádio, a cidade recebeu obras de pavimentação, iluminação pública e construção de escolas, incluindo o primeiro ginásio municipal do interior da Bahia, o Instituto Municipal de Ensino Eusínio Lavigne, legado da gestão do prefeito que lhe dá nome, no final da década de 1930.

Para os autores, esses investimentos buscavam projetar uma imagem de progresso e concluem:

– A riqueza gerada pela monocultura cacaueira anuiu investimentos significativos em urbanização, lazer e educação.

FUTEBOL E PROJEÇÃO

O Estádio Mário Pessoa em registro de 2023 || Foto Danilo Matos/Ilhéus24h

Com a inauguração do Estádio Mário Pessoa, o futebol ganhou um templo vistoso da cidade. O estudo observa que “a monumentalidade do estádio não servia apenas para a promoção do futebol”, mas também para reforçar a imagem de desenvolvimento urbano de Ilhéus.

A imprensa também ajudou a divulgar esse momento de prosperidade. Jornais da época registraram obras e inaugurações e associaram o crescimento urbano à riqueza da região cacaueira. Essa cobertura reforçou a percepção de que Ilhéus vivia período de forte desenvolvimento econômico.

A ILHÉUS DE JORGE PARA A REVISTA CARIOCA

Numa matéria especial sobre Ilhéus para a Revista Carioca, em agosto de 1939, Jorge Amado retratou uma cidade em acelerado desenvolvimento urbano, associado à riqueza do cacau.

“As edificações caras, os jardins que se sucedem, as muitas obras em início que sempre existem, mostram ao viajante que está diante de uma cidade que tem dinheiro e trabalha”, escreveu o grande mestre da literatura.

Segundo os pesquisadores, o conjunto de obras tinha um objetivo claro: projetar Ilhéus como centro urbano moderno no sul da Bahia. A cidade buscava superar a condição de periferia regional e se apresentar como referência de progresso.

Marcial Cotes e Elvis Barbosa concluem que o ciclo do cacau foi decisivo para moldar a identidade urbana do município. Leia a íntegra do estudo publicado na revista Acervo.

Roteiros de turismo ativo une esportes à imersão na cultura regional || Fotos Elo Bike & Trips
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Caía a tarde quando a silhueta de ciclistas apareceu, em contraluz, aproximando-se lentamente da Ponta do Mutá, em Barra Grande, no litoral sul da Bahia. Esgotados, desabaram na areia em frente ao famoso Camping Lagosta Azul, onde turistas aguardavam o pôr do sol. Era o verão de 2006, às vésperas da virada do ano, a Península de Maraú estava lotada. Os aventureiros tinham saído de Ilhéus e pedalado mais de 120 km em dois dias. Um deles foi derrubado por uma insolação e precisou de 48h para se recuperar. Mesmo para jovens saudáveis, foi um perrengue daqueles.

A viagem de bicicleta de Ilhéus à Península de Maraú é uma das rotas de passeio da Elo Bike & Trips. Criada em 2019, em Serra Grande, distrito de Uruçuca, a agência promove o cicloturismo no sul da Bahia. “Nosso olhar para o turismo não é local, é regional”, explica ao PIMENTA Juliano Borghi de Mendonça, 40, fundador da empresa. Ao contrário daquele grupo de amigos ilheenses que se aventurou sem planejamento, as viagens da Elo têm outra pegada, mais contemplativa e confortável, assegura o empresário. “Sem perrengue”.

Juliano Borghi: “vi uma história a ser contada”

A Rota Península de Maraú leva oito dias, considerando a chegada e saída para quem não mora no sul do estado e desembarca no Aeroporto Jorge Amado, em Ilhéus, por exemplo. A primeira parada é em Serra Grande e a dormida, em Itacaré. O segundo dia começa com a travessia de balsa na foz do Rio de Contas, seguida por visita guiada à Ecovila Piracanga, com direito a café da manhã. A jornada continua nas piscinas naturais do Cassange. “É uma viagem com calma, cada dia uma atividade”, diz o anfitrião da Elo. A última parada é em Barra Grande.

O ritmo das atividades não exige histórico de atleta, mas, a rota na Península de Maraú é um parque de diversões para quem gosta de esporte. “Tem bike, rafting, mergulho, caminhada, canoa havaiana. É uma viagem multiesportiva para pessoas que não são atletas. As pessoas olham para esse tipo de viagem e pensam que vão pedalar o tempo inteiro. Não, é o contrário. A gente pedala, no máximo, 30 km por dia”, conta Juliano.

ROTA DO CACAU

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 Eu vi que tinha uma história muito interessante para ser contada, que é essa história do cacau e do chocolate, que pouca gente conhece no Brasil. Contar isso através de vivências ativas, pedalando, é perfeito.

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A Elo também formatou a Rota do Cacau, de sete dias. “O roteiro começa em Ilhéus. A gente dorme uma noite, as pessoas conhecem a história de Jorge Amado, da cidade, e fazem uma visita guiada ao Centro Histórico”, detalha. A parada seguinte é em Serra Grande, com três dias de visita a fazendas de cacau do entorno, antes de seguir para Itacaré.

Turistas visitam fazenda de cacau no sul da Bahia

O grupo viaja com estrutura de apoio, hospedagem em hotéis e bicicletas fornecidas pela agência. É um mergulho na cultura que, durante um século e meio, foi o principal segmento econômico da formação social do sul da Bahia.

“Eu vi que tinha uma história muito interessante para ser contada, que é essa história do cacau e do chocolate, que pouca gente conhece no Brasil. Contar isso através de vivências ativas, pedalando, é muito incrível, diferente, é perfeito, na real”, resume Juliano, recordando a ideia que deu origem à Elo.

PONTE

Cassange é um dos paraísos na Rota Maraú, que vai de Ilhéus a Barra Grande

Nascido na cidade de São Paulo, Juliano Borghi de Mendonça mora em Serra Grande desde 2013. Formado em Geografia e mestre em Conservação da Biodiversidade e Desenvolvimento Sustentável, já percorreu diversos países da América Latina de bicicleta. Na Elo Bike & Trips, uniu a formação acadêmica e a paixão pelo ciclismo em um empreendimento integrado à vocação territorial do sul da Bahia, com seu reduto da Mata Atlântica, que abriga as riquezas, contradições e identidades da civilização cacaueira.

Com as viagens, a agência aciona uma rede de prestadores de serviço e fornecedores da região. Segundo Juliano, seu trabalho não almeja protagonismo nos destinos turísticos.

– A gente só está no papel de facilitador, de ponte, porque em cada fazenda, em cada projeto que a gente vai, tem os anfitriões locais. Estou há dez anos na Bahia, mas sou paulistano. Estou só fazendo a ponte, recebendo as pessoas, fazendo essa articulação. Mas, quando a gente chega nas fazendas, quem recebe são os trabalhadores, os proprietários. São eles que contam as histórias.

Turista observa paisagem em Serra Grande || Fotos Elo Bike & Trips

A Elo Bike & Trips ganhou mais duas anfitriãs, que organizarão viagens de experiência para pessoas que não pedalam. Um roteiro vai se concentrar em cultura e cacau e outro em imersões na natureza, com práticas de meditação e rodas de conversa com as erveiras, mulheres com saberes tradicionais sobre as diferentes formas de uso da flora regional.

“Vai ter visita à Ecovila de Piracanga, uma série de atividades para as pessoas se conectarem com elas mesmas e também conhecerem a verdadeira identidade do sul da Bahia”, antecipa Juliano. Mas essa é outra história.